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Qualquer utilização da obra – que não somente para a leitura pessoal – Entrar em contato com o autor: [email protected] Wpp (21) 98773-4608 1

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Qualquer utilização da obra

– que não somente para a leitura pessoal – Entrar em contato com o autor:

[email protected] (21) 98773-4608

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® AS QUATRO FASES DA LUA

de: Jomar Magalhães

A PEÇA INICIA-SE COM TRÊS CASAIS CANTANDO "PARABÉNS PRA VOCÊ" AO REDOR DE UM BOLO EM QUE O PÚBLICO POSSA VER DUAS VELAS SINALIZANDO 50 ANOS. DURANTE A CENA, FAZ-SE OUVIR ALGUMA MÚSICA COMPATÍVEL COM BODAS DE OURO.

TERMINADO OS PARABÉNS, CADA CASAL SE ENCAMINHARÁ PARA A FRENTE DO PALCO, SENTANDO-SE EM SEIS BANQUETAS DISPOSTAS DE FRENTE PARA O PÚBLICO: DUAS EM CADA EXTREMIDADE E DUAS NO PROSCÊNIO.

OS CASAIS VIVEM PERÍODOS DIFERENTES DA VIDA A DOIS: PAULO E LUÍSA COMPLETAM 10 ANOS DE CASAMENTO; ROBERTO E HELENA, 15 ANOS E CAMPELO E ROSA, 25 ANOS.

PAULO - Casei-me faz 10 anos. Pode ser que eu tenha me casado jovem demais, mas dizem que quando se encontra a cara metade é porque chegou a idade certa. Se essa teoria estiver correta eu tive sorte porque o destino me poupou alguns bons anos de perambulação, mas confesso que já me afligi algumas vezes por sequer ter conhecido a metade das moças do meu bairro, para que pudesse comparar cara com cara, metade com metade.

HELENA - Bastou eu piscar os olhos e... quando os abri, me percebo casada há 15 anos. Lembro-me como se ocorresse há pouco. O noivo foi encantador. Um terço das moças da cidade gostariam de se casar com ele. Os outros dois terços desejaram que eu escolhesse coisa melhor. Mas, nos casamos! Demorei um pouco pra perceber que de filha, eu já era mãe e que a antiga brincadeira de casinha se cristalizou em realidade. Eis os 15 anos num piscar de olhos. Eis as bodas de cristal!

ROSA - Pensei em incluir na lista das bodas de prata apenas um sofá e uma TV. Afinal de contas, onde os homens preferem ficar depois de 25 anos de casado? Agora eu já me pergunto se o homem foi mesmo à lua, porque parece

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que quando Darwin resolveu estudar a evolução das espécies, se esqueceu da própria. Faz três semanas que eu aguardo a troca da carrapeta em uma torneira. Uma simples lâmpada queimada não se resolve em menos tempo. Quer saber? A verdadeira evolução da espécie cabe a nós mulheres. Precisamos evoluir nossos filhos antes que eles se tornem homens adultos.

ROBERTO - Às vezes alimento a certeza de que as mulheres aprendem a pensar quando novas e a falar bem mais tarde. Sim, porque o acúmulo de filosofia silenciosa foi transformado em retórica aleatória após a aliança mudar de dedo. Pode ser que eu esteja desatento e não perceba que seja apenas uma dieta, pois enquanto a boca fala, não entra alimento. De qualquer forma, não me queixo. Triste será o doloroso tempo do silêncio. Portanto, que fale! Porque a tradição oral é que educa gerações. Foi assim também, quando ainda pouco falante, proferiu o "sim" perante o Altar.

CAMPELO - O alfaiate já cortou o terno; os padrinhos já foram escolhidos; a sogra já me chamou de querido e a noiva já escolheu o noivo; que sou eu. Foi mais ou menos com esse pensamento que eu caminhei pelo corredor da igreja há 25 anos. E é mais ou menos com esse pensamento que eu venho percebendo que o terno já não me cabe mais; que os padrinhos vivem distantes; que minha sogra me poupa elogios, mas que a noiva divide o teto com um esposo; que sou eu. Estou certo que os pensamentos de agora, serão também lembrados durante os próximos anos. Assim como serão perpetuadas as duas taças novas que receberão o champanhe.

LUÍSA - Toda escolha é festejada pela escolha em si e lamentada pela exclusão das outras opções. Cravei os olhos na escolha e deixei os pássaros voarem. Uma mulher quando se casa não pensa exatamente em abandonar a solteirice, mas sim em realizar o sonho de menina de virar princesa. Depois do baile, o vestido é pendurado no cabide para não mais de lá sair. Então vai-se embora a Cinderela e fica o desafio de construir o castelo. O baile dura uma noite; o castelo, infinitas. Se eu quis jogar o buquê? Imagina! Foi a hora de me divertir com o desespero alheio.

CENA 1 - ROBERTO LÊ O JORNAL NO MOMENTO EM QUE HELENA ENTRA EM CENA

HELENA - Roberto...! (pausa) Roberto!

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ROBERTO - Hã! O que é?

HELENA - Já soube o que a sua filha Maria Eduarda fez?

ROBERTO - Como? Ah, sim... você quer dizer a "nossa" filha, não?

HELENA - Sim, a "nossa" filha! Mas por que a necessidade de falar assim, com esse tom?

ROBERTO - Porque todo mundo sabe que quando a mulher chama os filhos pelo nome e sobrenome é porque algo de errado eles fizeram. Neste caso, a Dudinha passa a ser chamada de Maria Eduarda. E sendo chamada de Maria Eduarda passa a ser "minha" filha, não é isso?

HELENA - Ah, é? Que curioso! E quem foi que chegou ontem em casa, todo feliz, dizendo pra mim: "Helena, você precisava ver o golaço que meu filhão fez no final do jogo!" E então? Por que você chamou o Pedrinho de "meu filhão" ao invés de dizer: "Helena, você precisava ver o golaço que o NOSSO filho fez no fim do jogo"!?

ROBERTO - Porque se ele fez gol significa que estava jogando futebol, não? E como você detesta futebol, não tem nenhum mérito na façanha do menino!

HELENA - Ah, sim! Então eu só tenho mérito quando ele arrebenta o joelho e eu corro pro hospital como fiz no mês passado, é isso?

ROBERTO - Acho razoável que quando eu não puder levá-lo que você o faça, ao invés de pedir a um estranho, concorda?

HELENA - Talvez não necessariamente. Existe ainda a opção de pedir à perua da sua mãe que fica desfilando pra cima e pra baixo durante boa parte do dia.

ROBERTO - Pode ser. E daí combinar com a songa monga da sua mãe pra ir buscá-lo, se por acaso ela não se confundir e trouxer a criança errada.

HELENA - A songa monga a qual você se refere é aquela discreta senhora que sabe se comportar muito bem nas festas, sem encher a bolsa de salgadinhos pra depois devorá-los feito uma esfomeada em casa, é isso?

ROBERTO - Céus! Será que vou poder continuar lendo o meu jornal em paz!?

HELENA - Claro, pode continuar lendo o seu louvável caderno esportivo com ar de intelectual enquanto eu me ocupo em oferecer às crianças uma educação que vá além do futebol.

ROBERTO – Tá bom! Então eu lhe peço encarecidamente, Helena! Diga logo o que a menina fez e para de lenga-lenga!

HELENA - Ah, sim! Você quer saber o que a MINHA filha Maria Eduarda fez?

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Ela simplesmente tirou a melhor nota de final de ano na avaliação do ballet! Mas isso é coisa que não vale à pena, não? ( insinuante) Ou será que você já estaria interessado nesse tipo de façanha? (sai)

CENA 2 - CAMPELO ENTRA NA SALA COM TRAJES CASEIROS

CAMPELO - Já fez a comida, meu bem?

ROSA - (em off) Calma, falta só um pouco. (entra na sala) Antes vai dando uma olhada nisso.

ATIRA-LHE UMA REVISTA

CAMPELO - O que é isso...? (examina) Ah, sim, uma revista de culinária?

ROSA - Isso, vai vendo aí. (sai)

CAMPELO - (senta-se no sofá e folheia) Hum, medalhão de peru ao molho... camarão com aspargos... coroa de lombo com maçã... Quanta delícia! Uau, essa torta de choconozes pra sobremesa deve ser maravilhosa!!! (fala pra esposa ouvir) Amor, pra que é isso? Quer que eu adivinhe que prato você preparou?

ROSA - (em off) Duvido que acerte!

CAMPELO - Duvida? Está se esquecendo que além de ser bom de apetite, também sou bom de palpite? Posso ter duas chances?

ROSA - (off) Três!

CAMPELO - Ótimo, pois então vamos lá! Bem... pra mim você preparou essa delícia de badejo com recheio de erva... ou então esse chester com salteado de ameixa e pêssego... Será que já matei a charada? Mas, como tenho direito a uma terceira opção, quem sabe lentilhas com costela defumada e linguiça? Acertei?

ROSA - (entrando) Errou por pouco. Toma aqui seu prato!

CAMPELO - Não é melhor eu ir pra mesa?

ROSA - Não, coma aí mesmo no sofá!

CAMPELO - (levanta a tampa) Ei, o que é isso? Arroz com ovo e farofa?

ROSA - Sinta-se farto como um rei!

CAMPELO - O que é isso Rosa?

ROSA - Arroz com ovo e farofa. Você mesmo acabou de dizer.

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CAMPELO - Sim, mas por que esse cardápio? Por que essa cara? Não me diga que o dinheiro não foi suficiente?

ROSA - Daria até pra preparar um banquete, mas não sei se agradaria seu paladar.

CAMPELO - O que está havendo, Rosa? Não estou entendendo bulhufas!!

ROSA - Não? Então peraí que eu te explico. (sai e retorna rapidamente com algumas revistas sob o braço) A faxineira veio aqui em casa hoje, sabe?

CAMPELO – Sim, claro que sei. Deixei dinheiro pra ela também.

ROSA – Pois então; daí ela resolveu fazer faxina.

CAMPELO – Resolveu? Como assim? Você está bem, Rosa?

ROSA – E resolveu também tirar o colchão da cama pra pegar sol. E olha que bela surpresa ela encontrou ao levantar o colchão: (sacode uma revista masculina) Revistas e mais revistas como estas de mulher pelada. Entendeu agora, seu cínico? Pois se é de revista que você gosta, devore essa das receitas e tenha um bom apetite!

CAMPELO - Rosa, mas que bobagem sem fundamento.. Nem me recordo bem o dia em que joguei essas revistas lá embaixo. Acho que foi no ano passado quando o Humberto veio aprontando aquelas gaiatices dele.

ROSA - Não recorda mesmo? Veja só que curioso...! Essa aqui, por exemplo, estava nas bancas há dois meses. Que grande gaiatice a do Humberto, não?

CAMPELO - Tá bom... mesmo que tenha sido eu... sei lá... que importância tem isso?

ROSA - Nenhuma! Apenas que eu vou rasgar todas essas porcarias e varejar agora mesmo no lixo, entendeu?

CAMPELO – Que bobagem, Rosa! Que mal uma revista pode fazer?

ROSA – Nenhuma! Por isso mesmo devore essa de culinária aí do teu lado. (sai furiosa)

CAMPELO, DESCONCERTADO, PEGA A REVISTA, ARRANCA UMA PÁGINA QUALQUER, FAZ PICADINHO, JOGA NO PRATO E COME

CENA 3 - PAULO ACENDE A LUZ E ENTRA NO QUARTO. LUÍSA ESTÁ DEITADA, COM O TRAVESSEIRO SOBRE A CABEÇA

PAULO - Oi, meu bem... está melhor...? Perdão, nem precisa responder...

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Olha, eu trouxe aqui alguns chocolates pra você. Quer algum agora?

LUÍSA - (aborrecida) Não, deixa aí em cima, depois eu como se me der vontade.

PAULO - Mas como se der vontade? Então você não me pediu há quinze minutos pra comprar ao menos um bombom?

LUÍSA - Deixa aí em cima! Depois eu como, Paulo. Que saco!

PAULO - Tudo bem, tudo bem... trouxe também alguns salgados que vou deixar lá na cozinha, está bem? Apesar de não ser rocomendável consumir muito sal nesse periodo.

PAULO AGUARDA POR UMA RESPOSTA QUE NÃO VEM

PAULO - Já sei: "Tempo Para Mim", não é isso?... Lembra, Luísa? Lembra dessa sigla que eu criei pra você no mês passado?

LUÍSA TIRA O TRAVESSEIRO DA CABEÇA E SENTA NA CAMA IRRITADISSIMA

LUÍSA - Que diabos, Paulo! Justo agora que eu tinha acabado de pegar no sono!

PAULO – Tão rapidamente? Poxa, como eu poderia imaginar?

LUÍSA - Não imaginou porque você desmaiou a noite toda enquanto eu não preguei o olho, entende agora?

PAULO - Certo, certo... Olha só... eu prometi que não iria mais discutir com você como aconteceu em outros meses, mas procure fazer um esforço e perceber que isso é um quadro normal que acomete toda mulher e que daqui a pouco passa.

LUÍSA - Ai, que tédio horrível! Vontade de sumir!

PAULO - Eu sei, imagino... É um misto de ansiedade com um pouco de depressão. É comum nesses dois ou três dias em que você...

LUÍSA - Onde foi que você se formou em medicina? Não sabia disso!

PAULO - (compreensivo) Não sabia mesmo? Pois eu lhe digo: sabe onde? Foi na convivência com você. Foi depois de não sei quantas TPMs que eu tirei o doutorado em medicina. Por isso eu sei que você está irritada, cansada, ansiosa, sente tristeza repentina, daí a pouco vem o choro fácil...

LUÍSA - E você acha isso pouco? Justo você que não aguenta 5 minutos de dor de dente.

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PAULO - Não estou dizendo que é fácil. Apenas venho me familiarizando e procurando me informar melhor. Por isso eu prometi não mais me aborrecer durante esse período.

LUÍSA - Ótimo! Então já que se familiarizou melhor, vê se para de azucrinar meu ouvido e me deixa em paz!

PAULO - Legal, mas deixá-la em paz não significa deixá-la sozinha, concorda? Hoje é dia que os amigos lá do clube jogam pôquer, buraco, xadrez... seria mais fácil eu ir pra lá sob alegação de deixar você em paz, não acha?

LUÍSA - Pois então vá, cretino! Se você está se lembrando do pôquer é porque está dividido. Ou então quer me jogar na cara que eu estou frustrando o seu lazer.

PAULO PASSA A RESPONDER COMO QUE CONSTATANDO UM QUADRO CLÍNICO

PAULO - Sentimento de rejeição.

LUÍSA - Vá pro inferno!

PAULO - Irritabilidade.

LUÍSA - Cínico! Não sei onde eu estava com a cabeça quando me casei com você!

PAULO - Aumento dos conflitos interpessoais.

LUÍSA, EXTASIADA, SUSPIRA LEVANDO AS MÃOS À CABEÇA, DESLIZANDO PARA OS SEIOS

PAULO - Cefaleia e seios sensíveis.

LUÍSA - Você quer parar de me provocar!?

PAULO ABANA UMA FRONHA BRANCA COMO PEDIDO DE PAZ

PAULO - Percebe como eu estou familiarizado? Agora ouça uma coisa: o que acha de darmos uma volta? Uma pequena caminhada já aumenta o ânimo?

LUÍSA - Está louco?

PAULO - Então que tal abrirmos essas janelas e cortinas para o ar entrar? Daí, mesmo sem sairmos de casa, bota uma roupa bonita só pra melhorar o astral? (abrindo-as).

LUÍSA – Fecha isso, seu delinquente!

PAULO – (fechando-as) Mas Luísa...

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LUÍSA - Será que vocè poderia fazer a gentileza de sair desse quarto e me deixar um pouco sozinha?

PAULO - Tá bom, se é assim que você quer, está bem! Só quero lhe dizer que fiz um suco de frutas, comprei também verduras e legumes. Se quiser posso preparar alguma coisa, está bem?

LUÍSA NADA RESPONDE

PAULO - E então? Quer mais alguma coisa?

LUÍSA - Quero.

PAULO - (esperançoso) O que?

LUÍSA - Que você me apague essa maldita luz antes de sair.

PAULO, DESOLADO, DESLIGA A LUZ. BLECAUTE

CENA 4 - HELENA E ROBERTO ENTRAM NA SALA, VINDOS DA RUA. NOITE

ROSA - (taxativa, tirando os calçados) Muito bem! De volta ao lar! Então fica assim combinado. No Natal do ano que vem nada mais de darmos uma passada na casa da sua mãe e nem na casa da minha!

CAMPELO - Perfeito! Já que vou ficar dispensado de ir pra casa da dona Cecília, tá ótimo!

ROSA - Verdade? Pois se tiver que escolher entre as duas, a casa da minha mãe é bem mais agradável.

CAMPELO - Agradabilíssima! Nunca vi tanta gente animada num só ambiente. Seria bom que ao invés de missa do galo, o nome fosse missa do rinoceronte, porque só mesmo um rinoceronte entrando desembestado por aquela sala poderia promover algum agito.

ROSA - Talvez o interessante mesmo seja seu irmão, ano após ano, vestido com aquele Papai Noel desbotado tentando animar as crianças, não? Oh, é realmente fascinante! Tudo o que conseguiu foi fazer um bebezinho chorar quando a barba despencou. Faça-me um favor, Campelo!

CAMPELO - Sabe o que é cultura? Se sabe, deveria perceber que ele bota a roupa não só pra entreter as crianças, mas também pra explicar como nasceu a tradição da festa do natal. Tenho certeza que você não sabia que antes de 1900 a roupa do Papai Noel era de cor marrom ou verde escura.

ROSA - Não imagino o que seria de mim se morresse sem saber isso!

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CAMPELO - Não só isso como também que foi Lutero que criou a tradição da árvore; São Francisco de Assis, a tradição do presépio e o papa Nicolau a figura de Papai Noel.

ROSA - Eu vou pedir a uma amiga assanhadinha que eu tenho pra explicar direitinho ao seu irmão o que é papanicolau. Vai ver como num instantinho ele para com essa mania de se fantasiar de espantalho.

CAMPELO - Você reclama mesmo é de barriga cheia. Tanto é de barriga cheia que quando saímos de lá não quis comer mais nada na casa da sua mãe. Apesar de que na casa da sogrinha a festa é mesmo de tirar o apetite.

ROSA – Sim, o ideal era dar uma de esfomeada feito as suas primas.

CAMPELO - Aliás, foi muito interessante o seu tio dando várias dicas de quem ele tirou no amigo oculto quando faltava apenas uma pessoa pra receber o presente. Tenha dó, né!?

ROSA – É mesmo? Aliás, você tem conhecimento de que o presente que você recebeu custa três vezes mais do que o que você deu?

CAMPELO - Naquele sofá então a conversa mais parecia sala de espera da geriatria. Foi um tal de dor aqui e dói acolá... e tomem a falar nome de remédio que nem farmacêutico deve conhecer. Como se não bastasse, de 5 em 5 minutos sua tia-avó olhava pro presépiio vazio e repetia: "Eu quero ver Jesus, eu quero ver Jesus".

ROSA - Se você não sabe, toupeira, o certo é colocar o Menino Jesus depois da meia-noite.

CAMPELO - Eu não sei se depois da meia noite ou se do meio-dia: o que sei foi que aquilo foi me dando nos nervos de tal maneira que eu cheguei no ouvido dela e disse: "Relaxa vovó! Não demora muito e a senhora irá vê-Lo pessoalmente"!

ROSA - Você é ridículo!

CAMPELO - Ainda bem que passo por isso apenas uma vez por ano. Minha maior preocupação é se Jesus Cristo resolver inovar nos milagres e começar a nascer três vezes num ano só.

ROSA - Escuta aqui, Campelo; se você tirou justamente a noite de Natal pra querer me tirar do sério, passe em outra data, viu?

CAMPELO - Estou apenas fazendo alguns comentários sobre as minhas impressões desta noite.

ROSA - Tá certo! Mas a noite já foi e já é madrugada. Preciso ir dormir porque amanhã eu é que vou pegar nossos filhos na casa da minha mãe enquanto

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você fica de papo pro ar.

CAMPELO – Então você já vai dormir assim, sem mais nem menos...?

ROSA – Assim como estou é claro que não. Naturalmente vou tomar um banho e trocar de roupa.

CAMPELO - E por acaso não está se esquecendo de nada?

ROSA - Pode ser, mas se me esqueci é porque não me lembro. O que seria?

CAMPELO - Ouvi dizer que Papai Noel deu a você um lindo colar de ouro, certo? E pra mim? Será que ele não trouxe nada?

ROSA - Pelo que eu saiba, as comemorações do Natal duram 12 dias. Tempo esse em que os três reis Magos levaram para encontrar e presentear a criança. Isso é cultura, seu irmão não lhe disse nada? Boa noite! (sai)

CENA 5 - ROBERTO ENTRA EM CASA E DÁ UM BEIJO NA CABEÇA DE HELENA. ELA RECUA

ROBERTO - O que há?

HELENA – Seu sonso! Não me venha com essa de beijar minha cabeça.

ROBERTO - O que houve Helena? Pirou?

HELENA - Não, eu não pirei nem um pouco. Ao contrário, estou bem consciente de tudo.

ROBERTO - Consciente como?

HELENA – Tonto! Não sabe o que significa estar consciente?

ROBERTO - Cacete! Então já fizeram fofoca!? Deus do Céu! O que não falta é gente venenosa neste mundo! Não seja ingênua, Helena! A Berenice é um dragão! Quero dizer; é uma garota muito legal, mas não tem nada que possa me atrair nela!

HELENA - Que Berenice?

ROBERTO - A Berenice... a menina que eu dei carona agora, no final do expediente...

HELENA – Berenice!?

ROBERTO - Bem... não é sobre isso que você está com essa cara?

HELENA - Que história de Berenice é essa, Roberto? Que papinho furado de

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carona foi essa, seu ordinário!?

ROBERTO - Caramba... Olha, Berenice é uma estagiária lá do trabalho que mora no subúrbio ou algo assim... Então ela me perguntou se eu poderia lhe dar uma carona até um ponto de ônibus, foi isso.

HELENA - Sim, e daí?

ROBERTO – Ora, daí que eu dei essa carona a ela... coisa de dez, doze minutos.

HELENA - Veja só como você gagueja, cretino!

ROBERTO - Calma, Helena! Tá tudo muito confuso... Eu não sei então porque você está com essa cara, mas deixa primeiro eu falar sobre a carona... A Berenice é uma menina simpleszinha que está estagiando lá na empresa. Quero dizer.. simpleszinha assim, meio feinha, meio sem grana. Daí quando ela soube que eu estava de carro, me pediu uma carona pra não ter que pegar duas conduções, entendeu agora?

HELENA - Você me paga, Roberto! Ah, se não me paga!

ROBERTO – Ah, é? Então ouça bem; amanhã eu faço questão que você vá até a empresa pra eu lhe mostrar quem é essa menina, ouviu bem?

HELENA - Pode ter certeza disso! E ainda chego meia hora antes de você e do dragão!

ROBERTO – Também não precisa chamar a menina assim...

HELENA – Olha como você se ofende, patife!

ROBERTO – Misericórdia, Senhor! Caramba, Helena, será que agora eu posso saber por que você está aí com essa tromba desde que eu pisei em casa?

HELENA - Digo sim, camaleão! Mas não pense que eu vou engolir a historinha dessa sirigaita, entendido?

ROBERTO - Tá bom, tá bom! Então diga o que há porque eu quero tomar meu banho!

HELENA - Não imagina? Então você já esqueceu o rebu que aprontou ontem na hora da janta?

ROBERTO - Não, Helena, não esqueci. Mas convenhamos que não seja nada agradável encontrar um fio de cabelo na comida logo na 2a garfada, não é?

HELENA - E o que você fez agora quando chegou em casa?

ROBERTO - Agora o que? Quando entrei?

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HELENA - Isso! Assim que entrou!

ROBERTO - A Berenice?

HELENA - Que Berenice, seu cachorro!? Quem tá falando mais nessa vadia?

ROBERTO - Cacete! Você bebeu? Consumiu algum narcótico?

HELENA - Você quis beijar minha cabeça, não foi isso?

ROBERTO - Hã...? Sim, foi isso! E dai?

HELENA - E qual o motivo da discussão de ontem? Não foi pelo fio de cabelo, seu estupor? E então? Como você pode ter nojo de apenas um fio e depois querer beijar vários fios ao mesmo tempo?

ROBERTO - Ah, não, Jesus Amado! Não acredito!

HELENA - Acredite sim! E acredite ainda mais. Acredite que eu levei aquele fio de cabelo pro laboratório, junto com um fio que tirei da minha própria cabeça. E reze, Roberto; reze para Jesus Amado que um fio seja compatível com o outro, entendeu bem!?

ROBERTO - Como assim? Você enlouqueceu?

HELENA - Ontem você não teve a necessidade de chegar do trabalho ir direto pro banho, lembra? Mal chegou, lavou as mãos e foi jantar. Quem me garante que aquele fio de cabelo não tenha caído do seu próprio blusão que uma Berenice qualquer possa ter encostado a cabeça?

ROBERTO - Sinceramente...! Quando a gente pensa que já viu de tudo...

HELENA - Eu chego uma hora e meia mais cedo do trabalho, depois de enfrentar um Metrô lotado, justamente pra preparar o seu jantar! Vá que amanhã ou depois, no meio da viagem, a cabeça de algum homem encoste acidentalmente em meu vestido e também solte um fio de cabelo!?

ROBERTO - Sei.. e o que você quer dizer com isso?

HELENA - Não muita coisa. Apenas que nosso casamento pode estar por um fio.

CENA 6 - PAULO CHEGA EM CASA ANSIOSO, DIRIGINDO-SE À LUISA

PAULO - E então, meu bem?

LUÍSA - (rindo) E então o que?

PAULO - Como então o que? Não brinque, vai! Pela sua voz ao telefone eu já

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entendi a resposta.

LUÍSA - Se já entendeu, por que pergunta?

PAULO - Verdade mesmo!? E é menino ou menina?

LUÍSA - (gargalha) Não seja tolo! Só tem 9 semanas.

PAULO - Sim, claro... mas o que a médica falou?

LUÍSA - (exultante) Ela falou que eu estou grávida, ora! Estou grávida!

PAULO - Estamos! (abraçam-se)

LUÍSA - Cheguei a sentir meus pés fora do chão quando ela me confirmou. Ainda não contei pra ninguém porque queria que você soubesse primeiro.

PAULO - Disfarçou mal. Saí do expediente e vim voando pra casa.

LUÍSA – Desvairado! Bonito seria sofresse um acidente e já deixasse o menino órfão.

PAULO - Vou te contar uma coisa e não quero que me leve a mal: somente agora eu percebo que minha vida mudou de fato. O nosso casamento não foi o suficiente para que eu tivesse essa sensação.

LUÍSA – E eu também acabo de perceber que agora só me preocupo mesmo com meu próprio umbigo. (risos) Nada mais de ter ciúmes bobos, de vasculhar seus bolsos, contatos telefônicos, cheirar seus blusões...

PAULO - O que? Então você fazia isso?

LUÍSA - "Fazia", disseste bem! O tempo do verbo mudou no instante em que eu saí do consultório.

PAULO - Vê lá se tem cabimento! Como coisa que eu iria deixar alguma pista assim, tão à mostra.

LUÍSA – Peralá! Então você quer dizer que sabe aprontar sem deixar vestígios, é isso?

PAULO - Não estou dizendo nada disso! Quero dizer apenas que é muita ingenuidade um marido, qualquer que seja ele, trair a mulher e se permitir ser descoberto tão facilmente.

LUÍSA - Só por ter esse tipo de pensamento já mostra que a ação não deve estar muito longe do imaginado! Está claro que você não condena o ato, condena a displicência. Afasta daqui, vai!

PAULO – Ah, não! Só espero que você não queira arranjar motivo numa hora

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dessas. Além do mais os pais nunca devem discutir perto das crianças.

LUÍSA – Que criança, Paulo?

PAULO – Como que criança? Você está ou não está grávida?

LUÍSA – Claro que estou, mas de 9 semanas, não ouviu?

PAULO – Não importa! Tudo faz parte de um processo. Eu, você e toda a humanidade já tivemos também 9 semanas. E então? Não estamos aqui? Quem assegura que não trazemos consequencias de 9 semanas ou até menos que isso?

LUÍSA – Tá bom. Para por aí! Só quero que você perceba que a responsabilidade mudou e que eu não tenho vocação pra ser mãe solteira, está claro isso?

PAULO - Sim, está tão claro como a certeza que eu tenho de ser um menino. Já o vejo até engatinhando por esta sala.

LUÍSA – Bebês meninas também engatinham, sabia?

PAULO – Claro que sei. Só quero dizer que tenho a intuição de que seja um menino, pode anotar. Pensa aí em João, Arthur, Wagner, Bernardo... (pausa) Peraí, a Mariana!

LUÍSA – Mariana pra menino?

PAULO – Não, não é isso! Mariana é o nome de uma empresária que eu fiquei de fechar negócio alguns meses atrás, mas não encontrei mais o cartão dela. Ou seja; devo ter deixado no bolso da calça...

LUÍSA – Mariana Soares da Costa? Sim, já foi pro lixo há muito tempo.

PAULO – Sério? E você acha isso certo, Luísa?

LUÍSA – O que eu não acho certo é lembrar nome de Mariana em pleno momento de imaginar um nome pro filho. Isso sim!

PAULO – Eu me lembrei do nome de um contato que poderia implicar em um conforto melhor pra esse mesmo filho.

LUÍSA – Contato de alguns meses sendo que eu só estou grávida há 9 semanas! Sei...

PAULO – Já lhe disse que não se deve discutir perto das crianças. (vai até a barriga de Luísa). Está tudo bem, viu meu bebê? Papai não está brigando não.

LUÍSA – Pronto, já alisou demais! Agora me deixe um pouco em paz, vai!

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PAULO – Calma, volte aqui com essa criança! Acho até que já senti um chute.

LUÍSA – Não, você ainda não sentiu chute nenhum, mas pode não demorar nada, nada pra sentir!

PAULO – Ou seja; você silenciosamente toma uma atitude arbitrária de destruir um contato meu e como se não bastasse quer se fazer de vítima?

LUÍSA – Não estou me fazendo de vítima coisa nenhuma, mas quer saber o que está me deixando mais furiosa? É que da clínica pra cá eu vim pensando em vários nomes de menina. E sabe qual o único que me caiu no agrado? Pois é! Justamente Mariana que agora eu não quero ouvir nem que me paguem.

PAULO – Quanta bobagem! Uma coisa não tem nada a ver com a outra. Mas vamos por um fim a essa discussão e fazer um acordo: se for menino eu escolho o nome; se for menina você escolhe, está bem?

LUÍSA – Haverá de ser menina!

PAULO – Perfeito! Então pense em um nome, qualquer que seja, sem eu ter direito de dar palpite.

LUÍSA - Sei lá, gosto muito do nome da minha mãe.

PAULO - (perplexo) Como é que é!??? (deixa-se desmaiar sobre o sofá)

CENA 7 - ROBERTO E HELENA NO QUARTO, JÁ DE PÉ. ELE JÁ ARRUMADO, ELA AINDA NÃO

ROBERTO - Meu bem, vê se não demora muito no banho pra gente poder chegar lá ainda pela manhã.

HELENA - Claro que é pela manhã, senão as crianças não irão aproveitar nada. O evento não acaba meio dia?

ROBERTO - Em ponto! (com uma peça de roupa) Olha aqui, que tal você ir com esse conjunto? Nunca mais te vi usar isso.

HELENA - Não, eu já separei aquele vestido lilás desde ontem.

ROBERTO - Que vestido? O mesmo que fomos ao cinema há duas semanas? Por que não o conjunto?

HELENA - Que que há? Virou estilista agora? Deixa que eu sei com o que me vestir. O cinema fica pra oeste, nós estamos indo para o leste. Pronto! Ninguém que me viu com ele de um lado vai me ver no outro.

ROBERTO - Tá bom, foi só uma sugestão.

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HELENA - Aliás, gostaria de sugerir também que você fosse à farmácia e comprasse um energético. Não um energético comum, mas algum específico pra dar mais energia ao homem, compreende?

ROBERTO - Não, não faço a menor ideia do que você está dizendo.

HELENA - Ah, não? Pois eu sei perfeitamente o que você quer insinuar quando me diz pra usar esse conjunto! Você sabe que ele não cabe mais em mim. Você quer dizer que eu engordei e fica jogando essas indiretas!

ROBERTO - Como? Eu quero dizer coisa alguma! Tá louca, Helena? Engordou onde? Você está com o mesmo corpo de sempre. Que neura!

HELENA – Saiba que eu poderia muito bem pagar academia pra me manter em boa forma, mas prefiro evitar maiores despesas em benefício da casa e das crianças. Aí me vem você, de provocação, justo na hora de um passeio de domingo?

ROBERTO - Mas é você que está dizendo que engordou! Eu não percebi nada! Vai ver nem engordou. A roupa pode ter encolhido quando foi lavada, sei lá!

HELENA - Não coloque a culpa na máquina de lavar porque o espelho e a balança estão aí pra me mostrarem a dura realidade.

ROBERTO - Olha, Helena, esqueça então o que eu disse e vamos fazer uma coisa: tome um banho relâmpago, coloque o vestidinho lilás que realmente é lindo e vamos logo sair com as crianças antes que percamos o horário, está bem?

HELENA - Eu não vou mais a lugar nenhum, está entendendo!? Você é mesmo um estraga prazer. Vá! Pode comemorar porque conseguiu o que queria. Provavelmente planejou mesmo me deixar pra baixo pra talvez ir atrás de alguma lambisgóia vinte quilos mais magra do que eu.

ROBERTO - Deixe de absurdos! Será possível? Ouça bem; as crianças estão ansiosas desde o meio de semana por esse passeio. Se por vaidade de 5 ou 6 quilos a mais você...

HELENA - Quatro, seu pulha! Eu engordei 4 quilos!

ROBERTO - Não importa! Que fossem 15! Se por causa de vaidade de corpo você frustrar o sonho das crianças, coloque bem a mão na consciência pra perceber quem está sendo estraga prazer!

HELENA - Vá você com elas. Ou será que sozinho você não consegue cuidar dos próprios filhos?

ROBERTO - Bem, não vou ficar aqui discutindo. Vou sair e volto em vinte e cinco minutos que é tempo mais que suficiente de você já estar pronta de lilás

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ou o que quer que seja!

HELENA – Como assim vai sair? Será que vai dar um jeito de desmarcar o planejado com alguém?

ROBERTO - (pausa) Não... vou apenas dar um pulo até a farmácia e já volto. (sai)

CENA 8 - LUÍSA FALA AO TELEFONE

LUÍSA - ... Claro que eu me Lembro, Raquel! Ele era da 8a série naquela época, não é isso? Poxa, que barato! Um nem olhava pra cara do outro e agora noivos!? Só rindo! A Nanda sempre foi louquinha mesmo! Quem? Lembro sim! Tava lá também...?

PAULO ENTRA EM CENA MEIO APRESSADAMENTE

PAULO - Oi, meu bem, eu ...

LUÍSA - Ah, Raquel, o Paulo acabou de chegar.. Hein? Não, tá a mesma coisa. Isso, daquele mesmo jeito... se engordou foi dois ou três quilos. Ah, claro, mas eu também faço...

PAULO - Luísa, eu preciso falar rapidi...

LUÍSA - Conheço, mas agora eu tô na dieta de legumes. Isso! Dura cinco dias. Só legumes, cereais e verduras. Nem fruta entra. Bem, comecei ontem, né, mas já estou sofrendo por um bombom.

PAULO - Escuta, Luísa, eu só quero...

LUÍSA - Um minutinho, Raquel! Meu bem, lembra da Raquel? Aquela minha amiga que...

PAULO - Lembro, lembro sim. Aquela do carnaval, não é? Mas escuta; eu só quero te...

LUÍSA - Raquel, o Paulo está te mandando um beijo!

PAULO - Que beijo coisa alguma. Vê se larga um pouco esse...

LUÍSA - Ó, mandou outro pra você. Sim, mas fale dessa dieta... Dieta do tipo sanguíneo? Como é isso? Sério? Oito quilos!? Poxa, me passa a cópia disso com urgência!

PAULO - Impressionante! Não consigo achar uma vírgula pra interromper.

LUÍSA - Você conhece isso, Paulo?

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PAULO - Isso o que? O telefone?

LUÍSA - O meu é O positivo. Envia pra mim por e-mail o que eu devo comer. Pessoalmente quando? Ótimo, na próxima sexta eu tô livre!

PAULO – Pronto! Já marcou então desliga!

RAQUEL - Como assim? Chateada com que? Ora, Raquel, procure conversar com ele! Relação tem que ter diálogo!

PAULO - Sabe onde tem uma caneta nessa casa?

LUÍZA APONTA PRA UMA DETERMINADA DIREÇÃO

LUÍSA - Claro! Se vocês não conversarem a coisa não fica legal. Tá bom, depois me conta tudo com calma. Perfeito, às sete e meia está ótimo! Espero você no piso que tem a loja Bolsas e Acessórios, conhece? Isso! Lá tem uma promoção incrível da bolsa da novela. Igualzinha! Aliás o capítulo de hoje vai pegar fogo, não acha?

PAULO PEGA UMA CANETA, RABISCA EM UM PAPEL QUALQUER E SAI

LUÍSA - Eu também. Assim que acaba eu desligo e vou dormir. Tá bom, eu também tenho que dar uma atenção aqui ao maridão. Fica então confirmado às sete e meia. Beijos, amiga! Até sexta!

LUÍSA DESLIGA. OBSERVA O BILHETE NA MESA

LUÍSA - "Meu bem, só vim te dar um beijo porque tenho uma reunião daqui a 20 minutos." O que!? Beijo por escrito? Ah, não! O Paulo não pode estar falando sério! Deixa ele comigo!

PEGA NOVAMENTE O TELEFONE

LUÍSA – Alô, Raquel, ainda está aí...!?

CENA 9 - CAMPELO ASSISTE AO FINAL DE UM JOGO NA TV. ROSA SE APROXIMA COM UMA REVISTA NA MÃO

ROSA - Já acabou o jogo, Campelo? (pausa) Campelo, está me ouvindo? Já acabou esse jogo?

CAMPELO - Peraí, Rosa! Não percebe que eu ainda estou vendo? Como já acabou? Chuta logo essa bola, Bertoldo!

ROSA - Falta muito?

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CAMPELO NÃO RESPONDE. ROSA OBSERVA UM POUCO E DÁ MEIA VOLTA

CAMPELO - Isso é pênalti, juiz ladrão! Por que só deu escanteio, seu crápula?

ROSA - Até hoje eu não sei o que é escanteio em futebol. (afasta-se folheando a revista)

CAMPELO - Vai lá, Alfredo! É o último minuto. Bota essa bola pro Marquinho! Isso, limpa, chuta! Crápula!!! Recupera, Bertoldo! Sem falta, sua anta! Sem falta! Imbecil, olhaí! Acabou o jogo!!!

ROSA REAPARECE

ROSA - Quer que eu pegue mais um cerveja?

CAMPELO - (áspero) Não, não quero nada! Eu tenho braços e tenho pernas. Se eu quiser me levanto e pego.

ROSA - Grosso! Será que dá pra conversar agora ou ainda vai ter mais jogo?

CAMPELO – Haja paciência! Conversar o que Rosa? O que você quer conversar?

ROSA - Olha só como você está falando? Percebe? É sobre isso mesmo que eu quero falar.

CAMPELO - Isso o que? Que você tá a fim de torrar os meus miolos? É isso?

ROSA - Não, Campelo, não é isso, mas pode ser quase isso mesmo. Veja bem, eu estava vendo aqui na revista uma matéria sobre relacionamento de casais. Tem um assunto que os psicólogos chamam de Síndrome de Comportamento de Hospedagem. Sabe o que é isso?

CAMPELO - Não Rosa, não sei o que é, não faço a mínima ideia do que seja, acredito que vou ser muito mais feliz se continuar não sabendo e sugiro que você cancele a assinatura dessa revista.

ROSA - Essa síndrome vai distanciando o casal aos poucos e cada um passa a agir de forma independente dentro de casa, se comportando como se fosse um hóspede.

CAMPELO - Tenha a bondade, não!? E agora é hora de falar sobre isso?

ROSA - E por que não? Se a gente não puder conversar num domingo à tarde que outro dia e horário será melhor?

CAMPELO - Por mim pode ser de 2a pra 3a feira, às três e quarenta e sete da manhã, tá bom assim? Vai ser bem melhor do que discutir isso justamente agora que você sabe que o miserável do meu time perdeu a decisão,

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compreende?

ROSA - Aqui diz que uma boa conversa entre o casal logo que se perceber o princípio do problema é um grande passo pra buscar auxílio e evitar o desenvolvimento da síndrome.

CAMPELO - Rosa, você está mesmo falando sério ou só quer me provocar?

ROSA - Como não estaria falando sério, Campelo? Está tudo aqui! Você agora deu mostras de atitude independente quando disse que tem pernas e braços pra ir buscar a cerveja. Antes você não dizia assim.

CAMPELO - Tá bom, Rosinha, então, por favor: me traga duas latas de cerveja bem geladas, uma porção de queijo minas com azeite, orégamo e salaminho, além de quatro folhas de papel toalha, está bem?

ROSA - Não porque eu não sou sua empregada.

CAMPELO - Santo Deus! O que essa mulher quer afinal de contas?

ROSA - Não seja rude, Campelo! Aqui explica que a frieza vai provocando o distanciamento e que as tarefas domésticas, por exemplo, que antes eram divididas, vão sendo deixadas para o outro cuidar.Cadê que você nunca mais lavou a louça?

CAMPELO - Olha, eu tive uma ótima ideia! Que tal se a gente continuar essa conversa amanhã à noite, na hora da novela?

ROSA - Por mim não tem problema. Considero que o nosso casamento seja mais importante do que a novela ou do que o gol que o Aroldo perdeu.

CAMPELO – Bertoldo! Aquele pulha se chama Bertoldo!

ROSA – Não importa! Você acha que teve um bom vínculo de afetividade na infância?

CAMPELO - O que!?

ROSA - O estudo diz que a síndrome pode nascer na formação da personalidade ainda na infância. Se acaso a pessoa não tiver formado um bom vínculo afetivo na infância, pode encontrar dificuldades nas relações futuras.

CAMPELO - É mesmo? Não me diga!? Deixa eu dar uma olhada nessa revista aqui, vai. (pega)

ROSA - Tá aqui na página 20, olha!

CAMPELO - Não, eu não quero ler sobre essa síndrome de hóspede sei lá de que diabo, não. Deixa eu achar o horóscopo aqui no final. Pronto, achei!

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CAMPELO LEVANTA-SE E, EM VOZ ALTA, FINGE LER O HORÓSCOPO, CAMINHANDO EM DIREÇÃO À PORTA

CAMPELO - "Leão: a lua está em marte e marte está no sol e o sol está em júpiter. Essa junção faz com que você deixe de ir assistir ao jogo no boteco com seus amigos pra ficar em casa com a sua mulher, mas corre um sério risco de sofrer uma senhora encheção de saco sem precedente na História. Isso costuma deixar o Leão nervoso, o Leão sedento, o Leão querendo tomar todas pra não explodir". Pronto, já li! (joga a revista no sofá) Vou até o boteco! (bate a porta. Reabre logo em seguida) Ah, prometo que quando voltar lavo toda a louça! (sai).

CENA 10 - ROBERTO ESTÁ SENTADO NO SOFÁ, DESOLADO. HELENA APROXIMA-SE

HELENA - É hora de recobrar o ânimo, não?

ROBERTO - Sei disso... Lamento que ele não possa ter acompanhado o crescimento dos netos que era o que mais queria.

HELENA - Eu entendo, Roberto. Claro que é duro, mas sabemos que existem situações bem piores. Ele ao menos teve a satisfação de criar você e seus irmãos, vê-los casados... Enfim, são tantos por aí que não tiveram isso.

ROBERTO - Sim... mas que é difícil, é.

HELENA - Por outro lado eu fico pensando... Se não fosse a morte, que outro evento poderia dar um basta à soberba humana?

ROBERTO - Como assim?

HELENA - Estava há pouco olhando para o céu e vi como a noite está estrelada e como está lindo o brilho da lua. Pense bem, se fosse a primeira vez que a lua e as estrelas aparecessem, causaria um grande assombro na humanidade, não é mesmo? Ficaríamos desnorteados com tamanha grandeza e esplendor, mas como o céu se apresenta assim há eras, pouca importância damos.

ROBERTO – É natural, não? Não há como alguém ficar abismado a cada noite estrelada como se nunca tivesse visto o céu assim antes.

HELENA – Sim, mas quando é um meteoro que cruza o céu, todos se encantam e fazem até pedidos secretos. Quantas vezes maior não é o Universo que ali está do que o meteoro que risca o céu em segundos?

ROBERTO – Meteoros são coisa rara, então todo mundo quer testemunhar aquele momento.

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HELENA – Natural é o céu estrelado, assim como natural deveria ser a morte. Os dois fenômenos ocorrem desde que o mundo é mundo, sendo a morte ainda mais frequente. Uma cidade nem sempre terá o céu estrelado, mas provavelmente não deixará de contar seus mortos naquela mesma noite. E então? Por que não encararmos a morte com a mesma naturalidade com que fechamos a janela para uma noite estrelada?

ROBERTO - Eu não sei onde você vai buscar essa filosofia, mas entendo que seu desejo é me confortar. Isso já vale muito. Só que no final das contas a incerteza permanecerá sempre.

HELENA – Sempre, Roberto. E creio que essa incerteza que a morte nos traz seja pra fazer a humanidade mais humilde. O homem ousa desbravar florestas, ir ao fundo do oceano, explorar planetas ou onde quer que imagine, mas sempre irá com a possibilidade da volta. A morte não! A morte nem exige muitas investidas. Às vezes um simples comprimido com meio copo dágua é a chave. Mas e aí? Com toda a ousadia humana quem se atreve a consumi-lo? Quem se aventura ao cadafalso quando se sabe que a falta de chão anuncia o desconhecido?

ROBERTO – Enquanto você olhava as estrelas eu pensava exatamente se existe um outro lado. Se neste momento meu pai ou quem mais tenha partido já viu descortinado todo o conhecimento; se todas as interrogações se diluíram... E se não? E se não houver conhecimento algum ou nada a se experimentar a partir daí?

HELENA – Pois então, são essas interrogações que nos apequenam. Vamos tomar um café?

ROBERTO - Vamos. Deixa que eu mesmo preparo.

HELENA - Claro! Depois vamos até a varanda olhar o céu. É impressionante o mistério que se deu esta noite! Há infinitas luzinhas azuis e uma grande bola branca suspensa.

SAEM ABRAÇADOS

CENA 11 - CAMPELO ENTRA EM CASA DESORIENTADO

CAMPELO - Rosa...! Diga uma coisa: que garoto é aquele que está lá na frente conversando com a nossa filha?

ROSA - Quem? O Fernando?

CAMPELO - Que Fernando?

ROSA - Não foi isso o que você perguntou? O nome do menino?

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CAMPELO - Sim, pouco me importa o nome dele. Quero saber o que ele faz conversando com nossa filha!

ROSA - Você já traz a resposta na própria pergunta. Conversando, meu bem. Você não viu? Estão conversando.

CAMPELO - Sim, conversando com um olhar derretido, com palavras suaves e com um sorriso constante. Pensa que eu não percebi? Pensa que eu não sei o que é isso? Nossa filha é uma menina, Rosa. Uma criança.

ROSA - Pois é, e eu já sei que aquele menino é apenas um ano mais velho que ela. Deixe que as crianças brinquem. Não era assim que você me dizia quando eu ficava preocupada com ela no parquinho?

CAMPELO - Sabe o que mais me aborrece? É que você tá debochando de mim. Aliás, o que mais me aborrece é saber que você está sendo cúmplice. Quando eu passei dei um boa noite por educação, mas logo percebi o desconcerto nele que imediatamente denunciou as intenções. Aliás, ela também mal olhou nos meus olhos. Resmungou apenas um "oi pai"!

ROSA - (rindo) Ora, ora! Veja só o Don Juan ferido de escopeta. Sim, eu digo de escopeta porque de flecha foi ferido há quase 30 anos. E ali também ia ao meu encontro, também temia meu pai e também se desconcertava ao vê-lo. Eis que chega a hora de refletir sobre todos os queixumes e praguejos que proferiu contra o meu pobre pai, não?

CAMPELO - Não queira confundir as coisas. Na nossa época era diferente. Havia mais zelo, mais cordialidade, melhor conduta... não essa coisa abrupta dos dias de hoje. Veja só; então um sujeitinho mal resolve se engraçar pela nossa filha e logo se dá ao direito de vir parar na porta da nossa casa?

ROSA - E quer lugar mais seguro e agradável onde uma moça possa conversar com um galanteador do que na porta de sua própria casa? Além do mais ele não "mal se engraçou" como você se refere. Ele conhece a nossa princesa há pelo menos 3 meses.

CAMPELO - Como você sabe disso?

ROSA - E como não saberia? E os bilhetes que ele já mandou pra ela? E as vezes em que vieram andando da escola até deixá-la no portão? E os telefonemas? A diferença é que ele só fazia isso nas horas em que o Leão da Mesopotâmia não estava em casa.

CAMPELO - Que história de Leão da Mesopotâmia é essa?

ROSA - É o apelido que eu coloquei em você uma vez em que ele telefonou à noite. Percebi que ficou preocupado, mas logo o tranquilizei dizendo que o Leão da Mesopotâmia ainda não havia chegado. Pronto, o apelido pegou.

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CAMPELO – Como!? Isso é simplesmente ridículo e uma total falta de respeito! Então você esconde de mim os passos da nossa filha e ainda fica de gracejo me colocando apelido?

ROSA - Ora, quer apelido mais nobre do que esse? Ou prefere Nabucodonossor? Deixe de bobagens, Campelo! O que você sente são ciúmes por ver sua filha crescer e não mais correr para os seus braços pedindo colo; ciúmes porque ao invés de lhe perguntar se trouxe balas, lhe dá apenas um "oi, pai"! Ao invés de ciúmes, você deve sentir orgulho. Orgulho por chegar o momento de sua filha se enamorar tal qual um dia você se enamorou e também teve medo do Tigre do Egito.

CAMPELO - Que tigre do Egito?

ROSA - Ah, já se esqueceu? Foi esse o apelido que minha mãe deu ao meu pai na época em que você rondava a minha casa. Era divertido, não?

CAMPELO - (desconcertado) Bem, eu vou tomar um banho e continuaremos a falar sobre esse assunto antes mesmo do jantar.

ROSA - Ótimo, vá sim refrescar a cabeça. E quando sair do banho eu vou fechar a porta do quarto. Daí quero que você me olhe com um olhar derretido, que me diga palavras suaves e que tenha no rosto um sorriso constante.

CAI A LUZ

CENA 12 - COZINHA. PAULO FALA AO TELEFONE, SERVINDO-SE EM PÉ O CAFÉ DA MANHÃ

PAULO - Sério? Quem diria!? E o que vão fazer com o enxoval? Leiloar?

LUÍSA ENTRA EM CENA BEBENDO UMA XÍCARA DE CHÁ.

PAULO - Tá bom, mais tarde eu te ligo na hora da pelada. Té mais! (desliga)

LUÍSA - O que tem a ver aí com enxoval?

PAULO - Lembra do casamento do Macedo com a Rita há pouco menos de um ano?

LUÍSA - Que Macedo?

PAULO - Aquele que usa cavanhaque.

LUÍSA - Ah, sim! O que tem eles? Não me diga que separaram!?

PAULO - Digo! Semana passada. O apartamento ficou pra ela e ele está vendo um lugar pra morar.

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LUÍSA - Que coisa! E eram noivos há mais de seis anos, não é isso? Coitada da Rita!

PAULO - Coitada da Rita por quê? Por que não coitado do Macedo?

LUÍSA – Depende. Por qual motivo eles se separaram?

PAULO - E eu sei lá! O que isso importa?

LUÍSA - Porque se ela aprontou alguma, será coitado dele, mas se foi ele que aprontou - o que é muito mais provável - a coitada será ela.

PAULO – E por que alguém tem que ter aprontado? Não podem ter se separado por algum outro motivo?

LUÍSA – Depois de seis anos de noivado é dífícil separar assim tão rápido sem que o motivo não seja o pular de cerca.

PAULO – O que importa é que separaram. Que mania querer ir fundo na notícia! Basta ler a manchete e pronto: tá lido o jornal!

LUÍSA - Importa sim, e muito!

PAULO - Se eu disse que ela está no apartamento recém mobiliado e ele no olho da rua, você vem me dizer que a coitada é ela?

LUÍSA - Então você acha que o apartamento é tudo?

PAULO - Se é tudo eu não sei, mas vai ver foi por isso que ela aceitou se casar com ele.

LUÍSA – Que absurdo! Veja só como você está sendo machista e leviano ao insinuar que ela se casou por interesse!

PAULO – E você feminista e leviana ao insinuar que ele tem uma amante.

LUÍSA – Não estou insinuando nada, estou deduzindo. Até porque se ele aceitou a condição de sair do apartamento já pode ser um indício de que a consciência pesou.

PAULO – (anunciando a manchete) Aquele momento ilustre na gramática da língua portuguesa quando o verbo insinuar se transforma no verbo deduzir.

LUÍSA – Vai pro inferno, Paulo! Mesmo sem ter convivido com a Rita eu me solidarizo com ela sim porque me pareceu uma moça super tranquila.

PAULO - Engraçado que vocês mulheres são muito solidárias à distância, mas quando por perto mordem os calcanhares umas das outras.

LUÍSA - A verdade absoluta é que as mulheres costumam sofrer mais do que

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os homens com a separação porque são mais sensíveis e geralmente quem mais sofre as consequencias. Ainda quando se tem filhos! Por isso me solidarizo quer seja com Rita, quer seja com Ruth!

PAULO – Sim, mas não tinham filhos. Só tinham mesmo um apartamento bem crescidinho.

LUÍSA – Vá pro diabo você, ele e o apartamento.

PAULO – (pega algumas torradas) Luísaa, deixa eu tomar meu café sossegado e chega de lero-lero, vai.

LUÍSA – E saiba que não me solidarizo somente à distância coisa nenhuma porque soube que a Lucimara também está pra se separar do Rodolfo.

PAULO - Que Lucimara? A vizinha da casa verde? Coitado do Rodolfo!

LUÍSA - Se isso foi uma tentativa de piada queira me prevenir pra eu poder gargalhar.

PAULO - No mínimo foi por causa da intrigueira da irmã dela, não?

LUÍSA - Não sei. Apenas li a manchete.

PAULO - Bem, mas pelo menos eles já têm doze ou treze anos de casados, não é isso?

LUÍSA - E daí?

PAULO - Já é um tempinho, ora!

LUÍSA - Paulo, você percebeu bem o que está dizendo?

PAULO - Como assim?

LUÍSA - Você sabe quantos anos nós temos de casados? Talvez não saiba mas eu lhe digo; dez anos! Uma dezena de anos, entendeu? Ou seja; você está indiretamente dizendo que daqui a dois ou três anos já vai estar de bom tamanho, não é isso?

PAULO - Pare de bobagem, mulher! O que eu quero dizer é que o Macedo e a Rita não completaram nem um ano. Então, comparando uma coisa com a outra eu quis dizer que...

LUÍSA - Não queira dizer mais nada pra não se complicar ainda mais! O que você quis dizer, dito já está!.

PAULO – Luísa, vê se para de tempestade e vamos nos sentar pra tomar esse bendito café da manhã em paz, pode ser!?

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PAULO SENTA-SE. LUÍSA PERMANECE DE PÉ, IMPACIENTE

PAULO - Passe pra mim essa panqueca, vai?

LUÍSA - Claro! (abre o armário da cozinha) Tome aqui isso, isso e mais isso!

LUÍSA ENTREGA-LHE FARINHA, OVOS, MANTEIGA, ETC

LUÍSA - Tome! São os ingredientes da panqueca. Vá aprendendo a fazer. É bem provável que daqui a dois ou três anos isso lhe seja útil.(sai)

CENA 13 - HELENA LIXA AS UNHAS, SENTADA NO SOFÁ. ROBERTO ENTRA MEIO DESBARATADO E VASCULHA EM ALGUNS CANTOS DA SALA

HELENA - Por que está tão irrequieto? Procura alguma coisa?

ROBERTO - Nada não, tudo bem.

HELENA - (observa / maliciosa) Acaso não seria o dicionário?

ROBERTO - O que?

HELENA - O dicionário. Aquele livro que tem várias palavras com seus respectivos significados.

ROBERTO - Por que está dizendo isso?

HELENA - Você não ia beber água? A cozinha fica por ali, ó! Se não conseguir achar o caminho, posso lhe mostrar daqui a pouco, quando terminar de lixar as unhas.

ROBERTO - Que tipo de provocação é essa agora, Helena?

HELENA - Que provocação? Apenas ouvi daqui você dizer que ia beber água e eu não vejo nenhum filtro aqui na sala.

ROBERTO - Às vezes penso que você não bate muito bem da cachola, sabia?

HELENA - O mesmo não digo de você porque sempre sabe o que faz, não é mesmo? Ao menos foi o que disse quando dispensou nossa filha das tarefas de casa que eu dei a ela pela manhã. Como sabe o que faz, beba o seu copo de água e volte pra ensinar a lição de casa ao nosso filho.

ROBERTO - Ah, compreendi! Então você está magoada por isso? Eu não tirei a sua autoridade, compreende? Foi uma coincidência de horário. Também não entendi porque você resolveu aplicar funções de casa no mesmo período em que eu havia prometido passear com as crianças!

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HELENA - Porque foi no mesmo período que ela espalhou roupas, brinquedos, doces e farelos pela casa. No meu conceito, a obrigação vem primeiro que o lazer.

ROBERTO - Você considera lixar as unhas obrigação ou lazer?

HELENA - Obrigação.

ROBERTO - E o lazer qual seria?

HELENA - Pintá-las.

ROBERTO - Curioso, não?

HELENA - Sim, é mesmo curioso que uma mulher mesmo trabalhando fora, administre a casa, cuide dos filhos e ainda tenha que ficar bonita.

ROBERTO - Ensinar a lição aos filhos também faz parte da educação, ou não?

HELENA - Sim, desde que se saiba o significado de misantropo.

ROBERTO - O que?

HELENA - Ora, não desconversa, jacaré! Daqui do sofá eu ouvi nosso filho perguntar o que significa misantropo, então você disfarçou que ia beber água pra poder consultar o dicionário, não foi isso? Pois agora volte lá e responda. Você não sabe tudo?

ROBERTO - O que você quer, Helena? Criar uma competição entre nós dois pra saber quem melhor educa os filhos?

HELENA - Competição? Olha pra cá! (mostra as unhas) Estou pouco me lixando pra competição. Sei muito bem a atenção e os cuidados que ofereço a eles sem precisar superar ou competir com os seus. Acontece que além dos direitos, observo também os limites como, por exemplo, arrumarem o quarto após as brincadeiras. Mas eis que vez por outra surge um salvador da pátria que livra os indefesos das garras do carrasco.

ROBERTO - Pare de exageros! Gostaria o que? Que eu lhe pedisse de joelhos um milhão de desculpas por minha desatenção, é isso?

HELENA - Não, eu gostaria que você me dissesse o que significa misantropo.

ROBERTO - Não faço a menor ideia! Assim como eu não faço a menor ideia taambém do número de minhocas que existem na sua cabeça. (dá as costas)

HELENA - Não vai beber água?

ROBERTO - Não. A atenção à lição do meu filho é mais importante que a sede. (dá meia volta)

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HELENA - Ah, só mais uma coisinha! De acordo com a minha educação, eu acho que nessa fase da infância é bastante necessário que o filho veja no pai um exemplo de sabedoria. (exibe o dicionário escondido atrás de si) Vá lá e diga pra ele que misantropo significa "aquele que tem aversão à sociedade, ou ao próprio homem".

ROBERTO SAI SENSIVELMENTE ALIVIADO

CENA 14 - PAULO ACABA DE PÕR O FONE NO GANCHO NO MOMENTO EM QUE LUÍSA ATRAVESSA A CENA E LOGO RETORNA

LUÍSA - Escuta aqui, barão; você desaprendeu a dar descarga quando sai do banheiro?

PAULO - O que é?

LUÍSA - O que é uma titica! Tem graça eu ficar sendo mãe de criança e babá de marmanjo!

PAULO - Desculpa, vai! Eu saí rápido porque era um telefonema lá do trabalho. Foi uma emergência! Aliás, tive emergência tanto pra entrar como pra sair.

LUÍSA - Tem mesmo graça!

PAULO - Ora, Luísa, mas apertar o botão de uma descarga também não tira pedaço de ninguém, não acha?

LUÍSA - Não se trata simplesmente de apertar o botão da descarga. Trata-se do descaso.

PAULO - Que descaso? Já vem drama em cima disso?

LUÍSA - Descaso sim porque se você se importasse, não haveria emergência que lhe fizesse esquecer. Antes eu percebia que quando você ia ao banheiro já emendava com o banho para que o ambiente estivesse bem resolvido quando de lá saísse. Agora não! Tanto faz como tanto fez!

PAULO - O que? Então você ficava tomando conta dos meus passos mesmo quando eu estava...? Que absurdo! E quanto a você? Você se acha a mesma de tempos atrás?

LUÍSA - Ao menos não mudei na mesma proporção que você.

PAULO - Então por que não prepara mais o café da manhã antes de me acordar?

LUÍSA - Você quer assinar hoje mesmo a minha carteira de trabalho? Vê lá se tem cabimento! Ainda mais você que mal dá um gole e sai?

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PAULO - Acontece que desde o início do casamento eu já tomava um gole e saía. Mesmo assim você insistia em ir lá prepar o café. É claro que nunca houve a menor necessidade disso, mas o fato é que eu manjei que você usava o café como pretexto pra poder se produzir antes de me acordar. Era cabelo alinhado, rosto bem composto, hálito renovado... E cadê que hoje você se preocupa em sair debaixo das cobertas?

LUÍSA – Está bem! Então eu vou começar a anotar em um caderno um tanto de coisas que você não fazia antes e que agora deslancha a fazer como deixar calçados e meias jogados pela casa, roupa suja fora do cesto, barbeador usado esquecido na pia do banheiro...

PAULO – Pronto! Tinha que virar drama.

LUÍSA - Empurrar a porta da geladeria com as costas; abandonar o rádio ligado e ir pra rua; toalha molhada jogada no varal, imitar a voz do Roberto Carlos; tossir alto depois das dez da noite, pisar no tapete quando...

PAULO - A diferença, Luísa, é que vocês mulheres buzinam tudo o que veem de errado pela frente, mora bicho? Nós homens somos diferentes. Você quer ver um exemplo? Eu detesto quando você deixa a faca atravessada na manteigueira porque quando eu vou cortar o pão o cabo está todo lambuzado. Já nem falo mais nada. Vou lá, pego um papel e limpo! Imagina se fosse o contrário!

LUÍSA – Louça molhada guardada no armário; fazer barulhinho com a língua quando canta; matar mosquito esmagado na parede, trocar o lugar da minha escova de dentes no...

PAULO - Sogra.

LUÍSA - O que tem minha mãe?

PAULO - Quem falou aqui na sua mãe?

LUÍSA - Piadinhas ordinárias é outra coisa que eu odeio!

PAULO – Luísa, entenda uma coisa; não foi a cegonha que me trouxe até você. Eu sou uma escolha sua e você é uma escolha minha, percebe? Se a gente brigar por qualquer motivo teremos três opções. Ou eu ganho e você perde, ou você ganha e eu perco ou nós dois perdemos. Nunca os dois sairão ganhando ao mesmo tempo, acredita?

LUÍSA - Não acredito em mais nada. Aliás, o romantismo é mais uma fábula criada pra iludir a gente quando se deixa a infância.

PAULO - Mais um engano seu. Eu já tentei ser romântico, mas você mesma me frustrou. Recorda quando eu lhe dei uma rosa arrancada do jardim? O que

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você disse?

LUÍSA - Eu gostei, não lembra?

PAULO - Sim, mas você disse: "Hum, que linda! Até parece artificial". Então eu pensei: "poxa, ela gosta mesmo é de flores artificiais". Passou um tempo e lhe trouxe um bouquê artificial. Aí você disse: "Hum lindo! Até parece natural!" Poxa! Quem consegue ser romântico assim?

LUÍSA - Paulo; será que você não quer dar uma voltinha de três horas e meia pela redondeza? Alías, vá andando e rezando para que quando voltar todas as suas bagunças não tenham sido varejadas pela janela, fui clara?

PAULO - Só não vou lá fora por um motivo bem simples que prefiro chamar de romantismo silencioso.

LUÍSA – Pro diabo com essa conversinha mole!

PAULO – Conversa mole coisa nenhuma! Sabe aquele inhoque que você inventou de preparar ontem? Pois então; não me caiu nada bem, mas preferi não dizer nada para não entristecê-la. Por isso mesmo não pude ir trabalhar hoje e preciso resolver as coisas por telefone. Ui (leva a mão à barriga voltando em direção ao banheiro).

O TELEFONE TOCA

PAULO – Diga que estou ocupado. E só lhe peço que não jogue as minhas coisas pela janela. Afinal de contas, dor de barriga não dá somente uma vez. (sai correndo)

CENA 15 – CAMPELO, LEVEMENTE EMBRIAGADO, ERGUE UMA GARRAFA DE VINHO NO MEIO DA SALA

CAMPELO – Vamos a mais um brinde!

ROSA – Nada disso, Campelo! Para por aí! Você já não tem mais idade pra abusar de vinho. (pega a garrafa e esconde atrás de si)

CAMPELO – O vinho é o deus da idade, Rosa! Por isso, quanto mais velho; melhor. Dê aqui a garrafa e vamos um brinde ao tempo!

ABRAÇA-A. AO TER QUE PEGAR A GARRAFA DÁ-LHE UM LONGO BEIJO. EM SEGUIDA SOBE NA POLTRONA E EXCLAMA ENQUANTO ENCHE A TAÇA

CAMPELO – A humanidade não daria uma passo em linha reta se não fosse o vinho!

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ROSA – Você sabe que já passou dos 50.

CAMPELO – E o vinho já passou dos 5 mil anos! E olha ele aí, mais tinto do que nunca! (bebe) O vinho batizou as primeiras aglomerações humanas, Rosa! O vinho santificou religiões, o vinho alvoroçou revoluções, o vinho inspirou lindas canções. Só ele, o vinho, é o eterno anunciar da primavera!

ROSA – Se o entusiasmo que o vinho dá fosse duradouro, melhor seria viver sob essa euforia, mas a verdade é que fico aflita porque enquanto completamos mais um ciclo de vida as coisas tendem a ficar mais difíceis.

CAMPELO - O sol continua nascendo, as flores reaparecem no jardim, os pássaros seguem a cantar...

ROSA - Se as flores renascem é porque as outras murcharam. E os pássaros que agora cantam também são outros, percebe?

CAMPELO - Mas o sol ainda é o mesmo e não há noite que o impeça de nascer!

ROSA – Você sabe que daqui por diante poderemos avançar durante o mesmo espaço de tempo que já vivemos, mas com possibilidades proporcionalmente inversas. Seremos mais observadores daquilo que realizamos do que realizadores de novos feitos. Isso dá um desconforto, não acha?

CAMPELO – Rosa, nessa altura da vida eu vou lhe contar um segredo que nunca contei a ninguém: (desce da poltrona) quando eu nasci, eu chorei. Somente depois aprendi a sorrir!

ROSA – Está bem, Campelo. Desculpe, não quero que o meu emocional atinja o seu senso de humor.

CAMPELO - Esposa, vamos dançar uma valsa! (toma-lhe nos braços, valsando) E vamos fazer com que em cada giro que dermos as preocupações despenquem de nossas costas, venha!

ROSA CEDE CONTRAFEITA. CAMPELO CANTAROLA QUALQUER CANÇÃO ENQUANTO GIRAM POR ALGUM TEMPO

CAMPELO - Brindemos os ciclos da vida, minha querida Rosa, porque somente os idosos sentem orgulho de dizer a idade.

ROSA – Veja só, Campelo! Respingou vinho e vai manchar o chão.

CAMPELO – Não, Rosa querida, não vai virar mancha. Vai ser mais um registro do vinho na História da humanidade.

CAMPELO SOBE NOVAMENTE NA POLTRONA

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CAMPELO - E que venham novas interrogações e novas angústias porque é em meio ao assombro do Apocalipse que se lê: (ergue a taça de vinho) “Eis que faço novas todas as coisas!”

(luz na taça)

CENA 16 - VOLTA A SE OUVIR DE FUNDO A MÚSICA DAS BODAS DE OURO QUE ABRIU A PEÇA. ENTRA EM CENA UM CASAL IDOSO

ELE - E assim vem sendo a nossa vida. Com altos e baixos, atritos e reconciliações. Em nada difere da vida de tantos outros casais que souberam suportar as turbulências do dia a dia em defesa da união de dois corações que um dia se apaixonaram.

ELA - Se não tivesse havido dúvidas, incertezas e até arrependimentos, não teria valido à pena. Assim os sonhos foram sendo realizados, assim os filhos nasceram, assim a história vem se derramando. E o mais encantador de tudo é saber que teremos sempre sonhos por se realizar e histórias por escrever.

ELE – Em meio a tantas mudanças, mudamos até a maneira que chamávamos um ao outro ao longo do tempo. Eu me chamo Paulo Roberto Campelo.

ELA - E eu me chamo Luísa Helena Rosa.

BEIJAM-SE, SOPRAM AS VELAS, OS TRÊS CASAIS APLAUDEM.

FIM

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