Relações Internacionais Como Campo de Estudos - OK

Download Relações Internacionais Como Campo de Estudos - OK

Post on 07-Jun-2015

2.860 views

Category:

Documents

2 download

TRANSCRIPT

<p>CADERNO N 17 RELAES INTERNACIONAIS COMO CAMPO DE ESTUDOS Discurso, Razes e Desenvolvimento, Estado da Arte Lytton L. Guimares, Ph.D.</p> <p>2 semestre de 2001</p> <p>Cadernos do RELPublicao do Departamento de Relaes Internacionais da Universidade de Braslia</p> <p>Reitor: Prof. Lauro Morhy Vice-Reitor: Prof. Timoty Martin Mulholland Dcada de Pesquisa e Ps-Graduao: Profa. Ana Maria Fernandes Decano de Ensino de Graduao: Fernando Jorge Rodrigues Neves Decana de Extenso: Profa. Doris Santos de Faria Diretor do Instituto de Cincia Poltica e Relaes Internacionais: Prof. Vamireh Chacn de Albuquerque Nascimento Vice-Diretor do Instituto de Cincia Poltica e Relaes Internacionais: Prof. Lytton L. Guimares Chefe do Departamento de Relaes Internacionais: Prof. Antonio Jorge Ramalho Rocha Coordenadora da Ps-Graduao: Profa. Maria Izabel Vallado de Carvalho Coordenador da Graduao: Prof. Antonio Carlos Lessa Coordenao Editorial: Profa. Maria Izabel Vallado de Carvalho</p> <p>Departamento de Relaes InternacionaisInstituto de Cincia Poltica e Relaes Internacionais Prdio da FA, 2 andar Campus Universitrio Darcy Ribeiro - Asa Norte Universidade de Braslia CEP 70.910, Braslia, DF, Brasil Telefones: (55-61)274-7167; (55-61)307-2426 / 2866/2865 (55-61)274-4117</p> <p>SUMRIOAPRESENTAO ..................................................................................... 5 I. O DISCURSO EM RELAES INTERNACIONAIS .......................... 7 1. A Linguagem Especial de Relaes Internacionais ............................... 9 2. O Significado e o Objeto de Estudo de Relaes Internacionais ............ 9 3. Modalidades de Relaes Internacionais ............................................ 11 4. A Interdependncia entre o Domstico e o Internacional .................... 14 5. O Nvel de Anlise em RI ................................................................ 17 II. RAZES E DESENVOLVIMENTO 1. Precursores e Pioneiros ..................................................................... 20 (1) Alguns Precursores Importantes .............................................. 20 (2) Autores, Estudos e Iniciativas Pioneiras .................................. 23 2. As Razes de RI como Campo de Estudos .......................................... 27 (1) O Eixo Anglo-Americano: Bases Institucionais ....................... 27 (2) O Estudo de RI Fora do Eixo Gr-Bretanha-EUA ................. 30 3. O Estudo de RI no Brasil ................................................................ 34 (1) O Nacional-Desenvolvimentismo ........................................... 34 (2) Nacionalismo e Poltica Externa .............................................. 35 (3) Poltica Externa Independente ................................................ 38 (4) Contribuies da Academia ..................................................... 39 III. O ESTADO DA ARTE ..................................................................... 43 1. RI: Disciplina ou Campo de Estudos? ............................................. 43 2. Os Grandes Debates ...................................................................... 43 3. A Auto-Imagem de RI .................................................................... 50 4. Desafios ......................................................................................... 52 NOTAS .................................................................................................... 55 BIBLIOGRAFIA ..................................................................................... 57</p> <p>4</p> <p>APRESENTAONo Brasil, a rea de Relaes Internacionais se insere formalmente na Academia com a criao e implantao do curso de graduao (bacharelado) em RI na Universidade de Braslia, a partir do primeiro semestre de 1974. O curso foi reconhecido pelo MEC em 1976 e no segundo semestre de 1977 eram diplomados os primeiros bacharis em RI no Brasil. Dez anos depois a UnB inicia o primeiro curso de mestrado em RI do Brasil. Com essas iniciativas, a UnB inovou e passou a contribuir para a formao de uma massa crtica nacional na rea de RI. Nesse meio tempo, foram surgindo outros centros de ensino e pesquisa em RI, sendo que a partir da dcada de 1990 nota-se uma verdadeira proliferao de cursos de graduao em RI no Pas. Segundo matria publicada na Gazeta Mercantil (maio/2000) existiriam hoje no Pas mais de oito mil alunos de graduao em RI. A produo cientfica brasileira na rea de RI, embora significativa, reflete interesses individuais e por isso tende a ser fragmentada, sendo praticamente inexistente a produo para fins didticos, voltada especificamente para a formao de alunos de RI. Essa situao obriga professores e alunos a recorrerem a material editado no exterior, quase sempre em ingls, obviamente mais adequado para os pases de origem. Portanto, mais do que oportuno comear a preencher essa lacuna. esse um dos propsitos do presente trabalho, parte de um projeto mais amplo, voltado para a produo de material didtico destinado basicamente a cursos de RI. Na primeira parte do presente trabalho so identificados e definidos alguns dos componentes do discurso empregado em RI. Na segunda parte procura-se identificar as razes de RI como campo de estudos, desde sua insero formal na Academia, logo aps a I Guerra Mundial, ao seu desenvolvimento. So destacados alguns precursores e pioneiros, contribuies iniciais e mais recentes no eixo angloamericano, na Europa continental e no Brasil. So revistas algumas fases, eventos e autores, importantes na histria poltica do Pas, e suas contribuies para o estudo de RI. A ltima parte do trabalho dedicada a um exame do estado da arte. apresentada uma breve anlise dos grandes debates que teriam ocorrido 5</p> <p>em RI a partir das dcadas de 1930/40. Por ltimo feita uma anlise da auto-imagem de RI como campo de estudos, seguida de alguns desafios, tendo em vista principalmente novas geraes de estudiosos brasileiros que se dedicam ou pensam se dedicar rea. LLG Braslia, julho 2001</p> <p>6</p> <p>RELAES INTERNACIONAIS COMO CAMPO DE ESTUDOSDiscurso, Razes e Desenvolvimento, Estado da Arte*Lytton L. Guimares, Ph.D.**</p> <p>I. O DISCURSO EM RELAES INTERNACIONAIS</p> <p>1. A Linguagem Especial de Relaes InternacionaisAo discutir os instrumentos lingsticos da poltica, SARTORI (1981, cap. I) identifica trs fontes distintas do discurso poltico: (1) a filosofia poltica, (2) a cincia ou conhecimento emprico da poltica e (3) o discurso comum sobre a poltica. Imagem semelhante pode ser utilizada no tratamento dos instrumentos lingsticos das relaes internacionais, que teriam igualmente trs fontes de discurso: (1) a filosofia das relaes internacionais, (2) o conhecimento sobre as relaes internacionais com alguma validade cientfica e (3) o discurso comum sobre as relaes internacionais. O discurso ou linguagem comum aquela que est ao alcance de todos, a linguagem da conversao ordinria, a linguagem usada rotineiramente por todos que falam o mesmo idioma. No uso da linguagem comum no h preocupao de definir as palavras cada vez que so empregadas, pois se subentende que seu significado conhecido pelos interlocutores. Por isso a</p> <p>* O presente trabalho constitui parte de um projeto mais amplo que tem por objetivo a produo de material didtico em Relaes Internacionais. ** Professor Titular de Relaes Internacionais, Universidade de Brasil.</p> <p>7</p> <p>linguagem comum pode ser imprecisa. O discurso comum sobre as relaes internacionais seria, portanto, aquele utilizado na conversao ordinria, entre pessoas que possam ter algum interesse por determinado assunto ou tema especfico na esfera das relaes internacionais, em decorrncia muitas vezes de um evento histrico importante ou de uma crise, como a crise financeira que atingiu pases asiticos a partir de 1997, que teve repercusses nas economias de vrios pases da prpria regio e at mesmo no Brasil; outro exemplo seria o protecionismo agricultura, praticado pela Unio Europia e pelos Estados Unidos, que tem atingido pases como o Brasil. Segundo SARTORI (1981, pg. 13), A filosofia ... tem um vocabulrio tcnico, em que as palavras, mesmo as mais comuns, assumem um contedo significante prprio... Todas as cincias fazem o mesmo: seus vocabulrios adquirem determinadas caractersticas de significao. Isto equivale a dizer que filosofia e cincia so linguagens especiais. Linguagens especiais so especializadas, crticas, desenvolvidas a partir da linguagem comum. So crticas porque emergem da reflexo e especializadas porque so adaptadas aos problemas heursticos de cada disciplina ou rea cognitiva. As linguagens especiais se caracterizam pela preciso e definio dos significados das palavras empregadas, e at mesmo pela criao de novas palavras, quando necessrio, a fim de representar novas realidades em reas cognitivas especficas. O conhecimento filosfico sobre as relaes internacionais, como em outros campos cognitivos, busca responder a perguntas do tipo por qu? Por qu os conflitos, as guerras, a luta pelo poder hegemnico? Em geral, o conhecimento filosfico, literalmente, vai alm do emprico, dos dados fsicos; portanto, ele metafsico (met t phisik). A linguagem filosfica, como linguagem especial, fortemente conotativa, ou seja, as palavras podem significar mais do que representam; mesmo as palavras utilizadas na linguagem comum podem adquirir significado especial. Da a necessidade de se adquirir domnio sobre a filosofia das relaes internacionais para entender sua linguagem especial. O conhecimento sobre as relaes internacionais com alguma validade cientfica relativamente recente e permanece pouco desenvolvido quando comparado com o conhecimento acumulado, por mais tempo, em outras disciplinas das Cincias Sociais. Da sua dificuldade em se consolidar, mesmo porque o conhecimento sobre as relaes internacionais produto da multidisciplinaridade, pois sobre ele incidem heranas ou influncias de vrias disciplinas ou campos de estudo, alguns com orientao 8</p> <p>predominantemente cientfica, que visam construo e ao desenvolvimento de teoria, como a Cincia Poltica, a Sociologia e a Economia; outros com tradio predominantemente narrativa ou descritiva, como a Histria; outros ainda com caractersticas especulativas ou normativas, como o caso da Filosofia, da tica e do Direito. Alm disso, h em RI uma inevitvel exigncia da prtica, o que acaba constituindo uma espcie de constrangimento para o desenvolvimento sistemtico desse campo de estudos. Existem, por conseguinte, vrias perspectivas e vrias dimenses nas relaes internacionais. Essas diferentes perspectivas e dimenses proporcionam os ingredientes para o desenvolvimento da linguagem especial de Relaes Internacionais como campo de estudos.</p> <p>2. O Significado e o Objeto de Estudo de Relaes InternacionaisExceto para aqueles que ensinam, estudam ou trabalham na rea de Relaes Internacionais, a expresso nem sempre tem sentido claro, em parte porque o prprio termo inter-nacional tambm no tem, uma vez que RI no significa hoje interaes entre naes, mas entre Estados, governos e outros atores internacionais. Pelo menos duas dimenses podem ser atribudas expresso relaes internacionais. Em sentido amplo, e mais comumente utilizada, ela se refere gama de contatos e interaes de natureza diplomtica, poltica, econmica, militar, social, cultural, tnica, humanitria, que se processam entre atores internacionais, estatais e no-estatais. Desses atores, o mais importante o Estado, responsvel pela formulao e implementao da poltica externa de um pas, atravs da qual so conduzidas as relaes diplomticas e negociaes de vrios tipos entre diferentes atores. As interaes realizadas por organismos internacionais e regionais, ou Organismos Inter-estatais ou Inter-governamentais-OIG, como por exemplo a Organizao das Naes Unidas-ONU e suas agncias (FAO, UNESCO, UNICEF e outras), a Organizao Mundial do Comrcio-OMC, a Organizao dos Estados Americanos-OEA, a Organizao para Segurana e Cooperao na EuropaOSCE, a Organizao da Unidade Africana-OUA, a Unio Europia-EU, o MERCOSUL, e outros, constituem tambm relaes internacionais, assim como muitas das interaes que ocorrem entre Estados e organismos noestatatais, como as organizaes no-governamentais-ONGs, com atuao no cenrio internacional, como por exemplo a Cruz Vermelha Internacional, 9</p> <p>o Green Peace, o Human Rights Watch, a Anistia Internacional e outros. Os laos culturais, religiosos, tnicos, entre pessoas que vivem em Estados distintos podem tambm ser considerados como um tipo especial de relaes internacionais, assim como as relaes econmicas e comerciais entre as grandes corporaes transnacionais-CTN, como a General Motors, a Volkswagen, a Siemens, a Petrobrs e muitas outras, que operam hoje a nvel global, e inclusive criam centros de produo multinacionais e desenvolvem produtos mundiais, como resultado de pesquisa e projetos realizados em diferentes pases. Outro sentido atribudo expresso Relaes Internacionais-RI, aqui usada sempre com iniciais maisculas, refere-se ao campo de estudos acadmicos que enfoca as diversas formas de interaes anteriormente descritas, assim como outras questes e fenmenos considerados relevantes para se compreender e explicar a complexidade do cenrio internacional. Numa fase inicial os estudos acadmicos de RI se concentravam em questes de natureza substantiva, como diplomacia, poltica do poder, ou em problemas da paz e da guerra, alianas e interveno militar, e refletiam freqentemente preocupaes prescritivas ou normativas. Na medida em que os estudos foram adquirindo sofisticao terica e metodolgica, passaram a enfocar problemas mais analticos, de relacionamento entre dois ou mais fenmenos, ou variveis, tais como a associao entre poder e segurana, entre poder econmico e militar, entre instituies internacionais e estratgias governamentais, e assim por diante. Algumas sub-reas de RI foram se definindo, como por exemplo, os estudos de poltica externa, os estudos estratgicos, as questes de segurana coletiva, de proliferao e controle de armamentos, a economia poltica internacional, os organismos ou instituies internacionais, a integrao regional, alm de outras. Com a proliferao das chamadas questes transnacionais, novas preocupaes foram sendo incorporadas Agenda Internacional e assim passaram a despertar o interesse de estudiosos de RI. Em geral, essas questes transcendem o nvel domstico ou o controle de um nico Estado e seu estudo e tratamento exigem cooperao internacional e freqentemente multidisciplinar, como o caso do narcotrfico, da poluio e degradao do meio-ambiente, questes amplamente debatidas na Rio-92, dos direitos humanos, objeto da Conveno de Viena de 1993, do papel da mulher (ou a questo do gnero) no novo cenrio internacional, debatido em Pequim em 1994, dos problemas relacionados com a populao, examinados no Cairo em 1995, da questo da habitao, analisada em Compenhague em 1996, e outros. 10</p> <p>3. Modalidades de Relaes InternacionaisAs relaes internacionais podem ser de natureza bilateral, isto , entre dois atores internacionais, um dos quais , em geral, um Estado; ou podem adquirir carter multilateral, q...</p>

Recommended

View more >