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As incríveis histórias de pesoas que ficaram famosas por serem elas mesmas

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  • Jornal-laboratrio do curso de Comunicao Social da Universidade de UberabaAno VIII n 334 Uberaba/MG Junho de 2007Jornal-laboratrio do curso de Comunicao Social da Universidade de UberabaAno VIII n 334 Uberaba/MG Junho de 2007

    Bodim

    Z Galinha

    Bebel

    Seu Marcos(Homem doscachorros)

    Rubo

    Esmar

    Toninho

    Gilberto

    D. Maria Francisca

    Dora

    Educao e responsabilidade social

  • Revelao - Jornal-laboratrio do curso de Comunicao Social da Universidade de Uberaba

    Uniube Reitor: Marcelo Palmrio Pr-reitora de Ensino Superior: Inara Barbosa Coordenador do curso de Comunicao Social: Raul Osrio Vargas Assessorde Imprensa: Ricardo Aidar Revelao Professor orientador: Andr Azevedo da Fonseca (MTB MG-09912JP) Produo e edio: Alunos do 3 perodo deJornalismo Estagiria (diagramao e edio): Graziella Tavares Voluntrias: Pollyana Oliveira Lopes, Jeniffer Evangelista Reviso: Mrcia Beatriz da Silvae Celi Camargo Impresso: Grfica Jornal da Manh Redao Universidade de Uberaba - Curso de Comunicao Social - Sala 2L18 - Av. Nene Sabino, 1801 -Uberaba - MG - 38055-500 Telefone: (34) 3319 8953 Internet: www.revelacaoonline.uniube.br E-mail: revela@uniube.br

    Revelao - Junho de 20072

    Compromisso com o leitor

    No adianta fazer cara feia, trocar de caladaou fingir que no v. Eles esto l. Voc podeignor-los, desprez-los ou at mesmo odi-los; mas no dia seguinte, l esto eles de novo,teimosos, corajosos, persistentes. Eles vo e vm,cruzando as esquinas, perambulando pela cidade,ocupando seu espao e se virando como podempara ganhar a vida. Eles esto nos bancos das praas,nas poltronas de nibus, nos carrinhos de lanche enas escadarias das lojas; eles vendem, compram,conferem o troco, pedem licena, pedem por favor,pedem uma moedinha, conversam toa ou apenasficam l quietos, olhando o movimento: o povo, o

    povo do centro de Uberaba, em toda a sua plenitude,naquela anrquica confuso cotidiana que preenchea cidade de vida.

    Mas entre o povo que circula pelo centro, halgumas figuras particularmente interessantes. Lesto elas, todo santo dia, naqueles mesmos lugares,colorindo o espao pblico com sua originalidade.Algumas vezes elas so bem extravagantes; em outroscasos, elas apenas esto l. E assim que, nainsistncia do dia-a-dia, essas pessoas comeam afazer parte de nosso cotidiano, de nossa vida e denossa cidade. E de mansinho, mesmo que a gentenem as conhea pessoalmente, eis que elas vo

    Notcias da nossa gente

    Andr Azevedo da Fonseca (*)

    A histria do povo de Uberaba foi raptada eencarcerada. Nunca contaram nossa histria. Quandoprocuramos nos livros, encontramos sempre asmesmas referncias a duas dzias de figures que, pelonico mrito de terem sobrenomes, deixaramregistradas a sua ilustre presena nos cargoshonorficos que seus prprios compadres os levaram.No toa que a populao em geral ignora essahistria. De fato, ela no nos diz respeito.

    Mas felizmente novos estudos caminham para umamudana radical dessa perspectiva. Cada vez mais oshistoriadores tm concentrado a ateno nas pessoascomuns, em vez de estudar apenas a histria dosdirigentes. Essa abordagem baseia-se na idia de quea dinmica de uma cidade no movida apenas peloEstado ou pela economia, mas por toda a sociedade,formada por pessoas como ns, que trabalhamos emnossos empregos, relacionamo-nos uns com os outrose simplesmente vivemos as nossas vidas.

    Toda essa complexidade social o grande tema depesquisas atuais. H tempos foi abandonada a idiade biografia dos grandes lderes, pois percebe-se queestes no tm em si todos os elementos para explicaras transformaes de seu povo. claro que, nas

    democracias modernas, essas figuras representamanseios que na verdade so coletivos. Mas aprisionara Histria vida dos dirigentes, como se apenas elesfossem agentes histricos, um princpio quecontraria a prpria lgica democrtica.

    Sabe-se que a ao individual de homens emulheres muito pouco perante as foras do contextono qual esto inseridos. Ao contrrio do que ospolticos profissionais e seus acessores costumampregar para justificar sua existncia, transformaessociais nunca so resultados de atos individuais, masdependem de uma srie de pr-condies que asociedade como um todo impe atravs da imprensa,das associaes, dos sindicatos e das manifestaespblicas. Alm disso, como ensina o historiador PaulVeyne, para compreender a sociedade precisoobservar todos aqueles elementos chamados no-factuais, os pequenos acontecimentos diludos nocotidiano, cuja importncia social no percebidaimediatamente. Eventos histricos acontecem todosos dias, mas como ocorrem sutilmente em nossocotidiano, nem sempre nos damos conta de suarelevncia.

    Se queremos entender como a cidade se tornou oque , no devemos estudar apenas uma exceo decidados que ocuparam cargos pblicos. Essas figuras

    excepcionais no vivenciam a mesma experincia quens. Para interpretar a histria de nossa gente,devemos olhar para a vida das pessoas comuns emsuas contradies e diversidades.

    Cada um de ns um agente histrico de muitaimportncia. Portanto, se quisermos realmenteescrever a histria dos uberabenses, precisamos noslibertar dos dirigentes para mergulhar diretamentenas vidas dos habitantes da cidade. Essa nova histriade Uberaba ainda est para ser contada.

    ( * ) Esse artigo foi publicado originalmente no Jornal deUberaba, em 04/04/2006, mas como tinha tudo a ver com essaedio, no podia ficar de fora...

    conquistando um espao em nossa memria afetiva.Mais um pouquinho e essas figuras viram verdadeiraslendas urbanas e passam a inspirar infindveishistrias em nossa imaginao.

    Nessa edio especial do Revelao, decidimosconhecer melhor algumas dessas pessoas que j fazemparte da histria do cotidiano de Uberaba. Escolhemosdez personagens bastante populares e contamos umpouco de sua histria. E foi assim que descobrimospessoas incrivelmente originais que, participando denossa sociedade com suas particularidades, fazem acidade tornar-se um lugar muito mais interessantepara se viver.

    Por uma nova histriado povo de Uberaba

    Novos olhares

    Rua Vigrio Silva com Arthur Machado, em 1904

  • Revelao - Junho de 2007 3

    Um menino no playgroundToninho faz do Calado da rua Artur Machado o seu parque de diverses particular

    Carla MatosLetcia Lemos3 perodo de Jornalismo

    O sol mal comea a nascer e l est ele, acordadona cama, ansioso para chegar a hora dotrabalho. Sempre sorridente, ele acompanhaseu programa matinal de rdio favorito e sua alegrias se completa quando ouve o som da buzina, na portade sua residncia, sinal de que a Kombi o espera. Jno carrinho, ele deixa sua casa no bairro Abadia, comdestino ao lugar onde garante seu sustento e suadiverso. Estamos falando de Luiz Antnio Martins,65 anos, pedinte do Calado da Artur Machado hmais de 30 anos.

    A hidrocefalia (excessiva quantidade de lquido nocrebro) e a paralisia infantil limitaram osmovimentos de Toninho, como carinhosamentechamado pelos amigos. Diante desses problemas,Toninho nunca se deixou abater, fazendo da msica eda poesia maneiras de superar as dificuldades do dia-a-dia. s passar uma moa bonita e ele j comea acantoria: Fui na casa da morena, pedir gua prabeber, no sede no nada moreninha, eu vim aquis pra te ver.

    E no pra por a Com seu jeitinho todoparticular, ele tambm encanta suas paixes, sendoconsiderado pelos colegas do Calado um homemgalanteador. Toninho inclusive tem um carinhoespecial por uma vendedora, que trabalha em frentea ele, para a qual manda beijos e mais beijos de amor.

    Alm de romntico, Cabeo, como tambmadora ser chamado, muito amigo de todas aspersonagens que fazem parte do cotidiano do centroda cidade. Mas claro que estes pintam e bordamcom ele. Gaspar Ferreira da Silva, conhecido comoBodinho, vendedor de algodo doce no Calado,conta algumas estripulias que j aprontou comToninho. Peguei o carrinho desse malandro e solteiCalado abaixo. Para a sorte dele, nosso amigo Jorgeestava l no final esperando. De tanto susto, o Toninhoficou at branco, mas adorou, conta Bodinho.

    Ele lembra ainda um dia em que Toninho estavafumando e o cigarro caiu no carrinho. Ele ficoudesesperado pedindo socorro e, para fazer graa,Bodinho deu as costas. S depois de um tempo foiajud-lo.

    No convvio desses dois amigos, o bom humorsempre predomina. Toninho conta que nunca seimportou com as brincadeiras. Diante das provocaesde Bodinho, diz que vai ench-lo de cabeadas. E parademonstrar o carinho especial que tem pelo amigo,Toninho freqentemente declama o versinho: OBodinho meu amigo, o Bodinho meu colega, euvou fazer com ele, o que o cavalo faz com a gua.

    Todo mundo conhece

    Carla Matos

    Toninho e seu amigo Bodim so companheiros inseparveis no trabalho e nas brincadeiras no Calado

    Com todas essas brincadeiras, Toninho faz de suarotina uma verdadeira diverso. Segundo SlvioCbrio, gerente da Oriental Calados, quandoToninho no vai para otrabalho, chega a chorar emcasa. Ele um menino e seuplayground o Calado, diz.

    Apesar de tantas alegrias, avida de Luiz Antnio repletade dificuldades. Ele ficapraticamente o dia inteiro noCalado e usa fraldas, fazendoas necessidades ali mesmo. AKombi que o leva e busca paga por sua irm, o que faz a renda da famliadiminuir consideravelmente. Alm disso, boatosmaliciosos rondam sua vida. Algumas pessoas falamque eu sou rico, que minha me me usa para ganhardinheiro e um monte de coisas ruins. Mas eu semprefico calado e entrego a Deus, porque eu gosto de todos,todo mundo meu amigo, fala Toninho. Tem genteque brinca, maldosamente, que ele teria vendido o

    seu crebro UFTM, para ser usado como objeto deestudos. Outros dizem que ele possui casas de aluguelespalhadas por Uberaba. Mas Toninho garante que

    tudo isso mentira sem cabi-mento!

    Toninho relata ainda que aspessoas no Calado so muitosolidrias e esto sempre aju-dand