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  • REVISITA DESCONSTRUO DO MODELO JURDICO INQUISITORIAL

    Salo de Carvalho

    CIENCIAS PENAIS

    Revista da Associaao Brasileira de Professores de Ciencias Penais

    Vol. 2

    Brasil, Ano 2, n. 2, janeiro junho 2005

    Editora Revista Dos Tribunais

    http://www.cienciaspenales.net

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    2.11

    REVISITA A DESCONSTRU

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    Aps sua entrega, o Prof. Wolkmer realizou convite para publicar o trabalho, em forma de artigo, na primeira edic;ao da coletiinea Fundamentos de histria do direito (BH: Del Rey, 1996).

    No ano de 1996, ostentava o ttulo de Mestre e a qualidade de professor de Direito Penal em renomada Universidade gacha. Como o livro organizado pelo prof. Wolkmer estava no mercado com tirna aceitac;ao, indicando a possibilidade de segunda edic;ao, resolvi retomar a temtica.

    Naqueles dias que sucederam a defesa da dissertac;ao, coma notcia da segun-da edic;ao do livro e a vontade de atualizar ( em realidade ampliar) o texto, obtive tambm a notcia de que Jacinto Coutinho ministraria um mdulo na Especializa-c;ao em Direitos Humanos, na Faculdade na qua! lecionava. Contatei a coordena-dora do curso, Profa. Sandra Vial, que imediatamente acenou a possibilidade de assistir as aulas. Tema: Sistemas processuais penais e Direitos Humanos.

    Jacinto Coutinho iniciou sua exposic;ao trabalhando a teoria dos sistemas pro-cessuais em Roma, de como ocorrera a incorporac;ao do modelo acusatrio grego pela Repblica romana e de que forma, na transmutac;ao ao Imprio, gradativa-mente a estrutura foi tomando contornos inquisitrios. No segundo momento, passou a operar no interior do sistema acusatrio dos I udicium Dei, sem deixar de explicar, desde a filosofia, a economia e a psicanlise, o processo de ruptura do Medievo com o mundo Antigo. Finalmente, com Cordero, revelou a necessidade do hurgues sculo XIl cambiar o sistema, visto a intolerancia com mquinas judi-cirias tao rudimentares (v.g. os procedimentos ordlios como o iudiciumferri candentis). Fundada a base histrica, aps quatro horas de exposic;ao, o professor afinnou estar pronto para tratar do sistema inquisitrio.

    Concilio de Verona ( 1184) e a coalisao do Papa Lcio llI e Frederico Barba-roxa; Bula Vergentis in Senium (1199) de Inocencio lll; Conclio de Latrao (1215); Editos de Frederico Il contra os ctaros (1231); criac;ao da ordem dos Domini-canos por Gregrio IX; Bula Ad Extirpanda de lnocencio IV - "as estruturas emergem lentamente: no princpio siio os delegados do Papa que inquirem; de-pois entram em cena os dominicanos; primeira aparir;iio em Firenze, 20 de ju-nho de 1227; quando Inocncio N emite a bula 'Ad extirpanda', 25 de maio de 1252, o aparato assumefiguras definitivas". 1 Desta forma, concluiu Jacinto Coutinho, a estrutura inquisitorial origina-se "no seio da Igreja Catlica, como urna resposta defensiva contra o desenvolvimento daquilo que se convencionou chamar de 'doutrinas herticas'. Trata-se, sem dvida, do maior engenho jur-dico que o mundo conheceu, e conhece ".'

    Durante a aula, o professor, que havia !ido meu artigo, publicamente cri-ticou os equvocos que incorri no ensaio, gerando em mim e em alguns cole-

    "' CORDERO, Franco. Guida al/a Procedura Pena/e. Torino: Utet, 1986, p. 46. "' COUTINHO, Jacinto. O papel do novo juiz no Processo Penal. Direito Alternativo:

    anais do evento comemorativo do Sesquicentenrio do Instituto dos Advogados Bra-sileiros. Rio de Janeiro: IAB, 1994, p. 36.

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    gas, notadamente a amiga Maura Basso, desconforto. Pontuou a ausencia de autores importantes para tratar o tema (Cordero, fundamentalmente) e a pers-pectiva errnea quanto a Ordonnance Criminelle de Lus XIV (1670), vigente no ancien rgime, que, contrariamente do que eu afirmava, nao teria determi-nado o declnio do sistema, mas sim a laicizao;:ao do inquisitorialismo e a ins-trumentalizao;:ao de urna forma de processo inquisitrio coma presen

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    vo, marca a vtria da 'racionalidade' e do 'humanismo' advogados pelos fil-sofos das luzes.

    Sob o signo da intolerilncia e mascarada pela sacraliza

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    lgicas e historiogrficas como a da persegui(,'liO dos judeus, cristios novos e de um sem nmero de culturas opositoras a tradi!,'lio. O presente trabalho, todavia, propoe verificar as tcnicas do procedimento inquisitorial e os seos discursos (des )legitimadores, sobretodo aqueles que geraram a revolu!,'liO jurisprudencia! no trabalho da magistratura francesa no sculo XVII.

    No entanto, o estudo prescinde abordagem mais ampla, qual seja, anlise do processo de seculariza(,'lio/secularismo das ciencias e da repulsa destas as atitudes autoritrias da lgreja. Tal leitura realizar-se- a partir de Dussel.

    3. O aparelho inquisitorial

    H urna coisa apenas que excita os animais mais do que o prazer: a dor. Sob tortura tu vives como sobo efeito de ervas que produzem a/ucinaroes. Tuda o que ouviste

    contar, tuda o que leste, volta a tua mente como se fosses transportado, no ao cu mas ao infemo. Sob tortura

    dizes niio apenas o que quer o inquisidor, mas tambm aqui/o que imaginas que possa /he dar prazer, porque se estabelece urna relariio (esta sim. realmente diab6/ica)

    entre tu e ele ... Eu sei estas coisas, Ubertino, eu tambm jiz parte daquele grupo de homens que acreditam poder

    produzir a verdade com o ferro incandescente (UMBERIO Eco).

    O aparelho inquisitorial, anteriormente testado no perodo da Roma Imperial, ressurge nas prticas judicirias medievais quando da necessidade de amplia!,'liO da malha repressiva. A partir da necessidade de controlar conjuntamente crirnina-lidade comum e heresia (crime de consciencia), o mecanismo permite a amplia-'

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    aproveita do texto do corpus iuris civilis para escorar sua prpria organizario e desenvolver mecanicamente sua teocracia radicar' .6 Lembra Cordero que "o saber tcnico imposto pelasfontes romanas exige novas mquinas instrutrias; se algum deve ou nio ser punido assunto cientificamente regulvel; em primeiro lugar, de-vem ser reexaminados os fatos, com mtodos adequados a cultura dominante; de-pois conhecedores do Corpus Iuris ou dos ciinones diriio quanto vale in iure o acon-tecido. Os antigos rituais nio distinguiam as duas quest5es, facti e iuris".1

    Dentre as principais vantagens do novo mtodo, pode-se destacar (a) o carter pblico das denncias, nao mais restritas a vtima ou aos seus familiares, aliada (b) ao sigilo da identidade do delator; ( c) a inexistencia de separa~ao entre as figu-ras de acusador e julgador, sendo lcito a este realizar a imputa~ao, produzir a pro-va e julgar o acusado; ( d) o sistema tarifado de provas e sua gradua~ao na escala da culpabilidade, recebendo a confissao o mximo valor (regina probatio );' e (e) a au-to~ao irrestrita da tortura como mecanismo idneo para obten~ao de confiss5es.

    A importancia da utiliza~ao da tortura para a conquista da "verdade real'"' foi tamanha que Levack a aponta como a segunda circunstincia determinante na alte-ra~ao do sistema. Sustenta o autor que a tortura disseminou o modelo repressivo, aumentando gradativamente as possibilidades de condena~ao por heresia devido a facilidade na obten~ao da prova suprema - "o Direito cannico nio tendo deter-minado este ou aquele suplcio em particular, os juzes podem se servir daqueles que eles acreditariio seremos mais apropriados para tirar do acusado a confissiio do seu crime". ' Exemplo significativo da veemencia no uso LEGENDRE, Pierre, op. cit., p. 91.

    m CORDERO, Franco. Guida ... cit., p. 43-44. '" "A confissiio, contudo, est explicitamente relacionada pelos telogos ii doutrina

    das causas do Mal e dos meios para dela se desfazer, conjurar a potncia sobre-humana de Satii, ou restituir ao Homem sua Salvar;iio aps a Queda" (LEGENDRE, Pierre, op. cit., p. 136).

    "' Cordero, ao avaliar o impacto da tortura como meio judicial de prova, constata: "o instrumento inquisitrio desenvolve um teorema bvio: culpado ou niio, o indiciado detentar das verdades histricas; tenha cometido ou niio o fato; nos dais casos, o acontecido constitu um dado indelvel, comas respectivas memrias; se ele as dei-xasse transparecer, todas as questoes seriam liquidadas com certeza; basta que o inquisidor entre na sua caber;a. Os juzos tomam-se psicoscopia" (CORDERO, Fran-co. Guida ... cit., p. 48).

    (lO) LEGENDRE, Pierre, op. cit., p. 99.

    J

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    inventam tormentos de tal modo cruis que os acusados morrem ou perdem alguns membros durante a tortura". 11

    Corno terceiro fator da expansao dos instrumentos inquisitrios, Levack aponta a utiliza1;ao do modelo judicial leigo para os crirnes de natureza espiri-tual. Segundo o autor, "desde o camero da grande cara as bruxas os tribunais seculares dos estados europeus ocidentais tambm participaram da persegui-riio, quer cooperando com o trabalho dos tribunais eclesisticos, quer proces-sando bruxas por canta prpria. A medida que a carafoi evoluindo, os tribu-nais seculares assumiram um papel ainda maior no processo, enquanto o dos tribunais [ confessionais) declinou" ."

    Corn a identifica1;ao formal entre as categorias delito e pecado, e corn a re-cupera1;ao do Direito Romano imperial, a nascente burocracia europia ociden-tal ocupada na rede repressiva, sendo sua absor1;ao corolrio da natureza juris-dicional "mista" do crirne de lesa-majestade divina. O prprio Malleus Malefi-carum, no captulo "Que trata das Medidas Judiciais no Tribunal Eclesistico e no Civil a Serem Tomadas Contra Bruxas e Tambm Contra Todos os Hereges", tpico terceiro, "De Como o Processo h de ser Concludo com o Pronuncia-mento de uma Sentenra Definitiva