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Silenciamentos e esquecimento nas Cabanagens do Gro-Par.

Jairo de Arajo Souza*

Esta pesquisa parte de um desdobramento das leituras feitas ao longo do

curso de mestrado do programa de ps graduao linguagens e identidades

(PPGLI) na universidade federal do Acre (UFAC) sobre o papel da memria

histrica como parte de uma memria instrumentalizada e por isso reduzida em

torno de narrativas de identidade, seja esta, nacional ou regional, portanto,

factvel de generalizaes e apropriaes interessadas, por entendermos o

espao da memria como um espao dos fenmenos da linguagem e, tambm

por isso, um espao de luta pelo poder.

A tessitura de narrativas acerca dos eventos violentos que levaram morte

aproximadamente 30.000 pessoas (alguns autores falam em 40 mil)

aconteceram em um perodo de mais de uma dcada na primeira metade do

sculo XIX; envolveu toda a regio chamada de Provncia do Gro Par, um

verdadeiro continente que hoje abarca todos os estados da regio norte do

Brasil.

Do oeste do Amazonas (Humait) ao extremo leste do Par na regio do

Atlntico (Salinas) h cada vez mais relatos e pesquisas, dentro e fora do

Brasil, que apontam no apenas para uma Cabanagem, mas para vrias.

Portanto, a chamada Cabanagem ainda hoje representa um espao amplo de

pesquisa histrica sobre a regio que insistimos em marcar secularmente como

Amaznia. Talvez resida aqui tambm, no campo da linguagem, um dos

caminhos para se tirar dos silncios e da invisibilidade gentes e lugares que a

narrativas histricas atravs da letra paradoxalmente registram e tambm por

isso, apagam, geralmente, de forma seletiva e silenciadora.

Nossa proposta faz um recorte a partir da inaugurao de uma obra na entrada

da cidade de Belm, na publicao de imagens (fotos, uma pintura e cartazes)

* Mestrado em Letras pelo Programa de Ps Graduao Linguagens e Identidades da Universidade Federal do Acre (UFAC) e professor nesta instituio.

que buscam manter viva uma narrativa histrica construda em torno de ideais

de herosmo e luta de gentes narradas como cabanos.

O memorial da Cabanagem inaugurado na entrada da cidade de Belm

foi projetado por Oscar Niemeyer no governo de Jader Barbalho nos anos

oitenta do sculo XX, no perodo que ficou conhecido como o da

redemocratizao da poltica no Brasil. Era o fim da ditadura civil-militar. Nele,

se encontram os restos mortais de Antonio Vinagre, Batista Campos e Eduardo

Angelim, os nomes e homens seletivamente lembrados na narrativa histrica

oficial como cones/heris cabanos.

Foto: Jairo Souza, arquivo pessoal, julho de 2015.

Este monumento hoje se encontra cercado por viadutos, um tnel que

passa por baixo do monumento e guard-rails da BR-316 em volta, no trecho da

cidade conhecido como Entroncamento. A urbanizao m ou nada planejada

deixou-o isolado e abandonado pelo poder pblico, mas no por todos, pois

serve de abrigo para moradores sem-teto e dependentes qumicos da capital

paraense.

Acreditamos que o cenrio desse memorial em Belm hoje, evidencia

ainda mais, uma contnua apropriao dos eventos histricos, que

convenientemente moldados a uma dada conjuntura poltica, possibilita que o

Estado faa uso de seu poder institudo para transformar de maneira seletiva

determinados sujeitos em heris e outros em bandidos, reduzindo assim,

nesse caso da Cabanagem tambm, toda uma complexidade dos

acontecimentos que marcaram um momento de grandes mudanas estruturais

de conjuntura poltica no mbito local, nacional e internacional na primeira

metade do sculo XIX. Ressalto que reside aqui parte da complexidade dos

eventos ocorridos e narrados como tal, e que consequentemente aprofunda

uma narrativa redutora e homogeneizante dos espaos e suas gentes. A

singularidade dos movimentos ocorridos na ento Provncia do Gro-Par,

como por exemplo, em Acar, Cuipiranga, Santarm e Manaus, s pra citar

alguns dos lugares onde eclodiram as revoltas, ficaram reduzidos um evento

episdico, muitas das vezes tendo apenas a cidade de Belm como palco das

tenses.

Corroboramos com a tese de Lus Balkar (UFAM) que aponta para a

importncia de se revisitar o perodo, no como uma reviso/correo do

ocorrido apenas, mas de abrir espao com a investigao para ampliar nossas

percepes acerca dos lugares e das gentes que em diferentes partes da

regio se envolveram nas batalhas que vieram a ser chamadas posteriormente

de Cabanagem.

Como parte dessa problemtica e uma de suas consequncias nas

tentativas de sintetizar o ocorrido, o papel reduzido e at embranquecido dos

sujeitos que so narrados (aqui destaco a obra Motins Polticos de Antonio

Raiol que at o incio do sculo XX considerada principal referncia da

Cabanagem) como parte da tessitura de uma identidade daqueles que viviam

nas vilas e cidades, os chamados de ribeirinhos e caboclos, ndios e pretos.

No sculo XX, tambm cresce uma gradativa romantizao dos sujeitos,

geralmente acompanhada de uma narrativa unificadora de bravura e herosmo

em relao aos chamados cabanos. A tessitura de uma identidade percebida

como amaznida e mais especificamente, paraense, principalmente no caso

das imagens criadas e narrativas divulgadas em Belm do Par;

Como exemplo dessa romantizao do evento vejamos algumas

imagens produzidas dentro de uma perspectiva unificadora e de tentativa de

sntese de uma identidade, alma cabana e/ou cabano como sinnimo de

paraense e ao mesmo tempo silenciadora de outras narrativas.

Foto: Jairo Souza. Arquivo pessoal.

No livro de lvaro Martins (2012), vemos um selo de comemorao do

primeiro centenrio da Cabanagem. Na imagem, um indgena aponta sua

flecha em direo ao horizonte. uma das raras imagens publicadas em que

um indgena est associado diretamente Cabanagem, mas a referncia

reproduz apenas a imagem de um ser e (no sujeito); integrado paisagem

como parte do cenrio, desprovido de qualquer ao poltica de enfrentamento

da ordem, mas sim, de volta ao seu lugar dentro da ordem pretendida pelo

poder de Estado. Mesmo porque sua flecha apontada para o horizonte ou

mesmo pra dentro do rio. Este selo lanado em 13 de maio de 1935 faz aluso

data oficial de incio da derrocada dos chamados cabanos, ou seja, celebra a

vitria das foras imperiais lusas enviadas Belm que ocorreu em 13 de maio

de 1836, mas que manteve focos de resistncia em outras localidades como

Santarm, bidos, Baixo Tocantins e na Comarca do Rio Negro, futura

provncia do Amazonas, a cidade de Manaus.

Em 1940, Alfredo Norfini pinta o quadro O Cabano Paraense que se

encontra hoje no Museu de Artes de Belm. A obra se integra as narrativas

sobre a Cabanagem ao longo do sculo XX que enquadram os assim j

chamados de cabanos como heris e que passam a ser narrados como

exemplo de bravura e revolucionrios por autores e pesquisadores como Jorge

Hurley e Caio Prado Jr.

Fonte: blog caf histria.

No temos a pretenso de fazer uma anlise da obra, mas de apontar

para uma gradativa romantizao da imagem daqueles que fizeram eclodir as

revoltas e que acabaram sendo reduzidos de maneira uniforme em torno de

uma pretensa identidade cabana, reforando assim em muitos aspectos

esteretipos em torno dos sujeitos numa frequente necessidade de classificar

ou confina-los em torno de uma identidade unificadora de bravura e herosmo.

Alm disso, o quadro passa a figurar como referncia em vrios espaos

e ainda hoje usado por pessoas do meio acadmico, artstico, poltico e

jornalstico como uma espcie de smbolo do considerado cabano paraense.

Cito aqui dois exemplos: Edmilson Rodrigues, ex-prefeito de Belm, tambm

conhecido por ter inaugurado obras pblicas na cidade de Belm em referncia

ao evento histrico, fez uso em 2012 dessa mesma imagem em seu blog ao

publicar um texto em aluso ao 177 anos da Cabanagem, e o jornalista Lucio

Flvio Pinto publicou em 2015 uma edio de seu Jornal Pessoal intitulado

Dossi da Cabanagem tambm fazendo uso da mesma imagem.

Fonte: cabanagem180 wordpress

Em 1990, o fotografo Luiz Braga vai at a ilha de Mosqueiro e captura

com suas lentes um garoto que vende amendoim na praia da vila. A fotografia

intitulada O Vendedor de Amendoim vai ser usada 19 anos depois pelo artista

plstico Armando Queiroz na montagem da exposio Tempo Cabano. Queiroz

cria ento uma analogia entre a fotografia de Luiz Braga e o quadro de Alfredo

Norfini em sua exposio no Teatro da Paz em Belm.

Fonte: blog arte crtica wordpress.

Alm da manuteno de uma narrativa que romantiza os eventos

histricos, a exposio cria o espao para uma ressignificao do quadro e da

fotografia que juntos memria histrica, transformam objetos em artefatos

quase que sacralizados, o fenmeno da musealizao dos espaos a que se

refere Andreas Huyssen, por aqueles que viessem exposio no teatro. A

prpria disposio das imagens no alto da escadaria colocam o menino e o

cabano lado a lado como se ali estivesse representada de forma singular, a

alm