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  • Relaes Brasil-Estados UnidosTullo Vigevani30

    TEXTOS PARA DISCUSSO CEPAL IPEA

  • Relaes Brasil-Estados UnidosTullo Vigevani30

    TEXTOS PARA DISCUSSO CEPAL IPEA

    LC/BRS/R.259

  • Comisso Econmica para a Amrica Latina e o Caribe CEPAL, 2011

    Instituto de Pesquisa Econmica Aplicada IPEA, 2011

    Tiragem: 250 exemplares

    Vigevani, Tullo

    Relaes Brasil-Estados Unidos / Tullo Vigevani. Braslia, DF: CEPAL. Escritrio no Brasil/

    IPEA, 2011. (Textos para Discusso CEPAL-IPEA, 30).

    48p.

    ISSN: 2179-5495

    1. Relaes bilaterais Brasil/Estados Unidos I. Comisso Econmica para a Amrica Latina

    e o Caribe. CEPAL II. Instituto de Pesquisa Econmica Aplicada. IPEA III. Ttulo

    CDD: 327.3

    Este trabalho foi realizado no mbito do Acordo CEPAL IPEA.

    As opinies emitidas nesta publicao so de exclusiva e de inteira responsabilidade dos autores, no

    exprimindo, necessariamente, o ponto de vista da CEPAL e do IPEA.

    permitida a reproduo deste texto e dos dados nele contidos, desde que citada a fonte.

    A presente publicao encontra-se disponvel para download em http://www.cepal.org/brasil

  • Sumrio

    Apresentao

    Introduo 7

    1 Questes gerais na relao bilateral 9

    2 Mudanas internacionais e suas consequncias para a relao com os Estados Unidos na perspectiva brasileira 22

    Concluso 42

    Referncia 45

  • Apresentao

    A Comisso Econmica para a Amrica Latina e o Caribe (Cepal) e o Instituto de Pesquisa Econmica Aplicada

    (Ipea) mantm atividades conjuntas desde 1971, abrangendo vrios aspectos do estudo do desenvolvimento

    econmico e social do Brasil, da Amrica Latina e do Caribe. A partir de 2010, os Textos para Discusso Cepal

    Ipea passaram a constituir instrumento de divulgao dos trabalhos realizados entre as duas instituies.

    Os textos divulgados por meio desta srie so parte do Programa de Trabalho acordado anualmente entre

    a Cepal e o Ipea. Foram publicados aqui os trabalhos considerados, aps anlise pelas diretorias de ambas as

    instituies, de maior relevncia e qualidade, cujos resultados merecem divulgao mais ampla.

    O Escritrio da Cepal no Brasil e o Ipea acreditam que, ao difundir os resultados de suas atividades conjuntas,

    esto contribuindo para socializar o conhecimento nas diversas reas cobertas por seus respectivos mandatos.

    Os textos publicados foram produzidos por tcnicos das instituies, autores convidados e consultores externos,

    cujas recomendaes de poltica no refletem necessariamente as posies institucionais da Cepal ou do Ipea.

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    Relaes Brasil-Estados Unidos

    Tullo Vigevani1

    Introduo

    O objetivo deste trabalho analisar os aspectos polticos e econmicos que influenciam a relao Esta-

    dos Unidos-Brasil. A dinmica do sistema internacional e a evoluo dos ltimos anos, dcada de 1990

    e primeira dcada do sculo XXI, foram intensas em todos os aspectos e pesam sobre essa relao.

    Produziram a percepo de uma parte das elites e do povo brasileiros, consolidada e ampliada ao longo

    do governo Luiz Incio Lula da Silva (2003-2010), de que o pas deveria desempenhar no mundo papel

    mais significativo. Essa percepo foi ao longo dos anos traduzida em termos institucionais e de pol-

    tica internacional. As mudanas havidas nas relaes entre Estados Unidos da Amrica (EUA) e Brasil

    devem ser entendidas como uma fase de amadurecimento. Convivem ao mesmo tempo coincidncias

    de interesses, divergncias importantes e atitudes cooperativas em inmeros temas, tanto no campo

    poltico, quanto no econmico. H interesses diferentes, em alguns casos contrapostos, particularmen-

    te na forma de entender as relaes internacionais.

    Os dados demonstram que nos ltimos 20 anos, a partir da queda do Muro de Berlim e do fim da Unio Sovi-

    tica, o fim da bipolaridade tal qual entendida ao longo de todo o perodo da Guerra Fria, o fim da expanso de

    uma parte dos valores considerados ocidentais, como a democracia poltica, o fim da expanso do comrcio in-

    ternacional e as mudanas havidas reduziram em termos relativos o papel dos pases centrais particularmen-

    te o papel dos Estados Unidos e aumentaram o de alguns pases antes perifricos, sobretudo, o da China, mas

    tambm o do Brasil. Essa dinmica e essa evoluo so importantes para a compreenso dos acontecimentos

    1 Professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp), pesquisador do Centro de Estudos de Cultura Contempornea (Cedec) e membro do Instituto Na-

    cional de Cincia e Tecnologia para Estudos sobre os Estados Unidos (INCT-Ineu). E-mail: . Agradeo a

    colaborao de Kelly Ferreira.

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    Intr

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    em curso, que impactam as relaes externas do Brasil, em particular com os Estados Unidos. Explicam como

    essas relaes no devem ser consideradas de enfrentamento, nem de subordinao. Situao nem sempre

    compreendida quando prevalecem interpretaes esquemticas ou tradicionais nas relaes entre os Estados

    e, em especial, nas anlises das relaes entre os Estados Unidos e a Amrica Latina.

    A postura do Estado e dos governos brasileiros pautada pelo interesse no fortalecimento das relaes com

    os Estados Unidos, como se verificou ao longo dos governos Fernando Henrique Cardoso e Luiz Incio Lula

    da Silva, ao longo das administraes de Bill Clinton, George W. Bush e agora de Barack Obama. Busca que

    se verifica no apenas no campo econmico, mas no quadro geral dessas relaes. Esse interesse vincula-se,

    tambm, ao objetivo de garantir melhores condies de insero em outras arenas internacionais. Partindo

    da hiptese de que as transformaes do cenrio mundial influenciaram e viabilizaram as posturas do Bra-

    sil, sero identificados neste artigo os elementos de continuidade e de mudana no comportamento que o

    pas adotou em relao aos Estados Unidos. A crise financeira e econmica internacional desencadeada a

    partir do segundo semestre de 2008 parece no alterar a tendncia de busca do fortalecimento do papel do

    pas no mundo. Ao contrrio, a evoluo havida no ano de 2009 parece fortalecer a posio brasileira at

    mesmo a escolha do Rio de Janeiro para sediar as Olimpadas de 2016 iria nessa direo e consolida uma

    poltica pragmtica de relaes cordiais, visando ao prprio fortalecimento. Nesse contexto, surge diminu-

    da a importncia relativa para o Brasil da relao com os Estados Unidos, sem alterar o objetivo da busca de

    fortalec-la. Fala-se em agenda diversificada, no marcada por maniquesmos, no centrada em um proble-

    ma apenas, no dependente de uma nica pauta.

    Esse pas continua tendo uma posio central no sistema internacional, mas modificada, ao menos no

    incio do sculo XXI, tendente a uma situao de primus inter pares, em que sua capacidade decisria

    no absoluta.

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    1 Questes gerais na relao bilateral

    O objetivo deste trabalho analisar os aspectos polticos e econmicos internacionais que influenciam as

    posies brasileiras em relao aos Estados Unidos. Sero identificados os elementos de continuidade e

    mudana no comportamento brasileiro e, em parte, no comportamento dos Estados Unidos nas relaes

    entre os dois pases, com base na hiptese de que as transformaes do cenrio mundial influenciaram as

    posturas. Partimos do pressuposto de que a poltica do Estado combinou-se com as mudanas objetivas

    ocorridas no cenrio econmico e poltico mundial desde o incio de 1990 at os dias de hoje. Referindo-se

    ao perodo, refletindo as posies do governo brasileiro, Patriota afirma:

    Embora os Estados Unidos permaneam a nica superpotncia do sistema internacional, j

    no se pode dizer, hoje, que a ordem mundial se enquadre em um modelo rigorosamente

    unipolar. Os recursos polticos e militares de que dispem o governo e a sociedade norte-

    americanos, ainda que virtualmente incontrastveis, no lhes asseguram a capacidade de

    definir resultados em escala global. O aparecimento de novos atores e o funcionamento, ain-

    da que imperfeito, de mecanismos multilaterais impedem que Washington possa ser equi-

    parada ao que foi Roma, como bem ilustra o jornalista Cullen Murphy em seu recente livro

    Are we Rome? (PATRIOTA, 2008).

    A percepo de que o poder dos Estados Unidos passa por um processo de relativizao tem progredido e

    torna-se significativamente consensual na sociedade. Essa evoluo da percepo no Brasil resulta tambm

    da crtica do mau uso desse poder. Essa crtica tem sido constante e tem razes fortes. Com relao oposi-

    o poltica ao governo de Lula, alguns setores do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) e dos De-

    mocratas (DEM), ao criticar a poltica externa, insistem em sublinhar a importncia dos Estados Unidos e de

    outros pases ricos, mas reconhecem haver debilitamento relativo daquele pas. No Brasil, a crtica do mau

    uso do poder tem razes longnquas que remontam ao perodo do Imprio e aos primeiros anos da Repblica.

    Por isso mesmo, os Estados Unidos realizam ciclicamente movimentos, buscando a melhoria das relaes

    com a Amrica Latina. Como lembra Hirst (2009), depois da poltica do esplndido isolamento, que coincidiu

    com aes intervencionistas na regio, o secretrio de Estado, Cordell Hull, em 1933, anuncia a poltica de

    boa vizinhana, exemplificada pela reti