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  • Retbulos Paulistas

    Dr. Percival TirapeliUniversidade Estadual Paulista

    Decorativos e simblicos, os retbulos so nas igrejas o centro das atenes visuais, a partir de complexos conjuntos escultricos de grandes propores - seja completando amplas formas arquitetnicas, seja encerrados em diminutas capelas como verdadeiras jias raras da arte brasileira. Os retbulos seguem regras de ele-mentos arquitetnicos da antigidade clssica, tal como os arcos de triunfo, e do Renascimento, e evoluram para o perodo barroco sculos XVII e XVIII - passan-do pelo maneirismo sculo XVI. No estado de So Paulo, temos como caracte-rstica o contraste entre o interior das igrejas coloniais e seu exterior simples e austero pela decorao da talha dourada ou policromada.

    Jesuticos Maneiristas (1622-1700)

    Seguramente um dos exemplos mais antigos em terras paulistas o retbulo da capela de So Miguel que leva a data de 1622 sobre a verga da porta. Considerada como raro exemplo de integridade de capela jesutica, seu retbulo-mor descrito por Germain Bazin como de tipo 2 ou de cercadura com a caracterstica de um nicho central aberto nas tbuas colocadas sobre a taipa ou pouco distantes da mes-ma. Colunas pouco salientes ajudam a sustentar o arco pleno sobre capitis sim-ples. A colocao das tbuas e uma pintura que prope uma concha contribuem para o ritmo radial, auxiliado pela perspectiva que aprofunda o local do sacrrio posto sobre a taipa. Recentes prospeces revelaram um piso na parte posterior do retbulo que indicaria o oito da construo; a camarinha teria sido obra posterior quando j sob a administrao dos franciscanos. Os dois altares laterais tm pro-fundidades diferentes tendo sido encontradas recentemente pinturas simblicas e decorativas em vermelho e preto sobre a taipa que est por detrs das tbuas do nicho. Quando da reforma franciscana promovida por frei Mariano da Conceio Veloso em 1780, foi preservada a pintura original que por indcios cobriria todas as paredes como aponta o barrado sulcado nas paredes da capela do stio de Santo Antnio. A pintura do altar do lado esquerdo mais fitomorfa, ao gosto de frei Ma-riano, que escreveria a Flora Fluminense em Lisboa e retornaria ao Brasil. Tem-se ainda que destacar na mesa da comunho as caritides indgenas - como aquelas

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    da segunda matriz de So Vicente (1599) - em que os seios das ndias so transfor-mados em capitel jnico apontando para os ventres proeminentes.

    Na Freguesia da Escada (Guararema), de 1652, o retbulo em madeira toma todo fundo da capela-mor. Austero, desprovido de ornamento, com peanhas sobres-saindo-se ao imenso madeiramento aplicado em todo vo arquitetnico, sobre estrutu-ra que distancia pouco da taipa, abre apenas um nicho para a imponente imagem da Nossa Senhora da Escada. Sobre o altar, um sacrrio de linhas maneiristas com pintura de Cristo Ressuscitado, com traos como os da porta do sacrrio da primi-tiva igreja do Morro do Castelo dos jesutas no Rio de Janeiro. No arco cruzeiro, dois retbulos singelos completam a ornamentao com soluo inusitada triangu-lar dos lambrequins (guarda-ps), sendo que o do altar de So Benedito ornado com pintura de flores ao gosto rococ.

    Nas capelas paulistas encontram-se retbulos de primeira fase denominados jesuticos ou maneiristas, como os das capelas de Voturuna ( Santana do Parnaiba) e Santo Antnio (So Roque), considerados por Lcio Costa como jias de fam-lia, inestimveis, sendo os dois nicos exemplares do gnero existentes no pas. E descreve-os:

    Na composio de Voturuna, foi simplesmente aproveitado o desenho dos frontes de coroamento dos retbulos originais, transferindo-se engenhosa-mente o nicho do corpo inferior do retbulo, corpo este no caso inexistente, para a parte central do frontal. Os pormenores de perfilatura e de ornamenta-o tambm reproduzem, de memria, os ornatos e perfis dos modelos por-tugueses, vendo-se, porm, entre as frutas amarradas por uma faixa motivo europeu ento na moda e j encontrado no fronto do retbulo da igreja de So Loureno dos ndios ( Niteri, RJ) e que encontraremos ainda, mais tarde, nos vestgios da cantaria da igreja de Santo ngelo das Misses, no Rio Gran-de do Sul, dois minsculos abacaxis (p. 135).

    Os altares laterais que se encontram na capela de Santo Antnio provavelmen-te foram acrescidos ao conjunto em meados do sculo XVIII, no sendo, portanto, do mesmo autor do retbulo-mor. As hastes e folhas de videira, assim como as aves e cachos de uva, mesmo que com talhas planas, assemelham-se a elementos orna-mentais presentes no retbulo de Santo Alberto, da igreja de mesmo nome em Mogi das Cruzes, So Paulo, no qual se apresentam vazados como no sacrrio prove-niente na igreja Matriz de Guarulhos, este pertencente ao acervo do Museu de Arte Sacra (MAS) de So Paulo. Os fragmentos do retbulo de Araariguama, distribudo entre colecionadores e parte no MAS/SP e o da Fazenda Pira de Itu, no mesmo museu, possuem talhas rasas e vazadas.

    Elementos e modos semelhantes podem ser encontrados no antigo altar lateral da capela dos Aflitos, no bairro da Liberdade e nos altares lateral e mor do antigo Colgio de So Paulo, em parte na igreja reconstruda no Ptio do Colgio.

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    Aracy Amaral (1981, p. 88), associa a talha vazada encontrvel nos retbulos de capelas paulistas aos elementos presentes nos altares do Vice-Reino do Prata, tendo recebido, portanto, forte influncia hispnica. Fato este que se confirma diante de parte de fragmentos de altares da antiga igreja jesutica de Santa F, Ar-gentina, hoje no museu residncia dos antigos governadores.

    Mas, em So Roque, na capela de Santo Antnio (1680), encontram-se o ret-bulo mor de propores alteradas no painel central. Dois tocheiros antropomorfos completavam, como em Voturuna, ali prximo, a cenografia da capela mor, sendo inusitadas essas solues plsticas. Estas figura mpares na arte colonial brasileira podem ser vistas como esculturas evoludas das caritides das mesas de comunho de So Vicente e So Miguel.

    Em So Roque, dois retbulos embutidos nas paredes, de procedncia hispa-no-americana com caractersticas platerescas, deixam transparecer a feitura indge-na imitando o trabalho de prateiros. Nesses retbulos, ainda segundo Lcio Costa

    ... se reproduz, em baixo-relevo, maneira de friso, o motivo simblico-or-namental da videira, j ento incorporado ao estilo barroco, mas geralmente tratado em alto-relevo ao redor dos fustes torcidos das colunas salomnicas. Resultou dessa interpretao menos erudita do velho tema bizantino-romni-co, como que uma volta tcnica dos modelos originais, parecendo, assim, estes nossos dois pequenos retbulos seiscentistas, coisa fabricada no dcimo

    sculo. (Costa, 1997,p.134)

    Ainda da segunda metade do sculo XVII, na capela de Santo Alberto (1670), em Mogi das Cruzes, parte de um retbulo que possui caractersticas maneiristas como a base do sacrrio, com elementos escultricos, planos de parras, cachos de uvas e pssaros com fundo vazado. Quatro colunas torsas, de lavor popular, la-deiam o nicho e sobre o mesmo um painel pictrico semelhante aos existentes no litoral fluminense. Este retbulo de Santo Alberto apresenta uma estrutura constru-tiva que remete aos altares com influncia jesutica e elementos ornamentais do maneirismo, ou perodo de transio entre as fases quinhentista e seiscentista da talha renascentista portuguesa - sob forte influncia hispnica e do barroco. O con-junto se divide em base, corpo e coroamento, compostos pela representao de elementos arquitetnicos. Sob o pdio, estruturando as colunas, o plinto, o toro e o fuste toscamente espiralado, contendo elementos como hastes, folhas e gavinhas de videira e cachos de uvas trabalhados como relevos que nos remete ao estilo plateresco vindo das possesses espanholas. Do estilo Nacional Portugus so as colunas com fuste em espiral, chamadas de pseudo-salomnicas. Os painis do conjunto apresentam elementos ornamentais com figuras de ave (fnix), assim como com cabeas de aves, substituindo as gavinhas no painel superior. A seu lado, msulas contm volutas ornamentadas com formas de folhagem de acanto e ornatos de escamas. O coroamento contm espao para painel pictrico repre-sentao de So Joo Batista - enquadrado acima do entablamento entre mainis recamados de folhas de acanto e de escamas ladeados por volutas aplicadas ma-

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    neira jesutica, conforme Lcio Costa. O ilustre arquiteto no teria visto esta ret-bulo que se encontrava em uma capela rural, parte dele encoberto pelo bairro da taipa, segundo fotografia do pesquisador paulista Eduardo Etzel. De l retirado no final do sculo XX, restaurado sob a orientao de Margarina Davina Andreatta e equipe da Universidade Brs Cubas de Mogi das Cruzes e transposto para o Museu de Arte Sacra Carmelita daquela cidade (TIRAPELI, 2002, p. 263).

    A soluo com a pintura no arremate superior s ser encontrada no sculo XVIII, na igreja da Ordem Terceira do Carmo em Santos, encimada por pinculos. Na capela da antiga aldeia de Carapicuba, o pequeno retbulo tem quatro nichos, a abertura para imagem de Santa Catarina de Alexandria, sacrrio e tringulo fron-to interrompido terminando com pequena cruz. Outro exemplar de talha seiscen-tista o sacrrio da antiga matriz de Guarulhos, com minuciosa talha plateresca, a exemplo das citadas talhas remanescentes da igreja do Colgio e da capela dos Aflitos, ambas na capital.

    O retbulo da terceira igreja jesutica da cidade de So Vicente completaria estas jias no fosse seu estado lastimvel aps um incndio em 2000, mas que ressurge depois de um restauro promovido pelo IPHAN, o rgo nacional do patri-mnio, em 2006. J desvirtuado e transformado em um baldaquino, possui quatro magnficas colunas maneiristas semelhantes quelas de So Loureno de Niteri (RJ), mas