Revolução, Revolta e Resistencia

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Deleuze, poltica, resistncia, arte, poder.

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  • e nacionalistas. Mas, por que o futebol e a capoeira so os dois espor-tes nacionais do Brasil? Talvez porque, em ambos os casos, se pensacom o p. Como no samba, alis.

    * * *

    Revoluo, revolta e resistncia:Os pensamentos so gestos, afirmava Nietzsche.'' A capoeira a -a sabedona dos surfistasarte do pensamentodo corpo puro, do corpo sem rgos que, como

    um cu de trovo, sobrepujanossos corpos de chumbo. a resistnciado corpo negro que repugnaem se precipitar no ser em que se encon-

    Charles Feitosa *tram os corpos dos brancos estagnados. Quanto pensamento no gestode um capoeirista,quanta gesticulaomental no discurso de um fil-sofo!

    guisa de concluso e retomandoessa potncia de resistncia vi- 1. Os muros da polticatal e alegre prpria capoeira, citarei as palavras que, aps um longo

    Comeofazendoum protesto. Em abril de 2004, vimos um candi-momento de silncio, mestre Pastinha teria pronunciado ao responderdato a prefeito no Rio de Janeiropropondo a construo de um muro pergunta: o que capoeira?em torno das favelascomo uma soluo para conter a violncia nesses

    "A capoeira um jogo, um brinquedo (...) o prazer da elegncia e da inteli- locais. De fato, Aristteles j dizia no Captulo IV da sua Poltica quegncia. o vento na vela, um gemido na senzala, um corpo que treme, um uma das principais tarefas dos habitantes da plis construir muros.berimbau bem tocado, a gargalhada de uma criana, o vo de um pssaro, o Teria Luiz Paulo Conde lido Aristteles? Se leu, no entendeu... Aataque de uma serpente coral (...) o riso frente ao inimigo. (...) levan- idia aristotlica de construir muros visava a proteger seus cidadostar-se de uma queda antes de tocar o cho.(...) E um pequeno barco em pere-

    de amea as externas, e no isol-los em guetos. Fazer muro em tornogrinao, abandonado e deriva, sem fim."das favelas transform-las em espaos de clausura, em campo de re-

    E se de tudo isso pudssemos fazer uma filosofia?! fugiados. Nesse contexto, o muro funciona como uma instncia de di-viso e de dominao, no de proteo dos habitantes da cidade.

    Traduo Esse protesto inspira uma questo: em um simpsio sobre "arte

    Fabien Pascal Lins e resistncia", ou seja, que toma a criatividade e a imaginao daarte como paradigmas para a ao, cabe perguntar se resistir signifi-ca ainda construir muros, ou melhor, se construir muros ainda umatarefa fundamental da poltica. Penso em uma famosa frase do fil-sofo grego Epicuro: "Contra todo o resto consegue-se garantir segu-rana, mas em relao morte habitamos todos uma cidade sem mu-ros." A maneira mais bvia de ouvir esse aforismo enfatiza o carter

    "Nossospensamentosdevemserconsideradoscomogestos(Gebrden)correspondentesaosinexorvel da morte: por causa dela vivemos todos em um espao

    nossos instintos (Trieben) como todos os gestos" (Oeuvres compltes. Paris: Gallimard. v. 4, pindefeso. A morte evidencia a limitao de nosso poder fazer, ela

    303). E, amda: "Os pensamentos so signos (Zeichen) de um jogo e de um combate das emo es(A//ekte): elas esto sempre ligadas a suas raizes ocultas" (XII, 36).* Doutor em Filosofia, professor da UniRio, autor de Explicando a filosolla com arte. Rio deJaneiro: Ediouro, 2004.

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  • expe os limites da nossa capacidade de erigir muralhas, enfim, da geral por meio de uma guerracivil sangrenta, as classes dirigentes tra-nossa atividade poltica. A morte no respeitabarreiras e fronteiras. dicionais, arrancado-as do poder e substituindo-aspor uma outra for-A morte um destino inexorvel, inevitvel, contra o qual no pos- a, composta pela nova gerao emergente (tal como se deu na Revo-svel opor resistncia. Tal parece ser a mensagem principal da sabe- luo Americana, de 1776, e na Francesa, de 1789, ou ainda nas revo-doria epicurista. lues comunistas que ocorreram na Rssia, em 1917, e na China, a

    Existe, entretanto,uma outra forma de escutar essa mxima, des- partir de 1949). Enfim, revoluo entendida como mudana de go-de que se desloque a nfase dada: por causa da morte moramos todos verno e de doutrina econmica.em uma mesma "cidade". A morte no torna evidente apenas a nossa Segundo Arendt, uma das caractersticas da revoluo no sentidoinaptido para prolongar a vida indefmidamente, ela expe tambm o moderno que ela no envolve simplesmente mudanas, mas simfato de que todos ns temos, ou melhor, somos algo em comum, e que acontecimentosque pretendeminstaurarum novo comeo. O concei-esse ser-em-comum faz de ns participantes de uma plis. Entretanto, to moderno de revoluo est ligado diretamente idia de que a his-que tipo de cidade essa cujos habitantes se constituem a partir da fi- tria recomea subitamente, uma histria nunca antes conhecida.'nitude? Como se constri uma comunidade de mortais? Exemplo: a Revoluo Francesa merece esse ttulo, no pelo fato de

    Minha proposta aqui refletir sobre trs palavras fundamentais: ter conquistadodefinitivamente a liberdade, mas por ter feito da liber-revoluo, revolta e resistncia. Trata-se de trs palavrasque parecem dade um dos direitos alienveisdo homem. O novo comeo o direitodizer a mesma coisa, que parecem ser sinnimas, mas no so! Minha universal a ter direitos.hiptese de que revoluo,revolta e resistncia so formasdiferentes A idia de revoluo poltica no sentido antigo, ao contrrio,de o homem lidar com seu destino mortal, maneiras diferentesde "di- pressupunhauma interpretaodas mudanas sociais no como rup-zer no", enfim, formas diferentes de lidar com os muros da poltica. turas, mas como fases diferentes de um ciclo predeterminadopela na-

    tureza dos problemashumanos, portanto imutvel. Revoluo era um2. Revoluo - a onda de lava termo da astronomia (Coprnico escrevera em 1507 um famoso texto

    . intitulado Da revoluo das rbitas celestes). Era o nome do movi-No Brasil, acabamos de comemorar ou lamentar o aniversrio de .,, mento rotativo regular das estrelas, para alm da mfluncia dos ho-40 anos da assim chamada "Revoluo de 1964 , que instaurou uma .. . mens, irresistvel, no necessariamente caracterizadopela novidadeditadura militar durante quase 30 anos. Um debate interminvel se .

    nem pela violncia, mas "pela repetio dos altos e baixos do destinoproduziu na mdia a respeito da questo se o termo "revoluo' usado , .humano",- como um movimento ciclico, tal como na imagem da rodapelos prprios militares seria mesmo o mais apropriado para descre-

    - . da fortuna do tar. Revoluo significava originariamente restaura-ver o golpe. O dicionrio define o significado poltico do termo des-o, e no transformao,estando originariamente associada noocrevendo-o como um movimento de revolta contra um poder estabe- de destino, no sentido de um ciclo necessrio e imutvel entre ascen-lecido, feito por um nmero significativo de pessoas, em que geral-. . , sao e decadncia dos povos.mente se adotam mtodos mais ou menos violentos; insurreiao, re-

    O prprio Aristteles fala na sua Poltica de uma alternnciaeter-belio, resistncia, sublevao.Observemque no dicionrio todos os .. na entre a oligarquia, governo da elite, e a democracia, governo dotermos, revolta, resistncia, so usados como se fossem equivalentes.. povo. Sobre esse aspecto, Arendt observaque a distino entre pobresAqui me associo a HannahArendt (1906-1975), que no seu livro

    Sobre a revoluo, de 1963, d algumas pistas fundamentais parauma compreensomais radical do termo. Sabemos que, na concepO Arendt, H. ber die Revolution [Sobre a revoluo]. Mnchen: Piper Verlag, 1999. p. 35.

    - Eu cito a partir de uma traduo do ingl s para o alemo. mas existe uma verso em portugus.da cincia poltica clssica, a palavra "revoluo" entendidacomo infelizmente j esgotada, publicada pela Editora tica em 1995.um fenmenosociopoltico radical e violento que remove fora, em 2Arendt. /wr die Revolution. p. 55

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  • e ricos era considerada natural, uma espcie de fatum no corpo polti- ou ainda "tempestade revolucionria que varre tudo pela frente".' Aco: "A questo social s comeou a desempenharpapel revolucion- revoluo era como uma tsunami que a todos levava; o revolucion-rio quandona idade modernaos homens comearam a duvidar de que rio, nesse sentido, no se v como um agente que resiste, mas alguma pobreza fosse inerente condio humana."' que aceita incondicionalmente os designios dessa onda.

    Para isso foi preciso romper com a noo antiga de histria como Parecia que uma fora maior que o homem, o destino, interferiramovimento cclico imutvel e trabalhar com a idia de um processo exatamente no momento quando os homens comeavam a lutar porprogressivo retilneo, marcado agora por um novo comeo. Segundo uma vida melhor. Segundo Arendt:Arendt, trata-se de um resultado da filosofia crist, que v o nascimentode Cristo como um acontecimento nico e irrepetvel, que no apenas "H um certo grandioso absurdo no espetculo desses homens que ousa-

    ram desafiar todos os poderes que existem e todas as autoridades do mundo,d um novo comeo para a histria, mas o comeo da histria tal .cuja coragem no tinha quaisquer sombras de dvida - submetendo-se, fre-como a compreendemos desde a modernidade.Nesse sentido estrito os qentemente, de um dia para o outro, com humildade e sem um rito sequer, termos "rebelio" e "revolta" no so revolues,pois no promovem chamada da necessidade histrica, por mais louco e incongruente que lhesnovoscomeos. Trata-se de eventos comprometidoscom a antiga lgi- deve ter parecido o aspecto exterior dessa necessidade."

    ca histrica das mudanas vistas apenas como fases diferentesde umciclo eterno, necessrio e imutvel, estaes de um destino. Em resumo, a palavra "revoluo", tanto no seu sentido antigo

    Arendt aponta a data exata em que a palavra "revoluo" foi usa- como no moderno, denota uma atitude de submisso incondicional eda pela primeira vez quebrandocom seu carter cclico e destinal. No absoluta a uma fora exterior. A nica diferena que antes essa ne-dia 14 de julho de 1789, noite em Paris, Lu