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RESPONSABILIDADE CIVIL NAS RELAES DE TRABALHO: DANOS AO

MEIO AMBIENTE E SADE DO TRABALHADOR

Autor: MELO, Raimundo Simo de

RESUMO: Aborda-se aqui a evoluo da responsabilidade civil no mundo e

no Brasil e da responsabilidade civil nas relaes de trabalho, com

enfoque especfico nos danos decorrentes dos riscos ambientais do

trabalho, que atingem o meio ambiente e a sade dos trabalhadores.

1 Introduo

O nosso objetivo com este artigo tratar de forma breve e resumida a

evoluo da responsabilidade civil no mundo e no Brasil e da

responsabilidade civil nas relaes de trabalho, com enfoque especfico

nos danos decorrentes dos riscos ambientais do trabalho, que atingem o

meio ambiente e a sade dos trabalhadores.

Analisaremos os principais aspectos controvertidos na doutrina e na

jurisprudncia sobre os fundamentos da responsabilidade civil pelos

danos ao meio ambiente do trabalho e sade dos trabalhadores,

apontando os casos de responsabilidade objetiva e subjetiva.

Sero igualmente enfocados os avanos que vm ocorrendo em relao a

esses temas na jurisprudncia trabalhista depois da Emenda

Constitucional n 45/04, que levou o STF a reconhecer a competncia da

Justia do Trabalho para apreciar as questes atinentes ao meio ambiente

do trabalho e as reparaes por danos material, moral, esttico e pela

perda de uma chance causados aos trabalhadores, alm dos danos

coletivos que atingem o meio ambiente e a sociedade.

2 Evoluo da Responsabilidade Civil no Tempo

2

Nos primrdios da humanidade, a questo da responsabilidade por danos

era resolvida base da vingana privada, compensando-se o mal pelo mal.

Depois vieram a pena de Talio, com interveno de uma autoridade, a

composio econmica (Lei das XII Tbuas) e, finalmente, o Estado

assumiu o controle da recomposio dos danos com a Lei Aquilia, surgindo

o fator culpa como determinante da responsabilizao do autor do dano.

Com a Revoluo Industrial, diante do grande aumento dos danos s

pessoas e a dificuldade que as vtimas tinham para provar a culpa do

agressor, passou-se inverso do nus da prova para aquele, em

determinadas situaes, avanando-se, com base na teoria do risco, para

a responsabilidade objetiva em poucas situaes.

Com a explorao industrial do tomo nas atividades a ele inerentes,

rompeu-se com o nexo causal, que um dos pressupostos mais

complexos da responsabilidade civil. Com a sociedade ps-industrial, por

conta dos muitos riscos abstratos e invisveis, refora-se a necessidade de

criao de mais casos de responsabilidade objetiva, sendo exemplo

marcante as situaes em que se trata dos danos ambientais.

3 Responsabilidade Civil no Direito Brasileiro

Desde os primrdios do instituto da responsabilidade civil, sempre

predominou no direito brasileiro a responsabilidade civil subjetiva, com

culpa (arts. 159 do Cdigo Civil de 1916 e 186 e 927 do Cdigo Civil de

2002).

Esse sistema de responsabilidade tem como pressupostos clssicos a ao

ou omisso do agente do dano, o dano efetivo e concreto, a culpa do

agente e o nexo de causalidade.

4 Casos de Responsabilidade Civil Objetiva no Direito Brasileiro

Na responsabilidade civil objetiva, prescinde-se do elemento culpa. Os

casos desse tipo de responsabilidade esto previstos em lei ou se

enquadram nas atividades de risco, conforme estabelece o nosso Cdigo

Civil no art. 927, pargrafo nico.

3

So casos de responsabilidade civil objetiva no direito brasileiro na

atualidade, entre outros, os seguintes: a) as relaes de consumo (CDC,

art. 12); b) o transporte de passageiros (CC, art. 734); c) a

responsabilidade presumida do dono do animal (CC, art. 936); d) a

responsabilidade do dono do edifcio ou prdio em construo por objetos

cados (CC, art. 937); e) a responsabilidade do habitante de prdio pelas

coisas que dele carem atingindo algum (CC, art. 938); f) a

responsabilidade por ato de terceiro (CC, arts. 932 e 933); g) a

responsabilidade do vizinho por construes edificadas (CC, art. 1.299); h)

a responsabilidade por abuso de direito (CC, art. 187); i) as atividades de

risco (CC, art. 927, pargrafo nico); j) a responsabilidade por danos ao

meio ambiente (CF, art. 225, 3, e Lei n 6.938/81, art. 14, 1); k) a

responsabilidade por dano nuclear (CF, art. 21, XXIII, c); l) a

responsabilidade pelo risco administrativo (CF, art. 37, 6); m) a

responsabilidade por benefcios previdencirios acidentrios (Lei n

8.213/91); n) a responsabilidade pelo seguro DPVAT (Lei n 6.194/74); o) a

responsabilidade pelo risco da atividade empresria por dbitos

trabalhistas (CLT, art. 2); e p) a responsabilidade pelos danos decorrentes

da aplicao do Cdigo Brasileiro da Aeronutica.

Do exposto acima, no difcil concluir que hoje no Brasil a

responsabilidade civil objetiva no mais considerada exceo. A

quantidade de casos de responsabilidade civil objetiva no nosso direito

to expressiva (basta ver, como destaques e grande repercusso, as

responsabilidades nas relaes de consumo e nas atividades de risco) que

j se diz que temos duas modalidades de responsabilidade civil paralelas:

a subjetiva e a objetiva.

5 Fundamentos da Responsabilidade Civil

Nos tempos atuais, funda-se a responsabilidade civil na proteo da vtima

(e no, como antes, na proteo do causador do dano), no anseio de

justia social e de uma sociedade solidria, na proteo da dignidade

humana (CF, art. 1), na valorizao do trabalho humano (CF, art. 170) e

na finalidade exemplar, pedaggica, punitiva e preventiva dos agressores

dos direitos de outrem.

4

6 Proteo Legal do Meio Ambiente

Meio ambiente o conjunto de condies, leis, influncias e interaes de

ordem fsica, qumica e biolgica que permite, abriga e rege a vida em

todas as suas formas (Lei n 6.938/81, art. 3, inciso I).

Essa definio da Lei de Poltica Nacional do Meio Ambiente ampla,

devendo-se observar que o legislador optou por trazer um conceito

jurdico aberto, a fim de criar um espao positivo de incidncia da norma

legal, o qual est em plena harmonia com a Constituio Federal de 1988,

que, no caput do art. 225, buscou tutelar todos os aspectos do meio

ambiente (natural, artificial, cultural e do trabalho), afirmando que:

"Todos tm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de

uso comum do povo e essencial sadia qualidade de vida, impondo-se ao

Poder Pblico e coletividade o dever de defend-lo e preserv-lo para as

presentes e futuras geraes."

Assim, dois so os objetos de tutela ambiental constantes da definio

legal, acolhidos pela Carta Maior: um imediato - a qualidade do meio

ambiente em todos os seus aspectos - e outro mediato - a sade, a

segurana e o bem-estar do cidado, expresso nos conceitos vida em

todas as suas formas (Lei n 6.938/81, art. 3, inciso I) e qualidade de vida

(CF, art. 225, caput) (1).

O meio ambiente regido por princpios, diretrizes e objetivos especficos,

como decorre da Poltica Nacional do Meio Ambiente, sendo seu objeto

maior a tutela da vida em todas as suas formas e, especialmente, a vida

humana, como valor fundamental. Embora seja unitrio o conceito de

meio ambiente, a doutrina o tem classificado em quatro aspectos: natural,

artificial, cultural e do trabalho. Portanto, o direito ambiental tem como

objeto tutelar a vida saudvel.

J o meio ambiente do trabalho o local onde as pessoas desempenham

suas atividades laborais, sejam remuneradas ou no, cujo equilbrio est

baseado na salubridade do meio e na ausncia de agentes que

comprometam a incolumidade fsica e mental dos trabalhadores,

independentemente da condio que ostentem (sejam homens ou

5

mulheres, maiores ou menores de idade, empregados regidos pela CLT,

servidores pblicos, trabalhadores autnomos, empregados domsticos,

etc.).

A definio acima no se limita a tratar do assunto apenas em relao ao

trabalhador classicamente conhecido, como aquele que ostenta uma

carteira de trabalho assinada. Isso importante e est dentro do contexto

maior asseguratrio do meio ambiente equilibrado para todos, como

estabelece a Constituio (art. 225, caput), uma vez que a definio geral

de meio ambiente abarca todo cidado e a de meio ambiente do trabalho,

todo trabalhador que desempenha alguma atividade, remunerada ou no,

homem ou mulher, celetista, autnomo ou servidor pblico de qualquer

espcie, porque, realmente, todos receberam a proteo constitucional de

um ambiente de trabalho adequado e seguro, necessrio sadia

qualidade de vida (2).

O meio ambiente do trabalho adequado e seguro um dos mais

importantes e fundamentais direitos do cidado trabalhador, o qual, se

desrespeitado, provoca agresso a toda a sociedade, que, finalmente,

comporta as suas nefastas consequncias.

A Constituio Federal de 1988 priorizou e incentivou a preveno dos

riscos nos ambientes do trabalho e dos consequentes riscos de acidentes

de trabalho, dizendo (ar

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