romanceiro da incofidencia

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Estudo de Obra- Romanceiro da Inconfidncia Prof: LgiaI - A HISTRIA NOS LABIRINTOS POTICOS "Liberdade essa palavra que o sonho humano alimenta que no h ningum que explique, e ningum que no entenda!" O ROMANCEIRO DA INCONFIDNCIA, publicao de 1953. uma obra de inspirado e profundo amor liberdade, s tradies histricas. A poeta Ceclia Meireles escolheu como forma de expresso a tcnica dos romances populares medievais, de inspirao pica e lrica. Os romances, de origem Ibrica, eram narrativas em verso (redondilha maior) escritas em linguagem popular, usual. O ROMANCEIRO DA INCONFIDNCIA um longo poema, com 96 textos poticos, em que "a autora assume a voz de um rapsodo (cantor-poeta ambulante da Grcia antiga) para reconstituir a histrica Minas Gerais do sculo XVIII. Abrange histria e imaginao numa fuso perfeita. Desfilam os ambientes aurferos e diamantinos, com sua organizao scio-poltica e econmica. Recompe-se poeticamente a ventura idealista dos famosos conjurados, o auge de seus sonhos libertrios - o herico Tiradentes. Ceclia faz-nos lamentar a derrota do movimento de asas, que poderia ter liberto do poder lusitano, se no fosse a pusilanimidade de Joaquim Silvrio dos Reis. O eu potico aponta para o fato fatal do ouro ter trazido forme, algemas, masmorras, cadafalsos. Onde houve riqueza, houve jugo do poder e houve mortes. Contudo, a proposta era bem explcita: LIBERDADE AINDA QUE TARDE, sonho visionrio e contagioso veneno. "Ceclia Meireles no inteiramente afirmativa quanto relao de causa e efeito entre as aes e durao dos fatos. A sua abordagem potica prepassada por mistrios, conduzindo-nos a reflexes, a ambguas indagaes: os mortos sero realmente mortos? H tanta coisa submersa na "cova do tempo", tanto a se investigar no mbito da Histria". O ROMANCEIRO DA INCONFIDNCIA no se subordina histria, mas sim prope a sua recriao potica. O passado em si no objeto de todo decifrado, mas sim fonte curiosa de investigao a fim de se compreender melhor a estrutura do presente, para projetar melhor um futuro. Lembremo-nos de que o tempo de todo soberano e os homens submissos a ele, conforme se l nos versos Cicilianos. "Os mortos no tem existncia prpria, bvio, s ganham-na se redivivos na reinveno potica, sem a qual, segundo Ceclia Meireles, a vida no possvel. " A par de um roteiro histrico, visualizado em incansveis pesquisas com inmeras fichas de notas, vivncias do ambiente, viagens, sonhos, observaes e imerses no passado, Ceclia Meireles obteve o levantamento da poca histrica que se props poetizar. Desencadeou-se uma transfigurao potica para enriquecer a abordagem da histria. Os poemas do romanceiro so revestidos por alucinante, comovente beleza que transcende a prpria base histrica. O ROMANCEIRO DA INCONFIDNCIA , portanto, uma fuso impressionante, mstica-mgica, entre Histria e Poesia. Cria-se no leitor mais sensvel uma nostalgia dos antepassados mineiros do Brasil, que buscavam a trilha da liberdade. Ressurgem o perodo aurifero-diamantino, com suas deslumbrantes personagens embriagados pela ganncia de riqueza e outros mais alucinados; os sonhadores com liberdade. Personagens embotados no tempo viveram cada um a sua verdade: sede do brilho da fortuna, nsia de conquistar digna libertao. Muitos brios de negritude gananciosa; tantos perdidos na querncia libertria; outros, praticando a mesquinha traio. E ns, presentes, espreitando fascnios poticos sedutores. Ceclia Meireles criou um eu potico (pico-lrico), possudo pela paixo, que se debruou sobre a Inconfidncia Mineira - essa histria poltica insuflada, poderosamente, pela ambio, pelo sensualismo, pelo misticismo, pela paisagem envolta em mistrio. O eu potico est atento a tudo, observador, tudo v, de tudo suspeita. Mergulha-se no tempo, reconstri-se a histria. A autora comps brilhantssima obra na qual Histria, Poesia, linguagem se conjugam para constituir o mais esplndido poema Nacional em homenagem ao nosso passado, de apreo nossa memria, de amor liberdade. (LI - BER - DA - DE). Quanto estrutura, Ceclia Meireles designou os poemas em obedincia unidade histrico-potica onde os romances so numerados e nomeados. H tambm as falas, os cenrios e dois poemas avulsos. Os poemas esto amparados na lembrana de nossa essncia histrica. Existe toda uma sabedoria e amor-ptrio nos vigorosos poemas de natureza pica-lrica, mesclados ao carter dramtico. O singular resultado de uma poetizao que honra, dignifica, glorifica a Histria Libertria que nossa. Poesia que nos convence, pela

emoo, de que os fatos da nossa vida scio-poltica-cultural possuem razes histricas muito nossas que precisam ser conhecidas e preservadas; questionadas e passadas a limpo. Ceclia Meireles foi maiscula, plural no ROMANCEIRO DA INCONFIDNCIA para transformar o que ontem eram aflies, delaes, ou vises libertrias em duras indagaes, algumas certezas e muitos ardentes mistrios. Procuramos as verdades da vida do nosso passado, alm das falcias do poder de manipulao e opresso. Com muita fineza potica e autenticidade, os vultos histricos so iluminados, respeitados e liricamente desalienados. A voz da Histria, ouvida atravs da poesia, d-nos exata medida de uma convio artstica: a arte recria genialmente o processo histrico. E uma voz ntida, apesar de estar repleta de medo, contradies humanas e de tons inquiridores. H poemas que nos comunicam ao esprito a delicadeza rcade de uma poca; outros que exigem o assombro e indignao frente a execues infames. Ceclia Meireles pde temperar, liricamente, histricos incidentes da Inconfidncia Mineira. Foi bastante sensvel para analisar os fatos histricos a fim de construir seus poemas em linguagem depurada, requintada, firme, singela. Toda a linguagem potica em funo de revalorizao histrica. O "Romanceiro da Inconfidncia, apesar de conter uma resposta positiva angstia do tempo, faz alguma concesso utopia romntica." (Admite uma projeo intemporal no iderio humano em busca da Liberdade.) "Ceclia Meireles, em seus poemas do Romanceiro, permanece pessimista em sua concepo de Histria. Nunca se mostrou convencida de que a Histria fosse uma linda que vai do paraso ao paraso, com alguns desvios pelo meio. Para a poeta, a Histria era uma infinita sucesso de erros e fardos pesados, que ningum sabe aonde leva. " "Uma concepo dada ao desespero. Ceclia, sabiamente, soube ver os desastres e tragdias da Histria e construiu tentativas de reinventar a vida, destinadas a torn-la possvel. " O ROMANCEIRO DA INCONFIDNCIA nos conduz a uma atmosfera de lembranas ressuscitadas na memria do tempo, onde Histria e Poesia encontram abrigo numa linguagem de poderosa expressividade. As indagaes do primeiro poema (Fala Inicial) " vinte e um de abril sinistro, que intriga de ouro e de sonho houve em tua formao? Quem ordena, julga e pune? Quem culpado e inocente? Onde, os rostos? Onde, as almas?" Encontram respostas mansamente formuladas numa linguagem de sensvel sabedoria e temvel realidade. "Na mesma cova do tempo cai o castigo e o perdo Morre a tinta das sentenas E o sangue dos enforcados"... Imaginariamente, somos conduzidos ao tempo da Inconfidncia Mineira, tempo das ideias venenosas contra a opresso do poder. A poca das delaes, das sentenas de priso, degredo e "morte natural para sempre naforca'^ para o criminoso de lesa-majestade, Tiradentes. Tempo de idlio interrompido de Manila e Dirceu. (A inconformada Marlia em sua Imaginria Serenata.) poca da dor dramtica de dona Brbara Eliodora, que perdeu seu esposo Alvarenga e sua filha, que morreu to jovem, Maria Ifignia Tempo do poeta Cludio Manoel da Costa, figura sobre a qual permanece o "mistrio parado": Teria Glauceste sido morto, ou se suicidado? Quem sabe foi protegido em fuga? Enigmas sobre a nvoa que se adensa na poeira do tempo. A poesia do Romanceiro traz tambm os ilustres assassinos. Desfila, ainda, o resultado das vaidades de esprito, como no caso da rainha louca, Maria I, que assinou a sentena de condenao para os inconfidentes. Ceclia dedicou versos at aos cavalos da Inconfidncia. Com um grau de sensibilidade inigualvel, a autora nos surpreende com sua poesia humanamente histrica. Ao se ler o ROMANCEIRO DA INCONFIDNCIA, possvel ver, na atemporalidade da Ouro Preto de hoje, suas vielas tortuosas e arquiteturas seculares, sua potica com palavras de delrio, desespero, opresso, liberdade, violncia, vida, morte. H juras de amor, h conspiraes e denncias entre pontes, chafarizes, segredos e flores murchas pelo tempo. H leques, colinas, janelas, portas, enterros e enormes silncios. "O cu o mesmo sobre os tempos que atravessam o corao das horas aflitas." Revelam-se suspirosos segredos, gemidos, lamentos de personagens antigas, de eras antigas donde se destacam Felipe, Chico Rei, Joo Fernandes, Chica da Silva, Marlia, Dirceu, Glauceste, Nise, Brbara, Alceu, Toledo, Rolim, Pamplona, Francisco Antnio, Vitoriano, Silvrio, Tiradentes e tantos outros. Todos ganham seu destaque nessa obra que, como um rio de msica, desagua em nossa mente e sentimento, com a certeza de que o tempo da Memria Nacional foi plenamente reconquistado. O ROMANCEIRO DA INCONFIDNCIA ensinanos um apego Histria Ptria atravs de indagaes, exclamaes, cismas, lamentaes, advertncias. O

retraio da morte se desenha insistentemente, tendo ao lado a eternidade do sonho de Liberdade. Toda a Histria das Minas Gerais, tramada na era inconfidente, transita frente a nossa imaginao. Recompomos tambm os mais rcades cenrios - das mais belas flores silvestres, ouvimos o toque de "sinos da agonia" ecoando nos ares de tempos que no se findam. Por horizontes que desmaiam na luz de uma eternidade histrica vemos a "mo do alferes que de longe acend\ Mergulhamos na mquina da memria criadora atravs da poesia do ROMANCEIRO DA INCONFIDNCIA para repetirmos, seduzidos como Ceclia Meireles. Ai, palavras, ai, palavras, que estranha potncia, a vossa! Ai, palavras, ai, palavras sois de vento, ides no vento, no vento que no retoma e em to rpida existncia, Tudo se forma e transforma!"... II - O TTULO: ROMANCEIRO DA INCONFID

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