SO PAULO EM PAPEL E TINTA Periodismo e Vida Urbana 1890/1915

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Livro sobre os peridicos .que existem na Hemeroteca do Arquivo Pblico do Estado de So Paulo.

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1 SO PAULO EM PAPEL E TINTA Periodismo e Vida Urbana 1890/1915 Heloisa de Faria Cruz GOVERNO DO ESTADO DE SO PAULO Governador Geraldo Alckmin SECRETARIA DE ESTADO CASA CIVIL Secretrio Edson Aparecido ARQUIVO PBLICO DO ESTADO DE SO PAULO Coordenador Izaias Jos de Santana Conselho Editorial Ana Clia Rodrigues Barbara Weinstein Clia Reis Camargo Denise Aparecida Soares de Moura Fernando Teixeira da Silva Jaime Rodrigues James Naylor Green Jeffrey Lesser Joo Roberto Martins Filho Joo Paulo Garrido Pimenta Yara Aun Khoury Diretora do Centro de Difuso e Apoio Pesquisa Haike R. k. da Silva Coordenao Editorial Vania Silva Preparao de Originais e Reviso de Provas Jssica Ferraz Juliano Vania Silva Ilustraes Srgio Jos Meurer Capa Srgio Jos Meurer Projeto Grfico Helen Karina Teixeira Batista Srgio Jos Meurer Diagramao Helen Karina Teixeira Batista Srgio Jos Meurer Reproduo e Tratamento de Imagens Ncleo de Microfilmagem e Digitalizao Reviso e cadastramento de peridicos Ncleo de Biblioteca e Hemeroteca Apoio Tcnico Centro de Processamento de Informaes Digitais. NOTA EXPLICATIVA SOBRE ESTE E-BOOK Os direitos sobre todos os textos contidos neste livro eletrnico (e-book) so reservados ao() seu(sua) autor(a) e esto protegidos pelas leis do direito autoral. Esta uma edio eletrnica, no comercial, que no pode ser vendida nem comercializada em hiptese nenhuma, nem utilizada para quaisquer fins que envolvam interesse monetrio. Este exemplar de livro eletrnico pode ser reproduzido em sua ntegra e sem alteraes, distribudo e compartilhado para usos no comerciais, entre pessoas ou instituies sem fins lucrativos. Em caso de uso acadmico deste e-book, todos os crditos e referncias devem ser dados ao() autor(a) e ao Arquivo Pblico do Estado de So Paulo. Ficha Catalogrfica elaborada por Renata Gonalves CRB 8 n 8248 C962s Cruz, Helosa de Faria So Paulo em papel e tinta: periodismo e vida urbana 1890-1915 / Helosa de Faria Cruz. - So Paulo : Arquivo Pblico do Estado de So Paulo, 2013. 2.382Kb ; PDF Modo de Acesso: World Wide Web ISBN: 978-85-63443-04-5 (PDF) ISBN: 978-85-63443-05-2 (Epub) 1. Peridicos de So Paulo. 2. Histria da Imprensa (So Paulo). I. Ttulo. CDD 056.9 Como acessar links de peridicos citados O e-book So Paulo em Papel e Tinta traz 106 ttulos citados pela autora com links para jornais e revistas do acervo digitalizado da Hemeroteca do Arquivo Pblico do Estado de So Paulo. Esses ttulos ficam em destaque, na cor vermelha, com um link, na primeira vez em que so citados. Veja um exemplo: do que seria a imprensa peridica e a leitura corrente no perodo. Os vagos e muitas vezes irnicos expedientes de tais publicaes, declarando redatores diversos (A Penna, 1882), redao annima (O Alfinete, 1915), sai quando pode (O Gaiato, 1905), redao em toda parte (A Farpa, 1887), escritrio na mesa do canto do caf Guarany ou no olho da rua (O Garoto, 1900) ou mesmo o uso de inmeros pseudnimos para Os mesmo ttulos esto com links tambm na pgina de Fontes (Jornais e Revistas): JORNAIS E REVISTAS lbum das Meninas (1898/1900) O Alfinete (1915) O Amigo do Povo (1902) Anima e Vita (1905) Antarctica Illustrada (1902/1904) Ao clicar nesses ttulos, o leitor que estiver conectado Internet acessar um exemplar do peridico diretamente do acervo digitalizado do site do Arquivo Pblico do Estado de So Paulo. Caso tenha alguma dvida em relao ao acesso, envie para editoria@arquivoestado. sp.gov.br. AGRADECIMENTOS Este livro resultou de minha tese de doutorado, defendida no Programa de Histria Social da Faculdade de Filosofia, Letras e Cincias Humanas da USP, entre os anos de 1990 e 1994. Naquela trajetria, tive o privilgio de contar com inmeras contribuies. Ao professor Marcos Antnio da Silva, agradeo no s o cuidado com que acompanhou os vrios momentos de pesquisa e da redao da tese, mas, sobretudo, o respeito e a pacincia com que conduziu essa complexa relao orientador/orientanda. Alm do orientador, participaram das bancas de qualificao e defesa as professoras Da Ribeiro Fenelon, Maria Clia Paoli, Ana Maria Camargo e Maria Amlia Dantes e o professor Antnio Carlos Barreiro. A todos agradeo a pertinncia dos comentrios crticos e sugestes de pesquisa, sobretudo o modo gentil de suas intervenes. professora Da, professora no curso de graduao em Histria na Universidade de Braslia, orientadora de minha dissertao de mestrado desenvolvida na UNICAMP e colega do Departamento de Histria na PUC/SP, agradeo, especialmente, o privilgio das marcas de um convvio intelectual e humano que j dura mais de 20 anos. O Departamento de Histria da PUC/SP, abrindo mo de minha participao mais efetiva nas rotinas cotidianas do curso no perodo de redao final do trabalho, abriu espao para que ele pudesse ser concludo. Aos colegas do Departamento, Olga, Rosrio, Pilar, Antonieta e outros amigos historiadores, agradeo os momentos de troca e apoio na realizao da pesquisa. Meus alunos, principalmente aqueles que atuaram como bolsistas de iniciao cientfica e aperfeioamento no projeto Imagens Paulistanas, Lauro, Selma, Nvea, Dalton e Daniela, ajudaram a construir um espao rico de aprendizagem coletiva no qual a pesquisa individual ganha um sentido poltico muito mais claro. Gostaria de salientar tambm o atendimento solcito e atencioso de funcionrios e corpo tcnico das diversas instituies em que realizei a pesquisa, agradecendo especialmente ao pessoal do Arquivo do Estado e a Brs Ciro Gallota, que me ajudou com a preciosa coleo de peridicos do Instituto Histrico e Geogrfico de So Paulo. Por fim, cabe registrar o apoio institucional do CNPq, da Fapesp e da Comisso de Pesquisa do Conselho de Ensino e Pesquisa fundamental na viabilizao deste estudo. 8 IMPRENSA E VIDA URBANA EM SO PAULO: REVISITANDO O TEMA E A PESQUISA Uma revista, como um jornal, ter de ter, forosamente, um carter e uma moral. De um modo genrico: princpios. Dessa obrigao no esto isentas as revistas que se convencionou apelidar de frvolas. A funo da revista ainda no foi, entre ns, suficientemente esclarecida e compreendida. Em paiz da estenso desconforme do Brasil, que um amalgama de naes com uma s alma, a revista rene um complexo de possibilidades que, em certo sentido, rivalizam ou ultrapassam as do jornal. O seu raio de ao incomparvelmente mais amplo no espao e no tempo. Um jornal est adstrito s vinte e quatro horas de sua existncia diria. Cada dia o jornal nasce e fenece, para renascer no dia seguinte. uma metamorphose consecutiva. O jornal de hontem j um documento fora de circulao: um documento de archivo e de biblioteca. O jornal dura um dia. Essa existncia to intensa como breve, dificulta os grandes percursos. um vo celere e curto. O jornal a prpria vida. A revista j um compndio da vida. A sua circulao no est confinada a uma area traada por um compasso cujo ponteiro mvel raro pode exceder um crculo de raio superior a sua distncia mxima percorrvel em vinte e quatro horas. A revista circula desde o Amazonas ao Rio Grande do Sul, infiltra-se por todos os municpios, utiliza na sua expanso todos os meios de conduo terrestre, maritima, fluvial e area; entra e permanece nos lares; leitura da famlia e da vizinhana. A revista o estado intermedirio entre o jornal e o livro. O pargrafo acima parte do extenso editorial que, em 10 de novembro de 1928, trazia a pblico o nmero inaugural daquela que seria a principal revista semanal brasileira no decorrer do sculo XX: a revista O Cruzeiro, publicada regularmente pelos Dirios Associados entre 1928 e meados da dcada de 1970. Sinalizando a superao de um perodo de grande experimentao e disputa no campo de produo peridica em seus vrios gneros e formatos, e que se torna mais visvel no periodismo brasileiro na virada do sculo XIX ao sculo XX, O Cruzeiro, em seu editorial de lanamento, j pode afirmar, de forma inequvoca, as diferenas das revistas em relao aos jornais. Rico de significaes, o editorial prope algumas pistas sobre a 9 natureza desse processo de afirmao do gnero revista no Brasil e sobre as estratgias, concepes e disputas que configuraram o processo de conformao das revistas brasileiras nas dcadas anteriores. Ao assumir de forma positiva e sem maiores constrangimentos a qualificao de frvola para as revistas brasileiras ento em circulao, O Cruzeiro no s se coloca no campo da produo da leitura leve e de entretenimento como sinaliza quais foram as direes triunfantes do gnero revista nos momentos anteriores. E aponta, tambm, como, no processo de popularizao da imprensa ento em curso, as revistas articulam-se s novas sociabilidades urbanas e, por meio de correspondentes e dos novos ritmos advindos do desenvolvimento dos transportes e do telgrafo, buscam pblicos nacionais. Em So Paulo, esse movimento de afirmao das revistas configura-se a partir da segunda dcada do sculo XX, indicando um processo de estreitamento da diversidade das publicaes e da atuao dos grupos produtores no campo do periodismo literrio, cultural e de entretenimento. Diferentemente dos processos das dcadas anteriores, as disputas circunscrevem-se, ento, a uns poucos projetos editoriais. Num espao delimitado por empreendimentos marcadamente comerciais, com estruturas profissionais mais definidas, um nmero bastante reduzido de revistas disputa a hegemonia na rea da produo de publicaes ilustradas e de entretenimento. No final da segunda dcada do sculo XX, temos A Vida Moderna e A Cigarra, principais revistas do gnero publicadas na cidade; assumindo ser cada uma a revista de maior tiragem e circulao no estado de So Paulo, travam acirrada disputa pela conquista dos pblicos paulistano e paulista. O processo histrico que configura a vitria das revistas leves e apelidadas de frvolas, como O Cruzeiro e A Cigarra, marcado por tenses e direes diversas. Assim, se recuarmos alguns anos, manifestaes de editores de vrios gneros de publicaes, principalmente da rica imprensa operria do perodo, indicam sentidos e direes diversas nesse campo de disputa sobre o processo de popularizao do periodismo em So Paulo. A imprensa burguesa exerce, sem dvida, uma grande influncia sobre o povo. Ela poderia ser um importante fator na cultura e na formao de sua mentalidade. Mas como est mercantilizada, como o seu fim exclusivamente o lucro, a sua influncia no pode ser mais prejudicial e execrvel. Trecho de um artigo de A Voz do Trabalhador, de 15 de julho de 1908, rgo da Confederao Operria Brasileira. Publicada sob o ttulo A imprensa e a mentalidade popular, a citao acima permite explorar diversas questes sobre a expanso e a popularizao da imprensa naquele momento. Em princpio, tal avaliao, representativa das posies da imprensa anarquista-libertria sobre a imprensa burguesa, ao exprimir a concepo de importantes setores do movimento operrio do perodo, delimita a imprensa enquanto importante campo da luta social. Num primeiro plano, sinaliza que o processo de conquista e expanso da cultura impressa sobre terrenos sociais anteriormente alijados dos circuitos da cultura letrada no se configurou enquanto terreno da mera homogeinizao cultural. Assim, tambm aponta para a crescente articulao do periodismo ao mercado e s prticas mercantis. Por outro 10 lado, identificando a mentalidade popular enquanto alvo e objeto da disputa, formula a questo central na discusso sobre a importncia da imprensa na formao do povo. Em outra edio, a do dia 13 de maio de 1909, em matria veiculada sob o ttulo Concurso contra concurso, a mesma publicao, indignada, se insurge contra um concurso lanado na imprensa burguesa que se prope a eleger o operrio mais popular e simptico dos subrbios, e, em retaliao, lana a proposta de eleio, pelos leitores da Voz do Trabalhador, do jornalista mais crpula e mais mistificador do Rio de Janeiro. Seus argumentos ao criticar o concurso se deixam ver na matria: Decididamente preciso abrir sria campanha contra a esplorao jornalstica que visa corromper cada vez mais o operariado. Ainda agora, a Imprensa acaba de iniciar um concurso para saber Qual o operario mais popular e simptico dos subrbios. um recurso comercial reclame para o jornal e imprudente caada ao nquel de operrios simples que tm ainda f de todas as espcies: nos jornalistas, no Estado, na religio e nas boas intenes dos patres. [...] um pernicioso movimento que pretende despertar a vaidade no operariado, distraindo-o, afastando-o das lutas de reivindicao [...] sobre esse perodo de emergncia e afirmao do periodismo paulista e as questes propostas pelos processos de experimentao e disputa no campo da imprensa paulista e paulistana, entre os anos de 1890 e 1915, que se desenvolve a anlise de So Paulo em Papel e Tinta. Tendo como base a pesquisa num conjunto extremamente diverso e significativo de publicaes da pequena imprensa, editadas na cidade de So Paulo no perodo, e problematizando as relaes entre cultura e cidade no momento inicial de formao da metrpole paulistana, enfatiza as articulaes entre periodismo, cultura letrada e vida urbana. A adoo do conceito de periodismo em referncia comunicao impressa e peridica, ainda hoje pouco utilizado nos estudos histricos, prope pensar a imprensa como prtica social constitutiva e instituinte dos modos de viver e pensar a cidade. Com o uso proposital da noo de periodismo, busca captar o movimento de fazer imprensa como experincia e prtica cultural de sujeitos sociais, surpreendendo as redes sociais de comunicao que a se constituem. No dilogo crtico com as experincias e motivaes dos diferentes grupos produtores daquelas publicaes, indaga sobre os sentidos do fazer imprensa, apontando para disputas em meio as quais esses personagens e suas publicaes se moviam naquele tempo. Como indica Raymond Williams em seu artigo sobre a imprensa popular inglesa1, uma abordagem corrente entre ns historiadores, cientistas sociais e estudiosos da comunicao aquela que faz da Histria da imprensa um campo isolado, que referencia a si mesmo, sem buscar as conexes e vnculos no s com a Histria de outras formas de comunicao, mas tambm com a Histria Social mais ampla, desde os movimentos polticos e sociais s conjunturas e processos econmicos, aos movimentos e formaes culturais aos quais as formas histricas da imprensa se articulam de modo mais especfico. 1 WILLIAMS, Raymond. Imprensa e cultura popular: uma perspectiva histrica. Projeto Histria: Histria e Imprensa, So Paulo, n. 35, p. 15-26, dez. 2007. 11 Na contramo de abordagens que privilegiam o estudo da imprensa como dimenso derivada ou paralela dos contextos sociais, ou que a utilizam to somente como fonte de informao sobre esses mesmos contextos, na reflexo proposta, o periodismo tratado como dimenso articulada do processo de constituio do espao urbano e de afirmao e construo de lugares, sociabilidades e prticas culturais da cidade. A verticalizao da pesquisa nos diferentes veculos evidencia prticas, sentidos, ambientes e as redes de comunicao social que articulam os variados projetos editoriais que do corpo a esse periodismo. Adotando a perspectiva proposta por Jurgen Habermas2 ao indicar a imprensa como instituio privilegiada da constituio da vida pblica burguesa, trazendo a reflexo sobre a imprensa para o campo da Histria Social, a anlise desvenda articulaes entre os processos de desenvolvimento e transformao da cultura impressa, via estudo do periodismo, e as disputas sociais que transformam as sociabilidades e os modos culturais de viver na cidade. Assim, prope dialogar com o processo de constituio e atuao de atores sociais por meio do estudo de uma gama extremamente rica e variada de peridicos por eles produzidos e que se constituam em um dos principais espaos de articulao coletiva e de difuso e visibilidade pblica de suas concepes, propostas e projetos. Trata-se de entender a imprensa como linguagem constitutiva do social, que detm uma historicidade e peculiaridades prprias e requer ser trabalhada e compreendida como tal, desvendando, a cada momento, as relaes imprensa/sociedade e os movimentos de constituio e instituio do social que essa relao prope. Problematizando a noo da formao do popular massivo, como sugere Jess Martin-Barbero3, interessa refletir sobre os processos de renovao das linguagens e maneiras de contar na constituio de um estilo de fazer jornalismo que busca ampliar o seu universo de leitores, expandindo-se para alm dos espaos cultos das elites letradas. Interessa, tambm, a partir da discusso mais detalhada de algumas dessas publicaes, analisar os sentidos histricos de diferentes projetos editoriais que ali se colocavam em disputa, pondo em evidncia propostas dissidentes ou de oposio aos modelos predominantes. Pensar a imprensa com essa perspectiva implica, em primeiro lugar, tom-la como uma fora ativa da Histria e no como mera depositria de acontecimentos nos diversos processos e conjunturas. Como indicam Robert Darnton e Daniel Roche, preciso pensar a sua insero histrica enquanto fora ativa da vida moderna, muito mais ingrediente do processo do que registro dos acontecimentos, atuando na constituio de nossos modos de vida, perspectivas e conscincia histrica4. Inicialmente publicado pela Imprensa Oficial e pela EDUC, editora da Pontifcia Universidade Catlica de So Paulo (PUC-SP), em 2000, com o apoio do Arquivo Pblico do Estado de So Paulo (APESP) e da Fundao de Apoio Pesquisa do Estado de So Paulo (FAPESP), o livro foca as transformaes da cultura letrada na cidade de 2 HABERMAS, Jurgen. Mudana estrutural da esfera pblica. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1984. 3 MARTIN-BARBERO, Jess. Dos meios s mediaes: comunicao, cultura e hegemonia. Rio de Janeiro: Editora da UFRJ, 1997. 4 DARNTON, Robert; ROCHE, Daniel. A revoluo impressa: a imprensa na Frana, 1775-1800. So Paulo: EDUSP, 1996. 12 So Paulo por meio do estudo da dinmica e do desenvolvimento da pequena imprensa e, principalmente, do periodismo dito cultural, de variedades ou ilustrado. Resultado de pesquisa desenvolvida com alunos do curso de graduao em Histria da PUC-SP, com o apoio da Comisso de Pesquisa da Universidade e da FAPESP, o livro foi apresentado inicialmente como tese de doutoramento, sob o ttulo Na cidade, sobre a cidade: cultura letrada, periodismo e vida urbana 1890/1915, desenvolvida sob a orientao do Prof. Dr. Marcos Antnio da Silva no Programa de Histria Social da Faculdade de Filosofia, Letras e Cincias Humanas da Universidade de So Paulo (USP), em 1994. O projeto de pesquisa e o livro original contaram tambm com a participao do pessoal do APESP, destacando-se o apoio decisivo do Dr. Fausto Couto Sobrinho e de Lauro vila Pereira, respectivamente Diretor Geral e Coordenador da rea de Apoio Pesquisa da instituio na poca. A pesquisa teve como uma de suas motivaes a avaliao da importncia crucial dos meios de comunicao, especificamente da imprensa, na configurao da esfera pblica no sculo XX. Para alm de vises mais escatolgicas sobre a morte iminente da cultura impressa que hoje se insere num campo mais complexo delineado por sistemas de satlites e cabos, por novas tecnologias e redes de informao , em relao imprensa, fcil constatar que o seu uso, faz algum tempo, encontra-se disseminado nos ambientes de investigao das Cincias Sociais e das Humanidades. Nos diversos campos de pesquisa, da Comunicao Semitica, da Crtica Literria Educao, a imprensa aparece como fonte e objeto de pesquisa. Tambm na rea da Histria, na pesquisa e no ensino sobre os mais variados temas e problemticas, a utilizao de materiais da imprensa, hoje, est cada vez mais generalizada5. Nos ltimos 30 anos, o movimento de incorporao crescente dos materiais da imprensa nos ambientes da pesquisa histrica articula-se ao desenvolvimento dos estudos histricos sobre a imprensa brasileira. Sinal da consolidao de um campo de investigao pode ser avaliado pelo grande nmero de trabalhos sobre o periodismo brasileiro em diversos momentos de nossa histria que a consulta a diretrios de dissertaes e teses dos Programas de Ps-Graduao de Histria revela. Vale notar que a reedio do estudo clssico de Werneck Sodr, Histria da Imprensa no Brasil, no final de 1999, 38 anos aps o lanamento de sua primeira edio, indica um momento de vitalidade e desenvolvimento dessa tradio dos estudos voltados para a Histria de nossa imprensa. Desde o final da dcada de 1970, com a reorganizao dos cursos de ps-graduao, pesquisas diversas com diferentes enfoques e abordagens, em sua maioria apresentadas como dissertaes e teses, fazem da imprensa brasileira seu objeto de estudo. Abrindo o leque temtico, nas ltimas dcadas tais estudos ganharam maior especificidade, distanciando-se de propostas mais generalistas. Nesse campo, destacam-se pesquisas sobre a chamada grande imprensa, sobre publicaes paulistas, sobre a imprensa carioca, bem como sobre grandes jornais dos principais estados brasileiros. Tambm ganha destaque o estudo de publicaes culturais, humorsticas, educacionais e esportivas, assim como de revistas noticiosas e de variedades, e de publicaes mais especializadas, 5 Para discusso mais detalhada de questes terico-metodolgicas do uso da imprensa na pesquisa, ver CRUZ, Heloisa de Faria; PEIXOTO, Maria do Rosrio da Cunha. Na oficina do historiador: conversas sobre histria e imprensa. Projeto Histria, So Paulo, v. 1, p. 22-38, 2008. 13 voltadas para segmentos especficos do pblico imprensa feminina, negra, operria e sindical, alternativa, popular ou comunitria, entre outras. Assumindo ento essa dinmica de renovao dos estudos sobre a imprensa brasileira, naquele momento, um dos objetivos centrais do projeto de pesquisa que deu origem tese, desenvolvido sob o ttulo Imagens Paulistanas, era tambm o alargamento do universo de fontes para a pesquisa e reflexo histrica sobre o viver urbano e a imprensa paulistana na virada do sculo XIX ao XX. A ideia era a de, como prope Beatriz Sarlo6, a partir da renovao dos registros e dos materiais disponveis para os pesquisadores, promover novas e diferentes indagaes e perspectivas tericas sobre tais temticas. No interior daqueles esforos que, em sua maioria, privilegiavam os estudos sobre os grandes jornais e revistas, nossa preocupao voltou-se para o que passamos a denominar de pequena imprensa. Nesse campo, identificvamos uma grande variedade de peridicos que se constituam de modo sistemtico ou de maneira mais intermitente, mas no menos articulada na vida social do que os grandes jornais. Peridicos que, na maioria das vezes, eram produzidos por pequenos grupos editoriais, sendo dirigidos a pblicos mais especficos e restritos, trazendo interesses mais explcitos, seja de comunidades diversas ou de bairros da cidade, projetos e prticas culturais especficas, movimentos de novas sociabilidades e prticas culturais, com projetos polticos diversificados, e dando visibilidade aos embates na conformao da esfera pblica em que se davam a conhecer e se materializavam. A parceria entre o Centro de Documentao da PUC-SP (CEDIC) e o Arquivo do Estado, em 1997, na publicao de So Paulo em Revista: Catlogo de Publicaes da Imprensa Cultural e de Variedades Paulistana (1870-1930), primeiro fruto do projeto, revelou-se um instrumento de pesquisa que rene referncias sobre uma gama extremamente variada, e at aquele momento dispersa e pouco conhecida, de colees de publicaes da pequena imprensa peridica que vieram a pblico na cidade de So Paulo durante aquele perodo. Como se indicava na introduo do Catlogo, at ento as pesquisas sobre as relaes entre periodismo e cidade tinham como base um conjunto j identificado e bastante reduzido desses materiais. A partir desse momento, o Catlogo transformou-se num instrumento bastante difundido entre os pesquisadores da imprensa e da cidade, impulsionando muitos estudos sobre esses temas. Importante tambm indicar que, desde ento, com a ajuda dos meios eletrnicos de reproduo e acesso, diversas instituies de pesquisa e arquivos deram passos significativos na organizao e na disponibilizao pblica de colees de peridicos da imprensa brasileira. ndice da expanso e consolidao da rea de pesquisa sobre a imprensa brasileira no decorrer das ltimas trs dcadas a preocupao com a preservao e com a construo de instrumentos de referncia vindos a pblico a partir de projetos desenvolvidos em vrios Estados. Nessa direo j apontava o pioneiro Plano Nacional de Microfilmagem de Peridicos Brasileiros, coordenado pela Fundao da Biblioteca Nacional, em desenvolvimento desde 1982, origem da recm-lanada Hemeroteca Digital Brasileira. Esta, segundo informaes do seu portal7, j disponibiliza 5 milhes de pginas digitalizadas, incluindo peridicos raros ou extintos, nmero que se multiplicar com a continuidade da 6 SARLO, Beatriz. A histria contra o esquecimento. In: ______. Paisagens imaginrias: intelectuais, artes e meios de comunicao. So Paulo: EDUSP, 1997. p. 35-42. 7 Disponvel em: . 14 reproduo digital em curso. No caso de So Paulo, h de se destacar a disponibilizao, ainda que com restries comerciais de acesso, de acervo digital dos 137 anos de edies do jornal O Estado de So Paulo. dentro desse mesmo propsito de preservao e disponibilizao ampla ao pblico do acervo de sua Hemeroteca que o Arquivo Pblico do Estado de So Paulo vem organizando o site Memria da Imprensa8 e promovendo a digitalizao de suas colees de peridicos. Dispondo de uma Hemeroteca com uma coleo de mais de 200 ttulos de importantes jornais da imprensa paulista e paulistana, e de aproximadamente 1.200 ttulos e mais de 32 mil exemplares de revistas de So Paulo, de outros estados e tambm do exterior, o Arquivo vem progressivamente digitalizando e dando acesso, via seu portal, a esses materiais da imprensa. Relevante destacar, ainda, que a riqussima coleo de peridicos do Instituto Histrico e Geogrfico de So Paulo, que rene mais de 3 mil ttulos de jornais, revistas e folhas tipogrficas do sculo XIX e incio do sculo XX, e no interior da qual se localiza grande parte das colees que serviram de base para a nossa pesquisa, encontra-se, desde 2008, sob a guarda do Arquivo. Na coleo do Instituto, a variedade de ttulos representada por um conjunto documental que abriga uma grande diversidade de publicaes, denotando a emergncia e a expanso da imprensa como espao de manifestao pblica dos mais variados grupos sociais e interesses polticos naquele contexto histrico. Grande parte do acervo composta por exemplares nicos, ou primeiros exemplares do peridico, ou, ento, por pequenas colees de peridicos que tiveram vida efmera, representantes tpicos de um momento em que a imprensa ainda bastante diversificada, indicando a formao de novos grupos produtores e de pblicos leitores para o periodismo nacional. Apesar de quase desconhecidos das pesquisas acadmicas, esses peridicos representam dimenses importantes do processo de formao do jornalismo paulista e de sua afirmao enquanto um ator poltico nas disputas pblicas. A crescente digitalizao dessas colees oportunizam novas opes de pesquisa e debate sobre o estudo e a reflexo proposta pelo livro. Assim, foi com grande satisfao que aceitei a proposta do Arquivo Pblico do Estado de So Paulo de reeditar o So Paulo em Papel e Tinta no formato e-book. Publicado originalmente em um momento em que as ferramentas da preservao digital dos materiais e a pesquisa na rede mundial ainda engatinhavam, o livro ganha novas conotaes e possibilidades nesse formato. Como indicado na verso impressa, publicada em 2000, julguei melhor assumir na sua totalidade a verso original ento veiculada, trazendo a pblico a reflexo com os vieses e marcas do tempo de sua produo. Na combinao entre ritmos e procedimentos de investigao da era da mquina de escrever eltrica, adotados ento, e as possibilidades atuais que permitem o acesso digital aos mais variados acervos, espero estar contribuindo para o desenvolvimento, o avano e a superao de muitas das questes ali propostas. Na edio do e-book torna-se necessrio, mais uma vez, agradecer a parceria institucional do Arquivo Pblico do Estado de So Paulo e, particularmente, o empenho e trabalho cuidadoso de sua equipe, nas pessoas de Haike Roselane Kleber da Silva, Diretora do Centro de Difuso e Apoio Pesquisa, e aos funcionrios diretamente envolvidos 8 Disponvel em: . 15 na edio do livro: Jssica Ferraz Juliano, Srgio Jos Meurer, Vania Silva, Helen Karina Teixeira Batista, Rita de Cssia Higa, Renata Gonalves, Lgia Mrcia Faitarone, Julio Couto Filho, aos funcionrios do Centro de Processamento de Informaes Digitais e do Ncleo de Microfilmagem e Digitalizao. Ao final, no que se refere s relaes entre a pesquisa e as questes da agenda pblica atual, nunca demais reafirmar o diagnstico sobre o processo crescente de concentrao dos meios de comunicao na sociedade brasileira, que se desdobra na formao de poderosos conglomerados miditicos, com enorme poder econmico e poltico, decisivos para o atrofiamento do espao pblico e democrtico. No contexto de disputas emergentes na atual conjuntura de redefinio dos sistemas de comunicao, de rearranjo do controle dos meios e das lutas pela democratizao da comunicao, a inteno ao retomar o estudo sobre a dinmica das lutas e dos embates travados na e pela imprensa em outro momento histrico a de contribuir para a ampliao de tradies de pesquisa que caracterizam a imprensa como um lugar fundamental na articulao de projetos, na afirmao de memrias e na construo de sentidos e de realidades sociais. Esta tambm uma forma de renovar meus compromissos com muitos daqueles homens e mulheres que, num contexto de emergncia da imprensa moderna em So Paulo, muito diferente do nosso tempo, ao produzir jornais e revistas, j assumiam inmeras disputas pela ampliao da liberdade de imprensa, do direito informao e da liberdade de expresso dos cidados na sociedade brasileira. 16 SUMRIO APRESENTAO 19 INTRODUO 21 PARTE I - CULTURA LETRADA E VIDA URBANA 1. CIDADE E CULTURA LETRADA 30 2. O BURGO DOS ESTUDANTES 37 3. SO PAULO VIRA PAULICEIA 43 PARTE II - FOLHAS DA CIDADE 4. TEMPO DAS TIPOGRAFIAS 53 5. SAI AOS DOMINGOS 62 6. OUTRAS FOLHAS 75 PARTE III - A IMPRENSA , A CIDADE E O POVO 7. CIRCUITOS DE DIFUSO: DA DONZELA AO OPERRIO 84 8. AO COMRCIO INTELIGENTE: A IMPRENSA E O MERCADO 93 9. A IMPRENSA E A MENTALIDADE DO POVO 100 CONCLUSES 110 BIBLIOGRAFIA 120 FONTES 128 17 18 APRESENTAO Nesta verso em e-book preservei o texto original de minha tese de doutorado, que s passou por pequenas modificaes, visando, sobretudo, torn-lo mais acessvel a um nmero maior de leitores. As dificuldades em publicar textos desenvolvidos para titulao so bastante conhecidas da rea e, geralmente, impem defasagens entre o momento da redao original e o da publicao. Tal situao abre para os autores a possibilidade ou de uma corrida para a atualizao reviso de questes, referncias bibliogrficas, etc. , ou a de, na publicao, assumir a datao do texto original. No caso do presente trabalho, julguei por bem assumir totalmente as marcas conjunturais da reflexo desenvolvida na tese, conservando, inclusive, a introduo, que contm referncias extremamente datadas. A mudana do ttulo do trabalho que na tese era Na cidade, sobre a cidade: cultura letrada, periodismo e vida urbana para So Paulo em papel e tinta: periodismo e vida urbana - 1890/1915 tem a inteno de sinalizar de forma menos acadmica e mais direta para o leitor o campo central de reflexo do trabalho, chamando ateno para o desenvolvimento das relaes entre periodismo e o viver urbano naquele perodo da histria da cidade. No que diz respeito a essas observaes preliminares, deve-se ainda apontar que no decorrer dos seis anos que separam a defesa da tese da publicao da primeira edio desta obra, as pesquisas sobre a imprensa paulistana e suas interaes no processo de transformao da cidade tiveram um grande desenvolvimento. Desde ento, vieram a pblico vrios estudos sobre diversos jornais e revistas paulistanos daquela poca, diferentes dimenses da problemtica, tais como as relaes entre publicidade, imprensa e sociabilidades urbanas; as redefinies e transformaes da cultura letrada paulista no perodo e os processos de constituio das empresas jornalsticas e suas interaes com o mundo do entretenimento foram objeto de vrias pesquisas na rea. Na minha trajetria acadmica no decorrer desse perodo, atuando na linha de pesquisa Cultura e Cidade, do Programa de Estudos Ps-Graduados em Histria da PUC/SP, desenvolvi outras pesquisas e orientei teses e dissertaes sobre o periodismo e a pequena imprensa cultural e de variedades de So Paulo e de outras cidades do pas nas dcadas iniciais do sculo XX. Na publicao do livro, optei pela citao das referncias desses trabalhos na atualizao da bibliografia geral sem, no entanto, incorporar as contribuies, possveis aprofundamentos e debates que eles propem ao texto original da tese. 19 20 INTRODUO Outubro de 1993, cenas da cidade letrada na Nao brasileira: no dia 20, em meio crise das denncias de corrupo no Congresso Brasileiro, no horrio nobre, ao vivo e em cores, veiculada pelo telejornal de maior audincia nacional o Jornal Nacional , com o semblante srio e satisfeito, Cid Moreira comea a transmitir a cerimnia de posse do Dr. Roberto Marinho, presidente das Organizaes Globo de Telecomunicaes, na Academia Brasileira de Letras. No recesso de seu lar, o povo brasileiro assiste, numa edio de mais de oito minutos, transmisso da cerimnia extremamente concorrida que empossa Roberto Marinho na cadeira de Otto Lara Resende. Na presena dos lderes da Nao, presidentes de associaes do empresariado, governadores, presidentes das casas legislativas, dos altos tribunais, representantes das artes e da cultura, o novo imortal faz um discurso de homenagem palavra. De fardo, emocionado, Dr. Roberto clama pelo resgate de nossa divisa ordem e progresso. Corta. No dia seguinte, em outra rede de televiso, tambm ao vivo e em cores, entra a mais nova sensao do telejornalismo brasileiro: o Aqui e Agora! Subitamente, estamos assistindo maior confuso, tumultos, quebra-quebra, bombas de gs, cinegrafistas sem cmera. Aps mais de 60 dias de greve, os professores de 1 e 2 graus da rede estadual de ensino do Estado de So Paulo, desesperadamente, buscam uma soluo para um movimento que paralisa quase 200 mil professores e mais de 6 milhes de alunos. Nessa e em outras edies dos telejornais daquele dia sobre a ocupao da Assembleia Legislativa de So Paulo, os professores grevistas so descritos como baderneiros e radicais. As cenas transmitidas pelas principais redes de televiso mostram uma categoria letrada, jovem, empobrecida e desesperada de trabalhadores. Nos dias que se seguem, os professores em movimento e seu sindicato buscam persistentemente aglutinar apoios de outros setores sociais na resoluo da greve. Os diversos grupos da sociedade civil, alunos, pais de alunos, professores do ensino particular e das universidades, sindicatos e movimentos diversos da populao mostram-se apticos e incapazes de articular um apoio efetivo luta dos professores. A questo da escola pblica e do ensino aparece como um problema s deles. Como em outros pontos do pas, uma poltica deliberada de descaso em relao educao impe outra derrota ao movimento dos professores. De certa forma, tais cenas exemplificam o cho social onde cresceram as preocupaes de pesquisa sobre as relaes entre cultura e vida urbana, cujos resultados articulam-se neste trabalho. No ambiente de perplexidade e impotncia colocado por esse presente televisivo, parece urgente refletir sobre o lugar da cultura letrada na instituio de poderes na cidade. Nesta reflexo sobre a natureza da cultura letrada, algumas perguntas pouco 21 otimistas intrometem-se. Quais caminhos histricos recriam a Academia Brasileira de Letras como lugar do desejo e da vaidade do velho jornalista e mais poderoso homem de comunicaes do pas? Quais processos e projetos, vitrias e derrotas, pontuam este presente de desesperana da escola pblica brasileira? Como pesquisadora da cidade e da cultura, registro e busco sentidos. As indagaes sobre a importncia histrica de tais processos parecem perdidas numa memria que, dialogando centralmente com as fontes produzidas pelas elites, d continuidade a uma viso de que, enquanto Nao, somos muito pouco afeitos ao mundo letrado. A avaliao sobre os significados sociais dos processos de difuso da cultura letrada em nossa histria parece ter sido ofuscada pela compreenso corrente de que somos, sempre fomos e sempre seremos um pas iletrado. Anlises, diagnsticos e avaliaes sobre a questo compem uma linha reta e contnua, um quase destino, que liga nosso passado colonial, iletrado e atrasado, aos ndices atuais de analfabetismo. O domnio dos cdigos letrados, habilidade fornecida pelos bancos acadmicos, permeia o discurso competente das elites e articula argumentos preconceituosos de desqualificao de lideranas populares. As questes sobre as razes do insucesso de inmeros projetos de alfabetizao e letramento do povo, sobre os fracassos do ensino em seus diversos nveis, sobre a incapacidade de penetrao da imprensa respeitvel nos meios populares so sempre respondidas atravs do padro clssico europeu, em que os processos de familiarizao das sociedades com os cdigos da escrita e da leitura obedecem a outros ritmos e temporalidades. O contato com o mundo acadmico, com as avaliaes das elites sobre os processos de educao do povo, transmite a sensao de que carregamos um enorme complexo civilizatrio. Vozes de um outro momento histrico sugerem outras direes de pesquisa e reflexo sobre os processos de difuso da cultura letrada em nossa sociedade. Desenhando-se no interior deste conjunto de preocupaes e indagaes, o objetivo central deste trabalho refletir sobre as relaes entre cultura e cidade. Mais especificamente, buscou-se perseguir algumas daquelas indagaes no estudo das relaes entre cultura letrada, periodismo e vida urbana no processo inicial de formao da metrpole paulistana. O interesse pelo estudo das relaes entre cultura e cidade nasceu de reflexes sobre a prtica profissional do ensino/pesquisa em torno da Histria Social. Na base da definio de uma problemtica que pe em questo a natureza das relaes entre cultura(s) de elite(s) e cultura(s) popular(es) na experincia social da cidade de So Paulo, entre os anos de 1890 e 1915, firma-se a avaliao sobre a importncia das dimenses culturais dos processos de dominao e resistncia na contemporaneidade. Como pesquisadora, a vivncia como professora de uma escola pblica excludente e autoritria, a formao e a militncia intelectual num universo acadmico empobrecido pelo crescente distanciamento em relao s questes que envolvem a gente comum, a sensaco de impotncia frente fora hegemnica dos meios de comunicao de massa nos processos de formao da mentalidade popular misturaram-se e compuseram um leque de preocupaes que orientaram a leitura daquela experincia histrica. De certa forma, a cultura letrada parecia tambm propor um caminho de autorreflexo, aproximando o pesquisador do sujeito histrico. A cidade a companheira mais antiga. Nelas, nas grandes, vivi e me formei. Nelas, desembocaram minhas preocupaes de pesquisa. Em certa medida, a opo por pesqui- 22 sar questes da cidade articula a avaliao terica da importncia do espao e da experincia social urbana na histria contempornea em busca de compreenso do prprio espao de vivncia e formao. O ritmo da vida na cidade grande, sua capacidade de fascinar e intimidar, seu ambiente mais alerta, a complexidade e a densidade dos encontros e desencontros que ela promove sempre me atraram mais do que as vivncias e os ritmos mais sincopados do campo. No caminho da reflexo, a pesquisa sobre a experincia social dos trabalhadores em servios na cidade de So Paulo no incio do sculo XX, desenvolvida no trabalho de mestrado, colocou-me em contato com um momento privilegiado de formulao e construo de modos de viver urbanos (CRUZ,1991). Mesmo dentro da perspectiva mais delimitada da histria do trabalho, que ento adotei, a cada momento da pesquisa e da reflexo, o estudo das lutas e embates de trabalhadores, tais como condutores e motorneiros, lixeiros, cocheiros, carregadores, etc., remetia a um processo intenso de transformao da vida urbana. Ali, o dilogo com inmeras leituras e escritas sobre o viver urbano sugeriam um processo intenso de aprendizagem e experimentao social. As transformaes da cidade, que tinham seu lado mais visvel na transformao e ocupao dos espaos do planalto de Piratininga ocasionadas pela exploso demogrfica resultante da incorporao de novos e diferentes grupos populacionais, sugeriam tambm um processo dinmico de constituio/redefinio das relaes culturais. Num primeiro momento, as articulaes entre a cultura letrada e o viver urbano tiveram como ponto de partida as reflexes e questes suscitadas pelo trabalho com a imprensa paulistana das primeiras dcadas do sculo XX, particularmente a pequena imprensa das folhas e revistas ilustradas. A identificao e referenciao dessas fontes, levadas a cabo em um projeto que visou produzir um guia de pesquisa sobre a imprensa peridica paulistana do fim do sculo XIX s primeiras dcadas do sculo XX, colocou-me diante de um processo de expanso/transformao da imprensa, do qual indagava o significado social1. O contato com esses materiais e a identificao de sua crescente articulao com as experincias sociais que constituem a metrpole pareciam propor que a expanso/redefinio da cultura impressa, concretizada principalmente pela expanso da imprensa peridica, constituia-se como dimenso importante daquela experincia social. A partir da ltima dcada do sculo XIX, seja atravs da incorporao das novas formas de produo e representao, seja atravs da construo de temticas e formas de contar, o povo e a cidade intrometem-se nas pginas da imprensa. Assim, ao nos questionarmos sobre os espaos de produo e difuso desses peridicos, a cada instante esbarrvamos com a constituio e/ou transformao das prticas culturais na cidade. A, a belle poque paulistana insinuava-se com toda fora, novas formas de sociabilidade pareciam se impor, jornais e revistas projetavam sobre a cidade as demandas de diferentes grupos sociais e davam visibilidade a um processo acelerado de ocupao/inveno dos espaos pblicos da metrpole em formao. Na reflexo mais 1 O projeto mencionado, desenvolvido sob minha coordenao na PUC/SP, com o apoio do CNPq, teve como objetivo a organizao de um guia sobre a pequena imprensa paulistana no perodo de 1870 a 1930. No desenvolvimento da pesquisa, que examinou mais de 400 colees de peridicos do gnero, foram sitematizadas referncias para cada uma das colees, que constituram a base da publicao por mim organizada. Cf. CRUZ (1997). 23 especfica sobre as relaes entre cultura letrada e vida urbana no perodo, a imprensa, constituindo-se enquanto um dos espaos de gestao e manifestao de novas significaes e projetos sociais, apresentava-se como suporte documental fundamental. O prprio movimento de expanso da imprensa peridica, o seu fazer-se, mostrava-se como faceta cultural mais importante do processo de formao/transformao da vida urbana. Da tica que ento interrogava tais materiais, destacava-se o fato de que, nas pginas desse conjunto extremamente variado de publicaes, a cultura letrada tecia estreitas articulaes com os projetos e disputas para e pela cidade. Dando visibilidade a inmeros projetos e concepes sobre o viver urbano no perodo, esses peridicos no s sugeriam um percurso onde a cultura letrada avanava sobre terrenos sociais anteriormente alheios ao seu processo de constituio/instituio como desenhavam um campo extremamente dinmico da disputa cultural. Dentre as inmeras possibilidades que a densidade e a riqueza de tais materiais sugeriam, optei por explorar as relaes entre cultura letrada, periodismo e vida urbana. No desenvolvimento da pesquisa, a pequena imprensa cultural e de variedades do perodo transformou-se no principal suporte documental. O trabalho realizado no projeto anterior, que resultou num conjunto de mais de 400 fichas descritivas de pequenas folhas e revistas da poca, tornou possvel o desenvolvimento de uma reflexo mais generalizada sobre o movimento de constituio/transformao dessa imprensa. Sem minimizar a importncia dos trabalhos que se desenvolvem sob a tica da histria da imprensa e dos meios de comunicao, buscou-se, antes, discutir seu processo de constituio no prprio territrio da Histria Social. Portanto, no interior de uma perspectiva que entende a imprensa enquanto prtica social e momento da constituio/instituio dos modos de viver e pensar. O trabalho com a imprensa peridica, a busca de seus nexos e articulaes sociais mais amplos, levou-me ao contato com um conjunto variado de relatos e memrias sobre a vida paulistana no perodo. Atravs dessa documentao, em sua maioria j incorporada pela historiografia brasileira aos estudos desse momento histrico, foi possvel avanar um pouco mais na reflexo sobre os ambientes, prticas e projetos dos grupos letrados, seus vnculos com diversos setores da populao, a formao dos pblicos e as significaes sociais da leitura. Assim, a retomada do contato com a rica imprensa operria do perodo, realizado anteriormente na investigao de mestrado, tambm permitiu ampliar o escopo das indagaes de pesquisa. O aprofundamento da pesquisa em alguns ttulos significativos dessa imprensa, delineando um campo popular letrado mais explcito que o sugerido pelas pequenas folhas e revistas domingueiras, abriu caminhos para o desenvolvimento da discusso sobre as disputas culturais travadas no campo da cultura letrada. Nesse movimento de construo de um campo de pesquisa que articulasse as questes de cultura letrada, periodismo e viver urbano, alm do convvio mais geral com a literatura terica e historiogrfica pertinentes ao tema, deve-se destacar alguns dilogos mais prximos. As reflexes de Angel Rama, em A Cidade das Letras (1985), sobre o papel das elites letradas e o exerccio das linguagens simblicas da cultura na formao das cidades latino-americanas, impulsionaram o encaminhamento de questes surgidas no trabalho com as fontes, articulando a questo urbana ao estudo da escrita e da imprensa. Nessa mesma 24 direo, contriburam suas colocaes sobre o lugar fundamental do jornalismo, que arrebatava as cidades, na redefinio do papel das elites letradas na Histria Social latinoamericana a partir do final do sculo XIX. No interior da perspectiva lanada por Rama, era possvel problematizar o periodismo para alm da identificao dos grandes jornais e jornalistas, estudando como prtica que compunha o tecido social urbano. Devo tambm singularizar alguns trabalhos da recente historiografia brasileira, que abordam a temtica da cultura urbana no perodo, sob enfoques e preocupaes diversas. Vale salientar que, na base do dilogo com tais trabalhos est a preocupao comum em pensar as experincias culturais desse perodo, onde o signo da transio, instabilidade, experimentao e novidade indicam uma situao cultural efervescente em funo de suas marcas prprias. Tal posio implica questionar as qualificaes de pr ou ps como explicativas daquela experincia, deslocando sua compreenso para o interior da Histria Social do perodo. Nesse sentido, o debate com o trabalho de Flora Sussekind, Cinematgrafo de Letras (1987), problematizando as relaes entre tcnica, literatura e modernidade no Brasil do incio do sculo XX, abriu interessantes perspectivas sobre as dimenses sociais da escrita e de sua constituio como prtica social. As preocupaes de Foot Hardman (1983) em analisar o processo tenso e contraditrio de contaminao/marginalizao/ redefinio do popular no mbito das relaes culturais no perodo, que atravessam seu trabalho sobre vida operria e cultura anarquista Nem Ptria, Nem Patro , abriram um espao concreto de dilogo com suportes documentais e perspectivas tericas num mesmo campo temtico. O trabalho de Marcos Antnio da Silva, Caricata Repblica: Z Povo e o Brasil (1990), sobre o humor visual em revistas de variedades da poca, contribui para a formulao de questes que articulam o desenvolvimento do periodismo gestao de um esboo da indstria cultural no perodo. Nas discusses, buscou-se incorporar suas preocupaes sobre a necessidade de avaliao desse processo e de suas articulaes s modalidades ideolgicas dominantes na sociedade brasileira da poca 2. A insero dessas preocupaes de pesquisa no interior de uma perspectiva de Histria Social que compreende a cultura enquanto um campo de foras cujo foco central so as relaes entre cultura e hegemonia, como prope Stuart Hall, levaram delimitao de um campo temtico sobre as relaes entre cultura letrada, periodismo e viver urbano. Buscou-se discutir a cidade enquanto espao da cultura letrada, pensando o exerccio da escrita e da leitura como dimenses importantes das culturas urbanas e das relaes de poder na cidade moderna. No campo terico-metodolgico, buscou-se encaminhar o trabalho em direes diversas daquelas que lidam com o estudo das linguagens a partir de noes como reflexo e derivao. Nessa direo, foram fundamentais as reflexes de Raymond Williams (1979) 2 Deve-se apontar que, desde a finalizao desta tese, em 1994, vrios outros estudos, com propostas diferenciadas, tm abordado as relaes entre periodismo e vida urbana na cidade de So Paulo no perodo do final do sculo XIX e incio do sculo XX. E se, devido opo da manuteno da tese em sua redao original, agora no se incorporaram as contribuies desses estudos, vrios dos quais expandem dimenses do tema aqui somente esboadas ou mesmo que propem discusses com teses aqui defendidas, buscou-se, ao menos, cit-los na bibliografia geral do livro. 25 sobre a materialidade dos fenmenos da linguagem. Do dilogo com suas proposies, emerge a perspectiva de que pensar as linguagens enquanto atividade significa buscar desvendar os processos e prticas sociais que articulam sua constituio/instituio em um momento histrico determinado. Na reflexo sobre as relaes entre a(s) cultura(s) de elite(s) e a(s) cultura(s) popular(es), a escrita foi compreendida como dimenso da experincia social que, enquanto espao privilegiado da linguagem dos grupos dominantes, se constitui em permanente tenso com outros espaos da linguagem dos grupos dominados. (SILVA, 1986). Ao adentrar o universo das discusses sobre a natureza das relaes entre cultura de elite e cultura popular, encontrei-me diante de questes e escolhas bastante delicadas. De que forma assumir no interior da pesquisa e da reflexo noes to fludas e ao mesmo tempo to marcadas por movimentos histricos e tradies tericas como as de povo e popular? (FENELON, 1992). Atravs de quais ngulos pode-se articular as noes de povo e popular s relaes de classe, assumindo minhas preocupaes centrais como historiadora sobre os sentidos e direes das lutas, sem cair, conforme alerta Fenelon, na armadilha que, constituindo dois campos isolados, o hegemnico e o autntico, obscurece a vitalidade da cultura como experincia vivida no sentido de um duplo movimento de conteno e resistncia que ela carrega? No caso especfico deste trabalho, como evitar que a definio do prprio terreno da pesquisa, a cultura letrada, marcado e delineado pela forte presena das elites dominantes, exclua a disputa e seja percebido apenas enquanto espao de produo da homogeneizao e da manipulao cultural? De formulao necessria, por vezes delineando um espao de hesitaes e dificuldades para o trabalho concreto de anlise das fontes, este conjunto de perspectivas e questes coloca-se muito mais como um horizonte de preocupaes do que a promessa de um roteiro a ser cumprido. Adotando a viso de que tais questionamentos no encontram resoluo no plano meramente conceitual, buscou-se encaminh-los na discusso das diferentes concepes, projetos e prticas identificados no processo de pesquisa. Em sua redao final, o texto est organizado em trs partes, cada uma composta por captulos menores, que se articulam em torno de uma temtica central. A primeira parte Cultura letrada e vida urbana busca discutir a historicidade das relaes entre a cultura letrada e os modos de viver urbanos. O captulo 1 Cidade e cultura letrada delineia o universo de pesquisa no qual se inserem as preocupaes sobre a cultura letrada e identifica questes gerais sobre o estudo da temtica na histria do Brasil. O captulo 2 O burgo dos estudantes procura refletir sobre a natureza da vida urbana e da cultura letrada na cidade de So Paulo no perodo anterior ao final do sculo XIX. O captulo 3 So Paulo vira Pauliceia busca caracterizar o ambiente da metrpole em formao, a progressiva articulao dos cdigos da escrita e da leitura constituio dos modos de viver e pensar a cidade e a relevncia da difuso da cultura impressa nesse processo. A segunda parte do trabalho Folhas da cidade , centrada no exame dos diferentes gneros de publicaes, procura refletir sobre os caminhos e a natureza social do processo de expanso da imprensa peridica. O captulo 4 Tempo das tipografias examina o processo de expanso e diversificao dos materiais impressos no perodo estudado. O ca- 26 ptulo 5 Sai aos domingos trata da formao de uma imprensa ligada ao entretenimento, buscando explorar suas articulaes com o processo de afirmao de novas linguagens e formas de sociabilidade urbanas. O captulo 6 Outras folhas discute as articulaes de outros gneros da pequena imprensa, tais como jornais de bairro e da imprensa operria, no processo de expanso e ampliao social da imprensa peridica. A terceira parte da tese A imprensa, a cidade e o povo procura explorar algumas das direes de reflexo apontadas pelo material pesquisado sobre a expanso da cultura letrada, via imprensa peridica, para alm dos crculos das elites paulistanas tradicionais. O captulo 7 Circuitos de difuso: da donzela ao operrio encaminha indagaes sobre a amplitude e a natureza social dos circuitos de difuso e sentidos da leitura das publicaes peridicas naquele momento histrico. O captulo 8 Ao comrcio inteligente: a imprensa e o mercado , privilegiando a anlise das publicaes comerciais e do reclame, busca discutir as relaes entre cidade, mercado e o periodismo. Finalmente, o captulo 9 A imprensa e a mentalidade do povo persegue indicaes sobre os processos de disputa travados no interior do movimento de expanso da cultura impressa no perodo. 27 28 29 A escrita, que tinha encontrado asilo no livro impresso, onde levava sua existncia autnoma, inexoravelmente arrastada para a rua pela propaganda e submetida s brutais heteronomias do caos econmico. Eis a rigorosa escola de sua forma nova. Se h sculos, ela havia pouco a pouco comeado a deitar-se, da inscrio vertical ao manuscrito repousando inclinado na escrivaninha, para finalmente acamar-se no livro impresso, ela comea agora reeguer-se gradualmente do cho. O jornal j lido mais na vertical do que na horizontal, cinema e propaganda acabam impondo escrita a verticalidade ditatorial. [...] Nuvens de gafanhotos de escrita, que hoje em dia tapam o sol do suposto esprito dos habitantes das grandes cidades, tornar-se-o mais densas a cada ano que passa. Rua de Mo nica. Walter Benjamin. 1. CIDADE E CULTURA LETRADA O olho no v coisas, mas imagens de coisas que significam outras coisas As Cidades Invisveis. Italo Calvino. As prticas letradas e, particularmente, a escrita e a leitura constituem dimenses importantes das relaes culturais na cidade. Como coloca Marcel Roncayolo (1985), na tradio clssica da Europa a cidade aparece como o lugar da cultura, nomeadamente da cultura escrita. Lewis Munford (1965) indica que a inveno de formas, tais como o registro escrito, a biblioteca, o arquivo, a escola e as universidades, constitui um dos feitos mais antigos e mais caractersticos da cidade. Em diversos momentos histricos, em relaes sociais diferentes, a escrita e a leitura mediaram os vnculos dos habitantes das cidades. As tenses e articulaes entre a cultura letrada, campo privilegiado de expresso das elites, e a oralidade constituem dimenso fundamental da formao das culturas urbanas e das relaes de poder na cidade moderna. Na historiografia contempornea, conforme observa Robert Darnton(1990) em seu estudo sobre mdia, cultura e revoluo, as relaes entre escrita e oralidade, cultura letrada e cultura popular tm sido progressivamente valorizadas enquanto dimenses importantes para a compreenso da experincia moderna. Num movimento em que a histria social avana sobre campos mais tradicionais, como a histria intelectual ou histria social das ideias, os estudos de movimentos, correntes, prticas e produtos culturais tm assumido novos significados e indagaes. Na verdade, uma grande variedade de estudos, como os de Natalie Zemon Davis (1990), Peter Burke (1989), E. P. Thompson (1979, 1991), Raymond Williams (1989), Carlo Ginsburg (1987), Roger Chartier (1987, 1990) e Robert Darnton (1990, 1992), entre outros, com dilogos e enfoques tericos variados, tem colocado a cultura no centro das reflexes historiogrficas recentes. Nos ltimos anos, como assinala Lynn Hunt, [...] os prprios modelos de explicao que contriburam de forma mais significativa para a ascenso da histria social passaram por uma importante mudana de nfase a partir do interesse cada vez maior, tanto dos marxistas quanto dos adeptos dos Annales, pela histria da cultura. (1992, p. 6). 30 Presentes nos trabalhos de inmeros historiadores da atualidade, noes como as de mediaes culturais e morais e experincia social, de extrao thompsoniana; de mentalidade, oriunda da prtica histrica da chamada terceira gerao dos Annales; da cultura como processo instituinte, conforme prope Raymond Williams; de habitus como estrutura que organiza a percepo, elaborada por Pierre Bourdieu expressando a diversidade de abordagens e compreenses terico-metodolgicas sobre as relaes entre os modos de viver e pensar, revelam, sem dvida, a nfase da discusso sobre o terreno da cultura.1 Nessa literatura, temas como o impacto cultural da Reforma, a criao das culturas urbanas e suas relaes com os ambientes rurais, as experincias culturais das revolues burguesas, os processos de moralizao dos pobres no perodo da Revoluo Industrial, os usos sociais da imprensa e as transformaes nas modalidades culturais de dominao e resistncia nas sociedades industriais so analisados sob perspectivas e ngulos diversos. Nesse campo de reflexes, as investigaes sobre a progresso das prticas da escrita e da leitura na Europa moderna tm se constitudo em um eixo extremamente profcuo. O ingresso das sociedades ocidentais na cultura da escrita, o desenvolvimento da cultura impressa, os progressos da alfabetizao e a descoberta de que nos pases reformados ou nas naes catlicas, nas cidades e nos campos, no Velho e no Novo Mundo a familiaridade com a escrita progride, dotando as populaes de competncias culturais que antes constituam o apangio de uma minoria, tm se constitudo como base de problemticas de inmeras investigaes. (CHARTIER, 1991, p. 116). No mbito deste trabalho, interessa principalmente destacar que as articulaes entre vida urbana e cultura letrada, a difuso e penetrao da cultura impressa sobre as parcelas iletradas da sociedade, processo longo na experincia histrica da Europa moderna, que como coloca Peter Burke entre os sculos XVI e XIX solapa a cultura oral tradicional [...], constitui-se em objeto de trabalho de inmeros desses estudos. (BURKE, 1989, p. 17). Na formao do mundo contemporneo, destacam-se os estudos sobre as relaes entre cultura e modernidade. A, as cidades metrpoles, cidades cosmopolitas como Paris, Londres, Viena, Nova York, etc., emergem como locus privilegiado das investigaes. Nesses espaos, a historiografia busca refletir sobre a emergncia de novos modos de viver e novas formas de sensibilidade. O clima cultural e intelectual das metrpoles em formao desdobra-se em inmeros objetos e temticas, como a cidade se constituindo em espao da multido, as transformaes da esfera pblica e a construo das linguagens e do cenrio da cidade moderna.2 Em tais universos, a cultura letrada transforma-se, e a escrita, articulada s novas linguagens como a fotografia, o cinema e a propaganda, invade os espaos pblicos. 1 Essa diversidade de enfoques e abordagens que permeia a Histria da Cultura na atualidade pode ser percebida, entre outros, atravs dos trabalhos de THOMPSON (1981); VOVELLE (1987); LE GOFF (1990); WILLIAMS (1979); BOURDIEU (1987). 2 Alguns exemplos dessa bibliografia sobre a cidade comtempornea e temas correlatos que, recentemente, tm se tornado mais familiares em nossas discusses so: GAY (1978); SENNET (1988); SCHORSKE (1988); LIPOVETSKY (1989); HOLSON (1993). 31 Nessa conjuntura, a difuso e a popularizao da cultura letrada por meio de processos como a escolarizao massiva, o desenvolvimento da linguagem comercial da propaganda e a formao de uma imprensa comercial colocam-se como questes importantes para a compreenso das novas redes de comunicao social na metrpole e das relaes de poder a emergentes. Tais estudos e suas perspectivas constituem o universo mais amplo de dilogo historiogrfico desse trabalho. No entanto, como adverte o prprio Burke, a multiplicao de monografias e discusses sobre os temas da cultura fora da Europa, ao mesmo tempo que contribuem para uma reflexo mais generalizada sobre a cultura moderna, tambm [...] definem por contraste o que especificamente europeu e revelam os pontos fortes e fracos de conceitos fundamentais, ao test-los em situaes para as quais no foram originalmente criados [...]. (1989, p. 17). Lograr estabelecer um dilogo criativo e crtico com essa literatura, que problematiza a cultura letrada na tradio clssica europeia dos sculos XVI ao XX, pensando a experincia histrica da Amrica em suas diferentes fases e processos, como articulada aos centros hegemnicos, sem transform-la em modelo terico acabado, um dos desafios deste trabalho. No Brasil, assim como em todo o Novo Continente, as relaes culturais se constituem segundo processos e temporalidades diversos dos do padro clssico europeu. Na reflexo sobre a vida cultural no continente americano, outras periodizaes, temticas e perspectivas emergem. Carente de estudos monogrficos na rea da cultura, o perodo colonial, mais do que qualquer outro momento de nossa histria, apresenta-se como chave de uma herana a ser decifrada. Da leitura de inmeros estudos relacionados temtica das culturas de elite e das prticas letradas, bem como desta pesquisa, fica a impresso de que os parmetros se perdem quando nos encontramos fora do espao do Estado-nao. As interdies metropolitanas ao desenvolvimento das artes grficas na colnia, que provocam a chegada tardia de Gutemberg ao Brasil, transformam a cultura impressa num fenmeno novidadeiro em pleno sculo XIX.3 No espao da Amrica Ibrica, as relaes entre cultura letrada e vida urbana integram uma dimenso da conquista e da colonizao. Aqui, parece instigante pensar, como prope Angel Rama, que a Amrica foi espao pioneiro de experimentao da cultura barroca, e a cidade colonial, livre das heranas da cidade medieval, constitui-se enquanto espao privilegiado do exerccio do saber barroco. Entendendo a cidade colonial como parte do aparato construdo pela dominao metropolitana, o autor coloca que, embora o campo e as grandes propriedades rurais se 3 interessante destacar que esse carter novidadeiro da imprensa e de outras instituies letradas um fenmeno da colonizao portuguesa, j que na Amrica Espanhola as universidades e a imprensa so instituies que vm se afirmando desde os sculos XVI e XVII. Como aponta Srgio Buarque de Holanda, na Amrica Espanhola universidades como as de So Domingos (1538), do Mxico (1551) e de So Marcos, em Lima (1571), so criadas j no sculo XVI. Assim tambm acontece com a imprensa e o mesmo autor nos informa que, por volta de 1747, ano em que aparece no Rio de Janeiro, para logo depois ser fechada, por ordem real, a oficina de Antnio Isidoro da Fonseca, [...] em todas as principais cidades da Amrica Espanhola existiam estabelecimentos grficos. (HOLANDA, 1963, p. 119). 32 projetem sobre os ncleos urbanos, estes so a sede do poder metropolitano e neles reinam as ordenaes e as instrues ultramarinas. Refletindo sobre o papel da cidade nas colnias ibero-americanas, o autor prope que: A cidade bastio, a cidade porto, a cidade pioneira das fronteiras civilizadoras, mas sobretudo a cidade sede administrativa que foi a que fixou a norma da cidade barroca, constituram a parte visvel e sensvel da ordem colonizadora, [...] mas dentro delas sempre houve outra cidade, no menos amuralhada, e no menos porm mais agressiva e redentorista, que a regeu e conduziu [...] [que] devemos chamar de cidade letrada [e] que compunha o anel protetor do poder e executor de suas ordens: uma pliade de religiosos, administradores, educadores, profissionais, escritores e mltiplos servidores intelectuais. (RAMA, 1985, p. 29-42). s principais cidades coloniais, como Lima, Mxico, Salvador e Rio de Janeiro, competia dominar e civilizar seu contorno, o que primeiro se chamou evangelizar e depois educar. No clima beligerante da Contra-Reforma, por meio da Companhia de Jesus, de outras ordens religiosas e da Inquisio, das procisses e das festas sacras, do aprendizado dos falares nativos, do combate s prticas culturais dos povos africanos escravizados, monopolizando e sacralizando a escrita e apropriando-se da oralidade das culturas confrontadas, a cidade letrada dominaria vastas multides plurilingusticas e analfabetas. No Brasil, como apontam as discusses de linguistas e estudiosos da cultura, tal processo civilizatrio de produo da unidade lingustica que impe a norma culta portuguesa, realizada atravs da represso etnocida dos falares nativos e da imposio da solido tnica e lingustica aos grupos africanos, tambm recebe o nome de processo de assimilao cultural.4 Mais do que em terras espanholas, onde algumas importantes instituies letradas como as universidades tm suas origens j no sculo XVI, no Brasil a articulao social da grande propriedade, do escravismo e do catolicismo, definiu os estreitos limites de desenvolvimento da cultura letrada. A cidade letrada obedece dinmica da colonizao, movendo-se com o aparato administrativo metropolitano, estabelecendo-se nos centros de governo. O processo civilizatrio mais geral fica a cargo das diversas ordens religiosas, que, integrando a cidade letrada, do conta de sua reproduo e articulao com as culturas orais. At a segunda metade do sculo XVIII, quando se inicia um lento processo de laicizao, mesmo nos centros culturais mais importantes da colnia, as poucas atividades letradas so domnio quase que exclusivo da Igreja. So os franciscanos, beneditinos, carmelitas, mas principalmente os jesutas que, desde a metade do sculo XVI, instituem os primeiros empreendimentos colonizadores na rea da instruo. Nos sculos XVII e XVIII, a Companhia de Jesus, alimentada pela redzima, taxa especial sobre os dzimos e direitos da Coroa Portuguesa estabelecida por D. Sebastio em 1564, e tendo como padro mximo o Real Colgio de Artes de Coimbra, fundaria colgios de norte a sul da colnia portuguesa.5 4 Tais temas so tratados de forma interessante nos artigos de ROSSI (1980) e HOUAISS (1980), publicados na Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, So Paulo. 5 Durante esse perodo, os inacianos fundariam instituies no Maranho (1605), em Recife (1619), Alcntara (1716), Colnia de Sacramento (1723), Vigia (1731), Paranagu (1738) e Desterro 33 Organizadas enquanto escolas de estudos menores e, primordialmente, casas de formao sacerdotal, as instituies religiosas eram praticamente os nicos locais de aprendizado sistemtico das letras no espao colonial. Instruir era pr-condio para a evangelizao, esta sim capaz de, atravs da oralidade, dos sermes, do plpito e da catequese, dar conta da integrao cultural da colnia. Alis, Alfredo Bosi, no interessante estudo sobre a cultura colonial, chama a ateno para a complexidade desse processo de integrao com as culturas orais nativas, que, segundo o autor, no se opera atravs da linguagem importada do colonizador europeu e requer toda uma ao inventiva dos jesutas no aprendizado dos falares indgenas. (BOSI, 1992, p. 11-63). Diferentemente da experincia histrica europeia e da Amrica Inglesa, onde, em graus diferenciados, as igrejas protestantes reformadas tm na leitura da Bblia, dos catecismos e nas escolas dominicais importantes instrumentos de evangelizao, na Amrica Ibrica impe-se a tradio catlica, na qual o acesso leitura da palavra divina, nos textos sagrados, privilgio dos homens santos. Como indicam trabalhos de Roger Chartier sobre a difuso das prticas da escrita na sociedade moderna, e os de E. P. Thompson sobre o papel do metodismo e das escolas dominicais na formao da classe trabalhadora inglesa, a leitura da Bblia, praticada pelas igrejas protestantes, foi um fator importante no avano do processo de letramento das camadas populares tanto na Europa como na Amrica do Norte.6 Nesse espao de hegemonia do catolicismo, as bibliotecas s existiam nos mosteiros e nos colgios e no em casas particulares ou outras instituies. Conforme Werneck Sodr (1977, p. 14), o livro, instrumento hertico [...] visto sempre com extrema desconfiana, s era natural na mo dos religiosos e at aceito apenas como peculiar ao seu ofcio, e a nenhum outro. Os quadros intelectuais, os homens que escrevem na colnia, formados em Portugal, ou formados portuguesa, tm sua atividade voltada para as tarefas administrativas ou religiosas. Nessa sociedade, como diria Lobato (1919, p. 27-28), o feitor embaixo deslombava negros; a mucama no meio educava as meninas brancas; no alto uma boa inteno de chambre lia os Vedas no original. Nas formas de escrita, sobressaem-se os sermes, os relatrios, as peas de catequese que tm no auditrio da igreja e nos pequenos saraus seu pblico e, no curso oral boca pequena, seu principal meio de divulgao. (HOLANDA, 1968, p. 91-105). No mbito da reflexo sobre as relaes entre cultura letrada e hegemonia, torna-se importante salientar que, no ambiente colonial, a escrita e a leitura so cdigos simblicos restritos a alguns setores das classes dominantes e, apesar de seu papel preponderante na empresa colonizadora, no cotidiano das relaes de dominao prevaleceria, alm da violncia aberta, a oralidade e seus instrumentos simblicos, principalmente os religiosos. De acordo com Alfredo Bosi, (1751). Um estudo sobre a natureza dessas instituies encontra-se no artigo de Laerte Ramos de Carvalho (1972, p. 138-144). 6 Embora no esteja no escopo deste trabalho aprofundar tal discusso, torna-se importante destacar que a questo sobre o peso dessa tradio catlica, que sacraliza a escrita, na reproduo do analfabetismo e das formas extremamente elitistas da cultura escrita em nossa formao histrica, permanece como relevante para compreenso das modalidades de dominao cultural em nossa sociedade. Ver THOMPSON (1987, p. 225-288) e CHARTIER (1991). Ver tambm a coletnea Les Usages de L Imprim. Paris: Fayard, 1987, organizada pelo mesmo autor. 34 [...] a cultura letrada rigorosamente estamental, no dando azo mobilidade vertical, a no ser em raros casos de apadrinhamento que confirmam a regra geral. O domnio do alfabeto, reservado a poucos, serve como divisor de guas entre a cultura oficial e a vida popular. O cotidiano colonial-popular se organizou e reproduziu sob o limiar da escrita. (BOSI, 1992, p. 25). No que diz respeito vida urbana, deve-se destacar que apesar da importncia estratgica para a empresa colonizadora de centros urbanos como Salvador, Rio de Janeiro e Recife, eles constituem excees num universo predominantemente agrrio. Como ironizava Lobato (1919, p. 21), at a petecada napolenica, que bota o rei para c trazendo malas repletas do cosmopolitismo europeu, o provincianismo estendia-se pela colnia. No decorrer do sculo XIX, no processo de formao do Estado nacional, a cidade letrada ganharia novas dimenses. Os esforos na elaborao de corpo de leis, de cdigos, de uma literatura nacional so dimenses importantes desse processo. O deslocamento da corte portuguesa, o desenvolvimento das atividades comerciais e o processo de independncia colocam novas condies para o desenvolvimento da vida urbana e da cultura letrada. Agora, torna-se necessrio no somente formar instituies e quadros para a nascente Nao, mas, sobretudo, ampliar e atingir o circuito de cidados que participam da construo da cultura. Durante esse perodo, alm da criao de inmeras instituies que comeariam a compor uma burocracia administrativa autnoma, tais como o Errio Rgio (1808), a Imprensa Rgia (1808), o Banco do Brasil (1808) e o Supremo Tribunal de Justia (1828), entre outros, organizam-se tambm escolas superiores em vrios ncleos urbanos: a Academia Militar (Rio de Janeiro, 1811), a Academia de Belas Artes (Rio de Janeiro, 1813), as academias jurdicas (Recife e So Paulo, 1927), os cursos de medicina (Rio de Janeiro, 1813; Bahia, 1815) e a Escola de Minas de Ouro Preto (1832/1875).7 Instituies de ensino passam tambm a se articular ao universo mais cotidiano da produo. Como aponta Jos Carlos Barreiro (1987), entre as propostas do Congresso Agrcola de 1878 para organizar e disciplinar o trabalho estavam a criao de escolas que formassem profissionais especializados para a direo dos estabelecimentos agrcolas, a criao de uma corporao de professores ambulantes para percorrer os campos e dar educao s populaes dispersas e a fundao de escolas dominicais, dirigidas por procos bem pagos, nas freguesias onde no chegasse a instruo primria oficial.8 Em ritmos diferenciados, em vrios centros urbanos do Imprio, atividades ligadas cultura letrada, tais como academias, bibliotecas, gabinetes de leitura e livrarias, comeam a se estruturar. Escolas dominicais, professores ambulantes e formao de estabelecimentos de ensino agrcola passam a compor o universo de propostas dos proprietrios agrcolas. Livre das interdies coloniais e com as mnimas condies tcnicas, a imprensa ensaia seus primeiros passos. Para as elites letradas, coloca-se a tarefa de construo acelerada das instituies e prticas letradas da modernidade. 7 Aqui, deve-se ressaltar que embora a Escola de Minas s tenha sido instituda em 1875, sua criao j proposta em lei da Regncia em 1832. Ver CARVALHO (1978). 8 interessante destacar que as reflexes do autor sobre as propostas do Congresso Agrcola j apontam para a gestao de novas articulaes de instituies como a Igreja e a escola no interior das relaes de dominao no sculo XIX. Ver BARREIRO (1987, p. 131-149). 35 Seria principalmente nas ltimas dcadas do sculo XIX, surpreendida pela turbulncia das transformaes sociais, que a cultura letrada e impressa comearia decididamente a avanar para alm das elites tradicionais. Nessa poca, em ritmo acelerado, no compasso de um modo de vida que exporta capitais e invade rapidamente inmeros espaos do planeta, a histria da formao das metrpoles brasileiras multiplica o tempo e a experincia social. O tempo se condensa. As grandes transformaes econmicas, polticas e sociais (a abolio da escravido, a proclamao da Repblica, os processos de industrializao, a ampliao acelerada do mercado interno, a imigrao massiva) lanam algumas cidades brasileiras num acelerado processo de urbanizao. Agitada por novas formas de viver e de pensar, novas situaes e projetos sociais, questionada pela emergncia das linguagens da modernidade e de projetos de contestao sociedade burguesa, a cidade letrada, ainda moldada nas tradies elitistas da colnia, enfrentaria inmeros embates e desafios. 36 2. O BURGO DOS ESTUDANTES A escola do Largo de So Francisco era o simples bastio colonial destinado a transmitir s geraes dominantes o vrus do Direito Justiniano, trazido para a livre Amrica pela reao portuguesa. [...] Eu sentia o enorme antagonismo que separava disso meu instinto de homem livre. Um Homem sem Profisso. Oswald de Andrade. Na So Paulo de Piratininga, como na grande maioria das vilas e povoados coloniais, a cultura letrada tem espao extremamente reduzido. Nos relatos da maioria de seus visitantes ilustres, viajantes estrangeiros, missionrios e visitadores da Companhia de Jesus, os elogios exuberncia do planalto e da paisagem dos campos e prados que rodeavam o tringulo central contrastam com as avaliaes sobre o estado de progresso da vila. Os relatos sobre a vida do povoado nos sculos iniciais da colonizao so repletos de descries buclicas. Nessas imagens, as paisagens rurais avanam sobre o espao urbano, os costumes rurais sobre a vida da vila; os modos pacatos e provincianos de suas gentes ganham destaque. Na vora brasileira, formosura de ver1, destacam-se as campinas de terras frteis e abastadas, os campos e prados banhados por pequenos rios, os quintais e chcaras que embelezam os arredores. Sua populao, gente do campo, descrita como recatada, empreendedora, de hbitos frugais e vida sem luxo. Tendo como base mais ampla o gado e a produo agrcola de algodo, acar, marmelo, etc., das fazendas dos vrios pontos da capitania, a vila, no dizer de Morse, constitui-se at o final do sculo XVIII num modesto entreposto (MORSE, 1970, p. 33). Nas imagens do Baro de Paranapiacaba, por volta de 1839, o dia a dia da pequena cidade, quase aldeia, de mbito acanhado e de ruas pouco extensas, estreitas e tortuosas, onde [...] as gentis paulistas faziam milagres de equilbrio para conservarem o seu gracioso porte e mgico meneio, s era animado pelas vrias negociaes das quais viviam seus habitantes, realizadas principalmente nas ruas da Quitanda e das Casinhas (BRUNO, 1981, p. 60). Segundo enfatizam vrios estudos sobre o perodo, a vida citadina tinha continuidade principalmente devido [...] s exigentes tradies ibricas de observncia religiosa e responsabilidade cvica. A cidade s era ocupada pelos homens bons e suas famlias, que 1 Tal expresso de Cardim consta de um trecho dos Tratados da Terra e Gente do Brasil (p. 312315), selecionado e publicado na coletnea organizada por BRUNO (1981, p. 16). importante destacar que recorri a essa mesma coletnea, organizada basicamente a partir de obras anteriores, de viajantes e moradores ilustres, em vrios momentos deste texto. 37 se deslocavam de suas moradias rurais para os sobrados urbanos nas pocas de procisses e festas religiosas (MORSE, 1970, p. 30-31). Segundo Ana Luiza Martins, em seu trabalho sobre os Gabinetes de Leitura em So Paulo, [...] a cidade comparecia como mero centro administrativo, prestando-se a encenaes do poder religioso, s procisses e festas religiosas, e nela, a praa pblica [...] pouco permitia como local de convvio e lazer, acentuando a distncia que separava os reduzidos grupos que transitavam na rea do permetro urbano. (MARTINS, 1990, p. 134). A cidade no sculo XVIII adquire aquela feio barroca da qual falava Rama. Alis, torna-se importante salientar que apesar das escassas e pouco favorveis avaliaes sobre a vida cultural da cidade, a maioria dos viajantes impressionava-se com a suntuosidade e com o nvel de participao e agitao que as festas religiosas traziam para ela. A descrio dos inmeros lugares de devoo, das solenes e suntuosas procisses religiosas, do carter pitoresco e animado das festas do Divino uma constante nessas fontes. Nos mesmos documentos, em sua maioria relatos, memrias e trabalhos historiogrficos sobre a vida paulistana na Colnia e no incio do Imprio, as referncias presena de atividades e prticas letradas alm das do colgio dos jesutas so extremamente escassas. As primeiras referncias s aparecem no incio do sculo XIX. Assim, Beyer, em ligeiras notas de viagem do Rio de Janeiro Capitania de So Paulo (1813) nos fala que o clero da cidade tem princpios liberais e que o bispo um homem de mritos literrios, que fez vrias viagens Europa e muito tem contribudo para a tolerncia e o esclarecimento que se notam nessa capital; no entanto, o corpo mdico pequeno, tanto em nmero como em conhecimentos. Mawe, em viagens ao interior do Brasil (1818), nos informa que a educao das graciosas senhoras paulistas se restringe a conhecimentos superficiais e os homens de alta categoria so muito loquazes e propensos jovialidade. Na sua passagem pela cidade em 1819, relatada em Viagem pelo Brasil, Von Martius visita a biblioteca do venerando bispo, a nica biblioteca da cidade alm da do Convento dos Carmelitas. Da descrio de profisses tiradas por Affonso de Freitas do alistamento censitrio de 1822, pode-se inferir que o total de almas da elite letrada paulistana no era muito maior que a soma dos 7 mdicos e cirurgies-mores, 3 boticrios, 2 advogados, 3 letrados, 3 professores de gramtica, 1 de retrica, 1 de filosofia, 1 de teologia dogmtica, 3 mestres de primeiras letras, 1 tabelio, 4 requerentes, 1 solicitador e 2 meirinhos. (FREITAS, 1955, p. 134-135). Apesar do desenvolvimento da vida econmica e da expanso das relaes mercantis na provncia, a capital de So Paulo, durante parte significativa do sculo XIX, manteve as feies de um grande povoado, tendo seu estatuto de centro urbano mais importante da provncia disputado por outros ncleos, como Santos e Campinas. No entanto, do ponto de vista da organizao da cidade letrada, a fundao da Academia de Direito faria toda a diferena. Embora a indicao de So Paulo como local propcio instalao da Academia de Direito tenha sido assunto polmico na Assembleia Constituinte, interessante notar 38 que, para alguns contemporneos, justamente o carter pacato da cidade nas primeiras dcadas do sculo XIX que a recomenda para tal mister.2 Assim, em 1818, D Alincourt destaca que a cidade tem [...] todas as propores para o estabelecimento de uma Universidade: o baixo preo dos gneros, a abundncia deles, a salubridade do ar, a temperatura do clima, as poucas distraes que se oferecem [...] [concluindo que] [...] tudo parece conspirar a referir este a qualquer outro stio para a cultura das letras. (apud BRUNO,1981, p. 32). A abertura da Academia de Direito do Largo de So Francisco, em 1828, transformada em marco fundante da cultura letrada paulistana. Nas memrias das elites, a Faculdade de Direito parte central da alma da cidade. Assim, na publicao lanada pelo jornal O Estado de So Paulo nas comemoraes do 4 centenrio da cidade, prope-se resgatar espaos e personagens fundantes da memria paulista com a participao de inmeros intelectuais paulistanos. A. Almeida Jr. (1954, p. 43), em um artigo sobre a Faculdade de Direito e a cidade, relembra que No se pode celebrar a festa natalcia da Capital sem abrir-se um largo captulo para os fastos de sua Faculdade de Direito [...] que permanece at hoje, renovando-se em sua fisionomia material mas conservando intacta a sua alma. E prossegue: Nos cento e vinte e seis anos, que passaram da sua fundao, a Academia tem vivido indissoluvelmente associada a todas as alegrias, amarguras e glrias da cidade. A verdade que, durante grande parte do sculo XIX, a vida intelectual e letrada paulistana permaneceria totalmente centrada na Academia de Direito. No sem tenses, durante grande parte do sculo XIX a Academia, seja atravs do Ptio das Arcadas, centro de convvio dos estudantes, seja atravs da Sala das Becas, lugar onde cotidianamente se encontram os professores, se constituiria como o centro articulador das elites paulistanas. A, passam a ser formados os doutores-deputados-literatos-jornalistas que compem os quadros da poltica municipal e provincial e do conta de suas articulaes com a Capital. Como ainda coloca Almeida Jnior, [...] foi sempre elevado, no Imprio como na Repblica, o nmero de homens de governo, de legisladores e de lderes partidrios formados sob as Arcadas. A, nas vrias geraes, [formou-se] um patrimnio comum de idias, sentimentos e atitudes, que muito contribui para a vinculao afetiva e intelectual dos que vieram a compor as classes dirigentes do pas. (ALMEIDA JR.,1954, p. 52). Para a Coimbra brasileira vm os filhos das importantes famlias de vrios pontos da provncia, das cidades mineiras e tambm estudantes mais cosmopolitas da capital. De acordo com Morse (1970, p. 98), esse o tempo em que a Igreja comea a perder a liderana intelectual, assumida pelas academias de Direito. 2 Indicaes sobre a discusso da Constituinte a respeito da fundao das academias de Direito podem ser encontradas em ALMEIDA JR. (1954, p. 43-64). Ver tambm SCHWARCZ (1993, p. 141-188). 39 A presena dos jovens estudantes e da Academia na cidade se faz sentir de inmeras maneiras. No mbito dos costumes, nos relatos e memrias de poca, os estudantes e as estudantadas ganham destaque. No sculo XIX, com a Academia, os memorialistas finalmente conquistam para as ruas e espaos abertos da cidade um personagem de elite. No cenrio da cidade composto por eles, os estudantes recebem status de ator principal. Nesses relatos, os pontos de encontro, as ruas de repblicas, as arruaas como os roubos de galinhas e porcos, as serenatas, os banhos no Tamanduate misturam-se com os vendedores ambulantes; os encontros de tropeiros, os pontos das lavadeiras e, no muito raro, a agitada vida dos estudantes provoca confrontos com as autoridades locais. Com os estudantes e as estudantadas, a sociedade do vs e das sinhs escondidas assiste e namora, de forma encabulada, transgresso de seus costumes. No discurso desses memorialistas, os estudantes permanecero como um corpo estranho na cidade. No dizer de Bernardo Guimares, em Rosaura, Nessa poca havia entre os estudantes um certo esprito de classe to fortemente pronunciado, que formava deles uma corporao no s respeitada como temida dos futricas, nome que se dava a todo cidado estranho ao corpo acadmico. (GUIMARES apud BRUNO, 1981, p. 64). Na descrio de Zaluar em sua Peregrinao pela Provncia de So Paulo 1860/61 (1953, p. 128-129), Os habitantes da cidade e os cursistas da Academia so dois corpos que no combinam se no produzindo um precipitado monstruoso, mas advertia que se tirassem a Academia de So Paulo, esse grande centro morrerinanimado. Sem lavoura e sem indstrias montadas em grande escala, a capital da provncia deixando de ser o que deixarde existir. O funcionamento do curso jurdico passa a articular outros espaos da cultura letrada, tais como casas livreiras, sociedades literrias, bibliotecas. Da tipografia Imparcial, da Litterria, da Costa Silveira, as primeiras tipografias da cidade, saem jornais polticos e revistas acadmicas que articulam as discusses da elite letrada da provncia e constituem esforos para o estabelecimento da imprensa peridica paulistana. Essas folhas e revistas acadmicas constituram-se nos principais produtos das prticas letradas no perodo. Publicaes como A Crena (1873), peridico redigido por acadmicos, O Tribuno (1873) ou o Labarum, rgo da Associao Litteraria e Scientfica do 1 Ano, animam as discusses polticas e cientficas dos acadmicos e abrem espao para o exerccio da literatura. Assim como as arcadas do Largo de So Francisco, tais publicaes, conhecidas como nossas revistas de cultura, permanecem na memria enquanto marcos fundantes das letras paulistanas. Estruturadas em 4 pginas com 2 colunas cada, em tamanho ofcio ou pouco menores, j no perodo anterior, pequenas folhas como O Farol Paulistano (1827/1832), O Observador Constitucional (1829/1831) e Voz Paulistana (1831) davam voz s correntes liberal e conservadora da provncia, ora na situao, ora na oposio. Revistas como a Revista da Sociedade Filomtica (1833), Revista Mensal de Ensino Filosfico Paulistano (1851) e Ensaios Litterarios do Ateneu Paulistano (1856) viabilizavam as discusses jurdicas, literrias e filosficas dessa elite letrada que se aglutinava em associaes acadmicas. 40 Os pequenos grupos de fundadores e redatores dessas publicaes eram compostos por homens do Largo de So Francisco. A, militaram os futuros viscondes e bares, senadores do Imprio ou presidentes da provncia e literatos de prestgio. So homens como Carneiro de Campos, Silveira da Mota, Amaral Gurgel, Tefilo Otoni, Rangel Pestana, Homem de Melo, Cerqueira Csar, Fagundes Varela, Couto de Magalhes, etc. Como aponta Antnio Cndido (1968, p. 100), no existem intermedirios culturais e os mesmos homens so professores, literatos, jornalistas, polticos, desembargadores e administradores. Mantidos por seus pequenos crculos de assinantes, tais peridicos, de contedo srio e sisudo, realizavam entre si permanente dilogo, constituindo-se nico pblico uns para os outros. Divididas nas correntes e tendncias literrias, as elites oriundas da Academia faziam da imprensa seu espao de discusso. Insuspeitos so os comentrios de Paulo Duarte (1954, p. 256-257) no extenso artigo comemorativo sobre a imprensa paulista, tambm lugar de memria em 1954, quando afirma que, nesse perodo: [...] a imprensa paulista vegetava, arrastava-se, em geral nas mos de estudantes da Faculdade de Direito, preparando a carreira poltica, vitoriosa para uns poucos, e mais ou menos medocre que a maioria havia de levar. Animava-se muito mais com as lutas da pequena poltica da Provncia [...], ou da pequena cidade que era a capital de So Paulo, do que com os episdios empolgantes que se desenrolavam em tantos pontos do Brasil [...]. Nesse contexto, a emergncia de falas dissidentes como as de Lus Gama e Angelo Agostini s destacam o carter elitista e limitado das formas de imprensa hegemnicas no perodo. Como coloca Cludio Mello e Souza, o pioneirismo irreverente das publicaes de Agostini e Gama s faz realar o pouco talento vigente na poca. Folhas como O Diabo Coxo (1864) e O Cabrio (1866), ou mesmo O Polichinello (1876), editadas por Lus Gama, esse mulato que se intromete na cultura letrada paulistana, e as duas primeiras ilustradas por Angelo Agostini, descrito por Lobato como o italiano que desembarca no Brasil com muita coragem e nimo e uma pedra litogrfica sob o brao, apesar da relativa popularidade inicial, rapidamente comeam a sofrer com o cerco das elites dominantes. Abordando temas como a abolio, os privilgios da imprensa e as condies de vida das classes populares, numa linguagem crtica e mordaz, onde a caricatura a principal arma, cedo tais publicaes passam a enfrentar a ira de setores dominantes, que traduzida ora em denncias polcia, ora em processos judiciais, e at no apedrejamento da casa de seus editores, realizado por estudantes da Academia. Passadas mais de trs dcadas da Independncia, em So Paulo no se ouvia a palavra dinheiro constantemente soando nos ouvidos como no Rio de Janeiro e a cidade ainda chamava a ateno de seus visitantes pelo [...] ar mais intelectual e menos comercial [...] do que outra qualquer parte do Brasil. (BRUNO, 1981, p. 74). O desenvolvimento econmico experimentado por outros espaos na provncia ainda no se traduzia em novas relaes sociais na cidade de So Paulo, e a cultura letrada continuava sendo a linguagem da e para a elite poltica. 41 Sobre a natureza do ambiente intelectual e dos hbitos culturais gerados pela presena dos acadmicos na cidade, interessante reproduzir a viso da educadora de famlias de elite Ulla von Eck, de pseudnimo Ina von Binzer (1956, p. 77-78), em carta de 1882 a sua irm na Alemanha: verdade mesmo: So Paulo o melhor lugar do Brasil para educadoras, tanto a capital, como toda a provncia, porque os moos da nova gerao namoram a cincia e do-se ares de erudio e de filosofia. Somos uma cidade universitria! Mas no pense em Bonn ou Heidelberg, pois a academia daqui no seno uma Faculdade de Direito. No interior da provncia h um seminrio onde se preparam padres (esqueci o nome do lugar), aqui formam-se advogados e no Rio de Janeiro os discpulos de Esculpio, os doutores par excelence. Os brasileiros do timos advogados, podendo dessa forma aproveitar seu talento declamatrio. Do a vida por falar, mesmo quando no para dizer nada. Com eloqncia que esbanjam num nico discurso, poder-se-ia compor facilmente dez em nossa terra; embora no possuam verdadeira eloqncia nem marcadas personalidades, falando todos com a mesma cadncia tradicional usada em toda e qualquer circunstncia. Tudo exterior, tudo gesticulao e meia cultura. O fraseado pomposo, a eloqncia enftica j so por si prprios falsos e teatrais, mas se vou tirar a prova real, se indagar sobre qualquer assunto, no se revelam capazes de fornecer a informao desejada. A Imprensa paulistana, produto mais avanado da cidade letrada, configura-se no interior desse universo social restrito. Suas temticas, suas funes e seu pblico definem-se no interior dos limites postos pela elite da Faculdade de Direito. Num meio social demarcado pelo autocentramento das elites letradas e pelas relaes de excluso do escravismo, dominado pelo analfabetismo e pelas prticas orais, o campo de luta e tenses das diversas instituies da cidade letrada, as academias, as escolas, assim como a imprensa, excluem totalmente as classes subalternas e at mesmo alguns importantes setores das classes dominantes. De pouqussima penetrao em crculos exteriores aos das elites masculinas letradas, a imprensa ainda no se constitui enquanto campo de disputa e instrumento de construo da hegemonia sobre setores dominados. A cultura letrada ocupa espaos extremamente reduzidos do cotidiano da vida urbana. 42 3. SO PAULO VIRA PAULICEIA A nossa capital j um centro onde as manifestaes da vida mundana se fazem sentir fortemente. J no somos os tristes moradores de uma cidade provinciana que s nove horas da noite dormia a sono solto depois dos mexericos atravs das rtulas ou porta das farmcias. No temos porm a vida de Paris ou Viena ou mesmo de Buenos Aires ou do Rio de Janeiro, mas l chegaremos. Com os grandes melhoramentos da cidade j projetados possvel que, a exemplo do que aconteceu no Rio, a nossa vida mundana se torne mais intensa... Tudo isso vai aos poucos concorrendo para aumentar a nossa sociabilidade. Trecho da crnica de O Pirralho, em 11/08/1911. Jayme Gama. Nas duas dcadas finais do sculo XIX, nas diversas fontes histricas sobre a cidade relatrios oficiais, posturas e decretos municipais, almanaques, relatos de viajantes, jornais e revistas , os sinais do turbilho que transformaria a vida urbana de So Paulo na virada do sculo tornam-se cada vez mais intensos. Nas descries sobre a cidade, diferentes temporalidades marcam o espao urbano. Na paisagem urbana composta pelos memorialistas, imagem da cidade antiga sobrepe-se a da cidade nova, que com seus quarteires bem desenhados, suas ruas largas e de aspecto moderno se estende para o Norte e para o Sul, aqum e alm do Anhangaba. Nos relatrios de secretrios de Estado, no teor das posturas municipais, agitam-se as discusses sobre as possveis solues para os problemas causados pelo crescimento urbano acelerado. No dizer de Almeida Nogueira (1977, p. 268), memorialista da Academia da qual foi aluno e professor , jornalista, deputado provincial e senador: Terminava o ciclo dos trovadores para comear o dos industriais. E o prncipe perfeito, sua alteza serenssima, o estudante, ia ser deposto pelo caixeiro viajante. Caam as rtulas e as mantilhas, arruavam-se o campo do Ch, o Bexiga, o Zunega; entravam no alinhamento o Brs, a Moca, a Ponte Grande. Expressando as mudanas aceleradas pelas quais passa o processo de acumulao de capitais no estado de So Paulo, em menos de meio sculo sua capital tem a populao multiplicada em mais de 20 vezes. Esse processo, trabalhado em suas linhas centrais pela historiografia sobre a cidade, tem como um dos sintomas mais visveis a transformao de So Paulo de um burgo de estudantes (LEVASSEUR, 1889) em metrpole do caf 43 (BERNARDEZ, 1908) e capital econmica do Brasil (DENIS, 1911). Com uma populao de cerca de 30 mil habitantes em 1872, constituindo-se em nada mais que um burgo, em 1920, com mais de meio milho de habitantes, So Paulo ganhava o status de metrpole brasileira. Num salto de crescimento, no perodo entre 1870 e 1920, a cidade de So Paulo se transformaria no centro econmico e poltico do Estado. A aglomeram-se as casas bancrias, os grandes estabelecimentos do comrcio atacadista, da importao, as fbricas e oficinas da nascente indstria de bens de consumo e o melhor e mais variado comrcio varejista do estado. Para So Paulo convergem todos os interesses polticos do Estado. Em suas ruas amontoa-se uma crescente populao que no se pode conhecer. A partir de 1880 comeava a se realizar o loteamento dos belos stios e vastas chcaras das redondezas do antigo centro urbano, que, estruturando-se desde o Ptio do Colgio, correspondia s freguesias da S, de Santa Efignia, de Bom Jesus do Brs e da Consolao. A Chcara das Palmeiras transforma-se no bairro de Santa Ceclia; a do Carvalho, na Barra Funda e no Bom Retiro; a do Campo Redondo, nos Campos Elseos; a do Bexiga, na Bela Vista, e assim por diante. Segundo informa Aroldo de Azevedo (1945, p. 22-23), nesse perodo, em alguns pontos, a zona urbana avanou num raio de mais de 2,5 quilmetros em relao ao centro, o que na avaliao do autor um fato espantoso caso se considere que a cidade permanecera durante 300 anos [...] enclausurada num modesto mbito que no tinha mais de 1 km de raio. At a dcada de 1890, a distribuio da populao pelas freguesias segundo ocupaes ainda bastante indistinta. Conforme Relatrio do Diretor da Repartio de Estatstica e Arquivo do Estado de So Paulo, em 1894, embora Santa Efignia j agregasse grande parte dos profissionais liberais e proprietrios, estes distribuam-se tambm pela S, pela Consolao e pelo Brs, assim como funcionrios pblicos, artistas, trabalhadores em transportes e a classe comercial. a partir dessa ltima dcada que o aprofundamento da diviso social do trabalho comea a marcar nitidamente o espao urbano de So Paulo. Os primeiros bairros operrios, como o Brs e a Barra Funda, localizam-se nas terras baixas, instalando-se prximos s vias frreas. J os Campos Elseos e Higienpolis, bairros de elite, se expandem nos locais altos da cidade, onde so abertas largas ruas e avenidas e se constroem manses e palacetes. As ruas ganham outra vida e comeam a ser ocupadas por personagens bastante diferentes dos das dcadas anteriores. Agora, o desenvolvimento das relaes mercantis e de novas formas de sociabilidade fazem do centro da cidade o ponto de convergncia dos paulistanos. Conforme descreve Cssio Mota (1947, p. 22-23) em 1890, A vida era intensa no Centro, e da o movimento das ruas do tringulo: Direita - 15 de Novembro - So Bento. Indo cidade era foroso percorrer estas trs ruas. Ir cidade e no fazer essa trajetria, era o mesmo que ir a Roma e no ver o Papa. A cidade era o chamariz, o ponto de atrao do povo paulista. Ia-se cidade para as compras, negcios, encontro de conhecidos e simplesmente para passeio, apreciar o movimento, ver as vitrinas e tambm conhecer e lanchar nas confeitarias [...]. 44 Para alm do tringulo central, destacavam-se tambm no novo cenrio urbano [...] os quatro bairros industriais (Bom Retiro, Luz, Brs e Moca) [que] continham toda a indstria paulista [...] Seriam trinta ou quarenta chamins, de fumaa negra de coque da Inglaterra [...] Os paulistas falavam disso orgulhosamente Manchester brasileira! (AMERICANO, 1957, p. 108). A cidade definitivamente se diferencia do campo. A acelerao do processo de acumulao de capitais na cafeicultura, deslocando-se sobretudo a partir de 1880 do Vale do Paraba para o planalto, traz no seu interior a imigrao massiva e a ferrovia. Tendo por fulcro o sistema So Paulo-Santos, multiplicam-se as vias frreas no planalto paulista. Os trilhos da Light rasgam a cidade e redefinem sua fisionomia. Com o sistema de bondes eltricos do polvo canadense, a energia invisvel anuncia a modernidade e questiona os hbitos e modos de vida da cidade provinciana. Muitos dos mais de 750 mil imigrantes entrados no estado entre os anos de 1886 e 1899 estabelecem-se na cidade. Uma crescente populao de homens despossudos, em sua maioria estrangeiros, a vende sua fora de trabalho nas oficinas, nas fbricas, nas ferrovias, no comrcio. Como descreveria Pierre Denis (1911), a So Paulo do incio do sculo constitua-se num mercado central de um territrio ativo, onde a circulao de dinheiro se faz rpida, mas tambm num mercado de homens. Conforme Kruchin (1986, p. 44), diante de tudo isso ficaria mesmo difcil acreditar que o Brasil estava no interior como queria Lobato. Mesmo que, no incio do sculo, cerca de mais de 80% da populao brasileira ainda vivesse em reas rurais, a cidade impunha-se como centro dinmico da vida nacional e, principalmente, uma identidade nova aguardando o momento de revelar-se, de formular-se enquanto tal. Para a reflexo que lida com a temtica da cidade e do viver urbano em So Paulo, o perodo compreendido entre o final do sculo XIX e as dcadas iniciais do sculo XX emerge como um dos momentos estratgicos para a pesquisa sobre a construo da identidade cultural da Pauliceia Moderna. Alis, interessante apontar que, no decorrer da pesquisa, as primeiras menes encontradas referindo-se cidade como Pauliceia aparecem no final dos anos 80 do sculo XIX, numa pequena folha intitulada A Paulicia (1888) e num entusistico relato de Raffard (1890), que descreve So Paulo como o ponto de great attraction do estado. No plano da cultura, enquanto espao de experimentao e gestao de significaes e projetos sociais, o viver urbano na cidade de So Paulo nesse perodo apresenta-se como um campo privilegiado para a reflexo sobre a Histria Social. Em So Paulo, a formao daquele mercado de homens, do qual falava Denis, desenha-se no interior de um movimento de populaes repleto de significaes culturais. O processo que institui uma cidade nova que tende a tomar o lugar de outra antiga, onde parece que vai tudo desaparecer, como numa perspectiva de teatro, a um simples jogo mecnico, e que tem seu lado mais visvel nas contnuas demolies e construes que afetam seu ambiente tambm, e centralmente, o processo social de experimentao, aprendizado e improvisao resultante da convivncia de grupos com situaes e heranas sociais bastante diferenciadas. (MORSE, 1970, p. 243-269). 45 Na ltima dcada do sculo XIX, ao lado dos grupos de tradicionais paulistanos, os herdeiros dos bandeirantes, e de levas flutuantes dos estudantes da Academia do Largo de So Francisco, homens, mulheres e crianas estrangeiras, em sua maioria italianos, trazidos pela corrente imigratria iniciada nos meados dos anos oitenta, j compem 55% da populao da cidade. Assim tambm o censo de 1890, realizado logo aps a abolio, informa que 11% da populao paulistana composta por negros e mulatos. Sem aparecer nas estatsticas do perodo, mas com visibilidade na imprensa e nos relatos de poca, a esto inmeros contingentes vindos do interior e que, na cidade, ganham a identidade de caipiras. (RASNI, 1894). No interior da reflexo que tem como horizonte o processo de formao das culturas na cidade de So Paulo de 1890 a 1915, interessa indagar sobre os significados desses encontros/desencontros entre estrangeiros recm-chegados, negros recm-libertos, homens do interior promovidos condio de caipiras, doutores e homens bons com a lembrana recente de serem senhores. No ambiente urbano, as experincias vividas e pensadas por esses diferentes grupos sociais manifestavam-se nos processos de construo dos modos de viver. Instituindo espaos novos de convivncia, ruas movimentadas, fbricas, oficinas, lojas, associaes recreativas, culturais e polticas, cafs, teatros, cinematgrafos, escolas, etc., as experincias sociais desses sujeitos confrontam-se no desenho da nova cidade. Diferentemente da vida no burgo dos estudantes, na Pauliceia em formao as elites passam a disputar com os setores populares a ocupao dos espaos abertos da cidade. Tais espaos pblicos, antes ambientes quase exclusivos das classes pobres e dos estudantes, agora passam tambm a ser ocupados por personagens da elite e de grupos intermedirios. Senhoras de famlias respeitveis, moas casadoiras, funcionrios pblicos, operrios em roupa de passeio, meninos e meninas de colgio emergem como outros personagens dessa nova ocupao cultural da cidade. Cabe ressaltar que, nesse perodo, as transformaes do viver urbano em So Paulo tm como uma das facetas culturais mais caractersticas o intenso movimento associativo. Vivendo as condies legadas pelas transformaes socioeconmicas do sculo XIX, frente a uma institucionalidade a ser construda, velhos e novos sujeitos parecem encontrar nas prticas associativas um caminho para a construo de novas formas de representatividade e sociabilidade. No sem razo, sociedades de auxlio mtuo, sindicatos de diversas categorias profissionais, crculos operrios, associaes de imigrantes e organizaes patronais, revelando formas de organizao de interesses polares, tm se colocado como objetos de estudo fundamentais para a historiografia no perodo.1 A anlise de memrias, histrias de vida e a viso mais geral da imprensa peridica da poca sugerem novas dimenses desse processo, dando visibilidade a outras prticas associativas, revelando vivncias de grupos sociais intermedirios e surpreendendo novas dimenses da vida cultural dos grupos sociais fundamentais. Assim, possvel propor que a vida coletiva e a inveno das tradies que redefiniram o viver urbano no perodo tiveram tambm, nessas associaes informais de natureza variada, um espao importante 1 Nos ltimos tempos, os estudos de movimentos e organizaes de trabalhadores e do patronato colocaram-se como vis bastante pesquisado pela historiografia. Alguns exemplos dessa historiografia mais recente que trabalha com tais temas so: MARTINS (1976), MAGNANI (1982), HARDMAN e LEONARDI (1982), GIUSEPPINA (1987) e ANTONACCI (1993). 46 de articulao. Vistas sob a tica da noo de tradio inventada no oficial, como proposta por Hobsbawn (1984, p. 271), que se refere principalmente s tradies geradas por grupos sociais sem organizao formal, ou por aqueles cujos objetivos no eram especfica ou conscientemente polticos, a investigao dessas prticas sociais adquire novas conotaes. No interior deste trabalho, busca-se explorar as indicaes de que essas associaes atuaram como espaos importantes na instituio de novas formas mais generalizadas de sociabilidade e na definio e afirmao de novos critrios de absoro e distino social entre as elites, os grupos intermedirios e as classes populares, constituindo direes importantes do processo de aburguesamento do espao pblico urbano. Nessa conjuntura, a cultura letrada paulistana, moldada nas Arcadas do Largo de So Francisco, questionada pelas novas situaes e desafios sociais colocados pela cidade. Envolvida pelos novos modos de viver a cidade, a cultura letrada transforma-se. No espao da metrpole em formao, as letras, segundo Angel Rama (1985, p. 79), definem-se ainda [...] como alavanca de ascenso social, da respeitabilidade pblica e da incorporao aos centros de poder; mas tambm em grau que no havia sido conhecido pela histria secular do continente de uma relativa autonomia em relao a eles. A elite letrada amplia-se e comea a desprender-se do provincianismo cultural de que tanto se queixava Alvares de Azevedo quando, em 1849, se dizia [...] ansioso de deixar esta vida tediosa da mal ladrilhada So Paulo [...] [que] nunca seria como o Rio. (MORSE, 1970, p. 123). No mbito do poder na cidade letrada, e no necessariamente das estruturas polticas mais visveis, o que se coloca em jogo a simbiose construda durante quase meio sculo entre literatura, poder e a Academia do Largo de So Francisco. O espao coletivo da vida cultural das elites amplia-se. Antes restrita a irmandades religiosas, sociedades secretas e algumas poucas associaes literrias, privilgio quase exclusivo das camadas masculinas dos proprietrios-doutores-literatos, a vida associativa expande-se e adquire novas conotaes.2 As associaes literrias e recreativas, os grupos teatrais e artsticos, os clubes esportivos, as associaes beneficentes e instrutivas so espaos que articulam vivncias coletivas no s da elite masculina mas de setores sociais bastante diversificados. Nesses novos espaos da vida urbana, de inmeras e complexas maneiras, a escrita, e principalmente a palavra impressa, estabelece novas articulaes na vida cotidiana da cidade. Nas ltimas dcadas do sculo passado, misturada s necessidades colocadas pelo desenvolvimento das escritas e controles mercantis, obedecendo aos ditames de vulgarizao impostos pela propaganda, transportada na velocidade dos novos servios de correios e telgrafos e articulada s novas linguagens visuais da modernidade, a escrita desce do pedestal e comea a invadir a vida cotidiana da cidade. Com menor intensidade que nas metrpoles europeias, onde, como coloca Williams (1992, p. 109-115), desde o incio do sculo a Revoluo Industrial produziu necessariamente a alfabetizao generalizada, enfrentando limites sociais mais rgidos, a escrita comea a escrever a cidade. 2 Vale ressaltar que as transformaes da vida social e cultural das elites no processo de formao das metrpoles brasileiras tm, tambm, se colocado como objeto de vrios trabalhos sobre o perodo. Ver especialmente os trabalhos de NEEDELL (1993) e VENTURA (1991). No plano da fico, a obra de TCITO (1977) trata de forma viva e interessante o mundanismo das elites paulistas do incio do sculo XX. 47 Atravs da significativa expanso dos estabelecimentos de ensino particular, religiosos e leigos e de instruo pblica, cresce o processo de letramento da populao, ampliando a rede potencial de leitores. As elites paulistas, cansadas de enviar seus filhos ao exterior e insatisfeitas com a educao de preceptoras domsticas s suas filhas, mobilizam-se na discusso e organizao de um sistema particular de ensino que respondesse s suas necessidades e aspiraes. No perodo, ordens religiosas como as irms de So Jos, os beneditinos, os maristas, subsidiadas pelas elites proprietrias fundam prestigiosas escolas: o Externato So Jos, o Ginsio do Carmo e o aristocrtico Ginsio So Bento.3 Grupos leigos e protestantes, principalmente de representantes das colnias estrangeiras na cidade, fundam importantes colgios, como o Moretz-Sohn, a Escola Alem e a Escola Americana que d incio organizao do Colgio Mackenzie. Com a Repblica, conforme assinala Marta M. Chagas de Carvalho (1989), a instruo pblica assumida como bandeira do progresso pelas classes dirigentes paulistas, que buscam renovar o sistema pblico de ensino atravs da Escola Normal e dos grupos escolares modelos. Embora as estatsticas e diversas aferies sobre a familiaridade dos vrios grupos populacionais com a escrita e a leitura no perodo sejam extremamente precrias, algumas indicaes indiretas fornecem pistas sobre a questo. Assim temos que, entre o fim do sculo XIX e o incio da segunda dcada do sculo XX, So Paulo logrou triplicar os ndices de matrcula na instruo primria. O nmero de alunos passa de 43 mil em 1898 para mais de 150 mil em 1912. (O ESTMULO, 6/10/1913). Segundo dados fornecidos por Love (1982, p. 132-133), entre 1890 e 1920 o estado de So Paulo saltaria do dcimo para o segundo lugar em termos de ndices de alfabetizao da populao. A partir da segunda dcada do sculo XX, o sistema de instruo pblica de So Paulo, combinando a ao da Escola Normal e os grupos escolares modelos, seria tido como o mais avanado do pas, despertando o orgulho da Escola Normal que, em sua revista de 1913, comenta: So Paulo expe ao Brasil o verdadeiro mtodo de ensino. So Paulo educa e inmeras misses pedaggicas tm sido encarregadas de aplicar em outros Estados o seu sistema de ensino. (O ESTMULO, 6/10/1913). Os cdigos da escrita e a leitura, movendo-se em direo ao cotidiano da cidade, comeam a penetrar terrenos exteriores aos crculos das elites tradicionais. Os prprios deslocamentos semnticos dos termos povo e popular na imprensa propem tal compreenso. J na virada no sculo XIX, tais termos, que nas dcadas anteriores articulavam-se basicamente ao iderio poltico dos projetos abolicionista e republicano, assumem novas e diferentes conotaes. O Grito do Povo, ttulo j razoavelmente frequente nos jornais da poca, agora no s nomeava publicaes como a folha republicana fundada em 1888 por Hyplito de Souza, na qual o povo, meio indefinido, meio abstrato, coloca-se como destinatrio do projeto poltico republicano, mas tambm era assumido por jornais como o semanrio socialista revolucionrio, redigido em portugus, italiano e espanhol, dirigido por Antnio Lago, que j em 1900 desenvolve intensa campanha pela diminuio 3 Sobre a relao das elites com a instituio de escolas particulares religiosas em So Paulo, bem como a natureza do ensino nelas ministrado, ver o estudo de MANOEL (1988). Ver tambm nas memrias de Oswald de Andrade (1990) as interessantes passagens sobre a educao do autor com os maristas e os beneditinos. 48 da jornada de trabalho. O popular, enquanto campo de disputa dos projetos republicano e monarquista, enfrenta inmeras intromisses das novas ideias socialistas e anarquistas. Disseminadas no vocabulrio da metrpole em formao, misturadas aos modos de viver e pensar dos novos grupos sociais, as conotaes daqueles termos abrem-se para os sentidos do urbano e da vida cotidiana. Assumindo a conotao de popularidade ligada ao mercado e ao consumo, ambientam-se na linguagem da propaganda. Nos anncios classificados das poucas folhas dirias ento em circulao, em meio demanda por copeiros, amas-secas, cozinheiras, busca de escravos fugidos no perodo logo anterior abolio ou demanda por trabalhadores livres, como carroceiros, condutores, costureiras, sapateiros e trabalhadores variados para a emergente indstria de bens de consumo, vemos surgir tambm a oferta de servios e a procura por empregos como guarda-livros, contadores, professores de primeiras letras, auxiliares de escritrio, etc. O letramento chega ao mercado de trabalho. Ao lado de exigncias que abrangem honestidade, asseio e conduta afianada, a capacidade de ler e escrever comea a aparecer como habilidade necessria ao exerccio de certas atividades profissionais. Procuram-se copeiros de boa conduta e que saibam ler, caixeiros que tenham bom conhecimento das ruas da cidade e tambm saibam ler e escrever. Nas sees de anncios desses peridicos, homens e mulheres que sabem ler e escrever, que tm boa caligrafia, oferecem-se e, em menor grau, comeam a ser requisitados para postos de emprego na cidade. Classificados como os reproduzidos abaixo, muito raros em momentos anteriores, tornam-se, com a virada do sculo, cada vez mais frequentes: Quem precisar de um moo com prtica de escripturao por partidas simples, para ajudante ou para fazer alguma escripta atrazada, deixe carta no escritrio desta redao. (DIRIO POPULAR,18/03/1885). ou, PROFESSOR Uma pessoa habilitada prope-se a lecionar as primeiras letras em casas particulares bem como encarregar-se de escripturao de casas comerciais. (DIRIO POPULAR, 15/01/1897). ou ainda, Moo hespanhol, decente, casado, com boa caligraphia, deseja empregar-se no comrcio como caixeiro viajante, agente de casa comercial, agente de leiles ou de corretor, secretrio ou ajudante de escritrio. (A PROVNCIA DE SO PAULO, 20/10/1875). Nas fotos do centro da cidade, a escrita, assumindo a verticalidade dos letreiros e das tabuletas dos estabelecimentos comerciais, passa progressivamente a compor o novo cenrio urbano. Como grande novidade, j em 1875, num reclame de destaque dA 49 Provncia de So Paulo (9/12/1875), o estabelecimento comercial da Rua da Boa Vista, n. 50, promete fazer, por preos razoveis e fino acabamento, pinturas, letras, taboletas e inscries douradas sobre vidro. Outros estabelecimentos oferecem gravaes sobre metais, e carimbos de borracha so anunciados como grandes novidades. No comrcio chic do varejo, em meio a artigos como casemiras e louas inglesas, vinhos e azeites portugueses, moda francesa, as lojas de papel e objetos de escritrio, como Secker & Comp. ou a A. L. Garraux, alardeiam as ltimas novidades de sortimentos especiais de artigos de escritrio, de objetos de fantasia, de papis pintados, carimbos de borracha e outros objetos ligados escrita, vindos diretamente da Europa. Estabelecimentos de importao, como Abreu Teixeira & Comp., ao lado de foges, aquecedores e lampies, apresentam com destaque as bonitas escrivaninhas americanas recm-chegadas. Na base da disseminao da escrita e, principalmente, dos materiais impressos, est o rpido desenvolvimento das artes grficas em So Paulo. No final do sculo, cresce consideravelmente o nmero de tipografias na cidade. Alm dos jornais dirios de maior importncia, como O Correio Paulistano, O Estado de So Paulo e o O Dirio Popular, que abrem e aprimoram suas oficinas grficas, fundam-se inmeras tipografias e litografias particulares na cidade. Nos classificados dessas folhas dirias, a demanda que mais cresce entre os profissionais letrados a de tipgrafos e grficos em geral. A procura por enchedores de linha, impressores, encadernadores e compositores comum no perodo. Precisa-se tipographo para estabelecimento na capital; Precisa-se de um bom enchedor de linhas nesta tipographia. (DIRIO POPULAR, 5/4/1892); ou ainda, TIPGRAPHO oferece-se um bom enchedor de linhas, compondo em portugus e alemo, cartas sob as iniciais E. O. R. neste jornal. (DIRIO POPULAR, 7/2/1902). so anncios correntes no perodo. A leitura dos jornais passa a integrar o cotidiano da cidade, onde, segundo Raffard (apud BRUNO, 1981, p. 107), antes de clarear o dia so oferecidos ao pblico os jornais da terra e, depois da chegada do expresso do Rio, l pela noite, as folhas de fora, que nos quiosques, botequins de praa e outros pontos podem ser lidos comodamente em cadeiras abrigadas por chapus-de-sol enormes [...] enquanto o engraxate faz seu ofcio. Nas portas das redaes, telegramas e noticirios chamam a ateno da populao e das tipografias saem numerosos bambini que chamam a si o monoplio da venda dos diversos rgos da imprensa, cujos ttulos gritam com pronncia fortemente italianizada. Como argumenta Del Fiorentino (1982) em seu trabalho sobre produo e consumo da prosa de fico em So Paulo entre os anos 1900 e 1920, com as fontes e informaes de que dispomos fica muito difcil fazer qualquer avaliao mais exata do movimento de 50 publicaes desses estabelecimentos no perodo anterior a 1920. No entanto, as articulaes de informaes fragmentrias do visibilidade ao processo intenso de produo e difuso de materiais impressos. Se difcil identificar a edio da fico nacional, o mesmo no acontece com outros materiais e, principalmente, com a imprensa peridica. A escrita e, principalmente, as artes grficas articulam-se definitivamente ao mundo das mercadorias. Respondendo a demandas colocadas pelo desenvolvimento do comrcio e da difuso das letras na vida cotidiana, as tipografias imprimem uma grande variedade de materiais, como faturas, circulares, letras em branco, rtulos de produtos, bulas de remdios, cartes comerciais e de visita, cartas de enterro, folhinhas, calendrios, etc. No decorrer do perodo, ao lado de almanaques, opsculos, correspondncias, brochuras e algumas raras edies de fico bem cuidadas, os peridicos ganham espao crescente na pauta de publicaes dessas tipografias. A imprensa peridica vira moda e transforma-se no principal produto da cultura impressa, e o periodismo emerge como um importante espao de renovao da cultura letrada. Mais ainda, no ambiente da metrpole em formao, a imprensa peridica apresenta-se como foco fundamental de formulao, discusso e articulao de concepes, processos e prticas culturais e de difuso de seus projetos e produtos. A pequena imprensa de folhas e revistas aproxima o jornalismo do cotidiano da vida urbana. 51 52 4. TEMPO DAS TIPOGRAFIAS Impresso e esteriotipado em mquinas rotativas de fazer azeite. O Azeite, rgo crtico satrico dedicado s classes enferrujadas, 01/06/1906. O movimento de crescimento e circulao dos materiais impressos em So Paulo, principalmente da imprensa peridica, acompanha o prprio ritmo de desenvolvimento da cidade. Nas duas ltimas dcadas do sculo XIX, vieram a pblico mais de 600 publicaes paulistanas, o quntuplo das quatro dcadas anteriores. Ao lado da afirmao dos jornais dirios, que comeam a aparecer a partir de meados do sculo Correio Paulistano (1854), Dirio de So Paulo (1865), A Provncia de So Paulo (1875), O Dirio Popular (1884), A Platia (1888) de forma ainda embrionria, aparece uma grande e diversificada quantidade de peridicos. A imprensa diversifica-se, chegando ao pblico atravs de um grande nmero de publicaes das mais variadas modalidades. A imprensa diria vivencia um momento importante de seu processo de afirmao. Tendo como exemplo mais bem sucedido O Estado de So Paulo, que de 4 mil exemplares em 1888 passa a uma tiragem diria de 35 mil exemplares por volta de 1913, os jornais dirios, atravs da expanso de suas tiragens, acompanham o salto populacional da cidade.1 Contrastando com as poucas tipografias existentes na cidade nos anos 60 e 70 do sculo XIX, o Almanaque Administrativo Comercial e Industrial da Provncia de So Paulo para o ano de 1884 j identifica mais de 20 tipografias em funcionamento na cidade. Tais tipografias, oficinas grficas e sees de obras dos grandes jornais passam a aglutinar contingentes significativos de tipgrafos e trabalhadores grficos que formariam a elite letrada e uma das categorias profissionais mais importantes na conduo dos movimentos dos trabalhadores urbanos de So Paulo nas primeiras dcadas do sculo XX. A regularizao dos servios de correios e telgrafos, proporcionada pelo desenvolvimento das vias frreas, alm de agilizar os processos de transmisso de notcias me1 Alm do levantamento da imprensa de variedades j referido na introduo deste trabalho, foi de grande valia o trabalho de FREITAS (1929), A Imprensa Peridica desde seus primrdios em 1823 at 1914, que traz uma listagem descritiva de todos os peridicos identificados pelo autor nesse perodo. Tambm o trabalho de CAMARGO (1976), A Imprensa Peridica como objetivo e instrumento de trabalho, foi extremamente til na localizao e discusso dos peridicos. No que diz respeito grande imprensa paulistana, inmeras indicaes tm como base o artigo de Paulo Duarte (1954), Cento e Vinte Anos de Imprensa Paulista. 53 lhora o servio de entregas de assinaturas, principal forma de distribuio da imprensa peridica na poca. Sufocado pelas altas taxas sobre a importao de papel, restrito a um pequeno pblico de gosto e traquejo letrado, mais avesso aos apelos comerciais e transformadores das novas linguagens, como o reclame, a caricatura e a fotografia, at o primeiro ps-guerra o livro permaneceria entre ns como artigo de importao. Como reclama Lobato (1944, p. 193-198) em carta a Washington Lus em 1926, ento j editor falido e ressurgido, que confessa ter como obsesso o livro barato, acessvel ao povo: Hoje [no Brasil] o livro s acessvel s classes ricas e, no andar em que vai, nem a elas, acabando por figurar nas vitrines das casas de jias, como objeto de luxo. Segundo Del Fiorentino (1982) em seu estudo sobre a produo e consumo do livro em So Paulo entre 1900 e 1920, as poucas edies de fico nacional realizadas ento defrontavam-se com inmeros obstculos, e mesmo a produo de cartilhas e livros didticos, que respondiam por mais de 30% do total de volumes editados no perodo, tinha como limite a relao perversa entre alto custo e demanda restrita. Na mesma poca, diferentemente do livro, a imprensa peridica paulistana experimenta um verdadeiro boom. O ambiente do jornalismo vive um clima de bastante otimismo. Tornam-se frequentes e concorridas as festas de batismo dos novos peridicos, realizadas com toda pompa nas confeitarias da moda ou nos parques da cidade, com a presena de toda a classe jornalstica. As sees de crnica passam a registrar esse [...] fenmeno bastante estranho [que] o andao do jornalismo que presenciamos em So Paulo, discutindo as razes desta erupo de peridicos de todo feitio e de todo o gnero numa cidade que ia se tornando proverbial a pasmaceira literria. (A PAULICIA, 02/04/1896). Com a exceo de alguns poucos avanos localizados, os processos tcnicos, as formas e gneros desenvolvidos por essa imprensa no apresentam nenhuma grande novidade em relao aos j vastamente utilizados no perodo. Pelo contrrio, at as ltimas dcadas do sculo XIX, as artes grficas paulistanas ressentem-se daquele provincianismo de que tanto se queixavam seus visitantes mais cosmopolitas. At ento, os trabalhos de edio, composio e impresso da maioria dos rgos da imprensa paulistana eram realizados como processos separados e quase independentes. Nas sees de obras dos dirios ou nas diversas tipografias da cidade, a presena de categorias profissionais como tipgrafos, compositores, impressores de alauzet, encadernadores, pautadores, douradores, gravadores, esteriotipistas, zincgrafos e litgrafos indica um processo ainda incipiente de mecanizao dos processos grficos. Nas redaes, o jornalismo se configura como um campo de amadores, profisso pouco rentosa, na indignada anlise de Pinheiro Jnior, aberta a todos, inclusive nulos e idiotas, que aps rpidas passagens por pequenas folhas, j bacharis ou amanuenses da cmara, podiam falar com nfase das suas pugnas jornalsticas. (ALMANACH DO ESTADO DE SO PAULO, 1916, p. 103). A anlise comparativa de alguns poucos peridicos da imprensa carioca e de publicaes europeias, como as portuguesas, espanholas e francesas, mostra que eles fornecem os modelos e as matrizes da imprensa paulistana. Ainda assim, da tica da Histria Social, a expanso e transformao da imprensa peridica paulistana emerge como um processo cultural rico de significados. Em suas origens, o processo inventivo de expanso e transformao da imprensa paulistana passa mais pela riqueza e diversidade de seus personagens e processos sociais do que pela inovao e criao de novas solues tcnicas. 54 Articulando-se s novas linguagens, num ambiente social livre das relaes escravistas, fazendo da cidade seu ambiente, na imprensa peridica a palavra escrita e impressa parece buscar transpor os limites impostos por suas funes de cdigo e linguagem de uma reduzida elite proprietria e letrada, ligada diretamente aos crculos de poder na provncia e oriunda da Faculdade de Direito do Largo de So Francisco. A cidade intromete-se na imprensa. O crescimento da cidade, a diversificao das atividades econmicas, a ampliao do mercado e o desenvolvimento da vida mundana so incorporados s formas e contedos dessas publicaes. Atravs de novas temticas, personagens e linguagens, o processo social que transforma a cidade passa tambm a configurar as publicaes. Num ambiente onde o jornalismo profissional tem espaos restritos aos poucos postos de trabalho oferecidos pela imprensa diria, definindo-se como emprego exclusivo de muito poucos, e as condies de produo da imprensa tinham ainda muito de carter artesanal, torna-se possvel a expanso significativa dos grupos produtores. As redaes e grupos de leitores passam a congregar, alm da elite masculina dos polticos-doutores-literatos, outros grupos sociais, como imigrantes, mulheres cultas da elite, camadas intermedirias letradas, professores, escrives, caixeiros, funcionrios burocrticos, tipgrafos e linotipistas e tambm outros trabalhadores urbanos. No processo de redefinio da cultura letrada, a imprensa peridica assume papel fundamental. Funcionando como suporte aglutinador e veculo de construo da visibilidade pblica de inmeras prticas culturais, a imprensa cultural e de variedades, representada por pequenas folhas e revistas, seria adotada como veculo de parte significativa das associaes culturais informais que proliferam no perodo. Anlises de editores e intelectuais contemporneos a esse processo, reconhecendo, na maioria das vezes num tom ressentido, a supremacia do jornalismo, tendem a destacar o menor preo dos jornais e revistas como elemento explicativo fundamental do sucesso do periodismo na poca. (DEL FIORENTINO, 1982, p. 9-42). Acompanhar o processo de constituio dessa imprensa como momento cultural da vida urbana da cidade de So Paulo no perodo desperta outras perspectivas. A agilidade da imprensa, seu carter mais aberto e democrtico a transformaram em um campo muito mais propcio renovao da cultura letrada do que da produo ficcional. No espao da imprensa, com a intromisso de escritas e olhares de setores e grupos sociais anteriormente alheios aos seus cdigos, a cultura letrada tradicional teve que enfrentar inmeros desafios, colocando-se como um campo privilegiado da disputa cultural no perodo. Nesse espao, os caminhos e embates do processo de disputa que configuram a metrpole ganham maior visibilidade. Ampliando socialmente seus circuitos de difuso, renovando sua linguagem e seu estilo, a imprensa ganha a cidade. Fazer imprensa vira moda e, com os limites impostos por uma sociedade ainda basicamente iletrada, parece que todos devem imprimir e tudo deve ser impresso. O relacionamento pblico e coletivo passa a ter na imprensa um espao privilegiado de articulao. Aqui, parece estimulante pensar com as categorias propostas por Habermas (1984, p. 13-41) para a anlise das transformaes da esfera pblica nas realidades das naes europeias dos sculos XVIII e XIX e propor que a imprensa assuma o carter de 55 uma instituio de pessoas privadas enquanto pblico, transformando-se em instrumento privilegiado de afirmao de uma esfera pblica burguesa que se institui no interior da sociedade civil e que, progressivamente, se dissocia do poder pblico do Estado.2 Na cidade em expanso, frente aos desafios da ocupao estrangeira trazidos pela imigrao, aos perigos representados pelos projetos socialistas e anarco-libertrios e das ameaas de caos colocadas pela multido annima, pobre e liberta, as elites passam progressivamente a disputar o espao urbano. Nesse novo espao social da metrpole em formao, desafiados por outros projetos culturais, os modos de viver e pensar das classes dominantes submetem-se a crticas e reelaboraes. No processo de ocupao da cidade e na disputa pelo espao pblico, o horizonte cultural burgus precisou ir alm da burguesia. Produto e momento dessa nova conjuntura, a imprensa emerge como um campo dinmico da disputa pela afirmao desse horizonte burgus. Atravs da diversificao e difuso do periodismo, parcelas significativas da populao conquistaram espaos e/ou foram sendo progressivamente incorporadas aos circuitos da cultura letrada. Na construo da cidade, sob o signo da novidade e da experimentaco, velhos e novos sujeitos sociais, aprendendo a manejar tcnicas, modelos e frmulas da imprensa europeia, intermediadas pela capital federal, envolvem-se no novo processo de fazer imprensa. Folhinhas, cartes-postais, opsculos, correspondncias e principalmente almanaques so materiais pioneiros na difuso da palavra impressa do periodismo em So Paulo. As tipografias, alm de imprimirem uma grande variedade de materiais ligados s novas necessidades mercantis, passam tambm a publicar correspondncias, panfletos, opsculos, brochuras diversas, elegantes folhinhas, de parede ou de desfolhar, com a firma das casas comerciais, e bonitos almanaques.3 As mesmas tipografias e litografias prometem, atravs de vinhetas e clichs, embelezar tanto rtulos de bebidas, cigarros e outros produtos como tambm folhinhas de casas comerciais, almanaques bem organizados, brochuras com a mais fina encadernao, jornais, etc. Garantindo correo nos trabalhos e modicidade nos preos, tais estabelecimentos apresentam como novidades sortimentos completos de tipos de fantasia e vinhetas do melhor gosto, bem como novssimas mquinas apropriadas s artes grficas recm-chegadas da Europa. Anncios como: AGENDA PAULISTA - indispensvel e elegante folhinha para o ano de 1876; Recebem-se desde j encomendas para folhinhas de parede ou de desfolhar; ou ainda Encomende seu ALMANACH LITTERRIO PAULISTA para 1876, passam a ser comuns em jornais como A Provncia de So Paulo e O Dirio Popular nas dcadas de 1870 e 1880. Os mesmos jornais acusam o recebimento de elegantes folhinhas de diversas casas comerciais, prometendo-os como brindes aos seus assinantes da capital e do interior. Importantes tipografias, casas livreiras e jornais 2 Tais proposies sobre a articulao da imprensa formao de uma esfera pblica na cidade tm como base o dilogo com a viso de HABERMAS (1984, p. 13-41) sobre o processo exposto na introduo de seu trabalho Mudana Estrutural da Esfera Pblica. 3 Como informa FREITAS (1929, p. 385), as correspondncias eram pequenos impressos avulsos onde, na forma de jornal, qualquer pessoa que pagasse uma determinada quantia podia dar publicidade a ideias ou posies sobre qualquer assunto ou evento da conjuntura, desde que as redigisse de forma equilibrada e com decro. 56 dirios do perodo, como a Typographia Jorge Seckler & Cia, O Estado de So Paulo e a Casa A. L. Garraux, livreiro da Academia, comeam a organizar seus almanaques anuais. Interessa ressaltar que, misturados a faturas e notas de compra, rtulos e cartes comerciais, que atendem s crescentes necessidades da escriturao mercantil e das relaes de mercado como um todo, outros materiais impressos, que anunciam a diversificao da imprensa, tais como opsculos, brochuras, panfletos, folhinhas e almanaques, impem-se enquanto produtos rotineiros das casas tipogrficas, colocando-se na condio de materiais correntes na vida cotidiana dos paulistanos. O almanaque, esse livro peridico que segundo Nelson Werneck Sodr (1977, p. 276) era o livro de um pas que no tinha ainda pblico para suportar a impresso de livros, ajuda a compreender a natureza da cultura impressa naqueles primeiros momentos de sua emergncia e diversificao. Na capital federal, os almanaques j vinham sendo publicados com grande aceitao durante grande parte do sculo XIX. No Brasil, o mais famoso e popular dentre todos os almanaques seria o Almanach Laemert, publicado no Rio desde 1844 e que ganhou tanto prestgio que continuou a ser publicado mesmo depois do desaparecimento da casa Laemert, que lhe dera nome, sendo distribudo por outras casas comerciais at 1930. (SODR, 1977, p. 237). Em So Paulo, o primeiro almanaque consultado foi o Almanach da Provncia de So Paulo para o ano de 1873, organizado por Antonio Jos Baptista e Paulo Delfino da Fonseca e publicado pela Tipografia Americana.4 Incorporando as intenes generalistas de seus similares cariocas, utilizando inmeras fontes para a sistematizao das informaes, inclusive informaes voluntrias anteriormente solicitadas atravs de anncios no jornal aos cidados residentes na provncia, assumindo o carter de esforo pioneiro em So Paulo, em suas 566 pginas e anexos o Almanach da Provncia busca reunir o maior volume possvel de dados, conhecimentos e estatsticas sobre a provncia. De ampla tradico na cultura letrada europeia, em suas origens estreitamente vinculado s necessidades das atividades mercantis, trazendo alm de calendrio informaes gerais sobre importaes e exportaes, impostos e taxas, horrios de trens, tabelas de converso de preos e medidas, reparties pblicas e atos administrativos, os almanaques foram paulatinamente assumindo uma feio mais generalizada e amena, incorporando de forma crescente contedos ldicos e de entretenimento. Os almanaques administrativos, comerciais e industriais ganhariam sees culturais e de entretenimento e os almanaques literrios surgiriam como a novidade do gnero. Assim, o anncio de A Provncia de 29/10/1875, sobre a preparao do Almanach Litterrio Paulista, organizado para o ano de 1876 por Jos Maria Lisboa, que foi publicado anualmente pelo menos at 1881, prometeu que ele [...] conter, alm do calendrio, partida e horrio de linhas frreas, artigos literrios, originais de paulistas, da seguinte natureza: notcias histricas, bio- 4 Uma discusso interessante sobre os almanaques paulistas encontra-se no estudo de CAMARGO (1983). 57 grafias, pequenos romances, lendas, poesias, charadas, informaes cientficas etc. O artigo de abertura do almanaque nos informa que este foi [...] feito buscando a colaborao de todos os paulistas que em diversas pocas tm ilustrado a imprensa com seus escritos, buscando apresentar ao pblico um livrinho palpitante de interesse e curiosidade. Os prprios ttulos desses almanaques, como Novo Almanaque de So Paulo (1885 a 1887), Almanaque Histrico-Literrio de So Paulo (1896 e 1903) e Almanaque Paulista illustrado (1896), indicam a busca de uma conformao mais leve e amena.5 Durante as trs ltimas dcadas do sculo XIX, saram das tipografias inmeros almanaques culturais e literrios. No perodo, as casas livreiras, jornais da grande imprensa e alguns importantes estabelecimentos do comrcio paulistano buscaram, com maior ou menor sucesso, organizar seus almanaques anuais. Assim foram o Almanaque Mellilo, editado em 1904 pela Melillo & Cia. livreiros e editores, e o Almanaque dO Estado de So Paulo, publicado de forma bastante irregular at 1916. Nas listas de publicaes das casas livreiras, eram cada vez mais frequentes os almanaques literrios paulistas, cariocas, portugueses ou franceses. Os almanaques transformam-se em verdadeiros guias da cidade, incorporando de forma crescente informaes sobre suas instituies, seus hbitos e espaos de cultura e entretenimento, recantos aprazveis, estabelecimentos de ensino, associaes recreativas, clubes de esportes, trazendo como novidade indicadores comerciais e de profisses. Alis, torna-se importante destacar que justamente esse carter de guia que os tm transformado em fontes fundamentais para o estudo da cidade. Na falta de informaes cotidianas sistematizadas, na ausncia de estatsticas e indicadores organizados por instituies governamentais, so esses almanaques que trazem as informaes mais variadas e completas sobre vrios aspectos da vida urbana. Numa sociedade onde o livro artigo de luxo, confeccionado com capas de madreprola, o almanaque aparece como espao pioneiro de experimentao e primeiro esforo sistemtico de ampliao dos crculos de difuso da cultura impressa. Publicaces hbridas, nem livro, nem jornal, nem revista, os almanaques desenvolvem-se como espao de renovao dessa cultura. Em suas pginas, foram testados novos contedos e formas de contar que, mais tarde, seriam amplamente adotados pelas pequenas folhas literrias, de humor ou de variedades, tais como as to populares sees de charadas, os retratos e perfis biogrficos, as pequenas notas de curiosidades, os breves ensaios cientficos e literrios. Experimentando tipos, colunas, vinhetas, combinaes de textos e ilustraes, nmeros crescentes de anncios e reclames comerciais, os almanaques tambm funcionaram como um campo de aprendizado para tipgrafos e editores paulistas. 5 Provavelmente por terem sido considerados pela poltica de preservao de materiais pouco nobres, os almanaques so publicaes relativamente raras nos acervos de inmeros arquivos histricos paulistanos. Os nmeros esparsos dos almanaques aqui consultados encontram-se, em sua grande maioria, no acervo do Instituto de Estudos Brasileiros da USP. 58 A elite intelectual brasileira, diferentemente dos escritores da confeitaria berlinense da pea radiofnica de Walter Benjamin (1986, p. 67), O que os alemes liam, enquanto seus clssicos escreviam, que os consideram como coisa do diabo na medida em que, com seus versos, anedotas, canes, danas e andanas, artiguinhos e notcias, mapinhas, gravurinhas e figurinos acabam desviando a ateno das obras srias, mesmo do pblico mais culto, parece valorizar positivamente a publicao de almanaques. Estes so fartamente anunciados pela imprensa diria e valorizados como importantes instrumentos de difuso cultural. Assim, comentando a incontestvel utilidade do Almanach Litterrio Paulista para o ano de 1876, o redator dA Provncia de So Paulo argumentar que: [...] introduzir o gosto pela leitura um dos problemas, cuja soluo mais particularmente deve preocupar os que tem a peito a difuso das luzes pelas classes menos favorecidas da nossa sociedade [...] [avaliando que] o almanach afigura-se-nos: dentre todos, o meio de mais facilmente alcanar-se este disideratum [...]. (A PROVNCIA DE SO PAULO, 23/10/1875). A anlise da evoluo dos materiais impressos no incio do sculo XX sugere que, entre ns, os almanaques no assumiram, como na Europa moderna, ou como queria o editor dA Provncia, o papel de principal veculo de difuso das luzes pelas classes menos favorecidas. Embora tenham alcanado relativa difuso e popularidade, principalmente no final do sculo XIX, os almanaques permaneceram com a feio de guias prticos, catlogos anuais de servios e indicadores comerciais e de profisses da cidade, avs de nossos guias e catlogos de endereos e telefones modernos, sem adotar a forma de opsculos e livretos populares sobre amor, sade e outros temas cotidianos, atravs da qual foram amplamente difundidos em vrios pases europeus durante parte dos sculos XVIII e XIX.6 Apesar disso, eles j apontam claramente para a importncia da articulao da cultura impressa a novos sentidos, prticas e linguagens da cidade no processo de redefinio e popularizao da cultura letrada. Muito mais que os almanaques, de organizao demorada e complexa e custo relativamente elevado, so as folhas e pequenas revistas culturais de variedades que emergem como publicaes tpicas da exploso jornalstica do final do sculo. Literrias, noticiosas, recreativas, comerciais, humorsticas, mas tambm crticas, reivindicatrias, doutrinrias, essas publicaes transformam-se no suporte impresso das mais variadas concepes e prticas culturais. A partir da dcada de 1980, ao lado dos jornais da imprensa diria que vm se afirmando desde os anos 1960 e 1970, em meio s publicaes acadmicas e jornais polticos de uma dcada animada pelas campanhas abolicionista e republicana, as pequenas folhas e revistas de cultura e variedades comeam lentamente a ganhar espao na imprensa paulistana. Na virada do sculo, esses peridicos, tratando de contedos diferentes e ligados a uma gama diversificada de grupos sociais, representam a grande novidade da imprensa paulistana. 6 interessante apontar que dcadas mais tarde, principalmente nos anos 1950 e 1960, uma publicao como a Seleo Readers Digest, com uma feio muito parecida com os antigos almanaques, teria enorme difuso no Brasil. 59 Num modelo quase nico, as folhas impressas em 4 pginas e diagramadas de 2 a 4 colunas, tamanho ofcio e mais raramente tabloide, as revistas em tamanhos minsculos, variando de 8 a 20 pginas, foram veculos fundamentais de difuso da cultura impressa no perodo. De financiamento relativamente barato e feitura extremamente simples, essas publicaes democratizaram o acesso cultura impressa. Parecendo aos nossos olhos produtos quase caseiros, incorporam ao universo da imprensa peridica falas e interesses sociais anteriormente alijados ou marginais a ele. Pequenos grupos, formados por 2 ou 3 pessoas, com seus escritrios e redaes adaptados em suas prprias casas, bares, escolas, sindicatos e associaes diversas, tornam-se responsveis pela edio de inmeros peridicos que constituram poro significativa do que seria a imprensa peridica e a leitura corrente no perodo.7 Os vagos e muitas vezes irnicos expedientes de tais publicaes, declarando redatores diversos (A Penna, 1882), redao annima (O Alfinete, 1915), sai quando pode (O Gaiato, 1905), redao em toda parte (A Farpa, 1887), escritrio na mesa do canto do caf Guarany ou no olho da rua (O Garoto, 1900) ou mesmo o uso de inmeros pseudnimos para um mesmo redator do conta da conformao desses grupos produtores. Interessante nesse particular o testemunho de Monteiro Lobato (1944, p. 9-11) sobre o processo de confeco de O Minarete, um jornal sui generis, inteiramente fora dos moldes do jornalismo do interior, de formato 30 x 43 cm, mas que corresponde ao modelo de grande parte dos peridicos aludidos, que Benjamin Pinheiro manteve em Pindamonhangaba entre os anos 1903 e 1907. Diz o autor: Eu me divertia fazendo O Minarete quasi inteiro de longe. Quantos nmeros totalmente escritos por mim o soneto, os contos, o humorismo, as variedades, o rodap, o artigo de fundo! Isso me forava a um grande sortimento de pseudnimos, para dar ao pblico a impresso de que o jornal dispunha de um exrcito de colaboradores: Lobatoyewsky, Yemsky, Pascalon o engraado, Guy dH, Helio Bruma, Enoch Vila-Lobos, Matinho Dias, B. do Pinho, Osvaldo, P., N., Yan Sada Yako, Mem Bugalho, She, Anto de Magalhes, Nero de Aguiar, Bertoldo, Marcos Tweim, Olga de Lima, etc, etc. E todos l do cenculo nele escrevamos. Bruno de Cadiz publicava as saudosas crnicas do Album do Minarete. Raul de Freitas, as suas to sentimentais Recordaes. Candido apareceu nos primeiros nmeros com a coluna Fen d Brut, assinando Bompart. Rangel assinava Bezuquet. Albino assinava Ruy dHan. Ricardo tambm publicou no Minarete muitos de seus sonetos e as tradues de Rostand e Lecombe. Firmando-se enquanto ambientes letrados da cidade, as tipografias e/ou casas editoras passam a assumir, na maioria das vezes de forma simultnea, a edio, impresso e distribuio desses jornais e revistas. Das sees de obras e oficinas grficas dos jornais da imprensa diria, da atuante tipografia de Jorge Seckler & Cia., fundada em 1862, es7 Guardadas as devidas propores, como sugere um dos pesquisadores que trabalhou no levantamento e sistematizao das referncias de pesquisa sobre essas publicaes, Dalton Delfini Maziero, o processo que anima e dinamiza esse tipo de imprensa bastante parecido ao dos atuais fanzines, que, resultantes de associaes bastante espontneas e informais, confeccionados de modos quase clandestinos, alcanam difuso significativa. 60 tabelecida em amplas oficinas da rua 25 de Maro e que se autodenominava o primeiro e melhor montado estabelecimento de tipografia, encadernao, pautao e de fabricao de livros em branco da cidade, da importante tipografia King vapor da rua da Imperatriz, da Typographia a Vapor Rosenhein & Meyer, da Typographia Vanorden & Comp., mas tambm de pequenas tipografias do Brs, sai uma enorme variedade de peridicos. Grupos tradicionais da cidade letrada, como estudantes da Academia, advogados, mdicos, escritores e jornalistas j semiprofissionalizados encontram nesse tipo de publicao um espao livre dos controles e compromissos assumidos por proprietrios e editores da imprensa diria. Assim, Paulo Duarte nos informa que, ainda nos anos de 1910, o grupo de moos inteligentes que formava o ncleo do Estadinho, edio da noite de O Estado de So Paulo, onde as irreverncias oposicionistas acabavam provocando zangas do velho Jlio de Mesquita, resolveu fabricar outro veculo mais adequado com a falta de juzo geral, que foi O Queixoso (1915/1916), onde at o prprio Jlio de Mesquita passou a assinar artigos sob o pseudnimo Mephisto. (AMARAL, 1948). Atravs dessas publicaes, vozes antes ausentes dos circuitos de produo e difuso da cultura impressa conquistam um canal de expresso. Como a cidade, a imprensa se espalha via diferentes espaos sociais. A viso congelada desse conjunto apresenta-se como um grande emaranhado de publicaes com gneros, fins e objetivos diversos. Na verdade, um olhar mais detido e demorado sobre o perodo surpreende um processo intenso de renovao das linguagens da vida coletiva. Na crescente complexidade da vida social da metrpole em formao, a escrita, articulada a outras linguagens na imprensa peridica, rompe os muros das academias do sculo XIX. 61 5. SAI AOS DOMINGOS O Pirralho literatizou-se... Nada produziu de srio a no ser um documento de poca. Um Homem sem Profisso. Oswald de Andrade. Embora, no perodo aqui estudado, o movimento de expanso da imprensa cultural e de variedades se configure num conjunto bastante variado de publicaes, as folhas e revistas domingueiras destacam-se enquanto veculos privilegiados na articulao dos novos sentidos e linguagens da vida urbana.1 Num primeiro plano, sobressaem as estreitas articulaes desse periodismo vida cotidiana da cidade. O exame geral das publicaes sugere um movimento da vida urbana diferenciado daquele que se impe na maioria dos jornais dirios. atravs dessas folhas e revistas que podemos perceber melhor as transformaes dos modos de vida informais que constituem a metrpole em formao. A ganham visibilidade novos hbitos e costumes urbanos. O contato com esses materiais nos coloca diante de uma cidade que aos domingos passeia no Jardim Pblico, no Parque Antrtica, no Jardim da Aclimao; que pratica esportes, joga futebol nos campos do Bosque da Sade ou nos times de vrzea; que assiste a matchs no veldromo e frequenta os prados da Mooca; que aplaude as troupes de malabaristas e danarinas no Polyteama; frequenta o botequim chic do Municipal; assiste s matins no den; frequenta as elegantes soirres do Germania e os animados bailes do Salo Celso Garcia. Por meio dessas publicaes, a imprensa mistura-se muito mais ao dia a dia dos habitantes da Pauliceia, dando visibilidade aos novos hbitos das elites que nas primeiras dcadas expandem-se para outros setores da populao. Referidas na literatura sobre a imprensa no perodo como nossas revistas de cultura, revistas de variedades, revistas ilustradas, as publicaes que aqui se denominam domingueiras compreendem um amplo espectro de peridicos publicados mais regularmente desde os anos 1980 e que vo desde as pequenas revistas literrias e culturais editadas por associaes e grupos diversos, na forma, muito prximas das revistas literrias editadas por estudantes da Faculdade de Direito no sculo XIX; passam pelas inmeras pequenas revistas e folhas de artes, moda, costumes, humor, esportes, reclame, 1 Vrias dessas pequenas folhas e revistas de variedades, que tinham como contedo bsico literatura, pequenas notcias e entretenimento, no s vinham a pblico aos domingos como se propunham como uma leitura domingueira. 62 editadas por grupos culturais, clubes, grupos editores em formao, casas comerciais, e chegam at as j bem estruturadas revistas ilustradas e de variedades do final dos anos 1910. Com a virada do sculo, tais publicaes, raras nos tempos da imprensa acadmica, passam a responder por uma porcentagem cada vez mais significativa da imprensa peridica paulistana. Desenhando-se no interior das novas prticas e modos de viver na cidade em expanso, constituindo-se como campo de experimentao e afirmao das novas formas de dizer e contar da vida urbana, tais publicaes apresentam-se como a tendncia mais dinmica e inovadora da cultura impressa no perodo. No obstante as diferenas de concepo grfica e esquemas de financiamento que esse conjunto de publicaes apresenta onde esto agrupadas desde uma pequena folha de 4 pginas, sem ilustraes ou ilustrada a crayon, e revistas de mais de 40 pginas, repletas de fotografias e bem estruturadas editorialmente , ele expressa o desenvolvimento de um processo onde a cultura impressa incorpora de forma crescente o entretenimento aos seus contedos e formas de contar. Atravs da escrita e da leitura dessas publicaes, a cultura letrada passa progressivamente a articular-se s formas mundanas e cotidianas de sociabilidade coletiva. O entretenimento e a diverso, transformando-se em base e objetivo da escrita e da leitura dessas folhas e revistas, delineiam direes importantes do processo de popularizao da cultura letrada. No decorrer desta pesquisa, foram importantes as indicaes da historiografia sobre a relevncia de tais publicaes na poca. Tais estudos, a maioria sob a pespectiva da Histria da Imprensa, destacam as transformaes nos contedos e formas de contar dessa imprensa como a grande novidade do perodo. Na viva caracterizao de Ricardo Ramos (1985, p. 19), As revistas comeam com o sculo. Se os jornais marcaram nosso perodo anterior, nascidos muitas vezes da luta poltica, saindo e se multiplicando, fechando e sendo substitudos, criando este clima de participao que foram as ltimas dcadas abolicionistas e republicana, o 1900 muda a tnica da imprensa para as revistas. Semanais, ilustradas. E nelas se v uma nova atmosfera. Agora o instante da crnica social, da charge, do soneto. Os homens do govrno no so mais atacados so alvos de stira; os fatos do dia no se traduzem em notcias, mas vm no leve comentrio; e junto com as rimas, que tomam largo espao, h um no menor fascnio pela academia. Tempo de Bilac, das fotos das senhorinhas, dos ecos parisienses. Sustentando tudo isso uma propaganda regular. No mbito deste estudo, buscou-se estar atento no s s indicaes sobre a renovao das linguagens, mas tambm s dimenses sociais desse processo. No final do sculo XIX, a confeco desses tipos de jornais e pequenas revistas coloca-se como uma das dimenses importantes da vida cultural de diferentes grupos sociais. Diferentes associaes envolvem-se com essa imprensa domingueira. Fazer jornal torna-se uma das atividades centrais dos grmios escolares, das associaes recreativas, danantes e artsticas, dos grupos literrios. Reunir-se para danar, formar grupos dramticos e musicais, associaes carnavalescas e esportivas era tambm oportunidade para escrever e fazer imprensa. 63 Envolvendo principalmente personagens da elite e de grupos intermedirios, onde num primeiro momento tais vivncias disseminam-se mais fortemente, no decorrer do perodo as novas prticas culturais e as pequenas folhas e revistas que as articulavam espalham-se socialmente e penetram ambientes mais populares, como escolas noturnas, bailes nos crculos operrios, grupos de teatro ou de esporte dos bairros, botequins do Brs, etc. O processo social de constituio desses tipos de peridicos pode ser mais bem compreendido se identificarmos, de forma um pouco mais concreta, alguns dos personagens e prticas que os articulam. Saindo de um universo at ento eminentemente privado, a mulher, principalmente a mulher da elite, destaca-se como o primeiro personagem desse processo. O aparecimento de revistas e jornais feitos por ou para mulheres so indicadores visveis de deslocamentos dos costumes sociais da vida feminina. Ento, em pequenas folhas e revistas, senhoras da sociedade paulistana, aglutinadas em restritos grupos e associaes, comeam a atuar em um campo que antes no lhes era prprio. Tais publicaes emergem como espao fundamental da nova mulher brasileira, da qual falava Marie Robinson Wright j em 1889, que sem qualquer ostentao de ideias avanadas, no sendo to agressivas quanto a de outros pases onde existiam as Sociedades Sufragistas ou as Ligas de Direitos Femininos, no correspondiam mais a criaturinha meiga, que a fico pinta, sempre sujeita vontade soberana de seu amo e senhor. (LEITE, 1984, p. 138). Seja dando voz a uma prtica de filantropia e/ou disseminao de princpios moralizantes, seja servindo de veculo da produo feminina de associaes culturais e recreativas, dando relevo a nomes de mulheres paulistas como Anlia Franco, Zalina Rolim, Mariquinhas de Andrade e Presciliana Duarte de Almeida, no perodo vm a pblico inmeras publicaes editadas por e/ou para mulheres. A mulher paulistana ganha espao na cultura impressa atravs de rgos como A Famlia (1888), jornal literrio dedicado educao da me de famlia, do qual participam Anlia Franco, Josephina Alvares de Azevedo e outras senhoras da sociedade paulistana, e que tinha o intuito de aconselhar as mes de famlia em diversas questes morais, trazendo textos sobre educao dos filhos, religio, prostituio, relao entre amos e criados, etc; o lbum das Meninas (1898), revista literria e educativa dedicada s jovens brasileiras, que circulou entre 1898 e 1900, atravs da qual outra vez Anlia Emlia Franco busca organizar [...] uma publicao que possa ser um remdio eficaz contra o estelionamento moral que nos vai produzindo a literatura de nossos dias [...]; A Voz Maternal (1903), rgo da Associao Feminina Beneficente e Instrutiva e da Educao das classes desvalidas de So Paulo; folhas literrias como A Mensageira (1897), editada por Presciliana Duarte de Almeida, primeira mulher a entrar na Academia Paulista de Letras; Jornal das Damas (1890), peridico literrio voltado para o pblico feminino; e O Chromo (1901), revista mensal de literatura, arte e cincia dedicada ao belo sexo, publicada por Irene Costa e Aurora Campos no bairro do Brs. Vrias dessas publicaes lograram relativa repercusso social, conseguindo aglutinar esforos na manuteno de associaes e obras beneficentes ou na divulgao dos novos interesses de instruo, profissionalizao e/ou desenvolvimento cultural da mulher na sociedade paulista. Em primeiro plano, pode-se destacar o exemplo de A Voz Maternal, que na primeira dcada do sculo XX articulou e divulgou as atividades da importante Associao Fe- 64 minina Beneficente e Instrutiva de So Paulo, fundada em 1901 sob a liderana de Anlia Franco, e cujo objetivo central era assistir as classes desvalidas. Atravs das campanhas desenvolvidas e divulgadas pelo jornal, pela realizao de quermesses, saraus, conferncias, palestras, etc., a Associao conseguiu ganhar prestgio e respeito, angariar doaes de fabricantes e comerciantes, do poder pblico e, principalmente, das senhoras das tradicionais famlias paulistanas fato que comprovado pela divulgao das prestigiosas listas de doadores a cada nmero do jornal , com as quais sustentou suas obras de filantropia, como a creche, o asilo, a escola noturna e especialmente as 28 escolas maternais que funcionavam em vrios bairros da capital e que, segundo a publicao, em 1903 atendiam a mais de mil crianas entre 2 e 12 anos. No campo cultural e literrio deve-se destacar A Mensageira, que considerada a publicao pioneira da imprensa feminina paulistana e, segundo a mesma Marie Robinson, com enorme esforo chegou a ser um peridico mensal de muito prestgio, recebendo colaboraes de mulheres escritoras de todo o Brasil e at da Frana, onde tinha uma representante. (LEITE, 1984, p. 107). Prometendo lutar contra as concepes que defendiam que o encanto da mulher est justamente na sua ignorncia, na sua timidez e na sua infantilidade, a revista veio luz tendo como temas centrais a instruo e profissionalizao da mulher e a nova educao dos filhos. (A MENSAGEIRA, 30/10/1897). O contedo da revista era composto por materiais literrios, notcias e comentrios sobre eventos sociais e culturais, notcias gerais e curiosidades, alm de artigos que tratam sobre os novos desafios colocados para a mulher no exerccio de seus papis sociais de me, dona de casa e esposa, destacando o papel da instruo na nova atuao da mulher. Com o passar dos anos e o desenvolvimento dos grupos editoriais, esses interesses femininos conformaram importantes revistas como A Cigarra (1914), que mesmo se apresentando como uma publicao de variedades de carter mais geral, tem forte apelo ao pblico feminino; e a Revista Feminina (1915), de propriedade da Empresa Feminina Brasileira, que comercializava produtos destinados s mulheres e que teve grande sucesso no perodo. Denotando a expanso da instruo particular e pblica, pequenos jornais, em sua maioria de carter literrio, comeam a ser editados por grmios estudantis dos estabelecimentos de ensino da capital. Num primeiro momento, abrangendo to somente a Academia, os cursos preparatrios para a Faculdade de Direito, que comeam a se disseminar pela cidade, e as escolas particulares da elite, saem a pblico jornaizinhos como o Ensaio Litterrio (1879), rgo do clube literrio do curso anexo; O Discpulo (1884), do clube de preparatorianos Galvo Bueno; o Victor Hugo (1887), publicao do colgio Moretz-Sohn; e O Aspirante (1889), dos alunos do externato So Jos. Essa imprensa expande-se tambm para espaos mais populares, como escolas pblicas e classes noturnas que comeam a pipocar pela cidade. Aparecem publicaes como O Jovem Escolar (1895), edio dos alunos do grupo escolar do sul da S; o Progresso do Bexiga (1902), rgo defensor dos interesses dos alunos da escola modelo Maria Jos, que segundo Affonso de Freitas consegue sobreviver at pelo menos o n. 40; ou O Labaro (1902), ligado ao grmio literrio do Curso Noturno de Humanidades. Resultando, em sua maioria, do trabalho de alguns professores com uns poucos alunos, tais peridicos assumem uma feio literria tradicional, publicando poemas, pe- 65 quenos artigos ufanistas sobre as datas ptrias e princpios de moral e civismo, crnicas de autoria dos alunos e professores e poesia e prosa de expoentes das letras paulistana e nacional. O jornalismo transformado em gnero e fazer jornal escolar passa a constituir um exerccio de aprimoramento das formas de escrita. O jornal escolar proposto como um estmulo aos jovens no campeonato da imprensa e um instrumento de exerccio nas lides do jornalismo. As notcias sobre as atividades dos estabelecimentos resumem-se a pequenas notas sobre exames e atividades extracurriculares. As discusses pedaggicas de carter mais srio sobre a instruo e as letras nacionais ficam reservadas s poucas publicaes de educadores ou das escolas de formao de professores, como o caso da prestigiosa revista O Estmulo, publicada desde 1907 pelo Grmio Normalista 2 de Agosto. Tpicas tambm dessa imprensa so as pequenas publicaes das associaes danantes e recreativas, que ganham importncia crescente na vida social da cidade. Ir aos saraus, que congregavam os associados de cada sociedade ou clube, geralmente aos domingos, onde danava-se e fazia-se msica [...] em convvio de relaes puramente familiares [...], torna-se diverso costumeira tanto das famlias da elite, que se reuniam nos sales como o do Germania, onde as soires transformam-se em animados bailes, quanto das famlias de trabalhadores que frequentavam o Grmio Recreativo do Bom Retiro ou o Salo Celso Garcia, mantido pela Associao das Classes Laboriosas no Brs. Depoimentos e memrias do perodo demonstram a importncia do baile na vida social e no relacionamento afetivo dos habitantes da So Paulo de ento.2 Protegidas por uma poltica restrita e de sindicncia na aceitao de novos scios, as associaes colocavam-se como espaos privilegiados da atividade de caa-marido para as moas paulistanas. Nessas associaes, alm da atividade principal, formada por bailes e soires dedicados ao belo sexo paulistano, desenvolviam-se torneios artsticos, cursos de msica e literatura, palestras sobre assuntos diversos, jogos de salo, etc. interessante destacar que vrias dessas agremiaes, como o pioneiro e prestigiado Germania, fundado em 1868, tambm funcionavam como verdadeiros gabinetes de leitura, mantendo abertas durante todo o dia suas salas de leitura com jornais e revistas, nacionais e estrangeiros, e seo de livros cientficos e literrios. (ALMANAQUE DA PROVINCIA DE SO PAULO, 1884). A vida das sociedades danantes e recreativas tem nas pequenas folhas tipogrficas elemento fundamental de sua articulao. Tais publicaes, animadas por poucas pessoas, com colunas abertas a todos os scios, eram geralmente distribudas por ocasio dos frequentes saraus ou torneios artsticos. A Camlia (1890), rgo da sociedade danante Noites Recreativas; A Mariposa (1897), revista literria da sociedade recreativa, dramtico, danante do Congresso Brasileiro; A Sereia (1902), rgo da sociedade danante Cassino Brasileiro; e O Internacional (1906), rgo da sociedade internacional da Barra Funda, so apenas alguns exemplos desses materiais. Despretensiosas e ingnuas, provincianas, trazendo, alm de versos, pequenas notas, alguns reclames e sempre na ltima pgina o Programa-Carnet com a sequncia das polcas, valsas, maxixes e tangos a serem executados durante o baile, como coloca A Mariposa em seu artigo-programa, tais publicaes tinham por objetivo [...] oferecer s gentis senhoritas e a suas exmas famlias um poucochito de prosa e verso que amenisem os intervallos das contradanas. (A MARIPOSA, 20/02/1897). 2 Ver, por exemplo, os depoimentos colhidos por Ecla Bosi, publicados em seu trabalho Memria e Sociedade: Lembranas de Velhos. (1987, p. 51-327). 66 Aqui, cabe enfatizar a generalizao dessas novas formas de sociabilidade os bailes, os encontros musicais e os torneios artsticos nos diversos ambientes sociais da cidade. Nessa direo, chama ateno a presena na imprensa operria do perodo, ao que parece sempre necessria, de anncios dos bailes nos sales operrios, bem como os comentrios sobre o sucesso e brilhantismo de tais atividades. A dana de salo e o clubismo disseminam-se enquanto prtica e forma de sociabilidade que atravessa as barreiras de classe. Editar revistas e folhas literrias anima tambm as atividades de grupos dramticos e musicais, como atestam a publicao de A Scena (1904), rgo do grupo dramtico recreativo paulista; O Preldio (1906), do centro artstico do Conservatrio de Msica; e A Ribalta (1913), do grmio Dramtico Musical Luso Brasileiro. Na maioria das vezes apresentando-se como obra de amadores dramticos ou de um punhado de jovens decididos aos grandes empreendimentos do palco, tais publicaes buscam divulgar os programas das encenaes e concertos desenvolvidos pelos grupos amadores e promover autores dos teatros nacionais Artur Azevedo e Martins Pena. Novamente, cabe destacar a amplitude social dessas prticas culturais no perodo. Nos poucos relatos de operrios a que tivemos acesso, o interesse pelo teatro e pela msica, especialmente pela pera, faz parte de uma tradio cultural das famlias, principalmente das de origem italiana. No caso do teatro mais particularmente, deve-se ressaltar a importncia dada pelo movimento operrio libertrio encenao de peas com mensagens sociais como forma de conscientizao dos trabalhadores sobre a natureza da explorao capitalista e os caminhos da revoluo. Estudos recentes sobre o teatro anarquista no Brasil atestam que foram inmeros os grupos dramticos formados por trabalhadores nas associaes operrias, e os nomes de Jos Oiticica, Avelino Foscolo, Neno Vasco e Fbio Luz referem-se a uma rica dramaturgia de feio libertria no perodo. Os espetculos em cartaz na cidade, a vinda de companhias estrangeiras e as atividades do Municipal so acompanhadas de perto no s pelas revistas de variedades como tambm pela imprensa operria, que incentiva as encenaes do teatro social e discute a natureza dos espetculos em cartaz, muitas vezes fazendo uma crtica de arte que se contrape e/ou dialoga com os crticos da imprensa burguesa e reivindica acesso cultura para os trabalhadores.3 Na ltima dcada do sculo XIX, nos momentos prximos ao Carnaval, pequenas folhas, quase panfletos, tais como o Holophote (1894), jornal sem eira nem beira do clube Drages Carnavalescos; A Pandereta (1894), realejo oficial do clube dos Fenianos; e O Buraco (1895), rgo do clube carnavalesco dos Girondinos, animam as disputas e a rivalidade entre os diversos grupos carnavalescos existentes na cidade. Em diversos pontos da cidade, grupos informais, em sua maioria annimos, publicam inmeras folhas de humor e fofocas, como A Gaita (1895), folha de rir e chorar; A Farpa (1887), semanrio humorstico que promete pregar sem rebuos a Repblica; O Mosquito (1901), rgo das rapaziadas alegres; O Cara Dura (1901), semanrio de humor italiano; e O Gaiato (1905), peridico crtico e humorstico de propriedade de Z Escova e A. Malandro. 3 Sobre o teatro operrio no perodo, consultar ARQUIVO EDGARD LEUENROTH (1992). Tal publicao, que apresenta os resultados de pesquisa listando peas, artigos da imprensa operria e ambientes relacionados ao teatro, bem como alguns artigos reflexivos sobre o tema, foi importante na discusso do assunto. 67 As prticas esportivas da elite paulistana, como o turfe, a esgrima, o ciclismo, o futebol e o rowing so discutidas em folhas e revistas como So Paulo Sportivo (1892), jornal dedicado ao hipismo paulistano; A Bicycleta (1896), semanrio ciclstico ilustrado; A Vida Sportiva (1903), ex-Sportman, rgo dedicado ao desenvolvimento da cultura fsica do Club Masaniello Parisi; e Ideal Sport (1905), do Ideal Sport Club. Como apontava Lobato (1944, p. 9-11), alm dos grupos mais informais, esse gnero de peridicos passa tambm a atrair inmeros personagens das elites intelectuais e letradas da cidade. Assumindo o papel de editores independentes, homens das letras e da imprensa buscam, desde o final do sculo, afirmar as revistas domingueiras como um gnero vivel na imprensa paulista. Personagens representativos de novos caminhos de acesso cidade letrada, tais grupos, tendo uma origem profissional que na maioria das vezes combinava o jornalismo exercido na imprensa diria s atividades da educao e da burocracia governamental em expanso, recolhendo mais diretamente os modelos das publicaes domingueiras europeias, passam a editar inmeras folhas de variedades. Nomes como os de Amadeu Amaral, ento professor e dono de escola falida do interior, funcionrio do governo; Gomes Cardim, professor formado pela Escola Normal, que, assim como Raul de Freitas, membro do grupo do Minarete, ligado a Monteiro Lobato, assume importncia crescente nos quadros da instruo pblica no Estado; Anbal Machado, taqugrafo da Cmara Municipal; e outros, como Arlindo Leal, Augusto Barjona, Angenor Silveira, Joo Luso e Manoel Viotti, que se destacam em postos-chave da imprensa diria do perodo, seriam tambm os fundadores e/ou colaboradores de inmeras folhas domingueiras. Revelando desde o incio preocupaes com a montagem de organizaes editoriais independentes da imprensa diria, tais grupos buscam estabelecer estruturas editoriais mais profissionalizadas que dessem conta da produo e divulgao de suas publicaes. Nesse caso, as publicaes passam a ser assumidas como propriedades de companhias e j no incio do sculo identifica-se a breve ao de empresas divulgadoras ou editoriais, como a Empresa Divulgadora de J. A. Machado & Comp. e Agenzia Giornalistica Italiana. At o final da primeira dcada, apesar das aspiraes desses grupos, tais iniciativas se mostram bastante frgeis. Alis, tal fragilidade ironizada pelos pequenos jornais humorsticos, caso do Capitan Fracassa (1899), que, no perodo, se define como um organo settimanale d una compagnia molto anonima e niente limited. (FREITAS, 1929, p. 797). No obstante essa trajetria, deve-se destacar que tais grupos foram responsveis pela publicao de peridicos pioneiros no gnero, como A Tarde Illustrada (1896), fgaro parisiense em So Paulo; A Paulicia (1896), nico semanrio ilustrado de So Paulo; A Bohemia (1896), quinzenrio illustrado que aparece para alegrar os espritos entristecidos com a baixa do cmbio; Gil-Braz (1903) e Vida Paulista (1903). As transformaes das estruturas de produo e financiamento da imprensa paulistana, que desde o incio do sculo comeam a modificar o espao dos jornais dirios, a partir da metade da segunda dcada impem-se tambm ao periodismo domingueiro. Com a formao das empresas jornalsticas, o espao dessas folhas informais estreita-se. Entre os anos de 1910 e 1920, tais publicaes seriam progressivamente assimiladas por algumas poucas revistas de variedades. Possibilidade latente na diversidade das folhas tipogrficas domingueiras, a partir dos anos 1910 publicaes, que mesmo por critrios contemporneos j podem receber 68 o ttulo de revistas, firmam-se enquanto a forma padro da imprensa de entretenimento paulistana. Construindo estreitas ligaes com o mercado, assumindo-se enquanto empreendimentos comerciais, com estruturas de financiamento e produo bem mais profissionalizadas, revistas como O Pirralho (1911/1918), de propriedade de Oswald de Andrade;4 Revista Feminina (1915/1936), editada por Virgnia de Souza Salles e de propriedade da Empresa Feminina Brasileira, que fabricava e comercializava os mais variados produtos destinados s mulheres;5 A Vida Moderna (1907/1925), de propriedade da firma Garcia Redondo, Amancio & Cia., que tinha como diretor e redator-chefe Amancio Rodrigues dos Santos;6 e A Cigarra (1914/1920), de propriedade da firma Gelsio Pimenta & Cia., disputam o mercado da imprensa de entretenimento em So Paulo.7 Exemplar nessa direo a disputa travada entre A Vida Moderna e A Cigarra. Entre 1914 e 1917, essas revistas, desenvolvendo um clima de intensa rivalidade, estabelecem uma acirrada disputa pela conquista do pblico, dos anunciantes e dos literatos de renome. Assim, nos seus 10 anos, A Vida Moderna comemora com seus leitores o fato de ser a revista de maior tiragem de So Paulo, alardeando que ao fim de cada ano, atinge um milho e duzentos mil exemplares, e sua coleo anual compe-se de mil e quatrocentas pginas. (A VIDA MODERNA, 24/12/1914). Da mesma forma A Cigarra, j no seu primeiro aniversrio, completado com o n. 19, proclama no somente ser a mais popular revista de So Paulo como tambm a mais estimada, fato comprovado no apenas por suas tiragens mas tambm pela correspondncia numerosa que todo dia recebemos e pelo apoio que nos tm trazido inmeras pessoas que mal conhecemos. (A CIGARRA, 25/03/1915). No plano das linguagens, o acompanhamento do movimento de expanso desse tipo de imprensa sugere um processo dinmico de aprendizagem e adequao de formas e contedos a concepes culturais e interesses sociais diversos. O desenho de contedos tpicos e formas de contar padronizadas, a renovao e adequao das linguagens articulam-se ao processo social de formao e ampliao dos grupos produtores e dos pblicos leitores. A anlise da evoluo desses materiais no perodo pesquisado indica uma crescente aproximao com contedos e linguagens diferentes da linguagem sria e sisuda e dos temas da poltica institucional e acadmica correntes na imprensa diria e nas revistas acad4 O Pirralho, Biblioteca Mrio de Andrade/MF, manteve-se como uma revista de sucesso durante quase todo o perodo em que foi publicada, mesmo na ausncia de Oswald de Andrade. interessante destacar que, em suas memrias, Oswald aponta a forma pela qual a revista tornou-se importante no cenrio paulistano, chegando mesmo a receber propostas de financiamento de homens do poder, como Washington Lus. Ver ANDRADE (1990, p. 66-68); examinar tambm BELLUZZO (1992). 5 Embora a Revista Feminina, IHGSP, tenha sido publicada at a metade da dcada de 1930, as informaes da referncia geral deste trabalho foram sistematizadas somente at 1920. Sobre a importncia da Revista Feminina no perodo, ver LIMA (1991, p. 37-48). 6 A Vida Moderna, ECA/USP, foi, por grande parte da segunda dcada do sculo XX, a revista de variedades de maior tiragem de So Paulo. Tal situao s comeou a se reverter com a concorrncia ferrenha de A Cigarra. 7 A Cigarra, AHESP, talvez seja o melhor exemplo de uma publicao de variedades que deu certo enquanto empreendimento comercial. Seu diretor-proprietrio, Gelsio Pimenta, inicia o negcio associado ao Cel. Durval Vieira de Souza, mas pouco mais de um ano depois assume integralmente a direo da revista, prescindindo do capital de seu associado. Gelsio, que tinha adquirido experincia em outras publicaes como a Cri-Cri (1907), AHESP, ou a Illustrao Paulista, IHGSP, torna-se, a partir da fundao de A Cigarra, em 1914, um homem poderoso no meio jornalstico paulistano. Bem estruturada desde o primeiro nmero, do qual tiram-se 8.500 exemplares, j no nmero 9, demonstrando o sucesso do modelo adotado e das estruturas de financiamento e distribuio, a tiragem da revista pula para 25 mil exemplares. 69 micas. Num primeiro momento, cabe apontar que o ritmo de absoro das transformaes resultantes da modernizao das formas de produo e impresso parece obedecer mais evoluo do perfil social das publicaes do que dos progressos tcnicos. Descobrindo seu potencial de entretenimento, incorporando a narrativa ficcional, o humor, as linguagens visuais, o tom ldico e temticas mais leves e prximas do cotidiano, as publicaes adquirem novas feies e conquistam outros pblicos. Na sua articulao com o entretenimento, com novas formas de sociabilidade e com a vida mundana, a imprensa encontra um importante caminho de renovao e popularizao de sua linguagem. Se no conjunto da imprensa peridica da poca algumas modalidades de publicaes, como o caso da imprensa operria e das publicaes de associaes ligadas a atividades bastante especficas, desde cedo assumem perfis mais ntidos, denotando projetos mais definidos, a maioria dessas revistas e folhas semanais oscila durante boa parte do perodo pesquisado num processo de busca de contedos e formas apropriados composio da publicao domingueira de periodicidade quinzenal ou mensal. verdade que, como se apontou anteriormente, os modelos eram delineados pelos jornais e revistas mais aprimorados da capital e/ou dos centros europeus, mas a aplicao de tais frmulas compreendeu todo um processo de experimentao e aprendizado social. Em sua emergncia, buscando diferenciar-se da imprensa diria, mais rpida e dinmica, de contedos definidos e articulaes polticas assentadas, mas afirmando atravs de seu modelo conhecido sua identidade de jornal ou revista, tais publicaes parecem querer abarcar tudo que interesse a todos. Seus ttulos e subttulos folha de letras, artes, indstrias, costumes, esportes ou peridico de modas, cincia, artes, literatura e questes de interesse geral indicam o processo de busca de contedos que conformem tal tipo de material. Os artigos de apresentao prometem, em 4 pginas, abordar a literatura, as belas artes, a poltica, em resumo tudo aquilo que pudermos acompanhar de perto e que de certo modo aproveite aos que nos honrarem com a sua leitura. Alis, j em 1875 tais promessas so motivo de ironia por parte do redator de A Provncia de So Paulo, que, ao comentar o recebimento do nmero 11 do jornal Beija-Flor, autodefinido como humorstico, crtico, literrio, poltico, noticioso, recreativo e comercial, declara que tal contedo uma carga muito pesada para um pobre passarinho. (A PROVNCIA DE SO PAULO, 21/08/1975). Jornais de humor como O Canudo (1897), que se proclama um rgo pouco literrio, menos poltico e menos religioso, fortalecem tais ironias. Na verdade, a profuso de ttulos e subttulos indica um processo de aproximao com contedos e linguagens diferentes dos correntes no modelo srio e sisudo da cidade letrada do sculo XIX. Como ento coloca a publicao O Domingo (24/10/1886), No h quem, habituado com a leitura diria dos jornais da tarde, no sinta a falta destes aos domingos, quando justamente o descanso mais nos dispe a l-los. Ningum h que tendo o gosto da leitura, no procure, nas horas desocupadas, um livro ou um jornal que distraia-lhe o esprito. O Domingo vem preencher aquela falta e satisfazer este desejo, para o que procurar sempre dar aos seus leitores pginas alegres, escritos ligeiros, folgazes e interessantes, que lhes proporcionem agradveis e prazenteiros entretenimentos. 70 Assim tambm o So Paulo Illustrado, semanrio de arte, humorismo, crtica e literatura, vem a pblico propondo-se prestar a sociedade paulista o alto servio de a distrair um bocado. (12/09/1903). Alis, a articulao da cultura letrada aos novos hbitos e costumes urbanos e, principalmente, ao mundanismo, percebida pelos homens de letras, exemplarmente ironizada por Hilrio Tcito em Madamme Pommery (1977). Na narrativa sobre os novos hbitos da cidade, Tcito est constantemente articulando os termos e espaos do cabar paulistano Paradis Retrouv, o colgio interno de Madame, aos espaos e hbitos da cultura letrada. A as prostitutas so alunas, Madame, a preceptora e o colgio est sujeito s estritas regras de comportamento e disciplina dos melhores estabelecimentos do Estado. Nessa articulao com o entretenimento e o mundanismo, a imprensa domingueira expande seu pblico e populariza sua linguagem. Atravs da aproximao com as temticas do amor e da afetividade, as folhas literrias abriam a possibilidade de convivncia entre homens e mulheres no processo de escrita e de leitura dos peridicos. Contedos de variedades, de poesia, de moda, sees de culinria e de preceitos de economia domstica buscam tambm cativar o pblico feminino. Os anncios de casamentos, batizados, falecimentos, enquetes e concursos, sees de fofocas, sees livres de colaborao do leitor o leitor manda verso, o leitor responde, o leitor elege criam uma rede de cumplicidade entre as publicaes e os leitores. Passatempos, jogos de montar e quadrinhos mudos procuram atrair o pblico infantil. A linguagem satrica, gil e irreverente das folhas de humor, criticando o tom empolado dos acadmicos, procura setores oposicionistas e dissidentes do poder na cidade. O humor apimentado dos jornaizinhos dos grupos carnavalescos, os palpites do jogo do bicho, as sees de esportes abrem outro universo de leituras para o pblico masculino. Embora o livro de fico e de poesia no tenha tido grande difuso no perodo, a narrativa ficcional torna-se elemento fundamental na redefinio da linguagem desse tipo de peridico. Como assinala Angel Rama, no final do sculo XIX a noo de literrio substitui a de belas artes.8 No universo da imprensa peridica, a folha literria ou mesmo o uso do literrio no subttulo como um adjetivo , entre o comercial e o satrico, o esportivo e o noticioso, indica a abertura no s para o campo da literatura, mas das artes em geral. Grande parte das folhas domingueiras vem a pblico como peridicos literrios. Os contedos explicitamente literrios, principalmente a linguagem potica na forma de sonetos, emergem como forma privilegiada para amenizar contedos considerados mais ridos e desinteressantes das publicaes. Colocar um soneto ao lado de um artigo de fundo, usar versos como epgrafes, quadrinhas populares, fazer reclames em poesia e inserir sonetos entre sees mais pesadas so estratgias largamente usadas por essas publicaes. O gnero folhetim aparece como a frmula central de absoro da prosa ficcional pela imprensa peridica. Importado da capital, sendo primeiro incorporado como seo fixa da imprensa diria, o folhetim transborda e se firma na imprensa domingueira. O clima dos deslocamentos de pblico e dos sentidos da leitura de um peridico resultante da incorporao do folhetim pode ser percebido pelo entusistico relato de Taunay sobre as repercusses da publicao, no final do sculo XIX, dO Guarani pelo Di8 Sobre esse ponto, ver interessante discusso de RAMA (1985, p. 86-101) a respeito das relaes entre o desenvolvimento das literaturas nacionais na Amrica Latina e o processo de incorporao de materiais e temas populares ao universo da cultura letrada. 71 rio do Rio de Janeiro. Segundo Taunay, a publicao do folhetim despertou verdadeiro entusiasmo na capital: [...] verdadeira novidade emocional, desconhecida nesta cidade to entregue s preocupaes do comrcio e da bolsa, entusiasmo particularmente acentuado nos crculos femininos da sociedade fina e no seio da mocidade, ento muito mais sujeita ao simples influxo da literatura, com a excluso das exaltaes de carter poltico. Relembrando, sem grande exagero, o clebre verso: Tout Paris pour Chimne a les yeux de Rodrigue, O Rio de Janeiro em peso, para assim dizer, lia O Guarani e seguia comovido e enleado os amores to puros e discretos de Ceci e Peri e com estremecida simpatia acompanhava, no meio dos perigos e ardis dos bugres selvagens, a sorte varia e periclitante dos principais personagens do cativante romance [...]. Quando a So Paulo chegava o correio, reuniam-se muitos e muitos estudantes numa repblica, em que houvesse qualquer feliz assinante do Dirio do Rio para ouvirem, absortos e sacudidos, de vez em quando, por eltrico frmito, a leitura feita em voz alta por alguns deles, que tivesse o rgo mais forte. E o jornal era depois disputado com impacincia e pelas ruas se via agrupamentos em torno dos lampies da iluminao pblica [...] ainda ouvintes a cercarem vidos qualquer improvisado leitor. (SODR, 1977, p. 86-101). O humor coloca-se como outro ingrediente fundamental da conformao dos contedos e linguagens desses peridicos. Grande parte dos temas e sees desses pequenos jornais e revistas adquire um tom humorstico e jocoso. Com matizes diferenciados, por vezes extremamente comportado, outras desafiando os limites da moralidade vigente em tom picante e desrespeitoso, ou ainda mais srio e mordaz, instituindo novas modalidades de crtica ao poder e s instituies, o humor toma conta da imprensa tipogrfica. Ligeiro e superficial, em forma de anedotas de salo, sees de passatempo, historietas satricas, o humor permeia as folhas e revistas femininas, literrias, de moda, recreativas e de reclames. Jornaizinhos dos clubes carnavalescos, de divulgao do teatro de revista, de inmeros grupos annimos, atravs de um humor mais pesado, carregado em referncias a comportamentos sexuais interditos, que Affonso de Freitas classificar de pornogrfico, configuram um novo tipo de leitura masculina. Nas folhas noticiosas e crticas, em algumas publicaes de bairro, nos jornais anticlericais, cresce a crtica poltica e de costumes. Faz-se troa dos hbitos e costumes das elites paulistas, do jeito de ser do caipira, dos italianismos da populao imigrante, do provincianismo da vida na cidade e das prprias pretenses cosmopolitas da imprensa. Atravs da caricatura e da charge, o humor visual penetra fortemente nessa imprensa. Caricaturas das autoridades e das elites em geral, das damas e cavalheiros da alta-roda paulistana, do Z-Povo, charges com referncias precariedade dos transportes urbanos, carestia de vida, poeira das ruas, falta dgua, conformam uma linguagem reivindicativa e de crtica poltica e de costumes. Aqui, interessa destacar que muitas dessas articulaes do humor a variedades, como aponta Marcos A. Silva (1990, p. 8) em seu estudo sobre o personagem Z-Povo, pem [...] em xeque um estoque de representaes sobre a vida brasileira da poca [evidenciando] certa vontade de superar a articulao da experincia social que aborda. 72 Em grande parte das publicaes que evoluem para uma feio de magazine de variedades, os padres formais e eruditos da norma culta da imprensa acadmica so amenizados e a linguagem jornalstica incorpora progressivamente a oralidade. No lugar das descries ridas e pesados artigos de fundo, entram quadrinhas, historietas, dilogos curtos e a crnica mais afeita ao linguajar do dia a dia e ao gosto dos novos pblicos que procura cativar. Personalidades polticas, grupos sociais diversos, figuras tpicas da cidade so alegorizados em personagens com falas prprias. A gria da moda, os estrangeirismos franceses e depois yankees penetram a crnica, os falares dos imigrantes so traduzidos em fala macarrnica e a presena das populaes interioranas mostra-se atravs dos dialetos caipiras. De uma maneira geral, no interior dessas publicaes o narrador assume uma posio mais informal e as diversas narrativas um tom mais coloquial. Embora em suas origens a maioria desses peridicos ainda seja constituda de pequenas folhas de 4 pginas e sem ilustraes, no decorrer do perodo estudado, impulsionada pelos progressos nas tcnicas de gravao e impresso, a ilustrao passa a ser incorporada de forma progressiva s suas formas de expresso. O surgimento de publicaes como Illustrao Paulista (1881), Galeria Illustrada (1887) e A Vida Illustrada (1890) indica tal tendncia. Numa concepo modelar, 4 pginas de textos e 4 de ilustraes, j que as tcnicas de impresso impunham a separao entre a parte textual e a ilustrada, que tinha que ser encomendada s poucas litografias que existiam na cidade, tais publicaes impem-se como a grande novidade de ento. Elementos decorativos correntes nas artes grficas no perodo (vinhetas, cabees, molduras, pingentes) enfeitam e do maior leveza a capas, sees e colunas. Historietas sem palavras e contos mudos, anunciando as origens dos quadrinhos, compem uma nova linguagem para os leitores infantis. interessante ressaltar que, como aponta Nelson Werneck Sodr (1977, p. 330-350), a publicao de ilustraes, e principalmente de retratos das elites, transforma-se numa importante estratgia de sobrevivncia de muitos desses peridicos. Torna-se importante, atravs da ilustrao, dar visibilidade ao desenvolvimento da cidade e das elites paulistanas. Tais peridicos, atravs de caricaturas, retratos, fotogravuras e, mais tarde, reprodues fotogrficas, prometem ao leitor as imagens da vida moderna, construindo nova imagem da cidade. Assim, em 1888, O Brazil Contemporneo vem a pblico prometendo inserir em suas pginas retratos, fotografias dos personagens mais importantes [...] bem como vistas dos principais lugares, edifcios e curiosidades. (O BRAZIL CONTEMPORNEO, 07/10/1886). Da mesma forma, A Illustrao Paulista, definindo-se como revista no sentido justo do termo, anuncia pginas iluminadas de arte, onde [...] se veriam desfilar entre perodos breves e ilustraes copiosas, o ltimo comcio ou o ltimo livro, o melhoramento mais recente ou o sarau elegante da vspera, as silhuetas em foco na sociedade ou a fisionomia que no momento se destaque da penumbra annima para a evidncia da notoriedade ocasional. (A ILLUSTRAO PAULISTA, 20/10/1910). No decorrer dos primeiros anos do sculo, a ilustrao iria adquirindo cada vez maior importncia na conformao da linguagem de entretenimento. Nas revistas de va- 73 riedades da segunda dcada, seriam as ilustraes em geral, mas principalmente os instantneos fotogrficos, que hegemonizariam a linguagem da imprensa domingueira. Com a incorporao da linguagem fotogrfica, a imprensa de variedades firma-se enquanto gnero. Agora, extrapolando as barreiras impostas pela norma escrita, atravs das revistas de variedades e da fotografia, a cultura impressa pode ter como leitores tambm os pblicos analfabetos. Na metade dos anos 1910, a frmula da revista de variedades parece ter sido encontrada. A anlise comparativa de revistas como A Vida Moderna, A Cigarra e O Pirralho revela, alm de uma grande proximidade de temas e contedos, uma quase coincidncia no desenho grfico e na articulao das linguagens. Ricamente impressas, em edies de papel couch que chegavam a 80 pginas, recheadas de instantneos fotogrficos, que nelas encontram seu campo privilegiado de afirmao, engolindo as sees literrias, as crnicas, as partes de passatempos e charadas tpicas das folhas domingueiras, essas revistas acentuam o carter ligeiro e mundano das publicaes de variedades, construindo um espao de formulao, refinamento e difuso das novas imagens da vida burguesa na cidade. Trata-se de mostrar, como aponta o cronista de O Pirralho, Jayme Gama, que tudo vai aos poucos concorrendo para aumentar a nossa sociabilidade, revelando que [...] a nossa capital j um centro onde as manifestaes da vida mundana se fazem sentir fortemente, [que] j no somos os tristes moradores de uma cidade provinciana que s nove horas da noite dormia a sono solto depois dos mexericos atravs das rtulas ou porta das farmcias. (O PIRRALHO, 11/08/1911). Nessas revistas, a identidade entre produtores e leitores perde-se progressivamente. As publicaes transformam-se em empreendimentos empresariais e aproximam-se dos grupos jornalsticos em formao; assim, os estreitos laos dA Vida Moderna com o dirio O Estado de So Paulo correspondem ao alinhamento dA Cigarra com O Correio Paulistano. As vivncias e prticas culturais que articulavam a veiculao das pequenas folhas culturais domingueiras nelas permanecem apenas enquanto elementos da construo do texto jornalstico dos cronistas e reprteres profissionais das novas empresas. Ainda privilegiando um repertrio de temas e prticas articulados s novas formas de sociabilidade, porm excluindo tradies mais informais e menos mundanas e cosmopolitas, tais peridicos passam a traduzir e cristalizar formas refinadas e elitistas de olhar a cidade. Em tais revistas, j comeam a se sistematizar procedimentos como a imitao de formas e contedos, a afirmao constante de uns poucos esteretipos, a repetio renovada que sufoca estilos identificados na anlise de Adorno e Horkheimer como constitutivos da indstria cultural, muito menos visveis nas folhas domingueiras anteriores. (ADORNO; HORKHEIMER, 1985, p. 113-156). O espao social do jornalismo de variedades estreita-se, sua linguagem cristaliza-se e seu processo de difuso incorpora novas direes. Como empresas jornalsticas, as revistas de variedades articulam-se tambm nascente indstria da diverso. 74 6. OUTRAS FOLHAS Aos povos e as povas daqui e de alm Tamanduate. O Rabiscador Matreiro, Cronista de A Folha do Braz. A Folha do Braz, 30/12/1900. Embora tpicas, as folhas e revistas domingueiras no so os nicos veculos inovadores da imprensa peridica na poca. Ampliando o espectro social da cultura letrada, a pequena imprensa passa tambm a dar voz a personagens e espaos que at ento eram raros ou mesmo exteriores aos crculos das elites e da cultura letrada na cidade. Atravs da e na imprensa de imigrantes, nas pequenas folhas e jornais de bairro e, principalmente, na rica imprensa operria do perodo, categorias de publicaes que frequentemente se mesclavam, a hegemonia das elites letradas foi surpreendida e desafiada por interesses, projetos e concepes de novos sujeitos sociais. Nessas outras folhas, os conflitos e tenses engendrados pelas novas condies da luta social na cidade ganham maior definio e nitidez. Nessas publicaes, os desafios e perspectivas de luta das classes populares tornam-se visveis. J no final do sculo XIX, a construo da cidade, a hierarquizao dos espaos urbanos e a diferenciao social dos bairros expressam-se no movimento de expanso da imprensa peridica.1 O crescimento e a modernizao da cidade processam-se num movimento que segrega os espaos, dividindo e hierarquizando socialmente a rea urbana. Nas terras altas, organizam-se os bairros chics das novas elites urbanas; nos terrenos baixos, prximos s ferrovias, e os arrabaldes mais distantes, desprovidos das melhorias da cidade moderna, desenvolvem-se os bairros industriais de trabalhadores e das populaes mais pobres. Na poca, comeam a aparecer na capital pequenos jornais que buscam dar voz s reivindicaes e interesses de comunidades locais, que no tinham lugar nos jornais de maior circulao. Como aponta o estudo desenvolvido por uma equipe da Secretaria Municipal de Cultura de So Paulo, em 1985, sobre os jornais de bairro, historicamente o Brs o primeiro e mais dinmico espao de produo desse tipo de imprensa. Atravs dela, em meio relativa indiferenciao de muitas das freguesias da cidade, o Brs, grande 1 A discusso sobre os processos de construo da cidade e de hierarquizao social dos espaos tem se constitudo em importante temtica dos estudos urbanos sobre o perodo aqui estudado. No mbito dessa reflexo, vale ressaltar o dilogo mais estreito que desenvolvi com os trabalhos de Raquel Rolnik desde a dissertao de mestrado. Ver ROLNIK (1981, 1982) e CRUZ (1991). 75 e operoso bairro da cidade, [...] que at 1874 no existia como centro arruado, habitado, na planta cadastral da cidade, mas que, a partir da inaugurao da Estao do Norte em 1877, desenvolver-se-ia progressivamente, transformando-se no tesoureiro do municpio, construindo uma identidade prpria, emerge como o primeiro desses espaos nitidamente diferenciados da cidade.2 Em pequenos jornais, que algumas vezes se transformam em dirios, os diversos interesses do bairro ganham seus porta-vozes. o caso de jornais como O Braz (1895), pequena folha de propriedade de Albino Soares Bairo, que prometia [...] no se envolver em poltica, ocupando-se principalmente do desenvolvimento material e higincico [sic] do populoso e extenso bairro do qual adotava o nome e se constituia em orgo; O Boi (1897), publicao do bairro, de propriedade de Armando Cruz e Edgard Leuenroth, e que, a partir de 1898, passou a chamar-se A Folha do Braz e foi publicada quinzenalmente at o ano de 1901; o Braz-So Paulo (1902); o Comrcio do Braz (1905); o Concordia (1906), orgam dos interesses locaes; o Dirio do Bras (1914). (FREITAS, 1929, p. 851-1078). No decorrer do perodo estudado, com a diferenciao dos bairros, apareceriam publicaes como O Bandeirante (1900), pequena folha da Penha; O Porvir (1904), rgo poltico, noticioso e comercial que anuncia promover o desenvolvimento moral e material do bairro do Belenzinho; O Vaga Lume (1908), jornal semanal humorstico do bairro da Luz; A Fasca (1909), quinzenrio de Santa Ceclia; A Tribuna da Lapa (1911), do ento bem mais distante bairro da Lapa; A Imprensa (1916), rgo literrio e noticioso dedicado aos interesses do bairro de Santana; e A Verdade (1927), rgo dedicado aos interesses da populao suburbana da Estrada de Ferro Central do Brasil. Assumindo as caractersticas da imprensa literria e de variedades, muitas vezes prximas em termos de contedos das folhas domingueiras, sustentadas por pequenos reclames do comrcio do bairro, esses jornais tinham como contedo bsico, alm das modelares sees de poesias, charadas e passatempos, notcias sobre o desenvolvimento moral e material dos bairros, matrias policiais, anncios e comunicaes de casamentos, aniversrios, batizados e enterros de moradores de destaque da comunidade, artigos reivindicando melhoramentos para o bairro, como calamento de ruas, extenso das linhas de bonde, iluminao, policiamento, etc. Atravs de sees como as de intercmbio entre os leitores ou de concursos para escolher a moa mais simptica do Brs ou o melhor partido de Santa Ceclia, os editores buscavam e pelas cartas e respostas parece que conseguiam criar um clima de maior identificao dos leitores com o seu jornal de bairro. interessante apontar que no estudo dessas publicaes possvel vislumbrar os hbitos, sociabilidades que se desenvolvem nesses espaos urbanos e que no aparecem nos jornais dirios ou revistas de maior porte. Um nmero significativo dessas folhas assume um carter bastante conservador e, sem se envolver em questes sociopolticas mais amplas e acirradas, do voz aos interesses da poltica e do comrcio local. Vale ressaltar que aliada a outros mecanismos, como o empreguismo pblico e a consolidao de alianas entre as empresas privadas e os novos caciques polticos, essa imprensa de bairro se configura enquanto um espao importante de formulao e afirmao das novas prticas do sistema poltico munici- 2 As expresses que caracterizam o bairro do Brs so parafraseadas do captulo sobre esse bairro no livro de MOURA (1980, p. 297-304). 76 pal. 3 Dando projeo aos novos prceres locais, proprietrios e comerciantes influentes dos bairros, futuros edis do municpio, promovendo candidaturas tanto para o juizado de paz dos distritos como para a Cmara Municipal, amealhando a clientela poltica para as diversas faces da poltica local, vrios desses jornaizinhos de bairro emergem como importantes instrumentos de articulao das novas formas de dominao institudas pelo sistema eleitoral municipal. No obstante a relevncia desses jornais no universo mais amplo da imprensa de bairro, o tom conservador no foi uma regra geral. Nesse momento inicial, vrios jornaizinhos, impulsionados por personagens como Afonso Schmidt e Edgard Leuenroth, rompem com esse carter conservador dominante e assumem um tom mais combativo e reivindicatrio. Assim, como exemplo da imprensa de bairro mais combativa, deve-se destacar o jornal A Folha do Braz, que foi publicado quinzenalmente, entre 1898 e 1901, sob a direo de Armando Cruz e Edgard Leuenroth, fato que muitas vezes leva sua classificao como peridico da imprensa operria. Evoluindo de posies mais cautelosas a princpio, quando se declarava neutro e sem cor poltica, passando por uma fase onde se envolve nas eleies municipais, prometendo pugnar pela verdade do voto o ideal republicano e o desenvolvimento material do distrito, a partir de 1900 o jornal vai assumindo posies cada vez mais reivindicatrias e combativas. Propondo-se a defender a pobre humanidade do Brs, que no tinha a mesma sorte que os habitantes da Vila Buarque e muitos outros arrabaldes da cidade, nas sees intituladas Pelo Povo, que publicava denncias e reclamaes dos moradores do bairro, e Em Prol do Braz, que fazia a crnica da vida da semana no bairro, so constantes as denncias sobre as precrias condies de vida na regio e as reivindicaes de melhoramentos, como o escoamento das guas do Tamanduate, a iluminao do Largo da Concrdia e outros lugares mais centrais do bairro, a higienizao dos cortios, o calamento das ruas e o aumento do nmero de bondes que serviam o bairro. Com a evoluo do jornal, temas de maior amplitude, caractersticos do iderio libertrio do perodo, como a defesa da liberdade de expresso, o combate ao militarismo e s formas autoritrias da poltica institucional, ganham espao em suas pginas. Tendo como alvo central a Cmara, pugnando pelo saneamento moral da politicalha, envolvendo-se no combate aos manda-tudo e no faz nada da poltica municipal e na discusso com a imprensa diria, A Folha do Braz, assim como alguns desses jornais, deixando-se penetrar pelas necessidades do povo e da cidade, muito mais que os poderosos dirios do perodo, traz luz vozes, tenses e dimenses sociais que exprimem os inmeros aspectos do processo histrico de aglutinao e adensamento urbano na formao dos bairros paulistanos. A imprensa e a cidade, como apontado anteriormente, principalmente a partir da ltima dcada do sculo XIX, assumem um carter plurilingustico. Expressando a importncia dos movimentos imigratrios e da ocupao da cidade por populaes estrangeiras, desenvolve-se uma vigorosa imprensa chamada tnica ou das colnias. Dando visibilidade ao assentamento recente na cidade e presena cultural de grupos de diferentes nacionalidades, inmeras publicaes so editadas em italiano, espanhol, alemo, 3 Alguns desses mecanismos de aliciamento eleitoral no perodo j foram por mim discutidos em outro trabalho. Ver CRUZ (1991, p. 52-56). 77 francs e srio. Na imprensa peridica, a cidade estrangeira impe a importncia de sua presena no novo desenho da vida social urbana. Novamente, foram as pequenas folhas e revistas tipogrficas que se constituram como principais veculos impressos de expresso cultural e articulao dos interesses desses grupos de imigrantes. Diversos pequenos grupos, muitas vezes uma s pessoa, passam a editar inmeras folhas e revistas de defesa dos interesses dos imigrantes em So Paulo. Durante a pesquisa, identificamos mais de 40 peridicos em outros idiomas que no o portugus publicados em So Paulo a partir dos anos 1890 a 1900. O j citado levantamento, realizado por Affonso de Freitas, sobre a imprensa paulistana identifica mais de 100 jornais e revistas em mltiplos idiomas ou em edies bilngues publicadas na cidade at o ano de 1914. A forte presena italiana na cidade se faz sentir de forma expressiva nessa imprensa. No levantamento realizado, mais de 90% desses peridicos so publicaes em italiano ou em italiano e portugus. Expressando a diversidade poltica e ideolgica da colnia italiana, tais jornais variam desde uma feio mais conservadora s mais contestadoras e radicais. Trazendo artigos com assuntos de interesse da colnia no Brasil e, mais especificamente, em So Paulo, telegramas e notcias da Itlia, fazendo a divulgao das atividades de diversos centros e associaes formados por e para os imigrantes italianos na cidade, assumindo feies que vo de variedades ao dirio sisudo, publicaes como LImmigranti (1885), periodico settimanale dedicato agli interessi daglimmigranti; La Cronata Italiana (1898), notiziario della colonia italiana nello stato di San Paolo de Brazile; Zaza (1901), giornale settimanale satirico-mondano con caricature propriet della Agenzia Giornalistica Italiana; Il Meridionale (1908), rgo popular da colnia meridional italiana no Brasil; e Il Roseto (1913), giornale illustrato del publico brasiliano, so apenas alguns poucos exemplos dessa vigorosa imprensa italiana. 4 Peridicos como O Brasil (1897), semanrio srio dirigido por A. Najar; Al Assmany (1898), jornal dirio que chegou a publicar mais de 50 nmeros; Al-Munazer (1900) e Al Manarat (1901), de propriedade da sociedade maronita de beneficncia, denotam a importncia da presena srio-libanesa nesse momento da histria da cidade. Enfim, publicaes como LEclaireur (1895), Deutsch-Zeitung (1897), La Gaceta Espaola (1897), Echo Portuguez (1897), La Voz de Espaa (1901) e O Lusitano (1908), na sua variedade de idiomas, marcam a presena das nacionalidades na cidade, conferindo-lhes carter cosmopolita, plurinacional e poliglota. (FREITAS, 1929, p. 743-1039). Neles, a cidade estrangeira revela a diversidade de seus falares, alinhamentos polticos e ideolgicos e tradies culturais. Traduzidos na pluralidade de idiomas que caracterizava a So Paulo de ento, como no periodismo nativo, os diversos gneros da imprensa domingueira, das variedades ao comercial, dos humorsticos aos literrios, a tambm viram moda. Nesse conjunto de publicaes, os diferentes projetos polticos 4 No levantamento sobre as revistas culturais e de variedades realizado no incio deste trabalho, no foram sistematizadas as referncias sobre a imprensa tnica do perodo. A reflexo aqui desenvolvida sobre esse gnero de peridicos tem como base o levantamento e as descries realizadas por Affonso A. de Feitas (1929, p. 610-1099) e as referncias de alguns estudos sobre a colnia italiana que indiretamente trabalham com essa imprensa. Vale ressaltar que um estudo mais aprofundado desses jornais e revistas, que em sua maioria encontram-se no acervo do IHGSP, apresenta-se como tarefa urgente para a historiografia sobre a importncia e a natureza da presena italiana na formao da Pauliceia. 78 compem um espectro que vai desde os pequenos jornais operrios ligados s diversas correntes do movimento dos trabalhadores urbanos, at poderosos dirios vinculados a interesses conservadores interiores s colnias estrangeiras. Embora a maioria dessas publicaes, como as similares em portugus, tenha tido vida efmera, muitas vezes no indo alm do primeiro nmero, alguns grupos jornalsticos que tiveram como pblico alvo o imigrante lograram estabelecer publicaes estveis e influentes. Alis, com relao colnia italiana, h que se destacar a importncia do poderoso Fanfulla, que, aparecendo enquanto jornal domingueiro em 1893, impe-se enquanto um dos mais importantes veculos da imprensa diria paulistana durante todo o perodo pesquisado, penetrando nos mais diferentes grupos sociais de imigrantes. Nos relatos e memrias de poca, as referncias leitura e influncia do Fanfulla dizem respeito tanto aos ambientes da elite imigrante como ao universo de trabalhadores. Nessa direo, a anlise dessa imprensa parece propor que um estudo aprofundado do Fanfulla seria fundamental para a discusso de temas como a construo de projetos culturais conservadores interiores cidade estrangeira e a articulao do universo cultural dos imigrantes italianos aos interesses nacionais, bem como inmeros outros temas relativos ao universo cultural dos imigrantes italianos em So Paulo no perodo. Concebidos segundo os mesmos modelos e carter artesanal das demais folhas e revistas, mas explodindo os limites e concepes ideolgicas ento hegemnicas na imprensa paulistana, comeam a pipocar os jornais da imprensa operria. Embora alguns poucos ttulos ligados a associaes, a pequenos grupos de militantes e a categorias especficas de trabalhadores j comecem a ser editados entre os anos de 1880 a 1890, tambm na ltima dcada que as publicaes tpicas da imprensa operria comeam a se firmar. Nas primeiras dcadas de nossa histria republicana, o movimento operrio paulista produziria uma imprensa extremamente significativa, tanto quantitativa como qualitativamente. Levantamentos realizados sobre a imprensa operria brasileira nesse perodo, destacando-se o trabalho de Maria Nazareth Ferreira, A imprensa operria no Brasil: 1880/1910, indicam que mais de 80% dos jornais considerados da imprensa operria foram publicados em So Paulo. Na recente historiografia sobre o movimento operrio, vrios trabalhos vm apontando a importncia de tais veculos na expanso e conduo das lutas dos trabalhadores paulistas de ento. Num primeiro momento, expressando o mutualismo das organizaes da classe, mas logo assumindo as cores anarquistas e anarco-sindicalistas que predominariam no movimento, essa imprensa articula-se em torno de formaes polticas diversas, caractersticas do movimento operrio no perodo, tais como as sociedades de auxlio mtuo, os centros socialistas, as ligas de resistncia, os sindicatos de ofcio e as federaes e confederaes de sindicatos. Definindo-se abertamente como socialistas, anarquistas ou simplesmente colocando-se em defesa dos interesses de determinadas categorias profissionais, jornais como o La Giustizia (1879); O Caixeiro (1894), rgo semanal de defesa da classe caixeiral de So Paulo; Il Riveglio (1898), rgo comunista-libertrio publicado sob 79 a direo de Gigi Damiani; O Trabalhador do Livro (1898), rgo da Federao dos Trabalhadores do Livro de So Paulo; Avanti (1900), importante giornali socialista quotidiano que seria publicado at o ano de 1909; O Amigo do Povo (1902), publicado sob a direo de Neno Vasco; O Chapeleiro (1903), rgo da liga de resistncia de chapeleiros e anexos; A Terra Livre (1905), peridico anarquista editado pelo militante, tipgrafo e jornalista Edgard Leuenroth, a quem em grande parte se deve a preservao dessa imprensa como patrimnio; La Lotta Proletaria (1908), da unio dos sindicatos de So Paulo; A Vanguarda (1911); A Plebe (1917); pequenas revistas como Anima e Vita (1905), editada por Ernestina Lesiana; o Almanaco Della Rivoluzione (1909); a Aurora (1905), revista mensal de crtica social e literatura; ou O Livre Pensador (1909), traziam tona as diversas vozes, reivindicaes, propostas organizativas e projetos dos grupos de militantes.5 Editados algumas vezes sob divisas mais generalistas, como todos por um e um por todos, rgo de interesse da classe operria ou, ainda, rgo imparcial de defesa dos trabalhadores, ou mais definidas, como proletrios de todo o mundo uni-vos, anarquia e revoluo, ou Fugi vampiros sociais! Abaixo o Vaticano!; assumindo programas em nome do povo, como no caso de O Grito dos Pobres, que se define como sentinela de defesa dos direitos [...] do artista, do operrio, do cocheiro, do carroceiro, do carregador, do pobre enfim [e promete] [...] se bater sempre pelos oprimidos e contra os opressores de toda casta (O GRITO DOS POBRES, 28/04/1889), ou abraando concepes ideolgicas mais definidas, como o caso de A Terra Livre, que em seu artigo de apresentao adianta que, como um peridico socialista e anarquista, ataca o instituto da propriedade privada, da apropriao individual da terra e dos meios de produo e da moral que as tem por base [...] (30/12/1905), tais peridicos expressam os diversos momentos e matizes ideolgicos do movimento operrio no perodo. Tendo como base estruturas de financiamento e produo bastante frgeis, sofrendo constantemente a represso dos rgos policiais, essa imprensa assume os rituais que caracterizam a imprensa operria na poca, como formato tabloide, subscrio voluntria, produo por pequenos grupos militantes, periodicidade irregular. Alis, sobre as condies de funcionamento da grande maioria desses pequenos jornais, tanto operrios como domingueiros e de bairro, vale reproduzir as lembranas de Afonso Schmidt sobre as instalaes iniciais de O Boi. O autor relata que [...] certo dia aquele mocinho magro [Leuenroth] subiu a ladeira do Carmo para ver minscula tipografia, daquelas que outrora, depois de fracassos jornalsticos, andavam de mo em mo, at se perderem no interior [...] Dois cavaletes, algumas caixas de tipo 8 e 10, uma pequena Minerva (gnero espreme-limo), tipos avulsos de fantasia, tudo isso empastelado, coberto de poeira e teias de aranha. Depois de examinar esse restolho, comprou-o por dez ris de mel coado e f-lo transportar para um casebre existente na rua Maria Domitlia, 12, ruazinha estreita e pobre que se esgueira entre a rua do Brs e a rua do Gasmetro. (ULTIMA HORA, 14/01/1953). 5 A identificao e consulta imprensa operria foi realizada no Arquivo Edgard Leuenroth. Alm da pesquisa recente e do dilogo mais prximo com estudos com e/ou sobre a imprensa operria no perodo, me vali do contato anterior com esse conjunto de fontes levado a cabo na pesquisa de mestrado. Ver CRUZ (1991). 80 Tida pelas vanguardas do movimento como fundamental, a essa imprensa so atribudas as tarefas de educao e conscientizao da classe, de propaganda das doutrinas revolucionrias e de combate ideolgico dominao burguesa. De acordo com Maria Nazareth Ferreira, em seu estudo sobre a imprensa operria no Brasil, os grupos produtores dessa imprensa tm como personagem central os trabalhadores grficos, operrios letrados e com experincia na imprensa burguesa. Elite letrada do movimento operrio, em grande parte devido aos prprios requisitos profissionais, os grficos em geral, mas principalmente os tipgrafos compositores, constituram-se enquanto grupo bastante atuante na redefinio das tradies e movimentos culturais e das relaes de poder na cidade letrada no perodo estudado. Crescendo com a disseminao da escrita e da cultura editada na vida cotidiana, impuseram suas marcas na produo impressa no perodo. Como informa a autora, desde a ltima dcada do sculo XIX os grficos da capital organizaram sucessivas entidades que culminam na fundao, em 1903, da UTG (Unio dos Trabalhadores Grficos). Para que se possa avaliar o grau de organicidade da categoria no perodo, interessante reproduzir uma estimativa da autora, baseada num relatrio apresentado pela UTG ao II Congresso Operrio, realizado no Rio de Janeiro em 1913, segundo a qual, de uma populao grfica da capital de aproximadamente mil trabalhadores no ano de 1903, 800 eram associados da UTG. (FERREIRA, 1978). Sabendo explorar a essencialidade da categoria nas condies de produo da tipografia e da oficina grfica de carter mais artesanal, desde o incio do sculo XX a UTG logrou firmar-se enquanto forte referncia para a ocupao dos postos de trabalho do mercado letrado da cidade. Nesse momento, em vrios nmeros de O Trabalhador Grfico, importante jornal publicado pela Unio entre os anos de 1905 e 1906, encontram-se vrias declaraes de editores de jornais e de proprietrios de estabelecimentos grficos da cidade afirmando que no admitiriam que fizesse parte de seu pessoal grfico nenhum operrio que estivesse fora da UTG. Desde o final do sculo XIX, tais unies conduziram inmeras greves da categoria e buscaram trabalhar na organizao e conscientizao no s dos grficos como de toda a classe operria.6 Nomes como os de Edgard Leuenroth, Manuel Moscoso e Neno Vasco, entre outros, lideranas do movimento, tipgrafos, linotipistas e jornalistas, aparecem na direo e/ou colaborao de inmeros desses jornais. Durante todo o perodo, em jornais que desaparecem e reaparecem sob novos ttulos seja por razes financeiras, seja devido represso policial , tais militantes aparecem sempre no expediente. Alis, as relaes entre as posies de vanguarda ocupadas pelos trabalhadores grficos no perodo e sua posio enquanto elite letrada do movimento e articuladora dessa imprensa emergem como uma questo instigante tanto da tica do movimento como do estudo da cultura letrada. Buscando adequar-se s caractersticas plurinacionais da nascente classe operria, as folhas tipogrficas vm luz em diversos idiomas, em formas bilngues ou at trilngues. S em italiano, em italiano e portugus, e em espanhol e portugus encontra-se uma profuso de artigos doutrinrios dos tericos internacionais do anarquismo e do anarco6 Ver O Trabalhador Grfico (1905 e 1906). interessante ressaltar que tal controle do mercado chega ao ponto de trabalhadores sindicalizados conseguirem a demisso dos no sindicalizados. Nessa direo aponta o relato da greve realizada em junho de 1905 no estabelecimento grfico Gornie Braune & Cia., no qual os empregados reivindicam e conseguem a demisso de um operrio por ele ter falsificado a cadernetaestatuto da UTG na hora de conseguir o emprego (O TRABALHADOR GRFICO, 11/01/1905). 81 -sindicalismo, de denncias das condies de vida e trabalho na cidade e nas fbricas e oficinas, de convocao de assembleias e atividades culturais dos centros e sindicatos, de orientao dos movimentos grevistas, de combate religio, de crtica s verses da imprensa burguesa para os mais variados acontecimentos, e ao da polcia ou dos polticos burgueses. Assumindo as bandeiras e reivindicaes que, por um largo perodo, constituiriam a pauta bsica de luta do movimento operrio (a campanha pela semana inglesa, a jornada de 8 horas, a regulamentao do trabalho da mulher e do menor, as comemoraes classistas do 1 de maio), os jornais da imprensa operria rompem com o monoplio dos setores dominantes sobre a palavra impressa, trazendo para o interior da cultura letrada as contradies de classe da cidade em desenvolvimento do ponto de vista dos dominados. A novidade de situaes e conflitos sociais, aliada s condies materiais e tcnicas quase artesanais da cultura impressa no perodo, leva ao esgaramento da hegemonia ideolgica construda pelas elites dominantes durante grande parte do sculo XIX. Na imprensa operria, esse novo sujeito social em emergncia o trabalhador urbano transforma a cultura letrada e impressa num vigoroso instrumento de organizao e resistncia contra a dominao capitalista. Transformada em fonte privilegiada e indispensvel para o estudo das classes trabalhadoras no perodo pela recente histria social do trabalho brasileira, essa mesma imprensa vem reclamando por estudos que a proponham tambm enquanto tema e espao central de anlise e reflexo. Na ponta desse espectro ideolgico, alm dos peridicos da imprensa operria, que se multiplicam na poca, parecem tambm significativas as raras tentativas de organizao da imprensa negra, exemplificada em publicaes como A Ptria (1890), rgo dedicado aos homens negros; O Propugnador (1907), rgo da Sociedade Propugnadora 13 de maio, composta por homens negros e que tinha entre seus objetivos a criao de aulas primrias diurnas e noturnas para seus associados; e O Menelick (1915), rgo mensal, noticioso, literrio e crtico dedicado aos negros, cujo nome presta homenagem a Menelik II, grande Rei da raa preta, falecido em 1913, que promete mostrar ao mundo as sabedorias que ocultamente vagueiam no crebro da classe. (O MENELICK, 17/10/1915). Numa imprensa historicamente monopolizada por doutores e/ou ex-senhores, mesmo que raras e pontuais, tais tentativas denotam a abrangncia desse processo de abertura e esgaramento ideolgico do periodismo paulistano naquele momento. No limite, pode-se trazer tona o exemplo solitrio e incomum de A Tesoura (1895), jornal manuscrito redigido pelos presos e de circulao na cadeia pblica da cidade, que em seu primeiro nmero, nico de que se tem notcia, em meio a ironias sobre as teorias explicativas de Lombroso, promete praticar o jornalismo, dando voz aos presos de So Paulo atravs do bernaculo deste novo delito. (FREITAS, 1929, p. 860). 82 83 7. CIRCUITOS DE DIFUSO: DA DONZELA AO OPERRIO Entre ns, o fenmeno singular. No o leitor a procura de um jornal, mas o jornal a procura de um leitor. Ensinemos esse leitor a ler. Sem cartilhas. Sem bolos. Sem prmio de fim de ano. Editorial de Terra Roxa e Outras Terras, 20/01/1926. A disseminao das prticas da escrita e da leitura e a expanso da imprensa peridica, enquanto momentos fundamentais da expanso da cultura letrada para alm dos crculos das elites paulistanas tradicionais, constituem dimenso importante dos novos modos de viver e pensar da Pauliceia enquanto metrpole em formao. A anlise do processo de expanso da imprensa peridica sugere inmeras questes sobre as direes e sentidos da popularizao da cultura letrada no interior do qual se articula. No processo de pesquisa sobre a expanso e diversificao dos veculos impressos e grupos produtores, renovao das linguagens e conformao de contedos, possvel perceber um movimento mais amplo de rearticulao das relaes culturais no perodo. A centralidade da imprensa nos processos de letramento do povo e de difuso de imaginrios sociais a constitui enquanto campo extremamente dinmico de reconstituio das relaes culturais no perodo. Embora muitas das indagaes sobre os sentidos das transformaes culturais mais amplas na poca extrapolem as possibilidades de reflexo oferecidas pela anlise das publicaes, atravs da reflexo mais geral sobre o fazer-se dessa imprensa cultural e de variedades, tendo como base o dilogo que seus rgos estabelecem entre si, bem como sua combinao a relatos e memrias de poca, torna-se possvel identificar presses e explorar algumas direes desse processo mais amplo que aqui denominei de popularizao da cultura letrada.1 1 Aqui, importante destacar que no estou empregando o termo popularizao meramente no sentido em que usado de forma mais frequente quando articulado indstria cultural, referindose a processos de manipulao e cooptao das culturas populares. Antes, busco incorporar ao termo as perspectivas de Stuart Hall sobre a complexidade desse campo social delimitado pelo popular, sobre as ambiguidades tericas do termo bem como suas advertncias de que uma viso estanque e instrumental da cultura possa nos conduzir noo de falsa conscincia e ao conceito de povo, visto muitas vezes em oposio ao de classe, enquanto uma fora meramente passiva. Sobre a discusso dos problemas tericos e relaes histricas articuladas pela noo de povo e popular, dialoguei mais especificamente com os trabalhos de HALL (1984), BURKE (1984), CHAU (1983) e FENELON (1992). 84 Nessa direo, parece fundamental acompanhar no somente o processo de diversificao/conformao/expanso das publicaes como tambm indagar sobre os circuitos de difuso e os sentidos de leitura que elas articulavam. Como indicam os estudos na rea da histria da cultura e, mais particularmente, as reflexes sobre a difuso das prticas da escrita e da leitura, a discusso sobre quem lia o qu em diferentes momentos histricos das mais espinhosas. Nesse campo, as indagaes e perspectivas de anlise nos remetem a inmeras temticas que se referem tanto s condies sociais de possibilidade da leitura e da escrita, produo e formao de leitores em diferentes espaos e momentos histricos, como ao universo de significao de diferentes leituras para diversos leitores. No universo dos estudos histricos recentes, tanto na Europa como nos Estados Unidos, tais dificuldades tm sido encaminhadas atravs de dois trajetos fundamentais: o estudo vertical sobre registros de leitores especficos, caso dos estudos de Ginsburg (1987) e Darnton (1987, 1992), e atravs de mtodos quantitativos, desenvolvidos centralmente pela recente historiografia francesa, buscando estabelecer sries e padres estatsticos que possibilitem estudar a escrita e a leitura enquanto um fenmeno social.2 No caso da historiografia brasileira, esse um campo quase intocado. No interior deste trabalho, mesmo consciente de que escolhas metodolgicas diversas podem encaminhar de formas diferentes a reflexo sobre a temtica, optei por lidar com as informaes disponveis nas duas direes. Assim, ao operar com indicaes precrias, tanto quantitativas como qualitativas, sobre a difuso da imprensa paulistana no perodo, este estudo no tem a pretenso de esgotar o assunto e apenas busca, como coloca Darnton em seu texto sobre a produo e difuso da literatura ilegal na Frana pr-revolucionria, traar um reconhecimento preliminar desse territrio. (DARNTON, 1987, p. 11). Independente das reclamaes da prpria imprensa e das elites intelectuais paulistanas sobre as dificuldades de difundir as prticas da leitura, de encontrar o homem que l, o processo de expanso do pblico leitor inegvel. No obstante, a avaliao mais exata sobre a difuso da pequena imprensa na virada do sculo, em termos da formao de um pblico leitor e significaes sociais da leitura, bastante difcil de ser realizada. Os dados quantitativos sobre a difuso e circulao dessa imprensa so raros e descontnuos. Via de regra, principalmente at a segunda dcada do sculo XX, as folhas e revistas culturais e de variedades no traziam quaisquer informaes sobre circulao e difuso, como tiragens, assinaturas distribudas, venda avulsa, etc. Muito raramente, a partir da virada do sculo, alguns peridicos passaram a informar suas tiragens. Nos reclames de difuso desses peridicos na imprensa diria ou nas avaliaes de poca sobre o desenvolvimento da imprensa, obtm-se alguma informao isolada sobre a tiragem desse ou daquele jornal, a importncia da venda de assinaturas na estrutura de financiamento de tal publicao, as estratgias de comercializao de uma terceira. Mesmo na literatura mais recente sobre a imprensa no perodo, a questo do alcance e difuso das publicaes peridicas muito pouco discutida. Na verdade, na ausncia de indicadores mais seguros sobre tiragens e circulao de tais publicaes, a realizao de anlises quantitativas mais refinadas fica na dependncia de um esforo coletivo de construo de sries e ndices, que a historiografia brasileira ainda no conseguiu realizar. 2 A bibliografia recente que, direta ou indiretamente, trata da questo aqui abordada, j bastante significativa. Gostaria de destacar aqui alguns trabalhos com os quais se buscou um dilogo mais sistematizado, como GINSBURG (1987), CHARTIER (1987), DARNTON (1987, 1992) e DAVIS (1990). 85 A organizao das informaes sobre 32 peridicos pesquisados entre 1900 e 1915, que estampavam tiragem, fornece indicaes bastante variadas segundo o ano e tipo de publicao.3 Assim, tem-se que no mesmo ano de 1901 a revista de letras, cincias e artes A Phenix, dedicada mocidade brasileira, da qual s localizei o primeiro nmero, estampa uma tiragem de 500 exemplares, enquanto o Jornal Annuncio, de distribuio gratuita pela Casa Ecltica, que funcionava como uma espcie de agncia de reclames do perodo, declara a surpreendente tiragem de 25 mil exemplares, ou seja, equivalente a mais ou menos 10% da populao do muncipio de So Paulo, que por volta de 1900 estimada em 240 mil habitantes. Tais variaes so recorrentes em toda a dcada, na qual se localizam pequenas folhas literrias que assumem tiragens de 500 exemplares e peridicos como a Semana Paulista (1908), da qual s tivemos acesso ao n. 5 do ano I, que declara uma tiragem de 5 mil exemplares, O Pica-Pau (1908), revista destinada ao pblico infantil e editada pela Livraria Magalhes, importante editora de cartilhas e livros escolares no perodo, que estampa a tiragem de 15 mil exemplares, ou como O Sul Americano (1907), rgo comercial da Farmcia e Drogaria Americana, que em seu n. 49 do ano III informa uma tiragem de 50 mil exemplares. Ainda assim, esse conjunto precrio de informaes permite propor que na primeira dcada do sculo XX uma publicao de pequeno porte, mas com um grau razovel de organizao editorial e financeira, que vinha a pblico como folha literria, noticiosa ou recreativa, teria uma tiragem variando entre 500 e 2 mil exemplares, o que significativo se compararmos com as edies de obras de fico de literatos nacionais, cujas tiragens, no perodo, geralmente no passavam de mil exemplares. No que diz respeito a essas tiragens mais espetaculares, torna-se necessrio caminhar com cautela, j que muitas delas, principalmente as das publicaes de carter comercial ou de anncios, que no por acaso constituem a maioria das que trazem a informao sobre tiragens, parecem funcionar mais como uma estratgia de vendagem de espao para anunciantes. Se considerarmos que em 1910 O Estado de So Paulo, que era o dirio de maior circulao na provncia, tinha uma tiragem por volta de 40 mil exemplares, podemos fazer a crtica de tais informaes.4 Alis, essa tarefa facilitada pela crtica dos pequenos e efmeros jornais humorsticos, que vez por outra esto fazendo humor declarando tiragens de 10 mil a 20 mil exemplares. Se considerarmos o levantamento publicado pelo Almanaque Mellilo em 1904, com a ressalva do editor que o considera precrio, somos informados de que, dos 76 jornais identificados em circulao naquele ano, 17 tinham tiragem de menos de mil exemplares, 41 de menos de 5 mil e 18 de menos de 10 mil; e se estimarmos o conjunto de publicaes em So Paulo naquele ano, chegaremos a um nmero entre 100 mil e 250 mil exemplares em circulao. (ALMANAQUE MELLILO, 1904). Mesmo considerando o fato de que com a difuso dessa imprensa atravs das assinaturas, que era a forma mais usada de distribuio dos jornais e revistas no perodo, as publicaes ganhavam cada vez mais o interior da provncia e que era comum na poca uma mesma pessoa fazer a assinatura de diversos peridicos, tais estimativas, mesmo que precrias, apontam para uma expanso qualitativa importante do pblico leitor. 3 O trabalho de identificao das tiragens desses 32 peridicos foi feito atravs do exame das mais de 100 publicaes identificadas e pesquisadas. 4 Os dados sobre a evoluo histrica das tiragens dO Estado de So Paulo foram identificados no artigo A histria de um jornal, publicado sob a autoria de P. P. no Almanach dO Estado de So Paulo para o ano de 1916. So Paulo (1917, p. 31-47). 86 Longe de se transformar em estatsticas mais exatas sobre o universo de leitores atingidos pela imprensa no perodo, a realizao do exerccio quantitativo com os dados esparsos atualmente disponveis indica, no entanto, um avano significativo e contnuo em termos da conquista de novos leitores durante as primeiras dcadas do sculo XX. Pelo menos at 1910, como os prprios peridicos indicam, tais progressos na conquista de novos leitores no foram tarefa de fcil realizao, suscitando verdadeiras batalhas por ocasio da distribuio a cada edio. Recorrentes no perodo, as denncias sobre os entraves colocados pelos custos exorbitantes do papel e de outros materiais importados e sobre o gravoso porte de circulao so usados como elementos explicativos centrais das dificuldades de produo, manuteno e difuso de uma publicao. Com exceo das edies de reclame, que eram distribudas gratuitamente em lojas, confeitarias, cinematgrafos e outros locais pblicos da cidade, eram as assinaturas que faziam chegar ao pblico leitor a maioria dessas publicaes e, a cada nmero, as folhas traziam reclamaes sobre a ineficincia dos servios de correios, que resultavam em inmeras queixas de seus assinantes. A venda avulsa pelas ruas, adotada de forma tardia mesmo pelos mais importantes dirios, colocava-se fora das possibilidades financeiras da pequena imprensa. Espalhar publicaes pelos pontos fixos tradicionais da cidade, como charutarias, quiosques, papelarias e/ou casas livreiras, era uma estratgia que suas pequenas tiragens no suportavam. Somente algumas publicaes que conseguiam sobreviver por perodos mais longos estabeleciam correspondentes no interior e um ou outro ponto de venda fixo na cidade, geralmente em alguma das charutarias do centro ou das ruas centrais do bairro. Centralmente, as assinaturas mas tambm a vendagem em crculos mais restritos, do bairro, do sindicato, da associao foram as formas mais generalizadas de distribuio dessa imprensa. Alis, a venda adiantada de um nmero razovel de assinaturas era a estratgia fundamental de sua sustentao financeira. Na cata de assinantes, desenvolveram-se inmeras artimanhas que variavam desde o envio do primeiro nmero para endereos selecionados, at o trabalho de agentes de porta em porta, tanto na capital como no interior, a organizao de concursos que por vezes resultavam em concorridas votaes dos leitores, os quais a cada nmero apareciam nas listagens nominais das sees do concurso, e a distribuio de prmios entre os assinantes. Outro indicador importante na anlise da difuso dessa imprensa dado pelos anncios das casas livreiras, das agencias de jornais e revistas e dos estabelecimentos de papelaria que, via de regra, destacam em seus estoques de publicaes a existncia de variado sortimento de revistas e jornais ilustrados. Assim tambm os clubes e associaes recreativas sempre mantinham em sua salas de leitura, como atrativos para os scios, alm das publicaes da imprensa diria, alguns desses peridicos da imprensa cultural e de variedades. Mesmo se no levarmos em conta os nmeros absolutos e o desenho das porcentagens da populao atingida pelas referidas publicaes, necessrio salientar que os significados sociais de sua difuso articulam-se ampliao social dos circuitos da cultura letrada e impressa e renovao dos sentidos do jornalismo. No se trata unicamente do aumento do nmero absoluto de leitores ou do deslocamento de interesses e significados culturais da imprensa peridica; trata-se tambm da ocupao letrada de terrenos sociais, que, anteriormente, eram muito mais afeitos aos cdigos da oralidade. 87 Em seus momentos iniciais de desenvolvimento, ao enunciar seus destinatrios, que ora sinalizam interesses bastante especficos a classe dos estudantes, os apreciadores das artes, a mulher brasileira, aos trabalhadores grficos , ora bastante generalizados quando se autodefinem como folha das famlias, do comrcio e do povo, dos habitantes do Brs e da cidade, do proletariado do pas, prometendo ser acessvel a todas as classes e caber tanto no bolso do filsofo como no bolsinho da donzela ou nas mos rudes do operrio, as prprias publicaes fornecem indicadores sobre os rumos sociais de seu processo de expanso. Como salientado anteriormente, o jornalismo desprende-se progressivamente da Academia e articula-se mais estreitamente vida urbana. Para expandir seu pblico, as folhas e revistas, acolhendo os projetos, interesses e gostos das novas camadas urbanas, avanam sobre terrenos anteriormente alheios ao universo da imprensa. Nesse primeiro momento de desenvolvimento da imprensa cultural e de variedades, o movimento de expanso quantitativa do pblico leitor pode ser proposto muito mais pela publicao de uma grande diversidade de peridicos de pequenas tiragens, que tinham como pblico alvo grupos sociais diferenciados, do que pela indicao singular de um ou outro peridico de tiragem espetacular. A fragmentao e/ou diversidade dessa imprensa, imposta pelas prprias condies materiais e tcnicas da imprensa paulistana no perodo, parece tambm responder a um processo em que espaos e grupos sociais diversos articulam-se e/ou so conquistados enquanto leitores de peridicos. Inmeras folhas e revistas de variedades, literrias, de artes, de humor, de esportes, de bairro, da imprensa operria articulam-se a novas e difusas formas de sociabilidade e vivncia da metrpole em formao, instituindo-se como veculo de relaes sociais que delineiam a vida citadina de diferentes grupos sociais. O universo de significaes desses diferentes peridicos imbrica-se vida dos grupos sociais. Algumas publicaes, mais chics e refinadas, como a Vida Moderna e A Cigarra, parecem funcionar como verdadeiros lbuns da vida social das elites dominantes, atraindo leitores que compem seu repertrio de personagens e situaes e projetando para outras camadas sociais os padres do viver e pensar do mundanismo internacional. Referindo-se s temporadas dos melhores teatros e das companhias francesas diante das quais a sociedade paulista faz toilettes e ensaia poses, ao carnaval paulista que veste smoking, usa luva branca, agita uma badine de casto de ouro e fixa na impertubvel rbita ocular o monculo elegante, ao trottoir das senhoras elegantes na rua Direita, na porta da Casa Alem ou da Casa Kosmos, aos domingos no prado da Mooca, tais publicaes do visibilidade e demarcam prticas, espaos e hbitos atravs dos quais a burguesia paulistana, antes reclusa s fazendas, aos saraus ntimos e a outros poucos ambientes fechados, ocupa publicamente a cidade. Outros peridicos, menos chics, por vezes mais singelos, outros mais crticos, referindo-se a bailes em associaes recreativas da Barra Funda, do Brs, aos picnics e festivais no Parque da Luz, aos grupos de msica e de teatro das fbricas e dos bairros, aos times de vrzea, s reivindicaes dos bairros e do movimento operrio, demonstrando a disseminao de novas formas de vivncia e de pleitos sobre a cidade para alm dos crculos das elites, articulam como personagens e leitores potenciais as camadas populares da populao. 88 Com relao imprensa operria, deve-se destacar que, para alm de nmeros e tiragens, a simples emergncia e organizao desse setor de forma rica e diversificada em termos de categorias profissionais e orientaes ideolgicas, por si s, constitui um fato social da maior relevncia para a discusso sobre o processo de transformao da cultura letrada no perodo. Assim tambm o surgimento de jornais de bairro, alguns de vida extremamente breve e outros como A Folha do Braz, publicada regularmente durante quase 3 anos, atesta a ocupao letrada de novos territrios sociais pelos circuitos da cultura impressa. No obstante, assim como as revistas e folhas domingueiras, a imprensa operria parece ter se disseminado atravs de crculos mais restritos, ligados aos sindicatos e aos bairros, por meio de uma gama variada de peridicos. Alcanava-se um pblico significativo atravs de uma grande diversidade de peridicos. Alguns desses jornais operrios, que tinham como objetivo alcanar a classe de uma maneira mais ampla, aumentavam suas tiragens e as distribuam atravs de diversos sindicatos. Assim mesmo, no se tem notcia de tiragens espetaculares, e uma edio de 4 mil exemplares, que era a declarada pelo A Voz do Trabalhador (1908/1915), importante rgo da COB (Confederao Operria Brasileira), com circulao no eixo Rio/So Paulo, considerada extremamente significativa para o perodo. No que diz respeito s significaes mais gerais da difuso dessa imprensa operria para a anlise das relaes entre cultura letrada e cultura popular no perodo, parece fundamental aprofundar as proposies de Maria Nazareth Ferreira (1978, p. 148-149), segundo a qual [...] a impressionante rede de comunicao desenvolvida pelos militantes, atravs da imprensa operria, no encontra paralelo na histria do trabalhador brasileiro [...]. No entanto, mesmo levando em conta essas pistas gerais, as dificuldades em responder pergunta sobre quem lia tais peridicos permanecem. Na tica que indaga sobre o processo de formao dos leitores, alguns indcios, aqui e ali, podem ser organizados. Em primeiro plano, deve-se destacar que as afirmaes de Teresinha Del Fiorentino (1982, p. 19) sobre os literatos constituindo parte significativa do pblico leitor das obras de fico parecem tambm ser verdadeiras para a imprensa literria e de variedades. Na correspondncia mantida entre Monteiro Lobato e Godofredo Rangel por mais de trs dcadas localiza-se que, alm de discutirem entre si a qualidade de obras de fico nacionais e estrangeiras, os dois autores esto sempre comentando e trocando o que consideram os melhores nmeros das revistas ilustradas paulistas e cariocas. (LOBATO, 1944). Entre as lembranas de Oswald de Andrade (1990) no perodo, a produo e leitura dessas revistas semanais por vrias vezes cruza o cotidiano do autor. No s como jornalistas e produtores, mas tambm enquanto leitores, os literatos mantm estreitos vnculos com o periodismo. No entanto, mais do que simplesmente os literatos, deve-se destacar que a grande maioria do pblico leitor no perodo, principalmente se levarmos em conta a leitura dos jornais dirios, ainda era composta pela elite masculina letrada tradicional. Na literatura e nos relatos de poca, nas mos dos homens letrados das elites polticas dominantes, dos chefes das famlias ricas, e tambm nas dos chefes das famlias remediadas e de trabalhadores que se encontra o jornal dirio. Nos depoimentos sobre a poca colhidos por Ecla Bosi (1987, p. 51-357), O Estado de So Paulo leitura obrigatria dos pais de famlia bem estabelecidos e o Fanfulla aparece na casa dos depoentes das famlias de trabalhadores italianos. Em suas memrias, com o subttulo de Seu Gattai l o jornal, Zlia Gattai nos conta que 89 Todas as manhs, depois do caf, papai lia em primeira mo O Estado de So Paulo, nico dirio comprado em casa. Fazia-o de p, o jornal aberto sobre a mesa, as mos apoiando o corpo, meio debruado sobre as folhas. Ficava um tempo, mergulhado nos artigos polticos, enteirando-se dos acontecimentos do mundo atravs dos telegramas do noticirio matutino. (GATTAI, 1979, p. 41). O narrador das crnicas de Amadeu Amaral, Memorial de um Passageiro de Bonde, Felcio Trancoso, um conceituado chefe de repartio, embora prometa deixar o hbito de ler no bonde, hbito estpido [j que] ver o homem viver mais interessante do que as histrias do que ele faz e pensa, (ou pensa que pensa), est sempre ocupado com a leitura de um dirio da manh ou com uma folha da tarde. (AMARAL, 1982, p. 25). O informativo poltico, o noticirio do mundo, as polmicas sobre o progresso tcnico e cientfico ainda continuam a compor um universo eminentemente masculino. A notcia sisuda, considerada sria, ainda coisa de homem. No entanto, essas mesmas fontes tambm apontam para a emergncia de novos interesses e novos leitores. Nesses relatos, o hbito da leitura e o contato com a cultura impressa disseminam-se para alm da figura masculina da elite dominante. Neles, ainda que de forma esparsa, outros personagens, como mulheres, trabalhadores das oficinas e pequenos funcionrios, tambm leem e escrevem. Vrios dos depoentes das classes populares, trabalhadores das oficinas e dos servios, filhas e esposas de trabalhadores falam de sua vida escolar e do hbito de ler peridicos. A, v-se que as sees de folhetim, de notcias sociais, necrolgios dos jornais dirios, recolhidos aps a leitura masculina, animavam o cotidiano de membros femininos da famlia. Em alguns dos depoimentos femininos recolhidos por Ecla Bosi, como os de dona Maria Alice, filha da empregada da casa de um importante advogado e mais tarde operria em oficina de costura; dona Lavnia e dona Brites, irms de uma famlia de classe mdia, ambas professoras, indicam as revistas ou folhetins avulsos entre seus hbitos de leitura. (BOSI, 1987, p. 51-76). Nas mos de Zlia Gattai e de suas irms, trazidas pelo tio ou como presente do namorado, encontramos as novas revistas literrias e/ou de variedades. Os hbitos de leitura de sua me despertavam a zanga do pai, [...] que no entendia e ficava intrigado com as contradies intelectuais das mulheres [...] quando a via reunida com outras mulheres, cada qual mais ignorante, ouvindo as filhas lerem as idiotices dos folhetins [...]. (GATTAI, 1979, p. 101). As crianas buscam as sees infantis e de passatempos, os passageiros do bonde de Amadeu Amaral, vez por outra, esto envolvidos com charadas, palavras cruzadas ou palpites do bicho correntes nesse tipo de imprensa. O processo de expanso dos pblicos desenvolve-se de forma simultnea ao desenho de formas de contar mais sintonizadas com os interesses e o gosto dos habitantes da cidade. Como indica Zemon Davis (1990), existe um caminho significativo a percorrer desde a simples alfabetizao at a familiarizao com a leitura e a conquista de pblicos cotidianos. Articulando-se de forma mais estreita ao dia a dia da populao e absorvendo 90 seus modos de expresso na renovao de sua linguagem, a pequena imprensa de folhas e revistas parece ter institudo um caminho privilegiado para esse processo de familiarizao com a leitura de que nos fala Zemon Davis. verdade que o levantamento realizado durante a pesquisa revelou que parte significativa dessas pequenas folhas e revistas, principalmente das que eram ligadas a associaes recreativas e culturais e a pequenos grupos informais de cultura, vindo a pblico com toda pompa, com artigos de fundo que delineavam extensos programas, no conseguem passar dos primeiros nmeros. imensa a quantidade, nesse perodo, de peridicos de nmero 1 como ltima edio existente identificados durante a pesquisa. Alis, interessante registrar outra vez a prtica de alguns jornais humorsticos ocasionalmente publicarem necrolgios de seus semelhantes. Nesses materiais geralmente aparecem notas como a publicada pelo minsculo jornalzinho de humor O Mao, publicado no Brs em 1898, que anuncia com pezar no corao os bitos de 17 folhas na capital nos meses anteriores a julho. (FREITAS, 1929, p. 812). Novamente, apesar da maioria desses peridicos no ter vingado, necessrio destacar seus significados em termos do processo mais geral de formao de uma imprensa urbana e de veculos de contato e familiarizao com os cdigos da cultura letrada e impressa para inmeros grupos sociais. Fazer imprensa, mais caseira, mais restrita, transforma-se em caminho importante de formao de jornalistas, mas principalmente de um pblico leitor familiarizado com os renovados cdigos da cultura impressa. Fazer imprensa era construir espaos e difundir significados para novas formas de sociabilidade. Fazer imprensa era tambm formular e difundir projetos. Em grande parte do perodo pesquisado, o processo de experimentao vivenciado pelos grupos produtores nesses crculos restritos parece identificar-se com o processo de formao de leitores. Articulada aos sentidos e s linguagens da cidade, a cultura impressa amplia seus sentidos para as elites letradas e abre-se para outros pblicos e experincias sociais. Assim, tambm se deve chamar a ateno para o fato de que algumas dessas folhas chegaram a transformar-se em jornais e revistas conhecidas, como o caso de A Plata, que comea como semanrio domingueiro em 1888 e j a partir de 1891 transforma-se em importante dirio no perodo. O desaparecimento de grande parte desse tipo de publicao, to comum na ltima dcada do sculo XIX e primeira do sculo XX, est relacionado ao processo de rearticulao da cultura impressa. Tal processo tem seus sintomas mais visveis na formao das empresas jornalsticas, no fortalecimento e profissionalizao de alguns grupos e na instalao de editoras mais capitalizadas e organizadas, que passam a editar a maioria dos materiais lidos pelos paulistanos na poca. Para os anos posteriores a 1910, quando j existem informaes mais confiveis, temos que revistas de variedades bem estruturadas, editorial e financeiramente, como A Cigarra, A Vida Moderna ou O Pirralho, apresentam tiragens entre 15 mil e 30 mil exemplares. A expanso da imprensa peridica paulistana, em termos da conquista de leitores, foi progressiva; tanto que, entre 1920 e 1930, So Paulo tornou-se o primeiro Estado da federao no que diz respeito circulao de peridicos. (LOVE, 1982, p. 130). Vista como atrasada em relao cosmopolita capital federal, onde a experincia de produo de materiais impressos, principalmente revistas ilustradas, buscava acompanhar o ritmo das novidades europeias vindas de Londres e Paris, a Pauliceia apressa seu 91 passo e, j na segunda dcada do sculo XX, passa a contar com um nmero significativo de publicaes estveis, bem estruturadas e ricamente impressas. Com relao aos sentidos da difuso da imprensa tipogrfica no perodo, vale ressaltar que, embora a maioria dessas folhas e revistas no tenha adquirido uma forma estvel e permanente, foi atravs delas que os novos contedos da vida e das disputas culturais da cidade penetraram mais fortemente o campo da cultura letrada. No universo dessa imprensa, torna-se possvel viver as tenses da redefinio das formas de escrita e de leitura forjadas pelo burgo de estudantes. 92 8. AO COMRCIO INTELIGENTE: A IMPRENSA E O MERCADO O reclame a vida do comrcio. O Lyrico, 13/09/1903 A expanso do mercado e das relaes mercantis apresenta-se como uma das presses fundamentais na redefinio da cultura letrada no perodo aqui estudado. Atravs da propaganda, esse idioma da metrpole moderna, o mercado articulou-se fortemente s novas formas de periodismo.1 As novas demandas colocadas pelo mundo das mercadorias, at ento quase que totalmente exteriores ao mundo das letras, absorvidas pelas diferentes publicaes, passam tambm a moldar os contedos e formas de dizer dessa imprensa. Independentemente das direes que animavam os projetos de resistncia e conteno de transformao da cultura letrada, o desenvolvimento do mercado e da linguagem da propaganda colocou-se como uma forte presso para a renovao/redefinio dos sentidos sociais e da linguagem da imprensa. Da mesma forma, na imprensa peridica o mercado encontra um espao privilegiado de construo de sua linguagem. Como aponta Ricardo Ramos em seu estudo sobre a evoluo do reclame no Brasil (1985, p. 9-27), foi como sustentculo das revistas e folhas ilustradas desse perodo que se iniciou o aprimoramento do reclame e a propaganda regular na imprensa brasileira. Segundo Affonso de Freitas, nos tempos de antanho, ou mais precisamente at a proximidade da data do estabelecimento da primeira estrada de ferro na provncia: [...] o comercio indgena, retalhista, roceiramente aferrado s obsoletas prticas mantidas desde os mais obscuros tempos coloniais, desconhecia por completo as necessidades e as vantagens do reclame [...] na cidade pequenina, [...] o crculo de operaes comerciais era limitadssimo e tudo o quanto os anncios pudessem informar j era sabido e de visu conhecido da populao paulistana. (FREITAS, 1929, p. 326). 1 Ver interessante reflexo sobre a propaganda enquanto linguagem da metrpole moderna desenvolvida por BOLLE (1991, p. 137-143). No texto, o autor desenvolve uma anlise da reflexo de Walter Benjamin a respeito das transformaes das linguagens na metrpole moderna. 93 At ento, na imprensa diria, na forma de classificados, quase preges vende-se, procura-se, oferece-se , que, na maioria das vezes, consistiam em pequenas notas e/ ou declaraes de pessoas de autoridade, discorrendo sobre as qualidades do produto, a variedade do sortimento de alguma casa comercial, as vantagens de um servio prestado e as caractersticas de um objeto perdido; ou ainda como tijolos comerciais arrumados sem o menor cuidado na ltima contracapa, a propaganda pouco evolua. Mesmo as clssicas vinte linhas da seo livre, ento oferecidas gratuitamente pela maioria dos jornais aos seus assinantes, eram muito pouco utilizadas. Nas folhas e revistas acadmicas ligadas ao Largo de So Francisco, o reclame era uma linguagem quase ausente. Empreitada maior, a imprensa literria acadmica no devia ser confundida com as prticas de mercantilizao. Nesse momento, fazer imprensa era assunto srio, de poucos para poucos, que no devia ser confundido com as prticas comerciais como a publicao de reclames ou a venda ostensiva pelas ruas da cidade. (AMARAL, 1968, p. 125-175). As folhas e revistas tipogrficas do final do sculo, leves e mundanas, despudoradas em relao ao mercado, emergem como suportes extremamente receptivos ao desenvolvimento da linguagem publicitria. Ainda tmidas na passagem do sculo, essas publicaes iriam gradativamente absorvendo a linguagem dos reclames e anncios e, nos anos 1910, j transmutadas em bem sucedidas revistas de variedades, constituiriam espaos privilegiados da elaborao e afirmao desse novo olhar mercantil sobre a cidade, a propaganda. (BENJAMIN, 1987). Na metrpole em formao, fabricantes e comerciantes, agentes de um mercado em acelerado desenvolvimento, encontram nos reclames o espao de visibilidade para seus produtos e servios. A ento frgil imprensa tipogrfica, vida por esquemas financeiros de sustentao, incorpora de braos abertos as novas formas de propaganda. A partir desse momento, estabelece-se um movimento de mo dupla entre a linguagem das mercadorias e a cultura impressa. Respondendo s demandas colocadas pelo desenvolvimento do comrcio, as tipografias comeam a imprimir uma grande variedade de materiais, como faturas, circulares, letras em branco, calendrios de casas comerciais, cartes comerciais, cartazes e muitos rtulos de produtos. Tais materiais comeam a ocupar os espaos do dia a dia dos paulistanos. Nas obras de fico e relatos de poca, so recorrentes as imagens de determinados rtulos, as referncias s marcas famosas, a lembrana de quadrinhas de reclame. Referncias como a Casa Clark, o sabonete Odol e os cigarros Casteles vez por outra compem a caracterizao dos personagens na fico de poca. Assim como o jornal, a leitura das propagandas aparece enquanto uma ocupao tpica do passageiro de bonde. Relatos como os de Zlia Gattai (1979, p. 37), que em suas descries sobre os passeios de bonde com suas irms nos fala sobre a brincadeira de ler em voz alta os anncios de remdios ali fixados e recorda: Veja ilustre passageiro/ o belo tipo faceiro/ que o senhor tem ao seu lado./ E no entanto acredite/ quasi morreu de bronquite/ salvou-o o Rhum Creosotado! ; ou personagens como o italianinho, de Alcntara Machado (1961, p. 129-132), que ritmando a leitura percorre um a um os anncios do bonde, so frequentes na poca. Os reclames e anncios tambm permanecem como referncias importantes na memria dos habitantes da cidade, o que exemplificado vivamente em um dos depoimentos colhidos por Ecla Bosi, em Memria e Sociedade (1987, p. 53), em que dona Alice lembra com alegria um dia em que recebeu presentes de um distinto amigo da famlia, que trouxe para ela dois vestidos e um par de sapatos Ao Bon March, achei aquilo uma glria, como se diz agora. 94 Bem trabalhados graficamente, de fcil compreenso e assimilao, expostos nos espaos pblicos e na imprensa, os reclames, junto com as famosas cartilhas da livraria Magalhes, assumem o carter de espaos de aprendizado e de difuso dos cdigos da escrita e da leitura para inmeros setores da populao urbana. Como acentua Jacob Klintowitz (1988, p. 10-44) em seu trabalho sobre as imagens comerciais naquele perodo, a propaganda emerge como uma importante referncia de linguagem da metrpole em formao.2 Tendo urgncia na divulgao de seus produtos para uma populao crescente e annima, dispondo das facilidades de confeco dos novos materiais impressos, comerciantes e fabricantes saem na frente e comeam a editar inmeras folhas de reclame. Disfaradas como rgos de interesse pblico, comeam a ser editadas pequenas folhas, quase panfletos, tais como Ao Boccacio (1885), publicao da charutaria do mesmo nome; O Gasparinho (1893), jornal dedicado ao pblico, que fazia propaganda da Casa Lotrica Dolivaes Nunes; Jornal da Casa Barcelos (1897), do conhecido emprio de fazendas dedicado aos ricos que desejavam gastar pouco, aos remediados que no podem gastar muito e aos pobres que so obrigados a gastar pouco; A Chimaphylla Alba (1898), gazeta das famlias dedicada venda do cosmtico do mesmo nome; e O Bromofrmio (1906), do peitoral de Bromofrmio de chaves. Pela insero de pequenas notas entre charadas e sonetos 1$600 o metro de merin de primeira qualidade , reclames em quadrinhas e caricaturas entre pequenas notcias e passatempos, buscava-se cativar o consumidor e conquistar sua preferncia. Nesse movimento de comerciantes e fabricantes para propagandear suas marcas, deve-se tambm destacar a edio de vrios almanaques anuais, como o caso do Almanaque Mellilo (1904), editado pela livraria de mesmo nome, e o Almanaque da Antarctica (1905), com reclames da Companhia Antarctica. Promotores independentes descobrem na imprensa comercial um ramo promissor de negcios. Reunindo anncios avulsos no comrcio, por vezes tambm assumindo as funes de editores e distribuidores independentes, sob lemas chamativos como o reclame a vida do comrcio ou o segredo do anncio a insistncia, lanam publicaes como O Jornal Annuncio (1901), O Intervallo (1905), O Binculo (1905) e A Propaganda (1906). Antecipando-se s agncias de publicidade que comeam a se firmar na segunda dcada do sculo, alguns estabelecimentos comerciais, como A Casa Dolivaes Nunes e A Ecltica, agregam subsidiariamente a seus negcios o agenciamento de reclames. 3 Articulados aos jornais e revistas da poca, tais estabelecimentos passam progressivamente a centralizar os servios de captao, distribuio e cobrana de anncios e, atravs de seus departamentos artsticos, para os quais so contratados desenhistas e redatores publicit2 importante ressaltar que essa publicao, que tem como contedo principal luxuosas reprodues de imagens de rtulos, cartazes e reclames diversos do perodo, foi extremamente til na anlise aqui desenvolvida. 3 importante destacar que, em suas origens, a Ecltica no estava ligada a nenhum grande dirio ou revista, mas iniciativa de Edgard Leuenroth e seus irmos para conseguir sustentao financeira para o jornal de bairro A Folha do Braz. Como indica Yara Aoun Khoury, a Ecltica torna-se, com o decorrer do perodo, uma bem sucedida empresa de anncios que prestava servios para importantes publicaes. Elemento revelador das tenses e ambiguidades do processo de incorporao da linguagem publicitria pela imprensa a presena, nessa esfera de atividades, de Edgard Leuenroth. Segundo a mesma autora, Leuenroth trabalharia na agncia durante parte significativa de sua vida e da tiraria sua sobrevivncia; no entanto, o militante anarquista nunca aceitou ser scio de seus irmos. Ver KHOURY (1988, p. 46-47). Examinar tambm as referncias sobre as origens da Edanee, Empresa de Publicidade e Livraria fundada em 1913, em LIMA (1985, p. 38-39). 95 rios exclusivos, comeam cada vez mais a influir na elaborao da linguagem publicitria da poca. (KHOURY, 1988, p. 38-39). Em meio a sonetos, sees de fofocas, charadas e outros reclames, diversas companhias de espetculos faziam propaganda de suas atividades, como a Companhia Dramtico Portuguesa ou a Empresa Malagrini Nardelli, empresas de cinematgrafo, atravs de veculos impressos como O Theatro (1905); O Palco Illustrado (1908); Mignon (1908), da casa de diverses de cinematgrafo Mignon; e O Smart (1910), publicao de literatura e assuntos diversos do cinema Smart. Anunciantes de destaque da poca assumem por conta prpria a edio de folhas e revistas literrias cuidadosamente estruturadas e bem impressas, como a Antarctica Illustrada (1902), da importante cervejaria Antarctica; O Echo Fonografico (1902) e o Telescopio (1907), ambos da famosa Casa Edison de materiais fonogrficos. Vrias dessas publicaes assumiam a feio da folha ilustrada, com projetos editoriais e grficos cuidadosos que nada ficavam a dever s revistas de maior sucesso; algumas delas, como O Echo, vieram a pblico regularmente por mais de 10 anos. Com a virada do sculo, a propaganda deixa progressivamente o espao exclusivo das publicaes comerciais e articula-se imprensa peridica de uma forma mais ampla. Nesse processo, o reclame transforma-se numa das formas centrais de financiamento das publicaes. O sucesso de um peridico, sua manuteno enquanto uma publicao competitiva e estvel, passa a depender cada vez mais de sua capacidade de atrair recursos via propaganda. As pequenas publicaes vm a pblico repletas de apelos ao mercado. Em insistentes proclamaes ao comrcio inteligente, as publicaes prometem anncios por preos mdicos; publicaes encapadas com o nico intuito de nelas serem feitos anuncios ilustrados a preos comodssimos previnem aos senhores negociantes que as casas que anunciam tem mais frequncia, crdito e prosperidade, oferecem ao distinto comrcio novas e atrativas tcnicas de confeco dos anncios. Proprietrios e editores lanam-se na disputa pela preferncia do comrcio e da indstria. Estabelecimentos como A Loteria So Paulo, a Cervejaria Antarctica Paulista, a Casa Edison de materiais fonogrficos, os representantes das guas minerais Caxamb e Lambary, a Casa Baruel de artigos farmacuticos e de perfumaria e a Livraria Magalhes emergem como alguns dos grandes anunciantes do perodo. Pequenas publicaes distribudas em crculos mais restritos encontram no pequeno comrcio de bairro (armazm de secos e molhados, armarinhos, drogarias, bilhares) um apoio para o seu financiamento. Os grandes anunciantes passam a garantir a vida relativamente estvel de algumas publicaes domingueiras da poca. A regularidade e estabilidade de importantes pequenas revistas do perodo, como A Arara, que publicada regularmente entre 1905 e 1907, passa a ser garantida pela conquista desses anunciantes. (RAMOS, 1985, p. 19-27). Seria, no entanto, nas mais bem estruturadas revistas de variedades da segunda dcada que a linguagem publicitria encontraria seu espao mais sistemtico de afirmao. Foi atravs da estreita articulao nascente indstria do reclame que publicaes como O Pirralho (1911/1918), A Vida Moderna (1907/1925) e A Cigarra (1914/1920) firmaram-se enquanto emprendimentos comerciais. Por volta de 1915, A Vida Moderna, que disputa o ttulo de revista de maior vendagem com A Cigarra, promete aos anunciantes propaganda bem elaborada e pblico certo. Por seu turno, A Cigarra, que trabalhava ar- 96 ticulada Empresa Moderna de Reclames, afirmando ser o maior sucesso do genero em So Paulo, uma das melhores revistas do Brasil, oferece extraordinrias vantagens para anuncios e reclames que visem especialmente esta capital, todo o interior de So Paulo e o sul de Minas, onde se concentra a sua maior circulao. (A CIGARRA, 06/07/1915). O desenvolvimento da propaganda passa a se constituir em uma das principais foras de questionamento da cultura letrada tradicional. Como aponta Willie Bolle (1991, p. 143), atravs da propaganda, o olhar livresco da cultura letrada cruza com o olhar formado na escola da rua. Ento embrionria e experimental, a nascente indstria publicitria configura-se como uma poderosa alavanca no processo de popularizao da imprensa no perodo. Os anncios e reclames passam a constituir parte caracterstica e importante de um peridico de sucesso. Esse movimento progressivo de articulao da propaganda nas publicaes pode ser percebido inclusive pela evoluo geral da diagramao das diferentes folhas e revistas. A anlise das folhas domingueiras da primeira dcada revela a forma ainda ambgua de incorporao dos anncios aos outros contedos das publicaes. A diagramao dessas publicaes geralmente obedece a uma rgida separao entre os espaos destinados aos reclames e s matrias do corpo editorial. Aparecendo mais frequentemente nas pginas anteriores folha de rosto interna e nas ltimas pginas, mas algumas vezes tambm no meio da publicao, em pginas separadas, os anncios compem um corpo estranho ao projeto geral da revista, como se fosse sujar sua parte literria. Publicaes pioneiras, como A Arara, em 1905, vo perdendo o pudor frente propaganda e passam a inserir os anncios nas entrelinhas, dispostos entre uma e outra matria, cada vez mais confundidos aos demais contedos das publicaes. As novas revistas de variedades da dcada de 1920, alm de inovarem quanto a essa prtica de separao rgida entre reclames e matrias editoriais, firmam algumas outras prticas pioneiras de marketing. As revistas de variedades, alm de preservarem anncios e reclames misturados aos contedos, inauguram a prtica de fazer reportagens, muito bem cuidadas, com textos srios e fotografias chamativas, sobre estabelecimentos comerciais e industriais da capital ou do interior. A, as qualidades dos servios e das instalaes de uma nova confeitaria, as vantagens do sistema de ensino de um colgio tradicional, a seriedade e cientificidade dos sistemas de produo de um conceituado laboratrio farmacutico, disfarados enquanto matrias do corpo editorial da revista, transformam-se em excelentes peas publicitrias. As distines entre o reclame e a notcia tornam-se cada vez mais sutis. A linguagem do reclame se renova. Atravs da propaganda, a imprensa incorpora temas e formas de dizer pouco afeitos norma culta da cultura letrada tradicional. Agora, no so mais os indicadores de servios e profisses, tampouco os depoimentos de personalidades atestando a eficcia de um produto ou a idoneidade de um estabelecimento, que predominam. Charges, desenhos e fotos passam cada vez mais a compor a mensagem publicitria. Literatos e homens de letras envolvem-se com o novo mercado de reclame. Como identifica Sussekind (1987), a redao de quadrinhas, sonetos, slogans sobre estabelecimentos, muitos dos quais permanecem na memria sobre a vida do perodo, transformaram inmeros literatos em verdadeiros homens-sanduches. A renovao das artes grficas e a percia dos ilustradores encontram no reclame um campo frtil para o exerccio e experimentao. Cuidadosas ilustraes e charges irnicas 97 denunciam a presena de importantes ilustradores e caricaturistas do perodo no espao do reclame. Fotos, cada vez mais fotos, passam a dar visibilidade aos produtos. NOSSOS RECLAMES so assim! PHOTOGRAPHIAS e no PALAVRAS! alardeia o cabealho do anncio da frmula inglesa Wolle de combate calvcie, publicado em 1914 em A Vida Moderna (15/10/1914). A j no mais o prprio interessado quem redige o seu anncio. Nem o pblico, agora difuso, dos jornais, panfletos e cartazes citadinos permitiria propagandas ao p do ouvido. Assiste-se, assim, aos primeiros passos de uma indstria do reclame. Atravs da propaganda, a cidade-mercado penetra a imprensa peridica, denotando a crescente fruio de bens e servios no espao urbano. Afirmando novos valores, renovando as formas de dizer de antigas propostas, dirigindo as demandas e buscando criar desejos e necessidades no grande pblico, a propaganda participa ativamente do processo de formulao das novas linguagens do viver urbano. Nesse momento, caricaturas, fotos, slogans, etc., rompendo com os cdigos e limites das escritas tradicionais, trazem para o interior do texto jornalstico inmeras dimenses da experincia urbana da poca. Novos temperos, bebidas e outras iguarias importadas denunciam a introduo de hbitos e paladares no cardpio da cidade pelas diversas colnias estrangeiras. Por meio de apelos que enfatizam a exclusividade, distino e novidade, elegantes estabelecimentos do comrcio varejista cultivam a recente sofisticao das elites paulistanas. Camisas portuguesas e francesas, chapus ingleses, sedas, porcelanas, cristais e bibelots europeus e artigos ingleses para futebol so alguns exemplos dos itens desse novo repertrio de produtos que cultivam o consumo mais sofisticado dessas elites. A tambm, destacando qualidades como modernidade, simplicidade, fcil manejo e rapidez, esto os reclames das novas mquinas caseiras. Anncios de automveis, gramofones, mquinas de escrever sem teclado ou para viagem, foges a querosene sem cheiro nem fumaa e mquinas fotogrficas prometem modernizar e simplificar a vida cotidiana dos habitantes da cidade. O povo e o popular comeam a aparecer como personagens e destinatrios dessa linguagem. Prometendo qualidade e preos mdicos, pagamento a prestao, estabelecimentos que se autodenominam Casa Popular ou Bazar do Povo investem na popularizao do consumo. Atravs de vistosos reclames de meia pgina a pgina inteira, emprendimentos dos mais variados gneros buscam incentivar a adoo de novas prticas de consumo, inspiradas em tcnicas de vendas do comrcio yankee, como a venda por catlogos, as liquidaes e a formao de clubes cooperativos, que eram uma espcie de grupos de consrcio de ento. Na segunda dcada do sculo XX, nas revistas de variedades, encontram-se anncios vistosos como o dos Clubs Mistos Cooperativos, organizados pela companhia Boaventura B. Vidal, que prometem resolver o complicado problema da carestia de vida e garantir, atravs de razoveis prestaes semanais dos grupos de compra, a posse de produtos que vo desde mquinas de escrever e bicicletas, pianos e conjuntos de moblia para sala de refeies, at um possante txi. (A VIDA MODERNA, 04/09/1913). Por meio dos reclames, empresas cinematogrficas, penses, botequins e hotis, confeitarias e casas de esportes e diverses proclamam sua adeso aos novos hbitos mundanos e cosmopolitas da cidade. Assim, j em 1903, a Penso Paulista, alm de oferecer presteza e asseio no seu servio brasileira e francesa, destaca em negrito o fato de funcionar at meia-noite. Na mesma poca, o botequim chic Chop Delmonico, oferecendo co- 98 locar disposio de sua clientela um variado sortimento de fine liquors, wine, beer, adverte que ali serve-se lunch a qualquer hora do dia. (A VIDA PAULISTA, 27/10/1913). Na segunda dcada, o reclame do Hotel Terrao destaca, alm de profusa iluminao, a luz eltrica do estabelecimento, o fato de suas confeitaria e charutaria permanecerem abertas at adiantada hora da noite. Assim tambm O Skating Palace, Companhia de Esportes e Atraes, que oferece como seu maior chamariz a maior pista da Amrica do Sul e promete aos seus frequentadores, alm das costumeiras sees de matine da tarde, deslumbrantes surpresas todas as noites. Nos anos 1920, sinalizando as origens dos processos de constituio da imprensa enquanto um meio de comunicao de massa no Brasil, a propaganda torna-se elemento essencial, no s da sustentao financeira mas tambm da prpria conformao editorial de um peridico de sucesso. Nas bem sucedidas revistas de variedades da segunda dcada, os reclames ganham espao crescente, passando geralmente a responder por mais de 30% dos contedos editados. A grande imprensa diria tambm encontra nessa nascente indstria do reclame sua principal via de sustentao. Assim, um artigo publicado no Almanaque dO Estado de So Paulo para o ano de 1916 (1917, p. 31-47) informa que, se at a primeira dcada o jornal tinha na venda por assinaturas seu principal mecanismo de funcionamento, ento, graas a adoo de agressivas tcnicas europias e yankees os anncios j respondiam pela maior parte de sua renda. As revistas modernistas dos anos 1920 incluiro entre os seus desafios estticos a renovao da linguagem publicitria. At alguns jornais da imprensa operria, antes totalmente refratrios ao processo de mercantilizao da imprensa, passam a incluir uns raros anncios ou usar a linguagem do reclame para destacar anncios, convocaes, etc. A introduo e afirmao da linguagem publicitria enquanto dimenso fundamental da constituio das culturas de massa desloca o campo de tenses da luta cultural no perodo, trazendo inmeros desafios tanto para as normas cultas da cultura impressa das elites como para a norma operria dos jornais das correntes revolucionrias do movimento operrio. Os desdobramentos desse processo, objeto de importantes estudos sobre o impacto da cultura de massas nas relaes culturais contemporneas, abrem um campo extremamente relevante no que diz respeito compreenso do papel da imprensa nos processos de dominao cultural na contemporaneidade. (HOGGART,1992; BOSI, 1993). Aqui, j comeamos a nos distanciar daquele momento inicial de experimentao e autonomia que caracterizava a imprensa tipogrfica da virada do sculo. As relaes entre a publicidade e a imprensa tornam-se orgnicas e, como acentua Sodr (1977, p. 315), caminha-se para um novo tempo, onde seria muito mais fcil comprar um jornal do que fundar um jornal: e ainda mais prtico comprar a opinio do jornal do que comprar o jornal. 99 9. A IMPRENSA E A MENTALIDADE DO POVO Olhe o caso daquele tipgrafo. Era o melhor empregado da tipografia. Mas sempre que havia greve, ia-se ver, era ele quem imprimia e espalhava os boletins. a tal meia instruo. Um tipgrafo considera-se intelectual. Fazer propaganda socialista! Mas que absurdo! So Paulo Naquele Tempo. Jorge Americano. Campo privilegiado de formulao, articulao e expresso dos modos de pensar das elites paulistanas, a cultura letrada, ao projetar-se sobre a cidade em transformao e, principalmente, sobre seus terrenos populares, expe-se a inmeros embates e desafios. Indagado em sua pluralidade, o conjunto de publicaes aqui analisado indica que o processo de expanso da cultura impressa sobre territrios da oralidade no constitui estrada de mo nica. Valorizada na prtica social dos diversos grupos, construindo-se enquanto um importante veculo de formulao e difuso dos imaginrios sociais no perodo, no seu fazer-se a imprensa constitui um campo de disputa extremamente dinmico de diferentes projetos sociais. Na reflexo letrada daquele perodo, a imprensa comea a ser entendida no s como instrumento de articulao e discusso das posies e interesses das elites mas tambm, e principalmente, como veculo de formao cultural e moral do povo. No campo popular, as vanguardas do movimento operrio concebem a imprensa como instrumento fundamental de propaganda das ideias revolucionrias e de educao do proletariado. Nas pginas dessa imprensa, o povo e o popular articulam-se tanto nos discursos dos setores dominantes sobre o carter da nacionalidade, sobre a higienizao do espao urbano, sobre a instruo pblica como nos de denncia sobre as condies de vida e trabalho e de agitao e propaganda dos projetos revolucionrios do movimento operrio. Nesses discursos, projetos e iniciativas para proteger a infncia desvalida, para assistir a me trabalhadora, para educar os pobres, para formar a massa trabalhadora, assumindo a qualificao de popular, do visibilidade s posies das elites paulistanas. Intenes como as de representar os interesses do povo, educar e conscientizar os trabalhadores, desenvolver a propaganda da revoluo inserem nesse campo de disputa a atuante imprensa operria do perodo. 100 Embora esparsas, vrias indicaes fornecidas pelas publicaes demonstram que os diferentes grupos sentiram os avanos da imprensa sobre os imaginrios do povo: A imprensa burguesa exerce, sem dvida, uma grande influncia sobre o povo. Ela poderia ser um importante fator na cultura e na formao de sua mentalidade. Mas como est mercantilizada, como o seu fim exclusivamente o lucro, a sua influncia no pode ser mais prejudicial e execrvel. (A VOZ DO TRABALHADOR, 15/07/1908). Trecho de um artigo dA Voz do Trabalhador, publicado sob o ttulo A imprensa e a mentalidade popular, a citao acima parece sugestiva para orientar a discusso sobre a questo. Em princpio, tal avaliao, representativa das posies da imprensa anarquista-libertria sobre a imprensa burguesa, ao exprimir a concepo de importantes setores do movimento operrio do perodo, delimita a imprensa enquanto importante campo da luta social. No primeiro plano, sinaliza que o processo de conquista e expanso da cultura impressa sobre terrenos sociais anteriormente alijados dos circuitos da cultura letrada no se configurou enquanto terreno da mera homogeneizao cultural. Assim, tambm aponta para a crescente articulao do periodismo ao mercado e s prticas mercantis. Por outro lado, identificando a mentalidade popular enquanto alvo e objeto da disputa, formula a questo central na discusso sobre a importncia da imprensa na formao do povo. Uma primeira leitura dos programas das diferentes publicaes, ento uma irresistvel manifestao do jornalismo sempre que se inicia uma nova publicao, confirma tal avaliao. Formulados pelas elites letradas das redaes dos importantes dirios paulistanos, por editores de jornais e revistas ligados a instituies, a grupos acadmicos e a iniciativas assistencialistas dos setores dominantes e tambm pelas vanguardas das diferentes correntes do movimento operrio da poca, slogans como difundir as novas ideias de civilidade e progresso, difundir as luzes nas classes menos favorecidas de nossa sociedade, dar voz ao proletariado, propagandear as ideias emancipadoras da humanidade traduzem algumas das direes e intenes que animam os movimentos mais explcitos de conteno e resistncia no interior do processo de popularizao da imprensa peridica. Elaboraes mais vagas e difusas que exprimem as intenes de cultivar no povo o gosto pela leitura, preparar a juventude para futuras lutas, ser a escola onde entram todos aqueles que sabem soletrar, instruir a mulher paulista e distrair o povo situam nesse campo de disputa um nmero significativo de grupos sociais que se articulam em torno de pequenos jornais literrios, jornais e revistas ligados aos grmios estudantis e outras associaes culturais, publicaes femininas e folhas domingueiras de entretenimento. Irreverentes e desrespeitosas, as intenes traduzidas em promessas de implicar com todos e no ofender a ningum, no cumprir nenhum objetivo como o de ser alavanca do progresso ou defensor do direito e da verdade, no ter programa e atacar os privilgios da imprensa denunciam a presena crtica e abusada na arena das disputas jornalsticas dos jornais annimos de humor. Sem dvida, o processo de disputa em torno da mentalidade popular mostra-se de forma mais explcita no embate entre a chamada imprensa burguesa que nas referncias 101 anarquistas inclui no somente importantes dirios mas tambm revistas de variedades de maior circulao e a imprensa operria. Na discusso de inmeras questes tratadas pelos jornais dirios, nas folhas e revistas das instituies ligadas instruo ou assistncia aos desvalidos, e com menor intensidade nas grandes revistas de variedades, a formao moral e intelectual do povo frequentemente emerge como tema e/ou soluo para os problemas da sociedade paulista. Avaliaes como a do articulista dO Estado de So Paulo, em 1901, num artigo que busca fazer um balano do sculo XIX e das perspectivas do XX, de que no precisamos s de enxadas, mas sim de cabeas [...] Precisamos educar, precisamos revolucionar a nossa massa popular, articulam-se nos discursos sobre a modernizao e o progresso. (O ESTADO DE SO PAULO, 25/04/1901). A escola e a imprensa aparecem como os veculos privilegiados para a formao do povo. Assim, a folha feminina lbum das Meninas vem a pblico em 1898 prometendo ser um remdio eficaz contra o estelionamento moral que nos vai produzindo a literatura dos nossos dias. A preocupao de instruir as classes desvalidas e arrancar da ignorncia e degradao as crianas arrastadas pelos maus exemplos parte de diagnsticos de que se vivia uma poca em que a falta de educao e o anarquismo parece arrastar as massas inferiores a perigosas paragens. (A VOZ MATERNAL, 01/02/1904). Formar e reforar valores que constitussem uma barreira para que esta caravana de visionrios se converta de repente em ameaa, em uma legio de demnios destruidores coloca-se como uma das tarefas primordiais das elites para o sculo que se abria. (O ESTADO DE SO PAULO, 07/01/1901). Alis, interessante assinalar que na srie de extensos artigos de vrios representantes das elites paulistanas, publicada pelo jornal O Estado de So Paulo nos primeiros meses de 1901 a qual tinha como objetivo fazer um balano das conquistas e dos problemas legados pelo sculo XIX e das perspectivas para o sculo XX , o anarquismo aparece como uma das grandes ameaas ao progresso do pas e a educao massiva como um dos possveis antdotos para seu desenvolvimento. Embora a imprensa operria raramente figure como tema explcito na grande imprensa, a irritao e perseguio aos fazedores de boletins, o intenso combate s propostas das lideranas nos momentos de greve e a desqualificao intelectual das lideranas indicam as preocupaes dos setores dominantes com a penetrao das mensagens da imprensa operria. Denunciadas pelos jornais operrios, as alianas entre os patres, a polcia e a imprensa, principalmente durante os momentos de maior efervescncia do movimento operrio, traduzem-se em intensas campanhas que visam estigmatizar as lideranas enquanto baderneiros e perturbadores da ordem e o anarquismo como ideologia extica, importada e estranha ndole pacfica do povo brasileiro. No dizer do articulista dA Voz do Trabalhador (01/01/1913), nessas ocasies, a imprensa burguesa, este vasto balco onde se mercadeja em grosso a conscincia humana, em longos artigos, inados de adjetivao custosa, procurando convencer os operrios ordeiros a abandonarem as lutas, zurze sempre aqueles que, pela sua qualidade de agitadores mais se salientam. Tais campanhas tentam responder e neutralizar as direes que a imprensa operria e os boletins e comunicados de greve buscam imprimir aos movimentos. interessante destacar que, embora mais raramente que nos grandes dirios, esse 102 combate ao anarquismo articula tambm contedos polticos de algumas revistas literrias do final do sculo XIX, onde charges, artigos e crnicas constroem imagens sobre a ameaa estrangeira do anarquismo pacata e ordeira cidade. (A PAULICIA, 20/03/1896). Foi, sem dvida, nas vanguardas letradas do movimento operrio, principalmente das correntes anarquistas, que o movimento de penetrao da imprensa burguesa sobre os terrenos populares encontrou seu principal crtico e opositor. A viso da imprensa como instrumento pedaggico importante e a concepo de que o embate ideolgico era fundamental e que seu espao privilegiado era a imprensa levaram parte significativa dessa intelectualidade operria a dispender muito de seu tempo e energia na produo e difuso de seus jornais. A atuao desmistificadora da grande imprensa e outras publicaes consideradas perniciosas conscincia dos trabalhadores tida como um momento importante da militncia revolucionria. A anlise dos contedos de jornais como A Voz do Trabalhador e O Trabalhador Grfico sugere que as matrias sobre a grande imprensa ou sobre o tratamento dado pela grande imprensa a temas ou aos acontecimentos da conjuntura assumem grande importncia, sendo superadas somente pelas matrias doutrinrias de propaganda das ideias anarquistas, de denncias sobre as condies de vida e de divulgao das inmeras atividades associativas. Durante as greves e outras lutas dos trabalhadores, diferentes jornais operrios procuram criticar as informaes e avaliaes dos grandes jornais, dando combate s verses divulgadas sobre os movimentos, atravs de uma linguagem na qual os jornalistas dos dirios so designados com expresses como rameiras da literatura ou fetichistas da grande imprensa. Nas pocas de campanhas eleitorais, vrios desses jornais tambm intensificam seu combate imprensa burguesa, buscando desmistificar o sistema representativo, os candidatos promovidos por este ou aquele dirio e, principalmente, as promessas de campanha. Denunciada mais fortemente pela imprensa anarquista, a influncia da imprensa burguesa na mentalidade do povo tambm percebida e apontada por vrios outros jornais. Embora o tom de grande parte das folhas literrias e domingueiras seja bastante subserviente aos dignos representantes de nossa imprensa diria, via de regra encontram-se tambm pequenos jornais, como A Farpa (1900), A Folha do Braz (1898/1901), O Parafuso (1915-1922), que algumas vezes, em inflamados artigos de primeira pgina e, na maioria das oportunidades, atravs de difusas referncias satricas, buscam alertar seus leitores para os privilgios da imprensa, seu oficialismo e as mentiras e embustes divulgados por diferentes rgos do periodismo dirio. Tambm nesses jornais, mas principalmente nos de humor, a figura dos jornalistas afrontada e ridicularizada com imagens que os definem como doutores da enganao, desocupado que estudou para fazer do torto direito e do direito torto, etc. Tais embates em torno dos imaginrios do povo, tendo como objetivos mais explcitos a poltica e a chamada questo social, assumem tambm relevncia quando se trata dos costumes e da formao moral. Aqui, o alvo principal passa a ser a imprensa mundana e de entretenimento. O deslocamento em direo a variedades e contedos mais ligeiros e mundanos recebido com crticas severas pelas publicaes mais srias e bem comportadas como a Arcdia, rgo da associao de estudantes de Direito da Arcdia Acadmica, que investe contra 103 [...] o povo burgus, que s se farta com o escndalo, o espalhafato, a troa, deste povo miseramente ignorante, que apenas anima com seu acolhimento paternal os rgos escandalosos, espalhafatosos, trocistas. Mas no estremece, no se agita, nem sente o mnimo interesse, quando sai estampa uma revista literariamente pacata, sem visos da poltica convencionada e inebriante [...] um povo que s se apinha nos teatros para aplaudir os vaudevilles, as pochades barulhentas e libertinas, mas que foge das peas mimosas e delicadas. (ARCDIA, 11/08/1901). Nessa direo, interessante assinalar que, muitas vezes, embora construda com discursos e argumentos diferenciados, a crtica dos jornais srios da imprensa burguesa recai sobre os mesmos alvos da imprensa operria. A articulao das publicaes ao mundanismo e ao entretenimento passageiro, o envolvimento e incentivo aos vcios populares (jogo do bicho) e s prticas ligeiras (como concursos e passatempos), a propaganda das orgias de momo, as matrias sensacionalistas sobre crimes de sangue, roubos espetaculares e outros acontecimentos exticos e inusitados, e mesmo as ingnuas fofocas sobre o cotidiano amoroso das populaes dos bairros e da cidade so considerados como indecorosos, perniciosos e imprprios para a formao do povo. Assim, as ligaes mais abertas das folhas e revistas domingueiras com o mercado e com a propaganda, criticadas de forma mais incisiva pela imprensa operria, tambm so assimiladas com desconforto e pudor pelos representantes da imprensa mais sria. Os reclamos da imprensa operria a respeito da influncia desse tipo de explorao jornalstica sobre os hbitos e conscincia dos operrios simples, alm de consistirem em importantes pistas sobre a penetrao desse tipo de publicao nos ambientes populares, suscitam questes sobre a natureza das tenses e desafios experimentados pelo projeto cultural anarquista no espao popular naquele momento. O desenvolvimento da pesquisa em relao s posies/tenses do projeto libertrio frente natureza revolucionria das novas linguagens, enquanto articuladoras dos sentidos da vida urbana, talvez nos ajude a aprofundar a compreenso da atitude anarquista que, segundo Foot Hardman (1983, p. 83), basicamente contraditria, oscilando entre o puritanismo ideolgico e a necessidade de cativar o interesse popular. Alis, a mudana de padro das propostas culturais libertrias no final dos anos 1910, da festa propaganda, mais doutrinria, classista e estreita culturalmente, para os grandes festivais proletrios, muito mais populares e pblicos que os anteriores, apontada por esse mesmo autor, parece indicar um processo em que o projeto anarquista progressivamente contaminado pelas novas formas ldicas de sociabilidade urbana e passa de modo crescente a dialogar com a popularizao das linguagens como a propaganda, a fotografia, o cinema, etc. O dilogo entre as diferentes publicaes delimita um campo de tenses em torno no somente de contedos mas tambm das linguagens ou maneiras de dizer. De formas mais ou menos explcitas, os diferentes grupos produtores envolvem-se num processo de disputa que coloca em questo no s o que dizer, mas como dizer. A disseminao da escrita via imprensa, atravs de espaos e prticas relacionados vivncia das classes populares, parece desafiar e questionar a prpria norma culta e erudita da linguagem escrita das elites dominantes. No h dvida de que uma primeira leitura desses materiais pe em destaque o processo de absoro/contaminao do tom sisudo e empolado, moldado no parnasianismo, 104 tpico da linguagem acadmica, experimentado por diferentes publicaes no perodo. Sonetos de mesma forma e crnicas pomposas so elementos correntes na linguagem dos grandes dirios, das folhas e revistas domingueiras e at mesmo da imprensa operria. Nesse sentido, concordo com Foot Hardman quando argumenta que a importncia atribuda pelos militantes do movimento operrio palavra escrita e suas dificuldades frente multiplicidade lingustica da classe levou, contraditoriamente, a nivel do discurso escrito (imprensa operria), assimilao do parnasianismo, que era o tom e coro dominantes do universo da Repblica bacharelesca e pr-modernista. (HARDMAN, 1983, p. 48). A projeo da norma culta da escrita sobre as formas de expresso das camadas populares parece encontrar na difuso da imprensa peridica e dos processos de escolarizao um caminho privilegiado de efetivao.1 A escrita correta e estilosa um objetivo que perpassa a construo da linguagem dos mais diferentes peridicos, inclusive os da imprensa operria. As discusses sobre as formas corretas da escrita, os estilos e as possveis reformas ortogrficas da lngua so temas que mobilizam tanto eminentes intelectuais do perodo como alguns jornais da imprensa operria. A crtica dos novos companheiros de imprensa, seo obrigatria em quase todas as publicaes da poca, tem como um de seus elementos fundamentais a apreciao sobre a obedincia s normas corretas da linguagem. Percorrendo a correspondncia de Lobato com Godofredo Rangel, encontram-se inmeras cartas com extensas discusses sobre a linguagem de diferentes escritores, as formas corretas e incorretas da escrita e as propostas de reformas ortogrficas que surgem no perodo. As reaes de Lobato s reformas propostas pelas novas gramticas portuguesas, que buscam a simplificao da escrita e sua maior aproximao da oralidade, embora formuladas de forma vivaz e encantadora, revelam suas tendncias conservadoras e elitistas na matria. Um dos trechos mais interessantes em que o autor assim se posiciona quando defende a permanncia do h em palavras como esttica. Lobato (1944, p. 224) argumenta: Acho razoabilissimo que se escreva, por exemplo, esttica; mas acho fidalgo, distinto, cheiroso, escreve-la antiga, com aquele intil h a flanar no meio da palavra. Tenho paixo pelo h. D-me idia duma letra nobre, de muita raa, com av baro rapinante nas Cruzadas [...]. No entanto, a polmica, mantida com a Academia Brasileira de Letras sobre o tema da ortografia e gerada por figuras como Neno Vasco e Elsio de Carvalho , o ponto mais revelador das tenses em torno da definio da norma culta nesses dilogos mantidos entre os jornais e intelectuais de prestgio. Tal polmica aparece como sintoma da natureza multifacetada das relaes entre as elites dominantes e alguns dos projetos populares no perodo. Se a presena de muitos desses lderes operrios no prprio terreno das elites, assumindo as discusses e temas da cultura letrada dominante, indica um processo de assimilao/conteno dos projetos culturais das lideranas operrias no campo do poder dominante, a modernidade e atualidade de suas crticas e propostas assinalam a fora alternativa e autnoma de tais projetos. 1 Acompanhando as discusses da dcada de 1980 sobre a reformulao dos currculos de portugus das escolas pblicas em So Paulo, possvel perceber como essa estratgia de impor a norma culta da escrita sobre as formas de expresso das camadas populares encontra-se extremamente viva nas formas de relacionamento cultural em nossa sociedade. Naquelas discusses, uma das maiores dificuldades parece ter sido a de convencer mestres de portugus de que o processo de alfabetizao e de aprendizado da norma culta deveria respeitar e acolher as formas de expresso, consideradas incorretas, que seus alunos traziam de seus ambientes sociais. (Relatos de reunies realizadas na Secretaria de Educao do Estado de So Paulo quando da reformulao das propostas curriculares em 1985). 105 Dessa forma, interessante assinalar que muitas das propostas de Neno Vasco e Elsio de Carvalho, veiculadas principalmente pelas pginas de O Amigo do Povo e A Terra Livre, tendo como base as vantagens da simplificao ortogrfica e da aproximao das formas escrita e oral no desenvolvimento dos processos de educao popular (retirada de letras suprfluas e dobradas, supresso do w, k e y, escrita das palavras de acordo com o som), adotadas primeiro na escrita de muitos jornais operrios, so logo assimiladas pela Academia e por importantes compndios gramaticais da poca.2 Mas no foi somente em torno da definio da norma culta que as disputas se desenvolveram. Um questionamento um pouco mais detalhado dos materiais da imprensa e dos diferentes relatos de poca revela que, em vrios momentos, a norma culta foi transgredida e outros falares menos corretos e cultos invadiram o campo da cultura letrada atravs da imprensa peridica. Na maioria das vezes de forma proposital, principalmente em efmeros e annimos jornais de humor, o uso do portugus incorreto seja atravs de erros gramaticais, seja na forma de dialeto caipira, de termos pesados da gria das ruas, de referncias desrespeitosas aos costumes aparece como estratgia de crtica linguagem pomposa e sisuda predominante na imprensa. Pontuais, porm bastante reveladoras dessas transgresses s normas cultas, so as avaliaes de jornalistas e intelectuais contemporneos sobre a escrita de diferentes publicaes. Figuras como Lobato e Oswald de Andrade, vez por outra, do vazo a uma crtica bastante elitista a essas manifestaes, identificando reprteres ignorantes e panfletrios, jornalistas analfabetos e revisores burros que nunca conseguem acertar com a ortografia. Com relao a Oswald, interessante destacar sua atitude em referncia a Benedito de Andrade, que adotaria o nome jornalstico de Babi de Andrade, durante muito tempo importante colaborador de O Pirralho, assumindo inclusive sua direo durante a ausncia do proprietrio, e que depois editou com Rubens do Amaral o semanrio O Parafuso. Tendo se desentendido com Babi, em torno da disputa pelO Pirralho, em suas memrias, Oswald, dando vazo aos preconceitos elitistas dos setores letrados a intromisses de gente de fora num campo considerado seu, refere-se a Benedito de Andrade com expresses como o mulato Babi ou o panfletrio analfabeto.3 Nessa mesma direo, parece tambm sintomtico que a greve de 1906 s aparea no divulgado relato de Jorge Americano sobre a vida paulistana no perodo atravs de um dilogo que aponta a rebeldia de um tipgrafo que era o melhor empregado da tipografia, mas sempre que havia greve, imprimia e espalhava boletins. Uma das vozes introduzidas nesse dilogo, argumentando que essa situao se deve a tal da meia instruo, onde um tipgrafo considera-se intelectual e comete o absurdo de fazer propaganda socialista!, parece exemplar na medida em que indica no s os limites da tolerncia dos setores dominantes presena das classes subalternas no campo letrado como aponta possveis direes das resistncias que a se instituem. (AMERICANO, 1957, p. 374-375). 2 Minha ateno para essa polmica sobre as reformas ortogrficas na poca foi despertada pelas colocaes sobre o tema de FERREIRA (1978, p. 48-53) e HARDMAN (1983, p. 48). No que diz respeito imprensa operria, ver especialmente O Amigo do Povo, de 03/09/1904, e A Terra Livre, de 18/08/1907. 3 Ver LOBATO (1944, especialmente p. 176, 308, 323 e 377) e tambm ANDRADE (1990, p. 64-65 e 82-83). Com relao revista O Parafuso, importante indicar que, afirmando-se enquanto uma publicao de sucesso da segunda dcada do sculo XX, manter-se-ia como um espao dissidente na imprensa de variedades, construindo um espao muito mais popular e irreverente do que outras revistas bem sucedidas do perodo, como A Vida Moderna e A Cigarra. 106 O prprio Affonso de Freitas (1929, p. 815), em sua obra de compilao da imprensa paulistana at o ano de 1914, algumas vezes bastante irritado, identifica o aparecimento de jornalecos escritos no pior portugues e na gria das ruas, apontando ainda que felizmente para a gramtica e para os bons costumes tais publicaes geralmente tiveram vida efmera. Alis, no que diz respeito percepo desse autor sobre as relaes entre escrita e oralidade, interessante apontar que, se em seus estudos sobre a imprensa exige e avalia com o rigor da norma culta, nos textos sobre o folclore valoriza como critrio de criatividade e autenticidade a proximidade com a tradio oral. Em seu trabalho Tradies e Reminiscncias Paulistanas (1955), Freitas busca resgatar o esprito e a ndole do povo paulista justamente nas tradies orais das cantigas, dos falares das ruas, das grias, dos folguedos e das quadrinhas populares, as quais tanto o incomodam quando, assimiladas, reelaboradas ou reinventadas pela experincia de grupos sociais urbanos, intrometem-se no universo da norma culta atravs da imprensa. No que se refere reflexo sobre as relaes entre as culturas dominantes e as culturas populares no perodo aqui estudado, seria tambm interessante aprofundar a discusso a propsito da percepo das relaes entre a norma culta e a popular, de intelectuais como Affonso de Freitas e Amadeu Amaral, que ao mesmo tempo que ocuparam importantes postos na imprensa paulistana e na cultura letrada em geral, animam e desenvolvem estudos sobre folclore e as tradies orais em So Paulo. (FREITAS, 1955). Deter o controle dos desdobramentos dos processos de letramento do povo, impedindo que o domnio dos cdigos letrados se articulasse construo e difuso de projetos anticapitalistas; enfrentar as investidas de projetos libertrios representadas pela imprensa operria e por outras iniciativas do movimento, como as Escolas Livres, foram desafios mais explcitos colocados para elites dominantes no interior do prprio campo letrado. No entanto, a anlise desses materiais tambm indica que outras batalhas mais sutis e difusas foram travadas no campo da formao moral do povo. Atravs de sua articulao s formas ldicas da experincia social, da maior aproximao com as vivncias cotidianas da cidade, da linguagem mais afeita ao falar das ruas, a imprensa cultural e de entretenimento constituiu um campo de demandas que punha em questo as articulaes do viver em cidade ao prazer e diverso. Nas suas pginas, misturados aos novos modos de conceber a cidade propostos pelo mundanismo cosmopolita, temas como o direito festa, ao cinema, ao parque, s prticas esportivas, ao acesso a espaos e prticas da cultura letrada e artstica emergem como demandas que se colocam tambm no campo social de trabalhadores e outros setores populares. As tenses entre essas demandas e os projetos moralizadores dos setores dominantes, por um lado, e o projeto revolucionrio das vanguardas anarquistas, por outro, colocam-se como tema extremanente promissor para a reflexo sobre as relaes culturais no perodo. A leitura dos diferentes peridicos sugere inmeros temas que articulam essa problemtica. Assim, o contato com as publicaes editadas por senhoras das elites paulistanas, como O lbum das Meninas e A Voz Maternal, indica inmeras direes de pesquisa sobre as concepes e prticas que orientavam projetos de moralizao dos pobres. A mesma imprensa feminina, exemplificada em ttulos como O Chromo e A Mensageira, ao pugnar por um novo lugar na sociedade e uma nova educao para a mulher, inclusive a mulher pobre, mostra outras direes e tenses daquele processo. Indagada, principalmente, sobre a natureza das lutas e projetos das vanguardas operrias referentes ao universo do trabalho, 107 a imprensa operria parece ainda ter muito a contar sobre os embates travados no campo da moral e da cultura. Assim tambm, o questionamento mais detalhado de algumas das revistas domingueiras, como A Paulicia e Arara, de jornaizinhos de bairro como A Folha do Braz, de pequenas folhas de humor, da imprensa tnica, revelando diferentes projetos, prticas e demandas de diferentes grupos sociais, sugere inmeros temas sobre esse processo de disputa. No mbito deste trabalho possvel apontar que, como no estudo de Zemon Davis (1990, p. 157), que aborda a expanso da cultura impressa na Frana do sculo XVI, a pesquisa e reflexo sobre a imprensa tipogrfica em So Paulo no final do sculo XIX e incio do sculo XX indica que a palavra impressa entrou na vida popular criando novas redes de comunicao, abrindo novas opes para o povo e tambm oferecendo novas formas de control-lo. Mais ainda, a reflexo sobre o processo de disputa no campo letrado caracteriza um movimento de avano do campo popular. No que diz respeito ao processo mais amplo de formao da metrpole e das culturas urbanas, o movimento de popularizao da imprensa indica que os setores populares estavam presentes e imprimiram vrios dos sentidos do processo de aburguesamento da vida cultural da cidade de So Paulo naquele perodo. 108 109 CONCLUSES: CULTURA LETRADA MODERNIZAO x AUTONOMIA O boom da pequena imprensa cultural e de variedades paulistana da virada do sculo XIX para o XX foi um fenmeno de curta durao.1 Como em outros centros urbanos do pas na mesma poca, o crescimento tornou-se possvel atravs da articulao das formas mais artesanais da cultura impressa, ento disponveis, aos processos sociais que constituam a metrpole. Formulando-se rapidamente segundo as necessidades e foras do mercado, a cidade se transforma e transforma sua imprensa. Como na cidade, onde a modernidade se anuncia atravs de uma srie de novas tcnicas e artefatos mecnicos, com as novas mquinas de escrever, impressoras e linotipos, a letra de forma acelera seu ritmo. A cada dia mais bonitas e aperfeioadas, as vinhetas de caixa, em sua maioria de modelo francs, que embelezavam os textos das folhas e revistas, ento peas fundamentais das caixas-tipo usadas na composio manual pelos tipgrafos, comeam a dar lugar aos clichs na base da zincografia, que permitiam a reproduo de desenhos documentais como se fora fotografia. A reportagem grfica e os ilustradores ganham cada vez mais espao na imprensa e os tipgrafos perdem importncia no desenho esttico das publicaes. Pouco tempo mais tarde, a fotografia e o fotojornalismo se imporiam como linguagem visual das modernas revistas de variedades. Na metade da primeira dcada, a importao das modernas mquinas de compor, as linotipos, transformam profundamente o trabalho de composio e a tipografia projetada na era moderna. No campo da impresso, as grandes novidades so as mquinas rotativas Marinoni, que assumem o lugar dos velhos prelos das tipografias e que, agora, por elas mesmas, imprimem, cortam e dobram os exemplares dos jornais aos milheiros. (BAHIA, 1990, p. 124). 1 A anlise quantitativa das publicaes peridicas identificadas atravs do j citado levantamento realizado por Affonso de Freitas at o ano de 1914 indica um extraordinrio aumento do nmero de publicaes na ltima dcada do sculo XIX bem como um significativo declnio a partir do final da primeira dcada do sculo XX. 110 Analisando esse processo de modernizao, estudos clssicos sobre a histria da imprensa no Brasil, como os de Nelson Werneck Sodr e Juarez Bahia, tm caracterizado a virada do sculo como uma transio entre o jornalismo artesanal e a imprensa empresarial. Nesses estudos, a nfase da explicao histrica recai, quase que exclusivamente, na anlise das transformaes tcnicas dos processos produtivos e das formas organizacionais das empresas jornalsticas. O peso da pesquisa pioneira e cuidadosa de Sodr, a valorizao do espao da grande imprensa e a pouca ateno destinada aos processos de formao/expanso da imprensa operria e outros gneros de publicaes parecem se impor na maioria dos estudos sobre a questo. Assim, em passagem amplamente citada pelos estudos sobre a imprensa, Sodr (1977, p. 295-315) prope que [...] a passagem do sculo assinala, no Brasil, a transio da pequena para a grande imprensa. Os pequenos jornais, de estrutura simples, as folhas tipogrficas, cedem lugar s empresas jornalsticas, com estrutura especfica, dotadas de equipamento grfico necessrio ao exerccio de sua funo [...] [e completa] [...] o jornal ser, da por diante, empresa capitalista, de maior ou menor porte. O jornal como empreendimento individual, como aventura isolada, desaparece nas grandes cidades. verdade que, quando se privilegia o espao da grande imprensa, tambm em So Paulo, a pesquisa indica que as primeiras dcadas do sculo assistiram ao processo de formao e/ou modernizao das empresas jornalsticas. J na virada do sculo, em alguns dos jornais da imprensa diria, inmeras inovaes tcnicas na composio, impresso e circulao comeam a se impor. No espao de trs dcadas, os grandes dirios paulistas assumiriam novas feies e caractersticas. As empresas jornalsticas comeam a se estruturar tanto financeira como industrialmente. Separa-se propriedade de direo editorial, formam-se as sociedades annimas e as empresas associadas. No plano de organizao da produo, como coloca Bahia (1990, p. 106), os editores percebem que, associando o ttulo [de um jornal de prestgio] a um estabelecimento grfico, resulta da uma empresa jornalstica industrialmente vivel e economicamente rentvel. A empresa jornalstica recompe suas formas de financiamento, racionaliza custos, introduz inmeras inovaes mecnicas, aprofunda a diviso de trabalho no interior da oficina grfica e cria demanda por novas especializaes profissionais. Descaracterizando-se enquanto empreendimentos individuais, modernizando suas estruturas de financiamento, produo e circulao, articulando-se tambm nascente indstria do reclame, o periodismo empresarial impe-se e diferencia-se de vez das pequenas folhas tipogrficas. No campo do periodismo paulistano, mais uma vez o processo vivido pelo dirio O Estado de So Paulo, inclusive pela sua projeo na memria sobre o tema, fornece pistas sobre o ritmo e os caminhos de tal transformao. Fundado em 1875, com a feio de um dirio tipogrfico A Provncia de So Paulo , O Estado, a partir de 1890, pro- 111 metendo abrir suas pginas s vrias opinies e no ser faccioso, mas antes constituir-se como escola onde entram todos aqueles que sabem soletrar, no espao de pouco mais de trs dcadas transformar-se-ia num dos mais modernos jornais do pas. (BAHIA, 1990, p. 124). Enfrentando sucessivas crises financeiras at o incio do sculo, a partir de 1907, impondo-se palermice e indiferena do povo analfabeto, o dirio, alterando suas estruturas de financiamento, produo e distribuio, firma-se como o mais importante jornal do estado. interessante apontar que at a ltima dcada o jornal continuaria instalado na sua acanhada sede original na Rua da Imperatriz, depois Quinze de Novembro, junto com a livraria de Ablio Marques e o prprio escritrio de negcios de seu diretor, Rangel Pestana. Embora no final da dcada de 1980 o novo dirio j se colocasse na ponta do periodismo paulistano, com uma edio diria de 4 mil exemplares, sua trajetria financeira e comercial nessa fase inicial no foi das mais estveis. Durante os seus primeiros 20 anos de existncia, o jornal experimentou inmeras dificuldades financeiras, enfrentando dficits, emprstimos, falncias de bancos credores, passando por inmeras dissolues e reorganizaes de sua razo social. Permanecendo com uma estrutura grfica e comercial acanhada, semelhante de outros peridicos da imprensa paulistana, o jornal no conseguia deslanchar. A maior parte de sua renda, proveniente ainda de assinaturas, todos os anos apresentava uma grande parcela incobrvel, a venda avulsa era insignificante, os anncios poucos e mal pagos, saam meses seguidos, os problemas de composio e impresso do jornal repetiam-se a cada nmero. s com a Repblica, quando assumido mais decididamente por Jlio de Mesquita, que o dirio comea a se modernizar e assumir as caractersticas de uma empresa de comunicaes. Na ltima dcada do sculo, o jornal se transforma na Companhia Impressora Paulista, adquire a sua primeira mquina Marinoni e um bom motor, monta uma oficina de obras mais moderna, alarga consideravelmente suas instalaes e eleva sua tiragem diria para 7.500 exemplares. Em 1907, a Companhia Impressora d seu grande salto, transformando-se em sociedade annima. Integraliza um capital de 350 contos de ris, compra um prelo rotativo, acaba com a composio manual introduzindo a linotipo, abre agncias em vrias cidades do interior. Sua edio diria, agora com 20 pginas que do espao crescente propaganda, alcana a tiragem de 35 mil exemplares. Em 1912, com o capital j elevado para 3 mil contos de ris, a empresa adquire um grande terreno rua 25 de Maro, onde constri suas novas oficinas grficas, incorpora a seu patrimnio 8 prdios da rua Boa Vista e da Ladeira Porto Geral, encomenda na Europa uma esplendida Marinoni e modernos linotipos, que a colocam entre os mais bem aparelhados jornais do pas. Sua estrutura de financiamento totalmente alterada; agora seriam os reclames e a venda avulsa, portanto o inverso da dcada anterior, os responsveis pela maior parte de sua renda. Segundo informaes de artigo do Almanaque do Estado de So Paulo, tais resultados foram alcanados atravs da adoo de agressivas tcnicas europeias e yankees de conquista de anunciantes. Em 1916, depois de organizadas totalmente suas oficinas grficas, onde funcionava a seo de impresso composta por rotativa, arquivo, seo de obras, esteriotipia plana 112 e curva, gravura, reviso e seo de remessas, onde as mquinas imprimiam endereos diretamente nos jornais, o jornal constri na mesma rua Boa Vista um belssimo teatro indicando que seus sales deveriam ser aproveitados para conferncias, encontros de interesse da comunidade, reunies artsticas e representaes diversas. Como aponta um extenso artigo sobre o grande jornal paulista, publicado nA Vida Moderna, em 1914, tais progressos despertariam o orgulho das elites letradas paulistanas. No que diz respeito expanso do periodismo paulistano e suas articulaes com o crescimento da cidade, interessante assinalar que nesse artigo, aps recuperar o histrico dos progressos do jornal, o articulista, buscando estabelecer a primazia do periodismo paulistano sobre o da capital federal, cita extensamente um artigo insuspeito, publicado num jornal do Rio, onde Paulo Pestana, comparando o crescimento dos principais jornais cariocas ao do Estado, lamenta ser tristemente incontestvel [...] que a massa de ledores [sic] no aumenta ou aumenta quase insensivelmente aqui [no Rio], ao passo que em S. Paulo tem tido aumento vertiginoso. H 30 anos, o Estado tinha 4.000 exemplares de edio; tem agora 35.000. A cidade, por seu lado, tinha 20.000 habitantes e tem hoje 400.000; a provncia de ento olharia com espanto para a populao triplicada de hoje. E a imigrao, em parte, sabia ler; e a instruo pblica, cuidada com grande desvelo, amortece cada vez mais o coeficiente do analfabetismo. (A VIDA MODERNA,12/02/1914). A imprensa diria transforma-se em grande imprensa e alguns dirios de estruturas mais slidas firmam-se enquanto base dos principais conglomerados de comunicao que buscariam estabelecer a hegemonia da palavra impressa no estado. A partir do final da segunda dcada, o grupo dO Estado de So Paulo consolida-se: alm de publicar o dirio matutino de maior vendagem no estado, assume uma edio da tarde, O Estadinho, e lana a Revista do Brasil. Sua seo de obras assume importncia editorial, tornando-se responsvel pela confeco de muitas das publicaes dos mais variados gneros que vm a pblico no perodo. Na percepo de Lobato, O Estado ento, uma curiosa empresa [que] emite galhos, ou rizomas, como certas gramneas.2 Com o surgimento da Folha da Noite em 1921 e da Folha da Manh em 1925, o grupo Folhas lana suas bases. Finalmente, com a fundao do Dirio da Noite em 1925 e do Dirio de So Paulo em 1929, os Dirios Associados estabelecem-se em So Paulo. (TACHNER, 1992, p. 25-51). No entanto, a forte nfase da literatura sobre a histria da imprensa nas transformaes tcnicas da estrutura de produo da imprensa nesse perodo tem ofuscado dimenses importantes desse processo. Para alm das mudanas mais visveis com relao s tcnicas de produo e circulao dos veculos e da organizao e composio dos capitais das empresas, importa tambm destacar as transformaes na natureza das relaes sociais articuladas no e pelo periodismo. 2 Na previso do autor, A Revista do Brasil seria um galho dO Estado que acabaria autnomo, assim como O Estadinho, seu galho travesso e garoto, e tambm O Queixoso. (LOBATO, 1944, p. 301). 113 Primeiro, h que enriquecer a prpria anlise do processo de transformao da grande imprensa buscando examinar as mltiplas tenses sociais que ele revela. A identificao de disputas e conflitos nas redaes e nas oficinas grficas sugere inmeras direes desse processo. Saindo do terreno exclusivo da grande imprensa e focalizando o espao mais amplo do periodismo, h que se discutir a natureza dos caminhos sociais e o alcance do processo de afirmao da hegemonia das grandes empresas jornalsticas na poca. Refletir sobre os embates e resistncias que tais caminhos sugerem revela outras nuances desse processo. Deve-se destacar que, na formao das empresas jornalsticas, as articulaes entre o periodismo e a cidade letrada se transformam. O jornalismo profissionaliza-se. No processo de constituio da grande imprensa, o jornalismo emerge como uma via vigorosa de profissionalizao para os homens de letras. Em So Paulo, assim como na imprensa carioca, muitos literatos encontram nas empresas jornalsticas um novo espao de trabalho. Na pesquisa, j em 1909, nos deparamos com um Monteiro Lobato que se surpreende pagando dois meses do aluguel da casa com os 40$000 que recebe por uma srie de artigos para a Tribuna de Santos: Pagar a casa com escritos que maravilha, hein! Estranha o fato de ganhar dinheiro com o que nos sai da cabea. Vender pensamentos prprios ou alheios [...], mas que na dcada seguinte, com preocupaes sobre estratgias de comercializao e vendagem de peridicos e livros, transforma-se em seu prprio patro, dono de revista e editor, assumindo que ento seus negcios cifram-se nuns dinheiros a juros e que sua presena na campanha pr-saneamento no Estado de So Paulo popularizou muito a marca Monteiro Lobato. (LOBATO, 1944, p. 162-176 e 375). Na mesma poca, em importantes jornais e revistas paulistanos, sobressaem-se tambm nomes como o de Amadeu Amaral, que colaborou ainda em inmeros peridicos cariocas e, durante algum tempo, foi o poderoso editor dO Estado; Oswald de Andrade, que, alm de trabalhar nos jornais dirios, durante algum tempo transforma-se em dono da revista O Pirralho, cujo arrendamento lhe proporciona 10 contos de ris (e ele, pela primeira vez, embarca para a Europa); Guilherme de Almeida, Vicente de Carvalho e Menotti del Picchia, entre outros. A colaborao fixa em dirios e revistas coloca-se como um posto de trabalho almejado por importantes literatos no perodo e, para alguns intelectuais, passou mesmo a significar a diferena entre emprego e desemprego. Sobre essa situao, interessante acompanhar o relato de Oswald de Andrade (1990, p. 119) quando, em 1918, informa que: Nesse momento vejo a aflio de Lo Vaz que no encontra emprego. Eu tenho dois, o do Jornal do Comrcio, edio de So Paulo, onde fao Sociais, e que me d 250 mil-ris mensais, e o da Gazeta, donde retiro cem mil-ris. Sem hesitar, ofereo o da Gazeta a Lo, que aceita e passa a ser jornalista, sob as ordens de Csper Lbero. Nesse novo mercado letrado, a estabilidade no emprego e o pagamento dos artigos e colaboraes passam a ser regidos pelo prestgio e repercusso do autor com o pblico. Por seu turno, tal repercusso, assim como a dos produtos da nascente indstria paulista que ganham popularidade atravs da propaganda dos peridicos, passa, em grande medida, a 114 depender de sua presena nas publicaes peridicas de maior circulao. Como aponta Flora Sussekind (1984, p. 74), Alm de ampliar o nmero de interlocutores para o texto literrio, a colaborao na imprensa se apresentava, no perodo, como a nica trilha concreta em direo profissionalizao para os escritores. A imprensa consolida seu predomnio sobre a produo literria. Novas formas de contar, temticas e modos de escrita emergem deste mergulho da produo ficcional no periodismo. Vrias indicaes permitem propor que os literatos vivenciaram de forma tensa e contraditria essas novas condies de profissionalizao e de produo cultural. Se, por um lado, entusiasmam-se frente s possibilidades profissionais mais estveis, em que as contas dos aluguis e do armazm podem ser pagas por artigos, por outro, reagem s formas de controle e padronizao impostas pela nova configurao empresarial da imprensa. As constantes reclamaes contra cortes, estilos e privilgios identificados na nova situao profissional parecem conviver com a constatao de que, fora desse ambiente hegemonizado pela empresa jornalstica, no existiam muitas sadas. Assim, se em um momento identifica-se um Lobato extremamente indignado frente recusa de um texto de seu amigo Godofredo Rangel pela pandilha do Estado, reclamando que o jornal sufoca todas as tentativas de literatura, com os seus reporters analfabetos, com a sua meia lngua engalicada, com os seus crticos de camaradagem ou de passa c 5 mil-ris, em outro momento o surpreendemos propondo a Godofredo que aderisse Revista do Brasil, que pelos modos vai ser coisa de pegar, como tudo o que brota do Estado, empresa slida e rizomtica. (LOBATO, 1944, 292 e 308). No se transformar num Z Correto, personagem por meio do qual Lobato ironiza o jornalista que se acomoda e responde passivamente s presses e limites impostos pelos grandes dirios, e ao mesmo tempo permanecer nos circuitos da grande imprensa parece ter sido um desafio enfrentado por grande parte dos literatos no perodo. Nessa direo interessante destacar o estudo anteriormente mencionado de Flora Sussekind, que, lanando mo de obras de fico e memrias de importantes literatos, principalmente cariocas, reflete sobre as tenses emergentes das novas condies de produo e difuso da produo literria. Assinalando a hegemonia da imprensa na produo cultural brasileira na poca, a autora busca refletir sobre as diferentes respostas dos homens de letras s presses dos novos sistemas de controle e padronizao impostos pela nova configurao empresarial da cultura impressa. Nas pginas de seu trabalho, identificamos um Coelho Neto indignado com a padronizao e com as novas formas de controle do que se publica nos jornais que no tem o visto da inquisio, mas tem o visto do redator-chefe; um Bilac irnico diante dos novos gneros jornalsticos, como a reportagem e a crnica mundana; um Joo do Rio aberto ao dilogo com as novas formas de contar da imprensa; um Lima Barreto crtico s novas relaes de poder na imprensa, porm receptivo s novas linguagens. (SUSSEKIND, 1987). As diversas tentativas de serem ainda donos de jornal ou revista que, novamente, tem sua identificao mais clara na figura de Lobato, mas tambm anima outros literatos, como Oswald de Andrade e, nos anos 1920, empolgaria todo o grupo modernista devem tambm ser avaliadas sob a tica da resistncia/tenso com as novas condies de produo emergentes a partir da formao das empresas jornalsticas. 115 Mas no foram s os literatos que viram suas condies profissionais e de produtores da cultura alteradas pela emergncia das formas empresariais do periodismo. Setor pouco lembrado quando se fala da cultura letrada, os trabalhadores grficos tambm tm experincias e histrias a contar sobre esse perodo. A expanso do jornalismo empresarial e a mecanizao dos trabalhos nas oficinas grficas iriam paulatinamente transformando as condies de trabalho e de organizao da categoria. J no incio do sculo XX, as pautas de reivindicaes das recorrentes greves desses trabalhadores demonstram que, com a mecanizao da produo e as alteraes na diviso e nas hierarquias de trabalho no interior das oficinas grficas das novas empresas jornalsticas, os trabalhadores grficos iriam perdendo seu poder no interior da estrutura de produo do jornal e no desenho das publicaes. O jornalista distancia-se do tipgrafo e a redao, da grfica. Nos dirios da grande imprensa, conflitos entre os trabalhadores intelectuais da redao representados pelos editores, colaboradores e reprteres e o setor de composio sinalizam movimentos de resistncia dos setores mais intelectualizados da categoria. Nas pginas do jornal da UTG, durante os anos de 1905 e 1906, so recorrentes os comentrios irnicos dos grficos sobre a qualificao e o talento dos novos reprteres. (O TRABALHADOR GRFICO, 1905). No exame dos movimentos grevistas do perodo destacam-se as denncias de demisses arbitrrias nas oficinas, de admisso de aprendizes em prejuzo dos oficiais de arte, de arbitrariedade dos poderosos mestres ou gerentes das grandes oficinas. Nas folhas dO Trabalhador Grfico so recorrentes as reclamaes sobre a chegada diria na capital de tipgrafos compositores de outros estados, atrados pela publicao de novos dirios, a diminuio dos salrios e a situao desoladora em que se acham os tipgrafos desempregados nesta capital. Colegas no vindes a So Paulo, onde vos esperam apenas disiluses e misria! o apelo de um manifesto da UTG, de junho de 1905, que torna visvel a reestruturao da produo grfica, a grave situao da categoria no mercado de trabalho e a falta de propostas mais afirmativas das lideranas frente s novas condies de trabalho da categoria. (O TRABALHADOR GRFICO, 12/06/1905). A introduo progressiva das linotipos nas oficinas grficas dos jornais paulistanos a partir de 1907 parece ter sido um elemento decisivo na desarticulao dos grficos nesse perodo. Embora em seu trabalho de conscientizao a UTG, assim como a Confederao Operria Brasileira (COB), buscasse combater algumas formas de luta tidas como ineficazes, propostas pelos compositores tipgrafos da base, tais como a quebra das novas mquinas ou o veto associao sindical aos operadores das novas mquinas de compor, a introduo das linotipos experimentada como o sinal da runa da classe. A intensa rivalidade que se estabelece entre linotipistas e tipgrafos compositores enfraquece as bases da organizao da categoria.3 Ocupados em rearticular os diversos setores da categoria, com sua posio enfraquecida num mercado de trabalho invadido por novas e crescentes levas de aprendizes, sofrendo a concorrncia das associaes beneficentes que so formadas pelas novas empresas jornalsticas, os grficos perdem espao como produtores da cultura impressa. Em So Paulo, a desarticulao do saber-fazer desses trabalhadores e das condies de trabalho da tipografia parece ter custado UTG mais de uma dcada de luta. No plano mais geral da 3 Sobre o processo de introduo das linotipos nessa poca e suas repercusses no movimento organizativo da categoria, ver o interessante artigo de VITORINO (1989, p. 31-33). 116 cultura impressa paulistana, tal desarticulao, desqualificando os grficos enquanto produtores da cultura impressa, sinaliza uma dimenso importante do processo de afirmao da norma culta sobre os terrenos populares.4 Atravs dos novos jornais e revistas, os circuitos de difuso da imprensa peridica ampliam-se e as relaes entre os grupos produtores e o pblico leitor redefinem-se. Nos novos veculos, o controle dos contedos e formas de contar escapam de maneira progressiva das mos dos produtores diretos. Tais contedos e formas, anteriormente mais articulados no interior da prtica social de associaes culturais, clubes ou mesmo de grupos de literatos independentes, passam a ser concebidos e definidos no interior da estrutura da redao das novas empresas jornalsticas sob a batuta do redator-chefe. Os pequenos jornais e revistas sentem a concorrncia dos novos veculos e os pequenos grupos de redatores/proprietrios encontram dificuldades crescentes em manter publicaes. Agora, alguns doutores-literatos, com o concurso de capitais das classes produtoras, estabelecendo-se enquanto proprietrios e donos de jornais, confrontam-se com outros literatos, nem todos doutores, na posio de empregados das empresas jornalsticas. De forma tensa, os literatos tm sua produo submetida a controles bastante diferentes dos que experimentaram no interior da pequena imprensa do incio da dcada. Membros menos prestigiados das camadas letradas, assumindo os novos postos da estrutura da redao das empresas jornalsticas, como reprteres e revisores, distanciam-se cada vez mais da autonomia do jornalismo exercido nas pequenas folhas e revistas. Com a crescente mecanizao das oficinas grficas, os tipgrafos e trabalhadores grficos, assistindo progressiva desqualificao de seu ofcio, perdem importncia no desenho das novas publicaes. Os grupos produtores diferenciam-se e distanciam-se cada vez mais do crculo de leitores. Estes assumem cada vez mais a feio de pblico annimo. O dilogo entre o jornalista e o pblico transforma-se, segundo Lobato (1944, p. 281), num solilquio no ermo. No entanto, importa destacar que a vitalidade da imprensa operria paulistana que continua a ser editada na segunda dcada do sculo XX parece ser testemunha da resistncia de projetos populares no campo de luta da cultura letrada. Alis, no estudo das relaes culturais no perodo, parece urgente encaminhar pesquisas que respondam a indagaes sobre os significados sociais da continuidade da rica imprensa operria e outras iniciativas do periodismo autnomo na dcada de 1920. Se os contnuos reclamos dessa mesma imprensa sobre a penetrao dos temas e projetos da imprensa burguesa nos meios operrios sinalizam para as dificuldades sentidas frente desigualdade das condies de produo e difuso da cultura impressa e a fora das novas formas de contar da empresa jornalstica, sua continuidade e fora junto ao movimento apontam outras direes. No h dvida de que as possibilidades de articulao mais autnoma de projetos culturais contidas no jornalismo tipogrfico diminuem drasticamente. As mudanas aceleradas dos meios de produo e difuso da cultura impressa muito rapidamente transformaram em passado algumas das possibilidades representadas por aquele jornalismo. 4 O primeiro nmero da segunda fase dO Trabalhador Grfico s vem a pblico em julho de 1920. O acompanhamento das lutas da UTG nesse perodo indica todo um esforo para rearticular a adeso massiva da categoria ao sindicato. 117 Nas dcadas seguintes, alguns poucos grupos editoriais passam a ser responsveis pela grande maioria dos peridicos lidos na cidade. Submetendo o jornalismo a novas formas de controle, diminuindo a presena dos grficos na definio das formas e contedos dos novos veculos, obedecendo cada vez mais aos ditames de uma linha editorial e ao poder dos anunciantes, roubando o pblico das folhas domingueiras, dos pequenos jornais de bairro e associaes, incorporando e rearticulando interesses e tradies por eles formulados, algumas poucas empresas jornalsticas agora projetam sobre a cidade sua prpria leitura da vida urbana. No entanto, a continuidade de projetos mais diretamente articulados s prticas sociais, exemplificadas em importantes ttulos de peridicos cientficos e culturais, jornais de bairro e, principalmente, nos ttulos da imprensa operria, prope outras leituras para a dinmica e resultados desse processo de disputa entre a(s) cultura(s) da(s) elite(s) e a(s) cultura(s) popular(es) no perodo. 118 119 BIBLIOGRAFIA ADORNO, T.; HORKHEIMER, M. Dialtica do esclarecimento. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985. ALMEIDA JR., A. A Faculdade de Direito e a cidade de So Paulo. In: A cidade de So Paulo. So Paulo: Imprensa dO Estado de So Paulo, 1954. AMARAL, Antonio B. do. Nossas revistas de cultura: ensaio histrico- literrio. Revista do Arquivo Municipal, So Paulo, v. 174, p. 125-175, jul./set. 1968. AMARAL, Aracy. Artes plsticas na Semana de 22. So Paulo: Perspectiva, 1979. ANTONACCI, Maria Antonieta. A vitria da Razo(?): o Idort e a Sociedade Paulista. So Paulo: Marco Zero; CNPq, 1983. ANTUNES, Benedito. 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Atua tambm como orientadora de mestrado e doutorado e pesquisadora com bolsa produtividade do CNPQ. Coordenou e coordena projetos de pesquisa nas seguintes reas temticas: Histria da Imprensa, Cidade e Culturas Urbanas, Memria, Patrimnio e Documentao, Histria do Trabalho e dos Trabalhadores e Ensino de Histria. No ensino bsico, foi professora de Histria da Rede Estadual de So Paulo, coordenou projetos de formao de professores e de educao continuada na rea de ensino da Histria e foi Secretria de Educao do Municpio de Guarulhos entre 2003 e 2007. Publicaes Dentre artigos e livros publicados, esto Os trabalhadores em servios: dominao e resistncia - So Paulo, 1900/1920 (1991); A cidade do reclame: propaganda e periodismo em So Paulo, 1890/1915, publicado no Projeto Histria, da PUC-SP, em 1996; So Paulo em revista: catlogo de publicaes da imprensa cultural e de variedades paulistana, 1870/1930 (1997); Discutindo a Memria e ensinando a Histria: uma experincia de educao continuada na PUC-SP (1998); A imprensa paulistana: do primeiro jornal aos anos 50, publicado no segundo volume do livro Histria da cidade de So Paulo, organizado por Paula Porta (2004); No avesso das comemoraes: memria, historiografia e o bicentenrio da Imprensa, publicado na revista Histria & Perspectivas, da Universidade Federal de Uberlndia (2008); Na oficina do historiador: conversas sobre histria e imprensa, publicado no Projeto Histria da PUC-SP (2008). E-mail para contato com a autora: cruzhelo@uol.com.br 134 135