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  • Segregao espacial e impactos socioambientais: possveis manifestaes da degradao em novas paisagens urbanas

    Fabio Sanches 1

    Luiz Roberto M. Machado 2

    Resumo

    Em decorrncia da contextualizao macroeconmica das ltimas dcadas, assistimos, no interior Estado de So Paulo h um aumento do contingente populacional em cidades de porte mdio. Tais mudanas levam a uma necessria reorganizao dos espaos urbanos, sobretudo do ponto de vista de valorizao imobiliria. Nesse comportamento, observamos a configurao de novos cenrios urbanos, com o acirramento das formas de segregao espacial. No intuito de minimizar esses e outros problemas peculiares aos processos de expanso urbana, o Plano Diretor e seus desdobramentos apresentam-se como instrumentos de organizao e planificao espacial. Como decorrncia do aumento do contingente populacional sem a devida planificao por parte dos rgos pblicos, nas margens da expanso urbana surgem problemas de ordem socioambiental. Nessa perspectiva, prope-se, neste trabalho, uma reflexo sobre a relao desses novos espaos urbanos com problemas socioambientais

    Recebimento: 25/5/2008 Aceite: 7/11/2008 1 Mestre em Cincias Ambientais, professor dos cursos de Geografia da Universidade de Taubat e do Centro Universitrio Salesiano de So Paulo: Lorena. Universidade de Taubat. Departamento de Cincias Sociais e Letras. Rua Visconde do Rio Branco, 22 centro TaubatSP. CEP. 12.020-040 E-mail: fsanches@unitau.br 2 Mestre em Cincias Ambientais, professor do curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Taubat. Universidade de Taubat. Departamento Arquitetura: Praa Felix Guizard, 120 centro TaubatSP. CEP. 12020-350. E-mail: arq_lrm@terra.com.br

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    decorrentes de um processo de segregao espacial, apontando casos dos municpios de Guaratinguet, Lorena e Taubat. Palavras-Chaves: Paisagens urbanas, Paisagens socioambientais, Planejamento Urbano.

    Local segregation and environmental impacts: possible degradation manifestation on new urban scenery

    Abstract

    Due to the macroeconomics contextualization of the last decades, weve watched, in the inner cities of So Paulo state, to a development of a populational contingent in the medium size cities. These changings make it necessary to reorganize the urban areas, even more because of the property valorization point of view. Through this behavior, we observe the configuration of new urban scenery with the increasing of the local segregation. In order to minimize these and other peculiar problems to the urban expansion process, the Director Planning and its ramifications of urban expansion are presented as instruments of local planning and organization. With the increasing of the population contingent without the right planning made by the public organs, it appears, in the urban expansion surroundings, social environmental problems. In this perspective, it is suggested, in this study, a reflection about the relation of these new urban areas with social environment problem due to a segregation urban process, showing cases of inner cities as Guaratinguet, Lorena and Taubat. Keywords: urban sceneries, social environmental sceneries, urban planning.

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    Introduo

    Indiscutivelmente, o modelo de industrializao proposto e desenvolvido no Pas, no sculo XX foi um dos responsveis, se no o mais importante, por uma srie de transformaes de ordem social, econmica, poltica, cultural e, acima de tudo, ambiental.

    A concentrao industrial nos grandes centros urbanos, sobretudo, So Paulo e Rio de Janeiro, fez com que as cidades sofressem um complexo processo de urbanizao, desenvolvido de forma acelerada e condicionado a outros fatores, como planejamento e gesto pblica. Esse processo comprometeu a qualidade dos espaos urbanos, no que se refere aos servios pblicos e prpria infra-estrutura para a populao.

    Com incentivos a uma poltica de descentralizao industrial no Estado de So Paulo, na dcada de 1980 e 1990 assistiram-se a mudanas estruturais no mdio interior do Estado, como argumenta Braga (2005). Tal processo de desconcentrao e interiorizao do desenvolvimento ocorrido nas ltimas dcadas tem implicado mudanas importantes na dinmica da rede urbana paulista, principalmente no sentido de maior urbanizao do interior e da concentrao de sua populao urbana em cidades de mdio e grande porte.

    Tais mudanas causaram significativas transformaes nas cidades de porte mdio (cidades com populao entre 100 e 500 mil habitantes), principalmente em relao ao aumento do contingente populacional desses municpios, provocando, entre diversos fatores, o que se pode chamar de impactos socioambientais.

    Um dos diversos impactos relacionados a esse aumento populacional decorrente de questes econmico-industriais diz respeito ampliao das novas reas residenciais, sobretudo as de moradias populares, visto que a maior parte dos programas habitacionais se mostra excludente das mnimas condies estruturais urbanas (bairros afastados, com transporte coletivo deficitrio, distante de centros comerciais etc.).

    Reschilian (2005) destaca que, no Brasil, o binmio, industrializao-urbanizao sustentou um processo de modernizao que excluiu a questo da terra. Os mecanismos de apropriao e ocupao do territrio e de concentrao de renda foram e so determinantes da periferizao das reas metropolitanas e de cidades mdias, cujo resultado tem sido a degradao ambiental, o aumento da desigualdade social e da violncia, caracterizando o crescente processo de segregao espacial.

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    O acirramento das formas de segregao socioespacial representa um dos traos mais expressivos da atual fase crtica da urbanizao da sociedade. Assim sendo, refletir acerca das dinmicas de segregao socioespacial significa, tambm, de certa forma, pontuar as contradies do capitalismo contemporneo (SOGAME, 2001).

    Braga (2001) destaca que o avano desordenado da urbanizao sobre o meio natural tem causado a degradao progressiva de reas de mananciais, com a implantao de loteamentos irregulares e a instalao de usos e ndices de ocupao incompatveis com a capacidade de suporte do meio. A ordenao do processo do uso e ocupao do solo do municpio, uma atividade de competncia municipal, deve ser questo prioritria numa poltica de gesto ambiental, em especial quanto disciplina do uso e ocupao do solo da zona rural, que apresenta maior fragilidade ambiental e tem sido alvo de ocupaes irregulares. Em decorrncia de dvida quanto competncia de legislar sobre questes ambientais, os municpios tm-se omitido quanto a providncias necessrias na zona rural.

    Quanto competncia do Municpio em regulamentar a ocupao e o uso da Zona Rural, surgem discusses como as de Ceneviva (1991), que indicam mais claramente caminhos a serem adotados pela Administrao Municipal para elucidar a questo:

    No porque o territrio municipal se divide, para fins tributrios, em Zona Urbana e Zona Rural, que os Poderes Municipais no atuam sobre ele. Ou seria o Brasil um mar rural (Gerido pela Unio) salpicado de ilhas urbanas (Geridas pelas Prefeituras)?

    O Estatuto das Cidades mostra-se como o instrumento bsico da

    poltica municipal de desenvolvimento e expanso urbana, e tem como objetivo ordenar o pleno desenvolvimento das funes sociais da cidade e garantir o bem-estar de seus habitantes.

    Stipp e Stipp (2004) salientam que os problemas ambientais que surgem em uma cidade so sempre decorrentes do uso e da apropriao indevida do espao pelo homem, que no se preocupa com a preservao do seu meio ambiente.

    Uma das grandes preocupaes frente ao modelo de organizao espacial manifesta-se em como se configurariam as novas paisagens urbanas em funo do aumento populacional. Que condies de infra-estrutura de servios (pblicos e privados) tal contingente populacional encontraria e quais possveis cenrios futuros seriam criados a partir dessas transformaes para atender tal demanda?

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    Espera-se, com este trabalho, despertar uma srie de discusses, levantando algumas das principais variveis diretas e indiretas relacionadas configurao dessas novas paisagens urbanas e de seus possveis impactos socioambientais. Para isso, as anlises preliminares tomam como objeto central a anlise e discusso de elementos dessa expanso urbana nos municpios de Guaratinguet, Lorena, e Taubat, no Estado de So Paulo.

    A anlise da paisagem como instrumento de reflexo

    A noo de paisagem est presente na memria do ser humano antes mesmo da elaborao do seu conceito. Maximiliano (2004) aponta que a idia embrionria sobre a paisagem sempre existiu e sempre se baseou na observao do meio. As expresses dessa memria e da observao podem ser encontradas nas artes e nas cincias das diversas culturas, que retratavam inicialmente elementos particulares, como animais selvagens, um conjunto de montanhas ou um rio. A autora destaca que possvel encontrar uma anlise histrica, e porque no dizer, at mesmo pr-histrica, do estudo dos conceitos de paisagem: desde as pinturas rupestres francesas (Lascaux) e do norte da Espanha como as primeiras concepes conscientes de humanos a respeito da paisagem (30 mil e 10 mil anos a.C.), passando pela antiguidade, com os egpcios da IV dinastia (2500 a.C.) e os mesopotmios, com seus jardins ornados, pavilhes, celeiros e

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