Se - 12 - Maria Aparecida Affonso Moyses - Participante

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A MEDICALIZAO NA EDUCAO INFANTIL E NO ENSINO FUNDAMENTAL E AS POLTICAS DE FORMAO DOCENTE A medicalizao do no-aprender-na-escola e a inveno da infncia anormal MOYSS, Maria Aparecida Affonso1 UNICAMP Ser necessrio que a medicina tome como seu objeto todas as esferas possveis da vida humana, regendo-as e normatizando-as, para que a aprendizagem seja includa, legitimamente, pelos campos, de saber e de atuao, mdicos. Atribuindo a si prpria no mais o estudo das doenas, mas o estudo e a definio da normalidade, a medicina se atribui todo o universo de relaes do homem com a natureza e com outro homem, isto , a vida. Legislando sobre hbitos de alimentao, vesturio, habitao, higiene, aplica a esses campos a mesma abordagem empregada frente s doenas. Adotando um discurso genrico, aplicvel a todas as pessoas, porque neutro, apia-se na invarincia da determinao biolgica do homem e na pretensa invarincia das relaes que ela prpria, a medicina, estabelece com cada homem, ou grupo de homens, em particular. Com o consentimento da sociedade, que delega medicina a tarefa de normatizar, legislar e vigiar a vida, esto colocadas as condies histricas para a medicalizao da sociedade, a includos comportamento e aprendizagem. Embora o discurso mdico aponte as condies insalubres de vida como causas de doenas e epidemias, tambm abole as condies de vida concretas de cada pessoa, sua insero social e nos modos de produo. Abole, ainda, as particularidades de cada um; preciso abolir as particularidades, o subjetivo, a impreciso, para que o pensamento racional e objetivo se imponha. No se esquea que o discurso mdico, nesse momento - alis, o discurso cientfico, em qualquer momento - est afinado com as demandas dos grupos hegemnicos. Ao capitalismo que surgia, as desigualdades sociais constituam tema a ser omitido dos fatores determinantes, transformado em determinado. As transformaes polticas e econmicas que ocorrem na fase inicial do capitalismo demandam transformaes tambm nas formas de se organizar a vida das pessoas e, mais ainda, nas formas de pensar essa organizao. necessria uma nova

Este texto foi produzido em co-autoria com a Professora Ceclia Azevedo Lima Collares Professora Livre-Docente em Psicologia Educacional, Faculdade de Educao da UNICAMP (aposentada). 1 Professora Titular em Pediatria, Depto de Pediatria, Faculdade de Cincias Mdicas da UNICAMP.

conformao de sociedade e de famlia, antecedendo o advento do capitalismo para que a nova ordem poltica e social se estabelea. Essa nova concepo de famlia ser estruturada por pregaes moralistas, que enaltecero a nova ordem. De grandes agregados familiares, com diviso, e conseqente diluio, de responsabilidades, evolui para a famlia que conhecemos. Entenda-se que, sem entrar no mrito de suas qualidades e defeitos, sem especular sobre como poderia ser, esta a organizao de famlia adequada e necessria consolidao de uma nova ordem poltica e econmica. Nesse novo contexto, nessa nova famlia, constri-se a concepo de infncia. At a, tambm a criana no existia conforme a conhecemos hoje. (Aris, 1978; Donzelot, 1980) As transformaes demandam ainda uma nova forma de ocupao do espao fsico, surgindo as cidades, com novos problemas, destacando-se, desde o incio, as doenas, agora com propagao amplificada, porque facilitada pelas urbes e pelas trocas comerciais. A preocupao com as doenas interpe-se necessidade de construir o papel da criana, resultando no surgimento do movimento que viria a ser conhecido por puericultura. Atribuindo as doenas ignorncia da populao, tem por objetivo bsico ensinar. Ou, em suas prprias palavras, civilizar os novos brbaros. E centra suas orientaes sobre a figura da criana. (Boltansky, 1974) Nessa maneira de pensar o processo Sade/Doena, no h espao para determinantes como polticas pblicas, condies de vida, classe social. A ignorncia seria a grande responsvel pelas altas prevalncias de doena. Da, a soluo s poderia ser pelo ensino. A medicina exercer seu papel normatizador com grande eficincia, difundindo idias que perduram at hoje, inclusive na formao de profissionais. Em que momento se fecha o raciocnio circular, tautolgico, para ter sade preciso ter conhecimentos e para aprender preciso ser sadio e seu reverso, a causa da doena a ignorncia e a causa de no aprender a doena? Impossvel precisar, porm sem dvida modo de pensar a sociedade e seus problemas presente j no incio da puericultura. Se a medicina, desde suas origens, cumpre o papel social de normatizar a vida de indivduos e de grupos sociais, a partir da consolidao do capitalismo passa a fazlo em maior intensidade e com mais eficincia. Segundo Ceclia Donnangelo,2

(...) a redefinio da medicina como prtica social aparece j marcadamente no sculo XVIII, atravs de sua extenso institucionalizada para o mbito de toda a sociedade, permeando o processo poltico e econmico de forma peculiar. No o cuidado mdico que ento se generaliza e sim o que se poderia considerar, de maneira aproximada, uma extenso do campo de normatividade da medicina atravs da definio de novos princpios referentes ao significado da sade e da interferncia mdica na organizao das populaes e de suas condies gerais de vida. (Donnangelo, 1976: 47)

No sculo 19, a medicalizao da sociedade expressava-se pela interferncia direta e explcita do Estado na vida das pessoas, em todos seus aspectos. Foucault (1977) afirma a medicina moderna, que nasce no final do sculo 18, como medicina social, porque prtica social, que tem por fundamento uma tecnologia do corpo social. O capitalismo, que se desenvolve em fins do sculo XVIII e comeos do XIX, socializou um primeiro objeto, que foi o corpo, em funo da fora produtiva, da fora laboral. O controle da sociedade sobre os indivduos no se opera simplesmente pela conscincia ou pela ideologia, mas se exerce no corpo, com o corpo. Para a sociedade capitalista, o importante era o biolgico, o somtico, o corporal, antes de tudo. O corpo uma realidade biopoltica; a medicina uma estratgia biopoltica. (Foucault, 1977: 5; traduo pessoal)

A normatizao da vida tem por corolrio a transformao dos problemas da vida em doenas, em distrbios. A, surgem, como exemplos atuais, os distrbios de comportamento, os distrbios de aprendizagem, a doena do pnico e os diversos e crescentes transtornos. O que escapa s normas, o que no vai bem, o que no funciona como deveria... Tudo transformado em doena, em problema biolgico e individual. A medicalizao fruto do processo de transformao de questes sociais, humanas, em biolgicas. Aplicam-se vida as concepes que embasam o determinismo biolgico, tudo sendo reduzido ao mundo da natureza. A pessoa passa a ser vista apenas como corpo biolgico. No o seu corpo, mas um corpo, genrico e abstrato. A aprendizagem torna-se um dos elementos constitutivos desse corpo biolgico, em pensamento reducionista, que pretende tomar o3

todo pelas partes. Se parte de um corpo biolgico, a aprendizagem ser, tambm, olhada como algo biolgico. Abstrata, genrica e biolgica. A aprendizagem, assim como a inteligncia e o comportamento, apreendida como objeto inato, abstrato. Abstrado e independente do prprio sujeito, que passa a ser, apenas, elemento de perturbao. Entidades abstratas, a que se tem acesso direto, pela identidade absoluta, sem excessos e sem resduos, entre significante e significado. Transformada em elemento de um corpo biolgico um corpo a ser silenciado para que a clnica possa debruar seu olhar sobre ele, tambm a aprendizagem e, principalmente, a no-aprendizagem ser tomada, em processo de abstrao, por objeto biolgico a ser silenciado, para que o olhar clnico possa se efetivar com toda sua racionalidade e objetividade. (Moyss e Collares, 1997) Ao tomar para si todo o campo das relaes humanas, a medicina os olhar, ora pelo lado da sade, ora pelo lado da doena. Esse constante movimento de idas e vindas uma das caractersticas da instituio medicina, a de poder se mover por um campo de amplitude infinita, dada exatamente pelo fato de definir seu objeto pelo par de opostos sade-doena (Guilhon de Albuquerque, 1978). Da proposio inicial, de normatizar, legislar e vigiar o cumprimento das normas preconizadas para garantia da sade e da aprendizagem saudvel, um rpido giro do olhar possibilitar a criao das doenas da aprendizagem, ou melhor, as doenas do no-aprender. A partir da, desses movimentos de ajuste de foco do olhar clnico, as atividades de classificar, pelo diagnstico, e de diagnosticar, pela classificao prvia, questes que no se inscreviam no campo da medicina sero incorporadas ao ato mdico, sem conflitos. Aprendizagem, comportamento, inteligncia so apenas exemplos de questes que so incorporadas ao pensamento e atuao mdicos. Junto a essas categorias, quase que com o objetivo de articul-las, surgem as aptides, a expresso mais inequvoca do iderio de determinismo gentico das condies de vida e do acesso a bens materiais e no-materiais produzidos pela sociedade. A crtica que Bisseret faz, ao discutir os pressupostos ideolgicos dos significados histricos das aptides, desconstruindo esse conceito, extensvel s demais categorias. Aps a Revoluo Francesa (...) a noo de aptido serve progressivamente de suporte para justificar a manuteno das desigualdades sociais e das4

desigualdades escolares que as traduzem e perpetuam. Como a nova sociedade e as instituies escolares so colocadas como igualitrias, a causa das desigualdades s pode ser atribuda a um dado natural. (...) A histria da palavra aptido, sua apropriao por um ramo da psicologia e a freqncia crescente de sua utilizao nos projetos de reforma do ensino e na linguagem corrente permitiro apreender como essa palavra se tornou o suporte e o veculo de uma ideologia nascida no sculo XIX e ainda agora eficiente. (Bisseret, 1979: 31)

O comportamento ser o primeiro, entre as categorias mencionadas, a ser tomado como objeto biolgico. Sua precedncia perfeitamente previsvel, pois, em um tempo em que a escolarizao destinada exclusivamente s classes da elite, o comportamento desviante j constitui um problema a ser controlado. E a definio do comportamento desviante, ou anormal, ser feita pela oposio ao modelo de homem saudvel, ou homem mdio, estatisticamente definido. A normalidade estatstica, definida por freqncias e um raciocnio probabilstico, no por acaso coincidente com a norma socialmente estabelecida, transformada em critrio de sade e doena. Por meio dessa atuao normatizadora da vida, dessa concepo biologizada do viver, a medicina assume, na nova ordem social que surge, um antigo papel. O controle social dos questionamentos, at ento exercido pela religio. At o advento da cincia moderna, a legitimao da segregao dos que incomodavam foi sustentada pela religio, responsvel pela definio da maioria dos critrios que permitiam identificar os que deveriam ser excludos do convvio social. Com o estabelecimento do estatuto de cincia das cincias biolgicas e, mais especificamente, da medicina, os critrios religiosos passaram a ser substitudos por critrios oriundos da rea mdica. No incio, foi no campo da psiquiatria, logo secundada pela neurologia, que surgiram os diagnsticos, que legitimavam e at mesmo prescreviam a segregao. Segundo Franco Basaglia, psiquiatra italiano que revolucionou as teorias e prticas da psiquiatria, no se distinguia, no incio, doentes de criminosos, alienados de delinqentes. Os muros da priso circunscreviam, continham e ocultavam o endemoniado, o louco, como expresso do mal involuntrio e irresponsvel, junto ao5

delinqente, expresso do mal intencional, voluntrio. Alienao e delinqncia representavam, assim, conjuntamente, a parte do homem que devia ser eliminada, circunscrita e ocultada at que a cincia no decretasse a clara separao entre ambas, atravs da individualizao de suas caractersticas especficas. (Basaglia, 1986: 74)

No mais possudos, mas loucos, epilpticos... Delinqentes no lugar de endemoniados... Assim se inicia o processo de medicalizao do comportamento humano. Transformando em objeto biolgico algo social e historicamente construdo. Reduzindo a prpria essncia da historicidade do objeto a diferena, o questionamento a caractersticas inerentes ao sujeito-objeto, inatas, biolgicas; a uma doena, enfim. A partir desse momento, o processo de medicalizao da sociedade, transformando questes sociais em biolgicas, como reflexo da extenso da normatividade da medicina, tornar-se- bastante freqente.2 Mas, voltemos ao incio do processo de medicalizao da aprendizagem. Na transio entre os sculos 19 e 20, j existem as condies histricas para que a medicina tome para si, por seu objeto, a aprendizagem. O olhar clnico pode agora se debruar sobre o aprender e, principalmente, sobre o no-aprender. E o far guiando o olhar pelo mesmo iderio usado desde seu incio, bem discutido por Foucault (1980). Afirmando a existncia das doenas do no-aprender (aliadas s doenas do comportamento), colocar-se- como capacitada a resolv-las, apregoando a necessidade de disseminao mdica pelos ambientes escolares como garantia de aprendizagem adequada, ou, da salvao; ao mesmo tempo, acena, para o futuro, com a possibilidade de um tempo em que sua atuao, sua prpria existncia (da medicina) ser dispensvel, pois ter eliminado as doenas.2 Nos momentos de tenses sociais, de movimentos reivindicatrios importantes, as respostas da sociedade passaro a ser no sentido de biologizar as questes sociais que se haviam transformado em foco de conflitos. E nesse processo, haver o respaldo de uma cincia positivista, cujos interesses coincidem com os de uma determinada classe social Assim, nos anos 1960, perodo de intensa agitao social em todo o mundo, as pesquisas cientficas comprovaram: a) a natural superioridade intelectual do homem branco sobre o negro; b) uma diferena neurolgica, tambm natural, explicaria as diferenas intelectuais e de papel social entre o homem e a mulher; c) os efeitos benficos e necessrios da psicocirurgia (lobotomia), preconizada como soluo para os conflitos sociais nos guetos. No final do sculo 20, outro momento de tensionamentos, a biologizao retorna com fora, agora ancorada em uma gentica mais reconhecida e divulgada, o que lhe empresta maior cientificidade. (Moyss, 2008)

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Essa extenso da normatividade mdica ao campo da aprendizagem pode ser percebida em alguns movimentos, simultneos e entrelaados. Dirigindo-se ao ambiente escolar, preconiza a higiene escolar; Binet e Simon instrumentalizam o iderio psicomtrico inaugurado por Galton; o determinismo biolgico alicera, pseudocientificamente, o racismo; o estudo do crebro, de sua anatomia e funcionamento orgnico, firma-se como especialidade mdica, a neurologia. Na encruzilhada de todos esses movimentos, a medicina preconiza a instituio de classes especiais para os alunos que, segundo ela, no iro aprender na escola quando nela conseguirem entrar. Disseminada a forma de pensamento do movimento puericultor, que centra na ignorncia das pessoas pobres a causa de praticamente todos os problemas por elas vivenciados, incluindo f...