RESUMO: PALAVRAS – CHAVE: INTRODUÇÃO ?· PALAVRAS – CHAVE: instituições, educação e desigualdade…

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<p>O SISTEMA EDUCACIONAL BRASILEIRO E OS MECANISMOS</p> <p>PERPETUADORES DA DESIGUALDADE</p> <p>Marco Tlio Aniceto Frana1</p> <p>Flavio Gonalves2</p> <p>RESUMO: As polticas pblicas voltadas para a educao lograram notveis avanosnos ltimos anos. No entanto, a mesma continua a revelar caractersticas de segregao.Apesar do aumento nos anos de estudo, os testes de proficincia exps uma a queda naqualidade do ensino. Dessa forma, polticas pblicas que priorizem os aspectosqualitativos do ensino fundamental para que o mesmo atua como um instrumento decombate as disparidades.</p> <p>PALAVRAS CHAVE: instituies, educao e desigualdade</p> <p>INTRODUO</p> <p>A educao um ativo importante uma vez que, aliado a outros mecanismos,contribui na gerao do crescimento econmico e no combate a desigualdade. Esse temacomeou a destacar-se na literatura econmica a partir do final dos anos 60 e desdeento, a sua importncia apenas cresceu.</p> <p>No ambiente familiar a deciso de educar as geraes futuras decorrente, emgeral, do nvel de educao dos pais. Dessa forma, pais com elevado nvel de capitalhumano tero filhos com nvel educacional semelhante ou at mesmo superior. Essasrelaes se do via financiamento ou crdito a educao e atravs dacomplementaridade com o capital humano da famlia. Contudo, em dinastias pobresesses mecanismos so frgeis para a gerao de indivduos mais educados. O resultado a perpetuao da desigualdade.</p> <p>Em pases como o Brasil com altos nveis de estratificao, a educao no temse revelado como instrumento de ruptura desse crculo vicioso. O sistema educacionalpassou por muitas reformas que beneficiaram de maneira marginal os pobres. Acaracterstica de dualidade do sistema educacional manteve-se no decorrer dos anos.</p> <p>A partir do final dos anos 80, verificaram-se esforos para a ampliao donmero de matrculas no ensino fundamental e mdio, junto ao combate aoanalfabetismo como metas de poltica governamental. No entanto, o aumento nonmero de matrculas no veio acompanhado de manuteno ou crescimento naqualidade educacional.</p> <p>Este quadro foi confirmado aps a realizao sistemtica de testes educacionais(PISA/OCDE e SAEB) que revelou a fraca formao dos estudantes de ensinofundamental e mdio. Alm disso, esses testes revelam diferenas profundas dequalidade entre os sistemas pblico e privado de educao, assim como intra-escola.</p> <p>O artigo tem por objetivo mostrar como a desigualdade pode ser perpetuadaatravs do sistema educacional. Isto porque o aumento nos anos de escolaridade poder 1 Aluno do Programa de Ps-Graduao em Desenvolvimento Econmico, UFPR.2 Professor do Programa de Ps-Graduao em Desenvolvimento Econmico, UFPR.</p> <p>no se traduzir em reduo das disparidades. O motivo estaria sustentado na queda daqualidade que dificultaria ainda mais ao pobre ascender socialmente O trabalho estdivido em duas sees, alm da introduo e concluso. Na segunda seo elaboramos oreferencial terico mostrando as formas de desigualdade discutidas na literatura queseriam geradas atravs do sistema educacional. Alm das diferenas na estrutura definanciamento da educao brasileiro e americano sob a luz do argumento deENGERMAN &amp; SOKOLOFF (2002). Na terceira seo, mostraremos as evidnciasempricas e para o Brasil e proposio de poltica.</p> <p>REFERENCIAL TERICO</p> <p>A capacitao do indivduo para o desempenho de funes especficas noambiente econmico, o status social adquirido, assim como os valores transmitidos pelasociedade, so alguns dos papis exercidos pelo capital humano. Cabe ressaltar que oconceito de capital humano engloba alm de educao, sade e fertilidade. Porm, nestetrabalho o foco ser dado apenas ao primeiro.</p> <p> A literatura econmica que se refere educao segue, em geral, duas correntesque se inter-relacionam. Uma delas est fundamentada nos modelos de crescimento,enquanto que a segunda trata dos mecanismos de rompimento do crculo vicioso quefomenta a desigualdade.</p> <p>Nos chamados modelos de crescimento com enfoque neoclssico, a acumulaode capital humano a principal fonte para o contnuo aumento do PIB. Logo, asdiferenas entre as taxas de crescimento dos pases seria conseqncia dasdesigualdades no acmulo de capital humano (LUCAS, 1988).</p> <p>Em uma abordagem semelhante, porm de cunho schumpeteriano, NELSON &amp;PHELPS (1966), destacam o estoque de capital humano acumulado no decorrer dosanos como o motor do crescimento. Este fato resultado da rpida incorporao detecnologias e uma maior quantidade de inovaes que viabilizada por intermdio deuma mo-de-obra mais qualificada. Assim, o progresso tcnico faria com que o pasatingisse maiores taxas de crescimento econmico.</p> <p>O processo de deciso para a realizao de investimentos em capital humano semelhante quela relacionada acumulao bruta de capital fsico. Os indivduoscomparariam os retornos privados esperados de uma maior escolaridade com os custosde oportunidade de execut-lo. Porm, o mercado de crdito no poderia ser umarestrio realizao dessas inverses (BARROS, et. al. 2001).</p> <p>Neste arcabouo, os pobres no seriam estimulados a aumentar o seu nveleducacional em razo dos reduzidos retornos obtidos pelos anos adicionais deescolaridade. Neste argumento, existe um mtodo que mensura as diferenas delucratividade obtida por cada ciclo educacional completado (PSACHAROPOULOS,1993). H outras formas de estimao como a implementada por MINCER apudPSACHAROPOULOS (1993). Os ganhos provenientes da educao seriam estimadosatravs de uma regresso semilogartmica Mnimos Quadrados Ordinrios, doravanteMQO. O regredido seria o logaritmo natural dos salrios. Os regressores so aescolaridade e os anos de experincia. Os valores dos coeficientes seriam a taxa mdiaprivada de retorno para a aquisio de um ano a mais de educao(PSACHAROPOULOS, 1993). Dessa forma, uma vez que os benefcios fossemsuperados pelos custos incorridos, as oportunidades de entrada no mercado de trabalhoseriam mais atraentes.</p> <p>No entanto, as tcnicas acima especificadas dos benefcios auferidos com aeducao no consideram as qualidades distintas dos insumos educacionais. Portanto,</p> <p>uma das motivaes para os trabalhos de BARRO &amp; LEE (1996 e 2000), foi aconstruo de variveis que captem a qualidade do insumo educacional. A proporoprofessor/aluno, salrios dos professores e gastos per capita foram utilizados. Porm, osautores reconhecem as falhas de no incorporarem a varivel experincia no mercado detrabalho adquirida depois de completada a educao formal e as disparidades dequalidade existentes entre escolas. Eles mostraram as diferenas e a evoluo dos inputsem cinco intervalos de tempo (1960 a 1990) entre os diversos pases, e estes agrupadospor regio. Em geral, as naes em desenvolvimento evoluram no decorrer dos anosreduzindo marginalmente o gap em relao aos pases da OCDE.</p> <p>Na literatura, os estudos a respeito da qualidade na formao do aluno ganharamnfase nos ltimos anos. Uma vez que os trabalhos anteriores superestimavam ainfluncia da escolaridade nos resultados. Entre pases, as diferenas de crescimento nopodiam ser justificadas apenas pela escolaridade mdia. Assim, procurando captar osdiferenciais de qualidade no acmulo formal de capital humano foram desenvolvidostestes no mbito nacional (SAEB3) e internacional (PISA4) para a mensurao dessascaractersticas. Os resultados revelaram importantes diferenas no sistema educacionalno mbito interno e externo. Alm disso, outros trabalhos que utilizam comoindicadores a razo professor e nmero de alunos, alm dos gastos mdios por alunobuscam captar as diferenas relacionadas qualidade.</p> <p>A chamada funo de produo educacional, o volume de investimentos e otempo destinado educao ficariam a cargo de cada famlia. O nvel de escolaridadedos pais revela-se como um importante determinante da renda. um indicador dos anosde escolaridade que sero atingidos pela criana. Se considerarmos um sentido circular,os filhos oriundos de pais com menor nvel educacional tendero a possuir umaquantidade de capital humano semelhante aos seus progenitores. As imperfeies nomercado de crdito corroborariam nas dificuldades de acesso das camadas de baixarenda aos recursos educacionais (BARROS, et. al. 2001). Logo, estaria em curso omecanismo para a perpetuao da desigualdade entre as geraes.</p> <p>Para GALOR &amp; ZEIRA (1993), as diferenas entre as famlias naquilo queconcerne aos recursos financeiros um dos determinantes para que algumas dinastiasfiquem impedidas de realizar investimentos educacionais. Os impactos dar-se-iam nadistribuio e no crescimento econmicos de curto e longo prazo. O instrumentalutilizado foi um modelo de geraes sobrepostas com dois perodos e altrusmo entregeraes. A distribuio inicial da riqueza determinaria as condies para que houvesseinvestimentos futuros em capital humano. A economia produziria um nico produto e oprocesso produtivo permitiria a substitutibilidade entre a mo-de-obra educada e no-educada.</p> <p>No primeiro perodo, o nvel inicial de riqueza corroboraria para que o indivduodecidisse investir em educao, ou ento entrar diretamente no mercado de trabalho. Nosegundo perodo, ambos os trabalhadores (educado ou no) consumiriam e deixariamum legado. Este altrusmo determinaria o volume de educao adquirido pelas geraesposteriores. Assim, as dinastias ricas sempre destinariam recursos para a educao dosfilhos, enquanto que as camadas menos abastadas estariam numa armadilha de pobreza.</p> <p> 3 Sistema Nacional de Avaliao da Educao Bsica (SAEB), um programa de avaliao executadopelo governo federal em parceria com o MEC/INEP desde o ano de 1995. Procura avaliar as crianas da4 e 8 srie do ensino fundamental e jovens que esto concluindo o ensino mdio.4 Programme for International of Student Assessment (PISA), adotado pela Organizao para Cooperaoe Desenvolvimento Econmico (OCDE), um programa de avaliao que busca mensurar a qualidade naformao de estudantes com 15 anos de idade, ou seja, no trmino do ensino fundamental.</p> <p>A situao poderia ser contornada caso o mercado de crdito impedisse esta distoro(GALOR &amp; ZEIRA, 1993).</p> <p>Contudo, as elevadas taxas de juros impostas queles que necessitam definanciamento tornariam o emprstimo impraticvel. Isto seria perpetuado para todas asgeraes (GALOR &amp; ZEIRA, 1993 e BARROS, et. al. 2001). As disparidades nadistribuio da riqueza se manteriam no longo prazo. Alm disso, seriam afetadas astaxas de crescimento da economia. As sociedades dotadas de nveis elevados deestratificao na riqueza inicial teriam uma menor performance no longo prazo. Ocontrrio aconteceria com aquelas que fossem mais homogneas. Alm de apresentaremuma renda menos concentrada, o desempenho da economia seria maior no longo prazo(GALOR &amp; ZEIRA, 1993).</p> <p>Segundo ENGERMAN &amp; SOKOLOFF (2002), a distribuio inicial afetaria noapenas a renda como afirmado anteriormente, mas todo o arcabouo institucionalconstitudo. Isto porque a estrutura agrria (um determinante dos diferenciais deriqueza) um dos primeiros mecanismos que norteariam a maneira com a qual asinstituies futuramente desenvolver-se-iam em diversos pases. E em muitos casos,aquelas sociedades que revelam caractersticas de baixa eqidade no pagamento deimpostos, manuteno elevada de privilgios, entre outras, detm uma estrutura deterras concentrada nas mos de uma pequena elite desde o incio de sua histria. Umexemplo cabe ao Brasil, cuja colonizao exploratria visava o mercado externo. Aagricultura canavieira foi implementada aproveitando as condies favorveis emtermos de solo e clima. Alm de cultivada em grandes extenses de terra, fez-se o usode mo-de-obra escrava. Do lado oposto esto os Estados Unidos e o Canad cujacolonizao foi de povoamento. O cultivo de gros e a criao de gado realizaram-se empequenas propriedades. A mo-de-obra era a dos prprios imigrantes e se valia do usode poucos escravos.</p> <p>As notadas diferenas refletiram-se na adoo distinta dos instrumentos desufrgio. Enquanto que o primeiro aponta para um desequilbrio na estrutura de poderoriunda da desigualdade de terras, o segundo no.</p> <p>No Brasil o sufrgio desenvolveu-se muito lentamente, mesmo aps aindependncia do pas em 1822. Diversas restries existiram com base em critrios depropriedade e escolaridade, sendo que o ltimo perdurou at 1988 (NICOLAU, 2001).Estados Unidos e Canad foram os pioneiros na suspenso de tais impedimentos. ParaENGERMAN &amp; SOKOLOFF (2002), o surgimento das primeiras instituies emambos os pases foi reflexo do arcabouo institucional que fora constitudo. E isso mostrado nas diferentes formas de financiamento e acesso ao sistema educacionaladotado em cada sociedade.</p> <p>Os esforos iniciais para a constituio de uma educao primria que fossegratuita e sob a responsabilidade do Estado no Brasil no foram muito adiante. Asreformas no ensino feitas em 1834 delegaram ao governo central o ensino superior e oensino na capital federal (MARCILIO, 2003). O primrio e o secundrio, quandoexistiam, estavam sob o controle da Igreja, de autoridades locais e tutores particulares.A natureza descentralizada do sistema educacional tornou difcil o acesso, uma vez queo financiamento era predominantemente privado. Logo, um elevado percentual dapopulao (70%) permanecera analfabeta at o incio do sculo XX. Alm disso, ospoucos que estudavam o faziam em escolas privadas (SCHWARTZMAN, 2004). Ouseja, era pequena a parcela da populao que conseguia usufruir dos investimentos dogoverno. Para a formao de professores, as poucas escolas normais criadasfuncionavam em condies precrias. Os baixos salrios afastavam os bons professores,alm de no haver um mtodo para a formao desses profissionais (MARCILIO,</p> <p>2003). Limitada a um pequeno grupo a formao de capital humano, a estruturaeducacional conduziria para uma situao perversa. A preponderncia do sistemaprivado de financiamento impediu o acesso de grande parte da populao. Portanto, adesigualdade originada na estrutura agrria e incorporada no exerccio do voto, semostrou nas polticas educacionais.</p> <p>Comparado ao Brasil, as diferenas nas trajetrias seguidas por Estados Unidose Canad revelaram-se tambm na adoo do sistema educacional. Ainda durante operodo de colonizao, a populao adulta destes locais j se preocupava em fornecereducao bsica para as novas geraes. Cada vila ou cidade era responsvel pelaorganizao e financiamento de suas escolas. A educao era norteada pelodesenvolvimento de habilidades, alm da leitura e escrita. No era destinado a todos,pois os pobres ficavam margem do processo (ENGERMAN &amp; SOKOLOFF, 2002).</p> <p>Contudo, foi a partir de 1820 o grande impulso nos investimentos relacionados educao. As alteraes consistiram no acesso ao ensino e na forma de financiamentodas escolas. Entre os anos de 1825 e 1850, praticamente todos os estados do nordesteamericano promulgaram um decreto-lei que universalizava o acesso. Alm disso, asescolas passariam a ser financiadas atravs de impostos cobrados de toda a populao5.As autoridades escolares eram escolhidas pelos respectivos governos dos estados. Estasmedidas foram implementadas aps um grande embate poltico, uma vez que ia contraos interesses...</p>