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  • ARTIGOS

    Arquivos Brasileiros de Psicologia; Rio de Janeiro, 68 (3): 145-160 145

    Relaes entre controle psicolgico e comportamental materno e ansiedade infantil

    Janaina Nascimento TeixeiraI

    Patrcia AlvarengaII

    Relaes entre controle psicolgico e comportamental materno e ansiedade infantil

    RESUMO

    O presente estudo investigou as relaes entre o controle psicolgico e comportamental materno e os problemas de ansiedade em crianas com idades entre seis e oito anos. Par-ticiparam do estudo 83 mes que responderam ao Inventrio dos Comportamentos para Crianas e Adolescentes de 6 a 18 anos (CBCL/6-18) e Entrevista Estruturada sobre Prticas Educativas Parentais e Socializao Infantil. A anlise de regresso e a anlise comparativa entre um grupo de crianas com perfil clnico de ansiedade e um grupo de crianas sem perfil clnico em todas as sndromes e escalas de problemas avaliadas pelo CBCL confirmaram o poder preditivo do controle crtico sobre a ansiedade infantil. Adi-cionalmente, a comparao dos dois grupos revelou maior frequncia de relatos de pr-ticas de suporte apropriado pelas mes do grupo no clnico. Estes resultados reforam a importncia do controle crtico para a compreenso de sintomas de ansiedade na infncia.

    Palavras-chave: Ansiedade infantil; Prticas educativas maternas; Controle parental.

    Relations between maternal psychological and behavioral control and child anxiety

    ABSTRACT

    The present study investigated relations between maternal psychological and behavioral control and anxiety problems in children aged between six and eight years old. The study included 83 mothers who answered the Child Behavior Checklist (CBCL/6-18), and the Structured Interview about Parental Childrearing Practices and Child Socialization. Regres-sion analysis and comparative analysis between a group of children with clinical profile of anxiety and a group of children without clinical profile in all syndromes and scales assessed by the CBCL, confirmed the predictive power of critical control over child anxiety. In addition, the comparison of the two groups revealed a higher frequency of appropriate support practices reports by mothers of the nonclinical group. These results reinforce the importance of critical control for understanding anxiety symptoms in childhood.

    Keywords: Child anxiety; Mothers childrearing practices; Parental control.

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    Relaes entre controle psicolgico e comportamental materno e ansiedade infantil

    Relacin entre control psicolgico y conductual materno y ansiedad infantil

    RESUMEN

    El presente estudio investig la relacin entre el control psicolgico, el control con-ductual y los sntomas de ansiedad en nios de edades comprendidas entre los seis y los ocho aos. El estudio incluy a 83 madres que respondieron el Inventario de Comportamientos de Nios y Adolescentes de 6-18 Aos (CBCL/6-18) y la Entrevista Estructurada sobre Prcticas Parentales y Socializacin de Nios. El anlisis de regre-sin y el anlisis comparativo entre un grupo de nios con perfil clnico de ansiedad y un grupo de nios sin perfil clnico en todos los sndromes y escalas de problemas evaluados por el CBCL, confirmaron el poder predictivo del control crtico sobre la ansiedad infantil. Adems, la comparacin de los dos grupos revel una mayor fre-cuencia de relatos de prcticas de apoyo adecuados por parte de las madres del grupo no clnico. Estos resultados refuerzan la importancia del control crtico para la comprensin de los sntomas de ansiedad en la infancia.

    Palabras clave: Ansiedad infantil; Prcticas de crianza; Control parental.

    Introduo

    Os transtornos ansiosos encontram-se entre as queixas de sade mental mais comuns em crianas e adolescentes, ficando atrs, apenas, dos Transtornos de Dficit de Ateno/Hiperatividade (TDAH) e do Transtorno da Conduta. As taxas de prevalncia dos transtornos ansiosos infantis, de uma forma geral, variam de 4 a 18% (Bernik, Corregiari, Stella, & Asbahr, 2012; Silva Junior, 2010). Ape-sar da alta prevalncia e da substantiva morbidade associada, os transtornos de ansiedade infanto-juvenis ainda se encontram subdiagnosticados e subtratados (Rapee, Spence, Cobham, & Wignal, 2010; Vianna, Campos, & Fernandez, 2009; Walkup et al., 2008). Alm disso, os distrbios ansiosos apresentam elevadas taxas de comorbidade (Bernik et al., 2012).

    Existem mltiplos caminhos para o desenvolvimento de transtornos de ansiedade em crianas, que envolvem interao complexa entre fatores biolgicos ou constitu-cionais e ambientais (Bernik et al., 2012; Drake & Ginsburg, 2012; Manfro, Isolan, Blaya, Santos, & Silva, 2002; Rape, et al., 2010; Stallard, 2010). Estudos demons-tram a influncia de diversos fatores no desenvolvimento da ansiedade infantil, como gentica, temperamento, processos de formao dos padres de apego, psicopatolo-gia dos pais, fatores cognitivos, experincias de condicionamento, estilos e prticas educativas parentais, entre outros (Bernik et al., 2012; Drake & Ginsburg, 2012; Ollendick & Benoit, 2012; Rapee et al., 2010; Stallard, 2010). Entre as variveis ambientais, as relaes familiares, a interao entre os pais e a criana e, mais espe-cificamente, as prticas educativas ou prticas de socializao parentais parecem desempenhar um papel importante.

    Existem muitos modelos tericos que buscam classificar os diferentes tipos de pr-ticas de socializao parentais e examinar seu impacto sobre o desenvolvimento infantil. No presente estudo, adotou-se o modelo do controle parental proposto por Barber (1996). O termo controle parental faz referncia ao amplo conjunto de prticas e comportamentos dos pais utilizados para regular o comportamento dos filhos. Nesse sentido, o termo controle parental equivale aos termos prticas educativas parentais ou prticas de socializao parentais. O controle parental se

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    J. N. Teixeira, Alvarenga P.

    divide em duas dimenses independentes: controle psicolgico e controle com-portamental.

    De acordo com Barber (1996), o controle psicolgico inclui prticas de constran-ger, invalidar e manipular a expresso e a experincia emocional e psicolgica da criana. Alm disso, o conceito envolve a expresso parental de desapontamento, distanciamento/isolamento da criana, ameaa e/ou retirada de afeto, induo de culpa e humilhao. Esse tipo de controle pode envolver a restrio da expresso verbal infantil, superproteo ou outras formas de manipulao dos pensamentos e sentimentos da criana, com o objetivo de que ela cumpra com as expectativas parentais, e tambm para promover mudana de opinies, emoes e padres de pensamento da criana. Em resumo, o comportamento parental de tentar intro-meter-se e inibir o desenvolvimento socioemocional e a autonomia da criana atra-vs do controle do domnio pessoal da sua vida e da manipulao e presso inten-cional, para que a criana aja em conformidade com os padres parentais. Para alcanar essa conformidade ou reagir ao mau comportamento da criana, os pais utilizam-se de comportamentos, muitas vezes coercitivos, tais como: retirada de afeto/ateno, induo de culpa, negatividade, expresses e crticas carregadas de emoes, desapontamento e humilhaes, e excessivo controle pessoal, que pode manifestar-se pela superproteo. Essa dimenso costuma ser dividida em duas categorias: superproteo e controle crtico (Barber, 1996). A categoria superpro-teo composta por itens que avaliam a restrio da independncia e de experi-ncias da criana, carinho ou afeto excessivo ou desnecessrio, o reforo da timidez da criana e a falta de incentivo ao engajamento social. No geral, a superproteo focada em aes dos pais que interferem nas oportunidades que a criana tem para funcionar de forma independente. A categoria controle crtico inclui itens que refle-tem a rejeio dos pais ou desprezo pela criana ou por seu comportamento, que poderiam ameaar a sensao de segurana do filho no vnculo que tem com seus pais, ou fazer com que a criana tenha sentimentos ruins em relao a si mesma (Barber, 1996; 2002; Barber & Harmon, 2002; Barber & Xia, 2013).

    A quantidade de estudos sobre controle comportamental, a outra dimenso de controle parental apresentada por Barber (1996), muito inferior e sua defini-o e operacionalizao so menos claras se comparadas quelas referentes ao controle psicolgico. Barber e Xia (2013), em uma reviso e sistematizao dos conceitos utilizados em estudos que adotam o modelo de Barber (1996), desta-caram o ritmo crescente dos estudos sobre o controle psicolgico, com resultados uniformes, convergindo para apoiar e aperfeioar a definio do construto como uma violao do mundo psicolgico da criana. Em contraste, os estudos sobre o controle comportamental dos pais so espordicos, no sistemticos e controver-sos, levando a pouco consenso sobre o conceito dessa dimenso. Porm, mesmo com esta dificuldade, comum, entre as definies utilizadas, a caracterizao do controle comportamental como comportamentos de monitoramento e estabe-lecimento de disciplina condizente com a idade da criana e com o contexto social (Barber, 1996). Pais que utilizam as prticas que compem essa dimenso costu-mam explicar claramente as regras para as crianas, emitir prticas consistentes com o comportamento do filho, atentar e responder prontamente s necessidades da criana. No presente estudo, esse tipo de prtica ser avaliado pela definio operacional de suporte apropriado, que inclui comportamentos parentais como a orientao e o incentivo participao da criana nas interaes sociais com outras crianas, concedendo-lhe autonomia e apoiando-a em seus comportamen-tos diante de novos compromissos sociais. Estes comportamentos caracterizam-se pela facilitao, por parte dos pais, da competncia e do compromisso social da criana (McShane & Hastings, 2009).

    De acordo com Barber (1996), o controle comportamental est