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Revista aborda a Literatura Portuguesa a partir da análise e discussão de algumas obras de Vergílio Ferreira, José Saramago e Lobo Antunes. A publicação é resultado de seminário realizado na disciplina Língua e Literatura Portuguesa II, no 8º período do curso de Letras da UEA em Parintins.

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  • APRESENTAO

    EXPEDIENTEOrientadora: Professora Doutora Gleidys

    Meyre da Silva MaiaEditor: Emanoel Cardoso

    Diagramao: Gabriel LealSuporte de WEB: Adriano Tavares

    Textos e discusses - acadmicos do 8 perodo de Letras Matutino:

    Aldenize Maria Reis de OliveiraBruno Gonzaga da Costa

    Emanoel da Conceio CardosoEnos Pio dos Santos

    Francenilza da Silva CarmoJean Miller Barros Navegante

    Jonas Teixeira NevesJosiane de Souza dos S. Gadelha

    Leomar Mendona PereiraLourdeme Nunes Ferreira

    Hellen AlbuquerqueMaria Eleonora da Silva Rodrigues

    Marta Pereira LopesMarzo Queiroz dos Santos

    Mnica Batista Freires BrasilMrcia Maria Ribeiro de Sena

    Missandra Barros de SouzaPaula Cristiane de C. FerreiraRichardson Farias Gonalves

    Suzana Gomes LimaVicente Nunes Gonalves

    A revista Contempo-rnea as vozes do lcio uma edio nica que apresenta o resultado dos Seminrios desenvolvidos na disciplina de Literatura e Lngua Portuguesa II, no 8 perodo do curso de Letra da UEA em Parin-tins. Os acadmicos, que apare-cem na foto abaixo, fazem parte do grupo provocado pela profes-sora doutora Gleidys Meyre da Silva Maia para apresentar parte da obra de trs dos principais au-tores portugueses da contempo-raneidade.

    Os artigos sobre os auto-res Verglio Ferreira, Jos Sara-mago e Antnio Lobo Antunes so as peas principais da revis-ta e trazem uma breve biografia,

    o resumo das obras estudadas e as caractersticas que os escrito-res imprimiram nos livros, bem como a correlao entre as obras de cada autor.

    Alm dos resultados das dis-cusses dos seminrios, Contem-pornea traz uma pgina dedica-da poesia de alunos da turma e curiosidades sobre o universo da Literatura Portuguesa. Na en-trevista, o leitor acompanha uma conversa com a professora Glei-dys Maia que fala sobre a contri-buio da Literatura Portuguesa no cenrio mundial, esclarece e a importncia dos autores abor-dados nos seminrios e se posi-ciona sobre o lugar da literatura enquanto arte, no universo aca-dmico.

  • Entrevista

    Gleidys Maia doutora em Letras pela UFRJS, coordenadora do NICEBA (Ncleo de Investiga-o da Cultura e Educao no Baixo Amazonas) e ministra, entre outas disciplinas, Lngua e Litera-tura Portuguesa no Curso de Letras do Cesp-UEA (Centro de Estudos Superiores de Parintins). A entre-vista aconteceu em seu escritrio, como ela fez questo de determinar: L fora no. Fotos aqui no meu local, na frente do computador onde trabalho. Na conversa sobre a Literatura Portuguesa, que durou pou-co mais de vinte minutos, A professora expressou com a voz, as mos, gestos e olhar o entendimento de algum imerso no universo da arte literria e que capaz de articular histria, filosofia, arte e literatura.

    GLEIDYS MAIA

    Trouxeste a chave?

    Drummond

    Contempornea - Como conceituar a literatura?

    Gleidys - Existem vrios. A literatura uma arte e como arte ela tem que ser apre-ciada, ela tem que ser desfrutada como arte. Agora voc s vai conseguir isso se voc conhecer a arte, se no conhece como vai fazer isso, como que voc vai ler? Como que voc vai desfrutar? Como que voc vai se conectar, pra usar um ter-mo mais moderno? Ento, s vezes as pes-soas do demonstraes da sua ignorncia no sentido do no conhecimento quando leem algo e dizem que no entenderam nada do que foi dito. Sempre me lembro de Drummond quando pergunta, no poema que se chama procura da poesia: trou-xeste a chave? Quer dizer, voc s tem acesso aquele texto se voc tiver a chave, se voc tiver a senha, se voc tiver o ins-trumento, do contrrio, no h como ter acesso. Eu tento sempre dizer, o leitor tem que responder esta pergunta: trouxeste a chave? Se no trouxe vai ficar na porta.

    Contempornea Como arte, que elementos a literatura consegue articular em sua cons-tituio?

    Gleidys - A literatura um mundo. Existe uma teoria que afirma ser a litera-tura narrativa uma diegese. Diegese um termo grego de se refere ao mundo. A die-gese o mundo que a gente conhece o ini-cio, conhece o meio e conhece o fim. Um

    mundo que tem comunicao, tem o hu-mano, tem as profisses, tem as idiossin-crasias, tem a modernidade, tem o mun-do da velocidade, tem a sociologia, tem a filosofia... um mundo em cada texto. assim que uma obra literria ela se trans-forma numa obra atemporal, quando ela traz esse mundo para o leitor, quando esse mundo pode ser lido em qualquer poca.

    Ento, se voc pega uma obra como Dom Quixote de La Mancha, escrito h mais de 500 anos, voc l Dom Quixote hoje e ele ainda te mostra o mundo em que voc vive. Uma obra ela clssica, atemporal, quando consegue trazer esse mundo para o leitor que no est preo-cupado com Cervantes no sculo XVI, nem com Cames, esse leitor est ligado naquilo que est sendo dito e naquilo que a gente chama de horizonte de ex-pectativas que trazemos para o mundo da leitura. Essa literatura chega at ao leitor, ainda tem coisas a dizer. Voc pega Hamlet, do Shakespeare, e ainda tem o que dizer. Mas tem outros escritores que passaram por essas mesmas pocas e que voc no sabe que fim levou todos eles.

    Contempornea Qual a contribuio da Literatura Portuguesa para com a arte da li-teratura?

    Gleidys - A Literatura Portuguesa no muito difundida no mundo in-teiro porque a maior parte do mundo no fala portugus e por ser uma lngua

    extremamente discursiva no facilita para que haja aprendizes de portugus. Ento necessrio todo um sistema literrio para que as obras sejam tra-duzidas, mas obra que traduzida obra que perde sua qualidade original.

    Passando essa questo da lngua e do mercado, eu digo que uma das lite-raturas mais ricas do ocidente a Litera-tura Portuguesa e a literatura da Penn-sula Ibrica. Eu no consigo imaginar um perodo como o renascimento ou como o modernismo sem a Literatura Portuguesa. Eu no consigo imaginar o renascimento sem a viso de Cames. Infelizmente a maior parte do ociden-te vai reconhecer todos os valores es-tticos que poderiam ser atribudos a Cames, Em Shaikspeire, por exemplo.

    Contempornea Qual sua anlise sobre a obra de Verglio Ferreira, Lobo Antunes e Jos Saramago?

    Gleidys - Essa trade a, vamos come-

    ar por Verglio Ferreira dentro do pr-prio contexto da Literatura Portuguesa ele j possui uma obra sui generis, ou seja, no existe uma escola existencialista den-tro da Literatura Portuguesa, existe a es-cola do existencialismo fundada pelo pr-prio Verglio Ferreira. Ele tem seguidores, mas isso no representa uma esttica den-tro da Literatura Portuguesa. S por estas questes, a obra dele j uma obra sin-gular, uma obra que precisa ser analisada

  • Entrevista

    com cuidado para no ser clicherizada. A obra do Verglio Ferreira uma obra

    extensa dentro de uma pragmtica que a pragmtica existencialista. existen-cialismo aliado ao Marxismo. A influn-cia Sartreana visvel, palpvel na sua obra, mas isso no quer dizer que seja uma obra panfletria, no uma obra que v fazer um discurso poltico no sentido panfletrio/partidrio como muitas obras de vertente marxista o fizeram anterior-mente, tanto no neorrealismo portugus, quanto no romance social do Brasil da dcada de trinta, como o caso do Alves Redol, com Gaibel, e como o caso de Graciliano Ramos com So Bernardo.

    Ento, ns vamos ter, no Verglio Fer-reira, uma espcie de trilha de percurso da literatura. como se fosse um desvio da Literatura Portuguesa. No contexto maior, amplo, um desvio porque ele est dentro de um perodo que chamado de perodo neorrealista, mas as suas obras tem muito pouco de neorrealismo. A pragmtica ne-orrealista passa ao largo da obra vergilia-na em funo da filosofia existencialista.

    J nos outros dois que so mais pr-ximos historicamente de ns, inclusive, o Lobo Antunes est vivo e produzindo. uma literatura de impacto porque ele lan-a, praticamente, uma obra por ano, s ve-zes, duas obras no mesmo ano e so obras imensas. Sempre quando falo de escrito-res como Lobo Antunes e Saramago eu me lembro de uma frase que o Machado de Assis diz, em um pequeno ensaio em que o Machado fala o seguinte: o escritor tem que ser um homem do seu tempo.

    Eu penso que as doenas, o homem do sculo XXI, esse homem doente que aparece na literatura do Lobo Antunes; esse homem marcado por uma srie de esquizofrenias, de medos, de angustia que resultam numa viso do humano frag-mentado, estilhaado, como um humano que no encontra e no consegue mais se encaixar, no consegue mais ver seus espaos onde pode se colocar e se sentir bem. o famoso mal estar da modernida-de que agente v desde Baudelaire e chega ao fim do sculo XX e na passagem para o sculo XXI chega ao seu pice. Ento, um homem menos humano, no sentido de que a sua humanidade esta deflagrada por doenas, deflagrada por esse mal-estar.

    O Lobo Antunes j apresenta o huma-no na forma mais degradante e no uma questo moral, a moral no tem nada a ver com isso em principio, no menos

    humano, ou desumano por uma ques-to moral. No porque o personagem amoral, porque foi-lhe tirado a sua por-o, aquilo que seria o brilho no olhar ou a bondade, o amor, a perseverana, isso j foi tirado. O que ficou foi o ser doente.

    No meio desses dois est o Jos Sa-ramago. Eu diria que ele mais que um escritor, um pensador da literatura, aci-ma do escritor est o contador de hist-ria. Eu no consigo imaginar o Jos Sara-mago numa escrivaninha simplesmente contando uma histria, narrando algo que ele pensou. Jos Saramago escreve a partir da literatura, ele no quer a fun-dao do novo da origem. Ento, no atoa que ele pega a Bblia como funda-o para os seus textos. Quantos roman-ces ele escreve a partir da bblia? No atoa que ele pega o discurso histrico e a partir desse discurso ele vai fazer a lite-ratura. No atoa que ele pega o Fernan-do Pessoa e vai escrever a sua literatura.

    Antes de ser esse contador de hist-rias Saramago um pensador da litera-tura, eu diria que