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  • 76 l Revista de Psicologia

    Identificao da repetio em casos clnicosEduardo Alves Guimares1

    Geraldo Majela Martins2

    RESUMO: Este artigo tem como objetivo comentar a identificao da repetio, termo psicanalitico, num fragmento clnico atendido na Clnica de Psicologia do Centro Universitrio Newton Paiva. Sero comentados tanto o caso quanto o conceito da repetio e a sua identificao.

    PALAVRAS-CHAVE: Entrevistas Preliminares, Repetio, Transferncia, Caso clnico Maria.

    O fragmento clnico ao qual se refere este artigo foi trazido Clnica de Psicologia do Centro Universitrio Newton Paiva.

    Durante as entrevistas preliminares, Maria revelou que esta-va passando por problemas conjugais, que era casada h 23 anos, tinha dois filhos dessa relao, sendo um rapaz e uma moa, que fazia trabalhos artesanais, no exercia a profisso para a qual se formara (pedagogia), vivendo integralmente para sua famlia.

    Maria relatou, durante os atendimentos, que seu marido no dialogava com ela, que ela raramente conseguia manter uma conversa com o mesmo, isso ocorrendo tambm da parte dele com os filhos. Porm, essa situao a incomodava mais pela for-ma como ele a tratava, ou seja, com os filhos ainda havia um pouco de contato, mas com ela isso nunca ocorria. Segundo ela, essa situao vinha se arrastando desde o casamento dos dois, mas agora ela no suportava mais.

    No decorrer da entrevista, foram mencionados alguns frag-mentos, os quais abordaremos no decorrer deste trabalho, que puderam caracterizar a repetio existente na vida de Maria.

    Mas, voltando aos relatos de Maria durante as entrevistas preliminares, Maria disse se sentir angustiada e ter sofrido trs ataques que a levaram a ser atendida em hospitais. Ela disse que sentia taquicardia, palpitaes, desmaio, mas que seus exames clnicos no acusaram qualquer alterao fsica.

    Diante da situao de tristeza e apatia de Maria, transpa-rente para seus filhos, ela resolveu procurar ento a Clnica de Psicologia por indicao da sua filha. Ela disse que a filha no suportava mais v-la to triste e sem vida, como vinha ocorrendo nos ltimos dias.

    Maria relatou tambm que seus dois filhos estavam com casamento marcado, o que, segundo ela, no tinha problema algum em acontecer, pois isso acabaria acontecendo mais cedo ou mais tarde (sic).

    Antes de passarmos para a articulao da repetio com o caso de Maria, faz-se necessrio esclarecermos a repetio den-tro da abordagem psicanaltica, o que tornar mais claro o enten-

    dimento do estudo desse caso.A palavra repetio origina-se do latim repetere, que significa

    fazer ou dizer de novo, de re-, outra vez. mais petere pro-curar, demandar, atacar. Tem ainda a derivao tambm do latim repetitione, declinao de repettio, repetio, do mesmo timo de petere, atacar. Repetir designou originalmente atacar de novo. Nos pedidos de repetio em shows, pede-se bis, do latim bis. De acordo com GREGORIM (2001), repetio um substantivo feminino que significa reproduo, repetncia. Cons-ta ainda o termo muito utilizado em ingls replay, utilizado em informtica, significando recurso em que um caractere repetido automaticamente enquanto a tecla estiver sendo pressionada.

    No contexto psicanaltico, conforme ROUDINESCO (1998), a compulso repetio provm do campo pulsional, do qual possui o carter de uma insistncia conservadora.

    (...) em Mais alm do princpio do prazer, Sigmond Freud relacionou desde muito cedo as idias de compulso (Zwang) e repetio (Wiederholung) para dar conta de um processo inconsciente e, como tal, impossvel de do-minar, que obriga o sujeito a reproduzir sequncias (atos, idias, pensamentos ou sonhos) que, em sua origem, fo-ram geradoras de sofrimento, e que conservaram esse ca-rter doloroso (ROUDINESCO, 1998, p. 656).

    Na doutrina freudiana, a ideia de repetio refere-se a uma das dimenses que deram origem noo de inconsciente.

    Freud (1893) defrontou-se com a repetio durante o trata-mento da jovem Dora. Esse fato novo desempenhou um papel importantssimo na teoria e na tcnica psicanaltica.

    Enquanto estava preocupado com a recordao dos acontecimentos passados do paciente, este desenvolvia um outro mecanismo, no to evidente mas igualmente importante, de cujo significado e alcance Freud sequer

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    suspeitava: O paciente no recorda coisa alguma do que esqueceu e recalcou, mas expressa-o pela atuao ou atua-o (acts it out). Ele o reproduz no como lembrana, mas como ao; repete-o sem, naturalmente, saber que o est repetindo (GARCIA-ROZA, 1986, p.22).

    A repetio teve sua importncia a partir de 1893, quando Freud e Josef Breuer fizeram uma abordagem sobre a histeria. Eles, ao falarem da rememorao de um sofrimento moral ligado a um antigo trauma, chegaram clebre concluso de que so-bretudo de reminiscncias que sofre a histrica (FREUD, 1893).

    Para o psicanalista,

    (...) a transferncia , ela prpria, apenas um fragmento da repetio e que a repetio uma transferncia do pas-sado esquecido, no apenas para o mdico, mas tambm para todos os outros aspectos da situao atua (FREUD, 1914, p. 197).

    Com dificuldades de ligar a neurose obsessiva sexualidade, Freud utiliza o termo compulso em 1894 atravs de uma carta a Wilhelm Fliess, em que ele, a fim de ilustrar sua colocao, evoca um caso clnico no qual aborda a mico compulsiva.

    Mais tarde, Freud (1914) dir que,

    Devemos estar preparados para descobrir, portanto, que o paciente submete-se compulso repetio, que agora substitui o impulso a recordar, no apenas em sua atitude pessoal para com o mdico, mas tambm em cada diferen-te atividade e relacionamento que podem ocupar sua vida na ocasio se, por exemplo, se enamora, incumbe-se de uma tarefa ou inicia um empreendimento durante o trata-mento (FREUD, 1914, p. 197).

    Conforme ROUDINESCO (1998), Freud, em seu Projeto para uma psicologia cientfica, desenvolveu a ideia de facilitao, na qual podemos discernir a prefigurao da compulso repeti-o. Para a psicanalista francesa,

    algumas quantidades de energia conseguem transpor as barreiras de contato, com isso ocasionando uma dor, mas tambm abrindo uma passagem que tender a se tornar permanente e, como tal, fonte de prazer, apesar da dor sis-tematicamente reavivada (ROUDINESCO, 1998, p. 657).

    importante mencionar que a ideia de repetio, passvel de ser assimilada do destino, foi contempornea da descoberta do

    dipo. Isso foi tratado por Freud em uma carta datada de 15 de outubro de 1897, na qual constava

    Encontrei em mim, como em toda parte, sentimentos amo-rosos em relao minha me e de cime a respeito de meu pai, sentimentos estes que, penso eu, so comuns a todas as crianas pequenas (ROUDINESCO, 1998, p. 657).

    Ainda nessa mesma carta, Freud complementa seu pensa-mento afirmando que

    Se realmente assim compreensvel, a despeito de to-das as objees racionais que se opem hiptese de uma fatalidade inexorvel, o efeito cativante de dipo rei (...). A lenda grega apoderou-se de uma compulso que todos reconhecem, porque todos a sentiram (ROUDINESCO, 1998, p. 656).

    Foi ento em 1914 que Freud comeou a fazer um estudo autnomo sobre a repetio. Ele identificou a permanncia dessa compulso repetio, a qual estaria ligada transferncia, mas que no constituiria a totalidade da mesma. Para Freud,

    Se a ligao atravs da transferncia transformou-se em algo de modo algum utilizvel, o tratamento capaz de impedir o paciente de executar algumas das aes repe-titivas mais importantes e utilizar sua inteno de assim proceder, in statu nascendi, como material para o trabalho teraputico (FREUD, 1914, p. 200).

    No do texto Recordar, repetir, elaborar (Freud, 1914), a repetio recebe uma definio bem clara ao ser colocada como

    Ela uma maneira de o paciente se lembrar, maneira ain-da mais insistente na medida em que ele resiste a uma rememorao cuja conotao sexual lhe desperta vergonha (ROUDINESCO, 1998, p. 656).

    Ainda em Recordar, repetir, elaborar (Freud, 1914), Freud escreveu que no manejo da transferncia que encontramos o principal meio de barrar a compulso repetio e transform-la numa razo para lembrar.

    No manejo da transferncia, a compulso se torna insignifi-cante ou mesmo til, podendo a mesma manifestar-se com liber-dade, revelando-nos tudo o que se dissimula de patognico no psiquismo do sujeito.

    Jaques Lacan (1992) fez da repetio um dos quatro concei-

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    tos fundamentais da psicanlise. Ele observou que

    a repetio inconsciente nunca uma repetio no sentido habitual de reproduo do idntico: a repetio o movi-mento, ou melhor, a pulsao que subjaz busca de uma objeto, de uma coisa (das Ding) sempre situada alm desta ou daquela coisa particular e, por isso mesmo, impossvel de atingir (ROUDINESCO, 1998, p. 658).

    Lacan (1992) distingue duas ordens de repetio. Uma sendo dominada pelo acaso e outra que ocorre no momento oportuno. Este tipo de repetio que ocorre no momento opurtuno pode ser assimilado ao trauma, ou seja, ao choque imprevisvel e in-controlvel.

    Segundo Garcia-Roza (1986), Lacan critica a afirmao de que a transferncia uma repetio, pois mesmo estando pre-sente na transferncia, os conceitos so distintos, ou seja, se na transferncia d-se uma repetio de prottipos infantis, essa mesma repetio no seria uma reproduo de situaes reais vividas pelo paciente, mas sim equivalentes simblicos do desejo inconsciente. Garcia-Roza dir que:

    O que se repete , faz-se num ato que s toma sentido em relao a analista, o que implicaria, pelo menos, que fizs-semos uma distino entre repetio do mesmo e repetio diferencial. Se transferncia repetio, ela uma repetio diferencial, e somente sob este aspecto a repetio toma um sentido positivo e pode constituir-se como um instrumento no sentido da cura (GARCIA-ROZA, 1986, p. 23).

    De acordo com Roudinesco (1998), a repetio s p