são paulo segregação urbana flavio villaça

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e desigualdadeFLVIo VILLAA

So Paulo: segregao urbana

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Introduorovavelmente o maior avano ocorrido no campo da cincia da geografia

em todos os tempos tenha sido a conscincia e a recente difuso da ideia (Lefbvre, Harvey, Gottdiener e tantos outros) de que o espao social no nosso caso, o espao urbano socialmente produzido, ou seja, no dado pela natureza, mas produto produzido pelo trabalho humano. A partir dessa concepo do espao social, e s a partir dela, foi possvel inserir seu estudo na lgica do materialismo histrico, da dominao e do conflito de classes, coisa que no s no tinha sido possvel antes, como tambm vinha entravando o desenvolvimento da geografia, impedindo-a de ultrapassar a etapa primria de uma cincia humana que se limitava simples descrio do espao. Este texto procura mostrar uma abordagem do espao urbano como produto produzido. Parte da premissa de que nenhum aspecto da sociedade brasileira poder ser jamais explicado /compreendido se no for considerada a enorme desigualdade econmica e de poder poltico que ocorre em nossa sociedade. O maior problema do Brasil no a pobreza, mas a desigualdade e a injustia a ela associada. Desigualdade econmica e desigualdade de poder poltico. Da decorre a importncia da segregao na anlise do espao urbano de nossas metrpoles, pois a segregao a mais importante manifestao espacialurbana da desigualdade que impera em nossa sociedade. No caso das metrpoles brasileiras, a segregao urbana tem uma outra caracterstica, condizente com nossa desigualdade: o enorme desnvel que existe entre o espao urbano dos mais ricos e o dos mais pobres. Transferido para o campo do urbano, a premissa dada passa a ter o seguinte enunciado: nenhum aspecto do espao urbano brasileiro poder ser jamais explicado/compreendido se no forem consideradas as especificidades da segregao social e econmica que caracteriza nossas metrpoles, cidades grandes e mdias. Da mesma forma, a segregao urbana s pode ser satisfatoriamente entendida se for articulada explicitamente (e no apenas implicitamente ou subentendida) com a desigualdade. Essa explicitao se d desvendando-se os vnculos especficos que articulam o espao urbano segregado com a economia, a poltica e a ideologia, por meio das quais opera a dominao por meio dele.

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Os avanosDestacamos, neste texto, seis aspectos nos quais nossas reflexes sobre segregao urbana (Villaa, 2009) se articulam explicitamente com a desigualdade e a dominao e avanam em relao maioria dos estudos brasileiros atuais sobre o tema: Elas avanam no sentido de: 1) ... negar a forma clssica de segregao que se apresentaria sob a forma de crculos concntricos, com os mais ricos no centro e os mais pobres na periferia. 2) ... historicizar a segregao. A falta de insero histrica uma das responsveis por vrias das limitaes nas anlises atuais sobre segregao urbana. 3) ... mostrar como se d a relao entre a segregao e a totalidade das estruturas social e urbana. Sem isso, os estudos sobre segregao ficam incompletos e por isso inaceitveis. 4) ... mostrar a relao entre a dominao e a segregao, esclarecendo as especificidades da dominao atravs do espao urbano, ou seja, mostrar o papel do espao urbano no processo de dominao. 5) ... abordar a segregao, no mais por bairro, mas por regio geral da cidade; essa abordagem traz um enorme potencial explicativo muito maior que o da segregao por bairro, e s ela capaz de explicar as relaes aqui indicadas. 6) Finalmente, e em sntese, avanam no sentido de explicar a segregao, e no apenas no de denunci-la, descrev-la ou medi-la. Os estudos tradicionais da segregao (como os da sociologia urbana americana entre as dcadas de 1950 e 1970), e alguns produzidos no Brasil, no mostram objetivamente (s vezes, nem implicitamente) as relaes entre, de um lado, a segregao e o restante da estrutura urbana, e, de outro, suas relaes com os demais aspetos da totalidade social, ou seja, com seus aspectos econmico, poltico e ideolgico. A forma mais tradicional de estudo da segregao urbana aquela que aborda o centro versus periferia urbanos. Essa forma raramente apresentada como segregao nem analisada sob essa ptica. Tem o mrito de no ser por bairro, mas por regio urbana ou conjunto de bairros. Entretanto, limita-se fundamentalmente a uma descrio. As abordagens sob a ptica centro versus periferia, quando ultrapassam a descrio, limitam-se a denunciar a injustia, no conseguindo explicar a segregao nem articul-la ao restante da estrutura urbana e da totalidade social. Alm disso e isso j seria motivo suficiente para rejeit-la , falsa como descrio da segregao. Segundo ela, em nossas metrpoles (e tambm nossas cidades mdias e grandes), a segregao dar-se-ia segundo crculos concntricos, com os mais ricos no centro e os mais pobres na periferia. Essa falsa viso decorre da teoria dos crculos concntricos da Escola de Chicago, do incio do sculo XX. O Rio de Janeiro, por exemplo, sempre desmentiu essa viso, pois a Zona Sul nunca teve periferia pobre. Seja no incio do sculo XX, tempo em que Ipanema e Leblon eram periferia, seja no tempoESTUDOS AVANADOS

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em que Barra da Tijuca o era, seja hoje, quando o Recreio dos Bandeirantes o . Favela incrustada na mancha urbana (como a Rocinha) no periferia segundo nenhum conceito do termo. Alm disso, em So Paulo, Granja Viana, Alphaville ou Aldeia da Serra mostram que h dcadas existem reas mais ricas no s fora do centro, mas na periferia afastada.

Abordagens recentes da segregaoTalvez a forma mais destacada de estudo da segregao moderna seja sua manifestao sob a forma dos condomnios fechados. Esses estudos como a maioria daqueles sobre segregao no colocam a segregao num contexto histrico nem a articulam com o restante da estrutura urbana, como tambm no mostram explicitamente (s vezes deixando apenas subentendidas) as articulaes entre a segregao e as esferas econmicas, polticas e ideolgicas da sociedade. Enfim, no explicam esse tipo particular de segregao, limitando-se a articul-lo ao advento da segurana, da violncia urbana, dos interesses imobilirios, da cultura e dos novos valores por esses criados e/ou divulgados. Em que os condomnios fechados se distinguem das tradicionais formas de segregao, por classe e por bairro, que existem h mais de um sculo em nossas cidades? Em que se distinguem do Jardim Amrica, Pacaembu ou Alto de Pinheiros? S no tocante proteo contra a violncia? Aos controles de portaria? produo imobiliria? No tocante novidade imobiliria, eles em nada se distinguem desses bairros h 50 ou 80 anos. H poucas interpretaes dessas novidades que ultrapassem as relaes com os interesses imobilirios (a criao de um novo produto imobilirio) ou com a questo da segurana. Em que e por que esses aspectos so algo significantemente novo? Claro que so novos. A questo , insistimos, se so significantemente novos. Em que e por qu so irrelevantes ou relevantes? Como integrar sua anlise a processos socioespaciais mas amplos? Como interpretar os condomnios fechados superando a denncia e os interesses dos moradores? Sobre isso pouco ou nada tem-se falado. Esses estudos como muitos estudos urbanos tm um fundo no muito claro e nunca explicitado. um fundo moral, tico, que destaca a injustia. Quando destacam a opresso ou a dominao, fazem-no sob a ptica da injustia. Como sua causa real no estudada nem claramente explicitada, ela passa ao leitor (o que deve ocorrer tambm na cabea de muitos dos autores) a ideia de que sua causa a maldade, a ganncia e os interesses mesquinhos dos homens. Nessa base tica est o maior perigo de qualquer anlise social, as urbanas includas. Isso j foi denunciado h mais de um sculo por F. Engels ao criticar os socialistas utpicos que criticavam o capitalismo com base na tica. Criticou-os por acreditarem que com esse socialismo despontava o reino da razo e que com ele a superstio, a injustia, o privilgio e a opresso, seriam substitudos pela verdade eterna, pela eterna justia, pela igualdade baseada na natureza e pelos direitos inalienveis do homem (Engels, s. d., p.19). A segregao , assim, vista por esses estudos sob a ptica da justia e da razo e assim moralmente condenvel.

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Quais so os limites dos estudos da segregao por bairro, por classe social, ou daqueles que abordam os condomnios fechados ou o centro versus periferia? J mostramos antes que essa viso falsa. A descrio centro versus periferia no permite, por exemplo, que se articule a segregao com as estruturas urbana e social. Essa descrio no explica, por exemplo, por que o centro tradicional de nossas cidades cresce mais numa determinada direo do que em outras (ou isso nada tem a ver com a segregao urbana?). Pela prpria lgica do esquema centro versus periferia, o centro deveria crescer mais ou menos uniformemente em todas as direes. No entanto, h mais de um sculo isso no ocorre em nossas metrpoles. No explica ainda a articulao da segregao com as esferas econmicas, que se d por meio da atividade econmica que maior interesse tem no espao urbano: a atividade imobiliria. No toca sequer nas articulaes entre, de um lado, a segregao e, de outro, o poder poltico e a ideologia. Como tantas anlises da segregao, ela enfatiza explcita ou implicitamente a desigualdade como injustia, no deixando clara se ela ou no devida maldade dos homens. preciso ultrapassar no s a descrio, mas especialmente a explicao fundada em razes ticas e morais. Em obras anteriores, abordamos a segregao por classes, mas no por bairros, mas por grandes conjuntos de bairros, ou seja, por grandes regies da cidade. Com isso abriu-se uma enorme possibilidade de explicao e compreenso no s do prprio processo de segregao, mas tambm com suas articulaes com aspectos fundamentais da sociedade.

Descrever e explicarA diferena entre descrever e explicar no simples e varia de um grupo de cincias para outro;