Revista Democracia Viva 44

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<p>DEMOCRACIA VIVA</p> <p>44</p> <p>JANEIRO 2010</p> <p>Reflexes sobre uma dcada de FSM</p> <p>Cultura</p> <p>Eleies 2010 EntrevistaJoel Rufino</p> <p>e</p> <p>d</p> <p>i</p> <p>t</p> <p>o</p> <p>r</p> <p>i</p> <p>a</p> <p>l</p> <p>dulce Chaves PandolfiDiretora do Ibase e pesquisadora do Cpdoc/FGV</p> <p>desafios que esto postos para o Brasil e para o mundo exigem respostas radicais e imediatas. A segunda dcada do sculo XXI se inicia com a permanncia e at mesmo o agravamento de imensas desigualdades regionais, econmicas e sociais responsveis pelas injustias ambientais que se abatem nas diferentes regies do planeta. As frustraes com os resultados da COP 15, a Conferncia das Naes Unidas sobre Mudanas Climticas, ocorrida em dezembro de 2009, em Copenhagen, no impediram que diversos pases, entre eles o Brasil, comeassem a dar passos objetivos, colocando metas para a reduo das emisses de gases e do efeito estufa. Por outro lado, o terrvel terremoto que se abateu em janeiro de 2010 sobre o Haiti, e quase o destruiu totalmente, exps para o mundo um pas institucionalmente frgil e extremamente pobre. No entanto, importante frisar, que essa situao de extrema pobreza, sem dvida agravada com o terremoto, no foi obra da natureza. Resultado de um processo histrico, foi produzida pela humanidade e pelas naes que, ao longo dos sculos, colonizaram, dominaram e exploraram o Haiti. Situaes como a que enfrenta hoje o Haiti reforam a nossa determinao de lutar por uma sociedade planetria mais justa e mais solidria. E essa determinao, mesclada com a nossa esperana de que um outro mundo possvel, que nos leva, apesar de tudo, a comemorar tanto a dcada que finda como a dcada que se inicia. tambm em janeiro de 2010 que o Frum Social Mundial, que comeou pequeno, mas sempre soube de sua grandeza, completa dez anos de existncia. No Brasil, o final deste ano coincidir com o final do governo Lula e a eleio presidencial que promete ser muito acirrada. Aqui, o ano 2010 se iniciou com um importante e tenso debate sobre os Direitos Humanos, revelador de quanto ainda precisamos avanar nesse terreno. Apesar do III Plano Nacional dos Direitos Humanos ser ainda bastante tmido e ter sido gestado em amplas discusses que precederam as conferncias estaduais e chegaram Conferncia Nacional, setores da sociedade e do prprio governo se levantaram indignados, questionando aspectos ali contidos como o controle social sobre os grandes meios de comunicao ou a necessidade de se fazer uma mediao antes de expulsar ocupantes de terras e de imveis abandonados. Mas o ponto que provocou maior reao foi a criao de uma Comisso Nacional de Verdade para avaliar a violao dos Direitos Humanos ocorrida durante o perodo do regime militar que se instalou no pas em 1964 e perdurou at 1985. Entretanto, esse acerto de contas com o passado fundamental: abrir os arquivos da represso e extinguir a impunidade que foi garantida queles(as) que torturam e assassinaram opositores(as) da ditadura militar so condies para garantir um futuro mais justo e democrtico para o nosso pas.</p> <p>O</p> <p>ano de 2010 ser de muitas disputas e enfrentamentos. Alguns dos</p> <p>s</p> <p>u</p> <p>m</p> <p>r3</p> <p>i</p> <p>oAv. Rio Branco, 124 / 8 andar 20040-916 Rio de Janeiro/RJ Tel.: (21) 2178-9400 Fax: (21) 2178-9402 </p> <p>Ibase Instituto Brasileiro de Anlises Sociais e Econmicas</p> <p>Qual comrcio, para qual desenvolvimento?Carlos Guillermo Aguilar naCional</p> <p>artiGo</p> <p>Conselho CuradorSebastio Soares Joo Guerra Carlos Alberto Afonso Ndia Rebouas Sonia Carvalho Cndido Grzybowski Dulce Pandolfi Francisco Menezes</p> <p>8</p> <p>Redemocratizar a democraciaEliana Magalhes Graa artiGo</p> <p>12</p> <p>Direo Executiva</p> <p>A internet no centro da comunicao poltica no BrasilJuliano Borges</p> <p>entrevista</p> <p>Joel Rufino</p> <p>Coordenadores(as)</p> <p>16</p> <p>internaCional Carls Riera</p> <p>Jogos Olmpicos, jogo para todos e todas?</p> <p>20</p> <p>entrevista</p> <p>Antnia Rodrigues Fernanda Carvalho Itamar Silva Joo Roberto Lopes Pinto Luzmere Demoner Moema Miranda Renata Lins</p> <p>Joel RufinoartiGo</p> <p>d e m o C r a C i a v i vaISSN: 1415-1499 Publicao trimestral</p> <p>34</p> <p>Amrica Latina e os processos de democratizao da comunicaoMaria Pia matria</p> <p>Diretora ResponsvelDulce Pandolfi</p> <p>Conselho Editorial</p> <p>Cultura</p> <p>38</p> <p>A desconstruo do descaso</p> <p>Ana Cristina Bittencourt, Flvia Mattar e Jamile Chequer Colaborao: Diego Santos 44 CrniCa Alcione Arajo vi PlataForma iBase Lilian Celiberti</p> <p>Alcione Arajo Cndido Grzybowski Charles Pessanha Cleonice Dias Jane Souto de Oliveira Joo Roberto Lopes Pinto Mrcia Florncio Mrio Osava Moema Miranda Regina Novaes Rosana Heringer Srgio Leite</p> <p>46</p> <p>Edio</p> <p>Cuidar, cuidarmo-nos: imperativo tico, desafio coletivo Crise de civilizao hegemnica e interaprendizagem de paradigmas alternativosRoberto Espinoza</p> <p>Ana Bittencourt Jamile Chequer</p> <p>Reviso</p> <p>Flvia Leiroz Ana Bittencourt</p> <p>Assistente EditorialFlvia Mattar</p> <p>Assessoria de imprensaRogrio Jordo</p> <p>58</p> <p>oPinio iBase</p> <p>Para alm do Estado do bem-estar socialJoo Roberto Lopes Pinto</p> <p>Produo</p> <p>Geni Macedo</p> <p>Estagirio</p> <p>O Ibase adota a linguagem de gnero em suas publicaes por acreditar que essa uma estratgia para dar visibilidade luta pela eqidade entre mulheres e homens. Trata-se de uma poltica editorial, fruto de um aprendizado e de um acordo entre os(as) funcionrios(as) do Ibase. No caso de artigos redigidos voluntariamente por convidados(as), sugerimos a adoo da mesma poltica. Os artigos assinados nesta publicao no traduzem, necessariamente, a posio do Ibase.</p> <p>Diego Santos</p> <p>62 66</p> <p>resenHas Cultura</p> <p>Distribuio</p> <p>Elaine Amaral de Mello</p> <p>Frum Social Mundial, a construo de um outro mundo possvelCndido Grzybowski</p> <p>Projeto Grfico Foto de capa Tiragem</p> <p>Mais Programao Visual</p> <p>Montagem sobre foto de J. R. Ripper</p> <p>78 80</p> <p>sua oPinio ltima PGina Nani</p> <p>4.700 exemplares</p> <p>democraciaviva@cidadania.org.br</p> <p>artiGo</p> <p>Carlos Guillermo aguilar*</p> <p>Qual comrcio, para qualSe aceitamos como ponto de partida que o comrcio pode se tornar uma ferramenta fundamental para o desenvolvimento dos pases pobres, tambm devemos ser capazes de avaliar algumas das razes pelas quais, hoje,a agenda de liberalizao comercial agressiva nem uma agenda de desenvolvimento sustentvel nem ajuda a reduzir os problemas de pobreza definidos nos Objetivos do Milnio (ODM). Os ODM so um conjunto de medidas adotadas em 2000 por um total de 189 pases, para resgatar o tema do desenvolvimento nos pases pobres, com metas definidas para 2015. Nele, encontram-se metas como reduzir a pobreza, a fome, as desigualdades de gnero, a mortalidade infantil e a materna; evitar doenas como HIV/aids, malria, entre outras; promover o desenvolvimento sustentvel, a educao; e avanar rumo a uma parceria global para o desenvolvimento.[Traduzido do espanhol por Lgia Filgueiras]</p> <p>desenvolvimento?</p> <p>1</p> <p>1 Este texto parte da palestra El multilateralismo desequilibrado de la Organizacin Mundial de Comercio (OMC) y la estrategia de acuerdos bilaterales de los pases desarrollados: hacia una agenda para fracasar en los Objetivos del Milenio (ODM), realizada na Universidade da Costa Rica. O texto completo ser publicado pelo Instituto de Investigaciones Sociales da universidade.</p> <p>Janeiro 2010</p> <p>3</p> <p>artiGo</p> <p>2 Veja os trabalhos mais recentes de Ricardo Hausmann (antigo colaborador do Consenso de Washington e economista-chefe do Banco Interamericano de Desenvolvimento). Em 2005, Hausmann afirmava ao Wall Street Journal: Reformas profundas, crescimento pssimo [...]. Algo deve estar errado com as teorias de crescimento. Recomendamos tambm os trabalhos de Dani Rodrik, Joseph Stiglitz e Andrew Charlton. 3 Algumas anlises insistem que o comrcio desempenha um papel cada vez mais ativo na distribuio da renda global. Veja Programa das Naes Unidas para o Desenvolvimento, 2005, p. 133. 4 Bloco comercial formado por Estados Unidos, Canad e Mxico. Este ltimo assinou, em 1997, o Acordo Bilateral, que entraria em vigor em 2000. 5 Costa Rica e outros pases da Amrica Central, exceto Nicargua, que j estava includa antes por sua relao com os EUA, iniciaram processos formais de adeso ao GATT em finais dos anos 1980.</p> <p>Cada vez mais, diversas organizaes e instncias internacionais reconhecem que, embora o comrcio no seja uma panaceia para o progresso em todos esses aspectos, fundamental para atingir as metas fixadas. As negociaes comerciais multilaterais, em especial as promovidas na Organizao Mundial do Comrcio (OMC), compreendem uma agenda to ampla que toca os principais temas relacionados com os ODM. Hoje, por exemplo, reconhecido que os maiores problemas ocorrem nas questes de desenvolvimento humano, particularmente no que diz respeito sade, e que as diferenas nos avanos esto intimamente relacionadas s regies mais ou menos convergentes do comrcio internacional. Assim, a sia apresenta progressos significativos, enquanto a frica subsaariana apresenta defasagens em matria de comrcio e reduo da pobreza. Na Amrica Latina, so vistas algumas redues no nmero e na porcentagem de vtimas da fome, j na Amrica Central, h significativos aumentos nos ltimos anos (Andersson, 2007). Por outro lado, opinio corrente, admitida por vrios grupos de especialistas em economia e polticas de desenvolvimento, que o crescimento econmico nem significa melhores condies para o desenvolvimento nem est, necessariamente, associado liberalizao do comrcio e s reformas promovidas por organismos financeiros internacionais desde a dcada de 1980.2 Um estudo patrocinado pelo Programa das Naes Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) sobre a promoo das exportaes e a pobreza, durante a dcada de 1990, na Amrica Latina e no Caribe, sustentava em 2004:Desde o final da dcada de 1980, quase todos os pases latino-americanos experimentaram um processo de profundas reformas econmicas que ocorreram, particularmente, no comrcio internacional, na liberalizao financeira e da balana de pagamentos (...). A maior abertura favoreceu novas fontes de crescimento econmico, mas tambm aumentou a volatilidade e a sensibilidade aos choques externos. No incio, parecia que as reformas iriam funcionar como prometido. Aumentou o crescimento econmico, a inflao caiu e houve um boom de entrada de capital estrangeiro. Mas em algum momento, por volta de 1995, o crescimento cessou,</p> <p>particularmente em pases da Amrica do Sul. Aconteceu o mesmo com as exportaes. (...). No apenas o crescimento total foi muito menor do que o do perodo de substituio de importaes, como tambm o crescimento das exportaes desacelerou e ainda dominado pelos produtos primrios (Ganuza et al., 2004, p.1).</p> <p>Segundo esse estudo, paralelamente, cresceu a desigualdade de renda,3 afetando a eliminao da pobreza, a equidade e a coeso social. Assim, o estudo chegou a reconhecer que, embora o impacto da liberalizao e a tendncia para as exportaes no fossem a principal explicao para o fracasso, a sua contribuio para o desenvolvimento deveria ser medida na apreciao de casos particulares em um esquema mais geral de grupos vencedores (segundo a educao e a percepo de renda) e de perdedores (trabalhadores agrcolas e no-qualificados) (Programa das Naes Unidas para o Desenvolvimento, 2005). Essa a situao geral na Amrica Latina, onde surge, em meados dos anos 1990, a OMC ao mesmo tempo que a promulgao do Tratado Norte-Americano de Livre Comrcio (Nafta).4 Ainda que as polticas de liberalizao comercial agressiva acompanhem a situao do continente desde as reformas propostas pelo Consenso de Washington, a aprovao do Acordo Geral sobre Tarifas e Comrcio (GATT), por meio da Rodada Uruguai5 at a formao da OMC e a Rodada de Doha para o Desenvolvimento, lanada em 2001, significaram mudanas muito sensveis nos temas, nas modalidades e no alcance das negociaes. As dcadas de 1980 e 1990 caracterizamse por anos de dominao de uma forte ortodoxia liberalizadora, de razes monetaristas, que optou por um modelo que combinava o multilateral e o bilateral. Os resultados dessas polticas, nos anos subsequentes, provocaram no apenas uma reviso e uma discusso sobre os fundamentos econmicos do monetarismo e do regionalismo aberto para a Amrica Latina (Cepal), mas significaram, acima de tudo, um alerta constante para o crescimento excessivo e descontrolado de acordos bilaterais e a crise desencadeada nas negociaes multilaterais aps a V Conferncia Ministerial, em Cancun, no Mxico (2003).</p> <p>Emaranhado de acordosO que observamos hoje em dia a constatao da crise geral do sistema de comrcio baseado em estratgias de liberalizao agressiva (livre-</p> <p>4</p> <p>demoCraCia viva n 44</p> <p>Q ua l C o m r C i o, Pa r a Q ua l d e s e n v o lv i m e n t o ?</p> <p>comrcio) que desaceleraram e desnudaram as verdadeiras intenes dos pases desenvolvidos nas negociaes multilaterais, e que acabaram construindo um complexo emaranhado de acordos bilaterais, tanto no plano comercial como nos investimentos. Contrariamente ao que supem alguns pesquisadores, no creio que estamos diante de um dilema do tipo: multilateralismo versus bilateralismo. Tanto os Estados Unidos (EUA), em sua Estratgia de Segurana Nacional conhecida desde 2002 (Aguilar, 2003) como a Unio Europeia (UE), em seu documento Uma Europa global: competir no mundo, tm enfatizado a necessidade de continuar encorajando as negociaes multilaterais, ao mesmo tempo que avanam em seus interesses particulares por meio de acordos bilaterais. Dessa forma, no foram os pases desenvolvidos que questionaram esse modelo de grandes prejuzos para os interesses do desenvolvimento. Foi basicamente a opinio pblica mundial (ONGs, movimentos sociais), especialmente os pases que compem o G-336 e, at mesmo, as agncias de financiamento e organismos internacionais. Hoje, economistas como Jagdish Bhagwati7 reconhecem que acordos como o Nafta significaram o desvio do comrcio, afetando, principalmente, a economia mais fraca.8 Outros, como Stephen Tokarik (2004), do Fundo Monetrio Internacional, sustentam que:A liberalizao beneficia principalmente os pases ricos e, embora no conjunto os pases em desenvolvimento se beneficiem, alguns podem ser prejudicados, principalmente os importadores de produtos agrcolas (p. 316).</p> <p>O relatrio Perspectivas da economia mundial para 2005, do Banco Mundial, deixa bem clara a situao:Os acordos entre o Norte e o Sul, especialmente os celebrados com os Estados Unidos, foram mais eficazes em bloquear a liberalizao de novos servios, fizeram exigncias de direitos de propriedade intelectual mais rigorosas do que as da Organizao Mundial do Comrcio (OMC) e ampliaram o mbito da proteo dos investimentos ... (2005).</p> <p>A questo para esses organismos resumese em at que ponto conseguem esses acordos substituir o programa de liberalizao multilateral. Especialistas como Anne Krueger e Srinivasan destacam que esses acordos preferenciais impedem a liberalizao, fixando regras que mudam a poltica comercial dos pases individualmente. David Richardson e Hans-Peter Lankes, por sua vez, reconhecem que os dados so ambguos, mas que, sob certas circunstncias comrcio significativo entre as partes, tarifas elevadas e negociaes entre pases dese...</p>