romulo – assimetria (versão 2014)

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  • CAPTULO 4 - INTRODUO DA MOEDA E O PROBLEMA DA ASSIMETRIA

    4.1 - CONSUMO, INVESTIMENTO E POUPANA

    Vimos no captulo anterior o problema da impossibilidade lgica de se recorrer ao princpio da

    Substituio, o que inviabiliza o uso de um modelo macroeconmico neoclssico para a anlise precisa

    da relao que estudamos, que a relao entre a flexibilidade salarial e o nvel de emprego. A despeito

    da gravidade dos resultados sraffianos, aplicveis j a uma anlise inicial em termos reais e sem moeda,

    o recurso teoria neoclssica da distribuio e do emprego tem sido levado a efeito recorrentemente

    nos livros texto mais difundidos em Macroeconomia, entre os quais destacam-se Dornbusch e

    Fischer(1990) e Mankiw(1995). Neles, usada a teoria neoclssica para a discusso de questes

    macroeconmicas diretamente ligadas ao tema que estudamos aqui, o que justifica que sigamos o nosso

    estudo deste tema na teoria macroeconmica neoclssica, apesar de sua inconsistncia lgica.

    Dentro da anlise estrita da macroeconomia neoclssica, at aqui tnhamos uma descrio

    resumida do equilbrio do mercado de fatores de acordo com a teoria neoclssica do emprego, tomando

    por suposto uma economia de escambo, com o que tomvamos por suposto estar garantido que se ter

    um equilbrio no mercado de bens. A partir daqui, importante passarmos a uma anlise mais profunda

    das caractersticas gerais do funcionamento do mercado de bens e seus resultados. Devemos introduzir

    alguns conceitos e alguns resultados simples que nos sero muito teis adiante. Tratamos at aqui

    essencialmente da determinao da oferta de mercadorias, oferta esta gerada atravs do uso dos fatores

    de produo. No nosso modelo neoclssico simplificado, a oferta de bens toda ela a oferta de um

    nico bem (trigo). Este bem servir tanto para o consumo quanto para a produo de outros bens, o

    que faz do trigo no s um bem de consumo como tambm capital. Por hiptese, em nosso modelo

    neoclssico simplificado h apenas capital circulante. A diferena entre o total de bens ofertado (que

  • o produto bruto) e o total de bens consumidos o que se define, em termos reais, como poupana

    potencial (S*) da economia: CYS = ** , onde Y* o produto potencial bruto, que o produto bruto

    dado a partir dos dados empregos de capital e trabalho na produo. Pelo lado da oferta, assim, temos a

    equao ),(* LKFY = , que d a quantidade total de trigo ofertada.

    4.2 - MOEDA

    Nesta economia neoclssica de escambo, sabemos que basta analisar o lado da oferta para

    sabermos o nvel de emprego dos fatores, uma vez que h uma correspondncia lgica entre as decises

    agregadas de oferta e s de demanda. Entretanto, fazendo-se agora a hiptese de que a economia

    simplificada que analisamos no uma economia de escambo, sendo uma economia que necessita do

    uso de moeda para a realizao de suas transaes, deixa de ser suficiente a anlise exclusiva do lado

    da oferta. Claramente, o resultado primordial da introduo da moeda o de que, numa economia

    monetria, h uma separao lgica entre as decises agregadas de oferta e de demanda.

    Assim sendo, vem tona, em primeiro lugar, a necessidade de compreendermos como se

    comporta o lado da demanda da nossa economia simplificada, agora uma economia monetria.

    Olhando brevemente o lado da demanda1, temos que o total demandado na economia pode ser dividido

    entre o total de bens de consumo (C) e total de bens de capital demandados, sendo que este ltimo item

    o que se denomina de investimento bruto (I). A equao de demanda assim pode ser escrita como

    ICD += , onde )(rII = , e apresentamos j a curva de investimento bruto, que pelo que veremos

    daqui em diante tem os mesmos moldes da curva de demanda por capital2:

    1 A determinao da demanda agregada, a partir de agora, ser constantemente avaliada em nosso estudo, e a possibilidade de construo de uma curva de demanda agregada ser alvo adiante de um estudo bem mais detalhado.

    2 Vide Petri(1998).

  • II

    r

    O equilbrio entre oferta e demanda de bens a partir destas duas equaes (uma a de oferta e

    outra a de demanda) vir obviamente quando DY =* . Em termos reais, portanto, o equilbrio do nosso

    modelo neoclssico simplificado, de um s bem, vir quando houver um casamento entre os totais de

    trigo demandado e ofertado, o que ocorrer quando )(* rICY += . Ou seja, haver equilbrio do

    mercado de bens quando CrICCY += )(* , e da IS =* . O equilbrio de mercado de bens passa

    ento pela igualdade entre poupana potencial bruta e investimento bruto.

    Lembrando o que adiantvamos acima, sabemos que a teoria neoclssica tem como resultado

    fundamental que o equilbrio de longo prazo da economia ser o ponto no qual h pleno emprego dos

    fatores. Numa economia de escambo, tal equilbrio a pleno emprego nos mercados de fator leva a uma

    oferta agregada e tambm a uma demanda agregada aos quais haver o equilbrio entre o investimento

    bruto e a poupana potencial bruta mxima possvel. Este o caso onde Y a oferta mxima possvel,

    que chamamos de Ymax, sendo Ymax=F(K*,L*).

    Assim, podemos dizer que um resultado do modelo neoclssico com flexibilidade real que, a

    longo prazo, a igualdade entre o investimento e a poupana potencial (I=S*) brutos se dar ao nvel

    mximo possvel de poupana potencial bruta, correspondente poupana potencial sob pleno emprego

    dos fatores, e da, portanto, sob a condio Ymax=Y*. Isto estar representado graficamente da

    seguinte maneira, onde o ponto A o ponto de equilbrio de longo prazo, e Y*=Ymax:

  • II,S

    r

    A

    I=S*

    S(Y*)

    A questo que, numa economia que no esteja presa hiptese de escambo (ou seja, numa

    economia que usa moeda), o equilbrio entre investimento bruto e a poupana potencial bruta um

    problema a ser resolvido no no mbito da produo, mas fundamentalmente no mbito da realizao

    (venda) das mercadorias produzidas. S haver equilbrio poupana potencial se houver investimento

    neste montante, ou seja, se houver a compra de todos os bens de capital ofertados.

    Passemos agora anlise mais profunda de um aspecto importante deste equilbrio, que o

    mesmo papel equilibrador, agora do mercado de bens, da taxa real de juros. Este equilbrio acima, entre

    a demanda pelos bens de capital produzidos e sua oferta num determinado perodo, o equilbrio para o

    qual a economia tender, dado obviamente que haja flexibilidade da taxa real de juros r. A flexibilidade

    da taxa real de juros dar conta sempre a partir de agora de equilibrar investimento e poupana

    potencial brutos, sendo dado o uso do estoque de capital herdado do perodo passado. No far sentido

    uma disparidade entre o total de capital ofertado e o total de capital demandado, uma vez que no longo

    prazo a ociosidade (ou contrariamente a falta) de recursos leva alterao do preo destes recursos. Ao

    representarmos a curva de investimento bruto em t tal como a curva de demanda por capital enquanto

    estoque em t+1, sabemos que o seu formato tal que persistentemente a alterao do preo r conduz o

    mercado de investimento e poupana ao equilbrio entre investimento e poupana potencial brutos

    necessariamente, e portanto a flexibilidade da taxa real de juros uma condio para que o mercado de

    bens convirja para o equilbrio a pleno emprego seja qual for a oferta de bens.

  • Estaremos, daqui em diante, tratando assim do ajuste entre oferta e demanda por bens

    exclusivamente atravs do ajuste do investimento poupana potencial, levando em conta que o preo

    relevante para isto a taxa real de juros que equilibra a oferta e a demanda de bens de capital

    produzidos num dado perodo. A partir de agora ento, podemos assinalar explicitamente que em cada

    perodo todo o capital herdado do perodo anterior, que exatamente o capital comprado no perodo

    anterior para ser usado no perodo corrente, estar sendo usado para a produo de Y3. Isto uma

    conseqncia da compreenso de que a produo num perodo o resultado do total de capital

    comprado no perodo anterior (que o investimento do perodo anterior), que foi comprado para uso

    (completo, pois supomos capital circulante), combinado com o trabalho - que havendo flexibilidade de

    salrios e taxa real de juros ser todo o trabalho existente. Para um dado perodo, como h um dado

    investimento bruto j realizado no passado, a nossa anlise do emprego ter de estar voltada aos

    mercados de investimento e poupana brutos e de trabalho, com o que deixaremos de lado a

    preocupao com o mercado do fator capital, que vemos no ser mais relevante para ns a partir de

    agora. Podemos dizer assim que, com flexibilidade real dos salrios, a noo neoclssica de que sob

    flexibilidade da taxa real de juros a economia tende persistentemente ao pleno emprego pode ser

    expressa atravs da noo de que a economia tende persistentemente ao equilbrio entre investimento e

    poupana potencial brutos, cuja representao grfica apresentamos anteriormente.

    4.3 - ASSIMETRIA

    Investigamos at aqui condies gerais de funcionamento da economia neoclssica, e resultados

    mais interessantes para ns. Em especial, destacamos que predito pela teoria neoclssica que h uma

    relao negativa bem definida entre salrio real e nvel de emprego, tal como vimos para a construo

    da curva de demanda por trabalho. A relao entre flexibilid