richard serra e frank gehry no espaço público da cidade o artigo

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  • VI EHA - ENCONTRO DE HISTRIA DA ARTE - UNICAMP 2010

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    rIcHard sErra E frank gEHry no Espao pblIco da cIdadE

    Wilson Florio1

    resumO

    O artigo tem como objetivo estabelecer correlaes entre a escultura monumental de Richard Serra e a arquitetura de Frank Gehry. O conceito chave o espao percebido no tempo.

    Palavras-chave: escultura contempornea; espao pblico; arquitetura contempornea

    ABstrAct

    The aim of this paper is establish correlations between Richard Serras monumental sculpture and Frank Gehrys architecture. The key concept is the space perceived in time.

    Keywords: contemporary sculpture; public space; contemporary architecture

    intrOduO

    Arquitetura e escultura compartilham a matria que deve ser configurada segundo as leis da gravidade. Como arte utilitria, a arquitetura no pode ter a mesma expresso puramente artstica da escultura. Embora ambas se aproximem mais da matria do que as criaes livres do esprito, a idia comum que cabe arquitetura criar formas geomtricas, sob leis matemticas, enquanto que escultura cabe a liberdade de criar formas sob leis orgnicas. No entanto, esse panorama se alterou de modo significativo no sculo XX, onde escultura e arquitetura passaram a assumir outras funes para qualificar o espao pblico da cidade.

    O espao o receptculo de todas as coisas, afirmou Plato em Timeu. A noo de espao e de tempo depende de como os observamos, seja em repouso ou em movimento. Para a percepo

    1 Arquiteto. Doutor Fauusp (2005), Professor FAU Mackenzie / IA UNICAMP. wflorio@uol.com.br

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    visual, o espao entre objetos no est vazio. Esse espao intersticial est impregnado de gradientes, de diferentes densidades (Arnheim, 1988, p.17), que nos fazem perceber formas que se atraem ou que se repulsam. Assim, tanto a arquitetura como a escultura, que ocupam o espao real tridimensional, a relao, a proporo e o equilbrio entre cheios e vazios determina suas qualidades formais.

    Nas artes plsticas, a predominncia de formas horizontais e verticais determina a percepo do peso visual, assim como a estabilidade do olhar e o equilbrio entre as partes. As formas que contm os espaos em arquitetura nem sempre so formadas por retas. As formas curvas, quando aplicadas em arquitetura, se vem obrigadas a operar tanto no lado cncavo como o convexo. Em muitos casos formas cncavas ou convexas no so apropriadas para abrigar satisfatoriamente uma determinada funo. Isso gera um duplo desafio conceitual para o arquiteto: criar uma bela forma expressiva e um volume interno adequado ao uso. Esses problemas no atingem a escultura, que pode gerar formas livres destitudas da obrigao de seguir o binmio forma-funo. Mas do ponto de vista esttico e perceptivo, a contraposio de espaos cheios e vazios compartilhado tanto pela arquitetura como a escultura. Se como afirmou Arnheim os espaos vazios esto permeados de tenses e densidades, a proporo entre as formas slidas e os ocos do edifcio que seriam os responsveis por gerar ambientes adequados para um uso especfico. O jogo de luz e sombra na escultura tem um propsito puramente esttico-perceptivo, enquanto que na arquitetura tambm deve atender ao propsito de bem-estar.

    A AprOximAO entre esculturA e ArquiteturA

    A partir das esculturas de Picasso (Guitar, 1912) novos rumos para as esculturas foram abertos, com perfis e elementos construdos no espao. Em vez de esculpir massas, ou operar sobre volumes fechados, esculturas foram delineadas por contornos e perfis, fundindo o volume interior e exterior. A partir de Picasso, o volume passa a fazer parte da escultura.

    Nas dcadas de 1920 e 30, alm de Picasso, outros artistas como Gabo, Tatlin, Gonzlez, Calder e Moore contriburam para a diluio dos limites interior-exterior nas esculturas, com o vazio como elemento fundamental. A tradicional tcnica de esculpir materiais slidos, como a pedra e a madeira, foi praticamente abandonada. Em seu lugar ficaram o ferro, o ao, o bronze e o alumnio, como material forjado e moldado. Nas dcadas de 1950 e 60, as esculturas de David Smith, Mark di Suvero e Anthony Caro consagraram essa nova escultura, e incorporaram formas geomtricas em ao, com o vazio e o contorno como meio de expresso. No Brasil, a escultura neoconcreta de Amlcar de Castro, a partir de 1960, realiza-se diretamente no espao, e composta por planos, contornos e vazios. Ao perder matria, essas esculturas em chapas metlicas fizeram do vazio um outro corpo no espao tridimensional.

    Enquanto as esculturas tornaram-se mais abstratas e geomtricas ao longo do sculo XX, a arquitetura caminhou em direo a formas de grande plasticidade. O concreto armado permitiu que Oscar Niemeyer fizesse uma arquitetura com formas escultricas. Por outro lado, as esculturas tornaram-se amplas construes, cuja tectnica tinha que ser rigorosamente executada em grandes dimenses. Essa

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    mtua aproximao ocorreu em espaos pblicos da cidade. Assim, no por acaso, arquitetura e escultura acabaram por estreitar relaes nas ltimas dcadas do sculo XX.

    certo que a arte pblica, principalmente a escultura monumental, a partir de meados do sculo XX, teve um papel importante na revitalizao dos grandes centros urbanos, com o conceito de humanizao aps o perodo de grandes guerras mundiais. Escultores como Calder e Moore criaram esculturas de grande porte para espaos pblicos. Assim, a idia de construir arte no espao real ganhou novo impulso.

    A construo de esculturas monumentais exigiu a aplicao de tcnicas construtivas amplamente conhecidas na construo civil. Assim, os grandes escultores intensificaram o uso de materiais como o ao corten (com propriedades anticorrosivas) e o concreto armado. Alguns procedimentos tcnicos presentes em grandes edifcios de estrutura metlica passaram a ser tambm aplicados por Calder. Picasso, a partir dos anos 60, passa a adotar a tcnica do concreto armado para construir suas esculturas monumentais.

    A utilizao do ao, nas grandes esculturas Richard Serra, derivou de seu interesse no efeito propiciado pelo material e seu potencial para construir. O ao permitiu intensificar sua pesquisa sobre a tectnica, a gravidade e a esttica de corpos no espao: Artists who had used steel before did not deal with its tectonic potential, its weight, its compression, its mass, its statis...It was in the worlds of engineering and technology (McShire, 2007, p.28). Assim, trs aspectos particularmente interessavam ao escultor, e que o levou a se aproximar da arquitetura: a investigao da relao de formas no espao, e o espao percorrido no tempo; o interesse pela construo e a natureza dos materiais (chumbo, borracha e ao), ou seja, pela tectnica; e o interesse em atuar em espaos pblicos da cidade.

    esculturA e espAO pBlicO

    Todos aqueles que atuam em centros urbanos so responsveis por um projeto coletivo de construo da paisagem da cidade, e em particular, os artistas e arquitetos. Como a arquitetura, a escultura de grandes dimenses interfere e atua diretamente na percepo do espao pblico. O artista ou arquiteto no opera isoladamente do contexto ou do entorno onde se localiza a sua obra, ao contrrio, constri a imagem da cidade.

    As esculturas pblicas de Richard Serra iniciaram-se em 1970, quando ele retornou do Japo, trazendo consigo o conceito de espao percebido no tempo (McShire, 2007, p.29). Serra explorou esculturas monumentais para introduzir a discusso sobre a experincia da percepo de formas curvilneas que fraturam o espao pblico da cidade. As superfcies contnuas das esculturas de Serra envolvem o espectador, provocando sensaes de solido e isolamento. No mais uma obra para ser apenas contemplada de fora, mas um espao para entrar, percorrer, ser envolvido. Suas dimenses abrigam o espectador, promovem diferentes sensaes, como sempre ocorreu em arquitetura, mas que agora passa a ser tambm contemplado pela escultura. Esses conceitos emergem da prpria vivncia nos grandes

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    centros urbanos, onde no h um local privilegiado para uma observao mais ampla da paisagem, cada vez mais fraturada, provocando um sentimento de desorientao. Como afirmou Argan (1998, p.221): O fato que o artista ... no pode deixar de existir no contexto social, na cidade; no pode deixar de viver suas tenses internas.

    As esculturas pblicas de Serra atuam diretamente na percepo do observador sobre a paisagem urbana. So obras que desestabilizam o olhar, acostumado monotonia e a ritmos acelerados. Seguindo a idia de site-specific, Serra prope esculturas que travam dilogos com o cenrio urbano. So esculturas provocativas que reagem vida cotidiana nos grandes centros urbanos, e atuam diretamente sobre os sentidos. Ao trabalhar in situ, Serra parte do existente, e insere sua escultura como uma resposta provocativa e instigante sobre o local, agora modificado. A participao ativa do pblico se d pela experincia de percorrer o espao interno e externo da obra, a partir de vrios pontos de vista em movimento.

    Serra constri esculturas em uma situao especfica, que estabelecem um dilogo com a paisagem circundante. Ao contrrio de esculturas pblicas de Noguchi e Calder, que segundo o artista nada tem a ver com o contexto no qual elas esto localizadas(Serra, 1994, p.126), suas esculturas tentam capturar a