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  • REVISTA ESPRITAJornal de Estudos Psicolgicos

  • REVISTA ESPRITAJornal de Estudos Psicolgicos

    Contm:

    O relato das manifestaes materiais ou inteligentes dos Espritos,aparies, evocaes, etc., bem como todas as notcias relativas aoEspiritismo. O ensino dos Espritos sobre as coisas do mundo visvel e doinvisvel; sobre as cincias, a moral, a imortalidade da alma, a naturezado homem e o seu futuro. A histria do Espiritismo na Antigidade; suasrelaes com o magnetismo e com o sonambulismo; a explicao das lendas e

    das crenas populares, da mitologia de todos os povos, etc.

    Publicada sob a direode

    ALLAN KARDEC

    Todo efeito tem uma causa. Todo efeito inteligente tem uma causa inteligente. O poder da causa inteligente est na razo da grandeza do efeito.

    ANO SEGUNDO 1859

    TRADUO DE EVANDRO NOLETO BEZERRA

    FEDERAO ESPRITA BRASILEIRA

  • SumrioSEGUNDO VOLUME ANO DE 1859

    JANEIRO S. A. o Prncipe G. 11

    Sr. Adrien, Mdium Vidente 20O Louquinho de Bayonne 25

    Conversas Familiares de Alm-Tmulo:

    Chaudruc-Duclos 35Digenes 38

    Os Anjos-da-Guarda 41Uma Noite Esquecida Frdric Souli (cont.) 43

    Aforismos Espritas 49Sociedade Parisiense de Estudos Espritas Aviso 50

    FEVEREIROEscolhos dos Mdiuns 51

    Os Agneres 61Meu Amigo Hermann 68

    Espritos Barulhentos. Como se Livrar Deles 74

  • Dissertao de Alm-Tmulo A Infncia 77Correspondncia Carta do Dr. Morhry 80

    Uma Noite Esquecida Frderic Souli concluso 82

    MAROEstudo Sobre os Mdiuns 89

    Mdiuns Interesseiros 94Fenmeno de Transfigurao 96

    Diatribes 101Conversas Familiares de Alm-Tmulo:

    Paul Gaimard 104Sra. Reynaud 110

    Hitoti, Chefe Taitiano 117Um Esprito Travesso 120

    Plnio, o Moo 123

    ABRILQuadro da Vida Esprita 131

    Fraudes Espritas 143Problema Moral Os Canibais 146

    A Indstria Dissertao 149Conversas Familiares de Alm-Tmulo:

    Benvenuto Cellini 150Girard de Codemberg 158

    Sr. Poitevin, Aeronauta 160

  • Pensamentos Poticos 167Sonmbulos Assalariados 168

    Aforismos Espritas e Pensamentos Avulsos 169Aviso 170

    MAIOCenas da Vida Privada Esprita 171

    Msica de Alm-Tmulo:

    Mozart 187Chopin 188

    Mundos Intermedirios ou Transitrios 191Ligao Entre Esprito e Corpo 193

    Refutao de um Artigo do Univers 196O Livro dos Espritos Entre os Selvagens 208

    Aforismos Espritas e Pensamentos Avulsos 211

    JUNHOO Msculo Estalante 213

    Interveno da Cincia no Espiritismo 225Conversas Familiares de Alm-Tmulo:

    Humboldt 232Goethe 240

    O negro pai Csar 243Variedades: Princesa de Rbinine 245

  • JULHOS.P.E.E. Discurso de Encerramento do Ano Social 255

    Boletim da Sociedade Parisiense de Estudos Espritas 274Conversas Familiares de Alm-Tmulo:

    Notcias da Guerra 275O Zuavo de Magenta 276

    Um Oficial Morto em Magenta 283Resposta Rplica do Abade Chesnel no Univers 287

    Variedades: Lorde Castlereagh e Bernadotte 290O Que o Espiritismo? Nova obra do Sr. Allan Kardec 294

    AGOSTOMobilirio de Alm-Tmulo 297

    Pneumatografia ou Escrita Direta 309Um Esprito Servial 316O Guia da Sra. Mally 322

    Conversas Familiares de Alm-Tmulo: Voltaire e Frederico 327Boletim da Sociedade Parisiense de Estudos Espritas 333

    Ao Sr. L..., de Limoges 340

    SETEMBROProcessos para Afastar os Espritos Maus 341

    Confisso de Voltaire 353

  • Conversas Familiares de Alm-Tmulo:

    Um Oficial do Exrcito da Itlia 362O General Hoche 364

    Morte de um Esprita 368Tempestades Papel dos Espritos nos Fenmenos

    Naturais 375Intimidade de uma Famlia Esprita 377

    Aforismos Espritas e Pensamentos Avulsos 380

    OUTUBROOs Milagres 381

    O Magnetismo Reconhecido pelo Poder Judicirio 386Mdiuns Inertes 394

    Boletim da Sociedade Parisiense de Estudos Espritas 399Sociedade Esprita no Sculo XVIII 409

    Conversas Familiares de Alm-Tmulo:

    O Pai Crpin 412Sra. E. de Girardin, Mdium 416

    As Mesas Volantes 419

    NOVEMBRODeve-se Publicar Tudo Quanto Dizem os Espritos? 423

    Mdiuns sem Saber 427Urnia Fragmentos de um Poema Esprita 430

  • Swedenborg 437A Alma Errante 447

    O Esprito e o Jurado 449Advertncias de Alm-Tmulo:

    O Oficial da Crimia 452Os Convulsionrios de Saint-Mdard 455

    Observao a Propsito da Palavra Milagre 459Aviso 460

    DEZEMBROResposta ao Sr. Oscar Comettant 461

    Efeitos da Prece 469Um Esprito Que No se Acredita Morto 475

    Doutrina da Reencarnao entre os Hindus 480Conversas Familiares de Alm-Tmulo:

    Sra. Ida Pfeiffer 483Privat d'Anglemont 494

    Dirkse Lammers 498Michel Franois 500

    Comunicaes Espontneas obtidas em sesses da Sociedade 502Um Antigo Carreteiro 510

    Boletim da Sociedade Parisiense de Estudos Espritas 515Os Convulsionrios de Saint-Mdard 532

    Aforismos Espritas e Pensamentos Avulsos 534Nota Explicativa 537

  • Revista EspritaJornal de Estudos Psicolgicos

    ANO II JANEIRO DE 1859 No 1

    S. A. Prncipe G.

    Prncipe,

    Vossa alteza concedeu-me a honra de dirigir-me vriasperguntas relativas ao Espiritismo. Tentarei respond-las at ondeo permita o estado dos conhecimentos atuais sobre a matria,resumindo, em poucas palavras, o que o estudo e a observao nosensinaram a respeito. Essas questes repousam sobre os prpriosprincpios da Cincia; para dar mais clareza soluo, necessrioter em mente esses princpios. Permiti-me, pois, considerar oassunto de um plano um pouco mais elevado, estabelecendo comopreliminares certas proposies fundamentais que, alis, servirode respostas a algumas de vossas indagaes.

    Fora do mundo corporal visvel existem seres invisveis,que constituem o mundo dos Espritos.

    Os Espritos no so seres parte, mas as prpriasalmas dos que viveram na Terra ou em outras esferas, e que sedespojaram de seus invlucros materiais.

  • REVISTA ESPRITA

    Os Espritos apresentam todos os graus dedesenvolvimento intelectual e moral. Conseguintemente, os hbons e maus, esclarecidos e ignorantes, levianos, mentirosos,velhacos, hipcritas, que procuram enganar e induzir ao mal, damesma forma como os h superiores em tudo, que no procuramfazer seno o bem. Essa distino um ponto capital.

    Os Espritos nos rodeiam incessantemente. Sem que osaibamos, dirigem os nossos pensamentos e as nossas aes, assiminfluindo nos acontecimentos e nos destinos da Humanidade.

    Freqentemente os Espritos atestam sua presenaatravs de efeitos materiais. Tais efeitos nada tm de sobrenatural,assim nos parecendo por repousarem sobre bases que escapam sleis conhecidas da matria. Uma vez conhecidas essas bases, oefeito entra na categoria dos fenmenos naturais. assim que osEspritos podem agir sobre corpos inertes e mov-los sem oconcurso dos nossos agentes exteriores. Negar a existncia deagentes desconhecidos pela simples razo de no os compreenderseria impor limites ao poder de Deus e acreditar que a Natureza nostenha dito sua ltima palavra.

    Todo efeito tem uma causa; ningum o contesta. ,pois, ilgico negar a causa pelo simples fato de que desconhecida.

    Se todo efeito tem uma causa, todo efeito inteligentedeve ter uma causa inteligente. Quando vemos o brao do telgrafoproduzir sinais que correspondem ao pensamento, no conclumosque ele seja inteligente, mas, sim, que movido por uma inteligncia.D-se o mesmo com os fenmenos espritas. Se a inteligncia que osproduz no a nossa, evidentemente encontra-se fora de ns.

    Nos fenmenos das cincias naturais agimos sobre amatria e a manipulamos vontade; nos fenmenos espritasagimos sobre inteligncias que dispem de livre-arbtrio e no se12

  • JANEIRO DE 1859

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    submetem nossa vontade. H, pois, entre os fenmenos comunse os fenmenos espritas uma diferena radical quanto ao princpio,razo por que a cincia vulgar incompetente para os julgar.

    O Esprito encarnado tem dois envoltrios: ummaterial, que o corpo, e outro semimaterial e indestrutvel, que o perisprito. Deixando o primeiro, o Esprito conserva o segundo,que, para ele, constitui uma espcie de corpo, mas cujaspropriedades so essencialmente diferentes. Em seu estado normalo perisprito nos invisvel, embora possa tornar-semomentaneamente visvel e mesmo tangvel: tal a causa dofenmeno das aparies.

    Os Espritos no so, pois, seres abstratos, indefinidos,mas seres reais e limitados, com existncia prpria, pensando eagindo em virtude de seu livre-arbtrio. Esto em toda parte, nossa volta; povoam os espaos e se transportam com a rapidez dopensamento.

    Os homens podem entrar em relao com os Espritose receber comunicaes diretas atravs da escrita, da palavra e poroutros meios. Estando os Espritos ao nosso lado, ou podendo,atravs de certos intermedirios, atender ao nosso apelo, com elespodemos estabelecer comunicaes continuadas, da mesma formaque um cego pode faz-lo com as pessoas que no v.

    Certos indivduos so mais dotados que outros de umaaptido especial para transmitir comunicaes dos Espritos: so osmdiuns. O papel do mdium o de um intrprete; o instrumentode que se serve o Esprito. Esse instrumento pode ser mais oumenos perfeito, do que resultam comunicaes mais ou menosfceis.

    Os fenmenos espritas so de duas ordens: asmanifestaes fsicas e materiais e as manifestaes inteligentes. Osefeitos fsicos so produzidos por Espritos inferiores; os Espritos

  • REVISTA ESPRITA

    elevados no se ocupam dessas coisas, do mesmo modo que osnossos sbios no se entregam a aes que exijam grande vigorfsico: seu papel instruir pelo raciocnio.

    As comunicaes tanto podem emanar de Espritosinferiores como de Espritos superiores. Como os homens, osEspritos so reconhecidos por sua linguagem. A dos EspritosSuperiores sempre sria, digna, nobre e cheia de benevolncia;toda expresso trivial ou inconveniente, todo pensamento quechoca a razo e o bom-senso, que denota orgulho, acrimnia oumalevolncia, procede necessariamente de um Esprito inferior.

    Os Espritos elevados s boas coisas ensinam; suamoral a do Evangelho; s pregam a unio e a caridade e jamais seenganam. Os Espritos inferiores dizem absurdos, mentiras e,muitas vezes, at grosserias.

    A eficincia de um mdium no consiste apenas nafacilidade das comunicaes, mas, sobretudo, na natureza dascomunicaes que recebe. Um bom mdium o que simpatiza comos Espritos bons e s recebe boas comunicaes.

    Todos ns temos um Esprito familiar, que a ns se ligadesde o nascimento, guia-nos, aconselha e protege; sempre umEsprito bom.

    Alm do Esprito familiar, existem aqueles que atramosgraas sua simpatia por nossas qualidades e defeitos ou emvirtude de antigas afeies terrenas. Da se segue que, em todareunio, h uma multido de Espritos mais ou menos bons,conforme a natureza do meio.

    Podem os Espritos revelar o futuro?

    Os Espritos no conhecem o futuro seno em razo desua elevao. Os inferiores nem mesmo o seu prprio futuro14

  • JANEIRO DE 1859

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    conhecem e, com mais forte razo, desconhecem o dos outros. OsEspritos superiores o conhecem, mas nem sempre lhes permitido revel-lo. Em princpio, e por um sbio desgnio daProvidncia, o futuro nos deve ser ocultado. Se o conhecssemos,nosso livre-arbtrio seria tolhido. A certeza do sucesso tirar-nos-iaa vontade de fazer qualquer coisa, porque no veramos anecessidade de nos darmos a esse trabalho; a certeza de umadesgraa nos desencorajaria. Todavia, h casos em que oconhecimento do futuro pode ser til, embora, nessa situao,jamais possamos ser juzes. Os Espritos no-lo revelam quando ojulgam conveniente e quando tm a permisso de Deus. Ento ofazem espontaneamente e no a pedido nosso. preciso esperarcom confiana a oportunidade e, sobretudo, no insistir em caso derecusa, pois, de outro modo, correramos o risco de tratar comEspritos levianos, que se divertem nossa custa.

    Os Espritos podem guiar-nos por meio de conselhos diretosnas coisas da vida?

    Sim, podem e o fazem de bom grado. Esses conselhosnos chegam diariamente pelos pensamentos que nos sugerem.Muitas vezes fazemos coisas cujo mrito nos atribumos quando,na realidade, resultam apenas de uma inspirao que nos foitransmitida. Ora, como estamos rodeados de Espritos que nosinfluenciam neste ou naquele sentido, temos sempre o livre-arbtriopara nos guiar na escolha; e felizes seremos se preferirmos o nossognio bom.

    Alm dos conselhos ocultos, podemos obter estesdiretamente atravs de um mdium; mas aqui o caso derecordarmos os princpios fundamentais que acabamos de emitir. Aprimeira coisa a considerar a qualidade do mdium, se no somosns prprios. Um mdium que s boas comunicaes obtm;que, por suas qualidades pessoais no simpatiza seno com osEspritos bons, um ser precioso, do qual podemos esperar grandes

  • REVISTA ESPRITA

    coisas, desde que o secundemos na pureza de suas prpriasinstrues e o utilizemos convenientemente; direi mais: uminstrumento providencial.

    No menos importante, o segundo ponto consiste nanatureza dos Espritos aos quais nos dirigimos. No devemos crerque possamos ser guiados corretamente pelo primeiro que aparea.Aquele que visse nas comunicaes espritas apenas um meio deadivinhao e no mdium um leitor de buena dicha1 enganar-se-iaredondamente. preciso considerar que no mundo dos Espritostemos amigos que por ns se interessam, muito mais sinceros edevotados do que os que tomam esses ttulos na Terra, e que notm o menor interesse em nos lisonjear ou em nos enganar. So,alm do nosso Esprito protetor, parentes ou pessoas a quem nosafeioamos quando vivas, ou Espritos que nos querem o bem porsimpatia. Quando chamados vm de boa vontade e at mesmoquando no so chamados; muitas vezes os temos ao nosso lado,sem que o suspeitemos. Atravs dos mdiuns podemos pedir-lhesconselhos diretos e os recebemos, mesmo espontaneamente, semque lhos tenhamos pedido. Fazem-no sobretudo na intimidade, nosilncio, e desde que nenhuma influncia estranha os venha perturbar; so,alis, muito prudentes e, de sua parte, jamais devemos temer umaindiscrio: calam-se quando h ouvidos em demasia. Fazem-noainda com mais prazer quando esto em freqente comunicaoconosco. Como no dizem seno coisas adequadas e conforme aoportunidade, preciso esperar a sua boa vontade e no acreditarque, primeira vista, venham satisfazer a todos os nossos pedidos.Querem assim provar que no esto s nossas ordens.

    A natureza das respostas depende muito da maneira defazer as perguntas. necessrio aprender a conversar com osEspritos como se aprende a conversar com os homens: em tudo preciso experincia. Por outro lado, o hbito faz que os Espritos se

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    1 N. do T.: Grifos nossos.

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    identifiquem conosco e com o mdium, os fluidos se combinem eas comunicaes sejam mais fceis; ento entre eles e nsestabelecem-se verdadeiras conversaes familiares; o que nodizem num dia falaro noutro. Habituam-se nossa maneira de ser,como ns deles: ficamos reciprocamente mais vontade. Quanto ingerncia dos Espritos maus e dos Espritos enganadores, o queconstitui o grande escolho, a experincia nos ensina a combat-lose podemos sempre evit-los. Se no lhes damos ateno, eles novm, porque sabem que vo perder tempo.

    Qual poder ser a utilidade da propagao das idiasespritas? Sendo o Espiritismo a prova palpvel e evidente daexistncia, da individualidade e da imortalidade da alma, adestruio do materialismo, essa negao de toda religio, essachaga de toda sociedade. O nmero dos materialistas que eleconduziu a idias mais ss considervel e aumenta diariamente: sisso seria um benefcio social. No somente prova a existncia e aimortalidade da alma, como ainda mostra o seu estado feliz oudesgraado, conforme os mritos desta vida. As penas er...