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  • 1 SO LEOPOLDO, 29 DE OUTUBRO DE 2007 | EDIO 241 | ISSN 1981-8793

    Resilincia. Elo e sentido

    Editorial A resilincia, entendida como a capacidade de superar as

    situaes adversas, um esforo do ser humano de todos os

    tempos. dessa forma que a psicloga Susana Rocca define o

    termo resilincia, tema de capa da IHU On-Line dessa semana. Originariamente, explica Michele Poletto, doutoranda

    em Psicologia na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), o termo resilincia surgiu da Fsica e refere-se

    habilidade de uma substncia retornar sua forma original quando a presso removida.

    O tema de capa desta edio discutido, alm dos nomes j citados, por especialistas, como o psiquiatra britnico

    Michael Rutter, um dos pioneiros no estudo da resilincia no mundo, para quem as pessoas podem ser resilientes com

    relao a algumas experincias, mas no resilientes em relao a outras. O psicanalista argentino Rubn Zukerfeld

    defende que o desenvolvimento resiliente no questiona as teorias freudianas. Enquanto isso, a professora Froma

    Walsh, da Universidade de Chicago, faz diversos esclarecimentos sobre a resilincia familiar, tema principal de suas

    pesquisas. A pesquisadora Joviana Avanci, da Fundao Oswaldo Cruz, tambm contribui com o debate e define

    resilincia como o processo de encontrar foras para transformar dificuldades em perspectivas de ao. Para a psicloga

    e doutora em Educao Maria Angela Mattar Yunes, a resilincia desconstri crenas pessimistas; e o psiclogo francs

    Jacques Lecomte prope um modelo de resilincia para crianas e jovens, o qual denomina de tringulo da resilincia. Na

    proposta, Lecomte sugere que os adultos manifestem um elo e estabeleam regras, pois considera o elo essencial na

    reconstruo do indivduo.

    A resilincia foi tema do evento Resilincia: Um novo paradigma em sade, promovido pelo IHU, com a presena do

    Prof. Dr. Elbio Nstor Surez Ojeda. Na oportunidade, a IHU On-Line, n 200, de 16-10-2007, publicou uma entrevista com

    ele sobre o tema. O assunto tambm foi abordado, especificamente, no Ciclo Cinema e Sade Coletiva II - Cuidado e

    Cuidador.

    O antiutilatarismo o tema da conferncia do Prof. Dr. Paulo Henrique Novaes Martins de Albuquerque, da UFPE. A

    entrevista publicada nesta edio, discutindo a crtica maussiana, segundo Alain Caill, ao paradigma da economia

    moderna, instigante e muito importante, especialmente, para todos e todas que lidam e apostam nas diferentes formas

    de economia solidria. Por sua vez, a Profa. Dra. Rosane Kreusburg Molina, comentando o filme O paciente ingls, reflete

    sobre as transformaes, em sala de aula, da relao cuidado e cuidador.

    O poema da semana de Ronald Polito, mineiro de Juiz de Fora, com o ttulo Na platia.

    A todas e todos uma tima leitura e uma excelente semana!

  • 2 SO LEOPOLDO, 29 DE OUTUBRO DE 2007 | EDIO 241 | ISSN 1981-8793

    Leia nesta edio PGINA 01 | Editorial

    A. Tema de capa ENTREVISTAS

    PGINA 03 | Rubn Zukerfeld: A Resilincia no se ope teoria de Freud

    PGINA 05 | Michele Poletto: Resilincia: um processo psicolgico dinmico

    PGINA 08 | Jacques Lecomte: Pilares da superao: elo, sentido e lei simblica

    PGINA 11 | Froma Walsh: Os desafios da resilincia familiar

    PGINA 13 | Maria Angela Mattar Yunes: A resilincia desconstri crenas pessimistas

    PGINA 17 | Susana Rocca: A f parece ser uma chave no desenvolvimento das capacidades de resilincia

    PGINA 22 | Joviana Avanci: Resilincia encontrar foras para transformar dificuldades em perspectivas de ao

    PGINA 24 | Michael Rutter: Todos aceitam o fenmeno da resilincia

    B. Destaques da semana Inveno

    PGINA 26 | Poema de Ronald Polito

    Anlise de Conjuntura

    PGINA 27 | Destaques On-Line

    PGINA 30 | Frases da Semana

    C. IHU em Revista EVENTOS

    PGINA 33| Agenda da Semana

    PGINA 34| Rosane Kreusburg Molina: Professor x estudante: relaes de cuidado

    PGINA 37| Paulo Henrique Martins: O mercado est contra a lgica antiutilitarista

    PGINA 42| Grson Neves Pinto: Nanovigilncia: qual o limite?

    PERFIL POPULAR

    PGINA 44| Adelina Ana de Negri Boff

    PGINA 47| Sala de Leitura

    IHU REPORTER

    PGINA 48| Lcia Segala Ga

  • 3 SO LEOPOLDO, 29 DE OUTUBRO DE 2007 | EDIO 241 | ISSN 1981-8793

    A resilincia no se ope teoria de Freud ENTREVISTA COM RUBEN ZUKERFELD

    A experincia clnica corrobora que a existncia de solidariedade e a construo de

    redes vinculares podem ser um predecessor de possveis desenvolvimentos resilientes,

    afirma o psicanalista argentino Rubn Zukerfeld, em entrevista concedida por e-mail

    IHU On-Line. Ele membro da Asociacin Psicoanaltica Argentina e da International

    Psychoanalitical Association. Tambm professor do Instituto Psicossomtico de

    Buenos Aires e do Instituto Favaloro, supervisor do Departamento de Psicologia Clnica

    da Universidade de Buenos Aires e do Departamento de Transtornos Alimentares do

    Hospital Rivadavia, fundador da Asociacin Argentina de Obesidad e autor de, entre

    outros, Procesos terciarios - de la vulnerabilidad a la resilincia (Buenos Aires: Lugar

    Editorial, 2006).

    IHU On-Line - Em que sentido a sade e a

    recuperao podem ser consideradas um mistrio?

    Rubn Zukerfeld - Em um sentido parecido ao que

    Freud1 se perguntava pela escolha heterossexual e pela

    possibilidade de ser feliz devido ao mal-estar na cultura.

    A idia que existem tantos fatores que vo de encontro

    quelas condies que constituem ainda um mistrio de

    como podem se produzir. Por outro lado, a histria da

    1 Sigmund Freud (1856-1939): neurologista e fundador da

    Psicanlise. Interessou-se, inicialmente, pela histeria e, tendo como

    mtodo a hipnose, estudava pessoas que apresentavam esse quadro.

    Mais tarde, interessado pelo inconsciente e pelas pulses, foi

    influenciado por Charcot e Leibniz, abandonando a hipnose em favor da

    associao livre. Estes elementos tornaram-se bases da Psicanlise.

    Freud, alm de ter sido um grande cientista e escritor, realizou, assim

    como Darwin e Coprnico, uma revoluo no mbito humano: a idia de

    que somos movidos pelo inconsciente. Freud, suas teorias, e seu

    tratamento com seus pacientes foram controversos na Viena do sculo

    XIX, e continuam muito debatidos hoje. A edio 170 da IHU On-Line,

    de 8-05-2006, dedicou-lhe o tema de capam sob o ttulo Sigmund

    Freud. Mestre da suspeita, e a edio 207, de 04-12-2006 o tema de

    capa Freud e a religio. A edio 16 dos Cadernos IHU em formao

    tem como ttulo Quer entender a modernidade? Freud explica. Todos os

    materiais esto disponveis para download no site do IHU,

    www.unisinos.br/ihu. (Nota da IHU On-Line)

    medicina, e tambm a da psicanlise, tem sido

    tradicionalmente a de investigar por que se adoece e,

    portanto, h enigmas importantes sobre por que no se

    adoece e o que realmente o que cura ou ajuda a

    recuperar a sade.

    IHU On-Line - Como ocorre a passagem da

    vulnerabilidade para a resilincia?

    Rubn Zukerfeld - Basicamente atravs da eficcia

    teraputica dos vnculos significativos em sua funo de

    apoio e de oferecimento de modelos de identificao.

    Estes vnculos podem se dar em contextos teraputicos

    formais ou em mbitos informais e aleatrios. A

    experincia clnica corrobora que a existncia de

    solidariedade e a construo de redes vinculares pode ser

    um predecessor de possveis desenvolvimentos

    resilientes.

    IHU On-Line - Quais so os principais potenciais e

    capacidades para se desenvolver e alcanar nveis

    aceitveis de sade e bem-estar, apesar das

    adversidades sofridas por uma pessoa, uma famlia,

    uma comunidade?

  • 4 SO LEOPOLDO, 29 DE OUTUBRO DE 2007 | EDIO 241 | ISSN 1981-8793

    Rubn Zukerfeld Resumidamente, seriam a

    capacidade de ter projetos, de poder expressar os

    afetos, de bom humor, de buscar ajuda e de

    autocontrole. Diversos autores tm enfatizado a melhora

    da auto-estima, o desenvolvimento do pensamento

    crtico e a criatividade.

    IHU On-Line - A resilincia pode ser considerada

    como uma caracterstica da sade mental?

    Rubn Zukerfeld Sim. Mas pode acontecer e

    habitual - que se conquiste sade mental sem que exista

    um desenvolvimento resiliente. Uma pessoa que sofreu

    uma depresso e se curou recuperou a sade mental sem

    que isso implique em resilincia. Mas quando se pode

    determinar que houve um desenvolvimento resiliente, ou

    seja, um processo de transformao subjetiva, se

    considera que se obteve sade mental.

    IHU On-Line - Na sociedade atual, temos mais ou

    menos resilientes? As pessoas so mais resilientes com

    as adversidades hoje?

    Rubn Zukerfeld difcil responder rigorosamente a

    esta pergunta. A nica coisa que posso afirmar que

    hoje em dia contamos com o conceito resilincia, o

    que permite pensar a adversidade de outro modo e isso

    influi em qualquer recurso teraputico que se ponha em

    jogo, o que no existia em outra poca. Mas no se pode

    comparar antes com a atualidade.

    IHU On-Line - Quais so as caractersticas que deve

    ter o tutor de resilincia? Como diferenciar suas

    atitudes de atitudes paternalistas? Como no cair em

    paternalismo?

    Rubn Zukerfeld O tutor (no sentido dado por Boris

    Cyrulnik2) algum ou algo (por exemplo, uma obra de