remedios usados por escravos

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<p>Universidade Severino Sombra Programa de Mestrado em Histria</p> <p>Rosilene Maria Mariosa</p> <p>Tratamento e Doenas de Escravos da Fazenda Santo Antonio do Paiol 1850-1888</p> <p>Vassouras/2006</p> <p>Rosilene Maria Mariosa</p> <p>Tratamento e Doenas de Escravos da Fazenda Santo Antonio do Paiol 1850-1888</p> <p>Dissertao de Mestrado apresentada ao Programa de Mestrado em Histria (rea de concentrao em Histria Social) da Universidade Severino Sombra, para obteno do ttulo de Mestre em Histria, orientada, pela Prof Miridan Britto Knox Falci.</p> <p>Vassouras/2006</p> <p>Folha de Aprovao</p> <p>Tratamento Fazenda 1888).</p> <p>e</p> <p>Doenas Antonio</p> <p>de do</p> <p>Escravos</p> <p>da</p> <p>Santo</p> <p>Paiol.(1850-</p> <p>Dissertao de Mestrado apresentada ao Programa de Mestrado em Histria (rea de concentrao em Histria Social) da Universidade Severino Sombra, para obteno do ttulo de Mestre em Histria, orientada pela Prof Miridan Britto Knox Falci.</p> <p>Banca Examinadora</p> <p>________________________________________________________Presidente</p> <p>_______________________________________________________________________________</p> <p>1 Examinador</p> <p>_________________________________________________________________ 2 Examinador</p> <p>Vassouras, RJ, ____/_____/2006.</p> <p>A Voz do Escravo Sorri-me o gozo no porvir eterno! Aspiro a morte para erguer-me aos cus! P. Caldas Escravo -sofro meus grilhes tiranos! Cruis enganos de brutal senhor. Sofro rigor dum viver austero; E nada espero que mabrande a dor! Roubado fora de meu lar querido; Eu fui vendido por cobia insana; Maldita gana de voraz riqueza Triste fraqueza dambio humana! frica farta, de sublime encanto; Eu te amei tanto, com amor sincero. Hoje em vo quero desfrutar-te um pouco; Mas ah... sou louco, meu senhor fero. Cruel martrio de sinistra sorte! Que dor to forte mavassala o ser! Antes morrer que viver penando. Suspiros dando sem alvio ter. Solta-me oh! Fado, deste jugo atroz! Que to feroz me acabrunha a vida. triste a lida do viver cativo. Em fogo vivo de ventura infinda. A vida passo desditosa e feia. Dura a cadeia, que me deu a sorte! Seu peso forte, meu viver fero. S alvio espero, encontrar na morte! Jornal: A Fnix, 1867.</p> <p>Agradecimento Dedico esta pesquisa a algumas pessoas que esto guardadas no meu corao para sempre.</p> <p> minha querida sobrinha Maria Fernanda que est sempre por perto dizendo: Titia posso te ajudar a fazer esta pesquisa. minha famlia pelo apoio nas horas de sucesso e de dificuldades. Especialmente ao meu pai, companheiro de viagem para todos os lugares por onde pesquisei. Ao companheiro e amigo Professor Jorge Luiz Prata de Souza, pelo incentivo, carinho e ateno que me dedicou. Abrindo-me s portas para novas possibilidades, referente pesquisa cientfica e ao mundo da escravido. minha querida orientadora Professora Miridan Britto Knox Falci que me acolheu como filha, orientando-me e dando tranqilidade no momento mais difcil do curso. Aos professores Ana Maria da Silva Moura, Lincoln de Abreu Penna, meus primeiros incentivadores. professora Mrcia Amantino, por abrir caminhos atravs de seu vasto conhecimento sobre a escravido brasileira. s professoras Surama Conde S Pinto e Claudia Andrade dos Santos que participaram da banca de qualificao, contribuindo atravs de seus</p> <p>conhecimentos para o meu crescimento profissional e pessoal. professora Clia Loureiro Muniz In memorian, que com seu sorriso amigo, muito me incentivou. Professora voc estar para sempre no meu corao esteja onde estiver. professora Maria Yedda L. Linhares, que um exemplo de vida.</p> <p>s amigas Vitria e Maria Cristina que me incentivaram o tempo todo. Vocs tambm fazem parte da minha famlia. Ao Padre Srgio e Frei Geraldo da Congregao dos Orions, responsveis pela preservao do acervo da famlia por me acolher na fazenda possibilitando a pesquisa. E ao Padre Medoro da Catedral de Valena. professora Mrcia Soares de Almeida, pelo incentivo, sempre adaptando meus horrios de aula a cada semestre, para que eu no faltasse s aulas. Tambm aos meus colegas de trabalho que esto sempre perguntando como vai a pesquisa especialmente a Claudia Cristina Cosma Alves que carregou muito livro pesado para me ajudar. Finalmente agradeo a Deus por permitir que este trabalho se realizasse. Agradeo ainda as pessoas e instituies: Aos colegas de curso pelo incentivo. Aos novos amigos Adriano, Marilda Sidney e Lcia de Valena que se dispuseram a me ajudar sem nem me conhecer. Ao Senhor Heraldo dono da farmcia mais antiga de Juiz de Fora, que com seus quase 90 anos, buscou nos fundos de sua farmcia o precioso Chernoviz e com muito carinho me emprestou possibilitando o desenvolvimento da pesquisa. Direo do Museu da Santa Casa de Misericrdia de Valena, na pessoa de Dona Vanda, que me recebeu com muito carinho. Ao Centro de Documentao Histrica da Universidade Severino Sombra, e ao Museu da Justia do Rio de Janeiro, que guarda parte do acervo da Famlia Esteves.</p> <p>Resumo:</p> <p>Esta dissertao trata de um resgate histrico da documentao da Famlia do Comendador Manoel Antonio Esteves, proprietrio da Fazenda Santo Antonio do Paiol, localizada na regio do Vale do Paraba Fluminense, no municpio de Valena, estado do Rio de Janeiro. Este acervo contm cartas, inventrios, documentos financeiros de compra e venda de instrumentos agrcolas e de compra de medicamentos para a enfermaria do hospital dos escravos. Alm de toda esta documentao a fazenda possui ainda em seu acervo uma farmcia utilizada para o tratamento das enfermidades de seus escravos, composta por uma grande quantidade de frascos de medicamentos, bem como algumas receitas mdicas que nos permitem aproximar das medidas empregadas pelos fazendeiros escravistas aps 1850 nos cuidados com a sade e tratamento de seus escravos.</p> <p>Palavras-chave: Escravido - Doenas - Medicamentos -Receitas Mdicas</p> <p>Abstract</p> <p>This dissertation deals With a historical recovering of Comendador Manoel Antonio Esteves family documentation, Santo Antonio do Paiol farm owner, located in the region of Vale do Paraba Fluminense, in Valenas town, Rio de Janeiro State. This archive is formed by letters, inventories, financial documents of purchase and sale of agrarian tools, and sale of medicines for slaves hospital. Besides all this documentation, the farm has in its archive a drugstore used for treating the slaves illness. The drugstore is formed by a big number of medicines as well as medical recipes which allow us to approach the procedures used by the slaver farmers, after 1850, on their slaves health care and treatment.</p> <p>Key-words: slavery; illness; medicines; medical recipes.</p> <p>SUMRIO</p> <p>INTRODUO:.........................................................................</p> <p>11</p> <p>CAPTULO: 1 VALENA: UM PANORAMA HISTRICO.1.1 - Valena: do Serto Cidade..................................................................... 1.2 - Epidemias e Sade Pblica em Valena................................................... 1.3 - Assistncia Hospitalar............................................................................... 1.4 - O Lugar do Negro na Sociedade Valenciana............................................ 28 35 38 38</p> <p>2- HISTORIOGRAFIA DA DOENA E PRTICAS DE CURA NO BRASIL.2.1 - A Medicina Indgena.................................................................................. 2.2 - O Indgena e as Doenas............................................................................ 2.3 - Medicina dos Negros, suas Doenas e a Cura........................................... 2.4 - Medicina Jesutica....................................................................................... Mapas ................................................................................................................. Mapa I ................................................................................................................. Mapa II ................................................................................................................ Mapa III ............................................................................................................... 45 46 47 48 57 62 63 64</p> <p>CAPTULO: 2 A FARMCIA.2.1 - O legado da Farmcia................................................................................ 2.2 - Os Primeiros Frmacos.............................................................................. 2.3 - A Arte dos Boticrios.................................................................................. 2.4 - Farmacuticos e Mdicos no Brasil do Sculo XIX................................... 2.5 - Chernoviz, o Doutor da Capa Preta............................................................ 66 67 69 72 75</p> <p>2.6 - A Farmcia da Fazenda Santo Antonio do Paiol, pertencente ao hospital dos Escravos........................................................................................... 2.7 - Substncias da Farmcia Santo Antonio do Paiol...................................... 2.8 - Doenas dos Escravos da Fazenda Santo Antonio do Paiol...................... 77 81 85</p> <p>CAPTULO: 3 ENFERMIDADE VERSUS TRATAMENTO NA FAZENDA SANTO ANTONIO DO PAIOL.3.1 - Enfermarias dos Hospitais dos Escravos das Grandes Fazendas do Vale do Paraba Fluminense....................................................................................... 3.2- Higiene nas Enfermarias dos Escravos....................................................... 3.3 - Prticas Mdicas nas Enfermarias............................................................. 91 93 93</p> <p>3.4 - O Cemitrio da Fazenda Santo Antonio do Paiol....................................... 110 3.5 - A Reproduo Escrava na Fazenda Santo Antonio do Paiol..................................................................................................................... 112</p> <p>4- Consideraes Finais............................................................... 115</p> <p>5- Fontes Manuscritas ................................................................... 119</p> <p>6 - Fontes Impressas ..................................................................... 120</p> <p>7- Bibliografia................................................................................. 130</p> <p>Anexos............................................................................................ 135</p> <p>INTRODUOA Fazenda Santo Antonio do Paiol localiza-se na regio do Vale do Paraba Fluminense na cidade de Valena, estado do Rio de Janeiro. Seu proprietrio mais ilustre foi Manoel Antonio Esteves, que a recebeu como dote aps seu casamento em 1850 com a filha de Francisco Martins Pimentel, que a havia adquirido de Joo Soares Pinho. A fazenda foi aberta em terras de sesmaria concedida em 1814, por proviso a Joo Soares Pinho, que j havia se estabelecido nesta fazenda desde 1807. Manoel Antonio Esteves manda</p> <p>construir nova sede em 1852, e adquire todos os equipamentos exigidos para o funcionamento de uma fazenda do ciclo de caf.1</p> <p>Amplia os cafezais adquirindo tambm novas fazendas, num total de sete, chegando a possuir mais de seiscentos escravos no ano de 1879. Eliminando intermedirios ele cria uma firma exportadora chamada (Esteves &amp; filhos), para negociar ele mesmo sua produo, tornando-se a partir da grande comissrio de caf. Seria ento a segunda fase mais prspera daquele estabelecimento cafeeiro. Manoel Antonio Esteves morre no Rio de Janeiro em 1879 no auge do seu prestgio. Sucede-lhe na fazenda seu filho Francisco Martins Esteves. O Caf desenvolveu-se no Vale do Paraba Fluminense na primeira metade do sculo, quando a importao de escravos era livre, embora legalmente proibida. Nas dcadas de 1850-60, essa zona atinge o auge de sua produo. 2</p> <p>1</p> <p>Manoel Antnio Esteves nasceu em 27 de setembro de 1813, na freguesia de Merufe, termo de Mono, Arcebispado de Braga, Portugal. Filho de Loureno Jos Esteves e Domingas Gonalves. Casa-se em 1850 com Francisca Martins Pimentel e constitui uma famlia de onze filhos. Pessoa de alguma instruo e recurso, no era propriamente um imigrante, embora viesse tentar uma nova vida. Trabalhou e prosperou, tendo sido comerciante de padaria e tecidos em Vassouras. (Informaes obtidas do Instituto de Preservao e Desenvolvimento do Vale do Paraba, Instituto Preservale, localizado no Rio de Janeiro). 2 COSTA, Emilia Viotti da. Da senzala a Colnia. 3 ed. So Paulo: Brasiliense, 1989, p. 20.</p> <p>Do ponto de vista social, ela gerou uma nova aristocracia, os bares do caf do Vale do Paraba, e importou uma corrente de escravos africanos sem precedentes, que modificou a estrutura tnica dessa parte do Brasil assim como sua estratificao social. 3 Esta fase urea do caf no Vale coincide com a segunda fase de prosperidade da fazenda, por isso o foco central de nossa pesquisa, pois coincide tambm com o fim do trfico de escravos, poca em que o tratamento dos senhores em relao a seus escravos passou a ser modificado. Esta data, 1850, segundo Karasch, marca um divisor de guas na histria da escravido brasileira. As grandes fazendas do municpio de Valena na provncia do Rio de Janeiro possuam uma mdia de 80 a 100 escravos e eram regidas pela necessidade da cultura cafeeira: a produo de vveres, a manuteno das sedes e das senzalas e o beneficiamento do caf. Como a mo-de-obra escrava fosse sempre insuficiente para estas necessidades, tanto no perodo de desenvolvimento ou decadncia, o dia de trabalho do escravo era longo. Comeava antes do nascer do sol prolongando-se freqentemente muitas horas depois do entardecer. 4</p> <p>A medida que o terreiro se enchia de escravos o senhor aparecia na varanda da casa-grande e seguia-se uma orao que nem todos entendiam, mais iam repetindo. O feitor fazia uma chamada formatura e quando um escravo no aparecia o feitor corria at a senzala sua procura 5.</p> <p>3</p> <p>STEIN, Stanley J. Grandeza e Decadncia do Caf no Vale do Paraba.So Paulo: Brasiliense, 1969. 4 STEIN, Stanley J. op. cit. p. 194. 5 Idem, op. cit. p. 193</p> <p>Depois de dadas as ordens do dia, os escravos seguiam para a cozinha para tomar caf com angu e iniciar o trabalho. Homens, mulheres, velhos e moos dirigiam-se para o trabalho da carpa que varava o ano, seguidos sempre pelos capatazes que os vigiavam. O feitor ou o senhor, vestido de branco e de botas, passeava a cavalo pelo cafezal para fiscalizar o trabalho e verificar qual escravo estava fingindo que trabalhava. Numa fazenda, dizia Couty:</p> <p>Tudo ou quase tudo feito pelo negro: foi ele quem construiu as casas; fez os tijolos, cerrou tbuas, canalizou a gua etc. As estradas e a maior parte da maquinaria do engenho so assim como as terras cultivadas, produto do seu trabalho. 6</p> <p>Na formatura da tarde, os escravos eram inspecionados e mandados efetuar, o que um fazendeiro de Vassouras chamou de o brutal sistema de sero, que se prolongava at as dez ou onze horas da noite. Tudo isso com apenas duas refeies dirias. As refeies eram um outro problema que os escravos enfrenta Karasch considera que as refeies consistiam em caf ou mate e po feito de trigo importado do sul ou do exterior. A refeio principal consistia de feijo preto, carne-seca e fa...</p>