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Download Recensão crítica do livro de Aline Cruz - tupi.fflch.usp.o crítica... · RECENSÃO CRÍTICA Fonologia

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  • RECENSO CRTICA

    Fonologia e Gramtica do Nheengat: a lngua geral falada pelos povos Bar, Warekena e Baniwa, de Aline da Cruz. Utrecht, Pases Baixos: LOT, 2011. 652 pginas, 1a edio.

    Eduardo de Almeida Navarro1

    O livro recm-editado de Aline da Cruz, intitulado

    Fonologia e Gramtica do Nheengatu, foi originalmente uma tese de doutorado apresentada a uma universidade holandesa. Traz contributo inegvel a um campo de estudos onde so escassas as pesquisas. Trata-se de uma anlise estruturalista do Nheengatu falado no Vale do Rio Negro, Amazonas. Muitas de suas anlises so importantes para a compreenso de fenmenos morfossintticos pouco esclarecidos nas escassas gramticas normativas que h daquela lngua. No que tange fonologia, certamente o estudo mais alentado que h sobre o Nheengatu.

    A obra, contudo, est muito aqum do que se poderia chamar um timo trabalho. E isso pelas seguintes razes:

    1. H contradio palmar entre os objetivos

    declarados no introito do livro e o que realmente se encontra apresentado nele.

    2. Ocorrem muitos erros naquilo que a autora chama de incurses diacrnicas, as quais exigiriam dela um conhecimento

    1 Professor associado do Departamento de Letras Clsicas e Vernculas da Universidade de So Paulo

  • de Tupi Antigo (ou Tupinamb, como ela prefere designar aquela lngua). Mais preocupada em utilizar o seu jargo estruturalista, descurou completamente a busca das fontes primrias para fazer anlises de carter diacrnico.

    3. Vislumbram-se, na obra, erros e imprecises histricas.

    4. H, enfim, nele, desrespeito constante norma culta escrita da lngua portuguesa.

    Deter-nos-emos, a seguir, em cada um dos pontos enunciados acima, dando somente alguns exemplos para ilustrar os senes da referida obra. Ora utilizaremos smbolos do Alfabeto Fontico Internacional, ora a ortografia encontrada nos textos coloniais e nos dos sculos XIX e XX.

    1. Contradio entre objetivos e fatos Na p. 12 do livro de Cruz l-se:

    Em curso de Magistrio Indgena, realizado em 2007, alguns professores em formao explicaram que o termo lngua geral tem valor pejorativo. Para esses falantes, lngua geral serve para identificar a fala de pessoas que misturam constantemente Nheengatu e Portugus. O termo Nheengatu, por sua vez, representa uma identidade cultural em formao. Por essa razo, chamamos a lngua descrita neste trabalho de Nheengatu.

    Ora, justamente o oposto disso que vemos

    apresentado na tese de Cruz, em grande parte do seu

  • longo texto. Se o que lhe disseram os professores do aludido curso tem fundamento, Cruz deveria, coerentemente, ter chamado a lngua que descreveu de Lngua Geral, pois, na verdade, o que ela estudou foi, ipsis verbis, a fala de pessoas que misturam constantemente Nheengatu e Portugus, da mesma forma que o o Jopar (mescla, em Guarani) do Paraguai. Utiliza uma metalinguagem elaborada para tratar de uma situao de decadncia e diz que isso representa uma identidade cultural em formao. Vejam-se alguns exemplos de tais asseres: U restu ti ya-ma. - O resto no vamos. (p. 521) Ento ae a-yu-mbue pe-iru). - Ento, isso aprendi com vocs. (p. 534) Tau-munh ar pesquisa uvalei ta-xupe ar komo nota tenki ma nha professor uakompanhai. - Para fazer uma pesquisa valer como nota para eles, o professor teria que acompanhar. (p.504) Aputai ma asendu si nunca tau kastigai inde. - Queria ouvir se nunca castigaram voc. (p. 503) Ukonhesei profundamente ma nha kariwa ukonhesei waa. - Ele conhece profundamente aquilo que os brancos conhecem. (p. 513) Tenki resegurai mame puranga waa. - Voc tem de segurar onde que bonito. (p. 514) Se manha ti upudei uiskrevei. - Minha me no pode escrever. (p. 536)

  • Kua tempu tu resebei w kua farda... - Neste tempo, recebiam j uniforme? (pp. 487-488) No sei serto u ti serto yawe. - No sei se certo ou no certo, assim... (p. 488) Porke aikue iskola indgena ixe aseitai agora diferenciada xar nha ti akua. - Porque haver escola indgena, aceito. Agora, diferenciada para mim no sei. (484) 2. Anlises diacrnicas incorretas

    Em suas incurses diacrnicas, Cruz cometeu

    diversos erros. Isso se evidencia em muitos passos de seu trabalho. Vejamos alguns deles:

    p. 196 Cruz, em nota de rodap, aduz o seguinte: ...Segundo Rodrigues (1953), em Tupinamb (e outras lnguas da famlia Tupi-Guarani), a orao com advrbio esquerda exigia um prefixo da srie estativa: kuese xe s, ontem 1sgE-ir ontem eu fui, tratado como indicativo II.

    Na verdade, Cruz, no passo aludido, deveria ter

    escrito kuese xe su, forma do modo indicativo circunstancial, isto , com o sufixo -u (um -w, na verdade). Ademais, atribui a tal modo verbal uma obrigatoriedade de emprego que ele no tinha. Anchieta, em sua Arte (p. 39v), ensina-nos que ele era empregado obrigatoriamente somente com a 3 pessoa.

    p. 217

  • Cruz, citando Aryon Rodrigues, erra ao dizer que a posposio irumu gramaticalizou-se a partir do nome relativo rumuara, companheiro, amigo. [Rodrigues apud Oliveira (2008, 69)].

    Com efeito, tal posposio provm do Tupi Antigo

    iru))))namo (iru)))) - companheiro + -namo - na condio de, como: como companheiro de), em sua forma variante braquissmica iru))))mo:

    Ne????i), tas ne iru))))mo... - Eia, hei de ir contigo.

    (Anchieta, Teatro, 64); Ore tor mondki, ne iru))))mo toroko. - Que ela nos destrua para que vivamos contigo. (Anchieta, Poemas, 148).

    Foi o tema nominal rumuara que proveio de irumu

    e no o contrrio: irumu + -wara: o que est com. Rumuara palavra da Lngua Geral. Como poderia o mais antigo provir do mais recente?

    p. 245 L-se a o seguinte:

    O sufixo -wara, derivador de nomes de procedncia, indica a procedncia de uma entidade. O sufixo pode-se combinar com qualquer expresso que se refira a uma localizao espacial.

    Em nota de rodap, na p. 245, Cruz adita: Adotamos o termo utilizado por Rodrigues (2010).

    Ora, Rodrigues, no artigo aludido, refere-se a um

    sufixo do Tupi Antigo (-nwar) que no tem correspondncia exata com o sufixo -wara do Nheengatu. Este sufixo do Nheengatu assume funes distintas exercidas por trs diferentes sufixos em Tupi Antigo:

  • 1.) -war (com a variante -wan) 2.) -swar (com as variantes -nwar, -wan) 3.) -sar Todos eles so sufixos nominalizadores, mas

    empregados em diferentes situaes:

    1) O sufixo -war forma nomes de procedncia ou naturalidade. Pode ser traduzido por o que de, o que est em, o habitante de, o natural de. Ex.- akwara - o celestial, o que do cu (Valente, Cantigas, apud Arajo, Catecismo, 1618) mamwara - o que de longe, o forasteiro (VLB, I, 141) ka????awana - o silvestre, o que vive pela mata (VLB, II, 41) 2) O sufixo -swar [com as suas variantes -nwar, -wan], do Tupi Antigo, nominaliza complementos circunstanciais. Ex.- Temi????u ????ara-iai????-nwara eime????eng (...) ore. A comida quotidiana (i.e., a de cada dia) d para ns. (Arajo, Catecismo, 13v) Se res-nwara eokwea. - Isso a meu respeito (isso o que me interessa). (VLB, II, 74) Em Nheengatu, -wara tambm assume tal funo: kuximawara - o que de antigamente resewara - o que a respeito de, a histria, a notcia 3) O sufixo -sar do Tupi Antigo tambm assumiu a forma -wara em formas cristalizadas do Nheengatu, no sendo mais produtivo. Ex.- nheengawara - falante (Stradelli, 577)

  • Assim sendo, como vimos, o sufixo -wara em

    Nheengatu desborda da funo que Cruz atribuiu a ele, o de derivador de nomes de procedncia.

    p. 247 Ali a autora labora em erro ao afirmar que

    ...em Nheengatu -emi- deixou vestgios nos nomes cristalizados mitima plantao, a partir de yutima plantar, muraki trabalho de puraki trabalhar e murasi dana de purasi danar.

    Na verdade, o prefixo que aparece nesses nomes

    cristalizados m-, no -emi-, de forma absoluta dos temas nominais possuveis iniciados com p-. (Lemos Barbosa, 1956, p. 297, 862; Navarro, 2008, 532)

    p. 275 Ali lemos:

    O quantificador mui(ri) muito foi emprestado (sic) do Portugus, muitos - ou do Espanhol muy, uma vez que seu uso mais comum no Xi, onde o contato com indgenas da Colmbia mais intenso.

    Na verdade, muri palavra proveniente do Tupi

    Antigo, isto , de mor (com as variantes mbo, mo etc.). Significa em Tupi

    1. Alguns (-umas); poucos (-as) Ex.-

    Ararpe muru k; na mbo ru... - Hei de irritar os malditos; e no so poucos... (Anchieta, Teatro, 168)

    2. Quanto? Quantos? Quantas vezes? Ex.-

  • Mbo mba????e respe as erurew...? - Por quantas coisas a gente pede? (Arajo, Catecismo, 26); Mbope sep? - Quanto foi o pagamento? (Arajo, Catecismo, 107)

    Os exemplos abaixo, respigados em Amorim (1928), confirmam que o termo muri tem originalmente, em Nheengatu, os mesmos sentidos que tem mor em Tupi Antigo:

    Muyre ara rir a nti uana oat kuau, iumasy oiku. - Depois de alguns dias no podia mais andar de fome. (Amorim, pp. 18 e 30) Mira! mira, pa, omanu Uaraku Kakuri tup, muyre nhunto ana pa opit. Gente! Gente, contam, morreu Cacuri na cidade do Uaracu. Somente alguns, contam, escaparam. (ibidem, pp. 67 e 89) Ix xaiure xaiuk pau muyre Arara mira. - Eu venho para matar tudo quanto gente Arara. (ibidem, pp. 70 e 92) (grifos nossos)

    Assim, de modo algum provm tal palavra do

    Castelhano, como sups Cruz em seu trabalho. p. 294 Em nota de rodap, Cruz repete mais um engano

    de Rodrigues, dizendo que ukar forma causativa utilizada com predicados transitivos. Com efeito, ukar no passa de um verbo, no sendo, de forma alguma, um sufixo de uma voz causativo-prepositiva, como equivocadamente a chama Rodrigues (1953, p. 136). Ademais, a terminologia de Rodrigues inadequada, haja vista que, em Tupi Antigo, no existem preposies, seno posposies.

  • O que prova que