roda saberes dos saberes do cais do valongo

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  • 1a EDIORIO DE JANEIRO, BRASIL

    Ttulo Roda dos Saberes do Cais do Valongo1 Edio 2015, Rio de Janeiro, Brasil 2015 Associao Cultural Il Mestre Benedito de Angola. Todos os direitos reservados. proibida a reproduo do todo ou parte dessa obra por quaisquer meios (impressos ou eletrnicos) sem autorizao por escrito.

    Organizao Carlo Alexandre TeixeiraEdio Dlcio TeobaldoFotografia Maria BuzanovskyFotografias da Biografia Antnio Muricy, Felipe Xavier, Tuna Meyer, Nicole Freeman e Maria BuzanovskyFotografia da Capa Construo da muralha do caes, arquivo Pblico do Estado do Rio de Janeiro (APERJ)Projeto Grfico e diagramao (capa e miolo) Pauline QuiProduo Ana Carolina Oliveira dos SantosReviso Ione Nascimento e Ana Carolina Oliveira dos SantosImpresso Grfica DM2JR grfica e editora Ltda.Kabula Artes e Projetos projetokabulac@gmail.com

    AUTORESAdriana FacinaAmir HaddadCludio de Paula HonoratoDenise Vieira DemtrioHebe MattosLuiz Antnio SimasMartha AbreuMatthias Rhrig AssunoMaurcio Barros de CastroMC LeonardoMestre Neco PelourinhoMilton GuranWallace de Deus

    CRDITOS DO LIVROApoio Prefeitura do Rio de Janeiro / Companhia de Desenvolvimento Urbano da Regio do Porto do Rio de Janeiro (CDURP)Realizao Kabula Artes e ProjetosProponente do Projeto O Porto Importa Memrias do Cais do Valongo ACIMBAParceria Faculdade de Letras (UFRJ)

    Dados Internacionais de Catalogao na Publicao (CIP)(Cmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

    Rodas dos saberes do Cais do Valongo / Carlo Alexandre Teixeira (organizao) Dlcio Teobaldo (edio). Niteri, RJ: Kabula Artes e Projetos, 2015.

    Vrios autores.ISBN 978-85-68870-00-6

    1. frica - Civilizao / 2. frica - Colonizao / 3. frica - Histria 4. Cais do Valongo (RJ) - Histria / 5. Capoeira / 6. Cultura africana / 7. Cultura afro-brasileira 8. Cultura popular / I. Silva, Carlo Alexandre Teixeira / II. Teobaldo Dlcio.

    14-13440 CDD-960.81531

    ndices para catlogo sistemtico1. Cais do Valongo: Rio de Janeiro: Estado: Cultura africana: Histria 960.81531

    ADRIANA FACINA / AMIR HADDAD

    CLUDIO DE PAULA HONORATO

    DENISE VIEIRA DEMTRIO / HEBE MATTOS

    LUIZ ANTNIO SIMAS / MARTHA ABREU

    MATTHIAS RHRIG ASSUNO

    MAURCIO BARROS DE CASTRO

    MC LEONARDO / MESTRE NECO PELOURINHO

    MILTON GURAN / WALLACE DE DEUS

    EDIO DLCIO TEOBALDO

    ORGANIZAO CARLO ALEXANDRE TEIXEIRA

    FOTOGRAFIA MARIA BUZANOVSKY do CAIS

    DO VA

    LONGO

    dos SABE

    RES

  • Sumrio

    Prefcio 8Tragdia e milagre do Valongo

    introduo 13

    rAZeS dA AfirMAo 16Martha Abreu 18Denise Demtrio 26Hebe Mattos 34Matthias Rhrig Assuno 40Cludio de Paula Honorato 46Mestre Neco Pelourinho 52

    territrioS de LutA e de identidAdeS 60Luiz Antnio Simas 62Maurcio Barros de Castro 72Adriana Facina 78MC Leonardo 84

    VALoreS do SonHo e dA MeMriA 92Wallace de Deus 94Amir Haddad 100Milton Guran 108

    Mini-biogrAfiAS 116

    Capwa kiso kutima oko cili.

    No porque no vivemos uma histria

    que deixamos de senti-la.*

    *Livre traduo de ditado em Umbundu, uma das lnguas de origem Bantu faladas no Brasil colnia.

  • TraGDIa e MILaGredo VaLONGO

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    otambm o segundo maior porto de origem dos navios negreiros, depois de Liverpool, na Inglaterra. Ou seja, o Rio no era apenas o porto de destino dos navios negreiros de negociantes portugueses, mas foi mesmo o segundo mais importante porto de armao do infame comrcio, perdendo apenas para Liverpool.

    O Valongo denominado de complexo porque inclui no somente o cais de desem-barque, mas tambm o cemitrio dos Pretos Novos para onde foram aqueles milhares de recm chegados que no se recuperaram dos horrores da travessia. Foram jogados em fossas comuns ali mesmo, sem cerimnia. Por que os traficantes haveriam de consi-derar os mortos se maltratavam os vivos? Como explica Denise Demtrio, o descaso com o corpo do escravo defunto era a norma no Rio de Janeiro colonial. A distncia da fazenda para um cemitrio ou para a igreja da parquia geralmente sendo grande, os cadveres eram largados na estrada ou enterrados no meio do caminho para no custar um dia inteiro. Mas ela tambm nos fala das primeiras pontes que se estabele-ceram entre os prprios escravizados, tambm com a populao pobre de cor e at mesmo com os senhores. Isso revelado pelos registros coloniais de batismo do Recn-cavo da Guanabara. O compadrio que se instaurou entre a casa grande e a senzala o smbolo mximo do escravismo patriarcal brasileiro. Atravs dele, o dono reconhecia a humanidade de sua propriedade e a ideia da famlia extensa incluindo seus escravi-zados lhe permitia dar um ar de aparente respeitabilidade instituio do cativeiro. Tambm acabou subvertendo a ideia de pensar a escravido unicamente como dois blocos, os senhores e os escravos.

    Entre a chegada, a re-partida ou a morte, o Valongo tambm foi um lugar de qua-rentena para os recm-chegados onde deveriam ficar at sua recuperao e venda. Por isso, salienta Hebe Mattos, o complexo do Valongo tambm um um espao de apren-dizado da lngua, do trabalho, uma espcie de socializao para a nova vida que teriam. A partir desse momento, o Valongo passa a ser no somente um lugar de tragdia, mas tambm de um milagre, que Richard Price chamou do milagre da crioulizao.

    Vrias das falas reproduzidas aqui nos contam outros aspectos desse processo de criao cultural. A minha prpria fala tenta resgatar a memria dos Benguelas, um grupo importante entre os desembarcados, tanto em termos numricos quanto pela sua cultura de jogos de combate que contribuiu muito para a formao da capoeira. Cludio de Paula Honorato discorre sobre os capoeiras que trabalhavam na regio porturia, destacando os grandes capoeiristas locais como o Prata Preta. J Mestre Neco nos fala de seus prprios mestres: Adilson, Moraes, e o incio da capoeira angola no Rio, at a dcada de 1980.

    Esse livro documenta uma experincia singela. Acontece no cais do Valongo desde julho de 2012. O Valongo, lugar de desembarque de centenas de milhares de africanos escravizados entre 1774 e 1831, passou em seguida quase dois sculos encoberto e esque-cido pelos habitantes do Rio de Janeiro e seus visitantes. Como era inconveniente lembrar desse lugar de sofrimento e de profunda injustia, os donos do poder carioca o encobriram, primeiro com outro cais, depois com um largo chamado de Jornal do Commercio, o que evoca notcias de uma atividade decente e normal, no um crime contra a humanidade.

    Agora, graas a iniciativa de Mestre Carlo e dos alunos do Kabula Artes e Projetos, renem-se ali na sombra mais prxima ao lado do antigo cais, cada terceiro sbado do ms, capoeiristas, artistas, acadmicos e outros transeuntes para participar das vrias rodas consecutivas: a roda dos saberes, a roda dos fazeres e a roda de capoeira. As falas da roda dos saberes, diligentemente selecionadas por Carlo Alexandre Teixeira e editadas pelo escritor e artista Dlcio Teobaldo, permitem ao leitor entrever um pouco daquilo que est acontecendo nesse local que representa, segundo Ali Moussa Iye, diretor da Diversidade Cultural da UNESCO, o mais importante stio de memria da dispora negra fora da frica. O Valongo constitui assim um lugar crucial de memria para lembrar a tragdia que foi o trfico transatlntico de seres humanos escravizados, e sua escala inhumana de quase um milho de vtimas desembarcadas apenas nas pedras desse cais.

    Por que a memria desse lugar foi silenciada durante tanto tempo? Milton Guran salienta na sua fala que os capitais financeiros do Imprio tiveram ligao direta e par-ticipao direta com o trfico negreiro. [] Toda economia do Imprio estava direta-mente ligada e desfrutava do trfico negreiro. De fato, bom lembrar que o Rio de Janeiro foi no somente o maior porto de desembarque de escravos nas Amricas, mas

    PrefCio

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    oO baile funk no est agonizando, ele j morreu e a gente precisa revitalizar. Com isso, acabou o concurso entre funkeiros, importante para a criatividade e interao do artista com pblico. No momento, a molecada da cultura est inventando as Rodas de Rima. Mas mesmo para rimar no meio da rua, sem caixa de som ainda precisa de autorizao da prefeitura Por isso Amir Haddad afirma: Quando saio pra rua estou transgredindo, estou politicamente me opondo a esta cidade, a esta cidade que no d espao para cria-o, uma cidade sem linguagem.

    Vrios palestrantes da roda dos saberes nos falam assim do poder de mobilizao da arte, em particular da arte pblica como o grafite e o funk, ou da roda de capoeira. Acredito que o Valongo, por ser um espao de memria to impactante, tem a vocao de tambm virar um espao privilegiado para a arte pblica. O Valongo, espao de arte pblica, e como resultado disso, tambm espao de utopia. Ainda nas palavras de Amir: O espetculo de rua passa a ser a utopia representada, [] quando se equilibram as foras pblicas e as foras privadas em um espetculo, quando se estabelece a harmonia entre o privado e o pblico [] Voc est eternamente naquele lugar. Presente, passado, futuro uma coisa s, no momento que voc consegue esse encontro na praa com as outras pessoas.

    Isso particularmente relevante agora que a rea porturia est passando por uma mudana radical. Investimentos bilionrios esto resultando numa reforma impressio-nante da infraestrutura alm da construo de espaos para escritrios, comrcio e mora-dia. Torres novas esto pipocando em vrios lugares. O perigo que mais uma vez pass