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    REVISITANDO O TEMA DA GUERRA ENTRE OS NDIOS PURI-COROADO DA MATA

    CENTRAL DE MINAS GERAIS NOS OITOCENTOS: RELAES COM O ESTADO,

    SUBDIFERENCIAES TNICAS, TRANSCULTURAES E RELAES TENSIVAS NO

    VALE DO RIO POMBA (1813-1836)

    Jos Otvio Aguiar

    Doutor em Histria e Culturas Polticas pela UFMG

    Ps-Doutor em Histria pela UFPE

    Professor da Universidade Federal de Campina Grande

    (j.otvio.a@hotmail.com)

    RESUMO

    Para aqum dos recentes esforos de pesquisa arqueolgica, que tem revelado dados promissores, no

    obstante ainda permaneam sem suficiente conexo entre si, pretendemos, nesse ensaio, contribuir para

    a percepo das especificidades dos relatos sobre as etnias Puri e Coroado da Zona da Mata Central de

    Minas Gerais nas ltimas dcadas do sculo XVIII e nos primeiros treze anos do sculo XIX. Suspeita-

    se, por afinidades lingsticas, que estes ndios fossem de etnia Macro-j, e, sabe-se, por uma seqncia

    de dados concatenados que sua biologia e cultura foram um dos vetores essenciais para a formao das

    que hoje se encontra na regio do vale de um dos principais afluentes do Paraba do Sul: o Rio Pomba.

    Percorrendo listas de documentos dispersos nos arquivos de parquias ou consultando as seqncias

    organizadas no princpio do sculo XX. Na Revista do Arquivo Pblico Mineiro, abriremos campo para

    a leitura de relatos sobre os primeiros contatos intertnicos e transculturais, na construo do substrato

    de cultura hbrida que se formou naquela zona de contato, buscando levantar hipteses sobre sua forma

    de conceber, promover e ritualizar a guerra.

    Palavras-Chave: Guerra, Etnias Puri-Coroado, Etnohistria Indgena, Histria Socioambiental

  • 105

    ABSTRACT

    For behind the recent efforts of archaeological research which has shown promising data, although still

    remain without sufficient connection to each other, we intend in this essay contribute to the perception

    of the specific accounts of ethnic and Puri Crowned Zona da Mata Central de Minas Gerais in the last

    decades of the eighteenth century and the first thirteen years of the century. It is suspected by linguistic

    affinities, that these Indians were ethnic Macro-Ge, and, you know, for a data stream concatenated to

    their biology and culture were one of the vectors essential to the formation of which is now in the

    region Valley one of the main tributaries of the Paraiba do Sul: the River Dove, or Pigeon River, but

    also appears in the documentation of the time. Going through lists of documents scattered in the

    archives of the parishes or by viewing the sequences organized in the early twentieth century. In

    Revista do Arquivo Publico Mineiro, will open the field to read reports of the first inter-ethnic and

    cross-cultural contacts in the construction of the substrate of hybrid culture that was formed in that area

    of contact, seeking to raise hypotheses about the way they develop, promote and perform ritualstowar.

    Keywords: War, Ethnicity Puri-Crowned Ethnohistory Indigenous Environmental History

    1. Primeiras palavras

    O Vale do Rio Paraba do Sul, tradicional regio oitocentista de produo escravista cafeeira,

    foi estudado sob diversas perspectivas ao longo das ltimas dcadas do sculo XX, por uma

    historiografia dedicada aos temas de histria social da plantation e do abastecimento de gneros

    alimentcios para o Centro-sul. A sociedade que se formou para este cenrio, entretanto, se gestou em

    um perodo anterior, quando as reservas aurferas de aluvio se esgotavam na regio Mineradora

    Central das Minas Gerais e proprietrios de escravos, em levas diversas e sucessivas, se dirigiam para

    os matagosos sertes do Leste, regio ainda indevassada e mantida pelo Governo da Capitania como

    barreira verde estratgica durante os trs primeiros sculos da colonizao, para impedir invases

    externas e coibir o contrabando de ouro e diamantes. L, reuniam-se etnias indgenas suficientemente

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    diversas entre si para que hoje, os pesquisadores, munidos que somos de nosso mtodo singularizador e

    conjuntista-identitrio, nos sentssemos incomodados com o amlgama a que foram submetidas pela

    memria construda oficial. Para aqum dos recentes esforos de pesquisa arqueolgica, que tem

    revelado dados promissores, no obstante ainda permaneam sem suficiente conexo entre si,

    pretendemos, nesse ensaio, contribuir para a percepo das especificidades dos relatos sobre as etnias

    Puri e Coroado da Zona da Mata Central de Minas Gerais nas ltimas dcadas do sculo XVIII e nos

    primeiros treze anos do sculo XIX. Suspeita-se, por afinidades lingsticas, que estes ndios fossem de

    etnia Macro-j, e, sabe-se, por uma seqncia de dados concatenados, que sua biologia e cultura foram

    um dos vetores essenciais para a formao das que hoje se encontra na regio do vale de um dos

    principais afluentes do Paraba do Sul: o Rio Pomba, ou Rio das Pombas, como tambm aparece na

    documentao de poca. Estes ndios eram numerosos e, em seu nomadismo, dispersos pela regio. Sua

    importncia para a economia e a cultura do Centro-Sul foi anotada pela sensibilidade de Waren Dean,

    que dedicou especial ateno aos conflitos que antecederam a formao da clssica sociedade da

    regio. Percorrendo listas de documentos dispersas nos arquivos de parquias ou consultando as

    seqncias organizadas no princpio do sculo XX na Revista do Arquivo Pblico Mineiro, abriremos

    campo para a leitura de relatos sobre os primeiros contatos intertnicos e transculturais, na construo

    do substrato de cultura hbrida que se formou naquela zona de contato, buscando hipotizar sobre sua

    forma de conceber, empreender e ritualizar a guerra.

    2. ndios, Colonos, Estrangeiros e Foras da Lei e a paz nos sertes do Rio Pomba

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    So Joo Batista do Presdio, localidade da qual nos ocupamos agora, era situada em meio a

    uma mata densa, formada por rvores consideradas muito altas. As rsticas residncias dos

    portugueses, mais ou menos em nmero de 30, seguidas por algumas senzalas de escravos,

    dispunham-se em crculo ao redor de um campo central que assumia quase um papel de praa.30

    Em

    um outeiro modesto, erguia-se uma capela, ladeada por uma construo fortificada, porm, precria,

    caiada de branco e de apenas um pavimento, que funcionava como sede da autoridade militar e

    presdio destinado correo de degredados da Capitania de Minas por meio de trabalhos forados.31

    Muitos, havendo transgredido a lei nos principais centros mineradores, uma vez refugiados no serto,

    eram tolerados em razo de estarem povoando regies at ento inexploradas. Foi o que anotou

    Freireyss: O presdio de So Joo Batista, como todos os presdios, teve sua origem no

    estabelecimento de vrios criminosos fugidos da justia, que solicitaram do governo a proteo

    contra os selvagens (FREIREYSS, 1982:82).

    No muito longe da Igreja, dentro do mesmo crculo de casas, situava-se a residncia do

    vigrio.32

    Nas cercanias do arraial, havia aldeias dos Coroado e Corop, ndios que estabeleciam

    relaes de comrcio e cumpriam ofcios religiosos no mbito da sociedade luso-brasileira que ali se

    estabelecera, cultivando lavouras em suas terras. Essas tribos, originalmente nmades, j haviam em

    parte se sedentarizado. Neste sentido, Spix e Martius atentaram para uma outra funo do Presdio:

    (...) transmitir a civilizao aos ndios (...) (SPIX; MARTIUS, 1981: 221). Deveria aquele arraial

    assumir a funo de entreposto de descaracterizao cultural.

    30

    Sobre a populao das vilas de So Janurio de Ub e So Joo Batista do Presdio, Cf. listas

    nominativas detalhadas que informam a idade, o sexo, o estado civil e a localizao das residncias

    dos habitantes internos e externos desses aglomerados de fogos luso-brasileiros. Grande parte dessa

    populao era ndia ou mestia. Cf. Arquivo da Cmara Municipal de Mariana. Cd. 398.

    31 Veja ainda, a respeito do Presdio de So Joo Batista: SPIX, Joham Baptist Von; MARTIUS,

    Carl Friedrich Philipp von. Viagem pelo Brasil: 1817- 1820. Belo Horizonte: Itatiaia, 1981, V.1. p.

    221.

    32 ESCHWEGE descreveu desta forma sua chegada ao Arraial: Aps trs lguas de marcha

    atingimos o topo da serra de So Geraldo, em frente qual se eleva, mais alto ainda, a Serra da

    Ona. Ambas cercam uma regio com pequenas colinas, na qual se situa o presdio de So Joo

    Baptista, aonde chegamos por volta das trs horas da tarde. Hospedamo-nos na casa do diretor

    geral dos ndios, capito Marlire, natural da Frana. [...] No presdio as casas so de construo

    pobre,no se vendo prosperidade em lugar nenhum. (ESCHWEGE, W. L. op. cit., p. 139).

  • 108

    Convivendo com o povo dos arraiais, alguns ndios haviam incorporado certos valores

    daquela sociedade egressa das regies mineradoras. Muitos, abrigados em casebres semelhana dos

    portugueses e unidos a eles por casamentos intertnicos, criados como curucas, fora do convvio das

    tribos e submetidos, muitas vezes, a trabalhos compulsrios - num verdadeiro processo de escravido

    velada - mal se diferenciavam de um escravo, ou de qualquer pobre livre.33

    A maioria, entretanto,

    no obstante as dcadas de contato, era considerada arredia e desconfiada. Sua cultura nmade

    prevalecia para alm das imposies da catequese, para o desespero dos mais persistentes

    missionrios.

    Considerados sditos da Coroa desde as reformas pombalinas, os C