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  • 2 JUNHO/JULHO 2015

    EDITORIAL

    Sei que nada seiLus Pedro Costa SantosCoordenador Editorial

    AAlemanha um dos pases industrializados mais desenvolvidos e competitivos do mundo e detm o maior e mais importante mercado da Unio Europeia. Seria de su-por que o sucesso da sua economia remetesse para uma profuso de circuitos, chips e au-tomatismos e que essa realidade tecnolgica estivesse de certo modo inculcada no modo de ser germnico. No o que acontece. O sucesso da economia alem depende das pes-soas e, em grande parte, do trabalho que estas desenvolvem artesanalmente. A inter-veno pessoal continua a constituir um fator predominante da produo daquele pas, um saber-fazer que, boa maneira heideggeriana, no remete meramente para questes de ordem econmica, mas para uma atitude fundamental do ser humano, de amplitude histrica, implcita no seu prprio modo de ser. Ou seja, assume-se que as pessoas sero, em grande parte, as suas profisses, e isso faz com que as empresas surjam, neste con-texto, como espaos de realizao que, atravs da prtica, determinam os modos de ser daqueles que nelas desempenham funes. As suas instalaes sero, por isso, locais pri-vilegiados para a aprendizagem pelo menos o que apregoam os partidrios do ensino dual alemo. Tero, porventura, razo.Ouvi um dia de um professor que o conhecimento oscila entre dois sentidos: o fraco, como informao ou representao, e o forte, como participao ou realizao. Com efeito, ainda que o conhecimento, alicerado na vida mental, possa ter um sentido meramente informativo ou representativo, encerra em si uma inalienvel componen-te participativa, enquanto conscincia realizante, que ambiciona a experincia inte-gral. Ns somo-nos fazendo.

    Somo-nos fazendo

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    Ensino DualFormao terica e prtica

    em prol da produtividade

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    reportagem

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    Ensino dual:Quando as empresas pagam

    aos jovens para estudar

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    Bolas e mais bolas (as de Berlim, entenda-se), pes, croissants, e outras tantas iguarias pousam,

    mas no repousam (que no as deixam) nas vitrines de uma tra-dicional pastelaria berlinense. Esto ainda quentes, acabadi-nhas de sair de um forno que se encontra no se sabe muito bem onde, mas que se adivinha prxi-mo pelo agradvel cheiro a po quente. Johann Mayer, pastelei-ro e proprietrio do estabeleci-mento, confirma que tudo o que ali se v confecionado por si e pelo seu staff quatro colabora-dores ao todo, dois deles apren-dizes ainda em formao. Como pasteleiro mestre, o prprio que assegura grande parte da forma-o que eles recebem. Os outros dois so oficiais ( assim que lhes chamam na Alemanha) tm j uma certificao profissional que adquiriram tambm na empresa aps terminarem os seus cursos.A pastelaria do Sr. Mayer uma das 450 000 empresas alems que esto qualificadas para dar formao atravs do sistema dual de ensino. Deste nmero, fazem parte pequenas empresas familiares, mas tambm outras de muito maior dimenso, como a Trainico, que atua na rea da Aviao e que assume, entre outras, a formao dos apren-dizes da transportadora area Lufthansa. Independentemente da dimenso, a certificao muito bem vista socialmente, d mais estatuto, e demonstra que a em-presa slida e capaz. O sistema de ensino dual est profundamente enraizado na so-ciedade e cultura alems e no sofre contestao por parte de quaisquer partidos polticos, que veem nele um esteio para o su-cesso da sua economia, e a razo mais forte para uma das mais baixas taxas de desemprego jo-vem na Unio Europeia (cerca de 7%). Portugal (com os seus 34%) um dos pases que estuda aten-

    Na Alemanha, a taxa de desemprego jovem uma das mais baixas da Unio Europeia. Muitos creem que o sistema dual contribui fortemente para a situao. Portugal um dos pases que estuda atentamente o modelo e que tenta, aos poucos, implement-lo.

    Coordenador EditorialLus Pedro Costa Santos

    tamente o modelo e tenta, aos poucos, implement-lo.

    O que afinal o ensino dual?Segundo a UNESCO, o sistema dual de ensino assim designa-do por combinar num s curso a

    aprendizagem no seio de uma empresa e o ensino profissio-nal numa escola vocacional. Na Alemanha, por ex., 25% do tem-po total de formao dedicado instruo terica em contexto escolar; os restantes 75% so

    Centro de formao, Trainico

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    reportagem

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    aplicados no reforo dos conhe-cimentos, atravs de um perodo de prtica em contexto laboral.Experincias em pases como ustria, Dinamarca e Alemanha revelam que a forte componente prtica dos cursos permite uma aproximao dos contedos pro-gramticos s reais necessidades do mercado.Isto porque, no sistema dual, as empresas no so apenas for-madoras, intervm ativamente em estreita colaborao com Cmaras de Comrcio, Sindicatos, e Estado Federal na formulao e/ou atualizao dos contedos programticos. Por outro lado, a transferncia de competncias alivia algumas responsabilidades (e despesas) do Estado que, sem perder estatuto, se dedica quase exclusivamente a um trabalho de superviso.

    Empresas investem 24 mil mi-lhes de euros em formao to-dos os anosNo certamente por altrusmo que as empresas alems des-pendem todos os anos cerca de 24 mil milhes de euros em for-mao, contra os 5,7 mil milhes investidos pelo Estado. Fazem--no porque vantajoso. Segundo Thomas Giessler, chefe de Unida-de da Confederao dos Sindica-tos Alemes (DGB), as empresas investem uma mdia anual de aproximadamente 15 300 euros por formando, estimando-se que obtenham, logo no primeiro ano, um retorno equivalente a 75% desse investimento. Por outro lado, ao receberem for-mao ajustada realidade do mercado de trabalho em que pre-tendem ingressar, os jovens tm mais facilidade em obter empre-go o que ocorre em 95% dos ca-sos, sendo que, desses, 66% aca-bam por permanecer na mesma empresa que lhes d formao.Nas pontuais ocasies em que o Estado assume o papel de for-mador nomeadamente quando

    no existem empresas dispon-veis para ministrar os cursos , os nveis de empregabilidade bai-xam consideravelmente.Ilona Medrikat, gestora de Pro-jeto do Instituto Federal para a Cooperao Internacional na Educao e Formao Vocacio-nal (GOVET), justifica a situao com o desajuste entre as reais necessidades do mercado e os cursos que so criados: A ver-dade que, sem empresas, no h emprego. Se queremos inte-

    grar jovens nas empresas, temos forosamente de atentar reali-dade destas, s suas necessida-des. Caso contrrio, as pessoas continuaro desempregadas, in-dependentemente de serem ou no formadas. Elsio Silva, da Cmara de Comr-cio e Indstria Luso-Alem, con-corda com a anlise, e considera que esse desajuste estar, por-ventura, na origem da maioria dos problemas da formao no nosso Pas: Em Portugal, apesar

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    de termos setores que eviden-ciam uma taxa de desemprego al-tssima, as empresas continuam a ter uma enorme dificuldade em recrutar. Em sentido contrrio, sabe-se que os Estados em que existe uma interao fortemente institucionalizada entre o sistema educativo e o mercado de traba-lho apresentam nveis singular-mente baixos de desemprego.

    Como funciona, para o formando?Os cursos duram entre trs e trs anos e meio, e como grande parte da formao ocorre nas instala-es das empresas em contexto de produo, os formandos tm direito a uma remunerao, que poder oscilar entre os 270 euros de um aprendiz de cabeleireiro, e os 800 euros de um pedreiro. Por norma, a remunerao aumenta nos anos subsequentes, poden-do, no caso do ltimo, atingir os 2000 euros lquidos. Antes, porm, o jovem tem de encontrar uma empresa que se disponha a dar-lhe formao. Na Alemanha, as candidaturas so feitas atravs do preenchimento de formulrios que so disponi-bilizados nos sites das empre-sas, ou atravs do envio direto de currculos. Em mdia, um ano o tempo que demora a obter uma resposta positiva, mas os mais afortunados conseguem-na em cerca de seis meses.Ultrapassada a fase de seleo, que baseada na anlise do perfil e das notas escolares dos can-didatos, os jovens assinam um contrato de formao (bastante prximo do nosso contrato de trabalho) que os integra ativa-mente nos quadros das empre-sas. O contrato vinculativo para ambas as partes e garante, entre outras coisas, a defesa dos di-reitos dos jovens por parte dos sindicatos.No perodo em que recebem for-mao, os aprendizes dividem o tempo entre escolas vocacionais e instalaes de empresas, ad-

    quirindo conhecimentos tericos e competncias tcnicas. Findos os trs anos de formao, realiza-se um exame final es-pecfico para cada uma das 329 profisses, que testa os conhe-cimentos entretanto adquiridos. Se passar no exame, o forman-do completar ainda um perodo adicional de estgio que durar cerca de quatro meses, aps o qual obter uma certificao, re-conhecida a nvel nacional (que, ao contrrio do que acontece com a oferta profissionalizante portuguesa, no tem equivaln-cia escolar). Dada a elevada taxa de empregabilidade do sistema que ronda os 95% dificilmen-te se ver, o agora oficial, con-frontado com uma situao de desemprego.

    Comunidade Empresarial, Par-ceiros Sociais e Estado, quem faz o qu?Segundo Steffen Bayer, presiden-te da Associao das Cmaras de Comrcio e Indstria alems, o sucesso do sistema dual depende de um permanente acerto entre as necessidades do mercado e a formao que aplicada nas e pelas empresas. A estrutura que o suporta deve, por essa razo, manter-se sensvel s volubili-dades e transformaes do mer-cado, sendo que Cmaras de Co-mrcio, Sindicatos, e Estado, cada qual sua maneira, convergem esforos para que tal acontea. Qual , ento, o papel de cada um dos intervenientes?As Cmaras de Comrcio (80, em territrio alemo) aconselham e certificam as empresas, ajudam--nas a procurar aprendizes, su-pervision

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