rede multiétnica de salvaguarda - thydÊwÁ – a thydÊwÁ realiza campanhas de ...·...

Download Rede Multiétnica de Salvaguarda - THYDÊWÁ – A THYDÊWÁ realiza campanhas de ...· 2016-05-11 ·

Post on 04-Dec-2018

212 views

Category:

Documents

0 download

Embed Size (px)

TRANSCRIPT

  • DOSSI | maro de 2016

    Rede Multitnica de Salvaguarda TCNICA DE SALVAGUARDA DE PATRIMNIO IMATERIAL

  • PGINA 1

    Estamos falando de uma viso de seres humanos como seres culturais,

    para os quais vital a habilidade de criar, de se expressar, de transmitir

    patrimnios s futuras geraes, to importante quanto o ar que

    respiramos e o alimento que nos nutre.

    Discurso de Irina Bokova, Diretora-geral da UNESCO,

    por ocasio do Seminrio Internacional Cultura e Desenvolvimento

    Rio de Janeiro, 21 de setembro de 2015

    Rede Multitnica de Salvaguarda TCNICA DE SALVAGUARDA DE PATRIMNIO IMATERIAL

  • PGINA 2

    Este dossi pretende apresentar uma experincia relacionada s prticas em

    rede multitnica para salvaguardar patrimnios imateriais de alguns povos indgenas

    que habitam o Brasil, salvaguardar em favor deles e de ns, humanidade.

    As experincias da REDE MULTITNICA DE SALVAGUARDA (RMS) promovidas

    pela ONG Thydw comearam com o prprio nascimento da instituio em 2002. A

    Thydw constituiu-se alquimicamente com a participao de indgenas de vrias

    etnias e no indgenas. A Thydw est atualmente dirigida por cinco scios: May

    Patax Hhhe (BA); Nhenety Kariri-Xoc (AL); Ati Pankararu (PE); Sebastin Gerlic e

    Potyra T Tupinamb (BA). A RMS vai tomando corpo com as aes, projetos,

    aventuras, desafios e encontros em que alguns dos membros da rede vo tecendo. A

    RMS, enquanto rede, se mantem sempre aberta, dinmica e distribuda, preferindo

    resguardar-se gil e no se institucionalizar; contando com a colaborao da Thydw

    no secretariado e na estrutura fsica e operacional.

    A escritura deste dossi acontece dez anos aps a Conveno sobre a Proteo

    e a Promoo da Diversidade das Expresses (2005) , e treze anos aps a Conveno

    para a Salvaguarda do Patrimnio Cultural Imaterial (2003) , momento no qual existem

    vrias vozes, muitas vezes antagnicas, sobre ambos os temas. Explicitamos abaixo

    algumas questes que retratam o atual e polifnico cenrio:

    Para alguns, o patrimnio estratgico para o desenvolvimento; para outros,

    estratgico para a sobrevivncia, e ainda h aqueles que o consideram estratgico para

    a sustentabilidade.

    Para algumas pessoas, a globalizao est aniquilando a diversidade, para

    outras, o pensamento global nem sempre se impe em processos de patrimonializao.

    Para uns, a funo social do patrimnio de formao de memria e cidadania;

    para outros, garantia de coeso social.

  • PGINA 3

    Uns se perguntam: - Para que uma lista de Patrimnio? Isso gera concorrncia

    entre Patrimnios. Patrimnio imaterial pode ter dono? Quando patrimnio da

    humanidade a comunidade local perde ou ganha o qu?

    O reconhecimento de um patrimnio no est mais s na mo dos acadmicos,

    festejam alguns; outros ainda criticam, mas a regra que se usa para defini-los apresenta

    uma faceta universalista e uma lgica racionalista fundada em conceitos e categorias

    ocidentais.

    Contudo, percebe-se que o tema do patrimnio traz discusso sobre a

    propriedade intelectual coletiva e sobre o bem comum, ao mesmo tempo que est

    presente na formulao de polticas pblicas e sendo includo nas agendas social,

    econmica, ambiental e cultural do Brasil e do mundo.

    Nos processos de salvaguardas que acompanhamos, as comunidades

    indgenas e, em especial, aqueles indgenas que protagonizaram as aes, de alguma

    forma, materializam parte do imaterial em livros, CDs e vdeos, sendo bem mais ricos

    e importantes os processos vividos pelos indgenas e suas comunidades que os

    produtos resultantes. Pelo fato dos livros facilitarem a apresentao dos trabalhos da

    RMS, eles tm bastante nfase neste dossi.

    Somos conscientes, ns da Thydw tanto quanto os prprios indgenas da

    RMS, que bem mais importante que os livros so as prticas que os indgenas fazem.

    Buscaremos aqui compartilhar alguns aspectos de como a vivncia de participar da

    REDE MULTITNICA DE SALVAGUARDA influenciou e ainda influencia muitas prticas

    de muitos indgenas. Se por um lado, hoje, os indgenas caminham para dentro do

    mundo globalizado, por outro ou simultaneamente, vivem com uma maior

    compreenso de si mesmos e da diversidade cultural, avanam como sujeitos de

    direitos, sujeitos polticos e agentes de mudanas. Os indgenas com os quais nos

  • PGINA 4

    relacionamos tm a clareza de que a salvaguarda de seus patrimnios precisa de aes

    concomitantes, as que olham para dentro das comunidades e as que olham para o

    mundo como um todo.

    Nesse complexo e saudvel caldo estamos ns, apresentando o dossi da

    tecnologia REDE MULTITNICA DE SALVAGUARDA na vontade de partilhar nossa

    vivncia e com o desejo de contribuir para com outras experincias e para com as

    reflexes sobre salvaguarda do patrimnio imaterial.

    No meio desta efervescncia, impulsiona-nos a apresentar este dossi, as vozes

    dos indgenas que participam da REDE MULTITNICA DE SALVAGUARDA que,

    unanimemente, dizem estar valendo a pena relacionar-se interculturalmente e estar

    convivendo com resultados positivos e estimulantes, frutos tambm das aes

    promovidas em rede.

    REDE MULTITNICA DE SALVAGUARDA uma tecnologia sociocultural

    educativa sistematizada pela ONG Thydw que fortalece capacidades e talentos

    humanos para, entre outras, colaborar na salvaguarda de patrimnios imateriais.

    As aes integradas que acontecem para produzir a comunicao, e as aes

    educativas que acontecem com o produto da comunicao, e o produto

    propriamente dito, so alianas cooperantes desta tecnologia.

    A REDE MULTITNICA DE SALVAGUARDA nasce de um sonho comum entre

    um comunicador social, um arte-educador e vinte indgenas de sete etnias: Kariri-

    Xoc, Xucuru-Kariri (AL); Pankararu, Truk (PE); Tupinamb, Tumbalal e Patax

    Hhhe (BA). As pessoas, alquimicamente juntas, desenham seu primeiro projeto

    para identificar e registrar prticas de professores indgenas que se valem de seus

    cantos tradicionais para transmitir s crianas parte dos patrimnios imateriais de

    suas comunidades. Assim, realizam na aldeia Kariri-Xoc em 2003, o primeiro

  • PGINA 5

    Encontro "Cantando as Culturas Indgenas" e, em 2005, o segundo Encontro.

    Sistematizam as experincias resultando um livro-cartilha com CD "Cantando as

    Culturas Indgenas". Com os livros nas mos, as prticas e os intercmbios continuam.

    Paulatinamente vai aumentando o nmero de professores indgenas que no interior

    das comunidades se valem deste material didtico diferenciado e, estimulados, veem

    crescer os dilogos sobre prticas de salvaguarda.

    Esse grupo de pessoas comeava a perceber como ainda que em contextos

    diferentes e com culturas diferentes, os povos indgenas tm muitas semelhanas

    que quando compartilhadas propiciam o enriquecimento de todos. E assim, comea

    a se tecer uma rede multitnica de salvaguarda. Em rede, inaugura-se um processo

    de divulgao de percepes, sentimentos, vises e opinies sobre problemticas e

    sobre solues s prticas sociais e, em especial, s prticas que seriam mais

    identificadas com as formadoras de identidade tnica singular. E assim, se percebe

    que essas prticas so as vezes to semelhantes entre dois ou mais povos ou etnias,

    que aquele determinado patrimnio no seria exclusivo de uma determinada etnia,

    mas sim de um conjunto de etnias ou povos, podendo at ser de mais de um tronco

    tnico. Por exemplo, quando os Kariri-Xoc (AL) percebem que os Xok (SE) e os

    Pankararu (PE) tambm fazem panelas e potes de barro, eles passam a perceber que

    essa sabedoria e prtica so comuns a muitos povos. Quando ceramistas de mais de

    Livro RISADA. Na imagem a ceramista Kariri-Xoc (AL)

  • PGINA 6

    duas etnias se encontram refletem que provavelmente centenas de anos atrs seus

    povos j poderiam ter se encontrado ou que tm uma origem comum.

    Quando indgenas de duas etnias, acreditando que a primeira vez que essas

    etnias se encontram, e se pegam cantando uma mesma msica ou fazendo um

    ritual bem similar, refletem sobre as semelhanas, sobre as diferenas e sobre vrios

    aspectos mais profundos que este. Neste dossi achamos importante destacar os

    questionamentos que emergem ao interior da rede: - O que vocs fazem para no

    Livro RISADA. Na imagem a ceramista Vilma Pankararu (PE)

    Livro RISADA. Na imagem a ceramista Clia Xok (SE)

  • PGINA 7

    perderem esse conhecimento? Vocs ainda praticam? Os jovens se interessam? So

    essas perguntas sobre a salvaguarda que dentro da rede multitnica promovemos e

    incentivamos que aconteam. Provocamos pontes, reflexes, intercmbios e

    partilhas. Temos a sensao de que nessas relaes e dilogos em rede multitnica,

    os indgenas saem enriquecidos e entusiasmados por investirem com mais fora na

    salvaguarda do que entendiam como prprio de sua cultura.

    Anexamos a este dossi um exemplar da terceira e ltima tiragem do kit:

    cartilha-livro com CD CANTANDO AS CULTURAS INDGENAS.

    Trs pginas do livro ESPERANCA DA TERRA que mostram a mesma ao da RMS em duas etnias:

    Abaixo Patax Hhhe (BA); na prxima pgina: Pankararu (PE)

  • PGINA 8

    A REDE MULTITNICA DE SALVAGUARDA reconhece trs fontes de inspirao:

    uma, na tecnologia irm NDIOS NA VISO DOS NDIOS; tecnologia essa que foi

    desenhada para ser executada com o povo de uma s etnia. Com tal tcnica,

    indgenas de uma mesma nao se reuniam para realizar ju