registo comercial – ainda existe? .1 registo comercial – ainda existe? 1- o registo comercial

Download REGISTO COMERCIAL – Ainda existe? .1 REGISTO COMERCIAL – Ainda existe? 1- O registo comercial

Post on 09-Nov-2018

215 views

Category:

Documents

0 download

Embed Size (px)

TRANSCRIPT

  • 1

    REGISTO COMERCIAL Ainda existe?

    1- O registo comercial foi e bom seria que continuasse a ser um importante instrumento ao servio do direito comercial e especialmente do direito societrio, o que por si s indica o aprecivel alcance que lhe cabe na vida econmica e social.

    Este por certo o principal motivo que explica e ter determinado que esta instituio fosse melhorando e progredindo ao longo da evoluo histrica, desde os velhos registos da Veneza dos doges e dos libri mercatorium do sculo XIII at publicidade obrigatria relativa s sociedades prevista na Primeira Directiva do Conselho1 e aos excelentes registros mercantiles muito bem pensados e organizados e j h vrios anos feitos em suporte informtico pelos Registradores de Espanha.

    E entre ns? Entre ns tambm houve uma evoluo positiva sobretudo depois da

    codificao autnoma do direito comercial, primeiro com o Cdigo Ferreira Borges de 1833, mas principalmente com o Cdigo Veiga Beiro de 1888 e com os regulamentos e decretos que se lhe seguiram, culminando com o Cdigo do Registo Comercial de 1986. S que, talvez por mal de nossos prprios pecados nacionais, a partir de ento deixamos o caminho da evoluo para passarmos ao da involuo, perdemos o rumo ascendente para entrarmos num acentuado declive descendente.

    A elaborao do Cdigo das Sociedades Comerciais e a necessidade de dar cumprimento s atinentes directivas comunitrias, requereu que o legislador enfrentasse a reforma do registo comercial, que veio a culminar com a publicao do Cdigo do Registo Comercial (C.R.C.) de 862.

    2 Como se diz no prembulo do diploma que o aprovou, este Cdigo

    acompanhou as reformas que j se haviam processado na rea dos registos, designadamente do registo predial, com a publicao do Cdigo de 84, e de modo a autonomizar totalmente o registo comercial, abandonando-se a tradicional subsidiariedade do seu regime relativamente ao do registo

    1 Trata-se da Directiva n 68/151/CEE, de 9 de Maro de 1968. Os actos que devem ser obrigatoriamente inscritos no sistema registral de cada Estado-membro so os mencionados nas sucessivas alneas do n 1 do art 2 dessa Directiva. 2 Para tanto constituda uma Comisso que elaborou o texto legislativo, presidida pela ex-Bastonria da Ordem dos Advogados, Dr Maria de Jesus Serra Lopes (e qual tambm tive a honra de pertencer) que funcionou sempre sob o contnuo acompanhamento do ento Ministro da Justia Dr. Mrio Raposo.

  • 2

    predial, conservando embora o essencial dos princpios e da tcnica desse registo.

    Esta autonomia no ter, alis, sido totalmente quebrada com a publicao do Decreto-Lei n 349/89, de 13 de Outubro, visto que as disposies relativas ao registo predial que passaram a ser consideradas aplicveis ao registo comercial foram-no to-s na medida indispensvel ao preenchimento das lacunas da regulamentao prpria e apenas se no contrariassem os princpios informadores do registo comercial3.

    Seguiram-se outros diplomas - os Decretos-Lei ns 31/93, de 12 de Fevereiro, 216/94, de 20 de Agosto, 328/95, de 9 de Dezembro e 257/96, de 31 de Dezembro que actualizaram alguns aspectos particulares deste registo, acontecendo que este ltimo tambm introduziu a figura do secretrio de sociedade e substituiu a regra da existncia de um conselho fiscal pela do fiscal nico, sendo este obrigatoriamente um revisor oficial de contas.

    Foram, no entanto as estatuies seguintes designadamente atravs dos Decretos-Lei ns 368/98, de 23 de Novembro e 198/99, de 8 de Junho que encetaram a via do facilitismo abrindo uma brecha, embora pequena, na credibilidade dos factos publicados pelo registo que em nada contribuiu para a melhoria do prprio sistema. Referimo-nos s normas sobre o registo da prestao de contas e da abolio das regras de controlo que, a este respeito, vigoravam. Contudo, cabe diz-lo, este passo negativo no chegou a ter repercusses significativas, visto que o principal4 controlo de tais contas e de quem as deve prestar era como continua a ser minuciosa e necessariamente feito pelos Servios Fiscais.

    O ltimo passo do legislador que foi totalmente aberrante, nocivo e de consequncias verdadeiramente gravosas para a segurana do comrcio jurdico. Referimo-nos ao propagandeado Decreto-lei n 76-A/2006, de 29 de Maro.

    3 Os registos - quaisquer registos, mas especialmente os que se

    destinam a publicitar situaes jurdicas, como o caso dos registos civil, predial e comercial visam defender e assegurar os direitos das pessoas e bem assim definir e graduar os direitos sobre os bens. Alm disso permitem eliminar os chamados custos de indagao que sempre se tornariam altamente complexos sem uma base registral que permitisse elucidar e garantir as

    3 Apesar disso, este diploma, ao prever a aplicao subsidiria das normas do registo predial, foi alvo de vrias crticas, principalmente de membos da citada Comisso que elaborou o C.R.C. 4 Principal, mas no exclusivo. que h alguns aspectos da prestao de contas (v.g. a regularidade das assembleias gerais que as aprovam) cujo controlo seria mais bem feito na conservatria. Sobre este tema das contas cf. o livro de Adlia Tiago, Rui Almeida e Telmo Pascoal Prestao de Contas.

  • 3

    correspondentes situaes jurdicas, Ora isto feito atravs da inscrio num sistema registral dos factos

    para tal relevantes, isto , daqueles que, pelo registador, foram julgados como verdadeiros, vlidos e suficientes para tanto.

    Deste modo, quando algum, pessoa ou sociedade, obteve um registo a seu favor pode dizer-se que ganhou algo, ao menos uma inverso de nus probatrio especialmente no sentido de ficar presumido que o direito inscrito existe e corresponde verdade - mas nunca que perdeu algum bem ou situao jurdica, nem to-pouco que viu diminudos os seus direitos.

    Isto, que se afigura ser de uma evidncia manifesta para qualquer jurista, todavia no o foi para o legislador daquele demaggico Decreto-Lei n 76-A/2006. O prprio prembulo, que com inaudita bazfia proclama vir o diploma concretizar propsitos fundamentais de interesse nacional, exemplifica a dado passo tais propsitos e medidas, referindo textualmente o seguinte: reduz-se o nmero de actos sujeitos a registo, adopta-se a possibilidade de praticar determinados actos atravs de um registo por depsito, cria-se um novo regime de transmisso de quotas

    Vejamos ento: A primeira destas benesses que o legislador decidiu oferecer ao povo

    foi a reduo do nmero dos factos registveis. Recordamos j que os registos visam assegurar os direitos das pessoas e no retirar-lhos. Poder-se-ia, no entanto, considerar que quando se trata de um registo obrigatrio isso poderia causar alguma dificuldade a quem tem de o requerer. Nunca, porm quando se trata de registos facultativos, dado que ento, como resulta do prprio conceito, s os faz quem quer e quando quer. Portanto, completamente absurdo considerar-se que benfico reduzir a possibilidade de se fazerem registos facultativos.

    Dir-se- ainda que mesmo no tocante publicitao obrigatria de factos e direitos como a que imposta pelo artigo 2 da Primeira Directiva do Conselho a que aludimos so fundamentalmente razes de interesse publico as que determinam tal obrigatoriedade, pelo que tambm quanto a estes no se poder afirmar que a diminuio de factos registveis constitua qualquer benefcio, sobretudo para o comrcio jurdico.

    Se nos dermos, porm, ao trabalho de verificar, concretamente, no que toca aos factos registveis referentes s sociedades comerciais, em que consistiu, afinal, a sua anunciada diminuio, verificamos que foram apenas nos que sempre tiveram registo facultativo. E quais foram eles? Qual foi o alto critrio do legislador?

    Deixou de se poder registar a autorizao que o scio cedente d (ou, em caso de bito, os herdeiros do) para que o seu nome permanea na firma social e a

  • 4

    cessao da existncia de conselho fiscal, quando se introduz o fiscal nico. Foi tambm eliminada a alnea b) do artigo 10 que em determinadas

    hipteses, alis bem raras (v.g. nos de restrio de poderes) previa o registo da designao do gestor judicial.

    No que se refere s cooperativas de responsabilidade limitada, foi suprimida a alnea c) do artigo 4, que sujeitava a registo o penhor, arresto, arrolamento e penhora das respectivas partes de capital.

    pois caso para se dizer: a montanha pariu um rato. Como se tentou explicitar, por um lado, a excluso de factos que podem ser levados ao registo , em si, um mal, um retrocesso tanto sob o ponto de vista da finalidade pblica da publicitao das situaes jurdicas, como na perspectiva da defesa dos direitos individuais. Pelo outro, francamente: no que se foi mexer foi apenas em aspectos pontuais e espordicos, podendo contar-se pelos dedos de uma mo o nmero dos registos daqueles casos que eram feitos, mesmo nas maiores conservatrias. Assim, como qualificar a sua meno no prembulo do diploma? De demaggica, de estulta, ou de meramente disparatada?

    Cada um de ns que conclua 4 - Mas ateno: percorrendo as alteraes ao Cdigo (e, claro, ao

    Cdigo do Registo Comercial que nos continuaremos a referir) verificamos que nos artigos seguintes esperam-nos novidades bem mais negativas. Dir-se- que inacreditavelmente piores, porque so tcnica e cientificamente indefensveis e algumas at completamente absurdas.

    Comecemos, todavia, pelas mais simples. Os factos que a lei considera passveis de registo devem ser inscritos no

    sistema registral. E so-no actualmente, em quase todos os pases evoludos, em suporte informtico. A inscrio consiste num simples e resumido extracto do que os ttulos contm e no numa transcrio do seu contedo. Pois bem: uma das vrias e abstrusas inovaes consistiu na introduo do artigo 53-A, cujo n 1 nos passou a dizer que

Recommended

View more >