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O trabalho Regime Militar fala sobre o que aconteceu no perodo que o Brasil foi governado pelos militares.

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    Obras pblicas monumentais, fico e o regime militar no Brasil (1964-1985)

    Sophia Beal(traduo de Antonio Herculano Lopes)

    Em 1971, Caetano Veloso, que estava autoexilado em Londres por causa de suas canes politicamente polmicas, recebeu permisso para viajar ao Brasil para comparecer festa de 40 anos de casados de seus pais. Ao chegar no Aero-porto Internacional do Rio de Janeiro, foi detido pela polcia, que tentou for--lo a escrever uma cano celebrando a rodovia Transamaznica, uma obra p-blica gigantesca iniciada pela ditadura militar em 1970.1 Caetano, que se opuse-ra publicamente ao regime, foi pressionado a cantar loas a um de seus principais projetos de desenvolvimento. Ele recusou. Poucas horas depois, foi solto.

    Era um tempo marcado pelo contraste entre o acelerado crescimento econ-mico do Brasil o chamado milagre (1969-1973) e a represso draconiana oposio poltica promovida pelo regime militar. A prosperidade econmica permitia obras pblicas extremamente ambiciosas, que o regime militar usa-va, com resultados variados, como smbolo de seu sucesso modernizador. Trs iniciativas gigantescas, com frequncia chamadas sugestivamente de obras faranicas, comearam durante a presidncia de Emlio Garrastazu Mdici (1969-1974): a rodovia Transamaznica, a usina de Itaipu (em parceria com o Paraguai) e a ponte Rio-Niteri. A Transamaznica deveria prolongar para oeste rodovias nordestinas, cruzando um vasto trecho da floresta amaznica previamente inatingvel por veculos a motor, ligando a fronteira peruana com o Atlntico. Itaipu2 foi a maior usina hidreltrica do mundo at o trmino da

    1 DUNN, Christopher. Brutality garden: Tropiclia and the emergence of a Brazilian counterculture. Chapel Hill: University of North Carolina Press, 2001. p. 164.2 Esses projetos capturaram a imaginao de artistas brasileiros e do exterior. Em 1979, Henri Pitaud escreveu Las siete cadas del ro Paran, romance originalmente escrito em francs, mas publicado somente em espanhol. Dedicado ao ditador paraguaio Alfredo Stroessner e explicitamente anticomunista, o romance lamenta o fato de a represa de Itaipu ter encober-to os saltos del Guayr (no Brasil, Sete Quedas). O escritor e mdico carioca Jorge Martins de Oliveira escreveu o romance

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    construo em 2008 da represa das Trs Gargantas, na China. A RioNiteri era, na poca de sua construo, a mais longa ponte no mundo em vigas caixo (ponte reta, sem torres).

    A ditadura militar brasileira, que patrioticamente descrevia o pas sob seu co-mando como Brasil grande, buscou mais do que eficincia e expanso com seu programa intenso de obras pblicas. Como o nome Brasil grande sugere, tama-nho documento. Um dos discursos de Mdici, transmitido por rdio e televiso em honra do stimo aniversrio da Revoluo de 1964 denominao oficial do golpe que ps os militares no poder , defendia que, para superar suas dificulda-des, o Brasil precisava promover o desenvolvimento em dimenses mundiais.3 Em outro discurso de 1971, referindo-se mais especificamente natureza super-lativa das iniciativas desenvolvimentistas do regime, Mdici descreveu a usina de Itaipu como sendo construda por uma companhia binacional que no ter paralelo, no mundo, por sua natureza e magnitude.4 Um livro patrocinado pelo governo sobre a rodovia Transamaznica descreveu-a como a mais gigantesca via terrestre pioneira em construo no mundo.5

    Como de praxe em qualquer tipo de governo, o regime militar apresentou suas iniciativas de obras pblicas como uma forma de direcionar o pas no cami-nho do progresso. Mas o que chama a ateno no caso brasileiro sua preocupa-o em se legitimar e o uso das obras gigantescas para faz-lo. Por terem tomado o poder inconstitucionalmente, ainda que fossem obcecados pela obedincia lei, os oficiais fizeram grande esforo para legitimar o ilegtimo, como disse o historiador Thomas Skidmore.6 Carlos Fico reflete sobre a afirmao sucinta de

    Atentado em Itaipu em 1983, no qual imagina o colapso da represa de Itaipu e suas consequncias. Uma visita s cachoeiras do Iguau e usina de Itaipu em 1988 inspirou Philip Glass a compor a cantata sinfnica Itaipu, cujo terceiro movimento se intitula A represa.3 MDICI, Emlio Garrastazu. Tarefa de todos ns. Braslia: Departamento de Imprensa Nacional, Secretaria de Imprensa da Presidncia da Repblica, 1971. p. 82.4 MDICI, Emlio Garrastazu. O povo no est s. 2. ed. Braslia: Departamento de Imprensa Nacional, Secretaria de Imprensa da Presidncia da Repblica, 1972. p. 36.5 Transamaznica: uma experincia rodoviria nos trpicos. Rio de Janeiro: Ministrio dos Transportes, Departamento Nacio-nal de Estradas de Rodagem, 1972. p. 1.6 SKIDMORE, Thomas. Uma histria do Brasil. Trad. Raul Fiker. 3. ed. So Paulo: Paz e Terra, 2000. p. 225.

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    Skidmore, observando que o regime militar, embora autoritrio, ditatorial, no pretendia ser identificado desse modo. [...] [O]s militares buscaram o rodzio dos presidentes e tentaram construir um arcabouo legal com atos institucionais que ocultassem sua ilegitimidade.7 Ao demonstrar sucesso numa rea espe-cfica do progresso nacional, a modernizao simbolizada pelas obras pblicas monumentais do regime serviu para legitimar a ditadura tanto internamente quanto no exterior. Junto com a vitria do Brasil na Copa de 1970 e o chamado milagre econmico, o regime usou tais obras para promover sua imagem.

    A realizao de algumas das maiores obras do mundo tornava-se um smbo-lo da suposta grandeza e natureza moderna do regime, numa tentativa de legi-timar uma das mais recentes ditaduras latino-americanas, o que era particular-mente importante para a sua reputao internacional. Enquanto smbolos teis, aquelas trs obras buscavam o desenvolvimento econmico e, ao mesmo tempo, serviam como monumento ao regime. A narrativa de progresso por meio de obras pblicas expresso que passarei a usar daqui por diante a forma com a qual o governo apresentou suas obras faranicas como prova de seu sucesso modernizador, algo essencial para legitimar seu poder. Para tanto, buscou apoio de artistas, tanto famosos como amadores.

    Caetano foi um dos muitos artistas a quem se pediu uma louvao s gran-des obras pblicas, ttica que acompanhou a estratgia de propaganda empre-endida pelo regime, que, de acordo com o historiador Carlos Fico, buscou inspi-rar patriotismo sem referncias diretas a qualquer partido poltico ou ditador.8 Em julho de 1969, o ministro dos Transportes, Mrio Andreazza, instituiu a primeira Semana Nacional dos Transportes, que inclua concursos de melhores pinturas, gravuras e esculturas relacionadas ao tema, assim como a organizao da antologia Livro dos transportes, editado por Dinah Silveira de Queiroz.9 A extensa antologia inclui textos completos e excertos de fico e no-fico, indo de uma passagem da famosa Carta de Pero Vaz de Caminha a el-rei d. Manuel,

    7 FICO, Carlos. Reinventando o otimismo: ditadura, propaganda e imaginrio social no Brasil. Rio de Janeiro: Ed. Fundao Getulio Vargas, 1997. p. 95.8 Ibid., p. 146.9 QUEIROZ, Dinah Silveira de (Org.). Livro dos transportes. 2. ed. Rio de Janeiro: Servio de Documentao do Ministrio dos Transportes, 1970. p. 432.

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    escrita em 1500, a poemas modernistas de Mrio de Andrade, alm de um recente artigo de jornal escrito por Mrio Andreazza. Por meio de concursos, publicaes e propaganda, o regime procurou gerar nas pessoas um sentimento de participa-o e de aprovao do desenvolvimento do pas.10 Essa preocupao tanto com as obras quanto com a sua aprovao pblica continuou nos anos subsequentes: de 1971 a 1973, a Assessoria Especial de Relaes Pblicas (Aerp) do regime militar lanou trs campanhas de propaganda voltadas para a construo civil: Em tempo de construir, Voc constri o Brasil e O pas que se transforma e se constri.11

    Apesar da resistncia de Caetano Transamaznica, muitos brasileiros es-tavam dispostos a escrever poemas em sua honra. Em 1971, o Servio de Do-cumentao do Ministrio dos Transportes promoveu um concurso de melhor poema sobre a estrada e recebeu um total de 803 inscries, das quais 20 foram publicadas na antologia Tempo de estrada, em novembro de 1972, pelo mesmo Servio de Documentao.12

    Ao selecionar as 20 descries mais fulgurantes da estrada, o governo dei-xava que o prprio povo brasileiro promovesse a obra. Alm disso, o livro foi distribudo gratuitamente,13 o que facilitou a sua difuso. Os poemas se referem diretamente s razes governamentais para construir a estrada. Muitos listam matrias primas que poderiam ser encontradas ao longo do trajeto da estrada, em especial ouro e diamante. Alguns poemas falam sobre as preocupaes com a proteo da poro brasileira da Amaznia em face da cobia estrangeira.14 Vrios outros se referem ao esforo humanitrio de oferecer terra agricultvel ao longo da Transamaznica a pobres nordestinos, como demonstra este exemplo, anunciando que a estrada marcar o

    10 FICO, Carlos. Reinventando o otimismo, p. 130.11 Ibid., p. 121.12 DUARTE, Walter (Org.). Tempo de estrada: 20 poemas da Transamaznica. Rio de Janeiro: Servio de Documentao do Ministrio dos Transportes: Instituto Nacional do Livro, 1972. p. 7.13 Ibid., contracapa.14 SETTI, Arnaldo. Estrada da redeno. In: DUARTE, Walter (Org.). Tempo de estrada, p. 41.

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    Fim das andanasde todos os nordestinos,que, por sculos,foram da desgraa peregrinos,fugindo das secas,sem destino.15

    Alm disso, os poemas demonstram o desejo de facilitar a locomoo e me-lhor integrar a floresta amaznica rede rodoviria:

    E o norte-sul, leste-oeste,no mais Brasil bipartidoe sim partilha-verdade,ho de encontrar o seu pleno sentido de liberdade!16

    Os poemas, previsveis e sem nuances, funcionam como uma narrativa do pro