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AS QUATRO FASES DA LUA

de: Jomar Magalhes

A PEA INICIA-SE COM TRS CASAIS CANTANDO "PARABNS PRA VOC" AO REDOR DE UM BOLO EM QUE O PBLICO POSSA VER DUAS VELAS SINALIZANDO 50 ANOS. DURANTE A CENA, FAZ-SE OUVIR ALGUMA MSICA COMPATVEL COM BODAS DE OURO.

TERMINADO OS PARABNS, CADA CASAL SE ENCAMINHAR PARA A FRENTE DO PALCO, SENTANDO-SE EM SEIS BANQUETAS DISPOSTAS DE FRENTE PARA O PBLICO: DUAS EM CADA EXTREMIDADE E DUAS NO PROSCNIO.

OS CASAIS VIVEM PERODOS DIFERENTES DA VIDA A DOIS: PAULO E LUSA COMPLETAM 10 ANOS DE CASAMENTO; ROBERTO E HELENA, 15 ANOS E CAMPELO E ROSA, 25 ANOS.

PAULO - Casei-me faz 10 anos. Pode ser que eu tenha me casado jovem demais, mas dizem que quando se encontra a cara metade porque chegou a idade certa. Se essa teoria estiver correta eu tive sorte porque o destino me poupou alguns bons anos de perambulao, mas confesso que j me afligi algumas vezes por sequer ter conhecido a metade das moas do meu bairro, para que pudesse comparar cara com cara, metade com metade.

HELENA - Bastou eu piscar os olhos e... quando os abri, me percebo casada h 15 anos. Lembro-me como se ocorresse h pouco. O noivo foi encantador. Um tero das moas da cidade gostariam de se casar com ele. Os outros dois teros desejaram que eu escolhesse coisa melhor. Mas, nos casamos! Demorei um pouco pra perceber que de filha, eu j era me e que a antiga brincadeira de casinha se cristalizou em realidade. Eis os 15 anos num piscar de olhos. Eis as bodas de cristal!

ROSA - Pensei em incluir na lista das bodas de prata apenas um sof e uma TV. Afinal de contas, onde os homens preferem ficar depois de 25 anos de casado? Agora eu j me pergunto se o homem foi mesmo lua, porque parece que quando Darwin resolveu estudar a evoluo das espcies, se esqueceu da prpria. Faz trs semanas que eu aguardo a troca da carrapeta em uma torneira. Uma simples lmpada queimada no se resolve em menos tempo. Quer saber? A verdadeira evoluo da espcie cabe a ns mulheres. Precisamos evoluir nossos filhos antes que eles se tornem homens adultos.

ROBERTO - s vezes alimento a certeza de que as mulheres aprendem a pensar quando novas e a falar bem mais tarde. Sim, porque o acmulo de filosofia silenciosa foi transformado em retrica aleatria aps a aliana mudar de dedo. Pode ser que eu esteja desatento e no perceba que seja apenas uma dieta, pois enquanto a boca fala, no entra alimento. De qualquer forma, no me queixo. Triste ser o doloroso tempo do silncio. Portanto, que fale! Porque a tradio oral que educa geraes. Foi assim tambm, quando ainda pouco falante, proferiu o "sim" perante o Altar.

CAMPELO - O alfaiate j cortou o terno; os padrinhos j foram escolhidos; a sogra j me chamou de querido e a noiva j escolheu o noivo; que sou eu. Foi mais ou menos com esse pensamento que eu caminhei pelo corredor da igreja h 25 anos. E mais ou menos com esse pensamento que eu venho percebendo que o terno j no me cabe mais; que os padrinhos vivem distantes; que minha sogra me poupa elogios, mas que a noiva divide o teto com um esposo; que sou eu. Estou certo que os pensamentos de agora, sero tambm lembrados durante os prximos anos. Assim como sero perpetuadas as duas taas novas que recebero o champanhe.

LUSA - Toda escolha festejada pela escolha em si e lamentada pela excluso das outras opes. Cravei os olhos na escolha e deixei os pssaros voarem. Uma mulher quando se casa no pensa exatamente em abandonar a solteirice, mas sim em realizar o sonho de menina de virar princesa. Depois do baile, o vestido pendurado no cabide para no mais de l sair. Ento vai-se embora a Cinderela e fica o desafio de construir o castelo. O baile dura uma noite; o castelo, infinitas. Se eu quis jogar o buqu? Imagina! Foi a hora de me divertir com o desespero alheio.

CENA 1 - ROBERTO L O JORNAL NO MOMENTO EM QUE HELENA ENTRA EM CENA

HELENA - Roberto...! (pausa) Roberto!

ROBERTO - H! O que ?

HELENA - J soube o que a sua filha Maria Eduarda fez?

ROBERTO - Como? Ah, sim... voc quer dizer a "nossa" filha, no?

HELENA - Sim, a "nossa" filha! Mas por que a necessidade de falar assim, com esse tom?

ROBERTO - Porque todo mundo sabe que quando a mulher chama os filhos pelo nome e sobrenome porque algo de errado eles fizeram. Neste caso, a Dudinha passa a ser chamada de Maria Eduarda. E sendo chamada de Maria Eduarda passa a ser "minha" filha, no isso?

HELENA - Ah, ? Que curioso! E quem foi que chegou ontem em casa, todo feliz, dizendo pra mim: "Helena, voc precisava ver o golao que meu filho fez no final do jogo!" E ento? Por que voc chamou o Pedrinho de "meu filho" ao invs de dizer: "Helena, voc precisava ver o golao que o NOSSO filho fez no fim do jogo"!?

ROBERTO - Porque se ele fez gol significa que estava jogando futebol, no? E como voc detesta futebol, no tem nenhum mrito na faanha do menino!

HELENA - Ah, sim! Ento eu s tenho mrito quando ele arrebenta o joelho e eu corro pro hospital como fiz no ms passado, isso?

ROBERTO - Acho razovel que quando eu no puder lev-lo que voc o faa, ao invs de pedir a um estranho, concorda?

HELENA - Talvez no necessariamente. Existe ainda a opo de pedir perua da sua me que fica desfilando pra cima e pra baixo durante boa parte do dia.

ROBERTO - Pode ser. E da combinar com a songa monga da sua me pra ir busc-lo, se por acaso ela no se confundir e trouxer a criana errada.

HELENA - A songa monga a qual voc se refere aquela discreta senhora que sabe se comportar muito bem nas festas, sem encher a bolsa de salgadinhos pra depois devor-los feito uma esfomeada em casa, isso?

ROBERTO - Cus! Ser que vou poder continuar lendo o meu jornal em paz!?

HELENA - Claro, pode continuar lendo o seu louvvel caderno esportivo com ar de intelectual enquanto eu me ocupo em oferecer s crianas uma educao que v alm do futebol.

ROBERTO T bom! Ento eu lhe peo encarecidamente, Helena! Diga logo o que a menina fez e para de lenga-lenga!

HELENA - Ah, sim! Voc quer saber o que a MINHA filha Maria Eduarda fez? Ela simplesmente tirou a melhor nota de final de ano na avaliao do ballet! Mas isso coisa que no vale pena, no? (insinuante) Ou ser que voc j estaria interessado nesse tipo de faanha? (sai)

CENA 2 - CAMPELO ENTRA NA SALA COM TRAJES CASEIROS

CAMPELO - J fez a comida, meu bem?

ROSA - (em off) Calma, falta s um pouco. (entra na sala) Antes vai dando uma olhada nisso.

ATIRA-LHE UMA REVISTA

CAMPELO - O que isso...? (examina) Ah, sim, uma revista de culinria?

ROSA - Isso, vai vendo a. (sai)

CAMPELO - (senta-se no sof e folheia) Hum, medalho de peru ao molho... camaro com aspargos... coroa de lombo com ma... Quanta delcia! Uau, essa torta de choconozes pra sobremesa deve ser maravilhosa!!! (fala pra esposa ouvir) Amor, pra que isso? Quer que eu adivinhe que prato voc preparou?

ROSA - (em off) Duvido que acerte!

CAMPELO - Duvida? Est se esquecendo que alm de ser bom de apetite, tambm sou bom de palpite? Posso ter duas chances?

ROSA - (off) Trs!

CAMPELO - timo, pois ento vamos l! Bem... pra mim voc preparou essa delcia de badejo com recheio de erva... ou ento esse chester com salteado de ameixa e pssego... Ser que j matei a charada? Mas, como tenho direito a uma terceira opo, quem sabe lentilhas com costela defumada e linguia? Acertei?

ROSA - (entrando) Errou por pouco. Toma aqui seu prato!

CAMPELO - No melhor eu ir pra mesa?

ROSA - No, coma a mesmo no sof!

CAMPELO - (levanta a tampa) Ei, o que isso? Arroz com ovo e farofa?

ROSA - Sinta-se farto como um rei!

CAMPELO - O que isso Rosa?

ROSA - Arroz com ovo e farofa. Voc mesmo acabou de dizer.

CAMPELO - Sim, mas por que esse cardpio? Por que essa cara? No me diga que o dinheiro no foi suficiente?

ROSA - Daria at pra preparar um banquete, mas no sei se agradaria seu paladar.

CAMPELO - O que est havendo, Rosa? No estou entendendo bulhufas!!

ROSA - No? Ento pera que eu te explico. (sai e retorna rapidamente com algumas revistas sob o brao) A faxineira veio aqui em casa hoje, sabe?

CAMPELO Sim, claro que sei. Deixei dinheiro pra ela tambm.

ROSA Pois ento; da ela resolveu fazer faxina.

CAMPELO Resolveu? Como assim? Voc est bem, Rosa?

ROSA E resolveu tambm tirar o colcho da cama pra pegar sol. E olha que bela surpresa ela encontrou ao levantar o colcho: (sacode uma revista masculina) Revistas e mais revistas como estas de mulher pelada. Entendeu agora, seu cnico? Pois se de revista que voc gosta, devore essa das receitas e tenha um bom apetite!

CAMPELO - Rosa, mas que bobagem sem fundamento.. Nem me recordo bem o dia em que joguei essas revistas l embaixo. Acho que foi no ano passado quando o Humberto veio aprontando aquelas gaiatices dele.

ROSA - No recorda mesmo? Veja s que curioso...! Essa aqui, por exemplo, estava nas bancas h dois meses. Que grande gaiatice a do Humberto, no?

CAMPELO - T bom... mesmo que tenha sido eu... sei l... que importncia tem isso?

ROSA - Nenhuma! Apenas que eu vou rasgar todas essas porcarias e varejar agora mesmo no lixo, entendeu?

CAMPELO Que bobagem, Rosa! Que mal uma revista pode fazer?

ROSA Nenhuma! Por isso mesmo devore essa de culinria a do teu lado. (sai furiosa)

CAMPELO, DESCONCERTADO, PEGA A REVISTA, ARRANCA UMA PGINA

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