RESENHA A pedagogia, a democracia, a escola - ?· RESENHA A pedagogia, a democracia, a escola ... apartada…

Download RESENHA A pedagogia, a democracia, a escola - ?· RESENHA A pedagogia, a democracia, a escola ... apartada…

Post on 25-Jan-2019

214 views

Category:

Documents

0 download

Embed Size (px)

TRANSCRIPT

RESENHA

A pedagogia, a democracia, a escola

Caroline Jaques CubasI

Masschelein, J.; siMons, M. A pedago-gia, a democracia, a escola. Belo Horizonte: Autntica, 2014.

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-24782018230052

Debates em torno da educao esto particularmente na ordem do dia. Compem discusses de um tempo presente que habitaram, igualmente, presentes passados. A escola, enquanto instituio, e tudo o que possibilitado nela/por ela, passou por diferentes processos de apropriao, sendo, muitas vezes, instrumen-talizada para finalidades e projetos polticos de diferentes matizes, em diferentes tempos. Masschelein e Simons (2014), ao proporem a possibilidade de um olhar atento pedagogia, democracia e escola falam, portanto, de um tema absoluta-mente presente. Preocupam-se com desafios da educao no presente, apartando, porm, a escola de tudo o que se atribuiu a ela.

Os trs substantivos que do nome obra entrecruzam-se ao longo dos diferentes captulos. Os textos que compem o volume, ainda que escritos em momentos diferentes, tratam de pensar a educao e de conceber uma sorte de filosofia da educao no apenas como campo ou exerccio intelectivo, mas como a formao mesma de um ethos. Para tanto, lanam-se a uma srie de exerccios crticos a respeito da educao, partindo, porm, de uma concepo de crtica pautada por aquilo que chamam de uma tradio asctica (Masschelein e Simons, 2014, p. 11), a qual diz respeito menos a um exerccio analtico ou elaborao de um julgamento valorativo do que possibilidade de uma experincia e/ou exposio s questes sobre as quais se demoram.

Consistentemente pautado por autores como Hannah Arendt (2014) e Jacques Rancire (2015), A pedagogia, a democracia, a escola constitui-se como provocativo convite ao pensamento. Os trs substantivos denominam no apenas a obra, mas as partes que a compem. Assim, alm de entrecruzarem-se, possibi-litam uma reflexo mais pormenorizada de temas j trabalhados pelos autores no igualmente instigante Em defesa da Escola (Masschelein e Simons, 2013), como a problematizao da noo de pblico e a presuno da igualdade como ponto de partida da prtica educativa (e no como objetivo a ser atingido).

IUniversidade do Estado de Santa Catarina, Florianpolis, SC, Brasil.

1Revista Brasileira de Educao v. 23 e230052 2018

A primeira parte, a pedagogia, apresenta, ao longo de trs artigos, reflexes a respeito do ato pedaggico. Para tanto, inicia-se justamente com proposies sobre um dos sujeitos do pedaggico, a saber, o aluno. Por meio de um cuidado bastante evidente com as palavras (cuidado esse perceptvel durante todo o volume), tais proposies so fundamentadas na distino entre a pedagogia e o pedaggico, bem como entre aluno e infncia. A empreitada objetiva particularmente libertar a figura do aluno de tudo aquilo que a ele se integra quando compreendido como sujeito de uma pedagogia que busca conduzir os alunos ao saber, ao conhecimento e competncia (Masschelein e Simons, 2014, p. 34, grifos meus). A infncia, nesse sentido, aparece como alternativa. No pensada como um estado ou limitada por uma idade, mas apresentada, a partir de Rancire, como potncia e exposi-o. Talpercepo, segundo os autores, torna possvel a posio do professor ou professora em um espao pedaggico que nunca preexistente e que possibilita o aprendizado como exerccio dessa potncia, caracterstica da infncia. O professor aquele responsvel por manter essa condio de infncia, cujas caractersticas principais so justamente so justamente a potncia e as noes igualmente ran-cierianas de vontade e igualdade. Rompe-se,dessa forma, a ideia de uma relao pedaggica hierrquica e apresenta-se a noo de uma pedagogia pobre, desenvol-vida no artigo seguinte por intermdio da sugestiva relao entre a caminhada e o exerccio da leitura e escrita como forma de pensar o ato de exposio, tambm caracterstico dessa concepo particular de infncia. O caminhar aparece como elogio ao exerccio, ateno e presena no ato educativo. Essa pedagogia pobre, desprovida de intenes excedentes, prope restituir o lugar do tempo e do espao como locus de ateno que, quando apartados de demandas produtivistas, podem efetivamente possibilitar experincia. A educao (no ensino e na pesquisa educativa) est, portanto, relacionada possibilidade deexperincia.

A segunda parte do livro dedicada ideia de democracia. As referncias a Rancire fazem-se explcitas inclusive no ttulo de dois dos trs textos que compem essa seo. Os temas da igualdade e da dimenso pblica como categoria quase que inerente da compreenso de educao apresentada pelos autores merecem particular ateno. Para tanto, retomam O mestre ignorante (Rancire, 2015) e reapresentam a noo de igualdade como ponto de partida. Nesse sentido, a educao no teria como objetivo a preparao para o exerccio poltico, mas traz em seu fundamento a ideia de que todos so capazes de (aprender, pensar). A educao diz respeito potencialidade e, dessa forma, fundamenta-se em um princpio de igualdade. Pensandoa democracia como o poder dos que no tm poder (Masschelein e Simons, 2014), ao partir da igualdade cria-se a possibilidade de que momentos democrticos possam emergir no espao escolar. Obviamente, tal percepo no simples e abre espao para uma srie de interpelaes, especialmente no que concerne ao lugar das diferenas nesse mesmo espao. Os autores no se detm nesse debate. Nopor desconsiderarem as diferenas que obviamente existem e so cotidianamente constatadas, mas por reivindicarem para a escola a possibilidade de suspend-las (mesmo que por um breve momento) em nome daquilo que considerado comum a todos e todas. ao promover esses momentos de igualdade que a escola pode, efetivamente, tornar-se um espao pblico. Eis ento a necessi-

2 Revista Brasileira de Educao v. 23 e230052 2018

Caroline Jaques Cubas

dade de refletir sobre as categorias espao e tempo em relao escola. Para tanto, revisitam a concepo grega de skhol, que, em princpio, significava tempo livre. A escola enquanto espao pblico deve oportunizar uma separao dos espaos e uma liberao do tempo. Compreendida como lugar de estudo e exerccio, deve ser apartada das demandas e normas que vigoram na vida produtiva. Apropriando-seda terminologia de Agamben, os autores sugerem a ideia de profanao como prerro-gativa de tudo que compe o escolar. Profanao no sentido de destituir as coisas, o tempo e o espao de seus usos comuns (Agamben, 2005). apenas a partir dela que se pode pensar a escola como instituio pblica.

A escola, em si, o objeto da terceira parte do livro. nela que os autores dedicam ateno s suas formas e materialidades. A ideia de skhol, de tempo livre e de separao dos espaos, ganha centralidade na tentativa de definio dos elementos que caracterizam o escolar. s categorias j delineadas soma-se a noo de abertura do mundo, de clara inspirao arendtiana. A escola, ao oportunizar tempos e espaos destitudos das funes que comumente possuem na chamada vida produtiva, possibilita ao jovem uma apresentao do mundo. Uma apresentao responsvel, na medida em que no deve aprisionar sentidos e funes, e sim possibilitar a renovao daquilo que conhecido e apresenta-do. Tal apresentao cabe objetivamente figura do professor e da professora. Nesseatento exerccio de pensamento sobre o que constitui o escolar, os autores materializam a proposio por meio da apresentao e descrio detalhada do modelo arquitetnico que, em si, tambm dado ao uso comum. Nesse ponto, chega-se assertiva de que ser pblica a essncia da escola (Masschelein e Simons, 2014, p. 191, grifo do original).

O livro encerrado pela profcua correspondncia entre Jan Masschelein e Walter Kohan que tambm assina o prefcio da edio acerca das possibi-lidades e dos desafios de se pensar a filosofia como educao e a educao como filosofia. Por meio de referncias diversas, que vo da filosofia clssica ao ps-es-truturalismo, no encerram a questo, mas desenvolvem inmeras possibilidades de reflexo levando-nos, por intermdio de diferentes possibilidades de percurso, a (re)pensar o que fundamenta, em termos epistemolgicos e experienciais, o pensar-se comoprofessor(a).

Se Em defesa da escola Jan Masschelein e Maarten Simons j haviam assumido o ousado exerccio de sugerir a existncia de elementos que definem o escolar de forma praticamente intemporal, A pedagogia, a democracia, a escola retoma e amplia o exerccio. Ousado, arrisca ser acusado de elogio ao modelo tradicional ou conser-vador de escola, em funo dessa presumida intemporalidade. Cabe lembrar, porm, que tal modelo buscava preparar os alunos e as alunas para o ingresso adequado em uma sociedade especfica, enquanto aqui professa-se justamente a necessidade de uma escola que garanta a possibilidade da renovao. Ampliam o exerccio ao inserirem elementos outrora trabalhados (como as noes de suspenso, profanao e tempo livre) em uma ideia de democracia constituda a partir das noes de igualda-de e de pblico, as quais se tornam, por sua vez, indissociveis e indispensveis para a ideia de escola aqui desenhada. O livro, tal qual Scrates nas palavras de Kohan, provoca em quem o percorre a impossibilidade de passividade. Ao final do volume

3Revista Brasileira de Educao v. 23 e230052 2018

A pedagogia, a democracia, a escola

2018 Associao Nacional de Ps-Graduao e Pesquisa em Educao ANPEd Este um artigo de acesso aberto distribudo nos termos de licena Creative Commons.

os substantivos so (re)formados e instituem-se como possibilidades apenas por meio de ao: A pedagogia, a democracia, a escola apresenta, assim, um provocativo e contundente convite a fazer pedagogia, fazer democracia, fazer escola.

REFERNCIAS

Agamben, G. Profanaes. So Paulo: Boitempo, 2007. Arendt, H. Entre o passado e o futuro. So Paulo: Perspectiva, 2014. Masschelein, J.; Simons, M. Em defesa da escola: uma questo pblica. Belo Horizonte: Autntica, 2013.Rancire, J. O mestre ignorante. Belo horizonte: Autntica, 2015.

SOBRE A AUTORA

Caroline Jaques Cubas doutora em histria pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Professora da Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC).E-mail: caroljcubas@gmail.com

Recebida em 10 de novembro de 2016 Aprovada em 23 de maro de 2017

4 Revista Brasileira de Educao v. 23 e230052 2018

Caroline Jaques Cubas

Recommended

View more >