Reflexões acerca do Campo dos Estudos Organizacionais ... ?· 1 Reflexões acerca do Campo dos Estudos…

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1Reflexes acerca do Campo dos Estudos Organizacionais: Perspectivismo Terico e Organizaes como Espaos socialmente construdos Autoria: Fernanda Mitsue Soares Onuma, Juliana Cristina Teixeira, Lilian Barros Moreira Resumo Neste ensaio, discutimos o perspectivismo presente nos Estudos Organizacionais (EORs) apontando para o fato de que o mesmo trata-se de um campo (Bourdieu, 2005), em que pesquisadores disputam o monoplio da competncia cientfica e que as organizaes so espaos construdos (Lefebvre, 2008) a fim da reproduo de relaes sociais produtivas que reforam a diferenciao, caracterstica da modernidade. Portanto, argumentamos que os EORs reiteram o processo de diferenciao e colaboram para a construo de espaos sociais que reforam a fratura social e, sendo assim, no podem ser considerados como um corpo aperspectivista de ideias. 2Introduo Os Estudos Organizacionais (EORs) refletem as crenas e perspectivas de seus autores, de modo que justificar o estudo e divulgao de certas abordagens em funo de sua melhor adequao prtica significa reiterar certos modos de organizao e de se pens-la que reafirmam a diferenciao, entendida enquanto ligada fratura social que reflete a diviso internacional do trabalho (ou seja, a ideia de que existem pessoas aptas a pensarem o trabalho enquanto outras devem apenas execut-lo). Em outras palavras, trata-se de pensamento tautolgico que persuade pesquisadores e praticantes na Administrao a legitimarem modos de pensar e de administrar as organizaes que reforam a diviso internacional do trabalho e, por conseguinte, reafirmam a fratura social entre os que pensam e os que agem nas organizaes. Neste ensaio, buscaremos desmistificar a ideia ilusria de aperspectivismo nos EORs apontando para o fato de que o mesmo trata-se de um campo (Bourdieu, 2005), em que pesquisadores disputam o monoplio da competncia cientfica e que as organizaes so espaos construdos (Lefebvre, 2008) a fim da reproduo de relaes sociais produtivas que reforam a diferenciao. Conforme buscaremos apresentar, as teorias organizacionais, longe de serem aperspectivistas, neutras, so permeadas pelas idiossincrasias de seus autores. De acordo com Guerreiro Ramos (1965), o homem no teoriza antes de agir. Pelo contrrio, o pesquisador um ser no mundo, o que significa que suas aes implicam o mundo em que vive, envolvendo um a priori existencial tenha o cientista conscincia disso ou no. Essa noo ajuda a refletir sobre o texto de Reed (1999, p. 64) que, ao discutir que a Teoria Organizacional um campo historicamente contestado, apresenta que cada teoria organizacional que fora se conformando, ao longo dos tempos, constitui uma prtica social situada em dado contexto histrico, voltado, portanto, para a legitimao dos conhecimentos e projetos polticos referidos ao contexto histrico em questo. Comum a qualquer momento histrico, segundo Reed (1999), seria o fato de que em todas as pocas os EORs foram constitudos por linhas comuns de dilogo e debate que, ao mesmo tempo em que as delimitavam intelectualmente, proporcionavam as bases para que se pudesse julg-las e criar, assim, novas contribuies s linhas anteriores. Essa transformao das linhas de pensamento dos EORs graas ao julgamento e novas contribuies em relao s teorias anteriores se fizeram importantes porque, como observam Marsden e Townley (2001), a teoria organizacional reflete no s a prtica das organizaes como tambm ajuda a formul-la, de modo que de se esperar que, com as mudanas nos contextos sociais e histricos dos pensadores em EORs e as transformaes nas prprias organizaes, ambos, tanto teoria quanto prtica, acabem se (re)configurando ao longo dos tempos. Assim, Marsden e Townley (2001) apresentam tambm o carter indissocivel entre teoria e prtica nos EORs. Portanto, argumentamos que, uma vez que os autores desse campo de pesquisas se colocam em seus textos defendendo seus pontos de vista, os EORs acabam por referendar dentro de seu mainstream, sua corrente terica dominante, os interesses do business (Aktouf, 2004), apoiando certa viso de mundo predominantemente favorvel queles que se encontram na condio de pertencentes classe dominante no sistema de produo capitalista existente na contemporaneidade. Como argumentam Hardy e Clegg (2001), as organizaes modernas (que se referem a modos de organizao que reforam a fratura social e no so assim caracterizadas em razo de termos cronolgicos), foram projetadas para funcionarem tal como organismos unitrios, em que seu design fora desenhado para operar contra ou apesar de nelas existirem composies plurais. Assim, as organizaes, aparentemente unas, harmnicas, assim foram desenhadas justamente para favorecer tal viso, a fim de 3que ela seja compartilhada (e no exposta e discutida de maneira crtica e reflexiva). Isso porque as organizaes so espaos socialmente produzidos com fins de servirem de instrumento para a reproduo das relaes (sociais) de produo, tal como Lefebvre (2008) apresenta. Buscando apresentar os elementos de suporte aos argumentos que apresentamos, construmos este ensaio da seguinte forma: em um primeiro momento, apresentamos uma breve discusso a respeito da noo de modernidade, vista como bero dos Estudos Organizacionais (Clegg, 1998; Reed, 1999) para, ento, apresentar sucintamente que, antes de estruturas unas e naturais, dadas a priori, entendemos as organizaes como espaos construdos (Lefebvre, 2008; Harvey, 1998) para o reforo da diferenciao, que uma das caractersticas da modernidade. Dessa maneira, desejamos suscitar o debate em torno da suposta neutralidade dos EORs e da possibilidade de adoo do aperspectivismo (McKinley, 2003) nas teorias construdas pelos autores que se encontram neste campo. Por meio desse debate, a inteno a questionar tanto a possibilidade de neutralidade na construo das teorias quanto na construo das prprias organizaes em si, ideias que acabam reforadas pela concepo enganosa do aperspectivismo, a fim de convidar os pesquisadores do campo a refletirem a respeito destas questes. Modernidade: o bero dos Estudos Organizacionais Nesta seo, apresentamos brevemente a noo de modernidade e suas influncias aos EORs, baseando-nos nas ideias de Clegg (1998). Consideramos aqui, assim como Clegg (1998), que a modernidade o bero dos EORs. Afinal, se esse campo de estudos foi gerado nesse bero, longe de refletir teorias e prticas neutras e aperspectivistas, ele reflete e refora caractersticas da modernidade, sobretudo, a diferenciao. Consideramos importante a discusso da noo de diferenciao porque esta nos auxiliar a apresentarmos as organizaes modernas, sobretudo, as empresas, como espaos socialmente construdos. Afinal, se os EORs se apoiam no pensamento moderno, os espaos socialmente construdos das empresas reforam a diferenciao moderna (que refora a fratura social). Em outras palavras, enquanto espaos de reproduo das relaes sociais produtivas (Lefebvre, 2008), as empresas modernas acentuam a fratura social, ou seja, a distncia entre comandantes e comandados nessas organizaes. Portanto, os EORs, tendo surgido desse bero que a modernidade, surgem como argumento favorvel ao processo de diferenciao e, sendo assim, como defesa a um ponto de vista favorvel ao processo de diferenciao moderno e no como um corpo aperspectivista de ideias. Clegg (1998) refere-se modernidade como caracterizada por processos de diferenciao (esta ligada diviso internacional do trabalho, entre postos de trabalho e a superviso e controle de sua liberdade de ao) e sua respectiva gesto. Para Clegg (1998), a modernidade seria como o bero da teoria organizacional, a qual teria emergido especialmente a partir dos trabalhos sociolgicos de Max Weber. Nesse sentido, o autor afirma que a teoria das organizaes uma criao da modernidade, sobretudo em funo de sua dvida aos trabalhos de Max Weber. Por que Max Weber? O interesse central da sociologia compreensiva weberiana reside na racionalizao da conduta de vida, tal como se concretizou no Ocidente, inicialmente, para ento se universalizar, possibilitando o desenvolvimento do capitalismo moderno. Em outras palavras, a inteno central da investigao de Max Weber consistia em expor a relao entre a racionalidade religiosamente motivada e a 4atividade econmica racional, traando a histria do surgimento de tal relao (FILIPE, s./d.) Weber (2004) analisou as relaes entre o esprito do capitalismo e a tica (ascese) protestante. O autor demonstrou como elementos culturais ticos e religiosos influenciaram o prprio desenvolvimento do capitalismo, enfatizando aspectos espirituais e culturais interligados ao capitalismo como um fenmeno social. Nessa discusso, o autor destacou, por exemplo, como o ganho de dinheiro foi sendo considerado um objeto em si, um objetivo da vida do homem, e j no como meio de satisfazer suas necessidades (WEBER, 2004, p. 39). Ao tratar da afinidade eletiva entre a tica protestante e o esprito do capitalismo, Filipe (s/d) apresenta que Weber evidenciava que o surgimento do racionalismo econmico no se explica de modo monocausal pela tica protestante, mas antes, como dependente de diversos fatores, dentre os quais, a tcnica e cincia racionalizadas e uma estrutura racional de dominao poltica ou direito racional, mas tambm, pela capacidade e disposio das pessoas em adotarem certos modos de conduta de vida prtico-racionais. O que seria, entretanto, para Weber, o esprito do capitalismo? De acordo com Filipe (s/d), tal esprito se refere no excluso mtua entre a mentalidade econmica racional e o comportamento tico-religioso os quais, em conjunto, conferiram um carter especfico cultura ocidental. A crena protestante, influenciada especialmente pelo Calvinismo uma das mais importantes foras motrizes de tal racionalidade. Nele se encontram as razes espirituais da conduta de vida racional e asctica produzida por longo processo educativo. Nesse sentido, a mentalidade econmica racional ocidental no um fenmeno natural, mas fora produzida. Weber reconhecia que, se por um lado, o sistema econmico capitalista influenciou o desenvolvimento de uma mentalidade que lhe era adequada, por outro lado, esta mentalidade tambm lhe serviu de fora motriz. Entretanto, seria o capitalismo produto direto de tal esprito? Para Weber, no exclusivamente, tanto pelo autor no enxergar monocausalidade em tal processo de surgimento do capitalismo, quanto pelo fato de que o capitalismo j existia anteriormente Reforma Protestante (FILIPE, s./d.). O trabalho de Weber (2004) nos lembra que o esprito do capitalismo j existia antes do capitalismo propriamente dito, no sculo XVII em Massachusetts, contexto do qual ele retira os discursos de Benjamin Franklin que analisa. Filipe (s/d) ressalta a distino entre o capitalismo moderno, o capitalismo empresarial, racional e burgus, que promovia o clculo racional enquanto trao caracterstico da modernidade, da forma do capitalismo primitivo do tradicionalismo econmico, singularizado pelo conforto ou bem-estar dominante que se refletia no estilo de vida tradicional, na maneira de conduo dos negcios e concepo do montante do lucro, quando este no consistia na busca incessante do lucro, restrito a poucos capitalistas aventureiros com mania de ganhos, mas refletia uma conduta de vida em que o habitual se relacionava s limitaes tradicionais rigorosas aos ganhos, at enfatizadas pelo desdm catlico usura. Assim, se compreendemos a modernidade como caracterizada pela diferenciao, esta entendida enquanto ligada fratura social que reflete a diviso internacional do trabalho, torna-se mais evidente a contribuio da noo da conduta de vida moderna em Weber ao entendimento da modernidade, visto que tal conduta, reflexo da relao entre a racionalidade e a religio protestante e seu ethos profissional, pode ser um dos fatores de influncia diferenciao que se observa nas organizaes contemporneas, sobretudo nas empresas. Clegg (1998, p. 4) explica que as organizaes, retratadas no pensamento de Weber enquanto tipo ideal de burocracia constituiriam representaes modernistas de prticas modernistas arqutipas. 5 A organizao , segundo Clegg (1998), a forma caracterstica de nossa condio moderna, nem sempre encarada como algo benfico e vantajoso, mas podendo ser vista como algo repressivo e constrangedor. Embora haja discusses a respeito de que se estaria vivenciando uma poca de ps-modernidade, Clegg (1998) afirma no haver clareza quanto superao da modernidade. Debates recentes tm tratado que a modernidade no se trata de processo infinito, conferindo, assim, foco ps-modernidade, entendida enquanto o perodo posterior modernidade. Contudo, Clegg (1998) questiona em certo ponto o fim da modernidade, at por apontar a ps-modernidade enquanto possibilidade e no constatao. A ps-modernidade, segundo Clegg (1998), estaria caracterizada pela inverso de tendncias da modernidade. As prticas presentes nos contextos internacionais, entre os quais o autor cita as organizaes empresariais do Japo e da Sucia, contudo, apontariam para uma tendncia de superao dos limites de conhecimento atribudos modernidade, por indicarem um decrscimo na diferenciao, ou a desdiferenciao, como denomina, que se trata da caracterstica principal que atribui ps-modernidade. Para Vieira e Caldas (2006), autores como Habermas, Giddens e Bauman negam que o ps-modernismo tenha alcanado uma ruptura com o modernismo, entendendo a ps-modernidade como um estgio mais recente existente dentro do modernismo. Pensando a respeito da noo de modernidade, concordamos com a viso de Vieira e Caldas (2006) de que o ps-modernismo teria um carter conservador, de preservao do status quo ao considerar que, uma vez substituda a fratura social modernista pela ruptura com esta, ento, nada mais parece necessitar ser feito. Como Vieira e Caldas (2006, p. 67) apresentam, em um mundo crescentemente conflituoso, abundante em iniquidades e em misria, a postura ps-modernista radical de questionar o projeto e as potencialidades da crtica e da autonomia humana parece, no mnimo, de difcil aceitao. Harvey (1998) considera o fato mais espantoso em relao ao ps-modernismo a sua aceitao do fragmentrio, do catico, do efmero e do descontnuo, tomados como existentes, dados, sem que se busque transcend-los ou fazer-lhes oposio. O ps-modernismo, como apresenta Harvey (1998), faz com que no seja mais possvel a concepo do sujeito alienado como no pensamento de Marx, uma vez que o ser alienado pressupe um sentido de eu coerente e no fragmentado do qual se alienar, que deixa de existir no ps-modernismo, para o qual no se pode aspirar a uma representao unificada no mundo mesmo como totalidade repleta de diferenciaes e conexes. No ps-modernismo, segundo Harvey (1998), como toda representao e ao coerentes so ilusrias ou repressivas, no h abertura para se pensar em algum projeto global. O ps-modernismo descarta a possibilidade de se pensar em um mundo melhor, ao centrar-se na esquizofrenia induzida pela fragmentao e fluidez que nos impedem de pensar de modo coerente e, assim, elaborar estratgias para a produo de um futuro radicalmente diferente. J o modernismo, mesmo que caindo em frustrao perptua que pode conduzir paranoia, sempre se dedicou busca de futuros melhores (HARVEY, 1998). Nesse sentido, observa-se na modernidade, apesar do pessimismo weberiano expresso na gaiola de ferro da racionalidade instrumental, uma busca por um futuro melhor, como Filipe (s/d) sugere. Assim, a diferenciao e no a busca por um futuro melhor foi a caracterstica moderna que acabou por prevalecer nos EORs e os argumentos ps-modernos, ainda que se proponham a superar essas questes, podem ser questionados at pela crtica de autores como Harvey (1998) e Vieira e Caldas (2006) acerca da incapacidade do ps-modernismo em superar o status quo. Como Clegg (1998) observa, se a modernidade caracterizada por processos de diferenciao e pela gesto desta, a ps-modernidade encarada como aquilo que surge 6aps a modernidade, caracterizando-se pela desdiferenciao. Se na modernidade, a gesto se baseou em esquemas e prticas com vistas ao gerenciamento do processo-chave de diferenciao, o ps-modernismo, com a sua desdiferenciao citada anteriormente, pela qual a fratura social, enxergada de maneira superficial deixa de ser evidenciada com clareza, implica, no mnimo, no desmoronamento dos alicerces da gesto moderna, enraizados nas formas de diviso do trabalho existentes. Desse modo, ainda que o ps-modernismo se proponha como contraponto, observa-se que os EORs seguem articulados s suas origens modernas, sobretudo, ancorado no processo de diferenciao, caracterstico da modernidade. Aps discutirmos a noo da modernidade que imprime sua marca aos EORs, apresentamos que, apesar de neste prevalecerem estudos que reforam o processo de diferenciao moderno, existem outras vozes a ecoarem nos EORs. Assim, antes de ser uma rea unificada de pensamento cientfico, os EORs so um campo, dado o embate de ideias divergentes que apresenta. Os Estudos Organizacionais como um campo: contraponto possibilidade de aperspectivismo nos constructos tericos A inteno nesta seo a de contrapor a ideia dos EORs enquanto uma rea consolidada, una, para apresent-los como um campo, ou seja, um espao de disputas. Consideramos essa discusso importante para a compreenso da ideia que expomos a seguir a respeito das organizaes construdas como espaos que reforam a diferenciao que caracteriza a modernidade. Isso porque, uma vez entendido o campo dos EORs enquanto construdo por debates, disputas entre vozes concorrentes e no como dotado de discurso nico, fica mais fcil compreender, que a modernidade permeia os Estudos Organizacionais e as prprias organizaes, pela impossibilidade de ciso entre teoria e prtica. Tal dissociao ilusria entre teoria e prtica pode estar relacionada a uma predominncia positivista entre as abordagens que os agentesi do campo dos Estudos Organizacionais defendem. Marsden e Townley (2001) comentam que dentre os anos de 1950 e 1960, a cincia se tornou juza da verdade e, por sua vez, o positivismo se tornou juiz da cincia. Tal preocupao em relao cientificidade calcada no positivismo se mostrou nos trabalhos de Parsons e nos estudos de Aston, que realizaram releituras equivocadas sobre o trabalho de Weber e que acabaram por influenciar os EORs (BURREL, 1999; MARSDEN e TOWNLEY, 2001). Reed (1999) apresenta, todavia, que nem sempre o modelo racional calcado em tal influncia teve domnio na Teoria Organizacional e que este sempre fora contestado por linhas alternativas. Ora, se existe contestao como Reed (1999) apresenta, no h razo para se pensar nos EORs enquanto uma rea consolidada, mas sim, como um campo, em que agentes defendem narrativas analticas distintas. Para melhor compreenso da noo dos Estudos Organizacionais enquanto um campo, trazemos uma breve explanao aqui a respeito do conceito de campo, que coloca em dvida a ideia de que os pesquisadores nos EORs possam pensar e defender suas ideias de maneira racionalmente perfeita e desinteressada. Fachin e Rodrigues (1999) apresentam que a existncia de uma pluralidade de vozes nos EORs pode estar relacionada a vaidades que foram transformadas em propostas tericas na busca de conquista de notoriedade e de adeptos dentro do campo. Trata-se de um conceito complexo que no pode ser entendido dissociado dos conceitos de habitusii e capital. No a inteno aqui apresentar uma explicao completa e acabada desses conceitos, mas apenas exp-los de maneira sucinta para fins de contribuir para a compreenso dos EORs vistos como campo. A distribuio do 7capital ao longo do campo constitui a prpria estrutura do campo e confere poder ao longo deste (BOURDIEU e WACQUANT, 1992). De acordo com Bourdieu e Wacquant (1992, p. 99), as estratgias de dado jogador e tudo aquilo que define o seu jogo so funes no s do volume e estrutura de seu capital no momento em considerao e suas chances de jogo, mas tambm da evoluo ao longo do tempo do volume e estrutura de seu capital, sua trajetria e suas disposies ou habitus constitudo na relao prolongada para uma distribuio definitiva de chances objetivas. Pela noo de habitus pode-se pensar ainda que no s os agentes podem defender narrativas analticas distintas como podem mudar suas inclinaes a esse respeito ao longo de suas trajetrias acadmicas. Como os volumes e a estrutura do capital variam entre os jogadores do campo, pode acontecer, como sugerem Bourdieu e Wacquant (1992), que dois jogadores com o mesmo volume total de capital no campo difiram entre si em termos de estrutura de capital, em outras palavras, enquanto em volume total os dois se igualem, um pode ter muito capital social e pouco capital cultural e o outro, pouco capital social e muito capital cultural, por exemplo. Para Bourdieu (2005), os agentes no campo no so nem indivduos isolados, mnadas como pode sugerir a viso interacionista, nem so produtos de um determinismo exacerbado. Para esse autor, a essas vises preciso propor uma viso estrutural que considere os efeitos de campo, ou seja, as presses que so exercidas por meio da estrutura do campo de modo contnuo, restringindo suas possibilidades de ao quanto mais mal alocada forem em tal distribuio. Assim, a compreenso do conceito de campo, entendido como indissocivel das noes de habitus e capital em Bourdieu (2005), pode ajudar na compreenso dos EORs enquanto um campo, em que os agentes, os pesquisadores, so dotados de habitus e de capital que se relacionam sua posio no campo. Essa discusso brevemente exposta talvez fique mais clara na definio de Bourdieu (1983, p. 122-123) a respeito do campo cientfico: O campo cientfico, enquanto sistema de relaes objetivas entre posies adquiridas (em lutas anteriores) o lugar, o espao de jogo de uma luta concorrencial. O que est em jogo especificamente nessa luta o monoplio da autoridade cientfica definida, de maneira inseparvel, como capacidade tcnica e poder social, ou, se quisermos, o monoplio da competncia cientfica, compreendida enquanto capacidade de falar e agir legitimamente (isto , de maneira autorizada e com autoridade), que socialmente outorgada a um agente determinado. Em outras palavras, grosso modo, os EORs so como um campo em que se disputa o monoplio da autoridade cientfica ou da competncia cientfica. Como a teoria organizacional foi se moldando considerando a mentalidade de poca e o lugar de origem de cada autor, a teoria organizacional acabou abrangendo diferentes escolas de pensamento, cada qual com linguagem e discursos prprios, conformando-se em uma mistura continental com notas do eurocentrismo e das ideias de origem anglo-saxnica, predominantemente (BURRELL, 1999). O resultado disso foi a conformao de um campo da Teoria Organizacional, cujas caractersticas divergem entre os autores. Para Marsden e Townley (2001), ela se configura como uma teoria da gesto, que, por tal natureza, se enfoca em quem gerencia e pouco aborda sobre os geridos, uma vez que a organizao encarada como uma abstrao das pessoas e das relaes que estas estabelecem entre si. Tanto Marsden e Townley (2001) quanto Reed (1999) concordam que a ciso entre cincia normal e contra-normal ope um retorno ao conservadorismo a um relativismo cientfico, este ltimo representado pela diversidade de perspectivas paradigmticas da cincia contra-normal. Porm, os autores divergem quanto s suas 8ponderaes acerca do fato. Enquanto para Reed (1999) seria necessria a realizao de uma mediao entre as abordagens, uma vez que as teorizaes so sempre seletivas, parciais, de modo que o embate entre narrativas rivais salutar para a renovao nos estudos organizacionais, para Marsden e Townley (2001) existe a incomensurabilidade paradigmtica entre tais vertentes, de forma que, mais til e produtivo que tentar confront-las seria admitir que ambas representam as duas faces da Teoria Organizacional. Burrell (1999) concorda que, felizmente, haver sempre oposio entre ideias nos estudos organizacionais. Este autor difere dos demais, entretanto, ao afirmar que no considera a cincia normal da Teoria Organizacional como marcada pelo positivismo. Para Burrell (1999), o estado normal dos estudos organizacionais se baseia na pluralidade. Outros autores, entretanto, enxergam a pluralidade de vozes no campo dos Estudos Organizacionais como problemtica. Mckelvey (2003) reconhece que os Estudos Organizacionais so um campo, mas que deveriam se conformar enquanto cincia e, para isso, a pluralidade de vozes no campo um empecilho. Para McKelvey (2003), o que incomoda os pesquisadores alinhados cincia normal, positivista, que domina os Estudos Organizacionais seria no a contraposio de ideias, mas o enfraquecimento dos Estudos Organizacionais que se tornariam frgeis com a multiplicidade de vises contrrias dotadas de valor de verdade questionvel, afastando-se, desse modo, de tornar-se uma cincia. A fim de que seja possvel a transio de campo cincia, McKelvey (2003) sugere a convergncia ontolgica e epistemolgica nos EORs, uma vez que considera que a ontologia ps-modernista e a epistemologia ps-positivista seriam as corretas para esse campo, combinando ortodoxia e relativismo. Para McKelvey (2003, p. 63), quanto mais monoparadigmtica (e mais cientfica) as disciplinas se tornam, mais pr-cientficos os Estudos Organizacionais se tornam. Para a superao do multiparadigmatismo, McKelvey (2003) sugere a ateno proposio de soluo a problemas concretos definidos pela prtica. Os Estudos Organizacionais carecem, segundo McKelvey (2003), de legitimidade tanto junto comunidade cientfica ampliada, quanto junto aos que praticam a Administrao em seu cotidiano, de modo que as Escolas capazes de oferecerem modelos de valor aos usurios da Administrao acabariam por prevalecer. Parece-nos que McKelvey (2003) ignora, contudo, que como Marsden e Townley (2001) apresentam, teoria e prtica so indissociveis. Assim, justificar a prevalncia de dadas Escolas em funo da adequao de seus modelos s prticas das empresas significa reiterar prticas e teorias do mainstream: afinal, as organizaes no existem sem um embasamento terico anterior o qual retroalimentam em suas prticas. E, ao fazerem, as organizaes heterogestionrias, predominantes no mainstream, e as teorias que a estas se articulam pela sua constituio recproca acabam por reforar o processo-chave de diferenciao da modernidade. McKinley (2003) corrobora para a viso do multiparadigmatismo nos Estudos Organizacionais como problemtico ao argumentar que este carece de maior objetividade. O autor distingue dois tipos de objetividade: a objetividade ontolgica ou absoluta, relativa busca da estrutura mxima da realidade e a objetividade aperspectiva, que tem por objetivo suprimir as idiossincrasias dos grupos ou indivduos. Nessa viso, esta ltima deveria ser o tipo de objetividade perseguida dentro dos EORs por meio da convergncia dos pesquisadores do campo em relao a uma definio padronizada de constructos. Pela inexistncia de definio nica para determinados constructos nos EORs, McKelvey (2003) afirma que a objetividade no campo se torna frgil. O ideal, segundo o autor, seria a busca por uma objetividade aperspectivista pela via democrtica, com os pesquisadores convergindo a definies nicas para cada constructo. Os constructos, por 9sua vez, servem, segundo o autor, para simplificar a realidade e capturar elementos comuns compartilhados por um conjunto de diversas observaes. Seriam, portanto, abstraes da realidade, que tm esta por base, mas no a incorporam literalmente (BABBIE, 1995 apud McKELVEY, 2003, p. 143). Por meio da convergncia de definies nicas dos constructos, seria possvel, de acordo com McKelvey (2003), a construo de um dicionrio de constructos, visando a uma padronizao nos significados destes que, alm de garantir o alcance de ordem cognitiva e a reduo de incerteza, conferiria maior objetividade aos EORs. Consideramos a ideia de McKelvey (2003) um retrocesso ao se pensar a teoria organizacional como neutra e aperspectivista. Como se guiar por um dicionrio de constructos previamente definidos que no considerem seus contextos sociohistricos de aplicao e, sobretudo, que os conceitos funcionam como processos discursivos que defendem, sim, pontos de vista e posicionamentos polticos e ideolgicos? A ideia de uma teoria padronizada se contrape a todo um esforo que vem sendo empreendido por vrios pesquisadores dos EORs para relativizar as teorias, como aqueles que se dedicam, por exemplo, a uma viso ps-estruturalista de pesquisa (Alcadipani; Tureta, 2009; Carrieri, 2012; Souza; Bianco, 2011; Souza; Carrieri, 2010; Souza, Petinelli-Souza; Silva, 2013), a qual desconsidera o estabelecimento de verdades absolutas e universalmente vlidas para se pensar a gesto. A viso de McKelvey (2003) nos remete a uma caracterstica do estruturalismo e tambm do pensamento moderno, j que, para Souza e Bianco (2011, p. 398), h um trao no estruturalismo que o mantm com resqucio moderno: a busca de leis universais de funcionamento. Contrapondo-se a essa ideia, Keleman e Hassard (2003) consideram o pluralismo de abordagens, perspectivas e conceitos no como algo problemtico, mas sim benfico ao campo. Os Estudos Organizacionais encarados em sua pluralidade, enquanto campo multiparadigmtico, apresentariam, na concepo de Keleman e Hassard (2003), vantagens que superam suas limitaes, pois se passaria a oferecer grande contribuio ao se conceder voz a diversas realidades e epistemologias que poderiam promover maior dilogo e crescimento dos estudos no campo. No caso brasileiro, Fachin e Rodrigues (1999) ressaltam que, desde 1995, os estudos com abordagem crtica so to frequentes quanto os de perspectiva mais pragmtica. O campo dos EORs, segundo os referidos autores, estaria dividido por contradies entre os que acreditam que os modelos estrangeiros no possuem utilidade no contexto brasileiro e aqueles que confiam inteiramente na literatura estrangeira e pensam que h muitas inovaes geradas no Brasil. Fachin e Rodrigues (1999) sugerem a existncia de dois desafios, no caso brasileiro, para a renovao dos EORs. O primeiro se encontra no fato de que os autores brasileiros parecem no se preocupar com a elaborao terica a partir de trabalhos anteriores; j o segundo, se relaciona questo de que os pesquisadores brasileiros no costumam criticar os trabalhos de seus pares. Assim, haveria, para os autores, a necessidade de uma comunidade mais efetiva de estudiosos no campo, o que dificultado tanto pela fragmentao das disciplinas de estudo quanto pelas debilidades existentes na estruturao geral dos EORs. O resultado seria o da fragilidade e instabilidade das instituies e a falta de apoio e recursos nas universidades para o desenvolvimento de pesquisas. Conforme buscamos apresentar sucintamente nesta seo, h disputas no campo dos Estudos Organizacionais, da consider-lo enquanto campo e no como rea consolidada, em que no h dissonncias. No que estas sejam problemticas, em minha opinio, como McKinley (2003) e McKelvey (2003) o entendem. Tendo a concordar com Keleman e Hassard (2003) a respeito do potencial de contribuio ao campo da pluralidade de abordagens. 10 Nossaa inteno aqui convidar o leitor reflexo de que justamente por estas disputas existirem, os Estudos Organizacionais so um campo, ou seja, a produo terica dos pesquisadores que o constituem, antes de desinteressadas e neutras referem-se s suas vises de mundo, que podem estar relacionadas com sua posio no campo, composio de capital e disposies ou habitus. Ou seja, as teorias no partiram do nada, no so aperspectivistas, mas sim, carregam as idiossincrasias de seus autores, quer estes o admitam ou no. E como teoria e prtica se constituem de forma recproca, as organizaes no s refletem teorias como as produzem. Da a importncia de se discutir tambm a construo das organizaes, como faremos a seguir. Organizaes: espaos construdos para reforo da diferenciao da modernidade As organizaes no so estruturas estticas, existentes tal como se nos apresentam de maneira natural. Entretanto, como a organizao passou a ser vista como forma de resolver conflitos entre as necessidades coletivas e as individuais que, desde a Grcia Antiga, impediam o progresso social, se tornou um meio de controle social para a imposio da ordem, da estrutura e da uniformizao da sociedade (WOLIN, 1961 apud REED, 1999). Uma das implicaes disso que as organizaes, enquanto objetos de estudo nos EORs, passaram a serem vistas enquanto estticas, estveis, como Burrell (1999) observa. Para Burrell (1999), uma vez encaradas como estticas, as organizaes seriam estagnadas com maior facilidade pelos conceitos, os quais mais que classificavam e marcavam profundamente a prtica das organizaes e os EORs em si, mas acabavam ferindo-os e transformando as estruturas de pensamento em elementos secundrios. Teoria e prtica, portanto, no so separveis, mas reflexos umas das outras, tal como Marsden e Townley (2001) apresentam ao afirmarem que a teorizao uma prtica em si mesma e que a prtica, por sua vez, operacionaliza uma teorizao, por mais inocente que aparente ser. Os espaos sociais, como Duarte (2001, p. 78) observa, no so sujeitos nem receptculos vazios, despidos de contedo social, de sujeitos, vontades e diferenas. No existe sociedade sem morfologia espacial de modo que o espao, enquanto estrutura de uma cotidianidade administrada possui papel essencial na reproduo social. Lefebvre (2008) compreende o espao como a objetivao do social e, por conseguinte, do mental. Trata-se, segundo o autor, de um instrumento para a reproduo das relaes (sociais) de produo. Lefebvre (2008) aponta que h trs elementos que, embora unidos na sociedade em ato, so apresentados como separados, a saber: o capital e lucro da burguesia, a propriedade do solo, com suas rendas mltiplas (advindas, por exemplo, da gua, do subsolo, do solo edificado) e o trabalho assalariado da classe operria. Tal separao, de acordo com Lefebvre (2008), ilusria, visto que os trs elementos se articulam formando uma unidade. Entretanto, a separao objetiva faz com que cada grupo parea receber certa parte do rendimento global da sociedade. Tal ciso verdadeira e falsa, concomitantemente, uma vez que os elementos separados aparecem como fontes distintas da produo e da riqueza, mas apenas a ao comum produz tal riqueza. Assim, a ciso entre capital e lucro da burguesia, da propriedade do solo e do trabalho operrio na objetivao do social expressa no espao social faz com que as organizaes (como as fbricas, os escritrios) sejam representaes do espao, intimamente ligados s relaes (sociais) de produo que acabam, por conseguinte, reforando o processo de diferenciao da modernidade (LEFEBVRE, 1991; MERRIFIELD, 2000). 11 Colaborando para esta viso, segundo Harvey (1998), diferentes sociedades ou subgrupos podem ter concepes distintas quanto ao tempo e o espao. No existiria, para esse autor, sentido nico e objetivo de tempo e espao que sirva de base para que se possa medir a diversidade de concepes e percepes humanas. Pelo contrrio, Harvey (1998) apresenta que se faz necessrio o reconhecimento da multiplicidade das qualidades objetivas que o espao e o tempo podem exprimir e o papel das prticas humanas na construo destes. Partindo tambm de uma perspectiva materialista, Harvey (1998) entende que nem o tempo nem o espao podem ter significados objetivos a eles atribudos sem que sejam considerados os processos materiais. Apenas pela investigao desses processos, os quais servem reproduo da vida social, torna-se possvel fundamentar de maneira adequada os nossos conceitos de tempo e espao. Desse modo, Harvey (1998) considera que a objetividade do tempo e do espao advm de prticas materiais de reproduo social e, na medida em que estas podem variar geogrfica e historicamente, verifica-se que o tempo social e o espao social so construdos diferencialmente. Desse modo, o autor considera que cada forma distinta de produo ou formao social incorpora um conjunto especfico de prticas e conceitos de tempo e de espao. Como o capitalismo segue enquanto um modo de produo revolucionrio em que as prticas e processos materiais de reproduo social se encontram em transformao constante, tanto as qualidades objetivas quanto os significados do tempo e do espao tambm se modificam (HARVEY, 1998). Em contraponto, como o avano do conhecimento (seja este de carter cientfico, tcnico, administrativo, burocrtico e racional) vital para o progresso da produo e do consumo capitalistas, as mudanas do nosso aparato conceitual (incluindo as representaes do tempo e do espao) podem ter consequncias materiais para a vida das pessoas. Entretanto, no significa que as prticas sejam determinadas pela forma construda (por mais que para isso se esforcem seus planejadores), uma vez que as prticas tendem a escapar a qualquer esquema fixo de representao. Assim, Harvey (1998) afirma ainda que podem ser encontrados novos sentidos para materializaes mais antigas do espao e do tempo. Todavia, como o controle do espao social garante o exerccio do poder, de um lugar do prprio (CERTEAU, 1998), interessante que as organizaes sejam concebidas enquanto representaes do espao. As representaes do espao so o espao dominante na sociedade porque esto articuladas intimamente s relaes de poder e ordem que tais relaes impem (LEFEBVRE, 1991; MERRIFIELD, 2000). Como Harvey (1998, p. 212) observa: O incentivo criao de um mercado mundial, para a reduo de barreiras espaciais e para a aniquilao do espao atravs do tempo, onipresente, tal como o incentivo para racionalizar a organizao espacial em configuraes de produo eficientes (organizao serial da diviso detalhada do trabalho, linhas de montagem, diviso territorial do trabalho e aglomerao dos trabalhadores nas cidades), redes de circulao (sistemas de transporte e de comunicao) e de consumo (formas de uso e manuteno de residncias, organizao comunitria, diferenciao residencial, consumo coletivo nas cidades). Desse modo, as transformaes no espao e no tempo colaboram para a redistribuio do poder social medida que modificam as condies de ganhos em termos monetrios. Assim, a capacidade de influenciar a produo de espao um meio extraordinrio para se alcanar um aumento de poder social. Ou seja, em termos materiais, aqueles com capacidade de afetar a distribuio espacial de investimentos em transportes e comunicaes e em infraestruturas fsicas e sociais, ou a distribuio territorial de foras administrativas, polticas e econmicas, pode obter, por vezes, maior facilidade no alcance de retornos materiais (HARVEY, 1998). 12 O espao , portanto, ativamente produzido como parte das estratgias capitalistas de acumulao de capital (MERRIFIELD, 2000). Portanto, no h um espao existente a priori, dado. Como Lefebvre (2008, p. 38) apresenta, em sua perspectiva da produo social do espao, a relao da teoria com a prtica no a de uma abstrao transcendente a uma imediatidade ou a um concreto anterior. A abstrao terica j est no concreto. preciso a revel-la. No seio do espao percebido e concebido j se encontra o espao terico e a teoria do espao. As organizaes, enquanto espaos sociais produzidos com vistas reproduo das relaes (sociais) de produo (Lefebvre, 1991) relacionam-se, portanto, s teorias relativas a estas construdas dentro do campo dos EORs com vistas ao reforo do processo de diferenciao, como Clegg (1998) sugere. O exerccio da chefia, nas organizaes heterogestionrias, que correspondem grande maioria das empresas, embora esteja articulado questo da competncia tcnica dos dirigentes, em verdade, se presta manuteno do existente (TRAGTENBERG, 2005). Portanto, defender as empresas, no molde heterogestionrio capitalista enquanto a nica forma de organizao eficiente e eficaz para a organizao do trabalho reiterar formas de se pensar e de se organizar a produo que reafirmam o processo de diferenciao moderno, mantendo o status quo e dificultando transformaes radicais futuras. Tratar teoria e prtica de maneira dicotmica se presta, ento, a reforar, dentro do campo dos EORs o no questionamento das origens e imbricaes entre a teoria e a prtica nas organizaes, recaindo-se em um pensamento tautolgico: as organizaes existentes so a melhor e nica forma de se organizar a produo e as teorias dominantes assim o so porque melhor refletem as prticas organizacionais, ignorando-se, desta forma, a inseparabilidade entre teoria e prtica. Trata-se, portanto, de rejeitar um pensamento binrio (SOUZA; CARRIERI, 2010) para os EORs, entendendo que a teoria tambm prtica, e que a prtica tambm teoria, no havendo uma unicidade em nenhuma dessas duas categorias, e nem uma relao opositiva e dialtica entre ambas, apesar dos esforos hegemonicamente empreendidos para essa dicotomizao. Consideraes Finais Conforme Bourdieu e Wacquant (2008, p. 341) alertam, As aparncias sempre esto a favor do aparente. E ns, pesquisadores do campo de Estudos Organizacionais, por vezes, aceitamos esta aparncia como um dado emprico, indiscutvel, ignorando o fato de que as organizaes so espaos sociais construdos para reforar a aparncia da inexistncia da fratura social que caracteriza a modernidade. Como Harvey (1998, p. 218) apresenta, As prticas temporais e espaciais nunca so neutras nos assuntos sociais; elas sempre exprimem algum tipo de contedo de classe ou outro contedo social, sendo muitas vezes o foco de uma intensa luta social. Assim, as organizaes, aparentemente unas, harmnicas, so espaos que foram construdos justamente para favorecer tal viso, a fim de que esta seja compartilhada (e no exposta e discutida). Elas no existem a priori, no so dadas de modo natural: antes, envolvem uma teorizao com a qual se relacionam reciprocamente. Bertero (1999) afirmou que a teoria organizacional normal, prevalecente, muito mais uma teoria voltada queles que gerem que aos geridos. Assim, a teoria hegemnica nos Estudos Organizacionais, que mantm uma relao mtua de influncia com a prtica organizacional, apresenta forte influncia do pensamento moderno, o qual reafirma o processo de diferenciao, aumentando a fratura social que separa os que pensam daqueles que executam o trabalho. A inteno deste ensaio foi contribuir para a reflexo dos agentes do campo dos Estudos Organizacionais a respeito do perspectivismo das teorias engendradas no 13campo e da interao recproca entre estas e as prticas organizacionais. Assim, quem sabe, ns, agentes desse campo, deixemos de pensar as organizaes enquanto naturais e as teorias do campo como neutras e possamos nos perguntar a que processos favorecemos com nossa prpria produo acadmica. A contribuio especfica deste ensaio est sobretudo na maneira pela qual se prope essa reflexo, acionando temticas que, combinadas, podem trazer novos elementos de debate: a relao entre a teoria e a prtica; os Estudos Organizacionais entendidos como um campo; a modernidade e a diferenciao como sua caracterstica; e as organizaes como espaos construdos. Pudemos analisar como teorias sociais que esto, em muitos casos, dispersas nos estudos organizacionais podem, juntas, contribuir para a desmistificao de noes tradicionais desse campo de pesquisas, ao acionar autores como Bourdieu (1983; 2005), Clegg (1998) e Lefebvre (1991; 2008). Na articulao dessas noes, pudemos reforar que no h dissociao entre teoria e prtica e que as organizaes no so fenmenos naturais, mas socialmente construdos e que invocam tambm, em relao s pesquisas que as tm como objeto de estudo, a construo de um campo, um espao de disputas que constituem os Estudos Organizacionais. Buscamos argumentar, portanto, que considerar os EORs como aperspectivista se presta, portanto, a legitimar um corpo de ideias que se prope a defender argumentos favorveis manuteno das organizaes como espaos sociais que reforam a fratura social, buscando minar a crtica ao status quo. Referncias Bibliogrficas AKTOUF, Omar. Ps-globalizao, administrao e racionalidade econmica: a sndrome do avestruz. So Paulo: Atlas, 2004. 297p. ALCADIPANI, R.; TURETA, C. Perspectivas crticas no Brasil: entre a verdadeira crtica e o dia a dia. Cadernos Ebape.BR, v. 7, n 3, artigo 7, Rio de Janeiro, Set. 2009. BERTERO, Carlos Osmar. Nota tcnica: a coruja de Minerva reflexes sobre a teoria na prtica. In: CLEGG, Stewart; HARDY, Cynthia; NORD, Walter. Handbook de estudos organizacionais. Volume 2. So Paulo Atlas, 1999. BOURDIEU, Pierre. O campo cientfico. In: ORTIZ, Renato (Org.). Pierre Bourdieu: sociologia. So Paulo: tica, 1983. p. 122-155. BOURDIEU, Pierre; WACQUANT, L. J. D. 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Para Bourdieu, os indivduos no so livres e nem determinados, so agentes sociais na medida em que, dotados de habitus, pensam e agem dentro de estreita liberdade, que dada pela lgica do campo e da situao que nele ocupa (BOURDIEU, 1996). ii Os habitus so os princpios geradores de prticas distintas como, por exemplo, o que o trabalhador come e, sobretudo, sua maneira de comer, o esporte que pratica e sua maneira de pratic-lo, e assim por diante (BOURDIEU, 1996). So disposies, gestos, modos de perceber, de sentir, pensamentos, formas de estar, de fazer, que os indivduos incorporam de tal forma que j no tm conscincia. O habitus acaba constituindo a forma com que o indivduo percebe, julga e valoriza o mundo. Vale ressaltar que suas disposies no so mecnicas e nem mesmo determinsticas, so plsticas e flexveis, podendo ser fortes ou fracas (THIRY-CHERQUES, 2006). /ColorImageDict > /JPEG2000ColorACSImageDict > /JPEG2000ColorImageDict > /AntiAliasGrayImages false /CropGrayImages true /GrayImageMinResolution 300 /GrayImageMinResolutionPolicy /OK /DownsampleGrayImages true /GrayImageDownsampleType /Bicubic /GrayImageResolution 300 /GrayImageDepth -1 /GrayImageMinDownsampleDepth 2 /GrayImageDownsampleThreshold 1.50000 /EncodeGrayImages true /GrayImageFilter /DCTEncode /AutoFilterGrayImages true /GrayImageAutoFilterStrategy /JPEG /GrayACSImageDict > /GrayImageDict > /JPEG2000GrayACSImageDict > /JPEG2000GrayImageDict > /AntiAliasMonoImages false /CropMonoImages true /MonoImageMinResolution 1200 /MonoImageMinResolutionPolicy /OK /DownsampleMonoImages true /MonoImageDownsampleType /Bicubic /MonoImageResolution 1200 /MonoImageDepth -1 /MonoImageDownsampleThreshold 1.50000 /EncodeMonoImages true /MonoImageFilter /CCITTFaxEncode /MonoImageDict > /AllowPSXObjects false /CheckCompliance [ /None ] /PDFX1aCheck false /PDFX3Check false /PDFXCompliantPDFOnly false /PDFXNoTrimBoxError true /PDFXTrimBoxToMediaBoxOffset [ 0.00000 0.00000 0.00000 0.00000 ] /PDFXSetBleedBoxToMediaBox true /PDFXBleedBoxToTrimBoxOffset [ 0.00000 0.00000 0.00000 0.00000 ] /PDFXOutputIntentProfile () /PDFXOutputConditionIdentifier () /PDFXOutputCondition () /PDFXRegistryName () /PDFXTrapped /False /CreateJDFFile false /Description > /Namespace [ (Adobe) (Common) (1.0) ] /OtherNamespaces [ > /FormElements false /GenerateStructure false /IncludeBookmarks false /IncludeHyperlinks false /IncludeInteractive false /IncludeLayers false /IncludeProfiles false /MultimediaHandling /UseObjectSettings /Namespace [ (Adobe) (CreativeSuite) (2.0) ] /PDFXOutputIntentProfileSelector /DocumentCMYK /PreserveEditing true /UntaggedCMYKHandling /LeaveUntagged /UntaggedRGBHandling /UseDocumentProfile /UseDocumentBleed false >> ]>> setdistillerparams> setpagedevice

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