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  • 480 Estilos da Clnica, 2010, 15(2), 480-493

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    Resenha

    LAJONQUIRE, LEANDRO DE

    Estranhas crianas estranhas

    Sobre o livro: Figuras do infantil: a psicanlise na vida cotidianacom as crianas.

    Petrpolis, RJ: Vozes, 2010, 272 p.

    Mrcio Boaventura JuniorGustavo Alexandre Martins

    Marcelo Ricardo Pereira

    o momento em que as pesquisas empenham-se em produzirdiversos pensamentos sobre os fatores constituintes e paradoxais dosentimento de infncia, o livro Figuras do infantil, de Leandro de La-jonquire, Professor Titular da Faculdade de Educao da Universida-de de So Paulo, destila cuidadosamente letras, traos, reflexes e no-vas possibilidades de enfoque sobre o tema. Quem o apresenta aprofessora Maria Cristina Kupfer, que no s nos adianta as ideias cen-trais da obra, como tambm de sada a enriquece ao recuperar a ideiaatualssima do romancista Victor Hugo sobre a infncia; especial-mente frente tese desenvolvida por Lajonquire, que estranha oque tendemos a naturalizar: as crianas de hoje no so as mesmasde ontem?

    Mestrando da Faculdade de Educao da Universidade Federal

    de Minas Gerais (FaE/UFMG).

    Mestrando da Faculdade de Educao da Universidade Federal

    de Minas Gerais (FaE/UFMG).

    Professor da Faculdade de Educao da Universidade Federalde Minas Gerais (FaE/UFMG).

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    Resenha

    J nas primeiras pginas, o autor chama nossa ateno para ofato de que as crianas de hoje so to diferentes quanto ns o fo-mos para nossos pais e estes, por sua vez, o foram para nossos avs...Toda forma histrica um precipitado de como lidamos com o real:sempre um momento de passagem, nem melhor, nem pior, apenassingular.

    Lajonquire tambm recoloca o debate acerca do sentimentoda infncia chegando ao seu fim. Tal sensao pode ser justificadapela numerosa produo de diversos tericos contemporneos. Hanos atrs, fomos bombardeados com a descoberta da infncia comoinveno da vida social moderna, uma fase produzida culturalmentee tomada como natural e inerente ao ser humano. Porm, em nossacontemporaneidade, Leandro sinaliza de modo perspicaz que a in-fncia que soubemos inventar, agora bem poderia desaparecer. Essesentimento, ora festejado ora rechaado, alimentou uma nova formade proteo criana: um paradoxo ao se tratar da infncia que develibertar a criana dos atavismos desta condio, e, ao mesmo tem-po, tratar de renovar a ideia de que a criana sofre quando a infncialhe roubada.

    Nas ltimas dcadas, a naturalizao violenta da infncia, atra-vs do tecnocientificismo mdico-psico-pedaggico, fez emergirno lastro cultural um fantasma singular que Leandro denomina A-Criana. Entendida como uma entidade natural, A-Criana acaboulevando consigo a mesma figura da infncia, detentora de direitos enecessidades educativas especiais, porm sempre clamante de satis-fao, e sagrou-se no sculo XX como arqutipo de conduta frentea esses seres pequenos, que temos o hbito, at agora, de chamar-mos crianas (p. 19).

    sombra dA-Criana, todas as outras de carne e osso, passa-ram a estar em risco de serem desrespeitada, seja no interior dasfamlias, da escola ou da sociedade. Tal suspeita generalizada ampliao sentimento de mal-estar dos adultos e seus fantasmas de seremagentes de sofrimento em relao aos pequenos. No obstante, essapreocupao com A-Criana tambm nos reconforta, pois constru-mos a iluso de que esse posicionamento frente ao infantil signode um trao evolutivo. Na busca por sadas para esse dilema, oracamos na inibio de nada falarmos criana no intuito de noincorrermos em riscos, ora chegamos no limite mesmo do real, atlhe dar a morte, como noticiam diariamente os jornais. Mas o autorvai ainda mais longe: talvez no seja facilmente perceptvel o fato de

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    Aque criana alguma possui uma infncia, a ser ultrapassada ou a serprotegida. Estaria ai o ponto no qual a psicanlise introduz o debate:a ideia de que s um adulto pode ter uma infncia, porm uma infn-cia perdida. Os adultos querem encontrar nA-Criana ou aquela queno fomos, mas que supomos ter sido a esperada por nossos pais, ou acriana maltratada, rechaada por eles por no termos sado altura,sempre incomensurvel para um ser baixinho que sempre olha o mun-do de baixo (p. 21). A infncia falada: eis a herana freudiana que dlugar inveno da psicanlise.

    Em A psicanlise na educao, que intitula a primeira parte de seulivro, Lajonquire nos lembra que Freud sempre defendeu interessesmltiplos da psicanlise para alm daqueles estritamente psicolgicosou teraputicos. Mesmo assim, muitos interrogaram as possibilidadesde sua utilizao em relao educao. Mas talvez seja mais simplesanalisar essa questo se se observa o sintagma psicanlise aplicadano mesmo sentido que se predica a aplicao de uma pessoa, isto , asua dedicao meticulosa na realizao de uma tarefa determinada ....dessa forma, a psicanlise dedicada educao seria a mesma e nicapsicanlise de sempre, polemiza o autor. Por estar viva, buscando per-manentemente ultrapassar seus limites, percebe-se inclinada a abordarobjetos que hegemonia paradigmtica insiste em esquecer.

    No obstante, uma educao atravessada pela psicanlise no omesmo que uma educao adequada. Lajonquire demonstra noscaptulos 3 e 4 que a tentativa frustrada e bastante difundida de sepretender prevenir neuroses e perverses graas a uma suposta edu-cao adequada est embasada numa compreenso um tanto limitadados textos freudianos mesmo aos que se referem ao primeiro Freudnos quais j encontramos a noo da estrutura paradoxal do desejo.Leandro frisa que num plano mais profundo de anlise da obra deFreud, possvel perceber uma reflexo sobre a irredutibilidade es-trutural do desprazer psquico e, portanto, da impertinncia de se pre-tender encontrar uma melhor dosagem das restries civilizadoras (p.53). Devido a isso cumpre dizer que Freud no se ilude com uma edu-cao adequada, capaz de no implicar desprazer psquico; caso con-trrio, haveria de reservar educao um papel bem mais proeminentena modificao da estruturao psquica.

    Lajonquire l Freud com percia; e convida-nos tambm a faz-lo: no devemos supor que Freud num primeiro momento iludiu-secom uma educao menos repressiva, mas que sempre esperou poruma qualidade diferente de interveno dos adultos junto s crianas.

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    Resenha

    conduziram o debate dos captulosanteriores: Como educar para a reali-dade? Para o desejo? Para o reconhe-cimento do impossvel? Enfim, comose educa? A reposta: falando nocomo especialista, mas como ummortal (l-se: castrado)! Ora, a psica-nlise no seria a indicada a proporalguma pedagogia; sua aposta estariana educao que acontece quandoendereamos a palavra a uma criana a palavra que marca a sujeio doadulto castrao: a nica com chan-ces de educar.

    No captulo 6, porm, Lajonqui-re parece divisar os limites da psica-nlise (pura, diramos) at mesmopara que ela no se converta numaviso de mundo. certo que elaaplicada educao consistiria na ten-tativa de analisar e dissolver as ilusespedaggicas tecnocientificistas. A issoLeandro renomea psicanlise na edu-cao, que pode reclamar ao analis-ta uma outra implicao que no sejaa do seu dever de estritamente psica-nalisar. Nesses casos, caberia a ele apossibilidade de reconhecer seus limi-tes e, uma vez livre de seu dever res-trito, caberia tomar partido nas dis-cusses em torno da vida junto scrianas; esperando, maneira deArendt, recolocar o mundo no seuponto justo para inocular o germedo ato de se tentar o impossvel (p.72).

    Lajonquire abre a segunda par-te de seu livro, A educao e a reprodu-o disso que nos faz humanos, salien-tando que a educao no acontece

    Longe de uma educao profiltica,esperava sim que a palavra dirigida scrianas fosse de uma outra ordemque no a da moral adulta de seu tem-po ou a do gozo pedaggico hegem-nico. assim que Leandro parece tra-duzir a mxima freudiana educaopara a realidade. Diferente do queprocura a pedagogia, uma educaopara a realidade no buscaria a pro-duo da harmonia psquica, mas sima tentativa de uma educao sem ne-nhum fundamento transcendental,uma educao que se paute na reali-dade do desejo.

    Que o futuro nos reserve umaeducao livre das doutrinas religio-sas! parece brandir Freud. Ele sa-bia diz o autor que essa sua espe-rana era quase v, porm preferiaacreditar que valia a pena tentar (p.61).

    Entretanto, se a religio pareciaser no horizonte de Freud o empeci-lho para se educar para a realidade dodesejo, hoje tal empecilho o tecno-cietificismo pedaggico, fulmina La-jonquire (cap. 5). O justificacionismopsicossociolgico, as prescries demanuais, a medicalizao moderado-ra podem at consolar e anestesiar paise pedagogos, ao conter e governar ascrianas, mas a isso o desejo no sesucumbe. A tentativa de sutur-lo sempre v, alerta Leandro.

    Em seguida, o autor lembra-nosa repisada mensagem de Freud sobrea necessidade de se reconhecer o im-possvel na educao, na poltica e napsicanlise; e retoma as perguntas que

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    Anum cenrio perfeito conforme idea-lizado pelo pensamento pedaggico,mas se processa num mundo repletode diversidades, inesperados e impre-vistos. Isso por si s j torna falso odilema da suposta disjuno que dis-curso pedaggico hegemnico quertratar: ou bem ensinar vontade o quequer que seja ou bem esperar que acriana aprenda sozinha ambas de-correntes de uma idealizao natu