sextante 2013.1 - independência

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A Sextante "Independência" nasceu no rebuliço. Na construção de um novo cenário. Pautas deixaram de ser revisadas em certos momentos porque os editores não podiam ficar em casa alheios ao que acontecia nas ruas do país. Repórteres desrespeitaram prazos pois estavam construindo uma nova perspectiva de participação do povo. Os alunos do Ungaretti, os feitores da Sextante, os discentes da UFRGS, os estudantes do Brasil sabiam que o seu lugar era o asfalto. A revista surgiu junto com novos paradigmas. Rogamos, apenas, que o cheiro de gás lacrimogêneo - inalado em abundância pela maioria de nós - não esteja mais pairando por aí quando tu estiveres lendo essa revista. ogamos, apenas, que o cheiro de gás lacrimogêneo - inalado em abundância pela maioria de nós - não esteja mais pairando por aí quando tu estiveres lendo essa revista. Que teus olhos lacrimejem e a respiração falte, não pela repressão policial, mas pelo prazer e emoção de compartilhar desse trabalho!

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  • Sextante

    Independncia

    2013.1

  • SUMRIOEDITORIAIS4

    MANIFESTAESEnsaio Fotogrfico

    6

    DE CABEA PARA BAIXO 12Wladymir Ungaretti

    POEMAS13Camila Maccari

    MAIS VOZES Por um Brasil Plural e DemocrticoJssica Trisch

    14

    COOJORNALUm jornal para jornalistas 20Thamiriz Amado

    JORNALISMO INDEPENDENTE 25Gabrielle Calegari

    BOLiVROS27Paola de Oliveira

    MUITO ALM DA TORRE DE MARFIM32Igor Porto

    CAMALEES37Arthur Viana

    AS DIFERENAS QUE NOS APROXIMAM 41Thays Cruz

    FALTA DE AR48Caio Semensato

    Entrevista com RONALDO LEMOS51Bruna Antunes, Douglas Freitas e Melissa Schrder

    A FESTA ALHEIA traduo do conto de Liliane Heker 59Gustavo Duarte

    RESPEITVEL PBLICO 64Priscila Daniel

    FILME, CEVA E BRASIL 70Pedro Veloso

    O JEITO GACHO INDEPENDENTE DE SERJlia Endress

    74

    FUTEBOL DE VRZEA longe da fama e ao alcance de todos

    81Iaremas Soares

    A INDEPENDNCIA DE FINANAS NA HABILIDADE DO FUTEBOL 86Fernanda Fassina

    QUANDO TUDO SE RESUME A COLHER A DOR90Rafaela Pechansky

    AS PRIMEIRAS FEMINISTAS GACHAS93Tas Castro

    CRUZANDO A FRICA NOS ANOS 1920, AOS 72 ANOS

    97

    Isabel Waquil

    DEIXE-SE SURPREENDER Aline Bernardes102

    QUANDO O MUNDO CAUSA A DEPENDNCIA DO SORRISO ALHEIO

    107Douglas Freitas

    HISTRIA, LUXO E LEMBRANAS A famlia Torelly e os casares da avenida Independncia

    117

    Priscila Mengue

    AVENIDA INDEPENDNCIAEnsaio Fotogrfico Fotos de Bruna Antunes

    123

    EXPEDIENTE 132

  • Por uma pedagogia libertria

    Paulo Freire, em uma das ltimas vezes que esteve em nossa cidade, na Usina do Gas-metro, dizia que um bom professor na vi-

    rada do sculo (est-vamos na passagem do

    sculo XX para o XXI) no deveria ter a pretenso de

    ensinar nada a seus alunos. Que um bom professor era aquele que passava pistas, ro-teiros, caminhos e possibilidades; e que cada aluno, de acordo com sua respectiva enciclopdia, se apropriaria do conhecimento necessrio. Dizia ele, tambm, em outra fala e em algum outro momento, que conhecer era um ato de afetividade. Que s aprendemos o que nos toca o corao, aquilo que representa uma desco-berta. Acrescento a estas noes que o contrrio disso a decoreba burocrtica. Minhas experincias, nos l-

    EDITORIAIS timos anos, na coordenao do jornal 3x4 e da revista Sextante, s tem-me possibilitado a confirmao de tais ideias.

    Pois esta turma me permitiu realizar um semestre com esta qualidade. Uma atividade absolutamente de sentido libertador. Por isso mesmo, a revista realizada tem o rosto destes jornalistas. Com uma das carac-tersticas essenciais da profisso: o trabalho de equipe com um sentido de um fazer jornalstico coletivo. A ningum da turma foi imposto nada. Cada um teve a participao que se sentiu capaz e mobilizado. Minhas interferncias foram da mais absoluta sutileza. Fiz-me, propositadamente, um professor no professoral.

    Todo este esprito e estes parmetros balizadores do semestre esto presentes nesse exemplar desta Sex-tante que, por essas razes, pode ser colocada entre as melhores j realizadas. Mais uma vez, s tenho a agra-decer este convvio de aprendizado fraterno com estes novos jornalistas.

    Wladymir Ungaretti

    Cada trabalhador deveria se armar e se

    preparar fisicamente para lutar. Assim defen-

    dia Carlos Marighella em busca da independncia do

    povo contra o regime militar no Brasil. No comeo dos anos 90, a banda paulista Planet Hemp usou a msica e o discurso da legalizao da ma-conha para ver at onde a liberdade ia logo aps uma ditadura. Gandhi deu, literalmente, a cara a tapa pela paz e a independncia de seu pas. Malcon X bradou que a violncia era uma metodologia de transformao e no uma barbrie gratuita. A luta pela independncia sempre foi diversificada - de acordo com cada corrente ideolgica, momento histrico e condies de manifes-tao. Cada grupo, coletivo, guerrilha tem a sua forma de batalhar pelos seus direitos. Hoje as facetas da inde-pendncia seguem sendo mltiplas, e isso que expo-mos na Sextante 2013/1. Da viajante que encontrou sua liberdade em trilhas pela frica ao livreiro caminhante que percorre Porto Alegre trabalhando. Do processo de democratizao da cultura luta pela independncia de um pas atravs da participao do povo pela Internet.

    Hora de falar da sextante Alm das lindas pautas, da diversidade de assuntos e formatos - fotos, contos, poemas - a revista vem car-regada de sentimento. De teso! A Sextante "Indepen-

    dncia" nasceu no rebulio. Na construo de um novo cenrio. Pautas deixaram de ser revisadas em certos momentos porque os editores no podiam ficar em casa alheios ao que acontecia nas ruas do pas. Reprteres desrespeitaram prazos pois estavam construindo uma nova perspectiva de participao do povo. Os alunos do Ungaretti, os feitores da Sextante, os discentes da UFR-GS, os estudantes do Brasil sabiam que o seu lugar era o asfalto. A revista surgiu junto com novos paradigmas. No sabemos o que ser do Brasil, da Turquia, da Gr-cia, do mundo quando a Sextante for distribuda, alguns meses depois do junho de 2013, quando as marchas ex-plodiram por todo o pas e a publicao foi finalizada. Rogamos, apenas, que o cheiro de gs lacrimogneo - inalado em abundncia pela maioria de ns - no este-ja mais pairando por a quando tu estiveres lendo essa revista. Que teus olhos lacrimejem e a respirao falte, no pela represso policial, mas pelo prazer e emoo de compartilhar desse trabalho!

    Comisso Editorial

  • Foto de Daniela Figueiredo

    Foto de Ariel Fagundes

    Foto de Michel Cortez

    Foto de Yamini Benites

    Belo Horizonte

    Porto Alegre

    Porto Alegre

  • Foto

    de

    Ita

    Prischt

    Foto de Ramiro Furquim

    Foto de Rafael Chervanski

    Porto Alegre

    Brasilia

    Port

    o Ale

    gre

  • Foto de Ramiro Furquim

    Foto de Ramiro Furquim

    Foto de Yamini Benites

    Porto Alegre

    Porto Alegre

    Porto Alegre

  • Sextante 2013.1 12

    nsNosso

    ns nNosso

    Nossos Desatando

    Maccari

    PoemasCamila

    cabeapara Por Wladymir UngarettiDe

    Precisamos virar o mundo de cabea para baixo. A vida est nos esperando em sucessivas rebelies. Pelas rvores, pelos animais, tarifas justas para o transporte coletivo, contra as desocupaes arbitrrias e contra a sujeira e o lixo do sistema. Menos lixo j uma rebe-lio. Sim, contra este mundo de embalagens do nada. A vida est nos esperando em praas no privatizadas. Nas montanhas e nos rios no poludos. A vida est nos esperando. S depende de ns.

    Ento, analise o mundo em volta e assuma a rebelio contra as foras que atuam em sentido contrrio sua busca por qualidade de vida. No jogo de cartas marca-das do sistema quase nenhuma diferena faz suas posi-es na poltica real. rvores sero derrubadas em qual-quer governo. Tarifas sero aumentadas em qualquer governo. O "Capital" o Deus que manda em todos eles.

    Acreditem, existe uma bru-

    tal diferena entre vida e sobrevivncia. As perguntas que temos que fazer quanta coisa real-mente viva h em nossas vidas? S descobriremos em sucessivas e ldicas rebelies, liberando nos-sa energia destrutiva e ertica nas ruas, vanda-lizando. Passamos muito tempo em lugares que so necrotrios. Lugares criados pelo sistema para nos aprisionar. Com todo o "desenvolvimento" ain-da na rua que o verda-deiro jogo jogado. Que venham novas e renova-das manifestaes.

    Os zapatistas dizem que o poder teme a fora das mscaras. Noticirios televisivos destacaram que nas manifestaes dos ltimos tempos, os vndalos es-condiam o rosto. O aparelho policial estava "enferruja-do". Fazia tempo que no distribua umas porradas para o espetculo da mdia corporativa. O sistema precisa de "paz, organizao e disciplina" para o trabalho. O van-dalismo dos protestos um resgate, mesmo que mo-mentneo, de nosso estado natural: soltos, leves, livres e criativos na destruio.

    No aceitemos sermos escravizados pelo trabalho e por um sistema de transporte caro que s acentua este "vai-e-vem" que nos coloca em circulao no mundo das mercadorias. Agora, ns podemos ser o espetculo. Um espetculo que no interessa ao sistema.

    Vndalos do mundo, uni-vos!!!!!

    de

    Foto de Ramiro Furqyun

    baixo

  • Sextante 2013.1 15

    Por Jssica Trisch

    No Brasil, a chamada mdia tradicional (rdio, tv, jornal, revista) lidera a comunicao e a informao que chega ao pblico. Algumas poucas redes e vozes con-trolam muitos desses veculos existentes no pas. Para se ter uma ideia, segundo o projeto Donos da M-dia, no Brasil existem quase 9,5 mil veculos de comunicao, mas a maioria contro-lada direta ou indiretamente por uma das cinco maiores empresas privadas: Rede Globo, Bandeirantes, SBT, Re-cord e Rede TV!.

    Mesmo com o crescimento ex-pressivo das mdias digitais, essas empresas continuam sendo as mais procuradas nas novas plataformas. O site globo.com, por exemplo, o sexto mais acessado no territrio na-cional, segundo atualizao de maro de 2013 da ferramenta Google Analytics. Esse um fenmeno j observado pelos par-ticipantes do Coletivo de Comunicao Catarse. A grande parte da populao se forma nos grandes ve-culos, inclusive os que acessam a internet. Os mesmo veculos que eles assistem, ouvem ou leem, so os que eles procuram online, afirma Jefferson Pinheiro, um dos fundadores da cooperativa.

    Para consolidar uma democracia to jovem como a do Brasil, a diversidade de discursos fundamental. No entanto, no o que vem acontecendo. As vozes alternativas que existem no pas no chegam grande massa da populao. So caladas pelas dificuldades fi-nanceiras e pela criminalizao de qualquer discurso que tente ir contra o sistema hegemnico. A regula-mentao dos meios de comunicao social, que pode-

    r