revista democracia viva 23

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Edio Especial

DEMOCRACIA VIVA

23

ago 2004 / SET 2004

Entrevista Reforma poltica

Dona Dij

Almira Rodrigues

Cndido Grzybowski Marcelo Carvalho

Cidadania encurralada

Cultura

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dulce PandolfiHistoriadora, diretora do Ibase, pesquisadora do CPDOC/FGV

consolidao de uma sociedade democrtica. Se formalmente os direitos da cidadania esto assegurados a toda a populao, na prtica s funcionam para poucas pessoas. As polticas pblicas voltadas para a reduo das desigualdades sociais tm sido precrias e descontnuas, o fenmeno da excluso social expandiu-se pelo pas, os direitos humanos ainda so cotidianamente violados. verdade que hoje vivemos um singular momento de nossa histria. Por meio do voto, elegeu-se um presidente da Repblica cuja trajetria de participao social se inicia no movimento sindical metalrgico e se desdobra na fundao de um partido poltico construdo por setores e grupos sociais movidos pelo iderio da democracia participativa. Mas a democracia tem seus caprichos. Ao mesmo tempo, elegemos para o Congresso e o Poder Executivo em mbito estadual uma maioria cujas formas de fazer poltica e interesses esto atrelados ao passado. Em um contexto novo e contraditrio, recoloca-se com fora a questo da participao, tema central dos artigos que compem este nmero de Democracia Viva. Qualificar e intensificar a participao fundamental quando o que se busca construir uma sociedade justa e solidria. Isso no tarefa fcil. Como minimizar os efeitos perversos de um processo de globalizao que avana a passos largos? Como diminuir as desigualdades sociais, respeitando as diversidades culturais, tnicas, polticas e religiosas? Como conciliar as demandas por novas formas de participao com as tradicionais instituies da democracia representativa? Como aprofundar o controle da sociedade sobre o Estado? Enfim, como radicalizar a democracia? Esses e outros desafios exigem uma reflexo sobre os espaos pblicos de participao no governo Lula. Se existe um reconhecimento sobre a ampliao desses espaos, as expectativas e as avaliaes sobre seus resultados so diferenciadas. Mas, sem dvida, ainda h muito para fazer. Entre as experincias aqui analisadas esto os Conselhos de Segurana Alimentar e Nutricional (Conseas) estaduais e o Plano Plurianual (PPA) 20042007. Em ambos os casos, aparecem conflitos. O envolvimento de diferentes atores gera tenses e produz concepes distintas acerca da participao. Outra experincia sobre espao pblico de participao o oramento participativo. O caso pioneiro de Porto Alegre representa exemplo bem-sucedido da ao comum entre governo e sociedade. No municpio do Cabo de Santo Agostinho, em Pernambuco, vem tambm se consolidando um modelo diferenciado de gesto de participao popular. L, um dos objetos de discusso o controle social das polticas pblicas para a sade da mulher. A entrevista com Dona Dij, quebradeira de coco no Maranho, reveladora da importncia da organizao comunitria para a conquista da cidadania. Sua persistncia exemplar, e os resultados da sua luta para melhorar as condies de vida de homens e mulheres da regio so concretos. Em outro artigo, discute-se a reforma poltica em curso no Congresso Nacional. Para aprimorar a democracia urgente aprofundar o debate em torno de questes polmicas, como o financiamento pblico das campanhas eleitorais, o voto facultativo,

N

o Brasil, apesar dos avanos, muitas so as dificuldades para a

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iartigo

oIbase Instituto Brasileiro de Anlises Sociais e EconmicasAv. Rio Branco, 124 / 8 andar 20148-900 Rio de Janeiro/RJ Tel.: (21) 2509-0660 Fax: (21) 3852-3517

Reforma poltica e participaoAlmira Rodrigues 8 nacional

Cidadania encurraladaCndido Grzybowski 16 18 variedades artigo

Conselho CuradorRegina Novaes Joo Guerra Carlos Alberto Afonso Moacir Palmeira Jane Souto de Oliveira

entrevista

Oramento participativo: limites e contribuies de um instrumento de democracia diretaMiriam de Oliveira Santos 26 28 Pelo mundo internacional

Direo ExecutivaCndido Grzybowski Dulce Pandolfi Francisco Menezes Jaime Patalano

Dona Dij

Coordenadores(as)Erica Rodrigues Iracema Dantas Itamar Silva Joo Roberto Lopes Pinto Joo Sucupira Leonardo Mllo Moema Miranda Nbia Gonalves

Desafios da participao cidad nos processos de inovao democrticaFelipe Llamas Snchez 38 entrevista

Dona Dij48 esPecial

Mulheres que quebram o coco e extraem a vida Iracema Dantas56esPecial

d e m o c r a c i a v i va ISSN: 1415149-9 Diretor ResponsvelCndido Grzybowski

crnica

Ocultar e revelarAlcione Arajo 58 62Mulheres que quebram o coco e extraem a vida

Conselho EditorialAlcione Arajo Ari Roitman Eduardo Henrique Pereira de Oliveira Jane Souto de Oliveira Regina Novaes Rosana Heringer

resenhas oPinio ibase

Reflexes preliminares sobre espaos pblicos de participao no governo LulaNelson Giordano Delgado Flvio Limoncic 70 Projeto maPas

Coordenao EditorialIracema Dantas

SubeditorMarcelo Carvalho

Ensaios da participao no Brasil

Ftima Nascimento, Lucineide Barros, Srgio Baierle, Mnica Schiavinatto, Leda M. B. Castro e Carlos Tautz 78 esPao aberto

RevisoAnaCris Bittencourt Marcelo Bessa

Assistentes EditoriaisFlvia Mattar Jamile Chequer

Controle social em sade da mulherSilvia Maria Cordeiro 84 cultura

ProduoGeni Macedo

Consideraes acerca da cidadania das ruasMarcelo Carvalho 92 ltima Pgina Nani

DistribuioMaria Edileuza Matias

Projeto GrficoMais Programao Visual

DiagramaoImaginatto Design e Marketing

Fotos da CapaEraldo Platz, Almir Veiga (Agncia JB) e Evandro Teixeira (Agncia JB)

FotolitosRainer Rio

ImpressoJ. Sholna

Tiragem5 mil exemplares

democraciaviva@cidadania.org.br

artigoalmira rodrigues*

R e f o r m a p o l t i c aDe incio, importante pensar sobre os antecedentes e significados da reforma poltica em pauta no contexto poltico brasileiro. Essa reforma merece ser compreendida como um processo que remonta ao conjunto das reformas de base inciadas pelo governo Joo Goulart e interrompidas pelo golpe militar de 1964. No perodo ditatorial, as alteraes no sistema poltico eleitoral e partidrio foram plenamente casusticas, com o objetivo de impedir o avano e as conquistas das foras de oposio. Entre elas, destacam-se a implantao do bipartidarismo (que prevaleceu de 1965 a 1979), a instituio da fidelidade partidria por lei e a criao de mecanismos de domiclio eleitoral e de prazo de filiao partidria, os quais se encontram em vigor at hoje.1 Este texto foi elaborado com base na palestra A histria da reforma poltica: impasses e desafios, proferida pela autora, e nos debates ocorridos no seminrio Reforma Poltica e Participao Social, realizado no dia 23 de junho de 2004, em Braslia, e promovido pelo Instituto de Estudos Socioeconmicos (Inesc), Instituto de Cincia Poltica (Ipol) da Universidade de Braslia e Centro Feminista de Estudos e Assessoria (Cfemea).

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ago 2004 / set 2004

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artigo

A redemocratizao no pas comeou a reverter a situao, emergindo como grande marco o processo constituinte e a promulgao da nova Constituio Federal, em 1988. Nomeada Constituio Cidad, promoveu uma ruptura radical com o Estado de exceo e incorporou avanos legais substantivos, apontando para o aperfeioamento da democracia em suas diversas feies. Entre as conquistas asseguradas, especificamente no mbito da participao poltica, destacam-se: o voto para as pessoas analfabetas; o voto opcional para jovens na faixa de 16 a 18 anos incompletos; a autonomia dos partidos polticos para definirem sua estrutura, organizao e funcionamento, mesmo sobre normas de fidelidade e disciplina partidrias; e a criao de instrumentos de democracia direta plebiscito, referendo e iniciativa popular de lei. Segundo Benevides (2003), esses instrumentos de democracia direta no devem ser compreendidos como oposio democracia representativa, e sim como manifestaes que podem corrigir seus vcios e desvios. Alis, as relaes entre formas de democracia direta e democracia representativa constituem um espao de reflexo da maior relevncia e atualidade, observando-se que am bas so expresses de cidadania. No rumo da ampliao da democracia, a legislao eleitoral brasileira incorporou importante dispositivo visando promover a participao poltica das mulheres e a redistribuio das oportunidades de acesso aos espaos de representao poltica. A legislao de cotas para mulheres foi adotada em 1995, sendo aperfeioada em 1997, ao adquirir

um texto universal: reserva de no mnimo 30% e no mximo 70% das vagas de candidaturas para cada sexo, nas eleies proporcionais. O sistema de cotas, embora insuficiente para mudar a feio masculina do cenrio poltico brasileiro, trouxe uma excelente contribuio, ao promover o amplo debate sobre a sub-representao poltica das mulheres e ao abrir espaos, efetivamente, para a participao feminina. Com a nova legislatura, iniciada em 2003, e o novo governo federal, sob a presidncia de Luiz Incio Lula da Silva, a discusso sobre a reforma poltica foi resgatada, embora esteja longe de ser deliberada ainda neste ano. Foi criada a Comisso Especial da Reforma Poltica na Cmara dos Deputados, que aprovou um relatrio, dando origem ao Projeto de Lei 2.679/03. A tramitao do projeto enfrenta dificuldades para avanar, pelos dissensos partidrios na base de sustentao do governo e, tambm, pela conjuntura das eleies municipais que acaba afetando os trabalhos parlamentares. Em todo o processo, constata-se que a reforma poltica tem sido tratada por polticos, no mbito do Congresso Nacional, e por cientistas, no mbito da academia. At o momento, a di