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  • - texto fixado -

    REUNIES, MANIFESTAES E

    ACTUAO POLICIAL

    NOTAS PARA UMA CONFERNCIA

    INSTITUTO SUPERIOR DE CINCIAS POLICIAIS E SEGURANA

    INTERNA

    LISBOA, 25 DE MAIO DE 2006

    Antnio Manuel Clemente Lima

    Juiz Desembargador, Inspector-Geral da Administrao Interna

  • 2

    ADVERTNCIA. EXPLICAO.

    O texto que segue resume algumas notas para a parlenda proferida no

    ISCPSI. Trata-se, em boa parte, de apontamentos avulsos, colhidos aqui e

    ali, no tendo sido possvel, por limitaes de tempo, recuperar a origem

    das fraces citadas no texto como, a todos os ttulos, era devido , pelo

    que se impunha esta explicao aos citados e esta advertncia aos leitores.

    A

    A Constituio da Repblica Portuguesa consagra, no artigo 45., o

    direito de reunio e de manifestao: os cidados tm o direito de se reunir,

    pacificamente e sem armas, mesmo em lugares abertos ao pblico, sem

    necessidade de qualquer autorizao.

    Este preceito consubstancia direitos fundamentais, inseridos no

    conjunto dos direitos, liberdades e garantias pessoais, com a fora jurdica

    prevenida no artigo 18., da CRP, isto : - aplicabilidade directa e

    vinculao das entidades pblicas e privadas; - possibilidade de restrio

    legal, limitada ao necessrio para salvaguardar outros direitos ou interesses

    constitucionalmente protegidos e aos casos expressamente previstos na

    CRP.

  • 3

    No prevendo o artigo 45. a possibilidade de restrio legal do

    direito de manifestao, pode afirmar-se que este traduz um direito

    irrestrito, ilimitado?

    Uma tal interpretao seria impraticvel, desde logo, pela simples

    razo de que o normal exerccio desses direitos o direito de reunio, onde

    entra o direito de manifestao colide, normalmente, inevitavelmente, com

    o exerccio dos mesmos e de outros direitos fundamentais, dos e por outros

    cidados.

    Ora, sabido, num Estado de direito democrtico, fundado na igual

    dignidade e liberdade de todos, a liberdade juridicamente reconhecida a

    cada um , no momento originrio da sua consagrao constitucional, uma

    liberdade j intrinsecamente limitada ou comprimida pela necessidade da

    sua compatibilizao ou convivncia com outros valores.

    Assim e antes de mais, importa ter presente que o facto de se

    regulamentar o exerccio de um direito fundamental no necessariamente

    coincidente com uma factologia de restrio desse direito.

    No primeiro caso da regulamentao do exerccio do direito ,

    inexistindo compresso do direito, sempre legtima a concretizao legal

    do mandamento constitucional.

    Assim se compreende que, para se assegurar os requisitos mnimos

    da vida em sociedade e as necessidades de viabilizao prtica do direito de

    manifestao, seja exigido um aviso prvio, com um tempo de antecedncia

  • 4

    razovel, tendo em vista a adopo das medidas administrativas de

    acompanhamento necessrias a garantir as condies fcticas sua

    realizao.

    No segundo caso (de restrio, real ou aparente, de um direito

    fundamental), podem ser considerados: - os limites imanentes, que

    identificam o prprio mbito de proteco constitucional de um direito

    fundamental, excluindo o seu exerccio em termos absolutos, e os limites

    que resultam da coliso ou conflito de direitos, que constituem limitaes

    recprocas, de acordo com os respectivos bens e valores jurdico-

    constitucionais em concurso.

    Trata-se de restries implcitas aos direitos fundamentais, fundadas

    nos princpios constitucionais e na necessidade de salvaguardar outros

    direitos e interesses constitucionalmente protegidos.

    Assim se compreende que, para assegurar a boa fluidez do trfego e

    circulao de pessoas, numa cidade, enquanto liberdade de circulao

    includa na zona de proteco do direito de deslocao ou do direito ao livre

    desenvolvimento da personalidade, se justifique a deslocao de uma

    manifestao de poucas dezenas de pessoas para outro local, ou a sua

    realizao a hora diversa, por prevalncia dos interesses de liberdade de

    milhares de condutores e pees sobre os interesses de poucas dezenas de

    manifestantes.

  • 5

    Em sntese, pode dizer-se que os direitos fundamentais no so

    absolutos, no sentido de ilimitados, pois, alm dos limites internos, que

    resultam do conflito entre os valores que representam as diferentes facetas

    da dignidade humana, os direitos fundamentais tm limites externos, uma

    vez que tm de conciliar as suas naturais exigncias com as que so prprias

    da vida em sociedade: a ordem pblica, a tica ou a moral social, a

    autoridade do Estado, a segurana nacional, etc.

    Seja pela via da regulao do direito, seja pela via da concepo dos

    direitos como imanentemente limitados, seja ainda pela via da necessidade

    objectiva de solucionar colises ou conflitos entre esses direitos e outros

    bens constitucionais, o legislador ordinrio, o aplicador do direito

    constitucional, a administrao, pode explicitar, concretizar, declarar,

    interpretar ou revelar, os limites imanentes que demarcam a priori o mbito

    de proteco dos direitos fundamentais.

    O Decreto-Lei n. 406/74, de 29 de Agosto que consubstancia uma

    Lei da Liberdade de Reunio e de Manifestao (para acolher a preferncia

    do Prof. SRVULO CORREIA), que regula o direito de manifestao, por

    forma a auxiliar o seu concreto exerccio (enquanto revelao dos seus

    limites imanentes), ainda que anterior vigncia da CRP, no foi expressa

    ou tacitamente revogado, designadamente pelo artigo 45., da CRP, por ser

    compatvel com esta contanto que as normas nele previstas ou uma

  • 6

    interpretao dessas normas conforme Constituio no infrinjam o

    mbito mnimo de proteco ou contedo essencial respectivo.

    Como referia LARENZ, se uma interpretao que no contradiz os

    princpios da Constituio possvel segundo os demais critrios de

    interpretao, h-de preferir-se a qualquer outra em que a disposio viesse

    a ser inconstitucional.

    Ainda assim, atenta a natureza pr-constitucional do referido DL,

    podero surgir potenciadas situaes ocasionais de desconformidade com a

    CRP.

    A ttulo exemplificativo, para o Prof. JORGE MIRANDA, o pr-

    aviso relativo inteno de realizao de reunies, comcios, manifestaes

    ou desfiles, em lugares pblicos mas tambm em locais abertos ao pblico,

    afigura-se excessivo e, por conseguinte, inconstitucional quanto a

    reunies em locais abertos ao pblico.

    Como salienta o Prof. SRVULO CORREIA, haver restrio do

    direito de manifestao sempre que uma pessoa se vir impossibilitada de

    desenvolver um comportamento abrangido pelo respectivo mbito de

    proteco em consequncia de uma norma legislativa ou de um acto de um

    rgo da administrao ou de um tribunal

    O carcter pacfico e sem armas das reunies e das manifestaes

    um imperativo de liberdade: de liberdade dos que se renem, de modo a

  • 7

    impedir a sujeio a qualquer forma de coaco, e de liberdade de terceiros,

    no ameaados por qualquer reunio.

    Tambm aqui a ordem pblica aparece como corolrio das justas

    exigncias do respeito dos direitos das pessoas (artigo 29./2, da Declarao

    Universal dos Direitos do Homem).

    Uma reunio ou uma manifestao de pessoas armadas (sejam quais

    forem as armas) , desde logo, uma reunio no pacfica.

    Pode haver reunies e manifestaes no pacficas sem pessoas

    armadas, por envolverem violncia fsica, podendo degenerar em motim

    (artigos 302. e 303., do Cdigo Penal).

    Em qualquer caso, seja por falta de cumprimento de nus legais, seja

    por que a reunio no ou deixa de ser pacfica, a disperso deve fazer-se

    com estrita observncia do princpio da proporcionalidade (artigos 18./2 e

    272./2 e 3, da CRP).

    Salienta o Prof. SRVULO CORREIA que o exame da Lei da

    Liberdade de Reunio e de Manifestao permite identificar quatro actos

    administrativos tpicos medidas de polcia das manifestaes que

    podero ser praticados pelas autoridades competentes em relao ao

    exerccio do direito de manifestao.

    Assim:

    (a) - a interdio de manifestao (artigo 1./1 e 2 e artigo 3./2): -

    tratando-se embora de uma restrio legislativa pesada, afigura-se

  • 8

    indispensvel, ainda que se trate de medida de extrema ratio e para ser

    usada apenas e s quando outra medida, menos gravosa, se mostra

    insuficiente; - o contedo essencial do direito de manifestao ficar

    afectado de cada vez que uma medida legislativa afectar a funcionalidade da

    actividade de manifestao relativamente preservao e promoo da

    dignidade da pessoa humana; - seria o caso de interditar a manifestao em

    locais onde pudesse ter visibilidade efectiva ou de proibir o uso de palavras

    de ordem que explicitassem o princpio ou valor defendido na manifestao;

    - importa atender s situaes de perigo concreto e confirmado

    relativamente a direitos fundamentais, moral, ordem pblica e ao bem-

    estar numa sociedade democrtica; - a moral relevante, para este efeito, ser

    apenas a atinente proibio, geralmente aceite, de certos actos de conduta

    exibicionista susceptveis de importunar as outras pessoas ou de perturbar

    menores, por isso mesmo susceptveis de incriminao; - no cabendo s

    autoridades administrativas formular qualquer juzo sobre a bondade das

    crticas polticas dos manifestantes, parece hoje claramente

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