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Governo do Estado do Rio de Janeiro - SEDEIS Departamento de Recursos Minerais DRM-RJ Vistoria Maca Ilha do Francs-RJ 07-2010

Servio Geolgico do Estado do Rio de Janeiro www.drm.rj.gov.br / drm@drm.rj.gov.br

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RELATRIO GEOLGICO

Avaliao da situao do geosstio da Ilha do Franc s, Arquiplago

do Santana, Maca - RJ.

I Introduo:

Este relatrio refere-se a vistoria tcnica realizada em 05 de julho de 2010 pelos

Gelogos Vitor Nascimento (DRM-RJ) e Rodrigo Soares (TWG), na Ilha do Francs, que faz

parte da rea de Proteo Ambiental do Arquiplago de SantAnna (APA), criada pela

Lei municipal no 1.216/89, de 15/12/1989, do municpio de Maca-RJ.

A mesma foi solicitada atravs do Oficio 1377/2010 de 28.06.2010 da Secretaria

Municipal de Meio Ambiente de Maca, com o objetivo de avaliar a situao do

geosstio em questo quanto ao risco de escorregamentos devido ao avano do

processo erosivo no local.

1 - Localizao

A ilha do Francs esta localizada sob as coordenadas geogrficas 22,4016 S

41,6935 W, perante o Municpio de Maca, distando cerca de oito quilmetros (8 km)

da linha de costa. O controle da ilha est sob responsabilidade da Marinha, porm, o

acesso a ilha pode ser feito sem prvia autorizao via barco, sendo amplamente

visitada na poca de frias e vero.

Figura 1 Localizao da ilha do Francs, Arquiplago do Santana.

Maca Ilha do Francs

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2. Contexto geolgico

Segundo Silva (2007), o arquiplago constitudo predominantemente por

ortognaisses de uma unidade geolgica denominada Domnio Tectnico Cabo Frio

(DTCF) (Schmitt, 2001), sendo o litotipo principal o hornenbla-biotita metasienogranito,

que a rocha predominante na Ilha do Francs, juntamente com algumas ocorrncias

de rochas gneas como diques de diabsio.

Ortognaisse designa uma rocha de origem magmtica (ou gnea) que sofreu

transformaes de natureza qumica e fsica (atravs de temperaturas e presses

elevadas no interior da crosta), transformando-se assim em uma rocha metamrfica. O

hornenbla-biotita metasienogranito uma rocha constituda em grande parte pelos

minerais hornblenda e biotita, com aspecto grantico (de rocha gnea), mas com

estruturas como lineaes de estiramento, que comprovam que a mesma passou por

aqueles mesmos processos de transformaes qumicas e fsicas, caractersticos da

formao de rochas metamrficas (por isso a presena do prefixo meta que designa o

processo metamrfico) (fig. 2).

Fig. 2 - Hornenbla-biotita metasienogranito. Rocha metamrfica que forma a maior parte da Ilha do Francs.

Notar acima do afloramento rochoso uma feio erosiva que j removeu parte da vegetao e do material

subjacente.

Foto: Vitor Nascimento

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Os diques de diabsio so rochas magmticas (magma = rocha em estado de

fuso) que costumam penetrar em outras rochas pr-existentes, devido o carter de

mobilidade que o material magmtico adquire em funo das altas temperaturas do

mesmo. Posteriormente, ocorre a solidificao e a formao das rochas magmticas no

interior das outras (metamrficas) mais antigas.

Ainda segundo Silva (idem), as rochas mais antigas da regio, pertencentes ao

DTCF (Schmitt, idem), foram formadas h cerca de 2 bilhes de anos, portanto, em

uma unidade de tempo geolgico denominado de Paleoproterozico. J os diques de

diabsio tm idades em torno de 130 milhes de anos (perodo Cretceo).

Estruturalmente o arquiplago est orientado na direo NE-SW. Alguns

lineamentos estruturais exibem segundo Silva (idem), direes preferenciais E-W e

NW-SE, que condicionam a orientao dos costes rochosos. A foliao metamrfica,

isto , os planos formados por minerais orientados da rocha, possuem baixo ngulo

(em torno de 10 a 25) e mergulha nas direes sudoeste e sudeste.

Estruturas rpteis (fraturas) e dcteis (dobras) ocorrem na Ilha do Francs, assim

como em todo o arquiplago.

3. Descrio da situao do geosstio

Um geosstio corresponde a ocorrncia de um ou mais elementos da

geodiversidade, bem delimitada geograficamente, com valor singular do ponto de vista

cientfico, pedaggico, cultural e turstico (Brilha, 2005).

O geosstio em questo, a Ilha do Francs, possui um aspecto histrico

relacionado a abrigo de embarcaes desde o sculo XVIII, assim como tambm o

arquiplago servia como base de operaes para a pirataria e o comrcio fraudulento

de pau-brasil. Registra-se nessa poca inclusive a presena de moradores (Saint-

Hilaire, 1817; Lamego, 1913 in: Silva (idem)). Trata-se, portanto de registros de

atividade antrpica h mais de dois sculos. Atualmente, no entanto, no h moradores

na Ilha do Francs, sendo a mesma frequentada por turistas e visitantes devido aos

seus atrativos naturais. De acordo com funcionrios da Secretaria Municipal de Meio

Ambiente, na alta temporada a Ilha do Francs recebe um fluxo elevado de visitantes,

que partem de mais de um local na cidade de Maca.

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Esta ilha vem sofrendo um processo erosivo de ravinamento no alto de suas

encontas na poro central da mesma. Este processo chega a ser visvel da cidade de

Maca (face oeste), que dista 8km da Ilha, e tambm ocorre na face leste da mesma

(Fig. 3).

Fig. 3 Processo erosivo de ravinamento na Ilha do Francs (face oeste) que visvel da cidade de Maca.

Foto: Vitor Nascimento

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H ainda a ocorrncia de juntas de alvio, algumas percebidas nos costes

rochosos na praia da Ilha, com risco elevado de se soltarem das suas atuais posies

(fig. 4).

Fig. 4 Formao de juntas (ou lascas) de alvio na Ilha do Francs.

Todo esse processo est relacionado com a dinmica externa (natural) que atua

na superfcie terrestre promovendo transformaes nos relevos, esculpindo novas

formas e modificando assim as paisagens.

As aes, tanto do intemperismo (que promove a desagregao e a

decomposio dos materiais rochosos), da eroso (que remove tais materiais),

representam uma busca natural por condies de equilbrio entre os materiais rochosos

e o meio ambiente onde os mesmos se encontram.

No caso em questo, um dos resultados daqueles processos e aes pode ser a

geoforma denominada de mares de morros, caracterizada pela ocorrncia de

afloramentos rochosos com formas arredondadas muito comuns na regio sudeste do

Brasil.

O geosstio da Ilha do Francs est ligado a um Patrimnio Geolgico que o

DTCF (Schmitt, idem). Dessa forma, as rochas que constituem a ilha contam parte de

uma histria quando Maca no tinha praia1.

______________________________

1 Ver em Castro et. al. (2005). Trata-se do painel interpretativos do Projeto Caminhos Geolgicos, implantado em Maca,

que conta a histria geolgica da Bacia de Campos.

Foto: Vitor Nascimento

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Essa histria se inicia h cerca de 520 milhes de anos, com uma grande coliso

continental que afetou as rochas pr-existentes e fechou um oceano que havia entre os

atuais continentes sulamericano e africano. Esse oceano chamava-se Adamastor (fig.

5).

Fig. 5 Modelo simplificado de coliso continental. Fonte: http://www.caminhosgeologicos.rj.gov.br .

Aquela grande coliso fez com que muitas rochas fossem deformadas e algumas

chegassem at quase o estado de fuso (os ortognaisses). No segmento dessa

coliso, elevou-se uma grande cadeia montanhosa semelhana do que ocorre

atualmente com o Himalaia (coliso da ndia com o sul da sia). Esse evento foi

minunciosamente estudado por Schmitt (idem) denominado de Orogenia Bzios.

Essas colises resultaram h cerca de 200 milhes de anos na formao do

Continente Gondwana que era a parte sul da Pangea. Com a fragmentao da Pangea

e posteriormente com a separao da Amrica do Sul da frica h 130 milhes de

anos, ocorreram muitas intruses magmticas (os diques de diabsio) que marcaram

no s essa separao, mas tambm o incio da formao do atual oceano Atlntico

(figs. 6 e 7).

Oceano

Astenos