revolução francesa e iluminismo

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  • REVOLUO FRANCESA

    E ILUMINISMO

  • Jorge Grespan

    REVOLUO FRANCESA E ILUMINISMO

    E D I T O R A

    CONTEXTO

  • Copyright 2003 Jorge Grespan

    Todos os direitos desta edio reservados EDITORA CONTEXTO (Editora Pinsky Ltda.)

    Coordenao editorial: Carla Bassanezi Pinsky Diagramao: Denis Fracalossi

    Reviso: Vera Lcia Quintanilha Capa: Antnio Kehl

    Dados internacionais de Catalogao na Publicao (ar) _________ (Cmara Brasileira do Livro, SP. Brasil)______

    Grespan, Jorge. Revoluo Francesa e Iluminismo / Jorge Grespan. - So Paulo : Contexto . 2003.

    ISBN 85-7244-236-7

    1. Franca - Histria - Revoluo. 1789-1799 2. Iluminismo 1. Titulo.

    03-16-45 _____________________ CDD-944.04

    ndices para catlogo sistemtico: 1. Iluminismo e Revoluo Francesa: Histria 944.04 2. Revoluo Francesa e Iluminismo: Histria 944.04

    EDITORA CONTEXTO Diretor editorial: Jaime Pinsky

    Rua Acopiara, 199 - Alto da Lapa 05083-110-So Paulo-SP

    PABX (11)3832 5838 contexto@editoracontexto.com.br

    www.editoracontexto.com.br

    2003

    Proibida a reproduo total ou parcial. Os infratores sero processados na forma da lei.

  • memria do meu pai, que me iniciou nos caminhos do Iluminismo, sombreados pela dvida que ele sabia

    to bem temperar de confiana.

  • Sumrio

    Introduo.................................................................. 9

    O que Iluminismo? .................... . ............................ 13

    Entre duas revolues ................................................ 21

    Crticos, cticos e romnticos ............................... .....47

    A nova Revoluo ....................................................... 75

    Concluso .............................................. .. ............ ...103

    Sugestes de leitura ................................................. 109

  • Introduo

    Para o historiador, todos os acontecimentos, mesmo os remo- tos, tm atualidade e

    vida. Mas isso ainda mais verdadeiro no caso da Revoluo Francesa de 1789, que

    transformou o modo de vida at daqueles que pouco souberam ou sabem dela at hoje em

    dia. No ser exagero dizer que ela ajudou a dar forma ao mundo ocidental

    contemporneo, moldando as instituies e os ideais que nos animam e que

    consideramos universais.

    A partir dela, superou-se definitivamente a tradicional concepo de que os homens

    seriam distintos por natureza, alguns nascendo melhores do que os outros, numa viso

    hierrquica que acompanhou a humanidade por milnios, para ser substituda s to

    recentemente pela de que todos somos iguais. Pde ser, ento, finalmente formulada a

    exigncia de cidadania, da participao geral dos homens na tomada poltica das decises

    sobre seu destino coletivo. Pde tambm, por outro lado, radicalizar-se tal exigncia na

    reivindicao por justia social, em que mesmo as diferenas de classe devem ser

    abrandadas ou at suprimidas.

    Deste acontecimento crucial, assim, brotaram tanto os ideais modernos dos direitos

    humanos e da igualdade de todos perante a lei, quanto os da prpria "revoluo" enquanto

    mudana necessria e radical das estruturas sociais, mudana presente de modo crtico

    na prpria modernidade.

    Mas neste ponto a Revoluo Francesa teria somente consagrado na prtica as idias de

    liberdade e igualdade que vinham sendo desenvolvidas pelo movimento filosfico

    conhecido como lluminismo. De fato, desde o prprio sculo XVIII acredita-se que

    9

  • A Igualdade (L'qalit) exibe a Declarao dos Direitos do Homem, documento lanado em 1789 sob influncia dos ideais iluministas e um dos principais smbolos da Revoluo Francesa: a superao da concepo tradicional de que os indivduos nascem distintos por natureza.

    o Iluminismo teve papel preponderante em preparar os

    espritos para a derrocada da ordem social vigente durante

    a Revoluo Francesa de 1789. E embora trabalhos de

    historiadores recentes tenham lanado algumas dvidas

    a respeito da naturalidade dessa ligao entre a filosofia e

    a revoluo, no se deve abandonar completamente a

    antiga convico. Trata-se de no separar de modo abso-

    luto ambos terrenos, como se o Iluminismo se limitasse

    a uma elaborao terica e a Revoluo, por seu turno,

    fosse apenas um movimento prtico.

    nesse sentido que caminhar a abordagem do

    presente livro. O Iluminismo aqui considerado j como uma reflexo sobre um processo

    revolucionrio, o ocorrido na Inglaterra do sculo XVII, que consagrou alguns princpios

    bsicos para a filosofia poltica, moral e at da natureza. E o desenvolvimento desses

    princpios no sculo seguinte no podia deixar de ter um carter ativo, de interveno

    crtica e modificao da sociedade da poca. Por outro lado, a Revoluo Francesa

    representou no s a realizao dos ideais iluministas, como tambm sua elaborao

    terica, evidenciando os impasses e a necessidade de ultrapassar aquele marco filosfico.

    10

  • No poderemos ento nos furtar narrativa de alguns acontecimentos de toda esta

    histria, para embasar sua anlise. Sem dvida, impossvel pretender esgotar a riqueza e

    a imensido de todo o ocorrido. Nem, muito menos, subscrevemos a tese ingnua do

    historicismo que afirma poder contar uma histria tal qual ela teria acontecido. O fio condutor

    e o critrio de seleo do exposto devem vir, assim, da prpria relao entre o Iluminismo e a

    Revoluo, isto , do sentido de que ambos tm um para o outro, da sua reciprocidade.

    Longe de eliminar a pluralidade de interpretaes possveis, essa proposta visa explicitar um

    elo efetivo pelo qual tais interpretaes ganham novo enfoque.

    Com isso, pensamos ser possvel tambm derrubar alguns mal-entendidos arraigados,

    especialmente sobre o Iluminismo, como o de que ele aspirava a tudo conhecer: melhor

    seria entend-lo como afirmao do direito de tudo duvidar. Um certo ceticismo se conforma

    muito mais ao projeto dos grandes filsofos do sculo XVIII do que o dogmatismo que lhes c

    geralmente e erradamente atribudo. Da mesma forma, seu conceito de razo era muito dife-

    rente do racionalismo cartesiano, abrindo espao para a valorizao da experincia, dos

    sentidos e dos sentimentos, propiciando at que surgisse, do seio do Iluminismo, o

    movimento considerado como seu antpoda: o Romantismo.

    So tais conceitos rgidos a respeito de um assunto to rico e complexo que pretendemos

    atacar e modificar neste livro. E com isso, de cena forma, estaremos fazendo jus ao prprio

    objeto aqui tratado, que se define pelo poder da crtica, pela insatisfao diante de todo o

    consagrado, pela desconfiana em face de toda a unanimidade. Em um tempo em que a

    clssica pergunta "o que fazer" retorna necessria e urgente, acreditamos que esses

    temas e questionamentos adquirem uma importncia e uma oportunidade evidentes.

    11

  • O que Iluminismo?

    Como em um balano do sculo que findava, a pergunta "o que Iluminismo?" animou um

    importante debate na Alemanha entre 1783 e 1784, famoso pela riqueza das respostas

    apresentadas, especialmente a de Immanuel Kant, professor da Universidade de

    Knigsberg. Mas, bem antes dessa data, grandes pensadores j buscavam explicar o nome

    escolhido para a poca de transformaes em que viviam: sculo das luzes, do

    esclarecimento. que, apesar de muito sugestiva, a metfora da luz; da clareza das idias,

    no era precisa quanto a seus possveis significados. E o debate continuou, assim, at

    nossos dias, suscitando as mais variadas definies.

    A questo fica ainda mais complicada se acrescentarmos o problema da relao entre o

    pensamento Iluminista e a Revoluo Francesa de 1789. Novamente, esta relao foi

    assinalada na prpria poca, pelos revolucionrios e pelos primeiros intrpretes dos

    acontecimentos. Em certo momento, chegou-se a conceder a mais alta honraria a Voltaire e

    a Rousseau, pensadores rivais, s reunidos pela homenagem que transladou seus restos

    mortais para o Panteo dos heris da ptria.

    Ao prestar tributo a eles, a Revoluo mostrava no estar interessada nas diferenas

    entre suas obras, mas em reconhecer o dbito intelectual dela mesma para com a profunda

    crtica social e poltica contida em ambas. Mas o aspecto estranho dessa reunio pstuma

    no tardou em chamar a ateno de intrpretes posteriores, que passaram a lanar

    dvidas sobre a naturalidade do enraizamento da Revoluo no Iluminismo. Afinal, nem

    todos os pensadores do "sculo das luzes", a comear pelo prprio Voltaire,

    13

  • apoiariam totalmente o que ocorreu na Frana depois de 1789 Mais ainda, o fato de se ter

    passado por alto a oposio entre os dois homenageados sugeria no s uma apreenso

    superficial das "luzes" pelos revolucionrios, como tambm a falta de unidade intelectual

    do Iluminismo.

    A respeito do primeiro ponto, da apreenso da filosofia pela

    Revoluo, surge o problema da difuso das idias iluministas.

    Depois dos estudos detalhados feitos pelo historiador Daniel

    Mornet, na dcada de 1930, historiadores mais recentes, como

    Norman Hampson e Robert Darnton, mostraram que antes da

    Revoluo era relativamente restrita a Circulao dos livros que

    tratavam de filosofia e poltica. Conhecia-se Rousseau, por exemplo,

    muito mais pelo romance A Nova Helosa e pelo projeto pedaggico

    contido no Emio, do que pelo Contrato Social. Era a literatura em

    geral, incluindo a de cunho ertico, que mais se publicava, comprava