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  • REFLEXES SOBRE O SISTEMA TRIBUTRIO APLICADO AO TERCEIRO SETOR

    JOS AUGUSTO DELGADO*

    Ministro do Superior Tribunal de Justia

    Sumrio:

    1 Aspectos conceituais: terceiro setor.

    origem. Desenvolvimento - 2 Alguns

    aspectos gerais do sistema tributrio do

    terceiro setor - 2.1 Plano constitucional -

    2.2 No plano infraconstitucional, anlise do

    art. 12 da Lei n 9.532, de 10 de dezembro

    de 1997, que altera a Legislao Tributria

    Federal - 2.3 A incidncia do imposto sobre

    importao e imposto sobre a exportao

    sobre operaes realizadas por entidades

    educacionais ou de assistncia social - 3

    Sntese da jurisprudncia do Supremo

    Tribunal Federal sobre o art. 150, VI, 'c', da

    CF - 4 Outras questes que envolvem a

    tributao do terceiro setor no Brasil

    *Ministro do Superior Tribunal de Justia, a partir de 15/12/1995.

    * Professor de Direito Pblico (Administrativo, Tributrio e Processual Civil). Professor UFRN (aposentado). Ex-professor da Universidade Catlica de Pernambuco. Titular da Cadeira n. 1 da Academia Brasileira de Direito Tributrio. Scio Honorrio da Academia Brasileira de Direito Tributrio. Scio Benemrito do Instituto Nacional de Direito Pblico. Conselheiro consultivo do Conselho Nacional das Instituies de Mediao e Arbitragem. Integrante do Grupo Brasileiro da Sociedade Internacional do Direito Penal Militar e Direito Humanitrio. Doutor Honoris Causa pela Universidade Estadual do Rio Grande do Norte. Professor convidado do UNICEUP, Curso de Especializao.

    DELGADO, Jos Augusto. Reflexes sobre o sistema tributrio aplicado ao terceiro setor. Revista Frum de Direito Tributrio - RFDT, Belo Horizonte, ano 3, n. 17, p. 9-38, set./ out. 2005.

  • Reflexes sobre o Sistema Tributrio Aplicado ao Terceiro Setor

    1 - Aspectos conceituais: terceiro setor. origem desenvolvimento

    Os recursos financeiros para o provimento dos servios

    necessrios ao atendimento das necessidades da populao so

    administrados, na poca contempornea, por trs setores que,

    doutrinariamente, so denominados de:

    a) primeiro setor;

    b) segundo setor; e

    c) terceiro setor.

    Esse panorama hoje vivenciado decorre da reconhecida

    fragilidade do Estado de sozinho regular e executar, em benefcio dos seus

    administrados, as polticas sociais previstas na Constituio Federal de

    1988, para que sejam cumpridos os seus postulados, princpios e regras

    voltados para a valorizao da dignidade humana e da cidadania (art. 1,

    incisos II e III).

    O Estado brasileiro, por determinao constitucional, tem por

    objetivo essencial garantir o bem-estar dos seus cidados e fazer

    acontecer os efeitos da justia social. Estas aes so de iniciativa dos

    poderes pblicos e da sociedade. Visam, conseqentemente, assegurar a

    todos o gozo dos direitos relativos sade, previdncia, assistncia

    social, educao, cultura e ao meio ambiente.

    conduta de absoluta obrigatoriedade o determinado do

    Prembulo da Carta Magna de 1988, no sentido de que:

    Ns, representantes do povo brasileiro, reunidos em Assemblia Nacional Constituinte para instituir um Estado democrtico, destinado a assegurar o exerccio dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurana, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justia como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem

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    DELGADO, Jos Augusto. Reflexes sobre o sistema tributrio aplicado ao terceiro setor. Revista Frum de Direito Tributrio - RFDT, Belo Horizonte, ano 3, n. 17, p. 9-38, set./ out. 2005.

  • Reflexes sobre o Sistema Tributrio Aplicado ao Terceiro Setor

    preconceitos, fundada na harmonia social e comprometida, na ordem interna e internacional, com a soluo pacfica das controvrsias, promulgamos, sob a proteo de Deus, a seguinte Constituio da Repblica Federativa do Brasil.

    Os fundamentos da Repblica Federativa do Brasil esto

    postos, de modo muito claro, no art. 1 da Carta Magna, ao dispor:

    A Repblica Federativa do Brasil, formada pela unio indissolvel dos Estados e Municpios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado democrtico de direito e tem como fundamentos:

    I - a soberania;

    II - a cidadania;

    III - a dignidade da pessoa humana;

    IV - os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa;

    V - o pluralismo poltico.

    O artigo 3 da Carta Magna refora os postulados registrados

    no Prembulo e no art. 1 supra mencionado, ao afirmar que os objetivos

    fundamentais da Repblica Federativa do Brasil so:

    I - construir uma sociedade livre, justa e solidria;

    II - garantir o desenvolvimento nacional;

    III - erradicar a pobreza e a marginalizao e reduzir as desigualdades sociais e regionais;

    IV - promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raa, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminao.

    A concretizao dessas aes, todas de iniciativa do poder

    pblico, necessitam de meios financeiros para que possam alcanar o

    planejamento a que se submetem. A sociedade, por outro lado, assume

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    DELGADO, Jos Augusto. Reflexes sobre o sistema tributrio aplicado ao terceiro setor. Revista Frum de Direito Tributrio - RFDT, Belo Horizonte, ano 3, n. 17, p. 9-38, set./ out. 2005.

  • Reflexes sobre o Sistema Tributrio Aplicado ao Terceiro Setor

    responsabilidades para a sua execuo, nos limites das suas

    possibilidades.

    As polticas administrativas adotadas pelo Poder Pblico para o

    cumprimento dos desgnios constitucionais apontados, por no terem, na

    prtica, sido eficazes, proporcionaram uma nova ordem social no s no

    Brasil, como no mundo. Essa nova ordem social formada pela atuao

    dos trs setores j indicados.

    O primeiro setor o administrado pelo Governo. Ele tem sua

    sustentao constitucional vinculada vontade popular a quem cabe, pelo

    voto, escolher os agentes que o desenvolve com laos absolutos aos

    princpios, entre outros, gravados no art. 37, caput, da Constituio

    Federal: legalidade, impessoalidade, publicidade, moralidade e eficincia. ,

    Utiliza, em sntese, dinheiro pblico, arrecadado de tributos e

    outras rendas, para fins pblicos.

    O segundo setor denominado de privado. Este opera no

    mercado protegido pelo princpio da livre iniciativa, tendo o lucro comovo

    seu objetivo fundamental. Integra a ordem econmica e financeira que,

    conforme as regras do art. 170 da Constituio Federal de 1988,

    fundada na valorizao do trabalho humano e na livre iniciativa, tendo

    por fim

    assegurar a todos existncia digna, conforme os ditames da justia social, observados os seguintes princpios:

    I- soberania nacional;

    II - propriedade privada;

    III- funo social da propriedade;

    IV- livre concorrncia;

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    DELGADO, Jos Augusto. Reflexes sobre o sistema tributrio aplicado ao terceiro setor. Revista Frum de Direito Tributrio - RFDT, Belo Horizonte, ano 3, n. 17, p. 9-38, set./ out. 2005.

  • Reflexes sobre o Sistema Tributrio Aplicado ao Terceiro Setor

    V- defesa do consumidor;

    VI- defesa do meio ambiente, inclusive mediante tratamento diferenciado conforme o impacto ambiental dos produtos e servios e de seus processos de elaborao e prestao;

    VII- reduo das desigualdades regionais e sociais;

    VIII- busca do pleno emprego;

    IX - tratamento favorecido para as empresas de pequeno porte constitudas sob as leis brasileiras e que tenham sua sede e

    administrao no Pas.

    A Constituio assegura aos atuantes no setor privado o livre

    exerccio de qualquer atividade econmica, independentemente de

    autorizao de rgo pblicos, salvo nos casos previstos em lei.

    O terceiro setor desenvolvido por instituies com

    preocupaes voltadas para a execuo de prticas sociais, sem fins

    lucrativos, gerando, direta ou indiretamente, bens e servios que se

    assemelham aos prestados pelo Poder Pblico.

    Importa, desde logo, lembrar que, conforme registra Luiz

    Eduardo Soares, ao prefaciar a obra Terceiro Setor: um estudo comparado

    entre Brasil e Estados Unidos, da autoria de Simone de Castro Tavares

    Coelho, So Paulo: Senac, 2001, p. 11, que O Terceiro Setor, no Brasil,

    no uma realidade nova nem pouco importante, ainda que seja precria

    e bastante recente a conscincia que atribui unidade e um sentido

    relativamente homogneo s prticas que as abordagens tradicionais

    identificavam exclusivamente filantropia ou solidariedade cvica.

    O terceiro setor tem sido estudado, em todos os seus

    aspectos, nas ltimas dcadas pela doutrina jurdica. H inmeros

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    DELGADO, Jos Augusto. Reflexes sobre o sistema tributrio aplicado ao terceiro setor. Revista Frum de Direito Tributrio - RFDT, Belo Horizonte, ano 3, n. 17, p. 9-38, set./ out. 2005.

  • Reflexes sobre o Sistema Tributrio Aplicado ao Terceiro Setor

    posicionamentos defendidos e que esto em processo de discusses

    acentuadas para que seja definido um ponto comum a respeito.

    Carlos Montao, em seu livro Terceiro Setor e Questo Social:

    Crtica ao Padro Emergente de Interveno Social (So Paulo: Cortez,

    2002), entende como simples promessas muitos dos programas do

    terceiro setor, errando a doutrina ao no examin-las com maior

    profundidade.

    Leandro Marins de Souza, em Tributao do Terceiro Setor no

    Brasil (So Paulo: Dialtica, 2004, p. 32), citando Carlos Montao,

    conforme acima indicado, registra:

    Delineados por Montao os pressupostos adotados pelos autores do Terceiro Setor para legiti

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