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Joo Ferreira de Almeida

Jos Madureira Pinto

Significao conotativa

nos discursos

as cincias sociaisdAps uma caracterizao global da chamada prtica

terica e das actividades de interveno epistemolgica emetodolgica, os Autores procuram centrar a especificidadedas cincias sociais ao nvel da linguagem, pensando-as nasua articulao com os sistemas das ideologias. A explicitaode alguns dos conceitos bsicos da linguistica permite a pas-sagem anlise do conceito de conotao, para o qualpropem um enquadramento terico inter disciplinar, porforma a torn-lo apto interveno operatria na deteco--denncia dos sistemas semiolgicos implicados nos discursosdas cincias sociais.

INTRODUO

1. A pratica cientfica

Em termos genricos, poder dizer-se que o nascimento e odesenvolvimento das diversas cincias so suscitados por pro-curas sociais, resultantes da necessidade de apropriao cogni-tiva e prtica do real.

O trabalho cientfico, como se sabe, agenciador de um pro-cesso de produo que desemboca num produto. Se se quiser partirdo conceito da forma geral da prtica, como actividade que seexerce sobre uma matria-prima para a transformar num produtofinal, recorrendo a determinados meios de trabalho, a caracteri-zao diferencial da prtica cientfica exigir a especificao dosdiversos elementos que a integram.

A matria-prima, objecto sobre que o trabalho terico incide,nunca constituda] pelo prprio real, por factos puros. Ela j sempre mais ou menos elaborada e inclui noes ideolgicas,intuies, teorias espontneas, factos construdos cientifica-mente em anteriores momentos, conceitos e relaes entre concei-tos, em suma, todo o tipo de informaes disponveis sobre o real.Os meios de trabalho terico passveis de utilizao sero essen-cialmente o corpo de conceitos, mtodos e tcnicas de que uma

cincia pode dispor num momento dado e que formam a teoria,em sentido amplo. O trabalho cientfico, elemento dinmico edeterminante de cada processo concreto de produo terica, di-ramos de cada ciclo terico, transformar ento, ao utilizar essesmeios, a matria-prima naquilo a que ALTHUSSER chama concei-tos especificados 1, ou seja, em conhecimentos cientficos novos2.

A realidade silenciosa/; torna-se indispensvel question-lapara produzir respostas, o que implica, para alm de outras con-sequncias, pr em causa a velha noo de dado e o modopassivo como ele se reflectiria' cognitivamente.

Dizia Gaston BACHELARD que o facto cientfico conquistado,construdo, constatado. Retomando tal ponto de vista, BOURDIEU,CHAMBOREDON e PASSERON sublinham que a hierarquia epistemo-lgica dos actos de produo cientfica impe justamente a subor-dinao da constatao construo e da construo ruptura3,demonstrando-se simultaneamente contra o empirismo e o for-malismo, e como tambm afirmava BACHELARD, que o vectorepistemolgico vai do racional ao real.

Esta perspectiva afigura-se correcta; ela resulta duma clari-ficao da filosofia diurna dos cientistas nos diversos camposdisciplinares, ou seja, da reflexo que fazem sobre as respectivasprticas efectivas de investigao e que ser forosamente racio-nalista e diferencial4.

possvel, no que respeita biologia, ir buscar uma ilustra-o em JACOB: Para que um objecto se torne acessvel anliseno basta aperceb-lo. necessrio que uma teoria esteja aptapara o acolher. Na permuta entre a teoria e ia experincia sempre a primeira que inicia o dilogo. ela que determina aforma da pergunta, e portanto os limites da resposta. 5

Tambm no outra, parece-nos, a perspectiva de JeanPIAGETV, resultante dos seus trabalhos sobre psicologia. Ao desen-volver a teoria operatria da inteligncia, ele mostra, com efeito,como a razo comea por ter de se distanciar do objecto real parao poder pensar, ao mesmo tempo que se socorre dos seus prpriosmateriais e das suas prprias leis, irredutveis s do processoreal6.

Mas a prtica cientfica pode revestir formas diversas7:transformao insensvel, sem solues de continuidade, do objecto

1 Louis ALTHUSSER, Pour Marx, Paris, Franois Maspero, 1965, p. 187.2 O facto de a teoria poder aparecer quer como matria-prima, quer

como meio de trabalho, quer como produto, implica que se trata de umelemento cujo sentido est ligado sua funo diferencial no processo eaponta para a anlise, por exemplo, dos seus diversos tipos de instrumenta-lidade interna e externa. ,

3 Pierre BOURDIEU, Jean-Claude CHAMBOREDON e Jean-Claude PASSERON,Le Mtier de Sociologue, Paris, Mouton/Bordas, 1968, p. 31.

4 Cfr. Gaston BACHELARD, Filosofia do Novo Espirito Cientifico, Edito-rial Presena, 1972, pp. 19-21.

5 Franois JACOB, La Logique du Vivant, Paris, Gallimard, 1970, p. 24.6 Cfr. Nicole GALIFRET-GRANJON, La thorie opratoire de Ia connais-

sance de J. Piaget, in La Pense, n. 152, Agosto de 1970, em especial p. 51.7 Cfr. Louis ALTHUSSER e tienne BALIBAR, Lire Ie Capital, n, Paris,

Franois Maspero, 1968, p. 21. 6If5

do conhecimento, ou, pelo contrrio, descontnua e espectacular,resultando numa mutao radical da prpria estrutura desse ob-jecto do conhecimento. Esta ltima forma define sobretudo oscasos de inaugurao de cincias novas a benefcio do que temsido chamado corte epistemolgico, com o seu efeito de rupturaem relao aos discursos ideolgicos anteriores, cuja reproduoindenuncivel, e portanto impune, fica correlativamente impossi-bilitada8, embora por hiptese perdure de facto, em termos pro-visrios, por razes extracient ficas.

Mas, se uma formao cientfica se constituiu j como tal, seoperou a transformao produtora do seu prprio objecto, elapassou a ser capaz de o reproduzir metodicamente9. Haver lugarento a transformaes-desenvolvimentos de produtos j valida-dos, j dotados de carcter cientfico e que se reintroduzem emnovos ciclos tericos, quer a ttulo de matrias-primas, quer attulo de meios de trabalho. Assim se desenvolvem processosacumulativos, acrscimos de informao, no interior do discursoterico disciplinar. Eles prprios podem, no entanto, originarnovas descontinuidades, novas mutaes da respectiva problem-tica terica, a que tem sido reservada a designao de rupturasintracientficas ou reformulaes. A maioria das vezes, o tra-balho terico no interior duma formao cientfica constitudatraduz-se, nos seus tempos fortes, no na negao-superaodas teorias anteriormente construdas, mas em englobar essasteorias, localizando-as, do mesmo passo, como casos particularesdos resultados mais potentes recm-adquiridos10.

2 O conceito de matriz terica

Em qualquer caso, o processo do conhecimento sempre umtrabalho de construo de objectos. Se tem naturalmente por hori-zonte, por ponto permanente de referncia, a realidade que visaapreender, essa realidade -lhe externa e irredutvel, preexiste aoprocesso de conhecimento e subsiste independentemente dele. Po-der ento falar-se de objectos reais-concretos, na sequncia de

8 Cfr. Michel PECHEUX e Michel FICHANT, Sobre a Histria das Cincias,Lisboa, Editorial Estampa, 1971, pp. 13 e segs.

9 Vd. Thomas HERBERT, Rflexions sur Ia situation thorique dessciences sociales et, spcialement, de Ia psychologie sociale, in Cahiers pourVAnalyse, 1 e 2, 3.a ed., pp. 162 e segs.

10 Sobre estas questes, e mais especificamente sobre o problema daalterao, nos processos cientficos, dos paradigmas, entendidos como reali-zaes cientficas universalmente reconhecidas, que durante certo tempoindicam os problemas-modelo e as respectivas solues a uma comunidadede especialistas, prope-se a leitura do estimulante livro de Thomas S. KUHNThe Structure of Scientific Revolutions, E. U. A., The University of ChicagoPress, 1962, 1970 (2.a ed., aumentada). Ver igualmente a descrio queFranois JACOB (op. cit., em especial pp. 24 e 25) faz da sucessiva descobertade novas organizaes-estruturas do ser vivo, ilustrada pela metfora dasbonecas russas, bem como a respectiva interpretao em termos de teoria da

61}6 histria da biologia.

Nicos POULANTZAS lx, para designar os objectos efectivamente exis-tentes, existentes em sentido forte, e, por isso mesmo, singu-lares e originais. O trabalho cientfico, embora vise o conheci-mento desses objectos reais-concretos, ter frequentemente deconstruir objectos abstracto-formais, sem correspondncia directana realidade e, portanto, inexistentes como tal fora do processode conhecimento, que lhe servem de mediaes, de instrumentos,para a apropriao cognitiva dos objectos reais-concretos. Essesobjectos abstracto-formais mais no so do que conceitos e rela-es entre conceitos12.

Duma disciplina cientfica constituda pode dizer-se que cor-responde, antes de mais, a um conjunto estruturado de questes,que se designa por problemtica terica. essa problemticaterica disciplinar que delimita um espao de visibilidade, quedefine as condies de aparecimento dos problemas, no percursoterico da disciplina considerada. Por outras palavras, as contra-dies que solicitam novos conceitos para delas dar conta, quepropiciam o trabalho de construo de novos objectos de conhe-cimento, s surgem, s podem surgir, dentro desse campo devisibilidade que a problemtica terica institui.

certo que o surgimento de um problema determinado porum conjunto complexo de relaes: relaes entre os conceitosdisciplinares (intracientficas); relaes entre os conceitos e osobjectos reais que eles visam apropriar (informao-observaosistemtica e controlada-validao); relaes entre o campo dis-ciplinar considerado e outros campos disciplinares (pluridiscipli-naridade e interdisciplinaridade); relaes (de determinao)entre as prticas sociais no seu conjunto e a prtica cientficaem causa. Mas a problemtica terica constitui sempre pressu-posto do surgimento dos problemas enquanto propriamente cien-tficos, mesmo se alguns deles podem ser indcio de futura des-truio dessa problemtica, se nascem contra ela e exigem a suareestruturao. Segundo Thomas KUHN13, so caractersticas detodas

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