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Revista Cordis: Revista Eletrnica de Histria Social da Cidade

www.pucsp.br/revistacordis

O pensamento de crianas vitimizadas pelas violncias sobre o corpo:

uma pesquisa sociopotica

Shara Jane Holanda Costa Adad*

Resumo: Este artigo apresenta os resultados de uma pesquisa sociopotica sobre o corpo,

realizada com 27 crianas da Casa de Zabel, que tem como parceiros a Prefeitura de Teresina

(PI) e a Ao Social Arquidiocesana e atende crianas e adolescentes do sexo feminino

vitimizadas por violncias. O objetivo foi analisar os conceitos produzidos pelas crianas

sobre o corpo, possibilitando o aflorar dos problemas que as mobilizam e facilitando assim a

produo de outros conceitos sobre o referido tema. Partindo das problemticas, o

pensamento das crianas se apresentou em 4 linhas: Medos da criana diante das situaes

difceis; o que pode o corpo da criana diante das situaes difceis; o corpo da criana e a

relao com a famlia e o corpo da criana entre o fora e o dentro da Casa de Zabel.

Palavras-chave: Corpo. Crianas. Sociopotica.

Abstract: This paper presents the results of a sociopoetics research about the body, held with

27 children of Casa de Zabel, which has as partners the Prefeitura Municipal de Teresina

(PI) (City Hall) and the Ao Social Arquidiocesana (Archdiocesan Social Action) and serves

children and female adolescents victimized by violence. The aim was to analyze the concepts

produced by children about the body, allowing the flourishing of the problems that mobilize

and thus facilitating the production of other concepts on the said topic. Based on the

problems, the thought of the children is presented in four lines: Fears of a child in the face of

difficult situations, what can the child's body in the face of difficult situations, the child's body

and the relationship with the family and the child's body between the outside and inside the

Casa de Zabel.

Keywords: Body. Children. Sociopoetics.

* Doutora em Educao. Professora da Universidade Federal do Piau. Colabora nos programas de ps-graduao

em Educao e em Antropologia e Arqueologia. Integra o Ncleo de Pesquisa e Estudos sobre Gnero e

Cidadania - NEPEGECI. Coordena o Observatrio das juventudes e Violencias nas escolas. Integrante do

Comit Executivo da Entrelugares: revista sociopotica e abordagens afins, do Programa de Ps-Graduao em

Educao, da UFC, com acesso pelo site: www.entrelugares.ufc.br E-mail: .

http://www.entrelugares.ufc.br/mailto:shara_pi@hotmail.com

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Em junho de 2008, acordei com a coordenadora da Casa de Zabel1 a realizao de

uma pesquisa com as crianas2 desta instituio, cujo tema gerador era O Que o Corpo. A

partir daquele momento muitas questes sobre o corpo ocuparam minhas reflexes, as quais

as crianas da Casa de Zabel ajudaram-me a problematiz-las na pesquisa, quais sejam:

Como a criana da Casa de Zabel pensa o seu corpo? Quantos corpos cada corpo criana

carrega dentro de si? Quanto pode o corpo criana? Como pensar novas maneiras de

problematizar o corpo criana? Como identificar problemas que atravessam e mobilizam o

corpo criana?

Diante destas indagaes, utilizei a sociopotica para a produo de conceitos

filosficos sobre o tema O Que o Corpo. Mas o que a sociopotica? uma prtica

filosfica por que ela: 1- Descobre os problemas que inconscientemente mobilizam os grupos

sociais; 2- Promove a criao de novos problemas ou de novas maneiras de problematizar a

vida; 3- Favorece a criao de confetos, contextualizados no afeto e na razo, na sensualidade

e na intuio, na gestualidade e na imaginao do grupo pesquisador; 4- Possibilita a criao

de conceitos desterritorializados, que entram em dilogo com os conceitos dos filsofos

profissionais.3

Na sociopotica realizamos a pesquisa em grupo e por meio de oficinas que utilizam

dimenses da arte para produo de conceitos heterogneos, polifnicos, polissmicos,

metafricos e mesmo inusitados sobre um tema gerador. Nesta pesquisa, o grupo pesquisador

era composto por ns facilitadores4, e por crianas, as copesquisadoras. Fizemos quatro

oficinas, sendo a primeira de negociao da pesquisa, outra para a de produo de dados5,

1 A Casa de Zabel tem como como objetivo atender crianas e adolescentes do sexo feminino, vitimizadas pela

violncia, negligncia, pobreza, abandono, drogadio, prostituio dentre outros. Baseada na pedagogia do

dilogo, oficinas orientadas e atendimento personalizado, e, no momento da pesquisa, atendia 124 crianas e

adolescentes. A linha de atendimento focada na profissionalizao e incluso social. 2 Esta pesquisa foi realizada tambm com as adolescentes da Casa de Zabel e est disponvel no site:

http://www.entrelugares.ufc.br/numero3/pdf/sharajane.pdf Acesso em: 3 set. 2011. 3 GUATHIER, Jacques. Notcias de rodap do nascimento da Sociopotica. Salvador. 2003, p. 12. (Digitado).

GUATHIER, Jacques. Trilhando a vertente filosfica da montanha Sociopotica A criao coletiva de confetos

e conceitos. In: SANTOS, Iraci et al. Prtica da Pesquisa nas Cincias Humanas e Sociais: abordagem

sociopotica. So Paulo: Atheneu, 2005, p. 257. 4 Nesta pesquisa, contei com a participao das seguintes co-facilitadoras: a pedagoga Auridete Viana Lima e a

graduanda em Pedagogia e bolsista do CNPq Viviane Ribeiro Rocha dos Santos. 5 Na concepo da sociopotica, os dados que surgem dessa experincia no so coletados, [...] e sim

produzidos pelas condies de realizao da pesquisa, nas quais a interferncia do pesquisador e suas tcnicas

so uma implicao inegvel. (PETIT, Sandra Hayde. Sociopotica: potencializando a dimenso poitica da

pesquisa. In: MATOS, Kelma Socorro Lopes de. VASCONCELOS, Jos Gerardo. Registros de Pesquisas na

Educao. Fortaleza: LCR UFC, 2002, p. 42).

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com durao de 4 horas e 02(duas) oficinas para a contra-anlise6, a qual permitiu s

copesquisadoras conhecer, confirmar, retificar e, especialmente, contrapor-se s nossas idias.

Neste texto, nos reportamos produo de dados referente a tcnica O Corpo Mutante, ou

seja, apresento os confetos e as problemticas significativas para as crianas no que diz

respeito ao tema-gerador corpo.

O momento da oficina de negociao da pesquisa foi dedicado a acolher e

sensibilizar as crianas da casa, atravs de alongamentos, brincadeiras, relaxamento,

fantoches e conversas no intuito de ampliar a percepo dos seus corpos, de explicar e

motiv-las sobre a pesquisa que iramos realizar ressaltando o nosso tema gerador, a

importncia de sua participao enquanto copesquisadoras e a formao do grupo-

pesquisador. Realo que foi tambm o espao para a produo dos crachs e escolha dos

respectivos pseudnimos, com intuito de preservar a identidade de cada uma das crianas.

Segue algumas fotos destes momentos da negociao:

6 Neste mtodo, aps a produo dos dados, os facilitadores realizam sua anlise atravs dos procedimentos:

anlise classificatria, momento transversal e anlise filosfica. Em seguida, os resultados das anlises, o

pesquisador oficial produz textos literrios de suas anlises como contos, poesias, cordis, dentre outros. Este

procedimento torna as anlises mais sintticas e comunicativas de modo que, os co-pesquisadores possam

realizar posteriormente a contra-anlise. momento em que o facilitador ou pesquisador oficial volta a se

encontrar com os co-pesquisadores (neste caso, as crianas) para submeter s anlises ao crivo de sua avaliao,

bem como fazer perguntas de esclarecimento. Este momento chamado de contra-anlise fundamental para que

o pesquisador oficial retifique, re-examine e torne mais precisa suas reflexes. tambm a possibilidade de

dialogar com os co-pesquisadores, permitindo ao pesquisador oficial ultrapassar o plano das convenincias

preconceituosas, interessadas em desmoralizar ou mesmo moralizar o outro. Para a contra-anlise levei o conto

intitulado Crianas em corpos mutantes uma inveno. No momento final, realizei a anlise e fiz a

socializao da pesquisa, entregando o relatrio final para apreciao dos tcnicos e professores da Casa de

Zabel. (PETIT, op. cit., 2002, p. 43).

Imagem1. Acolhida com o uso de

fantoches Imagem 3. Alongamento Imagem 2. Explicando e sensibiliando as

crianas para a pesquisa

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Iniciei a oficina de produo de dados com o relaxamento e a viagem imaginria ao

corpo mutante, adotando um roteiro que levava as crianas a uma viagem imaginria dentro

de uma bolha que flutuava por espaos da Casa de Zabel e fora dela. Em determinado

momento, a bolha furava, e caia num buraco que levava a criana em outro mundo com outro

corpo, um corpo mutante.

A produo dos dados da viagem foi na forma de desenhos e modelagem. Para tal

i