schutz e a relacao agencia-estrutura

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<p>Admirvel senso comum? Notas sobre Schutz, Garfinkel e o problema da relao agncia/estrutura na teoria socialGabriel Peters1</p> <p>1</p> <p>Doutorando em Sociologia pelo Instituto Universitrio de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj).</p> <p>1</p> <p>ndice Introduo: a dimenso compreensiva da sociologia....................................3 O problema da relao agncia/estrutura na teoria social.........................10 A fenomenologia social de Alfred Schutz....................................................15 A etnometodologia de Harold Garfinkel......................................................25 Concluso: fenomenologia, etnometodologia e conhecimento de senso comum............................................................................................................32 Bibliografia....................................................................................................35</p> <p>2</p> <p>Introduo: a inescapvel dimenso compreensiva da sociologiaDesde sua dupla fundao (Vandenberghe, 1999: 34) pelo positivismo de Comte na Frana e pelo historicismo hermenutico de Dilthey na Alemanha, a paisagem da sociologia permanece atravessada pela diviso entre paladinos do monismo ou naturalismo epistemolgico - isto , da idia de que as cincias sociais devem trabalhar sob a gide dos mesmos parmetros metodolgicos vigentes nas cincias da natureza - e defensores do dualismo ou separatismo epistmico os quais, defrontando-se com especificidades iniludveis da vida social e, por extenso, dos tipos de inqurito que podem ser avanados sobre esta, defendem a perspectiva de que o conhecimento sociolgico, embora possa ser fidedignamente caracterizado como cientfico, possui um status gnosiolgico significativamente distinto daquele da investigao cientfico-natural. As diferentes concepes metatericas acerca do status epistmico da sociologia tambm estiveram, desde cedo, associadas a desacordos fundamentais quanto s caracterizaes ontolgicas das entidades e processos constitutivos do mundo societrio, bem como quanto s orientaes metodolgicas tidas como heuristicamente mais fecundas para o estudo emprico desse universo2. Com efeito, possvel avanar a tese de que a causa prima da posio antimonista encontra-se em um insight ontolgico substantivo acerca da ao e da experincia humana em sociedade, insight fraseado de inmeras formas ao longo da teoria social do sculo XX, mas que poderamos expressar assim: diferentemente dos fenmenos estudados pelas2</p> <p>As variegadas contribuies que compem o longo volume acerca de algumas das principais tendncias da teoria social contempornea que Anthony Giddens organizou com Jonathan Turner (1999) constituem apenas algumas amostras de um leque imensamente mais numeroso de exemplos da fundamental interpenetrao entre concepes tericas e metatericas (ou epistemolgicas) que marca at hoje os debates das cincias sociais. A bvia ausncia de um paradigma consensualmente estabelecido no seio da comunidade sociocientfica e capaz de subsidiar um trabalho do tipo resoluo de quebra-cabeas, tpico da cincia normal segundo Kuhn (1975), um dos motivos que esto na base da diversidade impressionante de posies acerca do estatuto epistmico do conhecimento scio-histrico, diversidade que explica parcialmente, por sua vez, a intruso sistemtica de consideraes metatericas nos prprios esforos de teorizao substantiva desenhados nesse terreno intelectual, esforos enredados, nesse sentido, no apenas em querelas acerca das proposies e conceitos mais adequados caracterizao ontolgica abstrata e/ou ao estudo emprico do mundo societrio, mas tambm em polmicas a respeito da prpria roupagem epistemolgica (efetiva ou desejada, descrita ou proposta como ideal metodolgico regulativo) de empreendimentos dessa natureza.</p> <p>3</p> <p>cincias naturais, os atores humanos que constituem o objeto da sociologia possuem, eles mesmos, concepes e representaes acerca do prprio comportamento e dos seus mltiplos contextos de ao, concepes e representaes (discursivamente articuladas ou tacitamente supostas) que no seriam elementos simplesmente adjacentes s suas condutas, mas instncias constitutivas das suas atividades e, portanto, dos mecanismos pelos quais o mundo social se reproduz ou transforma. Nesse sentido, o naturalismo epistmico preconizado por Comte, Durkheim e tutti quanti negligenciaria a especificidade que as cincias sociais derivam do seu carter hermenutico (do grego hermeneus, que significa intrprete) ou compreensivo, isto , do fato de que elas tm como uma de suas dimenses essenciais e inescapveis a tarefa de interpretao dos significados (inter-)subjetivos engendrados pelos seres humanos no curso de sua existncia conjunta. Se fosse necessrio encontrar um patrono para a defesa do projeto tericometodolgico da Verstenhende Sociologie, concebida em sentido lato ou ecumnico (isto , para alm da sua identificao exclusiva com a verso formulada pelo seu advogado mais famoso: o velho Max Weber [2000: cap.1]), no faramos mal em escolher Giambattista Vico como um dos mais fortes candidatos ao posto. Em Scienza Nuova, publicada na primeira metade do sculo XVIII, o sbio napolitano inspirava-se na tese de que o verdadeiro equivale ao feito (verum et factum convertuntur) para se fazer defensor de uma epistemologia humanista que imputava ao conhecimento scio-histrico um privilgio cognitivo irrevogvel em relao s cincias da natureza: os seres humanos podem conhecer a histria, pois a fizeram e fazem, ainda que esta no corresponda a seus propsitos deliberados (Homo non intelligendo fit omnia: o homem, sem tencionar, fez tudo), ao contrrio da natureza, que, como teria ensinado Santo Agostinho, pode ser conhecida perfeitamente apenas por Deus, seu criador (Merquior, 1983: 15-19). Mais importante, no entanto, para os propsitos do presente estudo a famosa controvrsia na academia alem, vigente no final do sculo XIX e incio do XX, acerca do estatuto epistemolgico das Geisteswissenchaften em relao s cincias naturais (Naturwissenchaften). Foi Max Weber quem assumiu, talvez, a posio mais singular nesse debate, a qual se diferencia tanto do monismo naturalista quanto do dualismo metodolgico radicalizado de representantes destacados do historicismo germnico, como Rickert e o prprio Dilthey - este ltimo o principal terico da empatia como caminho de elucidao 4</p> <p>das aes desenroladas em universos scio-histricos diversos, concebidos, sob a influncia de Hegel, como exteriorizaes do esprito humano as quais reclamariam, para a sua compreenso, a reativao dos significados subjetivos que elas coagulam historicamente. Ao mesmo tempo em que reconhecia a especificidade do empreendimento cientfico-social, Weber no conclua da que o inqurito sociolgico disporia de mtodos radicalmente distintos daqueles presentes nas cincias naturais ou substituiria a explicao causal empiricamente verificada pelo intuicionismo emptico puro e simples3. Tanto Schutz como Parsons permaneceram, cada um sua singular maneira, fiis proposta weberiana de incorporar o ponto de vista subjetivo do ator como central teoria sociolgica (e como differentia specifica em relao s cincias da natureza) sem abdicar das exigncias lgicas e metodolgicas implicadas no projeto de uma cincia da vida social. Schutz, em particular, sustenta uma perspectiva epistemolgica que, por um lado, reconhece a existncia de regras procedurais (Schutz, 1967: 48-49) comuns s cincias sociais e naturais, mas aceita, ao mesmo tempo, uma fundamental diferena metodolgica entre as mesmas no que tange ao fato de as primeiras se dirigirem a uma esfera de realidade simbolicamente pr-interpretada por suas prprias entidades constituintes (no caso, os atores humanos). Apoiando-se em Whiteahead, James, Dewey, Bergson e, claro, Husserl, Schutz reconhecia que ambos os empreendimentos intelectuais so, decerto, impregnados de teoria, no sentido de que a observao de eventos e processos nos mundos natural e social no consiste em um registro perceptual passivo de estmulos sensoriais, mas passa</p> <p>3</p> <p>Weber, portanto, foi um dos autores que pavimentaram o caminho para que as explicaes causais e a interpretao/compreenso de significados subjetivamente visados pelos prprios atores deixassem de ser consideradas como tarefas mutuamente excludentes e, ipso facto, indicativas de domnios radicalmente distintos de investigao cientfica, mas, ao contrrio, fossem vislumbradas como procedimentos complementares da anlise sociolgica. O debate acerca da (im)possibilidade de combinao entre explicao causal e compreenso interpretativa, no entanto, no arrefeceu no sculo XX, que foi cenrio de novas investidas vigorosas por parte da frente incompatibilista. No contexto intelectual alemo, certos temas do historicismo de Dilthey foram reformulados em uma roupagem heideggeriana pela hermenutica filosfica de Gadamer, a qual afastou-se da noo diltheyana da compreenso como re-desempenho psquico de experincias alheias ao centrar-se na linguagem como verdadeiro meio de intersubjetividade. Um pouco depois, o filsofo das cincias sociais Peter Winch (1970), na academia britnica, mobilizou a pragmtica da linguagem do segundo Wittgenstein para tentar introduzir novamente um divisor de guas entre o conhecimento social e a investigao cientfico-natural ao defender, com instrumentos distintos daqueles que haviam sido utilizados pelos contemporneos separatistas de Weber algumas dcadas antes, a radicalidade da distino entre um relato causal-explicativo e a elucidao do significado de uma ao tal como ele engendrado e representado no seio da prpria cultura, forma de vida ou jogo de linguagem (na terminologia wittgensteiniana de Winch) do agente.</p> <p>5</p> <p>pela construo cognitiva de objetos de pensamento, sendo, assim, dependente da atividade seletiva e interpretativa da mente humana4 (Schutz, Op.cit: 5). Entretanto, ele notava que, na investigao cientfico-natural, o trabalho de seleo e interpretao da realidade realizado apenas pelo sujeito cognoscente, enquanto o inqurito cientfico-social se dirige a um campo observacional que j foi pr-selecionado e printerpretado por suas instncias constitutivas, de modo que o comportamento destas jamais poderia ser elucidado sem o acesso aos construtos simblico-cognitivos responsveis por esse trabalho de seleo e interpretao, isto , s construes pelas quais os atores ordenam a percepo de seus ambientes naturais e socioculturais de atuao. Habermas resumiu esse ponto com perspiccia ao afirmar que, nas cincias humanas, no apenas a percepo de fatos que simbolicamente estruturada, mas os fatos em si (Habermas, 1990: 92), o que torna as estruturas de relevncia e os esquemas de interpretao da realidade social formulados pelos cientistas sociais parasitrios, pelo menos parcialmente, dos critrios de seleo/relevncia cognitiva e esquemas scio-interpretativos dos prprios atores pesquisados. Hoje, algumas dcadas aps a morte de Schutz, os esquemas simblico-cognitivos por meio dos quais os atores ordenam sua percepo da realidade e orientam suas aes no mundo societrio tornaram-se a preocupao central de mltiplas vertentes da teoria social contempornea, em parte como resultado das guinadas cultural e lingstica observadas na paisagem atual das cincias humanas. Se pensarmos, por exemplo, na obra de um luminar da sociologia hodierna como Giddens (1978; 1979; 2003), veremos que o acento sobre as faculdades cognitivas dos atores humanos pode se constituir no apenas como um elemento da caracterizao da agncia individual e de seus motores subjetivos, mas4</p> <p>Uma idia praticamente consensual em diversas disciplinas contemporneas (ainda que tal tese esteja imbuda de roupagens imensamente variadas de acordo com diferentes autores e escolas de pensamento) consiste no postulado segundo o qual, ao contrrio do que foi outrora sustentado pelo indutivismo ingnuo (Chalmers, 1993: 24), no h observao emprica imaculada (Nietzsche) do real, sendo toda percepo de propriedades fenomnicas do mundo dependente, para sua realizao e constituio mesmas, de categorias de significao previamente presentes na mente do sujeito cognoscente. Essa tese parece ter sido empiricamente ilustrada por exemplos retirados da psicologia da Gelstalt, como aquele relacionado ao registro visual do pato-coelho (Wittgenstein, 2000: 178), da discusso de Polanyi acerca da percepo diferencial de radiografias por parte de mdicos e leigos (apud Chalmers, 1993: 51), ou ainda dos relatos sobre as experincias de indivduos nascidos cegos e que, ao recuperarem a capacidade fisiolgica da percepo visual por meio de intervenes cirrgicas, registravam inicialmente apenas uma massa confusa de cores e formas antes de aprenderem a categorizar os objetos perceptuais em classes gerais (Laraia, 1999: 95). Os insumos para o desenho de uma viso construtivista da cognio humana podem remontar, no mnimo, at a primeira das crticas de Kant, que j enfatizava o papel ativo/constitutivo do sujeito cognoscente no processo de conhecimento, nfase que, como veremos, est no corao mesmo da fenomenologia de Husserl.</p> <p>6</p> <p>tambm como um eixo central compreenso da relao de interdependncia entre a conduta individual subjetivamente propelida e as propriedades estruturais de sistemas sociais mais amplos (no caso da teoria da estruturao de Giddens, graas ao argumento nuclear da dualidade da estrutura5). Tal acento deve muito ao contato do socilogo britnico no apenas com a fenomenologia de Schutz, mas com um acervo variado de perspectivas sociotericas que adquiriram grande proeminncia nos anos 60 e 70 como desafios microssociolgicos ao estrutural-funcionalismo parsoniano, perspectivas centradas sobre as habilidades cognitivas e prticas mobilizadas pelos agentes individuais nos seus diversos cenrios locais de ao e interao cotidianas. Dentre estas abordagens, vale destacar a etnometodologia de Garfinkel, a microssociologia da interao de Goffman e o interacionismo simblico este ltimo, alis, menos influente no pensamento de Giddens, seja na verso originalmente formulada por Mead, seja na roupagem mais contempornea elaborada por Blumer e outros6. Todas essas abordagens esto focadas, de algum modo, sobre as diversas orientaes subjetivas e procedimentos prticos de conduta intencionalmente mobilizados pelos indivduos na produo da ao e da interao social, orientaes e procedimentos em virtude dos quais a ordem societria e suas instituies tendem a ser concebidas como produtos contnuos e contingentemente modificveis das condutas de tais agentes, condutas possibilitadas, por sua vez, pelo domnio (em larga medida prtico) de certos conhecimentos e habilidades. Nesse sentido, os atores no so tidos como governados por foras coletivas que no seriam capazes de compreender ou controlar, mas, ao contrrio, como indivduos habilidosos, inventivos e cognoscitivos (knowledgeable). O acento5</p> <p>Giddens no foi o primeiro a perceber que a investigao da cognio socialmente ancorada e recursivamente aplicada na produo da ao oferece uma das mais fecundas vias de acesso inteleco do modo como se articulam agncia e estrutura. Em 1966, Berger e Luc...</p>