silva - 2005 - as relacões entre brasil e estados unidos durante o regime militar (1964-1985)

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As relaes entre o Brasil e os Estados Unidos durante o regime militar (1964-1985)Andr Luiz Reis da Silva*Resumo Este artigo analisa as relaes do Brasil com os Estados Unidos durante o regime militar brasileiro. Durante este perodo, as relaes do Brasil com os Estados Unidos passaram por oscilaes de aproximao e distanciamento. Por outro lado, essas oscilaes foram marcadas por um crescente distanciamento estratgico, buscando redefinir continuamente a dependncia brasileira. O crescente distanciamento estava associado multilateralizao da poltica externa brasileira, buscando novos espaos de insero internacional. Palavras-chave: Brasil-Estados Unidos; poltica externa brasileira; regime militar.

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esde o final do sculo XIX, os Estados Unidos foram gradual mente suplantando a Inglaterra na disputa pela hegemonia no subsistema americano, configurando o que tradicionalmente se costumou denominar de passagem da esfera da libra para a esfera do dlar. Aps a Segunda Guerra Mundial, os EUA alcanaram a hegemonia na regio, fortalecendo a aliana com o Brasil, o qual foi favorecido pelos investimentos norteamericanos. Apesar dessa aliana, o Brasil executava uma poltica externa conceituada como barganha nacionalista desenvolvida no governo de Getlio Vargas afirmando um padro diplomtico de crescente multilateralizao internacional e barganha com os EUA. O Brasil procurava demonstrar, assim, que mesmo sendo um aliado dos EUA possua um projeto prprio de desenvolvimento e de insero internacional. Para os EUA, seu principal inimigo na Amrica Latina era a oposio ao imperialismo norte-americano, articulado tanto pelo nacionalismo populista como pelos movimentos de esquerda.1 Ainda no perodo do populismo, a poltica externa dos governos Jnio Quadros e Joo Goulart marcou um distanciamento em relao potncia norte-americana. Com a radicalizao do* Professor de Histria das .aculdades Porto-Alegrenses (.APA). Mestre em Histria e Doutorando em Cincia Poltica(U.RGS). E-mail: reis_dasilva@hotmail.com1

TRIAS, Vivian. Imperialismo y Geopoltica na Amrica Latina. Montevideu: El Sol, 1967, p. 222.Cinc.let., Porto Alegre, n.37, p.251-278, jan./jun. 2005 Disponvel em:

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populismo na dcada de 1960, a opo dos EUA pela militarizao do Brasil buscava evitar que o pas sasse de sua esfera de influncia.2 No obstante, a prioridade das relaes do Brasil com o continente americano, estabelecer relaes especiais com os Estados Unidos no era uma novidade quando Castelo Branco assumiu o governo. Desde a gesto do Chanceler Rio Branco (1902-1912), o Brasil havia eleito a manuteno de boas relaes com a Amrica Latina e com os Estados Unidos como prioritrias. Somente no perodo seguinte Segunda Guerra Mundial, verificaram-se no Brasil duas experincias diplomticas marcadamente pr-americanas: o Governo Dutra (1946-1951) e o perodo que vai de agosto de 1954 quando assume Caf .ilho at meados de 1958, quando Juscelino Kubitschek (1956-1961) retoma a barganha nacionalista iniciada pelo governo Vargas. O Governo do General Eurico Gaspar Dutra foi marcado pelo alinhamento automtico do Brasil em relao aos Estados Unidos. Nesse sentido, o Brasil rompeu relaes com a URSS em 1947 e sediou a conferncia interamericana que criou o Tratado Interamericano de Assistncia Recproca (TIAR). O Governo Caf .ilho realizou um ensaio do projeto da ESG calcado no binmio segurana e desenvolvimento, que seria posteriormente aplicado no regime militar. J Juscelino Kubitschek iniciou seu governo com um plano econmico baseado numa associao estreita com o capital estrangeiro e, no nvel poltico, num alinhamento automtico com os EUA.3 A virada com retorno barganha nacionalista veio em 1958, num contexto interno de crise econmica e desemprego e de queda nas exportaes e nos investimentos estrangeiros, quando Kubitschek lana a Operao Pan-Americana (OPA). Assim, desde a dcada de 1940, o Brasil apresentava uma constante oscilao na definio das relaes com os Estados Unidos, determinada pela conjuntura nacional e internacional e pelas opes de desenvolvimento brasileiro. Essas relaes so igualmente importantes no desenvolvimento da poltica exterior do regime militar, pois elas hierarquizaram os interesses do Brasil no sistema internacional, j que seu carter define em grande parte a orientao global da poltica externa de determinado governo ou perodo. Dessa forma, o objetivo desse artigo analisar as relaes entre os EUA e o Brasil durante o regime militar, demonstrando que elas passaram por oscilaes de aproximao e distanciamento, cada vez mais marcadas pelo conflito do que pela cooperao.

VIZENTINI, Paulo. G. .. Relaes internacionais e desenvolvimento: o nacionalismo e a Poltica externa independente (1951-1964). Petrpolis: Vozes, 1995.2 3

Ibid., p. 135.Cinc. let., Porto Alegre, n.37, jan./jun. 2005 Disponvel em:

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Castelo Branco e o apoio estratgicoQuando Castelo Branco assumiu o poder, foi interrompida a poltica externa desenvolvida pelos seus dois antecessores, Jnio Quadros e Joo Goulart. Esta poltica era denominada poltica externa independente (PEI), pois denunciava o conflito entre as duas superpotncias - EUA e URSS - como sendo desfavorvel s demandas do Terceiro Mundo e pregava o no-alinhamento e o neutralismo. Os militares utilizavam a Doutrina de Segurana Nacional como substrato bsico para a formulao da poltica externa. Essa doutrina vinha sendo construda internamente pela Escola Superior de Guerra desde a sua fundao, em 1949, a partir de subsdios tericos da National War College americana. Os fundamentos dessa doutrina consistiam na associao entre segurana e desenvolvimento. Para alcanar o desenvolvimento, era necessrio obter a segurana. A segurana estava calcada na luta contra o inimigo interno e externo, identificado com o comunismo, o no-alinhamento e a crtica aos valores ocidentais. Em maro de 1964, o subsecretrio de Estado para Assuntos Latinoamericanos dos EUA, Thomas Mann, prognosticou que a defesa dos interesses dos EUA no continente deveria ser calcada na Doutrina de Segurana Nacional e, se preciso fosse, com a instaurao de regimes militares simpticos potncia norte-americana.4 No mesmo ms foi montada a Operao Brother Sam, uma operao militar norte-americana acionada no dia 31 de maro de 1964 e cancelada no dia 2 de abril, quando se consolidou o Golpe. Esta operao estava programada para o caso de haver resistncia prolongada ao Golpe e consistia no fornecimento de combustvel, e possivelmente armas aos militares golpistas. Como o novo regime se consolidou rapidamente, a operao foi cancelada.5 O apoio diplomtico norte-americano veio logo a seguir ao Golpe. No dia 2 de abril, com Joo Goulart ainda em territrio Nacional, os Estados Unidos reconheceram o novo regime. No dia 4 de abril de 1964, o Jornal do Brasil noticiava:O Secretrio de Estado norte-americano, Dean Rusk, declarou ontem [dia 2], ao referir-se crise que resultou na derrubada do Sr. Joo Goulart, que os Estados Unidos esto dispostos a colaborar com as novas autoridades brasileiras para continuar dando ao pas a ajuda necessria para seu desenvolvimento econmico e social. Declarou ainda que a Revoluo foi um processo democrtico e constitucional e de que os EUA no interferiram neste movimento, como acusa o governo de Havana.6TRIAS, Vivian. Op. cit., p. 237-239.

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Sobre a Operao Brother Sam, ver: CORRA, Marcos S. 1964- visto e comentado pela casa Branca. Porto Alegre: Ed. L &PM, 1977.

DEAN Rusk reafirma disposio dos EUA de manter a ajuda econmica ao Brasil. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 04 abr. 1964, 1 caderno, p. 08.6

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Em resposta, os militares brasileiros promoveram uma reaproximao do Brasil com os Estados Unidos, reconhecendo a liderana deste pas no hemisfrio ocidental. Na tentativa de apagar todos os vestgios deixados pela Poltica Externa Independente, os militares dispuseram-se a colaborar com os EUA na defesa hemisfrica para, assim, colocarem-se sob o seu guarda-chuva nuclear e retomar os investimentos e emprstimos americanos que haviam sido cortados no perodo da presidncia de Joo Goulart. Entretanto, o alinhamento no era to automtico quanto se apregoa. Embora as boas relaes com os EUA fossem consideradas prioritrias, verifica-se que, com o tempo, surgiram vrios pontos de desacordo nas posies dos dois pases, reflexo de ambigidades e contradies internas e externas do Brasil. O primeiro encontro de Castelo Branco com o embaixador norte-americano, Lincoln Gordon, ocorreu no palcio do Planalto no dia 18 de abril de 1964. Neste encontro, Gordon - apesar de um pouco reticente com as repercusses que a promulgao do Ato Institucional e algumas cassaes, como a do economista Celso .urtado (membro do Comit da Aliana para o Progresso), provocaram na opinio pblica norte americana - reafirmou a disposio dos Estados Unidos de apoiarem o Brasil.7 Em 30 de junho de 1964, Lincoln Gordon, recentemente chegado dos Estados Unidos, reuniu-se novamente com Castelo Branco. Neste encontro, o embaixador afirmou que Washington considerava pouco vigoroso o combate inflao no Brasil, bem como o interesse da comunidade empresarial dos Estados Unidos na reformulao da Lei da Remessa de Lucros.8 Outra questo considerada de primordial importncia para as relaes bilaterais era a soluo da controvrsia gerada pelo caso American and .oreign Power Company (AM.ORP). Um emprstimo de 50 milhes de dlares ao Brasil estava condicionado pelo governo norte-americano ao cumprimento dos acordos do Brasil com a AM.ORP. A questo das negociaes entre o Brasil e a AM.ORP havia ficado pendentes desde o governo Joo Goulart, em que este se comprometera a comprar os bens da AM.ORP por 135 milhes de dlares, mas no fora realizado. Depois