Relatorio Final PIBIC 2007-2008 - final ?· A Psicologia Histórico-cultural, que tem como principais…

Download Relatorio Final PIBIC 2007-2008 - final ?· A Psicologia Histórico-cultural, que tem como principais…

Post on 14-Dec-2018

212 views

Category:

Documents

0 download

TRANSCRIPT

UFC

UNIVERSIDADE FEDERAL DO CEAR PR-REITORIA DE PESQUISA E PS-GRADUAO

COORDENADORIA DE PESQUISA CNPq

PROGRAMA INSTITUCIONAL DE BOLSAS DE INICIAO CIENTFICA - PIBIC

RELATRIO FINAL

(Ago/2007 Jul/2008)

TTULO DO PROJETO DE PESQUISA

Percorrendo caminhos epistemolgicos da Psicologia Comunitria 2 Etapa

NOME DO(A) BOLSISTA: Joo Paulo Lopes Coelho

ORIENTADOR(A) DO PROJETO: Profa. Dra. Vernica Morais Ximenes

CENTRO/UNIDADE: Humanidades

DEPARTAMENTO/SETOR: Psicologia

LOCAL DE EXECUO: Ncleo de Psicologia Comunitria

PROGRAMA: Mestrado em Psicologia

DATA DE INCIO: agosto/2007 DATA DA CONCLUSO: julho/2008

2

APRESENTAO

GRANDE REA DO CONHECIMENTO (CNPq): Humanas

REA DO CONHECIMENTO (CNPq): Psicologia

SUB-REA DO CONHECIMENTO (CNPq): Psicologia Social

ESPECIALIDADE DO CONHECIMENTO (CNPq): Processos Grupais e de Comunicao

NOME DO GRUPO DE PESQUISA: NUCOM: Identidade, Comunidade e

Sustentabilidade (Diretrio de Grupos de Pesquisa

CNPq)

3

INTRODUO

O desenvolvimento da 1 etapa da pesquisa no perodo 2006-2007 possibilitou a realizao dos seguintes objetivos especficos: conhecer o contexto histrico da insero de cada marco terico-epistemolgico (terico-metodolgicos) na sistematizao da Psicologia Comunitria e identificar os conceitos, as categorias e a viso de homem/mundo de cada marco terico-epistemolgico (terico- metodolgicos). A sistemtica de apropriao dos mesmos pela Psicologia Comunitria e a anlise de como ocorre a integrao/sntese entre estas teorias ressignificadas, que tornam a Psicologia Comunitria um campo especfico de conhecimento, necessitam de um maior aprofundamento terico. Na 2 etapa da pesquisa (2007-2008) realizamos todos os objetivos especficos e contemplamos o objetivo geral da pesquisa que compreender como se fundamenta a articulao entre os marcos terico-epistemolgicos da Psicologia Comunitria Cearense: Psicologia Histrico-Cultural (Vigotsky, Leontiev, Luria), Educao Biocntrica (Toro e Cavalcante), Educao Libertadora (Paulo Freire), Psicologia da Libertao (Martn-Bar) e Abordagem Centrada na Pessoa (Carl Rogers) na construo de sua prxis. Percebemos a partir das discusses e da pesquisa dos diversos marcos terico-metodolgicos, aprofundamos o estudo na Teoria da Complexidade como eixo epistemolgico que possibilitou a unio entre estas teorias. Gostaramos de salientar que esta pesquisa contribuiu muito para a sistematizao da nossa prxis em Psicologia Comunitria.

O Ncleo de Psicologia Comunitrio (NUCOM) nasceu do desejo de construo de uma Psicologia que se aproximasse das principais questes referentes s comunidades carentes e excludas socialmente, tendo como foco de atuao o sujeito comunitrio, a comunidade e o modo de vida comunitrio, interelacionando essas categorias, como tambm, inserindo-se num projeto maior que a prpria construo da Psicologia Comunitria no Cear. Em 1983 foi criado o Projeto de Atendimento Psicossocial dos Moradores do Bairro de Nossa Senhora das Graas do Pirambu. No ano de 1992, o projeto passa a ser chamado Ncleo de Psicologia Comunitria, adquirindo sede prpria no Departamento de Psicologia da Universidade Federal do Cear e constituindo-se como um ncleo de Ensino, Pesquisa e Extenso. O objetivo do ncleo, alm da busca do desenvolvimento do sujeito comunitrio, tambm a sistematizao do conhecimento de Psicologia Comunitria e a insero dessa no meio acadmico, sempre na perspectiva de uma prtica de psicologia comprometida com a transformao social.

No podemos desvincular o estudo terico de Psicologia Comunitria da prtica de extenso, pois este estudo s ser validado a partir da insero na vida comunitria, uma vez que a Psicologia Comunitria caracteriza-se como:

uma rea da Psicologia Social voltada para a compreenso da atividade comunitria como atividade social significativa (consciente) prpria do mudo de vida (objetivo e subjetivo) da comunidade e que abarca seus sistemas de relaes e representaes, modo de apropriao do espao da comunidade, identidade pessoal e social, a conscincia, o sentido de comunidade e os valores e sentimentos a implicados. Tem por objetivo o desenvolvimento do sujeito da comunidade , mediante o aprofundamento da conscincia dos moradores com relao ao modo de vida da comunidade, atravs de um esforo interdisciplinar voltado para a organizao e desenvolvimento de grupos e da prpria comunidade. (GOIS, 2003, p. 25)

A base epistemolgica de nossa atuao se constitui a partir dos seguintes marcos tericos: Psicologia Histrico-Cultural (Vigotsky, Leontiev, Luria), Educao Biocntrica (Toro e Cavalcante), Educao Libertadora (Paulo Freire), Psicologia da Libertao (Martn-Bar) e Abordagem Centrada na Pessoa (Carl Rogers). Nesse sentido, as teorias, as categorias e os conceitos que, aos poucos, vo se aglutinando na construo da Psicologia Comunitria, passam, necessariamente, pela afinidade com a postura tico-epistemolgica que encontramos presente no compromisso com a prxis libertadora.

4

A Psicologia Histrico-cultural, que tem como principais representantes Vigotsky, Leontiev e Luria, surgiu na Rssia ps-revolucionria (dcada de 1920), buscando trazer para o mbito da Psicologia a materialidade do humano, sem cair no mecanicismo das correntes da poca (reflexologia e psicologia experimental). Ento , a partir do materialismo dialtico e histrico, que esta teoria se fundamenta, enfatizando a singularidade do sujeito enquanto um ser social, ativo e histrico. Nessa perspectiva, passa-se a analisar a relao natureza/cultura em que o homem passa a desnaturalizar os fenmenos, agindo e transformando a si e sua realidade.

A Educao Biocntrica tem como enfoque: a construo do conhecimento crtico que, levando tomada de conscincia, quando aprofundada leva conscientizao. A sua expresso exige uma ao no mundo atravs do dilogo com o outro, para uma transformao da realidade individual e social. Para isso, preciso desenvolver a afetividade e a criatividade. (CAVALCANTE,2001,p. 8)

Tem como paradigma o Princpio Biocntrico (Toro e Cavalcante), que d suporte estrutura terica da Biodana e consiste na ampliao da vida instintiva tendo como referncia a vida em toda a sua plenitude. A Educao Biocntrica no tem como foco somente o homem, mas todos os elementos e seres que compem a vida. Por isso, necessita de uma reeducao da vida e do estilo de viver, fortalecendo a identidade pessoal, coletiva e do lugar, resgatando na afetividade um dos componentes deste reeducar. Permite desta forma que ambos os atores da interveno sejam transversalizados pela vivncia, enquanto elemento central e potencializador e de nossa atuao.

O dilogo, enquanto mtodo pedaggico presente na Educao Biocntrica, teve sua origem na Educao Libertadora de Paulo Freire (1987, p.70) pronunciada como: A educao como prtica da liberdade, ao contrrio daquela que prtica da dominao, implica a negao do homem abstrato, isolado, solto, desligado do mundo, assim como tambm a negao do mundo como uma realidade ausente dos homens. A Psicologia da Libertao nasceu da crtica Psicologia Social Tradicional (dcada de 60), uma vez que esta no dava conta de explicar a realidade - em seus conflitos e contradies - dos pases da Amrica Latina. Martn-Bar, Maritza Montero e Slvia Lane, dentre outros, mostram as relaes de dominao e explorao marcantes desta realidade e o papel da Psicologia na manuteno desta situao. Propem um novo olhar sobre os fenmenos sociais latino-americanos e sobre a relao destes com a subjetividade dos seus povos e tambm uma nova prtica psicolgica, comprometida com a transformao social.

A Abordagem Centrada na Pessoa (Carl Rogers) se prope a ser uma forma revolucionria de lidar com homens e mulheres na educao, na mediao de conflitos, na psicoterapia, dentre outras formas de relao. Essa teoria tem, como pressuposto, a tendncia realizao, que nos traz a noo de que a vida um processo ativo. Segundo Rogers (1986), o ser humano, assim como os outros organismos vivos, movem-se em direo ao desenvolvimento desde que lhe sejam garantidas condies facilitadoras - aceitao, autenticidade e empatia para tal. O processo de construo da Psicologia Comunitria ancorou-se, principalmente, na afirmao de uma posio poltico-ideolgica diante do contexto latino-americano de opresso e da omisso histrica da Psicologia em relao a essas questes. Quando problematizamos a Psicologia Comunitria na Amrica Latina e a Psicologia em geral, no sentido da libertao do povo explorado, por entendermos que o esforo que o indivduo realiza para se tornar sujeito da realidade se d em um contexto de dominao e explorao, que impede ou dificulta a sua atuao enquanto sujeitos da sua histria.

A presente pesquisa situou-se dentro da estratgia de consolidao do NUCOM (Ncleo de Psicologia Comunitria da UFC) enquanto centro disseminador de Pesquisa, Extenso e Ensino e do desenvolvimento terico e prtico da Psicologia Comunitria Cearense, fortalecendo a atuao do Grupo de Pesquisa: NUCOM- Identidade, Comunidade e Sustentabilidade, vinculado ao CNPq, que vem desenvolvendo pesquisas de iniciao cientfica desde 2000 e de mestrado em Psicologia.

5

OBJETIVOS

Geral: Compreender como se fundamenta a articulao entre os marcos terico-epistemolgicos da Psicologia Comunitria Cearense: Psicologia Histrico-Cultural (Vigotsky, Leontiev, Luria), Educao Biocntrica (Toro e Cavalcante), Educao Libertadora (Paulo Freire), Psicologia da Libertao (Martn-Bar) e Abordagem Centrada na Pessoa (Carl Rogers) na construo de sua prxis. Especficos:

Conhecer o contexto histrico da insero de cada marco terico-epistemolgico na sistematizao da Psicologia Comunitria;

Identificar os conceitos, as categorias e a viso de homem/mundo de cada marco terico-epistemolgico e como so apropriados pela Psicologia Comunitria;

Analisar como ocorre a integrao/sntese entre estas teorias ressignificadas tornam a Psicologia Comunitria um campo especfico de conhecimento.

METODOLOGIA

A pesquisa desenvolveu-se a partir das questes advindas da nossa prxis em Psicologia

Comunitria desenvolvida no Ncleo de Psicologia Comunitria (NUCOM). Foi caracterizada como uma pesquisa bibliogrfica, em que buscamos compreender como se relacionam as bases epistemolgicas da Psicologia Comunitria na sua construo enquanto teoria. O que caracterizou este tipo de pesquisa foi o seu foco na coleta de dados a partir das teorias e no necessitando a presena dos sujeitos, enquanto pesquisandos. Mesmo sendo considerada uma pesquisa bibliogrfica, utilizamos metodologia participativa de pesquisa, pois acreditamos que atravs do processo de dilogo que poderemos construir coletivamente o conhecimento. O seu carter participativo foi praticado pelos pesquisadores envolvidos na elaborao e na execuo desta pesquisa. Este grupo foi composto por: 15 estudantes de graduao em Psicologia, quatro estudantes do Mestrado em Psicologia e uma professora do Departamento de Psicologia. Todos so integrantes do NUCOM. A pesquisa organizou-se com as seguintes fases:

1 Fase - Leitura dos marcos terico-metodolgicos (bases epistemolgicas) da Psicologia Comunitria: aprofundamento da discusso da viso de homem/ mundo, dos conceitos e das categorias que compem a Psicologia Comunitria a partir da Psicologia Histrico-Cultural (Vigotsky, Leontiev, Luria), Educao Biocntrica (Toro e Cavalcante), Educao Libertadora (Paulo Freire), Psicologia da Libertao (Martn-Bar) e Teoria Rogeriana (Carl Rogers) e relacionamos com o Paradigma da Teoria da Complexidade e da Libertao, como caminho que possibilita o dilogo dos marcos tericos, atravs do princpio da transdisciplinaridade.

2 Fase - Analisar como os conceitos foram apropriados pela Psicologia Comunitria: Anlise das congruncias e divergncias entre as categorias, os conceitos e as vises de homem e mundo (e suas implicaes nos conceitos) de todas essas teorias, relacionando tal anlise com a Psicologia Comunitria. A sistemtica utilizada para a realizao da pesquisa no semestre 2007.2 foi organizada em encontros semanais, que constituram com espaos para o processo de construo coletiva do conhecimento, como tambm, o compartilhamento de dvidas e de descobertas realizadas pelos pesquisadores. Foram formados cinco sub-grupos responsveis por cada marco terico-metodolgico composto por um aluno do Mestrado e quatro alunos da graduao em Psicologia, sob a orientao e acompanhamento da professora. Cada sub-grupo discutia sobre o seu marco terico-metodolgico e relacionava-o com os Paradigmas da Complexidade e da Libertao. Cada sub-grupo produziu um artigo cientfico e apresentou para os todos os integrantes da pesquisa. No semestre 2008.1, o trabalho desenvolveu-se num grupo composto por 4 alunos da graduao e a professora, pois os alunos do Mestrado dirigiram os seus trabalhos para a qualificao do projeto de dissertao. Esse grupo sistematizou todos os dados produzidos nos artigos cientficos e construiu o relatrio de pesquisa, como tambm desenvolveu um novo projeto de pesquisa para dar continuidade aos trabalhos iniciados por esta pesquisa. Conseguimos desenvolver uma pesquisa a partir de uma metodologia participativa em uma pesquisa bibliogrfica, visto que ela desenvolveu-se por muitos pesquisadores com nveis diferentes de formao, partindo da graduao, do mestrado e do doutorado (professora). Essa atividade entra em consonncia com as linhas definidas para a Ps-Graduao Brasileira, a qual est vinculada mediante a relao entre a Graduao e a Ps-Graduao.

7

RESULTADOS E DISCUSSO

A definio de paradigmas que possibilitam a integrao/sntese entre os marcos terico-

metodolgicos foi gerada a partir da necessidade de descobrir como a Psicologia Comunitria utiliza estes marcos no seu arcabouo terico e metodolgico, j que alguns se embasam no materialismo dialtico e histrico e outros na fenomenologia. A partir de estudos e discusses sobre esta questo, encontramos presentes em todos os marcos terico-metodolgicos dois paradigmas: da Complexidade e da Libertao.

Para compreendermos o que esta sendo chamado de paradigma, podemos nos basear em Montero (1994, p.91): por paradigma se entiende un modelo o modo de conocer, que incluye tanto una concepcin del individuo o sujeito cognoscente como una concepcin del mundo en que ste vive y de las relaciones entre ambos.

Ento, um paradigma sistematiza idias compartilhadas por tericos e teorias. O Paradigma da Complexidade (MORIN, 2003) voltado para as cincias sociais e humanas surge entre os anos 1970 e 1990, a partir dos questionamentos sobre a complexificao mundial das relaes, na estrutura poltica, no incremento da populao mundial e, conseqentemente, da produo (WALLERSTEIN, 1996 apud PRIETO, 2003, p. 151).

Frente a este contexto, viu-se que a postura das cincias sociais em dividir o conhecimento mostrava-se contraditria, pois se exigia uma noo de mundo cada vez mais ampliada devido promoo de trabalhos multidisciplinares que tentavam garantir o melhor entendimento e resoluo dos problemas sociais. Com essa crise do conhecimento social clssico, generalizou-se um ceticismo acerca dessas teorias, pois nenhuma se mostrava capaz de atender s novas concepes que apontavam enormes desafios epistemolgicos.

Para a superao de tal entrave, o caminho apontado para o conhecimento era o de no reconhec-lo como verdade absoluta, pois esse caminho no tem potncia para construir vises mltiplas, integradoras da diversidade, compreensivas da complexidade e do conhecimento emancipatrio autotransformativo (PRIETO, 2003, p.156). O paradigma da Complexidade nos apresenta uma nova organizao das reas, das disciplinas e das teorias e prope uma postura transdisciplinar nas cincias. Segundo Weil, Dmbrosio e Crema (1993), o termo transdisciplinar foi utilizado pela primeira vez por Jean Piaget que afirma a necessidade de que as interaes ou reciprocidades entre as pesquisas especializadas acontecessem num sistema total sem fronteiras estveis entre as disciplinas. Em 1980, Edgar Morin no livro Cincia com Conscincia afirma a fragmentao do saber e enfatiza uma revoluo nos princpios organizadores do conhecimento. Segundo Morin, Ciurana e Motta (2003), os princpios metodolgicos do pensamento complexo so: sistmico, hologramtico, de retroatividade, de recursividade, de autonomia/dependncia, dialgico e de reintroduo do sujeito cognoscente em todo conhecimento.

O Paradigma da Libertao tem como base a libertao do povo explorado. Entendemos que o esforo que o indivduo realiza para se tornar sujeito da realidade se d em um contexto de dominao e explorao. Aqui, no cabe a palavra liberdade, um valor burgus; por isso, a palavra libertao, que implica em uma prxis libertadora. Este paradigma possui princpios que norteiam as teorias que utilizam e divulgam esta prxis: viso de homem - sujeito que constri sua histria e transforma sua realidade; viso de mundo - algo construdo socialmente e possvel de ser transformado; viso de cincia - um espao de aprendizado, de compromisso social, de no-neutralidade e objetivo - libertao do ser humano (GOIS, 2003).

Adiante, iremos citar algumas das principais contribuies das chamadas Teorias da Libertao, bem como explicitar algumas das implicaes desta epistemologia nas Cincias Humanas. Essas construes latino-americanas surgiram em vrias reas do saber como: filosofia, sociologia, antropologia, teologia, pedagogia e psicologia, possibilitando a formao de um novo paradigma.

8

No campo da filosofia, Dussel (1977) vem propor a realidade como categoria epistemolgica, como a categoria que orienta a construo do conhecimento filosfico. Retoma a questo da tica com a sua relao com discurso e prtica, o que implicaria numa tica da libertao. Para este autor, o outro o oprimido, e a fome considerada a maior forma de denncia, como deflagrador do dilogo.

Na Sociologia, Fals Borda (1980) vem trazer a dimenso da participao ativa, como forma de atuar nesta realidade excludente construda aps anos de colonizao e opresso. Para ele, fazer cincia estar atuando e transformando a realidade com qual se compromete.

Na antropologia, a voz que ecoa de Rodolfo Kusch (1982) que nos convida a conhecer e viver a Amrica Profunda, se enlamear, se encharcar do cotidiano vivido pelo povo da Amrica Latina. Enfatiza que a melhor forma de conhecer atravs do contato.

Leonardo Boff (1980) expressa os preceitos da teologia da libertao, onde a idia de Deus se transfigura, passando a ser representado pelo pobre, pelo oprimido, pelo negado. A salvao resgatada como algo a ser conquistado, construdo, portanto possvel como libertao na terra.

Na pedagogia, temos Paulo Freire (1969) que vem convidar todos ao encontro com o outro, atravs do reconhecimento e integrao das diferenas. Prope primeiro a pedagogia do oprimido, a qual depois chama de pedagogia da esperana e, por ltimo, pedagogia da autonomia. Freire nos diz que existir humanamente pronunciar o mundo e, nisso, h uma marca ideolgica muito forte. Para Paulo Freire, no basta ao homem o papel de denunciar a realidade opressora, preciso antes tambm anunciar possibilidades, a partir de uma leitura profunda e coletiva da realidade vivida.

Vejamos, ento, na Psicologia, o pensamento de Martin Bar (1998) na discusso da Psicologia da Libertao. Se a psicologia quer marcar de forma significativa a histria dos povos rumo ao desenvolvimento social dos paises, torna-se preciso rever a bagagem terica e prtica partindo da vida dos povos, seus sofrimentos e aspiraes. Segundo o autor, preciso atuar para a promoo da vida, entendendo a primazia da verdade prtica e tendo como opo referencial os pobres. Ele nos prope trs elementos para a Psicologia: um novo horizonte, uma nova epistemologia referenciada na realidade latino-americana e uma nova prxis, pautada na leitura da realidade, processual, situada e compromissada com a vida, no se rendendo a sobrevivncia.

Dentro desse marco, entendemos a Psicologia Comunitria, como uma cincia que contribui para o pensar e o repensar de uma prtica social e comunitria que se distancia totalmente do assistencialismo, o qual escraviza e empobrece o homem, para uma atuao prtica libertadora que possibilita o despertar do sujeito enquanto cidado e construtor da sua prpria histria como ser coletivo e nico, atravs de uma viso dialtica da realidade.

Dessa forma, a conexo dos marcos terico-metodolgicos, que embasam a Psicologia Comunitria (GOIS, 2005), possui os paradigmas da complexidade e da libertao como eixo de dilogo e a articulao de conceitos e categorias que se complementam na compreenso da complexidade da construo do sujeito da comunidade, mediante o aprofundamento da conscincia dos moradores com relao ao modo de vida da comunidade. (GOIS, 1994, p.15).

A Psicologia da Libertao caracterizada como uma Psicologia Social Crtica (IBAEZ, 2005), pautada no materialismo e interacionismo dialtico, e tem Igncio Martn-Bar como autor de destaque em sua criao e desenvolvimento.Esta vertente posiciona-se na busca por dar resposta aos graves problemas de injustia estrutural e desigualdades sociais, situando seu quefazer a partir das circunstncias concretas dos latino-americanos (MARTN-BAR, 1996). Buscando, com isso, a construo de uma Psicologia capaz de ajudar o povo a compreender sua realidade e libertar-se dos condicionamentos que sua estrutura social os impe (IBAEZ, 2005).

Para Igncio Martn-Bar (1998), as orientaes para o trabalho de uma Psicologia Social da Libertao so: o re-planejamento de seu arcabouo terico e o fortalecimento das instncias populares. Suas tarefas urgentes so: a recuperao da memria histrica dos povos; a potencializao das virtudes populares; o estudo sistemtico das formas de conscincia popular; a

9

desideologizao da experincia cotidiana; e a anlise das organizaes populares como instrumento de libertao histrica.

Falar da importncia da Psicologia da Libertao para a formao e desenvolvimento da Psicologia Comunitria, a nosso ver, tocar na necessidade de desenvolver uma prxis transformadora da sociedade capaz de lutar contra as relaes de opresso, de servilismo e de violncia estruturadas no modo de produo capitalista. buscar desenvolver trabalhos capazes de contribuir na construo de sujeitos crticos, que promovam a transformao das condies de misria econmica e opresso poltica imperantes na Amrica Latina, caminhando para a construo de uma proposta poltica revolucionria das dimenses micro e macrossocial.

Dentro desta perspectiva, a Psicologia da Libertao partcipe na construo dialtica de um modelo epistemolgico das cincias sociais e humanas enraizado nessa realidade latina. A libertao vista, ento, como constituinte de um processo histrico e coletivo necessrio, que nasce da autonomizao dos sujeitos, do resgate e potencializao das virtudes populares, bem como do processo de facilitao da conscientizao individual e grupal advindo da organizao e fortalecimento dos grupos (MARTN-BAR,1998).

A partir do contexto de tenso entre os grupos sociais latino-americanos no ps-guerra, origina-se uma prxis voltada para a transformao positiva da realidade social, direcionada a mudanas estruturais concretas e libertao dos homens oprimidos desta estrutura social. A origem desta prxis no est em um conjunto de iniciativas que parta de uma crtica que se oponha crise do capitalismo. Segundo Dussel (1986), trata-se de um posicionamento crtico e de um conjunto de iniciativas que se opem ao capitalismo em sua crise estrutural.

Entendemos, portanto, que, em nossa prxis, o desenvolvimento comunitrio, dos grupos e psicossocial dos sujeitos da comunidade so formas de enxergar este mais alm como um possvel histrico, que se escreve atravs da atividade humana transformadora, como atividade comunitria (GOIS, 2005) e libertadora da percepo da realidade como totalidade. Trata-se de uma prxis de libertao, voltada luta contras as relaes de dominao e opresso vida, pautada em mtodos que visam o engajamento social do pesquisador/ psiclogo comunitrio e a participao da populao no conhecimento e construo de sua realidade. (GOIS, 1993)

A Teoria Histrico-Cultural da Mente constitui-se como uma das principais bases psi para a compreenso do psiquismo humano dentro do arcabouo terico da Psicologia Comunitria. A noo de desenvolvimento humano que parte dessa teoria aponta para uma compreenso interacionista de homem e mundo que fornece Psicologia Comunitria categorias fundamentais para a anlise do psiquismo humano sob o vis do materialismo histrico dialtico, como Atividade e Conscincia. De acordo com Vygotsky (2001), as Funes Psicolgicas Superiores (FPS) surgem como uma evoluo das funes elementares do ser humano atravs do processo de internalizao que se d pela inscrio dos sujeitos na cultura, no universo simblico partilhado a partir da relao da pessoa com as demais, com os objetos e com o legado simblico do seu contexto histrico-cultural (BARROS, 2006, p.27).

O entendimento do surgimento das formas de inteligncia prtica e abstrata tipicamente humanas - a partir da convergncia entre atividade prtica e fala, entre pensamento e linguagem (linhas de desenvolvimento antes independentes) - aponta a atividade simblica como funo organizadora do comportamento: motivaes e intenes pessoais tornam-se estmulos da ao humana sobre a realidade.

Diante disso, faz-se importante citar outro conceito relevante para a Psicologia Comunitria: Atividade Comunitria, proposto por Gis e baseado na Teoria da Atividade de Leontiev. Gois (2005) afirma que a atividade humana pode ser entendida em termos de transformao da realidade objetiva (atividade instrumental) e transformao subjetiva (atividade comunicativa), podendo tambm esse aspecto comunicativo alterar no apenas o funcionamento do prprio sujeito, mas de vrios sujeitos implicados da realizao da atividade. Percebendo que, dentro de uma comunidade, existem atividades coletivas e um conjunto de significados e sentidos especficos compartilhados, podemos falar no apenas de uma atividade humana individual, mas de uma atividade comunitria e

10

ainda de uma vida comunitria, deslocando o eixo das transformaes sujeito-objeto para um olhar diferenciado e mais coerente com as necessidades do trabalho em intervenes comunitrias.

Dentro da perspectiva histrico-cultural, entende-se que as prticas culturais tm efeitos profundos sob a constituio do psiquismo dos sujeitos, que se constri a partir da relao entre atividade subjetiva e objetiva. Portanto, as estratgias de desenvolvimento comunitrio precisam articular o desenvolvimento pessoal dos moradores com o desenvolvimento coletivo atravs da atividade comunitria, da valorizao das potencialidades locais e da formao e fortalecimento das redes comunitrias. Ao conceituar atividade comunitria, Gois (2005) afirma que ela deflagra alguns processos como: a autonomia dos sujeitos, o fortalecimento da identidade, o desenvolvimento da conscincia e da responsabilidade comunitria. A Atividade Comunitria atua, portanto, como mediadora entre o desenvolvimento da comunidade e o desenvolvimento da conscincia dos moradores.

A leitura da realidade sob o vis interacionista e dialtico aponta para uma compreenso do psiquismo forjada na interao homem-mundo e prope um mtodo que possibilita a compreenso do comportamento humano de forma mais integral. O mtodo gentico-experimental ou micro-gentico vygotskyano tem influncia marcante na formulao do que vem a ser o Mtodo Dialgico-Vivencial (MDV) (GIS, 2005) utilizado pela Psicologia Comunitria em sua prtica. A dimenso analtica do MDV, encontra-se ancorada na anlise micro-gentica por voltar seu olhar para o reflexo psquico do modo de vida comunitrio. Aprofunda-se essa leitura atravs anlise semitica dos significados compartilhados, construdos no lugar, os quais nos permitem analisar as formas de interaes entre os sujeitos e a realidade em um grupo social. Busca-se entender, portanto, a forma como os indivduos objetivam a realidade e a expressam, atribuindo significados e sentidos ao mundo e a si mesmo.

A Biodana insere-se como marco terico-metodolgico da Psicologia Comunitria no Cear desde os primeiros trabalhos realizados junto aos movimentos sociais do bairro Pirambu, na dcada de 80 na cidade de Fortaleza. Segundo Toro (2002), a Biodana uma abordagem de desenvolvimento humano, dirigida para a promoo e integrao da identidade, para a renovao orgnica, a reeducao afetiva e a reaprendizagem das funes originais de vida. Sua metodologia consiste em induzir vivncias integradoras, organizadas em cinco linhas de expresso do potencial biolgico: vitalidade, sexualidade, criatividade, afetividade e transcendncia. pela combinao de msica, integrao grupal e dana (como movimento expressivo, espontneo e esttico) que esta abordagem espera encontrar um acesso privilegiado a dimenses pr-reflexivas da identidade, que dificilmente podem ser acessadas pela linguagem verbal ou pela atividade racional. A Biodana se delinea como importante marco de afirmao e valorizao da vida numa prxis libertadora, comprometida com a transformao positiva da realidade.

Num processo de investigao e anncio das possibilidades, limites e contribuies da Biodana para a Psicologia Comunitria, enfocamos na presente pesquisa compreender, a partir do conceito de vivncia, como a Biodana contribui para a construo do mtodo dialgico-vivencial (MDV) citado anteriormente -, no qual baseia-se a prxis dessa proposta revolucionria de atuao em Psicologia.

Fundamentado em alguns filsofos, como Dilthey e Husserl, Rolando Toro, criador do sistema Biodana, construiu o conceito de vivncia com o qual a Psicologia Comunitria Cearense trabalha. Segundo o autor, a vivncia :

a experincia vivida com grande intensidade por um indivduo no momento presente, que envolve a cenestesia, as funes viscerais e emocionais. A vivncia confere experincia subjetiva a palpitante qualidade existencial de viver o aqui e agora (TORO, 2002, p.30).

A utilizao da vivncia como categoria-chave de um mtodo de interveno comunitria um diferencial da prxis construda na Psicologia Comunitria no Cear e tem na Biodana um de seus principais aportes. Resgatar a vivncia como mtodo de facilitao enfoca uma nova compreenso do mundo, na qual no mais o paradigma da racionalidade passa a ser a lente para a leitura da realidade. Essa nova viso coloca a vida como centro, percebendo a realidade de forma

11

complexa e integrada, valorizando as formas de relao e de conhecimento possveis a partir do princpio biocntrico e resgatando a sensibilidade humana como possibilidade do ser sensvel transitar pelo mundo sensvel, captando-o, sentindo-o, vivendo-o e se modificando.

A partir dessa compreenso, a facilitao do processo de conscientizao, pode se dar atravs da utilizao de exerccios que possam deflagrar vivncias integradoras. Como a vivncia condio de possibilidade, sendo portanto evocada e no garantida, alguns elementos so facilitadores desse processo: o movimento, a msica, a consigna e o outro-no-grupo (GIS, 2002a). Incluir o movimento corporal para a facilitao comunitria convidar a identidade inteira do morador (corpo, sentimento, pensamento e representao) para estar ali presente, assumindo por inteiro o compromisso com o grupo do qual participa.

Poderamos, aqui, afirmar que o MDV no acontece somente em situaes pontuais de facilitao de grupo e sim, que a trajetria do psiclogo comunitrio eminentemente marcada pela com-vivncia, a partir de um compromisso e envolvimento tico e amoroso desse profissional com a comunidade com a qual trabalha. Este compromisso tico perpassa a postura em que o psiclogo da comunidade se coloca diante outro, determina suas escolhas, ressaltando o cuidado como uma relao amorosa com a realidade.

O surgimento da Psicologia Comunitria a partir do pensamento de Gis (1993), principal autor e sistematizador dessa teoria, e as idias libertadoras da proposta educacional de Paulo Freire possuem uma relao profunda. Esse processo se deu a partir do entendimento de que os trabalhos realizados pela Psicologia Comunitria no bairro do Pirambu e nos municpios de Beberibe e Pedra Branca, progressivamente, afastavam-se da Clnica Social e se integrava Educao Popular (GOIS, 2003).

Na Pedagogia da Libertao, percebe-se uma consistente proposta de crtica e superao dos modelos educacionais hegemnicos, pois, para Freire (1979, 2005), a educao seria um grande caminho para a mudana social, para a formao de sujeitos, atores e autores de seus processos histricos cotidianos de emancipao coletiva e individual. Partindo de processo de Conscientizao, observa-se um movimento de emerso e leitura crtica da realidade vivida e de re-insero do sujeito ao seu contexto, agora de modo crtico e propositivo, transformando essa realidade, a partir da transformao desse sujeito. Tendo tambm a Conscientizao como aspecto central de sua prxis, a Psicologia Comunitria lana um olhar psi sobre os processos subjetivos desse movimento, no se limitando, portanto, prticas ligadas alfabetizao.

Tal viso de homem se aproxima bastante do que Gis (2003, 2005) ir chamar de Sujeito da Comunidade. A finalidade bsica da Psicologia Comunitria, nessa perspectiva, seria o fomento construo e fortalecimento deste sujeito comunitrio, para efetivar, assim, a mudana social no nvel local, no lugar/comunidade.

Desde o incio, encontra-se o Dilogo como categoria essencial dentro de uma interveno comunitria sistematizando, posteriormente, o mtodo em Psicologia Comunitria como Mtodo Dialgico-Vivencial e os crculos de cultura e ao como metodologias. No dilogo, cada passo no sentido de aprofundar o conhecimento sobre a situao-problema que se apresenta dado por alguns sujeitos amplia as possibilidades de compreenso do objeto analisado pelos que esto implicados no processo. Em tal sentido, a problematizao um processo que comea com o dilogo e se desenvolve na conscincia dos indivduos.

Podemos verificar a aproximao da Psicologia Comunitria com a obra de Paulo Freire, tanto em seus aspectos tico-polticos como terico-metodolgicos, que se encontram em profunda sintonia com o contexto onde foram produzidas. No plano tico-poltico, encontramos uma opo tomada, a assuno de um compromisso: a Psicologia Comunitria e a Educao Popular colocam-se ao lado das classes ou grupos que vm sendo historicamente negadas e oprimidas, expropriadas de seu valor humano, de seu direito vida plena e generosa em possibilidades de viver. Isto implica que dedicam suas elaboraes tericas e metodolgicas, bem como suas atuaes e a aplicao de seus conhecimentos, em prol da mudana de um dado modelo de vida social, da transformao

12

profunda das estruturas coletivas scio-histricas que engendram os processos subjetivos individuais, a identidade pessoal e sua expressividade singular, sua singularidade expressiva.

A influncia da Teoria Rogeriana sobre o corpo terico-metodolgico da Psicologia Comunitria aconteceu desde os primeiros trabalhos com grupos na Psicologia Comunitria em 1982. Com uma maior consistncia terica e metodolgica, Rogers (1977) ampliou sua teoria voltada para rea clnica para outras relaes de desenvolvimento humano com grupos nas escolas, nas comunidades e na mediao de conflitos internacionais.

A Teoria Rogeriana era a nica teoria psicolgica que embasou a prxis da Psicologia Comunitria nos primeiros trabalhos, j que as outra teorias eram Educao Libertadora (Paulo Freire) e a Biodana (Rolando Toro). No entanto, no seria qualquer teoria psicolgica que compartilharia da mesma vi so de homem que as outras, o que nos levaria ao segundo motivo dessa aproximao: a viso de homem compartilhada entre Gis e Rogers. Rogers (1977) fala de um homem que tende ao crescimento, ao desenvolvimento de suas potencialidades a partir de condies que seriam facilitadoras desse processo. H um claro enfoque nas potencialidades dos sujeitos e no nas fragilidades.

Sua forma de entender o homem e seu funcionamento influi na forma de trabalhar e ela que trazemos como o terceiro motivo. No se trata aqui da forma de terapia individual, mas do trabalho com grupos que Rogers realizou. Ele compreendeu que o grupo em si tambm um organismo e por isso tambm tende auto-realizao quando h um clima favorvel (ROGERS, 1986). Nesse organismo, cada indivduo parte constituinte e tambm fundamental para o crescimento do todo.

As influncias da Teoria Rogeriana sobre a sistematizao que Gis (2003) faz da Psicologia Comunitria percebida tambm quando ele traz as noes de valor pessoal e poder pessoal que Rogers no conceituou.Valor pessoal, segundo Gis (2003, p.41) um sentimento de valor intrnseco que se manifesta quando a pessoa entra em contato com seu ncleo de vida, uma tendncia natural para a realizao. Sentir-se capaz de viver, gostar de si mesmo, acreditar na sua capacidade de conviver e realizar trabalho [...] J o poder pessoal seria a capacidade de influir na construo de relaes saudveis com os outros e com a realidade. a potncia com que se vive a cada momento buscando o crescimento de si e do outro. (GOIS, 2003, p.41)

Essas noes seriam a expresso do ncleo de vida que historicamente foi e bloqueado pelas foras dominantes da manuteno da ideologia de submisso e resignao, onde o psiquismo forjado nessa busca constante pela sobrevivncia. Para serem propiciadas essas expresses da identidade dos indivduos, Gis (2003) fala da necessidade da criao de um clima psicossocial favorvel com as condies trazidas a partir de Rogers, que seriam a aceitao de si e do outro, capacidade de sentir o outro, congruncia de idias sentimentos e aes, acrescidas ainda do dialogo, da organizao comunitria e da luta reivindicatria.

O psiclogo comunitria, a partir de um comprometimento tico-poltico de sua prxis, estaria junto s classes oprimidas no fortalecimento do valor pessoal e poder pessoal, para o desenvolvimento de um sujeito comunitrio de potencialidades que so voltadas para a transformao de sua realidade. Percebe-se, ento, que esse no so meros conceitos, mas categorias que contribuem com um dos objetivos da Psicologia Comunitria: o fortalecimento da identidade a partir do contato com o ncleo de vida.

A questo metodolgica que Rogers (1986) prope nos Grupos de Encontro inspirou Gis (2003) para a construo do Crculo de Encontro. Esse espao caracterizado por se criar um processo de grupo onde h um encontro profundo de reconhecimento, aceitao e sensibilizao entre as pessoas. So trabalhadas a questes scio-psicolgicas e polticas que so compartilhadas por aquelas pessoas e o modo como podem lidar com essas situaes, buscando transformaes individuais, grupais e sociais.

13

CONCLUSO / COMENTRIOS FINAIS

Os estudos desenvolvidos na presente pesquisa possibilitaram muitas discusses e

descobertas de questes tericas e metodolgicas que estavam sem um devido espao na sistematizao da Psicologia Comunitria. Como tambm, a importncia da Teoria da Complexidade e da Teoria da Libertao como caminhos que possibilitam a transdisciplinaridade do marcos terico-metodolgicos da Psicologia Comunitria. O estudo dos cinco marcos terico-metodolgicos, Psicologia Histrico-Cultural (Vigotsky, Leontiev, Luria), Educao Biocntrica (Toro e Cavalcante), Educao Libertadora (Paulo Freire), Psicologia da Libertao (Martn-Bar) e Abordagem Centrada na Pessoa (Carl Rogers), contribuiu para o aprofundamento dos conceitos e categorias e propiciou um processo de discusso sobre a apropriao dos mesmos na prxis da Psicologia Comunitria. O aprofundamento dos Paradigmas da Complexidade e da Libertao como teorias que possibilitam o dilogo e a complementaridade dos marcos terico-metodolgicos possibilitaram a ampliao da leitura e da reflexo a partir de novos tericos, que ainda no estavam presentes nas leituras da Psicologia Comunitria e que fortaleceu a transdisciplinaridade presente entre estes marcos.

Devido profundidade das discusses e a necessidade de fazer mais leituras sobre os paradigmas da Psicologia Comunitria resolveu-se desenvolver uma nova pesquisa Psicologia Comunitria e os paradigmas da Complexidade e da Libertao no perodo de 2008/2009 que ter como objetivo geral: analisar como os paradigmas da Complexidade e da Libertao se articulam nos marcos terico-metodolgicos da Psicologia Comunitria e objetivos especficos: analisar os princpios que compem o paradigma da Complexidade presentes nas obras de Edgar Morin e demais tericos; analisar os princpios que compem o paradigma da Libertao presentes na Escola da Latinoamericana da Libertao presentes nas obras de Enrique Dussel (Filosofia), Cezar Gis, Martin Baro, Martiza Montero e Silvia Lane (Psicologia), Paulo Freire (Educao), Fals Borda (Cincias Sociais) e Leonardo Boff (Teologia) e identificar os conceitos, as categorias, a transdisciplinaridade, as vises de homem e de mundo da Psicologia Comunitria que esto presentes nos seus marcos terico-metodolgicos sob o referencial dos paradigmas da Complexidade e da Libertao.

Como resultados desta pesquisa, foram produzidos cinco artigos cientficos sobre cada marco terico-metodolgico, sendo trs encaminhados a revistas cientficas. O artigo Por uma Psicologia Comunitria como prxis de libertao foi encaminhado em maio/08 para Revista Psico (PUCRS), qualis A, nacional. O artigo Psicologia Comunitria e Educao Libertadora ser encaminhado em julho/08 para Revista Psicologia. Teoria e Prtica, qualis A, nacional. O artigo Psicologia Comunitria e Biodana: a vivncia no mtodo dialgico e vivencial ser encaminhado em julho/08 para Revista Aletheia (ULBRA), qualis A, nacional. Os artigos foram produzidos por alunos do Mestrado e da Graduao em Psicologia com a orientao e participao da coordenadora da pesquisa.

O trabalho desenvolvido por alunos de ps-graduao e de graduao foi uma importante contribuio que esta pesquisa trouxe, alm de fortalecer o Grupo de Pesquisa: NUCOM Identidade, Comunidade e Sustentabilidade do Diretrio de Pesquisa do CNPq.

14

REFERNCIAS BIBLIOGRFICAS

BARROS, J. P. P. Consideraes sobre a Prxis do(a) Psiclogo(a) nas Razes de Cidadania e nos Centros de Referncia da Assistncia Social (CRAS) de Fortaleza. 2006, 161p. Monografia. (Bacharelado em Psicologia), Universidade Federal do Cear, Fortaleza. DUSSEL, E. (1977) Filosofia da Libertao na Amrica Latina. So Paulo: Edies Loyola. DUSSEL, E. D. (1986). tica comunitria: liberta o pobre. Petrpolis: Vozes. FALS BORDA, O. (1980) La ciencia y el pueblo; nuevas reflexiones. Em Maria Cristina Salazar (org.), La investigacion-accion participativa: incios y desarrollos, Madrid, Editorial Popular, 1992. FREIRE, Paulo. Conscientizao: Teoria e prtica de libertao uma introduo ao pensamento de Paulo Freire. So Paulo: Cortez & Moraes, 1979. _______, Paulo. Pedagogia do Oprimido. So Paulo: Paz e Terra S/A. 40 edio, 2005. GIS, Cezar Wagner de Lima. Noes de Psicologia Comunitria. Fortaleza: Edies UFC, 1993 ______. Biodana identidade e vivncia. Fortaleza: Edies Instituto Paulo Freire do Cear, 2002 ______. Psicologia Comunitria no Cear: uma caminhada. Fortaleza: Instituto Paulo Freire, 2003.

_______.Psicologia comunitria- atividade e conscincia. Fortaleza: Publicaes Instituto Paulo Freire de Estudos Psicossociais, 2005.

IBAEZ, L. C.. La psicologa social de Ignacio Martn-Bar y el imperativo de la crtica. In: Portillo, N., Gaborit, M.; Cruz, J. M. (comp.). Psicologa social en la posguerra: teora y aplicaciones desde El Salvador.1 Ed.. San Salvador: UCA Editores, 2005,(p. 436-475). MARTN-BAR, I. O papel do psiclogo. Estudos de Psicologia. Natal: 2 (1), 7-27. 1996 MARTN-BAR, I. Psicologa de la liberacin. Madrid: Editorial Trotta, 1998. MORIN, Edgar, CIURANA, Emilio Roger e MOTTA, Ral Domingo. Educar na era planetria O pensamento complexo como mtodo de aprendizagem pelo erro e incerteza humana. So Paulo: Cortez; Braslia, DF: NESCO, 2003. Montero, M. (1994). Un paradigma para la psicologa social. Reflexiones desde el quehacer en Amrica Latina. In: Montero, M. (Coord.). Construccin y crtica de la psicologa social. Barcelona: Editorial Anthropos; Caracas: Universidad Central de Venezuela, 1994 (p. 27-48)

PRIETO, Mayra P. E. Humanismo, complexidade e totalidade - o giro epistemolgico no pensamento social in GARCIA, Regina. L (Org). Mtodo, mtodos e contramtodo. So Paulo: Cortez, 2003.

KUSCH, Rodolfo. Dos Reflexiones sobre la Cultura: cultura popular e filosofia de la liberacin. 1982. ROGERS, C. e KINGET, M. Psicoterapia e Relaes Humanas. Belo Horizonte: Interlivros, 1977. ROGERS, Carl. Grupos de Encontro. 5 Ed. So Paulo: Martins Fontes, 1986. TORO, Rolando. Biodanza. So Paulo: Olabrs/EPB, 2002. VIGOTSKY, L. S. A construo do Pensamento e da Linguagem. So Paulo: Martins Fontes, 2001. WEIL, Pierre;DAmbrosio, Ubiratan; CREMA, Roberto. Rumo transdisciplinaridade. Sistemas abertos de conhecimento. 3 Ed. So Paulo: Summus Editorial, 1993.

RELAO DE ANEXOS

PARECER DO ORIENTADOR

A presente pesquisa contribuiu bastante para o aprofundamento dos marcos terico-

metodolgico da Psicologia Comunitria. considerada indita, pois esta temtica no foi estudada desta forma no Cear. Conseguimos cumprir todos os objetivos da pesquisa e desenvolver a partir dela um novo projeto de pesquisa.

A utilizao de metodologias participativas de pesquisa atravs das discusses dos alunos da graduao e da ps-graduao foi fundamental para o nvel de aprofundamento das reflexes. Esta pesquisa no foi de responsabilidade somente do bolsista PIBIC, mas de todos que participaram e participam deste estudo. A construo dos artigos e as produes das dissertaes so exemplos desta caminhada. O bolsista acompanhou todas as fases da pesquisa, desempenhando com muita responsabilidade e assiduidade as suas tarefas.

Fortaleza, 14 de julho de 2008.

Profa. Vernica Morais Ximenes