ortodoxia nem populismo: o segundo governo

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  • Tempo

    ISSN: 1413-7704

    secretaria.tempo@historia.uff.br

    Universidade Federal Fluminense

    Brasil

    Fonseca, Pedro Cezar Dutra

    Nem ortodoxia nem populismo: o Segundo Governo Vargas e a economia brasileira

    Tempo, vol. 14, nm. 28, enero-junio, 2010, pp. 19-60

    Universidade Federal Fluminense

    Niteri, Brasil

    Disponvel em: http://www.redalyc.org/articulo.oa?id=167013403002

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    Nem ortodoxia nem populismo: o Segundo Governo Vargas e a economia brasileira*Pedro Cezar Dutra Fonseca**

    O artigo tem por objeto a economia e as controvrsias sobre a poltica econmica do Segundo Governo Vargas (1951-1954), bem como de seu significado histrico. Como opo metodolgica, parte das diferentes nfases dadas implementao da poltica econmica ao longo do perodo, as quais so analisadas pari passu s principais cor-rentes que dividem seus analistas e intrpretes.Palavras-chave: Vargas Populismo Nacional-Desenvolvimentismo

    Neither Orthodoxy nor Populism: the Second Vargas AdministrationThis paper analyzes the economy and the controversies surrounding the economic policy in the Second Vargas Administration (1951-1954), as well as its historical significance. As a methodological option, it starts with the different approaches the implementation of the economic policy went through along the period, which are analyzed pari passu with the main studies dividing their analysts and interpreters.Keywords: Vargas Populism National-Developmentalism

    Artigo recebido e aprovado para publicao em julho de 2009.** Professor Titular do Departamento de Cincias Econmicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e Pesquisador do CNPq. E-mail: pedro.fonseca@ufrgs.br. Agradeo as sugestes de Jorge Ferreira, Pedro Paulo Zahluth Bastos e Srgio Modesto Monteiro, evidentemente isentando-os pela verso final, e a colaborao dos bolsistas de Iniciao Cientfica/CNPq Andr Augustin e Fernando Felber Bataglin.

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    DossiPedro Cezar Dutra Fonseca

    Ni orthodoxie ni populisme : Le deuxime gouvernement Vargas et lconomie brsilienneCet article a pour objets lconomie et les polmiques autour de la politique cono-mique du deuxime gouvernement Vargas (1951-1954) et de son sens historique. Son choix mthodologique est de partir des diverses orientations suivies dans la mise en oeuvre de la politique conomique de la priode. Celles-ci sont analyses pari passu selon les principaux courants qui partagent leurs analystes et interprtes.Mots-cls : Vargas Populisme National-Developpementisme

    Introduo: a Proposta e seus Fundamentos

    Assegura Luis Fernando Verssimo terem-lhe recomendado nunca iniciar um texto citando Hegel, pois se corre o risco de espantar o leitor logo nas pri-meiras linhas.1 No obstante o conselho, a referncia neste faz-se obrigatria. Sem a pretenso de construir uma anlise hegeliana com o rigor necessrio que a empreitada exigiria, tributo ao filsofo pelo menos a inspirao do objetivo do artigo, mais modesto, que contribuir para o estudo da poltica econmica e da economia do Segundo Governo Vargas (SGV, de ora em diante), tendo como ponto de partida a crtica literatura sobre o mesmo. Deve-se a Hegel o entendimento de que a crtica do pensamento sobre o real caminho possvel para reconstruir o prprio real.2 Ou seja, a anlise crtica das percepes, das teorias e do discurso sobre determinado objeto, como movimentos do pen-samento, pode tornar-se ponto de partida metodolgico para sua apreenso; como devir, seu permanente movimento abre caminho para tanto, embora no assegure nenhum resultado.

    Com este respaldo, nota-se, prima facie, que boa parte das polmicas e embates sobre o SGV remontam a sua poca; em certo sentido, a literatura no foge das controvrsias que dividiram os prprios coevos. Em linhas gerais, podem ser delineadas quatro correntes. A primeira defende que o governo era populista, rtulo que vai desde a considerao de que era demagogo e

    1 Luis Fernando Verssimo, A coruja de Hegel, Zero Hora, Porto Alegre, 28/05/2009, p.3.2 Os marxistas mais afoitos tambm no precisam desistir da leitura por considerarem tal proposio impregnada de idealismo, o qual se faria necessrio virar de cabea para bai-xo, como props Marx certa vez. Justamente este foi o procedimento utilizado por ele em Teorias da Mais Valia, com a construo da gnese lgica deste conceito atravs da crtica literatura sobre o mesmo, ou seja, percorrendo a histria do pensamento econmico.

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    Nem ortodoxia nem populismo: o Segundo Governo Vargas e a economia brasileira

    irresponsvel at abranger a denncia de seu nacionalismo como xenofobia de matiz esquerdista. A segunda corrente, expressa por Skidmore, entende que o governo se divide em duas fases: inicia ortodoxo e posteriormente d uma virada nacionalista, mudando radicalmente, pelo que nele se pode notar uma ambivalncia.3 J uma terceira prope que o governo era conser-vador e ortodoxo, seja com base na poltica econmica, como Lessa e Fiori e, tambm, Vianna, seja com base em sua composio e diretrizes no campo poltico, como DArajo.4 Uma quarta corrente, qual nos perfilhamos, defende que se pode detectar no perodo a existncia de um projeto de longo prazo cujo epicentro era a industrializao acelerada e a modernizao do setor primrio em linhas gerais o que se convencionou denominar de Nacional-Desenvolvimentismo.5

    Como passo metodolgico para dialogar com esses autores, lanar-se- mo, como recurso analtico, da interpretao proposta em trabalho anterior realizado em coautoria com Srgio Monteiro, sobre a poltica econmica do

    3 Thomas Skidmore, Brasil: de Getlio a Castelo, 5.ed, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1976, p. 124.4 Carlos Lessa e Jos Luiz Fiori, Houve uma Poltica Nacional-Populista?, XII Encon-tro nacional de Economia, So Paulo, ANPEC, 1984; Srgio Besserman Vianna, A Poltica Econmica no Segundo Governo Vargas, Rio de Janeiro, BNDES, 1987; Maria Celina Soares DArajo, O Segundo Governo Vargas, 1951-1954, Rio de Janeiro, Zahar, 1982.5 Sabe-se que quaisquer termos ou expresses para designar fenmenos sociais complexos apresentam limitaes, embora no se possa dispens-los. No caso, prefere-se aqui manter a denominao tradicional de Nacional-Desenvolvimentismo, a qual ainda parece mais apro-priada diante das outras opes, como varguismo (sugere um projeto mais pessoal), na-cional-populismo (j traz consigo de imediato uma carga desqualificadora e depreciativa) ou nacional-estatismo (posto que, embora a presena do Estado seja fundamental em sua implementao, o projeto contraria o que comumente denota a palavra estatismo, a qual usada contrapor estado sociedade ou, alternativamente, a capitalismo e a mercado. No caso, no representou nem uma imposio do estado sociedade, posto que nesta foi gesta-do e enraizado socialmente ao longo de sua vigncia, nem tampouco pretendia ocupar o es-pao da iniciativa privada ou suprimi-la, j que se tratava de um projeto de desenvolvimento capitalista). Por outro lado, a palavra nacional auxilia em sua diferenciao de outro estilo de desenvolvimento, mais internacionalizante e menos disposto a polticas redistributivas, gestado no governo JK e que aparece de forma mais ntida aps 1964. A partir da, e at o final da dcada de 1970, continuam o desenvolvimentismo e o PSI (Processo de Substituio de Importaes), mas da forma dependente-associada, como prefere a tradio da Escola de Sociologia da USP (Florestan Fernandes, Fernando Henrique Cardoso, Octavio Ianni), ou que se poderia chamar de desenvolvimentismo internacionalista, como sugere Marcelo Arend, 50 Anos de Industrializao do Brasil (1955-2005): uma Anlise Evolucionria, Tese de Doutorado em Economia, Porto Alegre, UFRGS, 2009. A despeito da denominao, como ser argumentado adiante, a execuo do projeto no implica impedimento nem incompa-tibilidade ao fato de, diante da gravidade dos problemas conjunturais, terem sido propostas ou implementadas polticas de estabilizao contracionistas no SGV.

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    SGV.6 Conquanto mais adiante seja apresentada com minudncia, tanto em seus fundamentos como na periodizao proposta, essa sugere sem nenhuma pretenso de demarcar fases rgidas, ambiguidade ou viradas abruptas de reorientao da poltica econmica instrumental que no incio do governo houve certo predomnio da busca da estabilidade; seguiu-se-lhe um perodo de randomizao, o qual se caracteriza por polticas alternadas e simultneas de contrao e expanso da demanda; finalmente, nos ltimos meses de go-verno, detecta-se a preponderncia desta ltima, com abandono do combate inflao como prioridade. O recurso analtico referido serve tambm como passo para a diviso das sees do trabalho, posto que os fatos do SGV iro sendo expostos pari passu ao seu desfecho, num ir-e-vir entre eles e a litera-tura. Assim: (1) inicialmente, juntamente com os primeiros meses do governo, sero abordadas as interpretaes que consagraram o SGV como populista; (2) a tese da virada ser questionada a seguir, ao se enfocar o perodo da randomizao, em que polticas de expanso e contracionistas alternam-se, como se explicar adiante; e, finalmente, (3) os ltimos meses do governo conduzem mais apropriadamente para a reflexo sobre as teses defensoras da ortodoxia e do conservadoris