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  • RESPONSABILIDADE CIVIL DOS HOSPITAIS E CLNICAS

    lvaro Henrique Teixeira de Almeida

    Juiz de Direito/TJRJ

    Mestre em Cincias Jurdicas pela Universidade de Lisboa

    Panorama Atual da Responsabilidade Mdico-Hospitalar

    De grande importncia se apresenta o estudo da responsabilidade civil,

    objeto de constante preocupao dos juristas do mundo inteiro e, assim , pois,

    indubitavelmente, toda manifestao da atividade humana traz em si o problema da

    responsabilidade.1

    E a importncia de tal estudo se intensifica quando se tem em linha de conta

    a atividade mdico-hospitalar, isto porque, como j restou assinalado, referida atividade tem

    por objeto a sade, cuja aspirao em consegui-la ou mant-la foi elevada juridicamente

    condio de direito fundamental na segunda metade do sculo XX.2

    No por outro motivo que, num processo intitulado por JOS MANUEL

    MARTN BERNAL3 de hermanamiento, Medicina e Direito convergem para dar resposta a

    um dos mais instigantes problemas da atualidade, qual seja, de assegurar pessoa a proteo

    de sua sade.

    1 Jos de Aguiar Dias, Da Responsabilidade Civil, p. 1. 2 Cf. Pascual Sala Snchez, Discurso de Clausura, in la Responsabilidad de Los Mdicos y Centro Hospitalares frente a los usuarios de la Sanidad Pblica y Privada, p. 181. 3 Responsabilidad Mdica y derechos de los Pacientes (Problemtica Jurdica de la Relacin Mdico-Paciente), p.19 e segs.

  • 2

    Neste cenrio, destaca-se, por conseguinte, o Direito da Sade que, na

    precisa definio de SRVULO CORREIA, apresenta-se como o sistema de normas

    jurdicas que disciplinam as situaes que tem a sade por objeto imediato ou mediato e

    regulam a organizao e o funcionamento das instituies destinadas promoo e defesa da

    sade.4

    certo que ainda no se pode falar em autonomizao cientfica do Direito

    da Sade, ou Direito Mdico, como muitos preferem, at porque a sade faz parte de uma

    extensa lista de bens simultaneamente passveis de disciplina tanto no quadro do Direito

    Pblico, quanto no Privado, o que impede uma sistematizao assente nessa clssica

    bipartio do ordenamento jurdico5, mas que no exclui, em absoluto, a necessidade e a

    importncia de seu estudo, notadamente ante ao crescente nmero de aes de indenizao

    decorrentes da responsabilidade mdica e hospitalar.

    Com efeito, tais aes, que antes eram raras em nossa justia, esto se

    tornando cada vez mais freqentes, havendo mesmo, no mundo ocidental, uma tendncia para

    o crescimento desta litigiosidade que, no dizer de JOS CONDE6 se apresenta como

    verdadeiro fenmeno social.

    Muitas so as causas de tal fenmeno. SRGIO CAVALIERI FILHO, por

    exemplo, aponta como causa desta litigiosidade a m qualidade do ensino de um modo geral,

    4 Introduo ao Direito da Sade, in Direito da Sade e Biotica, p. 41. Muitos autores preferem a denominao Direito Mdico (v., por exemplo, Marilene Kostelnaki Ba, O contrato da existncia mdica e a responsabilidade civil, p. 5), denominao essa rejeitada por Srvulo Correia por entender ser o Direito da Sade, que se integra no Direito Privado, resultado de uma evoluo decorrente da transio de um simples Direito Mdico para um mais alargado Direito da Medicina. Esclarece-nos mencionado professor da Faculdade de Direito de Lisboa que o Direito Mdico tinha como perspectiva nuclear a profisso mdica. O sistema normativo centrava-se no prprio mdico e o doente surgia sobretudo na posio de objeto da atuao daquele e menos na de sujeito juridicamente ordenado em posio de paridade com o mdico no mbito de uma relao de prestao do servio. E mais adiante acrescenta : A mudana conceitual na passagem do Direito Mdico para o Direito da Medicina transforma os mdicos em apenas um dos sujeitos tpicos das situaes reguladas, a par dos destinatrias dos seus servios, cuja liberdade de aceitao do tratamento o legislador coloca acima do prprio fim de proteo da sade. 5 Cf. Srvulo Correia, op. cit., p. 42 a 48. 6 La responsabilidad de la administracion y de los profissionales en la prtica mdica, in La Responsabilidad de los Mdicos y Centros Hospitalares frente a los Usuarios de la Sanidad Pblica y Privada, p. 14.

  • 3

    e dos pssimos servios prestados, principalmente pelos hospitais pblicos, bem como o

    aumento da demanda na procura desses servios e, tambm, por ter hoje o cidado uma

    maior conscincia dos seus direitos e encontrar mais facilidade de acesso justia.7

    JOS CONDE, igualmente, lembrando que a busca de uma indenizao,

    ante o dano experimentado, apresenta-se como ltimo valor de uma sociedade de consumo,

    aponta, sem a pretenso de ser exaustivo, como causas da litigiosidade no mbito do direito da

    sade, os progressos realizados pela medicina, o novo enfoque que dado ao paciente quanto

    ao relacionamento travado entre ele e o profissional da sade, considerando a imperiosa

    necessidade de seu consentimento para a realizao do tratamento, bem como a prpria

    modificao da mentalidade da sociedade que, antes resignada, passou atualmente a ser mais

    hedonista e reivindicativa, razo pela qual, com maior freqncia, busca obter uma

    indenizao em caso de dano sade decorrente da atividade mdico-hospitalar.8

    V-se, pois, o quo importante se apresenta o estudo do Direito da Sade,

    notadamente sob o prisma do direito privado, onde exsurge a problemtica pertinente

    responsabilidade civil mdica e hospitalar.

    E neste contexto, quando da soluo das controvrsias decorrentes da

    relao paciente-mdico e/ou paciente-hospital, deve o intrprete aplicador do Direito ficar

    atento, no s mudana da mentalidade da sociedade, como tambm prpria modificao

    do pensar jurdico no que se refere responsabilidade civil.

    7 A Responsabilidade Mdico-Hospitalar Luz do Cdigo do Consumidor, in Revista da Emerj, p. 87. 8 Op. cit., p. 14-15. Quanto modificao da mentalidade da sociedade como causa da litigiosidade, assevera o autor espanhol que en la primera mitad del siglo se puede decir que la regla general era la resignacin ante los problemas de la vida, el sufrimiento o la muerte. Por contra, la mentalidad actual es menos resignada, ms hedonista y reivindicativa, y busca obtener una indemnizacin en el caso de que se produzca una merma de la salud.

  • 4

    No podem os juristas ignorar que, neste novo milnio, passa a

    responsabilidade civil por uma verdadeira revoluo9, posto que as concepes elaboradas no

    sculo XIX j no mais atendem s necessidades sociais.

    Como observa FERNANDO NORONHA, a sociedade humana passa por

    transformaes nunca antes experimentadas, que progressivamente fazem anacrnico o

    regime jurdico institudo em 1916.10, e de todo, acrescento, no modificado pelo atual

    Cdigo Civil. Assim sendo, a responsabilidade civil ganha novos contornos e propsitos, tudo

    com escopo de se adequar s reais e atuais necessidades do homem que, nas sociedades de

    massa, se v sob a iminncia do risco a todo momento, apenas por nela viver, seja pelo

    consumo de bens, de produo alimentar e outros, quer por efeito das atividades e servios

    prestados em larga escala (produo industrial, energia, transportes, etc.), sem cogitar-se da

    preservao dos direitos inerentes sua condio existencial Fsica e Espiritual (ofensas ao

    direito da personalidade).11

    Frente a essa nova realidade a responsabilidade civil deixou de ter uma

    funo exclusivamente reparatria, ressarcitria ou indenizatria, em que pesa o fato de ser

    ainda a funo primacial, para tambm desempenhar outras importantes funes, como a

    sancionatria e a preventiva.

    O desembargador fluminense LUIZ ROLDO DE FREITAS GOMES, em

    seus estudos a respeito das perspectivas na responsabilidade civil, esclarece: no basta to s

    reparar, mas, para a segurana e tranqilidade almejadas, importa mais prevenir. Sua funo

    vai-se deslocando, deste modo, da exclusiva funo ressarcitria, em que o princpio da

    9 Neste sentido, Fernando Noronha, Desenvolvimento Contemporneo da Responsabilidade Civil, p. 40. Assegura o professor da Universidade Federal de Santa Catarina que ntidos so os contrastes com a responsabilidade civil que herdamos do sculo XIX. Alm de marcar distino com a observao de que a responsabilidade civil, hoje, est em marcha acelerada no sentido da responsabilidade objetiva, enquanto a responsabilidade civil novecentista era subjetiva, assinala ainda o renomado professor que, enquanto a responsabilidade civil novecentista era individual, a contempornea tende a ser coletiva, incidindo sobre grandes grupos, ou melhor, sobre as pessoas integrantes desses grupos, realizando assim uma socializao de riscos. 10 Op. cit., p. 33. 11 Luiz Roldo de Freitas Gomes, Perspectivas na Responsabilidade Civil, in Nada Consta, Informativo do 1 Ofcio do Registro da Distribuio de Capital do Rio de Janeiro, p. 3.

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    equivalncia, o mais das vezes predomina, para o de evitar o dano, atuando como verdadeiro

    fator de precauo.12

    Esta atual funo reparatria ganha extrema importncia quando se observa

    que ela tem por fim contribuir para coibir a prtica de outros atos danosos, tanto pela pessoa

    que o cometeu quanto por quaisquer outros.

    E quando se fala numa funo sancionatria, faz-se evidente aproximao

    com a finalidade retributiva da responsabilidade penal. Este, alis o ensinamento de

    FERNANDO NORONHA que, dissertando a respeito, assevera que a maio

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