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Jornal-laboratório do curso de Comunicação Social da Universidade de Uberaba. Abril de 2003.

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  • Uma Assemblia Geral das NaesUnidas, realizada em 21 de novembro de2001, proclamou 2002 como o Ano dasNaes Unidas para o Patrimnio Cultural.Ao retraar sua pr-pria filiao cultural,ao reconhecer asdiversas influnciasque marcaram suahistria e moldaramsua identidade, umpovo torna-se maiscapaz de construir relaes pacficas comoutros povos, a continuar dilogos iniciadosem tempos imemoriais e a forjar seu futuro.

    Segundo o diretor geral da Unesco,Koichiro Matsuura, o grande desafio da

    2002 foi o Ano das Naes Unidas para o Patrimnio Cultural

    Diversidade culturalpromove dilogo e paz

    Preservao

    Essa edio especial do Revelao umgrito, um urro. O objetivo trazer ao leitor aurgncia da discusso sobre a importncia eo sentido da preservao do patrimnio cul-tural da cidade.

    Resultado de trs meses de pesquisa emdocumentos pblicos, processos administra-tivos e judiciais, arquivos, cartrios, legisla-es, alm de diversas entrevistas com algunsdos principais envolvidos, o reprter procu-rou esboar os bastidores de um caso de de-molio que provocou muitas discusses emUberaba no final do ano passado a derru-bada do Palacete de Antnio Pedro Naves,

    2 29 de abril a 5 de maio de 2003

    Jornal-laboratrio do curso de Comunicao Social, produzido e editado pelos alunos de Jornalismo e Publicidade & Propaganda da Universidade de Uberaba (revelacao@uniube.br)

    Supervisora da Central de Produo: Alzira Borges Silva (alzira.silva@uniube.br) Edio: Alunos do curso de Comunicao Social Projeto grfico: Andr Azevedo (andre.azevedo@uniube.br) Diretor doCurso de Comunicao Social: Edvaldo Pereira Lima (edpl@uol.com.br) Coordenador da habilitao em Jornalismo: Raul Osrio Vargas (raul.vargas@uniube.br) Coordenadora da habilitao em Publicidade e Propaganda: rika Galvo Hinkle (erika.hinkle@uniube.br) Professoras Orientadores: Norah Shallyamar Gamboa Vela (norah.vela@uniube.br), Neirimar deCastilho Ferreira (neiri.ferreira@uniube.br) Tcnica do Laboratrio de Fotografia: Neuza das Graas da Silva Suporte de Informtica: Cludio Maia Leopoldo (claudio.leopoldo@uniube.br) Reitor: Marcelo Palmrio Ombudsman da Universidade de Uberaba: Newton Mamede Jornalista e Assessor de Imprensa: Ricardo Aidar Impresso: Grfica ImprimaFale conosco: Universidade de Uberaba - Curso de Comunicao Social - Jornal Revelao - Sala L 18 - Av. Nen Sabino, 1801 - Uberaba/MG - CEP 38055-500 Tel: (34)3319-8953http:/www.revelacaoonline.uniube.br Escreva para o painel do leitor: paineldoleitor@uniube.br - As opinies emitidas em artigos assinados so de inteira responsabilidade de seus autores

    Portadoras de uma mensagem espiritual do passado, as obras monumentais dospovos constituem actualmente o testemunho vivo das suas tradies seculares. Ahumanidade, que toma cada dia conscincia da unidade dos valores humanos,considera-os como um patrimnio comum e, face s geraes futuras, reconhece-se solidariamente responsvel pela sua salvaguarda. Ela compromete-se atransmiti-los em toda a riqueza da sua autenticidade.

    Trecho da Carta Internacional sobre a Conservao e Restauro dos Monumentos e dos Stios (Carta de Veneza), 1964

    Alm de ser um instrumentode paz e reconciliao, opartrimnio cultural tambmum fator de desenvolvimento

    Unesco mostrar para os poderes pblicos,para o setor privado e para a sociedade que opatrimnio cultural, alm de ser uminstrumento de paz e reconciliao, tambm

    um fator de desenvol-vimento.

    So numerosos osexemplos nos quaisuma nova abordagemda gesto do patri-mnio cultural favo-receu o crescimento

    econmico criando oportunidades deemprego para as populaes locais, seja pormeio do artesanato, do turismo cultural ou dosurgimento de novas profisses, assim comode novas expresses da criatividade.

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    )Detalhe de casaro ameaado,localizado na rua Senador Pena

    Fachada da Igreja Santa Teresinha,localizada na praa de mesmo nome

    Manifestantes realizaram um protesto, dias depois da demolio do palacete.Caso levou renncia de quatro membros do conselho de patrimnio histrico e teveampla repercusso na imprensa. Na foto, reprteres registram momento em que livrosde histria foram queimados para simbolizar a destruio da memria na cidade

    imvel tombado provisoriamente pelo conse-lho de patrimnio histrico da cidade.

    Todos os esforos foram direcionados nosentido de fazer um jornalismo de compreen-so. Para realizar a reportagem, tentou-serespeitar a complexidade do caso e as diver-gncias de opinio. Afinal, o intuito no fe-char um juzo de valor, mas oferecer algumsubsdio para um debate aberto, crtico econsciente, colaborando para que a socieda-de consiga encontrar uma soluo vivel parasatisfazer, ao mesmo tempo, os usos econ-micas dos imveis e a preservao da mem-ria dos uberabenses.

    Ao leitor

    Para entender opatrimnio cultural

    Andr Azevedo

  • 3329 de abril a 5 de maio de 2003

    Andr Azevedo da Fonseca3 perodo de Jornalismo

    Na sexta-feira 13 de dezembro de 2002, oPalacete Antnio Pedro Naves, uma dasedificaes mais significativas do patrimniocultural da cidade, comeou a ser demolido apedido do empresrio lotrico Idivaldo OdiAfonso, o proprietrio. Primeiro o palacetefoi destelhado. Depois, as paredes internasforam derrubadas. Finalmente, a fachadadestruda. Na manh de domingo, o segundopiso j estava praticamente em runas. Nasegunda-feira, os comerciantes foram abrir aslojas e no acreditavam no que viam. Aquelecasaro, destrudo! O prdio localizava-se naesquina das ruas Manoel Borges e MajorEustquio.

    Para compreender o que Uberaba perdeusob esses escombros, e para elucidar oscaminhos que permitiram a destruio de umsmbolo da memria coletiva, em favor de umnegcio particular, preciso, primeiro, daralguns mergulhos na histria da cidade;depois, meter-se a bisbilhotar registros emcartrio de partilhas de heranas e negciosimobilirios; finalmente, entrincheirar-seentre uma furiosa batalha jurdica paradesembaraar a trama de argumentaes queacabaram por justificar, perante a Justia, ademolio.

    Para conhecer um pouco de Antnio PedroNaves, necessrio voltar os olhos para o fimdo sculo XVIII, quando o fabuloso perodode abundncia do ouro de Minas Gerais entrouem decadncia e os mineradores, alucinadospor riquezas, passarama buscar novos pontosde explorao. Foramdescobertas algumasjazidas isoladas nasregies do antigo Ser-to da Farinha Podre,atual Tringulo Mineiro o suficiente para chamar a ateno de muitosdeles e disparar uma pequena corrida do ouro.Depois que esgotaram as jazidas doDesemboque, esses homens tiveram queprocurar novas atividades para sobreviver.Foram organizadas, ento, expedies depovoamento para buscar terras frteis nointerior.

    Nessas expedies o Sargento-morAntnio Eustquio da Silva e Oliveira,Comandante Regente dos Sertes da Farinha

    Podre (mais tarde conhecido por MajorEustquio), encontrou terras mais frteis edecidiu construir a Chcara Boa Vistaprxima ao Rio Uberaba. Dois quilmetrosadiante, mandou fazer um retiro onde crioualgumas cabeas de gado. Atradas porAntnio Eustquio, famlias passaram ainstalar-se nos arredores de sua propriedade.

    Esse povoamento foio embrio do que viria aser a praa Rui Barbosa.A casa de Major Eus-tquio, o fundador deUberaba, no existemais. Localizava-se noterreno onde hoje est

    erguido o Chaves Palace Hotel. Durante osculo XX, o imvel foi ocupado peloportugus Borges Sampaio (personagem im-portante da histria da cidade), e mais tardepela loja Notre Dame de Paris, muito popularat os anos 70. A casa de Major Eustquio foidemolida no incio da dcada de 80 para aconstruo do hotel.

    Voltemos agora rumo ao sculo XIX.Uberaba foi um importante posto avanadode comrcio chamado de boca do serto

    por ser passagem obrigatria dosmercadores que atravessavam a estrada doAnhangera e desbravavam serto emcaravanas de carros-de-boi para comercializarprodutos de So Paulo (como o sal) e gadode Gois e Mato Grosso. Depois de umperodo de baixo crescimento no sculo XIX,a chegada da Companhia de Estradas de Ferroe Navegao Mojiana,em 1889, incrementou adistribuio de merca-dorias, aqueceu a eco-nomia da cidade e esti-mulou o surgimento dearmazns, bancos eindstrias.

    Mais tarde, abalados por uma crise no co-mrcio e pela abolio da escravatura,proprie-trios e polticos de Uberabaincentivaram a imigrao. Para se ter umaidia, at 1901, Uberaba recebeu 156famlias de italianos. Depois vieramportugueses, espanhis, rabes, srios earmnios. Mas a superao da crise sedeu quando a criao de gado Zebu introduzida em 1875 passou a atingiralta rentabilidade.

    Mascate de ZebuLogo chegaremos ao nosso personagem,

    Antnio Pedro Naves, o primeiro dono dopalacete. Muitos uberabenses foram ndiabuscar o boi de cupim. At 1921, cerca de5 mil cabeas foram trazidas para a regio.Os criadores do Tringulo Mineiro adaptaramo gado, de forma que o Zebu daqui ficou

    melhor que o da ndia mais pesado, precoce emanso, caractersticasincomuns na raa tidacomo indomvel. OZebu teve dois perodosureos na primeirametade do sculo XX:

    um de 1913 a 1921, e outro de 1935 a 1945,ambos impulsionados pelo alto consumo decarne brasileira na Europa, no perodo dasGuerras Mundiais.

    Uma das formas que os chamados Baresdo Zebu encontravam para ostentar suariqueza era mandando erguer palacetessuntuosos, projetados por arquitetosestrangeiros especialmente italianos quesoltavam a imaginao para criar cenrios deopulncia e prosperidade. A arquitetura

    O triste fim deAntnio Pedro Naves

    Dossi

    Edificao convidava reflexo sobre importante perodo da histria da cidade

    Primeiro o palacete foidestelhado. Depois, as paredesinternas foram derrubadas.Finalmente, a fachada destruda

    Para conhecer um pouco deAntnio Pedro Naves, necessrio voltar os olhospara o fim do sculo XVIII

    Andr Azevedo