ratio venustatis: razões da beleza nos livros i e iii do

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UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO FACULDADE DE ARQUITETURA E URBANISMO CLÓVIS ANTÔNIO BENEDINI LIMA Ratio Venustatis: razões da beleza nos livros I e III do De Architectura de Vitrúvio São Paulo 2015

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UNIVERSIDADE DE SAtildeO PAULO

FACULDADE DE ARQUITETURA E URBANISMO

CLOacuteVIS ANTOcircNIO BENEDINI LIMA

Ratio Venustatis razotildees da beleza nos livros I e III

do De Architectura de Vitruacutevio

Satildeo Paulo

2015

CLOacuteVIS ANTOcircNIO BENEDINI LIMA

RATIO VENVSTATIS RAZOtildeES DA BELEZA NOS

LIVROS I E III DO DE ARCHITECTVRA DE

VITRUacuteVIO

Dissertaccedilatildeo apresentada agrave Faculdade de

Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Satildeo

Paulo para obtenccedilatildeo do tiacutetulo de Mestre em

Arquitetura e Urbanismo

Aacuterea de Concentraccedilatildeo Histoacuteria e Fundamentos

da Arquitetura e do Urbanismo

Orientador Prof Dr Maacuterio Henrique Simatildeo

DrsquoAgostino

EXEMPLAR REVISADO E ALTERADO EM RELACcedilAtildeO Agrave

VERSAtildeO ORIGINAL SOB RESPONSABILIDADE DO AUTOR

E ANUEcircNCIA DO ORIENTADOR

O original se encontra disponiacutevel na sede do programa

Satildeo Paulo de julho de 2015

Satildeo Paulo

2015

AUTORIZO A REPRODUCcedilAtildeO E DIVULGACcedilAtildeO TOTAL OU PARCIAL DESTE

TRABALHO POR QUALQUER MEIO CONVENCIONAL OU ELETROcircNICO PARA FINS

DE ESTUDO E PESQUISA DESDE QUE CITADA A FONTE

E-MAIL DO AUTOR clovislimauspbr

Lima Cloacutevis Antocircnio Benedini

L732r Ratio Venustatis razotildees da beleza nos livros I e III do De Architectura

de Vitruacutevio Cloacutevis Antocircnio Benedini Lima --Satildeo Paulo 2015

222 p il

Dissertaccedilatildeo (Mestrado - Aacuterea de Concentraccedilatildeo Histoacuteria e

Fundamentos da Arquitetura e do Urbanismo) ndash FAUUSP

Orientador Maacuterio Henrique Simatildeo DrsquoAgostino

1Teoria da arquitetura 2Historia da arquitetura 3Arquitetura antiga

4Vitruvius Pollio 5Auctoritas 6Symmetria 7Eurythmia ITiacutetulo

CDU 7201

FOLHA DE APROVACcedilAtildeO

CLOacuteVIS ANTOcircNIO BENEDINI LIMA

RATIO VENVSTATIS RAZOtildeES DA BELEZA NOS LIVROS I E III DO

DE ARCHITECTVRA DE VITRUacuteVIO

Dissertaccedilatildeo apresentada agrave Faculdade de

Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Satildeo

Paulo para obtenccedilatildeo do tiacutetulo de Mestre em

Arquitetura e Urbanismo

Aacuterea de Concentraccedilatildeo Histoacuteria e Fundamentos

da Arquitetura e do Urbanismo

APROVADO EM

BANCA EXAMINADORA

Prof Dr __________________________________ Instituiccedilatildeo ____________________________

Julgamento __________________________________ Asinatura ____________________________

Prof Dr __________________________________ Instituiccedilatildeo ____________________________

Julgamento __________________________________ Asinatura ____________________________

Prof Dr __________________________________ Instituiccedilatildeo ____________________________

Julgamento __________________________________ Asinatura ____________________________

Agrave memoacuteria de Beth Benedini e de

Cloacutevis Correcirca Lima

AGRADECIMENTOS

Esse trabalho natildeo teria sido possiacutevel sem o professor Dr Maacuterio Henrique S

DrsquoAgostino certamente pelos trabalhos pioneiros no campo dos estudos vitruvianos

no Brasil natildeo menos que pela orientaccedilatildeo precisa estimulante e sempre aberta ao

diaacutelogo de modo que eacute de minha inteira responsabilidade a escolha pelas veredas

bravias que desafiam esse itineraacuterio por paisagens venustas Ao professor Dr Leon

Kossovitch cujos cursos proferidos anos atraacutes na Faculdade de Filosofia da

Universidade de Satildeo Paulo permitiram o primeiro contato com a doutrina de Vitruacutevio

agradeccedilo pela grande contribuiccedilatildeo aos rumos desse projeto e pela participaccedilatildeo na

banca examinadora Agradeccedilo igualmente ao professor Dr Juacutelio Ceacutesar Vitorino pela

participaccedilatildeo na banca vencendo a distacircncia ateacute Satildeo Paulo para acrescentar ao trabalho

suas ponderaccedilotildees fundamentadas em um grande percurso de estudos sobre o De

Architectura

Eacute preciso ainda agradecer a todos os professores cujos ensinamentos ao longo

dos anos contribuiacuteram agraves bases dos estudos que procuramos aqui desenvolver Para

esse trabalho foram fundamentais as liccedilotildees de liacutengua latina dos professores Dr

Marcelo Vieira Fernandes e Dr Pablo Schwartz Frydman do Departamento de Letras

Claacutessicas e Vernaacuteculas do curso de Letras da Universidade de Satildeo Paulo Agradeccedilo

ainda agrave professora Dra Andrea Buchidid Loumlewen da Faculdade de Arquitetura e

Urbanismo da Universidade de Satildeo Paulo

Foi imprescindiacutevel o apoio conferido pelas Bibliotecas da Universidade de Satildeo

Paulo bem como a solicitude e competecircncia de seus funcionaacuterios a quem deixo os

agradecimentos agrave Lucila Borges e agrave Rejane Alves na Biblioteca na Faculdade de

Arquitetura e Urbanismo (FAU-USP) agrave Ana Cristina e agrave Mariana Queiroz na Biblioteca

da Faculdade de Filosofia Letras e Ciecircncias Humanas (FFLCH-USP) ao Heacutelio Rosa de

Miranda na Biblioteca do Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE-USP) agrave Biblioteca

da Escola Politeacutecnica (EP-USP) Na FAU Maranhatildeo agradeccedilo agrave Luacutecia Nepomuceno

Maria Joseacute Isa Dinaacute Maria Aparecida

Sou grato aos amigos e colegas que participaram de algum modo dessa jornada

Ricardo Zanchetta pelo diaacutelogo e valiosas contribuiccedilotildees presentes nesse trabalho

Claudio Duarte Maria Celina Gil Mariana Maria Faacutebia Alvim Siacutelvia Campanholo

Mayara Guimaratildees Maria Fernanda Rezende Rafael Urano Ana Paula Giardini

Pedro Camila Lima Ingrid Quintana Matheus Pustrello Rafael Gargano Ana Letiacutecia

Adami Yuri Ulbricht

Agradeccedilo aos amigos e familiares que proacuteximos ou distantes geograficamente

sempre estiveram por perto de alguma maneira Seacutergio Dallfollo Roberto Gasparini

Wladimir Barbieri Rodrigo Benedini Christiane Benedini Rafael Benedini Renan

Benedini Siacutelvia Benedini Wendel Dima Bruno Dima Michele Cardoso Alex

Cardoso Leonardo Basaglia Joseacute Basaglia Fabriacutecio Pupin Fernando Vicente

Fernanda Sandrin Fausto Radaelli Oliveira Fernando Radaelli Oliveira Francine

Radaelli Oliveira Deixo ainda agradecimentos ao meu irmatildeo Marcello A B Lima e agrave

Juliana Marchiori

Cumpre agradecer agrave FAPESP Fundaccedilatildeo de Amparo agrave Pesquisa do Estado de

Satildeo Paulo pelo apoio concedido

Mas se algum meacuterito haacute nesse trabalho deve-se antes a meus pais Beth

Benedini e Cloacutevis Correcirca Lima que cuidaram de assegurar instruccedilotildees diversas itaque

ego maximas infinitasque parentibus ago atque habeo gratias

χαλεπώτερον γὰρ καλὴν οἰκίαν ἢ οἰκίαν εἶναι

Aristoacuteteles ldquoArte Retoacutericardquo 1392a

RESUMO

Segundo Vitruacutevio a arquitetura deve se orientar pelos princiacutepios de firmeza

utilidade e venustidade Procurou-se perquirir de que modo a ratio uenustatis se insere

no De Architectura e o papel desempenhado Em torno da noccedilatildeo de uenustas reuacutenem-

se termos ndash tais como species aspectus aspiciens figura uisus oculus ndash concernentes agraves

preocupaccedilotildees visuais dirigidas agraves obras indicadas jaacute nas definiccedilotildees fundamentais da

arquitetura ndash ordinatio dispositio eurythmia symmetria decor e distributio Lecirc-se no Livro

III que o aspectus da obra lhe confere autoridade (auctoritas) e o templo eustilo

pseudodiacuteptero se afigura como exemplo maior na preceptiva Mas eacute preciso contar

antes com a auctoritas do arquiteto para isso instruiacutedo nas letras (litterae) dentre

variadas artes e erudiccedilotildees e apto simultaneamente ao fazer e ao raciocinar (fabrica et

ratiocinatio) As autoridades egreacutegias (egregias auctoritates) prometidas no primeiro

exoacuterdio agrave majestade do poder conduzido pelo Imperator por ocasiatildeo dos esforccedilos

empreendidos na construccedilatildeo puacuteblica dizem respeito agraves oportunidades e vantagens

(opportunitas) advindas de uma adequada ordenaccedilatildeo dos recintos urbanos (moenia) ndash

desde a escolha do siacutetio ateacute a determinaccedilatildeo das obras de uso comum ndash demonstrando-

se intrinsecamente conexas agrave diligecircncia no campo das venustidades que permeia os

demais acircmbitos da arte edificatoacuteria

Palavras-chave Vitruacutevio De Architectura Arquitetura Antiga Retoacuterica Auctoritas

Symmetria Eurythmia

ABSTRACT

According to Vitruvius architecture must be oriented by the principles of

firmitas utilitas and uenustas We tried to question how the ratio uenustatis is inserted

in the De Architectura and its role There are some terms which are gathered around

the concept of uenustas ndash such as species aspectus aspiciens figura uisus oculus ndash

concerning the visual matters directed to the building works already indicated by the

architecturersquos fundamental definitions ndash ordinatio dispositio eurythmia symmetria decor

and distributio As it is witten in Book III the aspectus bestows aucthority (auctoritas) on

the building and the eustylos pseudodipteros temple appears as a major exemplum in the

set of preceptions But before it is necessary to the authorized work to count upon the

architectrsquos authority to that instructed in the litterae among varied arts and eruditions

and apt at the same time to fabrica and ratiocinatio The prominent authority (egregias

auctoritates) promised to the majesty of the power lead by the Imperator in the first

exordium on the occasion of the efforts undertaken in the public building are

concerned with the opportunities and advantages (opportunitas) issued from an

adequate arrangement of the limited urban area (moenia) ndash from the selection of the

site to the common use buildings settlement ndash showing themselves intrinsically

connected with the heed of the ratio uenustatis that permeates the other fields of the ars

aedificatoria

Keywords Vitruvius De Architectura Ancient Architecture Rhetoric Auctoritas

Symmetria Eurythmia

SUMAacuteRIO

INTRODUCcedilAtildeO ____________________________________________ 15

1 DE ARCHITECTVRA E RETOacuteRICA _______________________ 23

11 Auctoritas e Litterae ____________________________________ 24

111 Encyclios disciplina __________________________________ 26

112 O arquiteto e o orador_______________________________ 31

113 Auctoritas e a doutrina ______________________________ 35

114 Expedientes discursivos _____________________________ 37

115 Vitruacutevio auctor ____________________________________ 42

12 Auctoritas e Venustas ___________________________________ 45

121 Eustilo e auctoritas __________________________________ 46

122 Sentidos de auctoritas _______________________________ 47

123 Asperitas __________________________________________ 49

13 Auctoritas e Aedificatio __________________________________ 52

131 Auctoritas e Maiestas Imperii __________________________ 53

132 Basiacutelica de Fano auctoritas e uenustas __________________ 55

133 Auctoritas no De Architectura _________________________ 58

2 RAZOtildeES DO CORPO ____________________________________ 65

21 Corpus Hominis et Mensurarum Rationes ___________________ 67

22 Μίμησις Imitatio Similitudo _____________________________ 85

3 PRECEITOS PARA O ENCANTO _________________________ 110

31 Contratura e Ecircntase ___________________________________ 120

32 Estiloacutebata ___________________________________________ 124

33 Arquitrave __________________________________________ 127

34 Entablamento ________________________________________ 135

35 Skenographiacutea _________________________________________ 136

36 Scaenographia ________________________________________ 142

37 Obra isolada e conjunto edificado _______________________ 147

38 Acumen eurythmia symmetria ___________________________ 154

CONCLUSAtildeO ____________________________________________ 161

APEcircNDICE A ____________________________________________ 171

ldquoAjustes meacutetricos e variaccedilotildees na arquitetura antigardquo

APEcircNDICE B ____________________________________________ 187

ldquoO Cacircnone de Policleto e a hipoacutetese de Tobinrdquo

ANEXO 1 _______________________________________________ 208

Fragmento O que eacute o cenograacutefico segundo ediccedilatildeo Hultsch

ANEXO 2 _______________________________________________ 209

Fragmento O que eacute o cenograacutefico segundo ediccedilatildeo Schoumlne

ANEXO 3 _______________________________________________ 210

Excerto de De Placitis Hippocratis et Platonis de Galeno

BIBLIOGRAFIA __________________________________________ 212

NOTA PREacuteVIA As referecircncias de traduccedilotildees a que recorremos neste trabalho satildeo

sempre indicadas junto agraves citaccedilotildees As demais traduccedilotildees satildeo nossas Procurou-se ainda

verter as passagens dos estudiosos modernos seja do inglecircs do francecircs ou do italiano

para o portuguecircs entretanto optou-se por apresentar tambeacutem o original quando

oportuno

INTRODUCcedilAtildeO

15

INTRODUCcedilAtildeO

Mais de dois mil anos se passaram desde a escrita do De Architectura De cada

uolumen ateacute a prensa mecacircnica muito se manuseou o corpus vitruviano por vezes

alterado com o labor de anocircnimos copistas graccedilas aos quais no entanto evitou-se que

fosse lanccedilado ao esquecimento As ediccedilotildees impressas soacute fizeram propagar o escrito

reproduzido em ritmo que a caligrafia natildeo poderia alcanccedilar A liacutengua latina de outrora

distanciava-se cada vez mais dos idiomas nascentes nos territoacuterios que haviam

constituiacutedo os domiacutenios de Roma e a proacutepria Vrbs O legado de Vitruacutevio passava

entatildeo a ser traduzido ao mesmo tempo que as interpretaccedilotildees se multiplicavam Mas

logo do escrito se depreendia mais obscuridade1 do que diferenccedilas Claude Perrault

afirmou em ediccedilatildeo de 1684 aos Dez Volumes que o autor latino eacute impreciso por dizer

a mesma coisa nas definiccedilotildees de eurythmia e symmetria em um discurso embaraccedilado2

Seraacute mesmo

Antes poreacutem Leon Batista Alberti evocara Vitruacutevio em seu De Re Aedificatoria

elogiando-o como scriptorem instructissimum uacutenico supeacuterstite ao naufraacutegio causado

pelas ldquoinjuacuterias dos tempos e dos homensrdquo (temporum hominumque iniuria) dentre tantos

1 Conforme mostra DrsquoAgostino ldquoontem e hoje hermenecircutas vecircem na lsquoobscuridade de Vitruacuteviorsquo um

claro sinal da confusatildeo de propoacutesitos e despreparo do autor ao ambicionar um escrito de tamanha

pujanccedilardquo (DrsquoAgostino ldquoA beleza e o maacutermore - o Tratado De Architectura de Vitruacutevio e o Renascimentordquo

p 64) Eacute de se notar por outro lado que recentes estudos procuram rever ldquocontradiccedilotildees e incoerecircncias

apontadas no De Architecturardquo (ibid p 66) tal como se lecirc na abertura da ediccedilatildeo italiana de 1997 dirigida

por Pierre Gros 2 Perrault C ldquoLes Dix Livres drsquoArchitecture de Vitruve ndash corrigez e traduits nouvellement en Franccedilois

avec des Notes amp des Figuresrdquo I cap 2 n 8 b-c p 11 ldquotous les Interpretes ont cru que lrsquoEurythmie amp

la Proportion que Vitruve apelle Symmetria font icy deux choses differentes parce qursquoil semble qursquoil en

donne deux definitions mais ces definitions agrave les bien prendre ne disent que la mesme chose lrsquoune amp

lrsquoautre ne parlant par un discours eacutegalement embrouumlilleacute que de la Convenance de la Correspondance

amp de la Proportion que les parties ont au toutrdquo

16

monumentos ilustriacutessimos mas natildeo sem se deixar corromper pela tempestade dos

seacuteculos3 Contudo as faltas de Vitruacutevio natildeo eram atribuiacutedas por Alberti apenas agraves

contingecircncias ldquoocorriam ainda porque o modo como aquilo tinha sido transmitido era

inculto com efeito sua elocuccedilatildeo era tal que aos latinos parecia grego e os gregos

supunham que falasse latimrdquo4 Alberti chega a afirmar que a linguagem de Vitruacutevio

natildeo era testemunha nem do latim nem do grego pois ininteligiacutevel5 A invectiva contra

a escrita ldquonon cultardquo do autor do De Architectura eacute clara No entanto em que medida

ela consistiria um juiacutezo contra Vitruacutevio No primeiro dos Dez Volumes eacute possiacutevel

observar um ataque de semelhante veemecircncia ao que sustentou em seus comentaacuterios

o antigo arquiteto do templo de Minerva em Priene ldquovecirc-se que nisso Piacutetio errourdquo6

sentencia Vitruacutevio A investida de Ciacutecero contra Hermaacutegoras no De Inuentione beira

o insulto ldquode fato eacute muito pouco falar sobre a arte tal como fez Hermaacutegoras Muito

mais importante eacute pronunciar um discurso a partir dos preceitos da arte o que ele era

incapaz de fazer conforme todos vemosrdquo7 A recorrecircncia da censura a antepassados

insignes leva a conjecturar o recurso a certo expediente discursivo8 Pois para nos

atermos aos escritos voltados agrave arte edificatoacuteria eacute possiacutevel observar que Vitruacutevio natildeo

deixa de haurir das fontes dos arquitetos gregos recorrendo ao proacuteprio Piacutetio9 embora

o critique Igualmente a despeito das apreciaccedilotildees desfavoraacuteveis Alberti natildeo deixa de

3 Alberti L B ldquoDe Re Aedificatoriardquo (VI 1) p 441 ldquonanque dolebam quidem tam multa tamque praeclarissima

scriptorum monumenta interisse temporum hominumque iniuria ut vix unum ex tanto naufragio Vitruvium

superstitem haberemus scriptorem procul dubio instructissimum sed ita affectum tempestate atque lacerum ut

multis locis multa desint et multis plurima desideresrdquo 4 Alberti L B ldquoDe Re Aedificatoriardquo (VI 1) p 441 ldquoaccedebat quod ista tradidisset non culta sic enim

loquebatur ut Latini Graecum videri voluisse Graeci locutum Latine vaticinenturrdquo 5 Alberti L B ldquoDe Re Aedificatoriardquo (VI 1) p 441 ldquores autem ipsa in sese porrigenda neque Latinum neque

Graecum fuisse testetur ut par sit non scripsisse hunc nobis qui ita scripserit ut non intelligamusrdquo Traduccedilatildeo

ldquomas a proacutepria linguagem apresentada natildeo era testemunha nem do Latim nem do Grego pois se fosse

como a de seus pares natildeo teria escrito isso a noacutes assim de modo que natildeo entendecircssemosrdquo 6 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre I (I 1 15) p 12 ldquoigitur in hac re Pytheos errasse uideturrdquo 7 Cicero ldquoDe Inventionerdquo (I 8) p 18 ldquouerum oratori minimum est de arte loqui quod hic fecit multo maximum

ex arte dicere quod eum minime potuisse omnes uidemusrdquo 8 Cf Gueacuterin C ldquoCicero as User and Critic of Traditional Rhetorical Patterns structural authority from

De Inventione to De Oratorerdquo In Galewicz C (ed) Texts of Power The power of the Text ndash Readings in

Textual Authority Across History and Cultures Krakoacutew Homini 2006 p 79 9 Cf Vitr (VII pref 12)

17

ter Vitruacutevio como exemplo agrave composiccedilatildeo de seu De Re Aedificatoria mesmo entre tantas

contribuiccedilotildees que divergem do escrito antigo Ademais no prefaacutecio ao Livro V

Vitruacutevio justifica o modo de escrita adotado pela adequaccedilatildeo agrave dificuldade da mateacuteria

que trata cujo vocabulaacuterio se afasta da linguagem cotidiana requerendo uma elocuccedilatildeo

diversa daquelas de outros gecircneros de escrita como a histoacuteria e a poesia10

Essa sorte de indagaccedilatildeo norteou o Capiacutetulo Primeiro do presente trabalho em

que se procurou discutir alguns toacutepicos da construccedilatildeo do De Architectura

relativamente agrave sua adequaccedilatildeo a um sistema de escrita Vitruacutevio afirma que o arquiteto

deve ser litteratus e associa as litterae com a auctoritas de seu labor Mas em que medida

o arquiteto deve dispor dessa instruccedilatildeo Ciacutecero escreve no De Oratore que Filo o

arquiteto do arsenal ateniense expocircs ao povo as explicaccedilotildees sobre essa obra com

grande eloquecircncia (perdiserte) como orador e natildeo como construtor11 Mas a ratio

dicendi natildeo estaacute entre as erudiccedilotildees que Vitruacutevio recomenda ao arquiteto12 Se a chancela

a esse artiacutefice se daacute entre outros fatores pelo conhecimento das litterae resta que elas

constituem a chave de acesso agraves liccedilotildees legadas por comentaacuterios pelas obras dos

antepassados ilustres mas sobretudo agrave doutrina erigida pelo proacuteprio Vitruacutevio que

se pretende auctor e por meio de suas precisas prescriccedilotildees (praescriptiones terminatas)

10 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre V (I pref 1-2) p 1 ldquonon enim de architectura sic scribitur uti historia

aut poemata Historiae per se tenent lectores habent enim nouarum rerum uarias exspectationes Poematorum

uero carminum metra et pedes ac uerborum elegans dispositio et sententiarum inter personas distinctas uersuum

pronuntiatio prolectando sensus legentium perducit sine offensa ad summam scriptorum terminationem Id autem

in architecturae conscriptionibus non potest fieri quod uocabula ex artis propria necessitate concepta inconsueto

sermone obiciunt sensibus obscuritatemrdquo Traduccedilatildeo ldquopois natildeo se escreve sobre arquitetura assim como

histoacuteria ou poemas As histoacuterias por si mesmas retecircm os leitores jaacute que contam com vaacuterias expectativas

de coisas novas Os metros dos versos e os peacutes dos poemas assim como a disposiccedilatildeo elegante das

palavras e das frases entre pessoas distintas atraindo os sentidos dos leitores pela pronunciaccedilatildeo dos

versos conduz ateacute o teacutermino dos escritos sem obstaacuteculo Mas isso natildeo ocorre nos escritos sobre

arquitetura porque os vocaacutebulos concebidos pela necessidade proacutepria agrave arte lanccedilam obscuridade ao

discurso natildeo habitualrdquo 11 Cicero ldquoDe Oratorerdquo (I 62) p 46 12 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre I (I 1 18) p 14 ldquonamque non uti summus philosophus nec rhetor

disertus nec grammaticus summis rationibus artis exercitatus sed ut architectus his litteris imbutus haec nisus

sum scribererdquo Traduccedilatildeo ldquopois natildeo foi como sumo filoacutesofo nem como retor eloquente nem como sumo

gramaacutetico exercitado nas regras da arte mas como arquiteto que me esforcei em escrever estes

volumesrdquo

18

intenta expor nada menos que ldquotodas as regras da disciplinardquo (namque his uoluminibus

aperui omnes disciplinae rationes)13 segundo a amplificaccedilatildeo presente no primeiro

exoacuterdio

Agrave semelhanccedila das relaccedilotildees proporcionais existentes entre os membros de um

homem bem configurado pela natureza deve ser estabelecida a composiccedilatildeo dos

templos Cabe ao arquiteto portanto observar com a maacutexima diligecircncia a symmetria

entre as partes e o todo dos edifiacutecios sagrados que se constituem exempla para toda

sorte de edificaccedilatildeo Os comentadores falam em miacutemesis14 para essa transferecircncia

proposta entre o corpo do homem e a arquitetura Pocircde-se observar no Segundo

Capiacutetulo deste trabalho que o termo imitatio tomado muitas vezes como equivalente

latino da μίμησις (miacutemesis) grega estaacute em sete dos dez volumes do De Architectura e

em cinco dos sete livros voltados agrave aedificatio revelando que a noccedilatildeo perpassa boa parte

do corpus vitruviano Mas precisamente no Livro III que recomenda a composiccedilatildeo dos

templos em similitude agraves relaccedilotildees entre as partes do corpo do homem bem

configurado Vitruacutevio natildeo fala em imitatio tampouco emprega μίμησις (miacutemesis)

Aleacutem do que os usos que Vitruacutevio faz de imitatio natildeo coincidem exatamente com o

difiacutecil conceito de μίμησις (miacutemesis) e suas variantes presentes em diversos autores

gregos e mesmo nos filoacutesofos A descriccedilatildeo do homem vitruviano prima pela regulaccedilatildeo

meacutetrica que determina sua configuraccedilatildeo relacionada esta com as preocupaccedilotildees

voltadas aos sistemas de medidas (mensurarum rationes) baseados nos nuacutemeros

perfeitos Ao mesmo tempo eacute possiacutevel identificar no Livro dos Templos a

preceituaccedilatildeo de uma seacuterie de ajustes meacutetricos que alteram as relaccedilotildees proporcionais

anteriormente estabelecidas tendo por fim o aspecto da obra Assim o exame da trama

conceitual em torno da descriccedilatildeo do homo bene figuratus permite rever a formulaccedilatildeo

que recai na contradiccedilatildeo aparente entre um suposto rigor matemaacutetico e os ajustes

13 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre I (I pref 3) p 3 14 Cf Gros P ldquoLa geacuteomeacutetrie platonicienne de la notice vitruvienne sur lrsquohomme parfait (De Architectura

III 1 2-3)rdquo p 17 cf Cam M-T ldquoIntroductionrdquo in Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre VII p XXXV

cf Ferri S in Vitruvio ldquoArchitetturardquo n 4 p 168

19

meacutetrico-proporcionais que alteram essa ordenaccedilatildeo considerando-se que a rigidez

implacaacutevel dos nuacutemeros nunca esteve no horizonte do autor-arquiteto preocupado

mais com as relaccedilotildees de medidas e as concordacircncias pelo que se datildeo a ver

De acordo com Vitruacutevio natildeo basta que o arquiteto tenha auctoritas sendo

conhecedor das litterae ao mesmo tempo que instruiacutedo em variadas artes e disciplinas

Eacute preciso ainda que a obra seja autorizada e o templo eustilo pseudodiacuteptero pode

garantir autoridade (auctoritas) ao edifiacutecio a partir da disposiccedilatildeo de seu

deambulatoacuterio mais precisamente pelo aspectus que resulta da symmetria de seus

membros em concordacircncia com a distribuiccedilatildeo e a parcimocircnia no uso dos materiais

Vecirc-se pois que uma noccedilatildeo concernente ao acircmbito da ratio uenustatis ndash o aspectus ndash

dirige a auctoritas que se reivindica agrave obra pelo propoacutesito de dar a ver o efeito da

magna e aguda soleacutercia do arquiteto e deleitar Sendo que o aspectus promove a

autoridade da obra e ldquoa visatildeo persegue as venustidadesrdquo (uenustates enim persequitur

uisus)15 como conferir encanto agraves obras Eacute o que indagamos no Terceiro Capiacutetulo

percorrendo o preceituaacuterio vitruaviano que classifica os princiacutepios dos templos pelo

aspecto de sua configuraccedilatildeo (figurarum aspectus) aliado agrave divisatildeo posterior em species

pelas cinco modalidades de ritmaccedilotildees das colunas Observou-se que na descriccedilatildeo de

todas as partes do templo ndash base colunas e epistiacutelio ndash satildeo previstos ajustes eurriacutetmicos

cujo propoacutesito se vincula a preocupaccedilotildees visuais natildeo sem implicar enorme esforccedilo

teacutecnico Nessas passagens a noccedilatildeo de uenustas16 se evidencia por termos que evocam

15 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III (III 3 13) p 21 16 O termo uenustas adveacutem de uenus e segundo Pierre Gros eacute ldquocalcado diretamente sobre a deusa do

amor implicando uma relaccedilatildeo direta com a noccedilatildeo de prazerrdquo (Gros P ldquoVoluptas chez Vitruverdquo p

488) Segundo Ernout e Meillet ldquovenusrdquo designa ldquoo amor fiacutesico o instinto o apetite ou o ato sexualrdquo

(Ernout amp Meillet ldquoDictionnaire Eacutetymologique de la Langue Latinerdquo p 721) Haacute para ldquovenusrdquo o sentido

de conjunto de ldquoqualidades que excitam o amor a graccedila a seduccedilatildeo os encantos no plural traduz

χάριτες (khaacuterites)rdquo (ibid p 722) ldquoVenusrdquo pode se referir ainda agrave deusa do amor ldquocorrespondente latina

da Αφροδίτη (Aphrodiacutete) grega da qual tomou plenamente o sentidordquo (ibid p 722) Pierre Grimal

reitera essa posiccedilatildeo de que ldquoAfrodite eacute a deusa do amor identificada em Roma com a velha divindade

itaacutelica Vecircnusrdquo (Grimal ldquoDicionaacuterio de Mitologia Grega e Romanardquo p 10) De uenus adveacutem ainda o

adjetivo uenustus que indica a qualidade daquele ldquolsquoque possui ou que excita o amorrsquo [] e por

derivaccedilatildeo lsquodesejaacutevel sedutor amaacutevel graciosorsquordquo (Ernout amp Meillet op cit p 722) Enfim uenustas

aparece como mais uma derivaccedilatildeo e eacute sinocircnimo de seduccedilatildeo graccedila etc no De Architectura eacute o termo

empregado para designar o encanto que se daacute especialmente pelos olhos Beleza talvez seja a traduccedilatildeo

20

os olhos e a visatildeo ndash species aspectus aspiciens figura uisus oculus ndash que jaacute orbitavam as

definiccedilotildees fundamentais da arquitetura ndash ordinatio dispositio eurythmia symmetria

decor e distributio ndash com mais ou menos ecircnfase Com efeito diz-se que a eurythmia eacute

ldquouenusta speciesrdquo (a vista venusta) e ldquocommodus aspectusrdquo (o aspecto comensurado) a

symmetria ldquoo acordo conveniente dos membros da proacutepria obra entre si e a correlaccedilatildeo

de uma determinada parte dentre as partes separadas com a vista do conjunto da

figura (ad uniuersae figurae speciem)rdquo

Um fragmento grego chamado ldquoO que eacute o cenograacuteficordquo (Τί τό σκηνογρφιχόν)

de autoria incerta eacute frequentemente evocado pelos comentadores de Vitruacutevio pelo

menos desde o final do seacuteculo XIX para explicar os ajustes oacuteticos propostos Segundo

o autor do fragmento anocircnimo a finalidade do arquiteto eacute cuidar da εὐρυθμία

(eurythmiacutea) da obra propondo remeacutedios aos enganos dos olhos Entretanto em

Vitruacutevio a scaenographia diferente da σκενογραφία (skenographiacutea) do fragmento

grego estaacute associada a uma das modalidades da disposiccedilatildeo (dispositio) da obra e diz

respeito agrave produccedilatildeo de desenhos natildeo sendo vinculada diretamente a quaisquer dos

ajustes oacuteticos prescritos Procurou-se tambeacutem nessa parte do trabalho reconhecer

pontos de contato entre o exiacuteguo fragmento e o escrito vitruviano marcando as

mais usual agrave palavra latina no De Architectura adotada na ediccedilatildeo portuguesa de M J Maciel (ldquoTratado

de Arquiteturardquo - I 3 2 - p 82) na ediccedilatildeo francesa de Ph Fleury como ldquobeauteacuterdquo (Vitruve ldquoDe

LrsquoArchitecturerdquo Livre I - I 3 2 - p 20) e tambeacutem por Pierre Gros (Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre

III - III 3 13 - p 21) entre outros Eacute amplamente atestada em Ciacutecero (para nos atermos apenas ao

primeiro livro do De Oratore I 17 - ldquosubtili uenustaterdquo I 130 - ldquosumma uenustaterdquo I 142 ndash ldquocum dignitate

ac uenustaterdquo I 243 - ldquosumma festiuitate et uenustaterdquo I 251 - ldquogestum et uenustatemrdquo) e em Quintiliano

(apenas no Livro IX da Institutio Oratoria IX 33 - ldquouel ad uenustatem ipsardquo IX 60 - ldquounde etiam uenusti

transitus fiuntrdquo IX 66 - ldquoqui uenustatis modo gratia adhibeturrdquo IX 72 - ldquoacer uenustatemrdquo IX 145 -

ldquouenustatis et gratiaerdquo) Todavia como nos faz notar Pollitt pelo caraacuteter ldquomais mundanordquo uenustas se

distingue de pulchritudo mais proacutexima esta ao grego τὸ κάλλος (Pollitt J J ldquoThe Ancient View of Greek

Artrdquo p 448) De fato haacute algo na uenustas vitruviana que destoa por exemplo da pulchritudo superlativa

que Virgiacutelio atribui a Dido ldquoforma pulcherrima Didordquo (Virgiacutelio Eneida I 496) Pulcher natildeo ocorre no De

Architectura cuja ratio uenustatis parece divergir igualmente do τὸ κάλλος dos filoacutesofos A liacutengua

portuguesa dispotildeem dos vocaacutebulos ldquovenustordquo e ldquovenustidaderdquo que procuramos eleger

preferencialmente para verter uenustas no corpo deste trabalho porque aleacutem de guardarem grande

semelhanccedila morfoloacutegica ao termo latino podem ainda servir de balizamento agrave tentativa de preservar

tanto quanto possiacutevel a trama de significaccedilatildeo proacutepria ao De Architetura Pouco habituais na liacutengua

corrente moderna ldquovenustordquo e ldquovenustidaderdquo natildeo se mostram vinculados pelo uso a determinadas

doutrinas de artes ou esteacuteticas

21

distacircncias entre ambos e incluindo os usos divergentes que cada um faz dos termos

que se assemelham

Satildeo apresentados ainda dois apecircndices que fornecem paracircmetros agrave leitura do

De Architectura especialmente agraves questotildees aqui suscitadas O primeiro deles trata dos

ajustes meacutetricos na arquitetura antiga grega e romana baseando-se em obras de

estudiosos da aacuterea e nos escassos registros dessa dimensatildeo da antiga arte edificatoacuteria

que quase foi levada ao esquecimento O segundo apecircndice procura reunir elementos

de apoio agrave leitura da descriccedilatildeo do homo bene figuratus tomando por base a hipoacutetese

proposta por Tobin de interpretaccedilatildeo do Cacircnone de Policleto transmitido por Galeno

segundo dispositivos geomeacutetricos e teacutecnicos supostos agrave elaboraccedilatildeo da estatuaacuteria Essa

hipoacutetese permite pensar possiacuteveis pontos de contato e de distanciamento do Cacircnone

de Policleto agraves passagens em que satildeo elencadas as proporccedilotildees do homem vitruviano

Capiacutetulo 1

DE ARCHITECTVRA E RETOacuteRICA

23

1 DE ARCHITECTVRA E RETOacuteRICA

O Livro Primeiro do De Architectura apresenta as instruccedilotildees a que o arquiteto

deve recorrer para desempenhar a sua arte A seacuterie de nove disciplinas enumeradas se

inicia com a afirmaccedilatildeo de que o arquiteto deve ser litteratus precedida pela advertecircncia

de que sem letras (sine litteris) seria impossiacutevel conferir autoridade (auctoritas) ao labor

Por mais distante que a sutileza das letras possa se afigurar em relaccedilatildeo aos penosos

procedimentos que constituem a arte de edificar ndash pela lida com materiais brutos e em

dimensotildees que podem alcanccedilar o colosso ndash haacute algo nelas de que o arquiteto natildeo pode

prescindir O fazer (fabrica) e o raciocinar (ratiocinatio) se conjugam em muacutetua

implicaccedilatildeo de modo que a operaccedilatildeo das matildeos que fabricam pressupotildee meditaccedilatildeo e

propositum enquanto a ratiocinatio desempenhada com soleacutercia e meacutetodo (ratio)

depende da mateacuteria das res fabricatas O arquiteto precisa portanto de ambos ndash fabrica

e ratiocinatio ndash para assegurar auctoritas ao intento Mas como podem as letras deter o

primeiro posto na seacuterie de erudiccedilotildees prescritas Vitruacutevio aproxima as litterae agrave

ratiocinatio por oposiccedilatildeo agrave fabrica expondo que ambos os polos satildeo imprescindiacuteveis agrave

arte edificatoacuteria

Aleacutem das disciplinas que se somam ao engenho do arquiteto deve-se atentar

ainda para uma face do De Architectura menos visiacutevel ao leitor pouco afeito agraves

convenccedilotildees de escrita da eacutepoca de Vitruacutevio que no entanto regulam a preceptiva

explicando algumas de suas escolhas O cuidado com a doutrina inserida num

conjunto de transmissatildeo de obras escritas com relaccedilatildeo a qual natildeo se medem esforccedilos

24

no intento de fazecirc-la autorizada revela que a disciplina do arquiteto necessita ainda

se ancorar em preceitos estabelecidos para obter auctoritas

11 Auctoritas e Litterae

A ciecircncia1 do arquiteto eacute guarnecida por muitas disciplinas (pluribus disciplinis)

e instruccedilotildees variadas (uariis eruditionibus) ndash satildeo as palavras que iniciam o Livro

Primeiro do De Architectura Ressoando a toacutepica retoacuterica de variedade e copiosidade2

propotildee-se agrave disciplina abarcar territoacuterios diversos mas comunicantes entre si O

julgamento do arquiteto prova das outras artes como quem experimenta ou toma um

pouco de algo para lhe examinar o sabor mas tambeacutem e talvez principalmente no

1 Quintiliano tambeacutem define a retoacuterica como ciecircncia ldquoars erit quae disciplina percipi debet ea est bene dicendi

scientiardquo (Quintiliano II 14 5) Traduccedilatildeo ldquoa arte [retoacuterica] eacute o que deve ser apreendido pelas instruccedilotildees

ela eacute a ciecircncia do dizer bemrdquo Beatriz Vasconcelos aponta um uso sinocircnimo de ciecircncia e arte que

remontaria aos estoicos Zenatildeo e Cleantes por oposiccedilatildeo agrave distinccedilatildeo aristoteacutelica entre ciecircncia (episteacuteme) e

arte (teacutechne) (Vasconcelos ldquoCiecircncia do dizer bemrdquo n 13 p 61) 2 Segundo Ciacutecero variedade e copiosidade satildeo centrais ao orador ldquonunquam enim negabo esse quasdam

artes proprias eorum qui in his cognoscendis atque tratandis studium suum omne posuerunt sed oratorem

plenum et perfectum esse eum dicam qui de omnibus rebus possit varie copioseque dicererdquo (Cicero ldquoDe Oratorerdquo

I 59 p 44) Traduccedilatildeo ldquocom efeito jamais negarei a existecircncia de determinadas artes proacuteprias daqueles

que depositaram todos os seus esforccedilos no aprendizado e tratamento de tais coisas mas o orador

completo e perfeito eacute aquele capaz de falar sobre todos os assuntos de maneira variada e abundanterdquo

(Scatolin A ldquoA invenccedilatildeo no Do Orador de Ciacutecero um estudo agrave luz de Ad Familiares I 9 23rdquo p 157) Cf

ainda Cicero ldquoDe Oratorerdquo (I 16) (I 85) (I 262) Variedade e copiosidade nos estudos por outro lado

satildeo marcas do modo de investigaccedilatildeo da filosofia uma sorte de procriadora de todas as artes escrevera

Ciacutecero ldquoneque enim te fugit artium omnium laudatarum procreatricem quamdam et quasi parentem eam quam

φιλοσοφίαν Graeci vocant ab hominibus doctissimis iudicari in qua difficile est enumerare quot viri quanta

scientia quantaque in suis studiis varietate et copia fuerint qui non una aliqua in re separatim elaborarint sed

omnia quaecumque possent uel scientiae peruestigatione vel desserendi ratione comprehenderintrdquo (Cicero ldquoDe

Oratorerdquo I 9 p 8) Na traduccedilatildeo para o portuguecircs de Scatolin ldquonatildeo ignoras com efeito o fato de os

mais doutos julgarem aquela que os gregos chamam philosophiacutea a procriadora por assim dizer e como

que matildee de todas as artes de valor nela eacute difiacutecil enumerar quantos homens de grande saber e grande

variedade e abundacircncia em seus estudos houve que natildeo trabalharam isoladamente sobre um uacutenico

tema mas abarcaram tudo o que lhes era possiacutevel fosse por meio da investigaccedilatildeo cientiacutefica fosse da

dialeacuteticardquo (Scatolin A ldquoA invenccedilatildeo no Do Orador de Ciacutecero um estudo agrave luz de Ad Familiares I 9 23rdquo

p 150) Sobre a uarietas no discurso cf ainda Quintiliano Institutio Oratoria I 12 4

25

sentido de que se vale de conhecimentos aprovados isto eacute bem sucedidos quando

postos agrave prova3 estabelecidos

Para Vitruacutevio a ciecircncia do arquiteto nasce do fazer e do raciocinar (ea nascitur

ex fabrica et ratiocinatione) Menos que fases sucessivas essas duas dimensotildees se

completam a ponto de imiscuir-se conferindo autoridade ao arquiteto ldquomas aqueles

que aprenderam a fundo uma e outra coisa como que ornados de armamentos mais

facilmente alcanccedilaram o propoacutesito com autoridaderdquo4

Se o que se segue ao empreendimento duplo de fabrica e ratiocinatio5 eacute a

autoridade (auctoritas) coroando o propoacutesito buscado pelo arquiteto aqueles no

entanto que se fiaram exclusivamente nos pensamentos e nas letras como que

perseguem a sombra e natildeo a proacutepria coisa afirma Vitruacutevio6 Jaacute os arquitetos que

prescindiram das letras (litteris) esforccedilando-se em exercitar as matildeos natildeo puderam

conferir auctoritas ao labor7

3 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre I (I 1 1) p 4 ldquoArchitecti est scientia pluribus disciplinis et uariis

eruditionibus ornata cuius iudicio probantur omnia quae ab ceteris artibus perficiuntur operardquo Traduccedilatildeo ldquoA

ciecircncia do arquiteto eacute ornada de muitas disciplinas e variadas instruccedilotildees seu julgamento prova tudo o

que perfaz as obras de outras artesrdquo Cf Ernout A amp Meillet A ldquoDictionnaire eacutetymologique de la

langue latine - histoire des motsrdquo verbete ldquoprobusrdquo p 950 Cf ainda Bluteau R ldquoVocabulario

Portuguez e Latinordquo verbetes ldquoprovardquo p 799 e ldquoprovarrdquo p 800 4 Ibid (I 1 2) p 4 ldquoat qui utrumque perdidicerunt uti omnibus armis ornati citius cum auctoritate quod fuit

propositum sunt adsecutirdquo 5 Elisa Romano afirma que natildeo haacute uma distinccedilatildeo niacutetida entre os dois conceitos de modo que ldquoa fabrica

pressupotildee o propositum enquanto a ratiocinatio parece pressupor as res fabricataerdquo (Romano E ldquoLa

capana e il tempiordquo p 53) Para a comentadora a pouca precisatildeo na definiccedilatildeo de ambos os termos

impede que se reduza ratiocinatio a mero comentaacuterio de fabrica (ibid p 53) De fato a presunccedilatildeo da

posterioridade do conceito de ratiocinatio em relaccedilatildeo ao de fabrica parece afastar-se dos

desenvolvimentos expostos no De Architectura 6 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre I (I 1 2) p 4 ldquoqui autem ratiocinationibus et litteris solis confisi

fuerunt umbram non rem persecuti uidenturrdquo Traduccedilatildeo ldquovecirc-se que aqueles que se fiaram somente nos

raciociacutenios e nas letras perseguem a sombra e natildeo a coisardquo 7 Ibid (I 1 2) p 4 ldquoitaque architecti qui sine litteris contenderant ut manibus essent exercitati non potuerunt

efficere ut haberent pro laboribus auctoritatemrdquo Traduccedilatildeo ldquoassim os arquitetos que se esforccedilaram sem os

conhecimentos obtidos pelos livros como tivessem apenas as matildeos exercitadas natildeo puderam garantir

autoridade aos trabalhosrdquo

26

Sustenta-se ainda que o arquiteto deve ser conhecedor das letras para que a

memoacuteria seja reforccedilada por meio de comentaacuterios8 Mas se trata da memoacuteria do

arquiteto a ser reforccedilada ou de uma memoacuteria a ser deixada agrave posteridade9 Quer se

entenda comentariis como apontamentos de utilizaccedilatildeo do artiacutefice quer como

elaboraccedilatildeo a ser divulgada resta que o arquiteto deve natildeo apenas ser letrado mas

ldquohaacutebil em desenho instruiacutedo em geometria deve conhecer muitas histoacuterias ter ouvido

os filoacutesofos com diligecircncia saber de muacutesica natildeo ser ignorante em medicina conhecer

as decisotildees dos jurisconsultos ter conhecimentos de astrologia e dos sistemas celestesrdquo10

ndash instruccedilotildees difundidas em boa medida por meio de escritos

111 Encyclios disciplina

As instruccedilotildees variadas e copiosas constituem como que os degraus a serem

transpostos por aqueles que almejam alccedilar-se ao templo da arquitetura e poderaacute

parecer admiraacutevel aos pouco versados na mateacuteria que a natureza tivesse permitido a

aprendizagem de tal nuacutemero de doutrinas (tantum numerum doctrinarum)11 e sua

retenccedilatildeo na memoacuteria Vitruacutevio diz que os leigos (inperitis) acreditaratildeo facilmente que

possa ser assim tatildeo logo observarem que todas essas disciplinas possuem elementos

de ligaccedilatildeo e compartilhamento Ademais natildeo eacute possiacutevel declarar-se legitimamente

arquiteto de suacutebito sem ter sido nutrido por muitas letras e artes desde tenra idade

8 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre I (I 1 4) p 5 ldquolitteras architectum scire oportet uti commentariis

memoriam firmiorem efficere possitrdquo Traduccedilatildeo ldquoconveacutem ao arquiteto saber letras para que possa tornar a

memoacuteria mais firme por meio de comentaacuteriosrdquo 9 Sobre os sentidos possiacuteveis de comentarii cf Ph Fleury in ibid n I p 71 Sobre a memoacuteria como

parte da retoacuterica cf sobretudo a anocircnima Retoacuterica a Herecircnio (III 28-40) o De Oratore (II 350-360) de

Ciacutecero e a Institutio Oratoria de Quintiliano (XI 2 1-51) 10 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre I (I 1 3) p 5 ldquoet ut litteratus sit peritus graphidos eruditus

geometria historias complures nouerit philosophos diligenter audierit musicam scierit medicinae non sit

ignarus responsa iurisconsultorum nouerit astrologiam caelique rationes cognitas habeatrdquo O Livro VII

apresenta exaustiva listagem de auctores muitos dos quais tendo deixado obras escritas ou comentaacuterios

cf n 52 infra 11 Ibid (I 1 12) p 10

27

afirma O conjunto de erudiccedilotildees que compotildeem a disciplina do arquiteto perfaz-se

entatildeo corpo unitaacuterio constituiacutedo a partir de seus membros as mateacuterias ancilares

encyclios enim disciplina uti corpus unum ex his membris est composita12

O autor latino faz menccedilatildeo a Piacutetio apresentado como construtor do notaacutevel

templo de Priene dedicado a Minerva em cujos comentaacuterios teria sustentado que o

arquiteto deve ultrapassar em todas as artes e doutrinas o estaacutegio obtido por aqueles

que se dedicam particularmente a alguma delas Mas tal posiccedilatildeo eacute rechaccedilada por

Vitruacutevio

o arquiteto natildeo deve e nem mesmo pode ser gramaacutetico como tinha sido Aristarco ainda

assim natildeo deve ser desconhecedor de gramaacutetica natildeo deve ser muacutesico como Aristoacutexeno

12 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre I (I 1 12) p 10 Traduccedilatildeo ldquopois o ciclo da disciplina eacute composto

como que por um corpo uacutenico a partir de seus membrosrdquo Quintiliano por sua vez afirma que o engenho

humano eacute aacutegil e veloz a ponto de permitir que se dedique a coisas diversas natildeo apenas no mesmo dia

mas no mesmo momento ldquosed non satis perspiciunt quantum natura humani ingenii ualeat quae ita est agilis

ac uelox sic in omnem partem ut ita dixerim spectat ut ne possit quidem aliquid agere tantum unum in plura

uero non eodem die modo sed eodem temporis momento uim suam intendatrdquo (Quintilien ldquoInstitution

Oratoirerdquo I 12 2 p 148) Assim tambeacutem escreve o citaredo recorre simultaneamente agrave memoacuteria cuida

da voz e das inflexotildees tange as cordas do instrumento variando as posiccedilotildees aleacutem de marcar o ritmo

com os peacutes an uero citharoedi non simul et memoriae et sono uocis et plurimis flexibus seruiunt cum interim

alios neruos dextra percurrent alios laeua trahunt continent praebent ne pes quidem otiosus certam legem

temporumseruat et haec pariter omniardquo (Quintilien ldquoInstitution Oratoirerdquo I 12 3 p 148) A variedade

restaura o acircnimo e separar os estudos de gramaacutetica geometria muacutesica latim e grego seria o mesmo

que persuadir um agricultor a natildeo cultivar simultaneamente as lavouras as vinhas as oliveiras e

aacutervores ldquoquae si uelut sub uno conatu tam diuersa parent simul cur non pluribus curis horas partiamur cum

praesertim reficiat animos ac reparet uarietas ipsa contraque sit aliquando difficilius in labore uno

perseuerare[] Grammatico soli deseruiamus deinde γεωμέτρῃ tantum omittamus interim quod didicimus

Mox transeamus ad musicum excidant priora Et cum latinis studebimus litteris non respiciamus ad graecasut

semel finiam nihil faciamus nisi nouissimum Cur non idem suademus agricolis ne arua simul et uineta et oleas

et arbustum colant Ne pratis et pecoribus et hortis et aluearibus et auibusque accomodent curamrdquo (Quintilien

ldquoInstitution Oratoirerdquo I 12 4-7 p 148-149) Quintiliano fala em ldquoἐγκύκλιος παιδείαrdquo (encyclios paideiacutea)

com relaccedilatildeo agraves artes que devem ser ensinadas agraves crianccedilas antes da retoacuterica (Institutio Oratoria - I 10 1 -

p 131) Segundo Ilsetraut Hadot tanto para Quintiliano (Livros II e XII) quanto para Vitruacutevio os

estudos recomendados ldquonatildeo correspondem nem um pouco a um ensino lsquocorrentersquo ou lsquohabitualrsquordquo

(Hadot I ldquoArts libeacuteraux et philosophie dans la penseacutee antiquerdquo p 267) destinados a uma minoria

Ainda segundo a estudiosa ldquoos termos enkuklios disciplina e enkuklios paideia designam portanto um

percurso de estudos unificados pelo meacutetodo e estrutura que eacute preciso percorrer e acabar para que se

tenha uma educaccedilatildeo completa eacute de algum modo um lsquociclorsquordquo (ibid p 268) Quando Pliacutenio o Velho fala

em ldquoτῆς ἐγκυκλίου παιδείαςrdquo (Pline LrsquoAncien Histoire Naturelle - I 14 - p 51) refere-se igualmente

a uma aprendizagem que ultrapassa qualquer educaccedilatildeo corriqueira mas em um sentido que engloba o

escopo de sua Histoacuteria Natural abrangendo desde a astronomia a geografia etnologia ateacute zoologia

botacircnica farmacologia artes etc

28

mas natildeo de todo alheio aos conhecimentos musicais natildeo deve ser pintor como Apeles

nem por isso incompetente em desenho natildeo deve ser escultor como foram Miacuteron ou

Policleto mas natildeo deve ignorar os meacutetodos de plasmar natildeo deve ainda ser meacutedico

como Hipoacutecrates nem por isso deve ser total desconhecedor de medicina13

Tambeacutem com relaccedilatildeo agraves outras doutrinas tomadas singularmente Vitruacutevio natildeo

recomenda a excelecircncia senatildeo algum conhecimento14 Eacute difiacutecil obter aprofundamentos

especiacuteficos diante da variedade de campos E os arquitetos natildeo podem conseguir

grandes feitos em tantas aacutereas Nem mesmo aqueles que dominam uma arte em

particular tecircm garantias de uma louvaacutevel proeminecircncia15 Ora se em cada doutrina

tomada isoladamente poucos artiacutefices atingiram a excelecircncia como esperar do

arquiteto versado em diversas artes que supere aqueles que se distinguiram com

exclusividade a alguma

Se o fazer e o raciocinar (fabrica et ratiocinatio) estatildeo na origem da disciplina do

arquiteto16 outro binocircnio apresentado na sequecircncia do texto eacute ingenium et disciplina

(engenho e instruccedilatildeo) atributos esperados do arquiteto os quais pela presenccedila

conjunta satildeo fiadores do artiacutefice perfeito17 E tal como apontado por Elisa Romano18

esse mesmo par ingenium et disciplina toma parte no cerne do debate apresentado no

13 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre I (I 1 13) p 11 ldquonon enim debet nec potest esse architectus

grammaticus uti fuerit Aristarchus sed non agrammatus nec musicus ut Aristoxenus sed non amusos nec pictor

ut Apelles sed graphidos non inperitus nec plastes quemadmodum Myron seu Polyclitus sed rationis plasticae

non ignarus nec denuo medicus ut Hippocrates sed non aniatrologetusrdquo 14 Ibid (I 1 13) p 11 ldquonec in ceteris doctrinis singulariter excellens sed in his non inperitusrdquo Traduccedilatildeo

ldquonem [deve o arquiteto] ser excelente em outras doutrinas tomadas singularmente mas delas natildeo deve

ser desconhecedorrdquo 15 Ibid (I 1 14) p 11 ldquonec tamen non tantum architecti non possunt in omnibus rebus habere summum

effectum sed etiam ipsi qui priuatim proprietates tenent artium non efficiunt ut habeant omnes summum laudis

principatumrdquo Traduccedilatildeo ldquotodavia nem apenas os arquitetos natildeo podem ter o mais elevado resultado em

todas as mateacuterias como ainda nem todos aqueles que desempenham especificamente uma arte

conseguem a suma primazia do louvorrdquo 16 Cf n 5 supra 17 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre I (I 1 3) p 5 ldquoQuare uidetur utraque parte exercitatus esse debere

qui se architectum profiteatur Itaque eum etiam ingeniosum oportet esse et ad disciplinam docilem neque enim

ingenium sine disciplina aut disciplina sine ingenio perfectum artificem potest efficererdquo Traduccedilatildeo ldquopor isso

vecirc-se que aquele que venha a se professar arquiteto deva ser exercitado em ambas as partes Pois

conveacutem que seja engenhoso e disposto agrave instruccedilatildeo com efeito nem engenho sem instruccedilatildeo nem

instruccedilatildeo sem engenho pode fazer um artiacutefice perfeitordquo 18 Romano Elisa ldquoLa capanna e il tempio Vitruvio o Dellrsquoarchitetturardquo p 57 58

29

De Oratore de Ciacutecero cujos personagens principais se dividem justamente em torno da

defesa de um conhecimento vasto por parte do orador como propotildee Crasso de um

lado ou da praacutetica forense aliada aos dotes naturais como quer Antocircnio de outro

Ciacutecero fala em ldquoingenium et cogitatiordquo19 e tambeacutem ldquoingenium et doctrinardquo20 E ainda que

Vitruacutevio faccedila menccedilatildeo agrave Ciacutecero21 como um contemporacircneo cuja memoacuteria prevecirc perene

em funccedilatildeo do quilate de sua obra eacute difiacutecil afirmar que tenha se amparado diretamente

na discussatildeo ampla desenvolvida no De Oratore dadas as disparidades nas inflexotildees

De todo modo ambas as obras compartilham o fato de abordarem a questatildeo dos

conhecimentos necessaacuterios respectivamente ao orador e ao arquiteto Vitruacutevio

afirmava que ldquoarchitecti est scientia pluribus disciplinis et uariis eruditionibus ornatardquo22 ao

passo que Ciacutecero escrevera acerca da eloquecircncia ldquoest enim et scientia comprehendenda

rerum plurimarum sine qua uerborum uolubilitas inanis atque irridenda estrdquo23 Jaacute se pode

entrever aiacute um possiacutevel ponto de distanciamento entre as artes do arquiteto e do

orador a palavra Mais precisamente o uso que se faz dela Pois o discurso se constroacutei

com palavras a arquitetura natildeo No prefaacutecio ao Quinto Volume Vitruacutevio afirma que

a escrita sobre arquitetura natildeo se apresenta de pronto sem embaraccedilos Escrever sobre

arquitetura natildeo eacute como escrever segundo o gecircnero histoacuteria ndash que cativa o leitor pela

expectativa ndash ou poemas ndash que provocam os sentidos pela meacutetrica e pela pronunciaccedilatildeo

ndash envolvendo vocaacutebulos e conceitos incomuns ao uso cotidiano

mas isso natildeo ocorre nos escritos sobre arquitetura porque os vocaacutebulos concebidos pela

necessidade proacutepria agrave arte lanccedilam obscuridade ao discurso natildeo habitual Como eles

entatildeo por si mesmos natildeo satildeo evidentes nem se expotildeem nas palavras costumeiras

19 Cicero ldquoDe Oratorerdquo (I 14) p 12 20 Ibid (I 22) p 16 21Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre IX (IX pref 17) p 8-9 ldquoItem plures post nostram memoriam

nascentes cum Lucretio uidebuntur uelut coram de rerum natura disputare de arte uero rhetorica cum Ciceronerdquo

Segundo a traduccedilatildeo de Maciel ldquode fato muitos que nasceratildeo depois de nossa eacutepoca seratildeo vistos a

dissertar sobre a natureza das coisas juntamente com Lucreacutecio como se ele estivesse presente ou sobre

a arte da retoacuterica com Ciacutecerordquo (Vitruacutevio Tratado de Arquitetura p 434) 22 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre I (I 1 1) p 4 cf n 3 supra 23 Cicero ldquoDe Oratorerdquo (I 17) p 12-14 Traduccedilatildeo De fato deve-se adquirir o conhecimento de inuacutemeros

assuntos sem o qual o fluxo de palavras eacute vazio e ridiacuteculordquo (Scatolin A ldquoA invenccedilatildeo no Do Orador de

Ciacutecero um estudo agrave luz de Ad Familiares I 9 23rdquo p 150)

30

segue que se os escritos que discorrem longamente sobre os preceitos natildeo forem

condensados e explicados em poucas e claras proposiccedilotildees a quantidade e a

multiplicidade do discurso tornaraacute incerta a compreensatildeo do leitor 24

De outra parte no De Oratore Ciacutecero faz notar a escassez de homens dignos de

admiraccedilatildeo na oratoacuteria25 e a resposta para o exiacuteguo nuacutemero de oradores se deve agrave

ldquoincriacutevel magnitude e dificuldade dessa arterdquo26 que eacute ldquocomposta de muitas artes e

campos de estudordquo27 Mas se a arquitetura envolve difficiles quaestiones de symmetria

para mencionar apenas o campo da geometria28 a ratio dicendi se mostra ldquoao alcance

de todosrdquo29 e

diz respeito a uma praacutetica de certa maneira geral bem como aos costumes e agraves

conversas cotidianas dos homens de modo que nas demais [artes] sobressaia-se

sobretudo aquele que estiver mais afastado do entendimento e juiacutezo dos ignorantes na

oratoacuteria o viacutecio maior seja apartar-se do gecircnero comum de discurso e do costume da

opiniatildeo geral30

Nesse ponto De Architectura e De Oratore que partiam ambos da investigaccedilatildeo

do que possa concernir ao domiacutenio de suas respectivas artes ndash o que deve saber o

24 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre V (I pref 2) p 1-2 ldquoid autem in architecturae conscriptionibus non

potest fieri quod uocabula ex artis propria necessitate concepta inconsueto sermone obiciunt sensibus

obscuritatem Cum ergo ea per se non sint aperta nec pateant eorum in consuetudine nomina tum etiam

praeceptorum late uagantes scripturae si non contrahentur et paucis et perlucidis sententiis explicentur

frequentia multitudineque sermonis impediente incertas legentium efficient cogitationesrdquo 25 Cicero ldquoDe Oratorerdquo (I 6) p 6 ldquoAc mihi quidem saepenumero in summus homines ac summis ingeniis

praeditos intuenti quaerendum esse uisum est quid esset cur plures in omnibus artibus quam in dicendo

admirabiles exsistissentrdquo Traduccedilatildeo ldquoquanto a mim atentando inuacutemeras vezes aos homens mais

eminentes e dotados dos mais eminentes talentos pareceu-me apropriado perguntar o motivo de haver

mais pessoas dignas de admiraccedilatildeo nas demais atividades do que na oratoacuteriardquo (Scatolin A ldquoA invenccedilatildeo

no Do Orador de Ciacutecero um estudo agrave luz de Ad Familiares I 9 23 p 149) 26 Scatolin A ldquoA invenccedilatildeo no Do Orador de Ciacutecero um estudo agrave luz de Ad Familiares I 9 23rdquo p 150

Em latim Cicero ldquoDe Oratorerdquo (I 16) p 12 ldquorei quandam incredibilem magnitudem ac difficultatemrdquo 27 Cicero ldquoDe Oratorerdquo (I 16) p 12 ldquoet pluribus ex artibus studiisque collectumrdquo 28 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre I (I 1 4) p 6 ldquodifficilesque symmetriarum quaestiones geometricis

rationibus et methodis inueniunturrdquo Traduccedilatildeo ldquoe as difiacuteceis questotildees das symmetriae satildeo resolvidas por

procedimentos geomeacutetricosrdquo 29 Scatolin A op cit p 149 Cicero ldquoDe Oratorerdquo (I 12) p 10 ldquodicendi autem omnis ratio in medio positardquo 30 Ibid p 149 150 Cicero ldquoDe Oratorerdquo (I 12) ldquo[] communi quodam in usu atque in hominum more et

sermone uersatur ut in ceteris id maxime excellat quod longissime sit ab imperitorum intellegentia sensuque

disiunctum in dicendo autem uitium uel maximum sit a uulgari genere orationis atque a consuetudine communis

sensus abhorrererdquo

31

arquiteto e o orador ndash mostram-se em certo sentido invertidos como em filme

negativo um do outro A escrita de Vitruacutevio malgrado a inserccedilatildeo dos prefaacutecios

fazendo as vezes de lumes no conjunto do texto eacute plana aacuterida quase desprovida de

ornamentos gramaticais e elaboraccedilotildees linguiacutesticas refinadas tal como conveacutem ao

gecircnero didaacutetico quando trata de uma mateacuteria cujo pormenor eacute alheio ao entendimento

comum Por outro lado a obra de Ciacutecero preconiza que o orador precisa estar inserido

no modo usual de discurso acessiacutevel agrave compreensatildeo geral A exposiccedilatildeo ciceroniana

todavia emana sofisticaccedilatildeo em sua escrita repleta dos mais diversos recursos verbais

a comeccedilar pela escolha da forma diaacutelogo que por si soacute potildee uma seacuterie de questotildees

relativamente agrave formaccedilatildeo do orador especialmente se confrontada ao modo de

exposiccedilatildeo de obras que mais se assemelham a manuais como a Retoacuterica agrave Herecircnio ou

mesmo o De Inuentione escrito de juventude de Ciacutecero que adotava procedimento

diverso31

112 O arquiteto e o orador

Quando Vitruacutevio afirmava que o arquiteto deve ser litteratus e que conveacutem ao

arquiteto ldquosaber letrasrdquo (litteras architectum scire oportet)32 em que medida o fazia As

letras seriam estritamente o meio pelo qual o arquiteto pode se informar das demais

instruccedilotildees preparar notas e comentaacuterios enfim satildeo elas mais um dos instrumentos de

31 Por sinal explicitamente recusado por Ciacutecero na obra de 55 ldquoVis enim ut mihi saepe dixisti quoniam

quae pueris aut adolescentulis nobis ex commentariolis nostris inchoata ac rudia exciderunt uix hac aetate digna

et hoc usu quem ex causis quas diximus tot tantisque consecuti sumus aliquid eisdem de rebus politius nobis

perfectiusque proferrirdquo (Cicero ldquoDe Oratorerdquo - I 5 - p 4-6) Traduccedilatildeo ldquode fato como me disseste vaacuterias

vezes pretendes pelo fato de os escritos que escaparam incompletos e grosseiros de nossos

apontamentos quando eacuteramos meninos ou adolescentes mal serem dignos desta nossa idade e desta

experiecircncia que granjeamos em tantas e tatildeo importantes causas defendidas que publiquemos algo mais

refinado e completo acerca do mesmo temardquo (Scatolin A ldquoA invenccedilatildeo no Do Orador de Ciacutecero um

estudo agrave luz de Ad Familiares I 9 23rdquo p 148) 32 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre I (I 1 4) p 5

32

que se vale Ou o arquiteto ldquoliteratordquo eacute aquele que possui um saber amplo que

ultrapassa o territoacuterio restrito da sua arte

No De Oratore Crasso lanccedila o exemplo de Filo que aleacutem de arquiteto eacute conhecedor

da eloquecircncia

de fato se eacute sabido que Filo o ceacutelebre arquiteto que construiu o arsenal para os atenienses

prestou contas de sua obra ao povo de maneira extremamente eloquente nem por isso

deve-se considerar que sua eloquecircncia era devida antes agrave habilidade de arquiteto do que agrave

de orador33

Segundo esse registro Filo reuniria duas habilidades em simultacircneo ndash a de

arquiteto e a de orador Retomemos do diaacutelogo ciceroniano em linhas gerais as

atribuiccedilotildees debatidas em torno da segunda arte mencionada para que possamos

avaliar em que medida esse arquiteto-orador poderia se relacionar ao arquiteto

litteratus proposto por Vitruacutevio

A magnitude e dificuldade da arte do orador diz Ciacutecero resultam do

conhecimento de assuntos variados (et scientia comprehendenda rerum plurimarum) do

proacuteprio arranjo das palavras da comoccedilatildeo (animorum motus) cujos dispositivos

naturais devem ser conhecidos jaacute que toda a forccedila e o funcionamento da arte do dizer

daacute-se acalmando e excitando as mentes daqueles que ouvem34 Conveacutem ainda ao

orador escreve Ciacutecero alguma jovialidade faceacutecia erudiccedilatildeo digna de um homem

livre rapidez e concisatildeo no responder e no atacar graciosidade na sutileza e

33 Scatolin A ldquoA invenccedilatildeo no Do Orador de Ciacutecero um estudo agrave luz de Ad Familiares I 9 23rdquo p 158

Cicero ldquoDe Oratorerdquo (I 62) p 46 ldquoneque enim si Philonem illum architectum qui Atheniensibus

armamentarium fecit constat perdiserte populo rationem operis sui reddidisse existimandum est architecti

potius artificio disertum quam oratoris fuisserdquo 34 Ciacutecero aqui parece referir-se ao esquema encontrado na Retoacuterica de Aristoacuteteles e em textos posteriores

ligados a chamada escola peripateacutetica segundo a qual se propotildee trecircs tipos de persuasatildeo pelo proacuteprio

discurso em seu raciociacutenio (διὰ τοῦ λόγου) pelo caraacuteter (διὰ τοῦ ἤθους) pelas paixotildees (διὰ τοῦ

πάθους) cf Aristoacuteteles Retoacuterica 1356a Essa divisatildeo natildeo se encontra em manuais como A Retoacuterica a

Herecircnio ou no De Inuentione do proacuteprio Ciacutecero (cf Gueacuterin C ldquoCicero as User and Critic of Traditional

Rhetorical Patterns structural authority from De Inventione to De Oratorerdquo p 78) e culminaratildeo na

foacutermula recorrente de ldquodocere delectare e mouererdquo Cf tambeacutem ldquoDe Oratorerdquo (I 60) p 44 ldquo[] oratio ad

sensus animorum atque motus uel inflammandos uel etiam exstinguendos (quod unum in oratore dominatur)rdquo

33

urbanidade35 O orador deve observar ainda os exemplos dos antigos conhecer as leis

e o direito civil Os gestos e movimentos corporais expressatildeo facial e articulaccedilatildeo da

voz tambeacutem devem ser considerados pelo orador bem como a memoacuteria ldquoguardiatilde das

coisas e palavras descobertas e pensadasrdquo36

Diante desse programa vasto proposto ao orador como um arquiteto poderia

ser versado simultaneamente na arte de construir e na oratoacuteria Pois para Crasso

personagem do De Oratore o orador completo deve estar apto a tratar de todo e

qualquer assunto e natildeo apenas das disputas judiciais diante do povo ou do senado37

ldquodo que quer que se trate qualquer que seja a arte qualquer que seja o gecircnero o

orador se o estudar tal como a causa de um cliente falaraacute melhor e com mais distinccedilatildeo

do que o proacuteprio especialista no assuntordquo38

Seria uma posiccedilatildeo proacutexima agravequela que Vitruacutevio atribui a Piacutetio sobre a formaccedilatildeo

do arquiteto Natildeo parece pois na visatildeo reportada de Piacutetio o arquiteto poderia avanccedilar

mais em alguma das artes que compotildeem a arquitetura do que os proacuteprios artiacutefices que

a elas se dedicam integralmente No caso de Crasso trata-se de se informar sobre

qualquer tema requerido ao discurso Afinal como seria possiacutevel discursar contra ou

a favor de um comandante sem o conhecimento das praacuteticas militares ou mesmo sem

conhecimento das regiotildees terrestres ou mariacutetimas A resposta vem por analogia os

saberes da matemaacutetica da fiacutesica e das demais artes satildeo proacuteprios daqueles que a elas se

dedicam mas se eles quiserem iluminar o discurso em sua exposiccedilatildeo deveratildeo recorrer

35 Cicero ldquoDe Oratorerdquo (I 17) p 14 ldquoaccedat eodem oportet lepos quidam facetiaeque et eruditio libero digna

celeritasque et brevitas et respondendi et lacessendi subtili uenustate atque urbanitate coniunctardquo 36 Scatolin A ldquoA invenccedilatildeo no Do Orador de Ciacutecero um estudo agrave luz de Ad Familiares I 9 23rdquo p 151

Cicero ldquoDe Oratorerdquo (I 18) p 14 ldquocustos inuentis cogitatisque rebus et uerbisrdquo 37 Cf Cicero ldquoDe Oratorerdquo (I 48) p 36 38 Scatolin A op cit p 156 Cicero ldquoDe Oratorerdquo (I 51) ldquoquidquid erit igitur quacumque ex arte

quocumque de genere id orator si tanquam clientis causam didicerit dicet melius et ornatius quam ille ipse eius

rei inuentor atque artifexrdquo

34

agrave faculdade do orador39 Portanto no fundo eacute essa faculdade que sustenta qualquer

discurso segundo o De Oratore

Diferentemente do orador o arquiteto deve conhecer medianamente todas as

doutrinas que embasam sua arte Segundo Vitruacutevio aqueles a quem a natureza proveu

de soleacutercia agudez e memoacuteria a ponto de conhecerem a fundo geometria astrologia

muacutesica e outras disciplinas ultrapassaram o campo de deveres do arquiteto tornando-

se saacutebios (mathematici) Apenas estes municiados dos ensinamentos de muitas

disciplinas podem combater e disputar nesses campos Aleacutem do mais satildeo raros assim

como o orador completo era raro para Crasso mas Vitruacutevio se refere nesse ponto a

nomes do passado que se destacaram na mecacircnica e na gnomocircnica a partir do caacutelculo

e do entendimento dos princiacutepios naturais40 Aristarco de Samos Filolau e Arquitas de

Tarento Apolocircnio de Perga Eratoacutestenes de Cirene Arquimedes e Escopinas de

Siracusa41

Podemos entender entatildeo o exemplo de Filo que discursa bem natildeo pelo

conhecimento que tem de arquitetura senatildeo da eloquecircncia Mas a figura de Filo

extrapola a formaccedilatildeo esperada ao arquiteto tal como apresentada por Vitruacutevio que

natildeo prevecirc junto agraves disciplinas listadas a arte oratoacuteria (artificium oratoris)42 Em Vitruacutevio

39 Cicero ldquoDe Oratorerdquo (I 60) p 44 ldquoQuaero enim num possit aut contra imperatorem aut pro imperatore

dici sine rei militaris usu aut saepe etiam sine regionum terrestrium aut maritimarum scientiardquo Traduccedilatildeo

ldquocom efeito eu me pergunto se eacute possiacutevel discursar contra ou a favor de um comandante sem

experiecircncia militar ou muitas vezes ateacute sem o conhecimento das regiotildees terrestres e mariacutetimasrdquo

(Scatolin A ldquoA invenccedilatildeo no Do Orador de Ciacutecero um estudo agrave luz de Ad Familiares I 9 23 p 157-158)

Ainda Cicero ldquoDe Oratorerdquo (I 61) p 46 ldquophysica ista ipsa et mathematica et quae paulo ante ceterarum

artium propria posuisti scientiae sunt eorum qui illa profitentur illustrare autem oratione si quis istas ipsas

artes uelit ad oratoris ei confugiendum est facultutatemrdquo Traduccedilatildeo ldquoa fiacutesica a matemaacutetica e o que colocastes

pouco antes como proacuteprio das demais artes fazem parte da ciecircncia dos que fazem delas profissatildeo mas

se algueacutem pretende embelezar essas mesmas artes pelo discurso deveraacute fazer recurso da faculdade do

oradorrdquo (Scatolin Aop cit p158) 40 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre I (I 1 17) p 13 ldquoqui multas res organicas gnomonicas numero

naturalibusque rationibus inuentas atque explicatas posteris reliqueruntrdquo Traduccedilatildeo ldquoaqueles que deixaram

aos poacutesteros muitas coisas sobre mecacircnica e gnomocircnica encontradas e desenvolvidas graccedilas aos

nuacutemeros e aos princiacutepios naturaisrdquo 41 Ibid (I 1 17) p 13 42 Ibid (I 1 18) p 14 ldquonamque non uti summus philosophus nec rhetor disertus nec grammaticus summis

rationibus artis exercitatus sed ut architectus his litteris imbutus haec nisus sum scribererdquo Traduccedilatildeo ldquopois

natildeo foi como sumo filoacutesofo nem como retor eloquente nem como sumo gramaacutetico exercitado nas regras

35

portanto o ldquoconhecimento das letrasrdquo (litteras architectum oportet scire) que lhe confere

auctoritas natildeo diz respeito agrave eloquecircncia mas a um saber literaacuterio geral isto eacute a

possibilidade de acesso ao registro escrito dos conhecimentos ndash via ldquolivrosrdquo ndash que

propicia ao arquiteto enveredar-se pelos assuntos que mais diretamente nutrem o

corpo de sua disciplina A auctoritas diz respeito igualmente a uma condiccedilatildeo de

domiacutenio da arte em seus princiacutepios especiacuteficos como veremos a seguir

113 Auctoritas e a doutrina

A escrita do De Architectura parece aproximar-se mais da anocircnima Retoacuterica a

Herecircnio43 do que do De Oratore A identificaccedilatildeo de um sistema comum ajudaria a

explicar a semelhanccedila formal entre alguns pontos das preceptivas voltadas a artes tatildeo

diacutespares como a do orador e a do arquiteto A obra de maturidade de Ciacutecero revela

poreacutem um modo de compreensatildeo que alccedila a ratio dicendi a um patamar superior natildeo

apenas agrave disciplina do arquiteto A construccedilatildeo em forma de diaacutelogo engendra a um soacute

tempo toda uma trama de significados dados jaacute pela forja-escolha dos personagens

da arte mas como arquiteto que me esforcei em escrever estes volumesrdquo A captatio beneuolentia (cf

Fleury Ph in Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre I p LXXXVII) inserida na peroratio que conclui esta

parte do Livro I (e que ocupa o primeiro capiacutetulo nas ediccedilotildees recentes) acaba por deixar claro que natildeo

se espera do arquiteto que seja retor eloquente (rhetor disertus) 43 Os modos de exposiccedilatildeo guardam semelhanccedilas

De Architectura (I 2 1) ldquoArchitectura autem constat ex ordinatione quae graece τάξις dicitur et ex dispositione

ndash hanc autem Graeci διάθεσιν vocitant ndash et eurythmia et symmetria et decore et distributione quae graece

οἰχονομία diciturrdquo A sequecircncia do texto traz uma espeacutecie de lista de definiccedilotildees para cada um dos

componentes elencados da arquitetura ldquoOrdinatio est Dispositio autem est Eurythmia est Item

symmetria est Decor autem est Distributio autem estrdquo (Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre I (I 2 1)

p 14-19

Retoacuterica a Herecircnio (I 3) ldquoOportet igitur esse in oratore inuentionem dispositionem elocutionem memoriam

pronuntiationem Inuentio est Dispositio est Elocutio est Memoria est Pronuntiatio estrdquo

([Ciacutecero] ldquoRetoacuterica a Herecircniordquo (I 3) p 54

36

mas tambeacutem pela ambiccedilatildeo expliacutecita de aproximaccedilatildeo ao territoacuterio da filosofia mais

especificamente da filosofia platocircnica marcada fortemente pela escrita dialoacutegica44

Para Charles Gueacuterin a imitaccedilatildeo platocircnica sugerida pelo personagem Ceacutevola eacute

implementada por Ciacutecero na proacutepria escolha da forma dialoacutegica visando a conferir

auctoritas agrave obra45 Em contraposiccedilatildeo o proacuteprio De Inuentione escrito de adolescecircncia

estruturado ao modo dos manuais como o Ad Herenium buscava tornar-se autorizado

por outros recursos A opccedilatildeo pelo diaacutelogo confere um espectro de complexidade agrave

obra que natildeo se propotildee apenas a listar preceitos mas a discutir temas amplos que

perpassam diferentes disciplinas como a filosofia a retoacuterica a poliacutetica as leis e a eacutetica

A confrontaccedilatildeo de tal escrito com o De Architectura clarifica pelo contraste a

distacircncia entre os caminhos adotados e aponta intenccedilotildees distintas A reivindicaccedilatildeo no

corpus vitruviano destoa da pretensatildeo aristocraacutetica do De Oratore que pressupotildee do

leitor um vasto conhecimento preacutevio natildeo apenas de retoacuterica Entatildeo vemos que as

litterae a que Vitruacutevio se referia no iniacutecio do Livro I natildeo podem suportar um sentido

amplo demais pois o arquiteto litteratus estaacute longe de coincidir com a figura do

perfectus orator segundo Ciacutecero capaz de abarcar um conhecimento ampliacutessimo

sendo por esse motivo muito difiacutecil de ser encontrado

44 Cicero ldquoDe Oratorerdquo (I 28-29) p 20 ldquodicebat tum Scaeuolam duobus spatiis tribusue factis dixisse Cur

non imitamur Crasse Socratem illum qui est in Phaedro Platonis Nam me haec tua platanus admonuit quae

non minus ad opacandum hunc locum patulis est diffusa ramis quam illa cuius umbram secutus est Socrates

quae mihi uidetur non tam lsquoipsa acularsquo quae describitur quam Platonis oratione creuisse et quod ille durissimis

pedibus fecit ut se abiceret in herbam atque ita illa quae philosophi diuinitus ferunt esse dicta loqueretur id

meis pedibus certe concedi est aequius Tum Crassum Immo uero commodius etiam puluinosque poposcisse et

omnes in eis sedibus quae erant sub platano consedisse dicebatrdquo Segundo a traduccedilatildeo de Scatolin ldquoCeacutevola

apoacutes duas ou trecircs voltas disse - Porque natildeo imitamos Crasso o Soacutecrates que estaacute no Fedro de Platatildeo

Pois me traz sua lembranccedila este teu plaacutetano que estaacute espalhado por vastos ramos para dar sombra a

este lugar tanto quanto aquele cuja sombra Soacutecrates procurava que parece ter crescido natildeo tanto pelo

regato propriamente dito que ali se descreve quanto pelo discurso de Platatildeo Crasso entatildeo respondera

- Sim mas faccedilamos com mais comodidade ainda que pedira almofadas e que todos acomodaram-se

sobre os assentos que estavam sob o plaacutetanordquo (Scatolin A ldquoA invenccedilatildeo no Do Orador de Ciacutecero um

estudo agrave luz de Ad Familiares I 9 23rdquo p 152) 45 Cf Gueacuterin C ldquoCicero as User and Critic of Traditional Rhetorical Patterns structural authority from

De Inventione to De Oratorerdquo In Galewicz C (ed) Texts of Power The power of the Text ndash Readings in

Textual Authority Across History and Cultures Krakoacutew Homini 2006 p 79

37

A estrateacutegia visando agrave auctoritas pela forma de diaacutelogo destoa daquelas

empregadas em escritos que adotam um discurso mais direto como o De Inuentione

composto pelo proacuteprio Ciacutecero O que teria sido deixado para traacutes Ainda segundo

Gueacuterin a aspiraccedilatildeo agrave autoridade de um escrito sobre retoacuterica passa pela sua

capacidade de ser compreensiacutevel utilizaacutevel e eficiente ou percebido como tal dada

sua finalidade de persuasatildeo46 A autoridade textual eacute entendida nesse contexto retoacuterico

como ldquoa habilidade do proacuteprio texto em fornecer ao leitor a impressatildeo de que a mateacuteria

ali contida eacute a mais eficiente disponiacutevelrdquo47 Inicialmente essa autoridade se apresenta

sob dois aspectos seja pelo pertencimento ao conjunto de obras legado transmitido ao

longo dos anos pelas geraccedilotildees anteriores seja pela sua fundamentaccedilatildeo a partir do uso

E tambeacutem a desaprovaccedilatildeo por vezes ateacute mesmo o insulto a outros autores pode ser

um modo de reivindicar a auctoritas a determinado escrito48

114 Expedientes discursivos

O entendimento de Piacutetio acerca das instruccedilotildees necessaacuterias ao arquiteto eacute

reportado no De Architectura e recusado

por isso entre os arquitetos antigos Piacutetio que notavelmente arquitetou o templo de

Minerva em Priene afirma em seus comentaacuterios que cabe ao arquiteto fazer mais em

todas as artes e doutrinas do que aqueles que por meio de sua aplicaccedilatildeo e exerciacutecio

a apenas uma disciplina conduziram-na ao mais elevado brilhantismo Isso poreacutem

natildeo se verifica49

46 Gueacuterin ldquoCicero as User and Critic of Traditional Rhetorical Patterns structural authority from De

Inventione to De Oratorerdquo p 62 47 Ibid p 62 48 Ibid p 62-63 67 49 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre I (I 1 12) p 10 ldquoideoque de ueteribus architectis Pytheos qui Prieni

aedem Mineruaea nobiliter est architectatus ait in suis commentariis architectum omnibus artibus et doctrinis

plus oportere posse facere quam qui singulas res suis industriis et exercitationibus ad summam claritatem

perduxerunt Id autem re non expediturrdquo

38

E Vitruacutevio explicita sua oposiccedilatildeo ao arquiteto grego ldquovecirc-se que nisso Piacutetio

errourdquo50 Tal investida de Vitruacutevio contra Piacutetio tambeacutem pode ser lida como expediente

discursivo Pois porque confrontar o portador de uma dada posiccedilatildeo divergente e natildeo

apenas a proacutepria posiccedilatildeo Afirmar que Piacutetio errou significa elevar a proacutepria doutrina

acima mesmo dos exemplos consagrados reivindicando autoridade Esse dispositivo

fica evidente no Livro I do De Inuentione em que a censura a Hermaacutegoras ou mesmo o

insulto marcaria uma estrateacutegia em busca de auctoritas51

Embora conteste Piacutetio Vitruacutevio afirma recorrer aos comentaacuterios desse mesmo

arquiteto cujo nome faz parte da lista de autores em quem confia52 apresentada no

Livro VII53 Ademais o arquiteto latino recorrentemente invoca os gregos no Primeiro

Volume indicando termos sem correspondecircncia em latim54 Assim quando fala da

50 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre I (I 1 15) p 12 ldquoigitur in hac re Pytheos errasse uideturrdquo 51 Cicero ldquoDe Inventionerdquo (I 8) p 18 ldquoquodsi magnam in his Hermagoras habuisset facultatem studio et

disciplina comparatam uideretur fretus sua scientia falsum quiddam constituisse de oratoris artificio et non quid

ars sed quid ipse posset exposuisse Nunc uero ea uis est in homine ut ei multo rhetoricam citius quis ademerit

quam philosophiam concesserit neque eo quod eius ars quam edidit mihi mendosissime scripta uideatur nam

satis in ea uidetur ex antiquis artibus ingeniose et diligenter electas res collocasse et nonnihil ipse quoque noui

protulisse uerum oratori minimum est de arte loqui quod his fecit multo maximum ex arte dicere quod eum

minime potuisse omnes uidemusrdquo Traduccedilatildeo ldquomas se nesses assuntos Hermaacutegoras havia tido elevada

habilidade adquirida por estudo e instruccedilatildeo parecia ter estabelecido a partir de seu conhecimento algo

falso acerca da arte do orador expondo natildeo o que fosse a arte mas aquilo que ele proacuteprio podia fazer

Em verdade a capacidade do homem eacute tal que algueacutem poderia mais facilmente negar o seu

conhecimento em retoacuterica do que reconhecer seu conhecimento em filosofia natildeo que a doutrina

publicada se afigure a mim excessivamente falha pois parece haver disposto nela coisas suficientemente

selecionadas a partir das doutrinas dos antigos de maneira engenhosa e diligente como tambeacutem propocircs

ele proacuteprio coisas novas De fato eacute muito pouco falar sobre a arte tal como fez Hermaacutegoras Muito mais

importante eacute pronunciar um discurso a partir dos preceitos da arte o que ele era incapaz de fazer

conforme todos vemosrdquo Curiosamente o procedimento de Hermaacutegoras englobando possivelmente

conhecimentos do campo da filosofia em adiccedilatildeo aos preceitos retoacutericos (thesis e hypothesis ou causa e

quaestio cf Hubell n ldquoardquo p 18 in Cicero ldquoDe Inuentionerdquo) criticado nessa obra de juventude

aproximar-se-ia da posiccedilatildeo adotada e defendida por Ciacutecero no De Oratore De todo modo a atitude

ofensiva de Ciacutecero para com Hermaacutegoras no De Inuentione representa um dispositivo retoricamente

codificado que reivindica auctoritas agrave sua obra ao desqualificar o adversaacuterio 52 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre VII (VII pref 10) p 5 ldquotalibusque confidentes auctoribus audemus

institutiones nouas compararerdquo Traduccedilatildeo ldquoconfiantes em tais autores notaacuteveis ousamos propor novas

instituiccedilotildeesrdquo Cf n 66 infra 53 Ibid (VII pref 12) p 6 ldquode fano Mineruae quod est Priene ionicum Pytheos [edidit uolumen]rdquo Traduccedilatildeo

ldquoPiacutetio publicou um volume sobre o templo jocircnico de Minerva em Prienerdquo 54 Expediente similar de recusa pode ser observado logo no iniacutecio do manual anocircnimo mas ali natildeo

apenas um autor eacute posto de lado senatildeo os ldquoescritores gregosrdquo como que em bloco no empreendimento

dessa obra que se declara destinada a Herecircnio e natildeo a interesses condenaacuteveis ldquoDesprezamos por isso

39

importacircncia da muacutesica na formaccedilatildeo do arquiteto afirma que nos teatros vasos de

bronze devem ser dispostos em nichos de acordo com sistema de relaccedilotildees matemaacuteticas

de intervalos sonoros ldquoque os gregos chamam ἠχεῖαrdquo55 O arquiteto deve saber de

medicina por causa da inclinaccedilatildeo do ceacuteu ldquoque os gregos chamam κλίματαrdquo56 para

que haja salubridade na habitaccedilatildeo57 Astroacutelogos (astrologi) e muacutesicos (musici) tratam

ldquodo que os gregos chamam de λόγος ὀπτικόςrdquo58 Os homens exemplares nas

disciplinas a que o arquiteto deve conhecer sem ser excelente satildeo todos gregos

Aristarco Aristoacutexeno Apeles Miacuteron Policleto e Hipoacutecrates As proacuteprias partes que

compotildeem a arquitetura tecircm nomes gregos sendo que para trecircs delas Vitruacutevio

apresenta o nome original anterior agrave sua traduccedilatildeo ordenaccedilatildeo (ordinatio) ndash τάξις ndash

disposiccedilatildeo (dispositio) ndash διάθεσιν ndash e distribuiccedilatildeo (distributio) ndash οἰκονομία59 Symmetria

e eurythmia satildeo transliteraccedilotildees Decor eacute o uacutenico termo cujo correspondente grego

possivelmente πρέπον natildeo eacute apresentado60 Na definiccedilatildeo de symmetria Vitruacutevio

as coisas de que se apropriaram por vatilde arrogacircncia os escritores gregos [] Noacutes entretanto adotamos

aquilo que parece pertencer ao meacutetodo do discurso pois natildeo viemos a escrever movidos pela gloacuteria ou

pela expectativa de lucro como os demais e sim para com diligecircncia atender a tua vontaderdquo ([Ciacutecero]

ldquoRetoacuterica a Herecircniordquo I 1 p 53) Em latim ldquoquas ob res illa quae Graeci scriptores inanis adrogantiae causa

sibi adsumpserunt reliquimus [] Non enim spe quaestus aut gloria commoti uenimus ad scribidendum

quemadmodum ceteri sed ut industria nostra tuae morem geramos uoluntatirdquo (ibid p 52) Seria por outro

lado efetivamente muito difiacutecil ao autor do manual desprezar os escritos sobre retoacuterica no contexto em

que a preceptiva Ad Herennium foi redigida E no livro IV a dependecircncia agraves fontes gregas eacute mesmo

explicitada apoacutes a sua recusa parcial ldquoJaacute que neste livro Herecircnio escrevemos sobre a elocuccedilatildeo e

quando foi preciso usar exemplos usamos nossos proacuteprios ndash contra o haacutebito dos gregos que escreveram

sobre o mesmo assunto [] Entenderaacutes contudo mais facilmente a nossa razatildeo se antes souberes o que

dizem os gregosrdquo (id IV 1 p 199) Em latim ldquoquoniam in hoc libro Herenni de elocutione conscripsimus

et quibus in rebus opus fuit exemplis uti nostris exemplis usi sumus et id fecimus praeter consuetudinem

Graecorum qui de hac re scripserunt [] Sed facilius nostram rationem intelleges si prius quid illi dicant

cognouerisrdquo (ibid p 198) Vemos que natildeo se trata de contradiccedilatildeo por parte do autor anocircnimo uma vez

que se considera a recusa incial aos gregos como expediente do discurso ndash marca da superaccedilatildeo pelo

ecircmulo que visa a engrandecer a proacutepria obra 55 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre I (I 1 9) p 9 ldquoquae Graece ἠχεῖα appelantrdquo Traduccedilatildeo ldquoa que os

gregos chamam de echeiardquo (Vitruacutevio ldquoTratado de Arquiteturardquo p 67) 56 Ibid (I 1 10) p 9 ldquoquae Graeci κλίματα dicuntrdquo Traduccedilatildeo ldquoa que os gregos dizem climatardquo (Vitruacutevio

ldquoTratado de Arquiteturardquo p 68) 57 Sobre a relaccedilatildeo entre medicina e astronomia dos ares aacuteguas e lugares na constituiccedilatildeo da salubridade

do lugar cf Fleury Ph In Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre I n 1 p 90 58 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre I (I 1 16) p 12 ldquoqui graece λόγος ὀπτικός appelaturrdquo Traduccedilatildeo

ldquoque em grego se chama loacutegos optikoacutesrdquo (Vitruacutevio ldquoTratado de Arquiteturardquo p 72) 59 Ibid (I 2 1) p 14 60 Cf Pollitt J J ldquoThe Ancient View of Greek Artrdquo p 341-347

40

recorre aos termos gregos περίτρητον para designar a abertura da balista e

διπηχυαῖα referindo-se ao espaccedilo entre os toletes do navio61 Na definiccedilatildeo de decor

remete ao termo θεματισμῷ62 Quando fala do princiacutepio de constituiccedilatildeo dos corpos

usa o termo στοιχεῖα63

Esses foram apenas alguns exemplos da contribuiccedilatildeo grega operante na proacutepria

constituiccedilatildeo do Livro Primeiro do De Architectura De maneira direta por outro lado

o prefaacutecio ao Livro VII mostra que o discurso de Vitruacutevio assume uma posiccedilatildeo

diferente daquela do autor anocircnimo de Ad Herennium64 e de Ciacutecero65 diante dos

saberes legados aos quais presta reverecircncia mas ao mesmo tempo afirma ultrapassar

61 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre I (I 1 4) p 16 ldquoballista e foramine quod Graeci περίτρητον uocitant

nauibus interscalmio quae διπηχυαῖα diciturrdquo Traduccedilatildeo ldquona balista pela abertura a que os gregos

chamam peritreton nas embarcaccedilotildees pelo espaccedilo entre dois toletes que se diz dipechyaiardquo (Vitruacutevio

ldquoTratado de Arquiteturardquo p 76) Voltaremos a essas definiccedilotildees das partes da arquitetura agrave frente 62 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre I (I 2 5) p 16 ldquois perficitur statione quod graece θεματισμῷ

diciturrdquo Traduccedilatildeo ldquoconsegue-se pelo cumprimento de um princiacutepio que em grego se diz thematismosrdquo

(Vitruacutevio ldquoTratado de Arquiteturardquo p 76-77) 63 Ibid (I 4 5) p 23 ldquonamque e principiis quae Graeci στοιχεῖα appellant ut omnia corpora sunt compositardquo

Traduccedilatildeo ldquopois como todos os organismos satildeo constituiacutedos com origem em princiacutepios a que os gregos

chamam stoicheiardquo (Vitruacutevio ldquoTratado de Arquiteturardquo p 85) 64 Tanto o autor anocircnimo quanto Ciacutecero no De Inuentione fazem duras criacuteticas a autores anteriores Cf

n 51 e n 54 supra 65 Esse procedimento fica evidente no De Oratore mais precisamente na fala que antecede o diaacutelogo

propriamente dito entre os personagens ilustres figuras latinas de outro tempo ldquorepetamque non ab

incunabulis nostrae ueteris puerilisque doctrinae quemdam ordinem praeceptorum sed ea quae quondam accepi

in nostrorum hominum eloquentissimorum et omni dignitate principium disputatione esse uersata Non quod illa

contemnam quae Graeci dicendi artifices et doctores reliquerunt sed cum illa pateant in promptuque sint

omnibus neque ea interpretatione mea aut ornatius explicari aut planius exprimiri possint dabis hanc ueniam

mi frater ut opinor ut eorum quibus summa dicendi laus a nostris hominibus concessa est auctoritatem Graecis

anteponamrdquo (Cicero ldquoDe Oratorerdquo I 23 p 18) Segundo a traduccedilatildeo para o portuguecircs de Scatolin ldquoe

retomarei natildeo determinada ordem dos preceitos tomada aos elementos de nossa antiga e pueril

doutrina mas aquilo que soube outrora foi examinado numa discussatildeo de nossos conterracircneos mais

eloquentes e primeiros em toda dignidade natildeo que eu despreze o que os escritores e mestres de oratoacuteria

gregos nos legaram mas como tais escritos satildeo acessiacuteveis e estatildeo ao alcance de todos e natildeo podem por

meio de minha traduccedilatildeo ser explicados com maior ornato ou expressos com maior clareza concederaacutes

a licenccedila meu irmatildeo segundo penso de colocar acima dos gregos a autoridade daqueles a quem os

latinos concederam a suma gloacuteria na oratoacuteriardquo (Scatolin A ldquoA invenccedilatildeo no Do Orador de Ciacutecero um

estudo agrave luz de Ad Familiares I 9 23rdquo p 151-152) Ora exaltar a suma gloacuteria dos antepassados no diaacutelogo

composto parece engrandecer e revestir de auctoritas justamente e ainda mais ndash porque sem arrogacircncia

ndash aquele que o compotildee o proacuteprio Ciacutecero No De Inuentione (I 22) p 44 Ciacutecero preceitua como captar a

benevolecircncia do ouvinte no exoacuterdio a partir de nossa pessoa ldquoab nostra si de nostris factis et officiis sine

41

eu mesmo Ceacutesar de fato nem interponho meu nome a tiacutetulos alheios nesse corpus que

apresento nem procurei aprovaccedilatildeo vituperando quaisquer reflexotildees mas sou

infinitamente grato a todos os autores porque a partir da egreacutegia soleacutercia de seus

engenhos haacute tempos cultivados prepararam abundantes provisotildees cada um em seu

campo as quais direcionamos a nossos proacuteprios propoacutesitos mais fecundos e expeditos

como que haurindo a aacutegua das fontes e tendo a possibilidade de escrever confiantes

em tais autores notaacuteveis ousamos propor novas instituiccedilotildees66

Recebem agradecimentos os scriptores de engenho solerte que reuniram

reflexotildees em diversas aacutereas hauridas todas para a confecccedilatildeo da obra rendendo-a

melhor acabada Tamanho respeito investido em tais autores eacute o que permite ousar

essa nova doutrina escreve Vitruacutevio transformando os provedores dos contributos

em fiadores de sua proacutepria empreitada A comeccedilar pelos antecessores latinos os

maiores que por meio de comentaacuterios encarregaram-se de ldquotransmitir suas

proposiccedilotildees aos poacutesteros para que natildeo se perdessem mas recebendo acreacutescimos das

publicaccedilotildees de cada eacutepoca gradativamente atingissem com o passar do tempo a

suma finura das doutrinasrdquo67 E louva os comentaacuterios (commentari)68 que permitiram

transmitir a memoacuteria dos feitos de Troacuteia e de fiacutesicos como Tales Anaxaacutegoras e

Xenoacutefanes de filoacutesofos como Soacutecrates Platatildeo Aristoacuteteles Zenatildeo e Epicuro69 que

adrogantia dicemusrdquo Traduccedilatildeo ldquo[a benevolecircncia eacute captada] a partir de nossa pessoa se nos referirmos a

nossos feitos e serviccedilos sem arrogacircnciardquo Vitruacutevio adota um expediente semelhante no Livro VII (VII

pref 10) agradecendo aos poacutesteros 66 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre VII (VII pref 10) p 5 ldquoEgo uero Caesar neque alienis indicibus

nomine meo id profero corpus neque ullius cogitata uituperans institui ex eo me approbare sed omnibus

scriptoribus infinitas ago gratias quod egregiis ingeniorum sollertiis ex aeuo collatis abundantes alius alio genere

copias praeparauerunt unde nos uti fontibus haurientes aquam et ad propria proposita traducentes facundiores et

expeditiores habemus ad scribendum facultates talibus confidentes auctoribus audemus institutiones nouas

compararerdquo 67 Ibid (VII pref 1) p 1 ldquomaiores cum sapienter tum etiam utiliter instituerunt per commentariorum

relationes cogitata tradere posteris ut ea non interirent sed singulis aetatibus crescentia uoluminibus edita

gradatim peruenirent uetustatibus ad summam doctrinarum subtilitatemrdquo 68 Ibid (VII pref 2) p 2 69 Outro procedimento com vistas a auctoritas eacute a remissatildeo agraves autoridades do passado como tambeacutem faz

Ciacutecero em relaccedilatildeo a Aristoacuteteles no De Inuentione ldquoAc ueteres quidem scriptores artis usque a principe illo

atque inuentore Tisia repetitos unum in locum conduxit Aristoteles e nominatim cuiusque praecepta magna

conquisita cura perspicue conscripsit atque enodata diligenter exposuitrdquo (Cicero De Inuentione II 6 p 170)

Traduccedilatildeo ldquoAristoacuteteles reuniu os antigos escritores de retoacuterica tomados desde Tiacutesias o primeiro e

inventor dessa arte e registrou nomeadamente os preceitos com o maior cuidado na recolha e com

42

estabeleceram os fins da accedilatildeo humana de reis como Creso Alexandre e Dario e o que

empreenderam

Vitruacutevio prossegue apresentando uma longa lista de mestres gregos que

deixaram escritos sobre cenaacuterio de trageacutedia e o modo de figurar edifiacutecios escritos de

arquitetos sobre a symmetria no gecircnero doacuterico sobre o templo jocircnico e outros aleacutem de

comentaacuterios sobre outras modalidades de edificaccedilotildees e mesmo escritos de escultores

A seleccedilatildeo realizada na extensa enumeraccedilatildeo de exemplos atesta ainda uma maioria de

autores gregos e uma tiacutemida presenccedila de romanos ldquoobservei as as coisas uacuteteis para

esse assunto recolhidas a partir de comentaacuterios e reuni em um corpus a partir do que

vi muito bem que nessa mateacuteria haacute mais volumes publicados pelos gregos do que os

poucos pela nossa terrardquo 70

115 Vitruacutevio auctor

O Livro II do De Inuentione de Ciacutecero comeccedila com a anedota em que Zecircuxis

escolhe as cinco mais belas jovens de Crotona para que delas pudesse extrair uma

imagem de Helena cuja beleza era incomparaacutevel agrave de qualquer mulher Ciacutecero se

propotildee a desempenhar uma tarefa semelhante71 Como um Zecircuxis Ciacutecero quer extrair

clareza ademais expocircs explicaccedilotildees diligentementerdquo Nesse excerto Ciacutecero remete agrave autoridade de

Aristoacuteteles especialmente no que concerne ao assunto tratado isto eacute a retoacuterica Vitruacutevio por sua vez

faz menccedilatildeo a toda uma linhagem de pensadores e mesmo a reis na constituiccedilatildeo de um lastro amplo a

seu discurso 70 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre VII (VII pref 14) p 7 ldquoquorum ex commentariis quae utilia esse his

rebus animaduerti collecta in unum coegi corpus et ideo maxime quod animaduerti in ea re ab Graecis uolumina

plura edita ab nostris oppido quam paucardquo 71 Cicero ldquoDe Inuentionerdquo (II 4) p 168 ldquoquod quoniam nobis quoque uoluntatis accidit ut artem dicendi

perscriberemus non unum aliquod proposuimus exemplum cuius omnes partes quocumque essent in genere

exprimendae nobis necessariae uiderentur sed omnibus unum in locum coactis scriptoribus quod quisque

commodissime praecipere uidebatur excerpsimus et ex uariis ingeniis excellentissima quaeque libauimusrdquo

Traduccedilatildeo ldquopor isso quando nos ocorreu tambeacutem o iacutempeto para que escrevecircssemos uma doutrina da

arte do dizer natildeo estabelecemos algum modelo uacutenico em que todas as partes parecessem dever ser

tomadas necessariamente tal como eram mas tendo sido todos os escritores reunidos em um soacute lugar

43

o melhor de cada doutrina legada superando-as todas com sua proacutepria inigualaacutevel

esta segundo esse raciociacutenio embora ao mesmo tempo se reivindique ancoradiacutessima

nos escritos precedentes Ciacutecero afirma mesmo superar em sua seleccedilatildeo aquela de

Zecircuxis que contava com um restrito nuacutemero de belas jovens a se espelhar naquele

momento e local ao passo que ele podia se valer dos mais excelentes preceitos

transmitidos ateacute seu tempo72

Ora se no De Inuentione Ciacutecero se pretendia um Zecircuxis com relaccedilatildeo aos escritos

sobre oratoacuteria o que dizer sobre a listagem verdadeiramente exaustiva de Vitruacutevio

Remetendo agrave autoridade dos maiores mas tambeacutem agrave dos fiacutesicos e filoacutesofos mais

ilustres Vitruacutevio procura tornar sua obra autorizada e traz ainda agrave memoacuteria os nomes

e os feitos de numerosos artiacutefices que prestaram serviccedilos agrave arquitetura incluindo

aqueles minus nobiles mas que legaram preceitos Tal recolha vasta direcionada agrave

constituiccedilatildeo de instituiones nouas vai ao encontro do que se lecirc no prefaacutecio ao Livro IV

quando Vitruacutevio dirigindo-se ao Imperator assume a tarefa de ordenar a disciplina do

arquiteto em um corpo coeso

como notei oacute Imperador haver muitos preceitos sobre arquitetura e volumes de

comentaacuterios natildeo ordenados e inacabados deixados como fragmentos errantes julguei

digno e utiliacutessimo conduzir o corpo de tatildeo importante disciplina a uma perfeita

ordenaccedilatildeo e explicar as qualidades prescritas a cada gecircnero em volumes distintos73

O estabelecimento da doutrina que abrange a maior extensatildeo possiacutevel de

conhecimentos pertinentes se endereccedila ainda e sobretudo agrave obtenccedilatildeo de auctoritas

aqueles oacute Imperador que desenvolveram as reflexotildees de engenho e os preceitos em

volumes mais amplos acrescentaram maacutexima e egreacutegia autoridade a seus escritos

extraiacutemos aquilo que cada um via como mais vantajoso a preceituar e saboreamos as partes mais

excelentes de variados engenhosrdquo 72 Cf Cicero ldquoDe Inuentionerdquo (II 5) p 170 73 Vitruve De LrsquoArchitecture Livre IV (IV Pref I) p 2 ldquoCum animaduertissem Imperator plures de

architectura praecepta uoluminaque commentariorum non ordinata sed incepta uti particulas errabundas

reliquisse dignam et utilissimam rem putaui tantae disciplinae corpus ad perfectam ordinationem perducere et

praescriptas in singulis uoluminibus singulorum generum qualitates explicarerdquo

44

Que isso se revelasse tambeacutem em nossos estudos de modo que pela amplificaccedilatildeo

da autoridade (auctoritas) tambeacutem esses preceitos fossem engrandecidos74

Com os recursos retoacutericos que reivindicam autoridade a uma preceptiva

Vitruacutevio pretende legitimar sua doutrina firmando-se ele proacuteprio como auctor

Rememorando a trajetoacuteria etimoloacutegica do termo Hansen aponta que

a significaccedilatildeo geneacuterica de autor eacute assim o que faz crescer mas tambeacutem o que faz

surgir o que produz [] Na sua significaccedilatildeo posterior parecem concorrer aleacutem do

verbo augere formas supinas do verbo latino agere (ago -is actum) agir fazer e o

grego autoacutes proacuteprio e authentia autoridade poder total75

Em certa medida o auctor se reveste da carga semacircntica que lhe fora atribuiacuteda

no direito a de fiador como mostra Hansen76 Mas ao mesmo tempo trata-se de

garantir a transmissatildeo de um saber ou de um saber fazer

na Roma claacutessica autor eacute o que tendo a posse de uma teacutecnica (ars) exercita sua arte

como artifex segundo regras precisas e especiacuteficas de articulaccedilatildeo (artificialis) Como

artificiosus perito conforme um artificium ou princiacutepio eacute tambeacutem um gnarus que natildeo

ignora a auctoritas e por isso narra produzindo artefatos que datildeo autoridade e servem

de exemplos para outros77

Assim para que um arquiteto possa se revestir de auctoritas aleacutem de letrado

(litteratus) eacute preciso contar com os preceitos estabelecidos e sancionados por um auctor

Considerando o quadro descrito de transmissatildeo fragmentaacuteria das doutrinas por meio

de obras esparsas e pouco ordenadas no campo da arquitetura o corpus disciplinar

erigido se afigura como empreendimento uacutenico e Vitruacutevio o auctor por excelecircncia

74 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre V (V pref 1) p 1 ldquoQui amplioribus uoluminibus Imperator ingenii

cogitationes praeceptaque explicauerunt maximas et egregias adiecerunt suis scriptis auctoritates Quod etiam uel

in nostris quoque studiis res pateretur ut amplificationibus auctoritas et in his praeceptis augereturrdquo 75 Hansen J A ldquoAutorrdquo p 16 In Jobim Joseacute Juiacutes (org) ldquoPalavras da Criacutetica Tendecircncias e conceitos no

Estudo da Literaturardquo Imago Editora Ltda RJ 1992 76 Ibid p 17 ldquoem direito auctor designava fiadorrdquo 77 Ibid p 18

45

12 Auctoritas e Venustas

No De Architectura o conceito de auctoritas natildeo se volta apenas ao arquiteto e ao

auctor que compotildee a preceptiva abrangendo com recorrecircncia o edifiacutecio que mediante

determinadas qualidades torna-se digno de louvor Eacute no Livro III que pela recolha e

ordenaccedilatildeo dos ensinamentos transmitidos satildeo efetivamente apresentadas as

preceituaccedilotildees para os templos ndash estes maximamente exemplares porque destinados a

permanecer ao longo do tempo Com isso as regras que orientam sua elaboraccedilatildeo

podem ser aplicadas a toda a aedificatio78 Para Vitruacutevio foram os antigos79 que as

constituiacuteram de modo que as partes tomadas separadamente possuiacutessem uma

concordacircncia proporcional isto eacute de symmetria ou comensurabilidade com a figura

visiacutevel da obra tomada como um todo80 Desse modo satildeo elencados os princiacutepios a

partir dos quais dividem-se os templos segundo seu aspecto81 in antis prostilo

anfiprostilo periacuteptero pseudodiacuteptero [diacuteptero] e hipetro Sendo que a forma de cada

modalidade dessas eacute explicada e exemplos de edifiacutecios sagrados existentes satildeo

fornecidos Mas os templos podem ser classificados ainda segundo categorias

determinadas pelo ritmo de sua colunata perifeacuterica que eacute dado pela relaccedilatildeo entre o

espaccedilamento das colunas e sua altura dividindo-se assim em cinco espeacutecies (species)

picnostilo sistilo diastilo areostilo e eustilo Esse uacuteltimo sobressai aos demais pelas

78 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III (III 1 4) p 7-8 ldquoigitur cum in omnibus operibus ordines traderent

maxime in aedibus deorum ltquod eorumgt operum et laudes et culpae aeternae solent permanererdquo Traduccedilatildeo

ldquoentatildeo como [os antigos] transmitissem as ordens para todos os gecircneros de obras sobretudo nos

templos dos deuses os meacuteritos e as faltas costumam perdurar eternamenterdquo 79 De acordo com Elisa Romano as noccedilotildees de antiqui ueteres e maiores em Vitruacutevio satildeo ldquodenominaccedilotildees

elaacutesticas capazes de se dilatar chegando a compreender eacutepocas muito arcaicas ou a englobar um

passado geneacuterico e indiferenciado ou de restringir-se em indicaccedilotildees mais precisas mas flexiacuteveis com

relaccedilatildeo ao plano cronoloacutegicordquo (Romano E ldquoVitruvio fra storia e antiquariardquo sect 26) 80 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III (III 1 4) p 7 ldquocum causa constituisse uidentur antiqui ut etiam

in operum perfectionibus singulorum membrorum ad universam figurae speciem habeant commensus

exactionemrdquo Traduccedilatildeo ldquovecirc-se que com razatildeo os antigos estabeleceram que ainda a perfeiccedilatildeo de cada

membro da obra possuiacutesse comensuraccedilatildeo exata para com a vista da configuraccedilatildeo do conjuntordquo 81 Ibid (III 2 1) p 11 ldquoaedium autem principia sunt e quibus constat figurarum aspectus eardquo Traduccedilatildeo

ldquoestes satildeo os princiacutepios a partir dos quais fundamentam-se os aspectos de suas configuraccedilotildeesrdquo Cf

capiacutetulo 3 ldquoPreceitos para o encantordquo

46

singulares vantagens oferecidas e se afirma no De Architectura como ponto alto na

prescriccedilatildeo dos templos82

121 Eustilo e auctoritas

O Livro III concentra o maior nuacutemero de referecircncias ao termo auctoritas de todo

De Architectura parte delas associadas agrave prescriccedilatildeo do modo eustilo A recomendaccedilatildeo

dessa espeacutecie de templo como a mais louvaacutevel deve-se ao desenvolvimento superior

de sua ordenaccedilatildeo relativamente ao uso agrave vista e agrave solidez da obra assim concebida

ldquoreddenda nunc est eustyli ratio quae maxime probabilis et ad usum et ad speciem et ad

firmitatem rationes habet explicatasrdquo83 As prescriccedilotildees que Vitruacutevio apresenta em seguida

do intercoluacutenio possuindo duas vezes e um quarto o diacircmetro da base da coluna com

exceccedilatildeo do intercoluacutenio central que deve possuir trecircs vezes essa dimensatildeo da coluna

satildeo os elementos necessaacuterios para que haja garantia de aspecto venusto do uso sem

entraves e da auctoritas do deambulatoacuterio84 Vitruacutevio aponta a ausecircncia de um

exemplar nesses moldes em Roma mas se refere ao templo hexastilo dedicado ao deus

Liacutebero em Teos na Aacutesia como portador dessas caracteriacutesticas proporcionais

superiores Tais symmetriae satildeo remetidas agrave autoridade de Hermoacutegenes vinculado por

Vitruacutevio ao desenvolvimento do princiacutepio do pseudodiacuteptero caracterizado pela

82 Como nota Pierre Gros a palavra ldquonuncrdquo que inicia a exposiccedilatildeo do eustilo em III 3 6 (reddenda nunc

est eustyli ratio) indica uma quebra na exposiccedilatildeo chamando a atenccedilatildeo para o modo que realmente

interessa (Gros P in Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III n 1 p 108) Aleacutem disso o eustilo estaacute fora

da seacuterie isto eacute Vitruacutevio apresenta os ritmos de templos em ordem crescente de intercoluacutenio com

exceccedilatildeo dele (picnostilo 1 frac12 sistilo 2 diastilo 3 areostilo gt3 eustilo 2 frac14) O eustilo deveria vir entre

o sistilo e o diastilo mas o adveacuterbio ldquonuncrdquo marca de fato uma interrupccedilatildeo na exposiccedilatildeo para apresentar

por uacuteltimo o princiacutepio definitivo Cf capiacutetulo 3 ldquoPreceitos para o encantordquo 83 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III (III 3 6) p 16 Traduccedilatildeo ldquodeve ser reportado agora o modo

eustilo que possui regulaccedilotildees desenvolvidas sendo maximamente aprovado quanto ao uso ao aspecto

e agrave firmezardquo 84 Ibid (III 3 6) p 16 ldquosic enim habebit et figurationis aspectum uenustum et aditus usum sine inpeditionibus

et circa cellam ambulatio auctoritatemrdquo Traduccedilatildeo ldquopois assim teraacute aspecto venusto quanto agrave configuraccedilatildeo

acesso sem impedimentos ao uso e autoridade ao deambulatoacuterio em torno da celardquo

47

supressatildeo de uma linha de colunas das duas paralelas que constituem o templo

diacuteptero Obteacutem-se daiacute o alargamento notaacutevel do vatildeo do deambulatoacuterio em torno agrave cela

sem diminuir a visatildeo que se tem da obra Eliminando-se ao mesmo tempo o que possa

ser supeacuterfluo conserva-se a auctoritas pela distribuiccedilatildeo da obra em seu todo afirma

Vitruacutevio ldquoele [Hermoacutegenes] notavelmente produziu um alargamento no interior do

deambulatoacuterio em torno da cela que em nada diminuiu o aspecto mas sem apego ao

supeacuterfluo conservou a autoridade na distribuiccedilatildeo de toda a obrardquo85

O trecho de elogio ao modo eustilo revela no entanto um emprego do termo

auctoritas relacionado natildeo mais ao corpus prescritivo tampouco direcionado ao

arquiteto mas agrave obra de arquitetura insigne que segue tais princiacutepios na busca de um

coroamento infaliacutevel Inicialmente a auctoritas aparece vinculada agrave ambulatio86

Referindo-se agraves symmetriae do pseudodiacuteptero hexastilo instituiacutedas por Hermoacutegenes

Vitruacutevio aponta ao deambulatoacuterio um alargamento egregiamente empreendido que

vela pela auctoritas sem prejuiacutezo da economia de recursos que a ditribuiccedilatildeo adequada

propicia

122 Sentidos de auctoritas

Diante da sobreposiccedilatildeo semacircntica que o termo encerra Pierre Gros chama a

atenccedilatildeo para as diferentes acepccedilotildees de auctoritas87 que identifica no De Architectura de

85 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III (III 3 8) p 17-18 ldquois in medio ambulationi laxamentum egregie

circa cellam fecit de aspectuque nihil inminuit sed sine desiderio superuacuorum conseruauit auctoritatem totius

operis distributionerdquo 86 Ambulatio ou deambulatoacuterio eacute a aacuterea que circunda a cela do templo sendo delimitada em geral pelas

colunas do pteroma Segundo M Justino Maciel pteroma ldquoeacute a disposiccedilatildeo das colunas em volta do

templo ala peristilar ou poacutertico envolvente dos templos periacutepteros Pode tambeacutem por metoniacutemia

significar a ambulatio ou zona de circulaccedilatildeo em torno das colunas do templordquo (Maciel M J in Vitruacutevio

ldquoTratado de arquiteturardquo n 63 p 181) 87 Em relaccedilatildeo ao emprego de auctoritas em contextos ligados agraves artes visuais Pollitt apontara uma

variaccedilatildeo de sentidos que recaiacuteam basicamente em trecircs direccedilotildees a do prestiacutegio e reputaccedilatildeo do artista a

da sanccedilatildeo coletiva concedida a uma obra o efeito de magnificecircncia e grandiosidade Cf Pollitt J J

ldquoThe Ancient View of Greek Art - Criticism history and terminologyrdquo p 311-318

48

modo que primeiramente o termo pode fazer referecircncia aos antecessores88 que se

constituiacuteram autoridades e cujos preceitos satildeo transmitidos pelas doutrinas como

convenccedilotildees modulares89 Nesse caso a auctoritas presente na edificaccedilatildeo adveacutem da

sutileza do artiacutefice (subtilitas artificis)90 que domina as instruccedilotildees transmitidas pela

doutrina Num segundo sentido auctoritas apareceria relacionada ao emprego de

materiais luxuosos sobretudo o maacutermore de modo que o edifiacutecio acaba por transmitir

uma impressatildeo de pujanccedila em funccedilatildeo das expensas consentidas pelo promotor da

obra Eacute o que lemos no Livro VII quando Vitruacutevio se refere agrave ausecircncia de comentaacuterios

agrave obra de G Muacutecio

que contando com grande ciecircncia perfez as symmetriae ndash legitimamente embasadas na

arte ndash das celas colunas e epistiacutelios do templo de Honra e Virtude dedicado por Maacuterio

Quanto a esse templo se fosse de maacutermore de modo que tivesse assim como a sutileza

da arte a autoridade da magnifecircncia e das expensas teria seu nome entre as primeiras

e mais elevadas obras91

A terceira acepccedilatildeo de auctoritas eacute entendida por Gros como aquela presente nas

passagens que tratam das species de templos no Livro III remetendo ao elogio do ritmo

88 Gros faz lembrar que tal sorte de remissatildeo se atesta por exemplo em Quintiliano I 6 42 ao invocar

os summi auctores (Gros Pierre ldquoLrsquoauctoritas chez Vitruve Contribution agrave lrsquoeacutetude de la seacutemantique des

ordres dans le De Architecturardquo p 264 n 21 p 268) 89 Gros Pierre ldquoLrsquoauctoritas chez Vitruve Contribution agrave lrsquoeacutetude de la seacutemantique des ordres dans le De

Architecturardquo p 264 90 Cf Vitruacutevio (IV 1 10) (VII 5 7) (VII pref 17) (X 1 2) 91 Vitruacutevio ldquoTratado de Arquiteturardquo (VII pref 17) p 338-339 Em Latim ldquoqui magna scientia confisus

aedes Honoris et Virtutis Marianae cellae columnarumque et epistyliorum symmetrias legitimis artis institutis

perfecit Id uero si marmoreum fuisset ut haberet quemadmodum ab arte subtilitatem sic ab magnificentia et

impensis auctoritatem in primis et summis operibus nominareturrdquo (Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre VII

p 9) Natildeo se deve perder de vista contudo a censura aos gastos e ao abuso das cores em detrimento da

periacutecia do artiacutefice encarregado de decorar a edificaccedilatildeo nesse mesmo livro que trata dos acabamentos

ldquoutinam dii immortales fecissent uti Lykinos reuiuisceret et corrigeret hanc amentiam tectoriorumque errantia

instituta Quod enim antiqui insumentes laborem et industriam probare contendebant artibus id nunc coloribus

et eorum eleganti specie consecuntur et quam subtilitas artificis adiciebat operibus auctoritatem nunc dominicus

sumptus efficit ne desidereturrdquo (Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre VII - VII 5 7 - p 26) Traduccedilatildeo

ldquopudessem os deuses imortais fazer com que Liciacutenio voltasse agrave vida e corrigisse a loucura e os erros

instaurados das pinturas dos revestimentos [] Pois aquilo pelo que os antigos lutavam em tornar

aprovado agrave arte valendo-se de labor e aplicaccedilatildeo agora se consegue pelas cores e pela vista elegante e

a sutileza do artiacutefice que acrescentava autoridade agraves obras agora se faz pelos gastos do comitente de

modo que mais nada seja desejadordquo

49

da peristasis ndash regiatildeo composta pela colunata que circunda o templo ndash obtido na

ordenaccedilatildeo de tipo eustilo pseudodiacuteptero o exemplar mais excelente dentre os modos

prescritos

Lemos em Vitruacutevio que ldquoo sistema do pteroma como a disposiccedilatildeo das colunas

ao redor do templo foi inventado para que o aspecto por causa do realce (asperitas)

dos intercoluacutenios tivesse autoridaderdquo92 Pode-se depreender nesse excerto a

aproximaccedilatildeo feita entre a disposiccedilatildeo do pteroma e o aspecto (aspectus) da obra cuja

auctoritas adveacutem dos intercoluacutenios na medida em que satildeo portadores de determinada

caracteriacutestica Trata-se da asperitas noccedilatildeo difiacutecil de traduzir nessa passagem De que

modo a asperitas dos intercoluacutenios poderia ser a causa da autoridade do aspecto

123 Asperitas

Pierre Gros dedicou um estudo especificamente a essa noccedilatildeo93 e uma das

maiores dificuldades na compreensatildeo do uso do termo em Vitruacutevio era o emprego

aparentemente oposto em obras sobre retoacuterica nas quais o uso figurado de asperitas

assume um sentido de todo negativo associado a viacutecios do discurso que produzem

incocircmodo aos ouvidos quebra no ritmo cacofonia Eacute o que identificamos no Orator

quando satildeo apresentadas duas possibilidades ao discurso ldquograndiloquenterdquo aacutespero

severo inculto imperfeito e inacabado ou por outro lado liso bem construiacutedo bem

acabado94 Ao tratar da eufonia Ciacutecero atribui a Luciacutelio uma citaccedilatildeo em que a

92 Vitruacutevio ldquoTratado de Arquiteturardquo (III 3 9) p 181 Em latim ldquopteromatos enim ratio et columnarum

circum aedem dispositio ideo est inuenta ut aspectus propter asperitatem intercolumniorum habeat auctoritatemrdquo

(Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III p 18) Maciel verte ldquoasperitatemrdquo por ldquorealcerdquo que parece uma

boa opccedilatildeo para indicar o problema da impressatildeo de relevo implicada pelo uso peculiar que Vitruacutevio faz

da noccedilatildeo 93 Gros P ldquoDe La Rheacutetorique agrave LrsquoArchitecture LrsquoAmbiguiteacute de LrsquoAsperitasrdquo 94 Ciceron ldquoLrsquoOrateurrdquo 20 p 7 ldquoalii aspera tristi horrida oratione neque perfecta atque conclusa alii leui et

structa et terminatardquo Traduccedilatildeo ldquouns com uma oratoacuteria aacutespera severa imperfeita e inacabada outros

com uma oratoacuteria lisa bem construiacuteda bem acabadardquo

50

graciosidade do arranjo das palavras eacute exaltada e elas satildeo comparadas agraves peccedilas que

compotildeem uma pavimentaccedilatildeo feita com arte tal como mosaico95 Ciacutecero recomenda

enfim a virtude no uso das palavras e o afastamento da ldquoasperezardquo (asperitatem)96

O trecho de elogio em que asperitas aparece no Livro III do De Architectura

parece distanciar-se da conotaccedilatildeo viciosa descrita por Ciacutecero ao mesmo termo Aliaacutes

em Vitruacutevio asperitas provecirc auctoritas (ut aspectus propter asperitatem intercolumniorum

habeat auctoritatem)97 Assim o sistema do pteroma e da disposiccedilatildeo das colunas garante

a qualidade superior do pseudodiacuteptero98 em virtude da auctoritas conferida pela

asperitas ao aspectus autoridade essa conservada por uma distribuiccedilatildeo adequada e

aliada agrave comodidade do uso jaacute que o alargamento do deambulatoacuterio permite ainda

uma espera mais cocircmoda agrave multidatildeo surpreendida pela forccedila da chuva e impedida de

sair do templo99

A soleacutercia aguda de Hermoacutegenes proporcionou esse feito conferindo aos

poacutesteros como que as fontes a serem hauridas no domiacutenio desses princiacutepios100 Tal

legado satisfaz a um soacute tempo duas esferas da aedificatio101 a ratio utilitatis pela

comodidade provida ao uso a ratio uenustatis pelo que propicia ao aspecto da obra

Resta ainda saber de que modo a noccedilatildeo de asperitas se vincula ao campo da uenustas

95 Ibid 149 p 54 ldquoquam lepide lexis compostae ut tesserulae omnes arte pauimento atque emblemate

uermiculato rdquo Traduccedilatildeo ldquocomo satildeo graciosamente compostas essas palavras do mesmo modo que as

pedras todas satildeo dispostas com arte nos pavimentos e nos mosaicos vermiculadosrdquo 96 Ibid 164 p 62 ldquoimmo uero ista sequamur asperitatemque fugiamurrdquo Traduccedilatildeo ldquoou melhor sigamos esta

e fujamos da asperidaderdquo 97 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III (III 3 9) p 18 98 Ibid (III 3 9) p 18 ldquohaec autem ut explicantur in pseudodipteris aedium dispositionibusrdquo Traduccedilatildeo

ldquocomo isso se encontra desenvolvido nas disposiccedilotildees dos templos pseudodiacutepterosrdquo 99 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III (III 3 9) p 18 ldquopraeterea si ex imbribus aquae uis occupauerit et

intercluserit hominum multitudinem ut habeat in aede circaque cellam cum laxamento liberam moramrdquo

Traduccedilatildeo ldquoaleacutem disso se a forccedila da aacutegua da chuva surpreender e bloquear uma multidatildeo de homens

ela teraacute no templo uma espera mais cocircmoda com o alargamento ao redor da celardquo 100 Ibid (III 3 9) p 18 ldquoquare uidetur acuta magnaque sollertia effectus operum Hermogenes fecisse

reliquisseque fontes unde posteri possent haurire disciplinarum rationesrdquo Traduccedilatildeo ldquopor isso vecirc-se que

Hermoacutegenes realizou esses feitos nas obras com aguda e elevada soleacutercia aleacutem do que deixou as fontes

onde os poacutesteros pudessem haurir os princiacutepios disciplinaresrdquo A imagem da fonte a ser haurida eacute

retomada no Livro VII (VII pref 10) por ocasiatildeo justamente da listagem de autores referenciais agrave

proacutepria constituiccedilatildeo da preceptiva Cf n 66 supra 101 Cf Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre I (I 3 2) p 20

51

Pierre Gros propotildee uma aproximaccedilatildeo semacircntica entre o termo asperitas de III 3

9 com sua ocorrecircncia em passagem do Livro Seacutetimo embora esse trecho consista na

descriccedilatildeo de cenaacuterio teatral pintado

e com efeito ainda em Trales Apatuacuterio de Alabanda tinha realizado (finxisset) com matildeo

elegante um cenaacuterio (scaenam) em um pequeno teatro chamado ecclesiasterion entre eles

e nesse cenaacuterio tinha feito colunas estaacutetuas centauros sustentando epistiacutelios

coberturas de cuacutepulas circulares acircngulos salientes de frontotildees e cornijas ornadas por

cabeccedilas de leotildees cuja razatildeo era a de escoar a aacutegua das coberturas aleacutem disso sobre

todas as coisas havia nada menos que um coroamento de cena (episcenon) com cuacutepulas

pronaus semi-frontotildees e variados ornatos pintados no teto Assim como o aspecto

desse cenaacuterio por causa de seu realce (asperitatem) acariciava a visatildeo de todos que jaacute

estavam preparados para aprovar essa obra entatildeo []102

Fica claro que os motivos pintados embora planos remetem a elementos

arquiteturais (colunas epistiacutelios cuacutepulas) apresentados no cenaacuterio como se tivessem

relevo (fastigiorum prominentes uersuras) Ora trata-se de uma scaena forjada (finxisset)

por Apatuacuterio que portanto natildeo constroacutei de fato colunas epistiacutelios coberturas etc O

termo asperitas designaria esse efeito atuante no olho do observador como uma espeacutecie

de aspereza ou rugosidade (itaque cum aspectus eius scaenae propter asperitatem

eblandiretur omnium uisus) donde a opccedilatildeo de Gros por traduzi-lo como ldquoimpressatildeo de

relevordquo (impression de relief) no Livro III Ali a associaccedilatildeo entre asperitas e auctoritas

supotildee uma ecircnfase no caraacuteter sensorial evocado pelo pteroma do templo eustilo

pseudodiacuteptero feito da arguacutecia aguda do artiacutefice que considera a posiccedilatildeo de quem

usa o templo na qualidade sobretudo de espectador O ritmo produzido pelo

contraste luminoso entre a luz refletida na superfiacutecie das colunas e a obscuridade dos

102 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre VII (VII 5 5) p 25 ldquoetenim etiam Trallibus cum Apaturius

Alabandeus eleganti manu finxisset scaenam in minusculo theatro quod ἐχχλησιαστήριν apud eos uocitatur in

eaque fecisset columnas signa centauros sustinentes epistylia tholorum rotunda tecta fastigiorum prominentes

uersuras coronasque capitibus leoninis ornatas quae omnia stillicidiorum e tectis habent rationem praetera supra

ea nihilominus episcenon in qua tholi pronai semifastigia omnisque tecti uarius picturis fuerat ornatus itaque

cum aspectus eius scaenae propter asperitatem eblandiretur omnium uisus et iam id opus probare fuissent parati

tum []rdquo

52

intervalos dilatados em profundidade no deambulatoacuterio perfaz uma espeacutecie de efeito

de aspereza aos olhos diante da epiderme exterior do templo ndash para usar uma imagem

de Pierre Gros103 A noccedilatildeo de aspectus conecta as passagens do Livro III e do VII104 pelo

estabelecimento da posiccedilatildeo comum agravequele que contempla o edifiacutecio sagrado e o que

se potildee diante da pintura Mas enquanto a impressatildeo de relevo (asperitas) na cena

(scaena) acaricia e agrada a visatildeo105 o edifiacutecio se eleva em autoridade por causa da

asperitas106 Se a preocupaccedilatildeo com o aspectus constitui um traccedilo comum entre o cenaacuterio

e o templo eustilo pseudodiacuteptero eacute apenas na arquitetura que assume o vigor da

auctoritas

13 Auctoritas e Aedificatio

Como se viu estaacute no escopo do De Architectura a obtenccedilatildeo de auctoritas pelo

arquiteto o qual para isso deve contar natildeo apenas com o engenho ou com um longo

percurso de aprendizagem mas ainda com o contributo de uma doutrina autorizada

Aleacutem do arquiteto e da preceptiva a se fazerem autorizados a proacutepria obra de

arquitetura deve demonstrar por si o resultado da soleacutercia do arquiteto e da adequaccedilatildeo

agraves convenccedilotildees construtivas revestindo-se de autoridade Nesse intuito o aspecto

confere agrave obra auctoritas conservada por uma distribuiccedilatildeo107 adequada conforme

explicitou Vitruacutevio Dificilmente perceptiacutevel a quem natildeo estaacute envolvido com

103 Gros P ldquoDe La Rheacutetorique agrave LrsquoArchitecture LrsquoAmbiguiteacute de LrsquoAsperitasrdquo p 286 104 Vitruacutevio (III 3 9) e (VII 5 5) 105 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre VII (VII 5 5) p 25 ldquocum aspectus eius scaenae propter asperitatem

eblandiretur omnium uisusrdquo Cf n 102 supra 106 Cf n 92 supra 107 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre I (I 2 8) p 18 ldquodistributio autem est copiarum locique commoda

dispensatio parcaque in operibus sumptus ratione temperatiordquo Segundo a traduccedilatildeo de Maciel ldquoa distribuiccedilatildeo

eacute a reparticcedilatildeo apropriada dos meios e do solo assim como um equiliacutebrio nas contas de despesa das

obrasrdquo (Vitruacutevio Tratado de Arquitetura p 79) Sobre distributio e auctoritas cf n 85 supra

53

proximidade agraves atividades construtivas108 a distribuiccedilatildeo embora fundamental resta

oculta agrave maioria Por outro lado o aspectus eacute uma das dimensotildees mais abrangentes de

uma obra puacuteblica ou de um templo na medida em que a simples presenccedila da

edificaccedilatildeo franqueia a todos os olhos o feito de sua elaboraccedilatildeo Ratio Venustatis eacute como

Vitruacutevio nomeou o campo cujas preocupaccedilotildees envolvem a vista agradaacutevel e elegante

(species grata et elegans)109 da obra efeito de suas justas comensurabilidades (iustas

symmetriarum ratiocinationes)110 Essa contudo eacute apenas uma das vias para tornar a

edificaccedilatildeo autorizada De todo modo haveria melhor maneira de expor o poder aos

olhos aleacutem da autoridade visiacutevel de seus edifiacutecios

131 Auctoritas e Maiestas Imperii

O prefaacutecio ao Livro I exibe a primeira ocorrecircncia do termo auctoritas no De

Architectura em torno da dedicatoacuteria da obra agrave Augusto

como notei tua preocupaccedilatildeo natildeo soacute com a vida comum a todos e a organizaccedilatildeo da

Repuacuteblica mas ainda com as vantagens advindas das construccedilotildees puacuteblicas de modo

que a Cidade natildeo fosse por ti ampliada apenas com proviacutencias e sim para que a

majestade do poder recebesse a autoridade das egreacutegias edificaccedilotildees puacuteblicas julguei

que natildeo devia deixar passar o primeiro momento para apresentar estes volumes a ti

[]111

108 A dificuldade no controle dos gastos eacute um problema antigo retratado por Vitruacutevio no Livro X ao

expor a lei de Eacutefeso sobre o cumprimento dos orccedilamentos ldquonobili Graecorum et ampla ciuitate Ephesi lex

uetusta dicitur a maioribus dura condicione sed iure esse non iniquo constituta Nam architectus cum publicum

opus curandum recipit pollicetur quanto sumptu id sit futurum Tradita aestimatione magistratui bona eius

obligantur donec opus sit perfectumrdquo (Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre X - X pref 1 p 2) Traduccedilatildeo

ldquoDiz-se que na nobre e grande cidade grega de Eacutefeso foi instituiacuteda pelos maiores uma vetusta lei de

duras condiccedilotildees mas natildeo juridicamente iniacutequa Quando um arquiteto assumia os cuidados de uma obra

puacuteblica estimava os gastos a serem empregados Levada a estimativa ao magistrado os bens do

arquiteto eram dados em garantia ateacute que a obra fosse concluiacutedardquo 109 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre I (I 3 2) p 20 110 Ibid (I 3 2) p 20 111 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre I (I pref 2) p 3 ldquoCum uero adtenderem te non solum de uita

communi omnium curam publicaeque rei constitutiuone habere sed etiam de opportunitate publicorum

54

Vitruacutevio ressalta as vantagens advindas por ocasiatildeo da empreitada ediliacutecia ao

lado dos cuidados com a vida comum e a organizaccedilatildeo da Repuacuteblica para que Roma

natildeo crescesse apenas com a expansatildeo territorial mas se deixasse revestir da autoridade

concedida agrave sua potecircncia precisamente por meio dos edifiacutecios puacuteblicos Afinal como

fica registrado no periacuteodo de escrita do De Architectura Augusto jaacute havia edificado

muito e ainda o fazia ldquoquod animaduerti multa te aedificauisse et nunc aedificarerdquo112 Seraacute

contudo possiacutevel entrever nessas linhas do exoacuterdio conformes aos preceitos

retoacutericos113 de que modo a arquitetura poderia contribuir agrave autoridade magnificente

do poder de Roma

Ali Vitruacutevio insiste sobre as vantagens das edificaccedilotildees puacuteblicas (de opportunitate

publicorum aedificiorum) Eacute certo que no mesmo Livro I iraacute tratar das opportunitates

enquanto diretrizes agrave constituiccedilatildeo dos recintos urbanos voltadas agraves necessidades mais

elementares na implantaccedilatildeo de uma urbe tais como a escolha do siacutetio questotildees de

insolaccedilatildeo trajetoacuterias dos ventos acessos para escoamento e abastecimento de

mercadorias construccedilatildeo de muralhas e torres de proteccedilatildeo determinaccedilatildeo de ruelas e

avenidas etc Estaraacute Vitruacutevio se referindo exclusivamente a essa sorte de preocupaccedilotildees

no exoacuterdio ao Livro Primeiro Eacute possiacutevel embora nos demais desenvolvimentos em

torno das opportunitates ndash os que se encontram fora do primeiro prefaacutecio ndash natildeo haja

aedificiorum ut ciuitas per te non solum prouinciis esset aucta uerum etiam ut maiestas imperii publicorum

aedificiorum egregias haberet auctoritates non putaui praetermittendum quin primo quoque tempore de his rebus

ea tibi ederem []rdquo 112 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre I (I pref 3) p 3 113 O exoacuterdio ocupa papel importante no discurso pois segundo se lecirc na Retoacuterica a Herecircnio ldquoessa tripla

utilidade isto eacute que os ouvintes se mantenham continuamente atentos doacuteceis e benevolentes conosco

embora se deva buscaacute-la em todo o discurso eacute preparada sobretudo no exoacuterdiordquo ([Ciacutecero] ldquoRetoacuterica a

Herecircniordquo- I 11 - p 63) Em latim ldquouerum hae tres utilitates tametsi in tota oratione sunt conparandae hoc

est ut auditores sese perpetuo nobis adtentos dociles beniuolos praebeant tamen id per exordium causae maxime

conparandum estrdquo (ibid - I 11 - p 62) Se eacute por meio do exoacuterdio que se dispotildee o acircnimo do ouvinte (ibid

I 4 p 57) e o Imperator constitui o destinataacuterio privilegiado desse discurso eacute preciso considerar o tom

elevado de elogio nesses dizeres iniciais em conformidade ao gecircnero deliberativo a que se recorre como

uma tentativa de tornar o ouvinte atento ldquoteremos ouvintes atentos se prometermos falar de mateacuteria

importante nova e extraordinaacuteria ou que diz respeito agrave Repuacuteblica ou aos proacuteprios ouvintes []rdquo (ibid

I 7 p 59) Em latim ldquoattentos habebimus si pollicebimur nos de rebus magnis nouis inusitatis uerba facturos

aut de iis quae ad rem publicam pertineant aut ad eos ipsos qui audient []rdquo(ibid I 7 p 58)

55

menccedilatildeo ao conceito de auctoritas O De Architectura todavia reserva lugar a esse

conceito em outras de suas partes e a partir de inflexotildees outras

132 Basiacutelica de Fano auctoritas e uenustas

O livro V eacute destinado agraves prescriccedilotildees de obras puacuteblicas que natildeo edifiacutecios

sagrados ndash mateacuteria dos Livros III e IV Foros poacuterticos basiacutelicas teatros banhos

palestras e portos satildeo as espeacutecies de edificaccedilotildees tratadas no Quinto Volume Dentre os

assuntos apresentados no entanto chamam a atenccedilatildeo os apontamentos sobre a

basiacutelica de Fano da qual Vitruacutevio afirma ter sido ele proacuteprio o responsaacutevel ldquocollocaui

curauique faciendamrdquo114 O debatido passo suscitou muitas controveacutersias ateacute mesmo

com as conjecturas de que pudese constituir uma interpolaccedilatildeo posterior115 Mas ainda

que o teor das prescriccedilotildees e a escrita do excerto em questatildeo natildeo permitam excluiacute-lo da

unidade do corpus vitruviano116 resta que a descriccedilatildeo da basiacutelica de Fano destoa das

prescriccedilotildees gerais destinadas agraves basiacutelicas que a antecedem imediatamente Nessas

preceitua-se que as colunas superiores sejam a quarta parte menores do que as

inferiores117 Quanto agrave basiacutelica de Fano Vitruacutevio escreve que

as colunas tem altura ininterrupta de cinquenta peacutes com os capiteacuteis espessura de cinco

peacutes possuindo atraacutes de si pilastras de vinte peacutes de altura dois peacutes e meio de largura e

um peacute e meio de espessura que sustentam as traves sobre as quais se encontram os

vigamentos dos poacuterticos118

114 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre V (V 1 6) p 5 Traduccedilatildeo ldquodispus e cuidei da execuccedilatildeordquo 115 Cf Francesco Pellati ldquoLa basilica di Fano e la formazione del Trattato de Vitruviordquo p 157 Cf ainda

Saliou C in Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre V n 4 p 141 116 Pellati procura refutar os argumentos de ordem arquitetocircnica histoacuterica e filoloacutegica que defendem

que a descriccedilatildeo da basiacutelica de Fano se trata de interpolaccedilatildeo posterior 117 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre V (V 1 3) p 4 ldquocolumnae superiores quarta parte minores quam

inferiores sunt constituendaerdquo Traduccedilatildeo ldquoas colunas superiores devem ser constituiacutedas a quarte parte

menores que as inferioresrdquo 118 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre V (V 1 6) p 5-6 ldquocolumnae altitudinibus perpetuis cum capitulis

pedes L crassitudinibus quinum habentes post se parastaticas altas pedem XX latas pedem II S crassas I S quae

56

Sejam quais forem as motivaccedilotildees que teriam levado Vitruacutevio a adotar os

criteacuterios proacuteprios agrave elaboraccedilatildeo da basiacutelica de Fano sua descriccedilatildeo revela mais que uma

obra singular Pois conclui a passagem demonstrando que as colunas ininterruptas

diminuem os gastos pela supressatildeo dos ornamentos do epiacutestilio existente entre as

colunas inferiores e as superiores no esquema geral119 Mas principalmente as colunas

in altitudine perpetuae ldquoelevam a magnifecircncia das expensas e a autoridade da obrardquo120

As colunas de cinquumlenta peacutes de altura e cinco de espessura da basiacutelica de Fano

constituem certamente um feito notaacutevel agrave arte edificatoacuteria todavia a grandiosidade

exaltada natildeo prescinde do aspecto venusto da dupla disposiccedilatildeo exterior dos telhados

e da alta nave interior ldquoita fastigiorum duplex pectinata dispositio extrinsecus tecti et

sustinent trabes in quibus inuehuntur porticuum contignationesrdquo Ora Vitruacutevio deliberadamente potildee de lado

as regras que pouco antes havia prescrito (V 1 3) Uma passagem das Instituiccedilotildees Oratoacuterias de

Quintiliano ainda que voltada ao orador eacute esclarecedora ldquonemo autem a me exigat id praeceptorum genus

quod est a plerisque scriptoribus artium traditum ut quasi quasdam leges inmutabili necessitate constrictas

studiosis dicendi feram utique prohoemium et id quale proxima huic narratio quae lex deinde narrandi propositio

post hanc uel ut quibusdam placuit excursio tum certus ordo quaestionum ceteraque quae uelut si aliter facere

fas non sit quidam tanquam iussi secutur Erat enim rhetorice res prorsus facilis ac parua si uno et breui

praescripto contineretur sed mutantur pleraque causis temporibus occasione necessitate Atque ideo res in

oratore praecipua consilium est quia uarie et ad rerum momenta conuertiturrdquo (Quintilien ldquoIntitution

Oratoirerdquo - II 13 1-2 - p 69-70) Traduccedilatildeo ldquoque ningueacutem exija de mim esse gecircnero de preceitos o qual

eacute transmitido pela maior parte das obras dos escritores de modo que eu ofereccedila como que certas leis

restritas por uma necessidade imutaacutevel aos estudantes de oratoacuteria e de modo que primeiro o proecircmio

e como deva ser depois a narraccedilatildeo entatildeo quais sejam as leis da narraccedilatildeo depois a proposiccedilatildeo ou

como agrada a alguns a digressatildeo entatildeo a ordem correta das questotildees e outras coisas a que alguns

seguem como que a decretos e tal como uma lei divina que natildeo pudesse ser feita de outro modo Pois

a retoacuterica assim alinhada seria algo faacutecil e modesto se pudesse estar contida em uma breve prescriccedilatildeo

mas a maior parte das causas muda com as circunstacircncias a ocasiatildeo e a necessidade E por isso o

principal ao orador eacute a ponderaccedilatildeo (consilium) que se altera variadamente e em relaccedilatildeo agraves conjunturasrdquo

Vitruacutevio parece justamente se adaptar agraves circunstacircncias valendo-se do engenho e da instruccedilatildeo no que

propotildee desenvolver para a Basiacutelica de Fano 119 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre V (V 1 10) p 7 ldquoitem sublata epistyliorum ornamenta et pluteorum

columnarumque superiorum distributio operosam detrahit molestiam sumptusque inminuit ex magna parte

summamrdquo Traduccedilatildeo ldquodo mesmo modo subtraiacutedos os ornamentos dos epiacutestilios e dos pluacuteteos e as

colunas superiores a distribuiccedilatildeo elimina um labor penoso e diminui grande parte da soma total dos

gastosrdquo 120 Ibid (V 1 10) p 7 ldquoipsae uero columnae in altitudine perpetua sub trabes testudinis perductae et

magnificentiam inpensae et auctoritatem operi adaugere uidenturrdquo Traduccedilatildeo ldquoquanto agraves proacuteprias colunas de

altura ininterrupta levadas ateacute debaixo das traves da nave central vecirc-se que elevam a magnifecircncia das

expensas e a autoridade da obrardquo

57

interioris altae testudinis praestat speciem uenustamrdquo121 A descriccedilatildeo dessa obra se iniciava

apontando para a suma dignidade e venustidade que a revestiam ldquoigualmente a

preparaccedilatildeo das basiacutelicas contaraacute com a mais eminente dignidade e venustidade

conforme o gecircnero daquela da Colocircnia Juacutelia de Fano para a qual propus a disposiccedilatildeo

e cuidei da execuccedilatildeo e cujas proporccedilotildees e comensurabilidades (symmetriae) assim

foram estabelecidasrdquo122

A grandeza alcanccedilada na uacutenica obra atribuiacuteda pelo autor a si mesmo no De

Architectura natildeo suspende as demais diretivas enunciadas no corpus Desse modo a

economia de recursos na obra eacute observada a partir do que as colunas grandiosas da

basiacutelica de Fano reduzem nos gastos (sumptus) no acircmbito da distributio A preocupaccedilatildeo

com o aspecto recorre na passagem em duas ocasiotildees reivindicando uenustas agrave vista

produzida pela obra

Se no templo eustilo pseudodiacuteptero a auctoritas estava relacionada agrave disposiccedilatildeo

do pteroma e ao aspecto produzido visto do exterior e a uma distribuiccedilatildeo adequada

na basiacutelica de Fano por outro lado a disposiccedilatildeo colossal das colunas garante uma

distribuiccedilatildeo eficiente e auctoritas pelo arroubo da dimensatildeo vertical e vista de seu

interior aleacutem do aspecto exterior de sua cobertura Assumindo a proximidade

conceitual entre os termos dignitas e auctoritas que ocorrem respectivamente no iniacutecio

e no final da descriccedilatildeo da basiacutelica de Fano123 fica evidente a associaccedilatildeo estabelecida

entre as comensurabilidades dadas sobretudo pelas colunas elevadas e a auctoritas

proporcionada agrave obra

121 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre V (V 1 10) p 7 Traduccedilatildeo ldquoassim a disposiccedilatildeo exterior da

cobertura em duas aacuteguas e a altura do interior da nave central garantem uma vista venustardquo 122 Ibid (V 1 6) p 5 ldquonon minus summam dignitatem et uenustatem possunt habere comparationes basilicarum

quo genere Coloniae Iuliae Fanestri collocaui curauique faciendam cuius proportiones et symmetriae sic sunt

constitutaerdquo 123 Cf n 120 e n 122 supra

58

133 Auctoritas no De Architectura

No prefaacutecio ao Livro Seacutetimo satildeo apresentadas quatro edificaccedilotildees que se

destacam pelo emprego do maacutermore ornando suas disposiccedilotildees124 Dentre elas

Vitruacutevio fala da cela de Ceres e Proseacuterpina feita por Ictino em Elecircusis125 de prodigiosa

magnitude mas sem colunas no seu exterior e que posteriormente acaba recebendo

esse acreacutescimo pelo arquiteto Filo126 quando Demeacutetrio de Falero exercia o poder em

Atenas ldquotendo construiacutedo colunas diante do templo na sua parte frontal Filo tornou-

o prostilo assim com a aumento do vestiacutebulo acrescentou um alargamento da aacuterea

aos ingressantes e suma autoridade agrave obrardquo127 Relacionada ao emprego das colunas a

auctoritas eacute afirmada nessa passagem pelo incremento da obra que recebe um

elemento construtivo exterior e ascende em imponecircncia A cela jaacute era apresentada

como grandiosa (cellam immani magnitudine) mas a suma autoridade (summam

auctoritatem) adveacutem aqui do acreacutescimo ndash aucto uestibulo A dilataccedilatildeo exterior

proporcionada pelas colunas que transformaram a cela em templo prostilo eacute o que

eleva o prestiacutegio garantindo auctoritas acima mesmo do que o maacutermore fizera

A promessa de auctoritas anunciada desde o primeiro prefaacutecio mostra-se

enredada na variedade prevista pela preceptiva e que se ancora no conceito de decor

Cada edifiacutecio deve portanto ajustar-se ao papel que lhe cabe na esfera puacuteblica ou

124 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre VII (VII pref 16) p 8 ldquonam quattuor locis sunt aedium sacrarum

marmoreis operibus ornatae dispositionesrdquo Traduccedilatildeo ldquocom efeito em quatro lugares as disposiccedilotildees dos

edifiacutecios sagrados satildeo ornadas com obras em maacutermorerdquo 125 Ibid (VII pref 16) p 9 ldquoEleusine Cereris et Proserpinae cellam immani magnitududine Ictinos dorico more

sine exterioribus columnis ad laxamentum usus sacrificiorum pertexitrdquo Traduccedilatildeo ldquoIctino completou em

Elecircusis a cela de Ceres e Proseacuterpina de prodigiosa magnitude segundo o modo doacuterico sem colunas

exteriores para o uso sacrificial nessa aacuterea de alargamentordquo 126 Trata-se do mesmo arquiteto mencionado por Ciacutecero no De Oratore cf supra cf De Oratore (I 62)

Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre VII (VII pref 12) p 6 ldquoPhilo de aedium sacrarum symmetriis et de

armamentario quod fuerat Piraei porturdquo Traduccedilatildeo ldquoFilo [publicou um volume] sobre as symmetriae dos

templos sagrados e do arsenal que ficava no porto do Pireurdquo 127 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre VII (VII pref 17) p 9 ldquoPhilo ante templum in fronte columnis

constitutis prostylon fecit ita aucto uestibulo laxamentum initiantibus operique summam adiecit auctoritatemrdquo

59

privada pautando-se ainda pelas noccedilotildees que fundamentam a erudiccedilatildeo do arquiteto

convenientemente administradas agraves diversas situaccedilotildees previstas O ponto alto da

prescritiva edificatoacuteria se encontra no Livro Terceiro e o exemplo por excelecircncia eacute o

templo eustilo pseudodiacuteptero por suas comensurabilidades e aspectus proporcionado

pelo pteroma Do Livro Seacutetimo se depreende que o vestiacutebulo adicionado por Filo agrave cela

de Ceres e Proseacuterpina engrandece-a com as colunas implantadas conferindo-lhe suma

auctoritas tal como fazem as dimensotildees prodigiosas das colunas da basiacutelica de Fano

apresentada no Livro Quinto como portadora de proporccedilotildees e symmetriae capazes de

lhe assegurar dignidade venustidade e auctoritas

Logo tem-se que as disciplinae rationes preditas por Vitruacutevio no primeiro

exoacuterdio passam necessariamente pela observacircncia da disposiccedilatildeo dos elementos

construtivos enquanto suportes riacutetmicos regulados pelas comensurabilidades entre

suas partes Ora a composiccedilatildeo das obras exemplares fundamenta-se na symmetria que

eacute definida como ldquoo acordo conveniente dos membros da proacutepria obra entre si e a

correlaccedilatildeo de uma determinada parte dentre as partes separadas com a vista do

conjunto da figura (uniuersae figurae speciem)rdquo128 Vitruacutevio relaciona symmetria e

eurythmia ao afirmar que a qualidade eurriacutetmica estaacute presente na comensurabilidade

entre as partes do corpo ndash como o cocircvado o peacute o palmo e o diacutegito ndash do mesmo modo

que na realizaccedilatildeo das obras E completa que nos templos a symmetria eacute obtida em

primeiro lugar a partir da espessura das colunas Estas se portam como os elementos

balizadores da qualidade eurriacutetmica da obra pois para Vitruacutevio eurythmia ldquoeacute a vista

128 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre I (I 2 4) p 16 ldquoItem symmetria est ex ipsius operis membris

conueniens consensus ex partibusque separatis ad uniuersae figurae speciem ratae partis responsus Vti in hominis

corpore e cubito pede palmo digito ceterisque particulis symmetros est eurythmiae qualitas sic est in operum

perfectionibus Et primum in aedibus sacris aut e columnarum crassitudinibus aut triglypho aut etiam embatererdquo

traduccedilatildeo ldquopor sua vez symmetria eacute o acordo conveniente dos membros da proacutepria obra entre si e a

correlaccedilatildeo de uma determinada parte dentre as partes separadas com a vista do conjunto da figura Do

mesmo modo que no corpo do homem ndash desde o cocircvado o peacute o palmo o diacutegito e outras partes ndash a

comensurabilidade eacute uma qualidade eurriacutetmica assim ocorre na realizaccedilatildeo das obras E primeiro nos

templos sagrados ou a partir das espessuras das colunas ou do triacuteglifo ou ainda do embaterrdquo Maciel

afirma que embater eacute ldquouma palavra de difiacutecil interpretaccedilatildeordquo mas ldquoem termos gerais segundo as proacuteprias

palavras de Vitruacutevio (4 3 3) era o nome dado ao moacutedulo do templo doacutericordquo (Maciel M J in Vitruacutevio

ldquoTratado de Arquiteturardquo n 82 p 76)

60

venusta e o aspecto comensurado nas composiccedilotildees dos membrosrdquo129 e eacute explicada pela

comensuraccedilatildeo entre suas dimensotildees isto eacute altura largura e profundidade

Da circularidade entre os conceitos de symmetria e de eurythmia em que cada

termo aparece na definiccedilatildeo do outro pode-se extrair como ponto comum o campo em

torno do termo e da noccedilatildeo de species a uenusta species que constitui a eurythmia e a

relaccedilatildeo ad uniuersae figurae speciem que caracteriza a symmetria Decor a definiccedilatildeo

apresentada na sequecircncia tambeacutem se insere no territoacuterio semacircntico das noccedilotildees ligadas

agrave visatildeo (como species) pela referecircncia ao aspectus Ao mesmo tempo decor nos reenvia

ao conceito de auctoritas ldquodecor eacute o aspecto irrepreensiacutevel das obras compostas com

autoridade a partir das coisas aprovadasrdquo130 Os edifiacutecios que se potildeem de acordo com

o princiacutepio de decor reproduzem as determinaccedilotildees do costume tornando visiacutevel a

conformaccedilatildeo conveniente aos usos que procura autoridade seja do templo adequado

ao caraacuteter de cada deus seja agrave magnificecircncia do proprietaacuterio seja ao clima

Vitruacutevio assevera no primeiro prefaacutecio que a potecircncia de Roma pode ser

engrandecida pela autoridade das edificaccedilotildees puacuteblicas Revela com isso uma

dimensatildeo do conceito de auctoritas voltado aos edifiacutecios Inevitavelmente a noccedilatildeo

passa tambeacutem a orbitar a figura do arquiteto que se quer fazer autorizado pelo uso da

doutrina Emerge entatildeo outro aspecto menos visiacutevel mas natildeo menos fundamental

do conceito de auctoritas associado agrave proacutepria preceptiva e a seu auctor Vitruacutevio

sustenta que os edifiacutecios puacuteblicos e privados constituiratildeo a memoacuteria deixada aos

poacutesteros como marcas da grandeza dos feitos do Imperator Caesar E ao ecircxito dessa

empreitada eacute que oferece tais precisas prescriccedilotildees (praescriptiones terminatas) para que

o Imperator possa ter conhecimento sobre a qualidade das obras feitas e das que

haveratildeo de aparecer Por meio de seu escrito Vitruacutevio promete expor todos os

129 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre I (I 2 3) p 15-16 ldquoeurythmia est uenusta species commodusque in

compositionibus membrorum aspectus Haec efficitur cum membra operis conuenientia sunt altitudinis ad

latitudinem latitudinis ad longitudinem et ad summam omnia respondent suae symmetriaerdquo Traduccedilatildeo

ldquoeurythmia eacute a vista venusta e o aspecto comensurado nas composiccedilotildees dos membros Ela se faz quando

a conveniecircncia dos membros da obra ocorre da altura para a largura da largura para o comprimento e

quando suas comensurabilidades (symmetriae) correspondem ao conjunto de todas as coisasrdquo 130 Ibid (I 2 5) p16 ldquodecor autem est emendatus operis aspectus probatis rebus conpositi cum auctoritaterdquo

61

conhecimentos relativos agrave arquitetura ldquonamque his uoluminibus aperui omnes disciplinae

rationesrdquo131 E a amplificaccedilatildeo na frase ndash a totalidade dos saberes relativos agrave arquitetura

ndash que conclui o proecircmio constitui o horizonte que leva Vitruacutevio a configurar os Dez

Volumes procurando abarcar o conjunto de instruccedilotildees necessaacuterias ao arquiteto em sua

vasta abrangecircncia isto eacute desde a aedificatio ateacute a machinatio passando pela gnomonice

e pelas questotildees de hidraacuteulica

A sobreposiccedilatildeo de significaccedilotildees natildeo deve nos impedir de identificar no corpus

vitruviano as direccedilotildees diversas relativamente ao termo auctoritas presentes na busca

da edificaccedilatildeo louvaacutevel do arquiteto completo e do corpus disciplinar que aspira agrave

excelecircncia O De Architectura toma parte num sistema de escrita e mobiliza dispositivos

similares aos presentes na Retoacuterica a Herecircnio e em Ciacutecero Lanccedila matildeo portanto nesse

domiacutenio de estrateacutegias codificadas para legitimar a doutrina e seu auctor No prefaacutecio

ao Livro IX Vitruacutevio louva o vigor florescente das obras de Pitaacutegoras Demoacutecrito

Platatildeo e Aristoacuteteles132 entre ldquooutros saacutebiosrdquo (ceterorumque sapientium) indicando nesse

momento que seu interesse se endereccedila menos a algum ensinamento especiacutefico

transmitido por esses grandes pensadores do que agrave perenidade de seus legados A

evocaccedilatildeo desses autores reclama autoridade ao De Architectura endereccedilado natildeo

apenas aos construtores ldquoquanto agraves potencialidades da arte e agraves raciocinaccedilotildees que lhe

satildeo proacuteprias prometo segundo espero distinguir-me sem duacutevida com maacutexima

autoridade por meio desses volumes natildeo somente aos que constroem mas a todos os

131 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre I (I pref 3) p 3 Traduccedilatildeo ldquopois a partir destes volumes expus

todas as regras da disciplinardquo 132 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre IX (IX pref 2) p 3 ldquoPythagorae uero praecepta Democriti Platonis

Aristotelis ceterorumque sapientium cotidiana perpetuis industriis culta non solum suis ciuibus sed etiam

omnibus gentibus recentes et floridos edunt fructusrdquo Traduccedilatildeo ldquoos preceitos de Pitaacutegoras de Demoacutecrito

de Platatildeo de Aristoacuteteles e de outros saacutebios por meio de uma aplicaccedilatildeo ininterrupta cultivada natildeo

apenas para seus concidadatildeos mas ainda para todas as gentes produzem frutos frescos e florescentesrdquo

Acerca dessa passagem Callebat escreve ldquoquando Vitruacutevio faz menccedilatildeo no prefaacutecio ao Livro IX aos

ensinamentos transmitidos por Pitaacutegoras Demoacutecrito Platatildeo Aristoacuteteles a cauccedilatildeo proposta interessa

certamente menos agrave contribuiccedilatildeo desses saacutebios e filoacutesofos a tal ou tal disciplina particular do que ao

estabelecimento de um campo fundamental de referecircncia os componentes estruturais de um modelo

universalmente vaacutelido encontrando no escrito sua plena significaccedilatildeordquo (Callebat L ldquoLa notion

drsquoAuctoritas dans le De Architectura de Vitruverdquo p 117)

62

saacutebiosrdquo133 A auctoritas da preceptiva se confirma todavia quando posta agrave prova pelo

arquiteto consumando-se na edificaccedilatildeo engrandecida pelas regras da arte

133 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre I (I 1 18) p 14 ldquode artis uero potestate quaeque insunt in ea

ratiocinationes polliceor uti spero his uoluminibus non modo aedificantibus sed etiam omnibus sapientibus cum

maxima auctoritate me sine dubio praestaturumrdquo

Capiacutetulo 2

RAZOtildeES DO CORPO

64

Figura 1 homo bene figuratus inserido no ciacuterculo e no quadrado segundo interpretaccedilatildeo

de Leonardo Da Vinci Fonte Wittkower R ldquoArchitectural Principles in the age of Humanismrdquo p 23

65

2 RAZOtildeES DO CORPO

Evocando o Imperator no exoacuterdio ao Livro Terceiro Vitruacutevio resume os passos

empreendidos ateacute entatildeo no De Architectura e reaviva a atenccedilatildeo do leitor trazendo agrave

lembranccedila que o Primeiro Volume tratou de modo amplo das potencialidades

(uirtutes) da arte de construir e das instruccedilotildees que engrandecem o arquiteto

Rememora tambeacutem que laacute foi delimitado o campo da arquitetura composto de

disciplinas que lhe formam as partes tendo sido apresentadas as definiccedilotildees Em

seguida expocircs-se o que eacute de primeira necessidade ressalta o autor a saber o modo

pelo qual se elegem os lugares salubres onde seratildeo estabelecidos os recintos urbanos

aleacutem das preocupaccedilotildees com as direccedilotildees dos ventos e com a distribuiccedilatildeo correta das

vias O Segundo Volume comenta abordou os materiais de construccedilatildeo e suas

propriedades em vista dos empregos mais vantajosos (utilitates) Finalmente o Volume

Terceiro que se abre versaraacute sobre os templos sagrados dos deuses imortais cujas

minuciosas prescriccedilotildees seratildeo expostas tal como conveacutem (uti oporteat) assevera

Vitruacutevio

Aacutepice da prescritiva edificatoacuteria o Livro dos Templos oferece vasta coleccedilatildeo de

recursos listados sobretudo de relaccedilotildees meacutetricas O ponto de partida se erige em torno

agrave noccedilatildeo de symmetria que constitui o substrato sobre o qual se assenta1 a excelecircncia na

1 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III (III 1 1) p 5-6 ldquoAedium compositio constat ex symmetria cuius

rationem diligentissime architecti tenere debentrdquo Traduccedilatildeo ldquoa composiccedilatildeo dos templos assenta na

comensurabilidade (symmetria) cuja regulaccedilatildeo os arquitetos devem observar com a maacutexima diligecircnciardquo

66

composiccedilatildeo dos edifiacutecios sagrados e por extensatildeo de toda aedificatio2 A symmetria

nasce da proporccedilatildeo que consiste na relaccedilatildeo comensuraacutevel estabelecida entre as partes

da obra e o todo a partir do moacutedulo de seus membros3 Ademais conforme instrui o

romano a composiccedilatildeo do templo natildeo pode prescindir das precisas relaccedilotildees meacutetricas

tais quais aquelas existentes entre os membros de um homem bem configurado4 pela

natureza

assim a natureza compocircs o corpo do homem tal que o rosto desde o queixo ateacute o alto da

testa e a base das raiacutezes dos cabelos tivesse a sua deacutecima parte do mesmo modo que a

matildeo estendida desde a articulaccedilatildeo do punho ateacute a extremidade do dedo meacutedio tivesse o

mesmo tanto a cabeccedila desde o queixo ateacute a extremidade superior a oitava com a base da

cerviz desde o topo do peito ateacute a base das raiacutezes dos cabelos a sexta parte do meio do

peito agrave extremidade superior da cabeccedila a quarta Quanto agrave altura do proacuteprio rosto da base

do queixo agrave base das narinas tem-se a sua terccedila parte o nariz desde a base das narinas ateacute

o meio das sombrancelhas o mesmo tanto do meio das sombrancelhas ateacute a base das raiacutezes

dos cabelos tem-se a testa tambeacutem com a terccedila parte O peacute por sua vez tem a sexta parte

da altura do corpo o antebraccedilo tem a quarta o peito igualmente a quarta 5

2 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III (III 1 4) p 7-8 ldquoigitur cum in omnibus operibus ordines traderent

maxime in aedibus deorum ltquod eorumgt operum et laudes et culpae aeternae solent permanererdquo Traduccedilatildeo

ldquoentatildeo como [os antigos] transmitissem as ordens para todos os gecircneros de obras era sobretudo aos

templos dos deuses em que os meacuteritos e as faltas costumam perdurar eternamenterdquo 3 Ibid (III 1 1) p 5-6 ldquoEa autem paritur a proportione quae graece ἀναλογία dicitur Proportio est ratae

partis membrorum in omni opere totoque commodulatio ex qua ratio efficitur symmetriarumrdquo Traduccedilatildeo ldquoela

[comensurabilidade ou symmetria] eacute engendrada pela proporccedilatildeo que os gregos dizem ἀναλογία

Proporccedilatildeo eacute a comodulaccedilatildeo de uma parte determinada dos membros para com tudo na obra e o todo a

partir do que se faz a regulaccedilatildeo das comensurabilidades (symmetriarum)rdquo 4 Ibid (III 1 1) p 6 ldquoNamque non potest aedis ulla sine symmetria atque proportione rationem habere

compositionis nisi uti [ad] hominis bene figurati membrorum habuerit exactam rationemrdquo Traduccedilatildeo ldquopois

nenhum templo pode ter uma composiccedilatildeo regulada sem comensurabilidade (symmetria) e proporccedilatildeo e

a natildeo ser que tenha exata regulaccedilatildeo tal qual aquela dos membros de um homem bem configuradordquo 5 Ibid (III 1 2) p 6 ldquoCorpus enim hominis ita natura composuit uti os capitis a mento ad frontem summan et

radices imas capilli esset decimae partis item manus pansa ab articulo ad extremum medium digitum tantundem

caput a mento ad summum uerticem octauae cum ceruicibus imis ab summo pectore ad imas radices capillorum

sextae lta medio pectoregt ad summum uerticem quartae Ipsius autem oris altitudinis tertia est pars ab imo mento

ad imas nares nasum ab imis naribus ad finem medium superciliorum tantundem ab ea fine imas radices capilli

frons efficitur item tertiae partis Pes uero altitudinis corporis sextae cubitus quartae pectus item quartaerdquo

67

21 Corpus Hominis et Mensurarum Rationes

Natildeo obstante o elenco numeacuterico-proporcional exposto Vitruacutevio afirma que os

demais membros do corpo tambeacutem guardam entre si proporccedilotildees comensuraacuteveis

Delas fizeram uso os antigos pintores e reconhecidos estatuaacuterios reservando para si

os mais elevados louvores sem fim6 O autor-arquiteto natildeo nomeia na passagem

qualquer um desses pictores e statuarii que teriam dominado o uso do sistema das

symmetriae Entretanto investigaccedilotildees mais recentes potildeem-se a perscrutar tais veredas

propondo hipoacuteteses Nessa direccedilatildeo o estudo de John Raven ldquoPolyclitus and

pythagoreanismrdquo procurou demonstrar a proximidade do excerto vitruviano a outro

encontrado em Galeno reportando a afirmaccedilatildeo do filoacutesofo Crisipo de que ldquoa beleza

reside nas proporccedilotildees do corpordquo7 associada agrave doutrina de que ldquoa sauacutede reside nas

proporccedilotildees dos elementos corporaisrdquo8

A referecircncia ao Cacircnone de Policleto eacute expliacutecita na obra De Placitis Hippocratis et

Platonis de Galeno9 a partir da qual se lecirc que para Crisipo a beleza (κάλλος) natildeo consta

6 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III (III 1 2) p 6-7 ldquoreliqua quoque membra suas habent commensus

proportiones quibus etiam antiqui pictores et statuarii nobiles usi magnas et infinitas laudes sunt adsecutirdquo

Traduccedilatildeo ldquoseus demais membros possuem igualmente comensuraccedilotildees proporcionais a partir do uso

das quais ainda os antigos pintores e ceacutelebres estatuaacuterios alcanccedilaram elevados e infinitos elogiosrdquo 7 Raven J E ldquoPolyclitus and pythagoreanismrdquo p 150 ldquobeauty lies in the proportions of the bodyrdquo 8 Ibid p 150 ldquohealth lies in the proportions of the bodily elementsrdquo 9 Galen ldquoΠερὶ τῶν καθrsquoΙπποκράτην καὶ Πλάτωνα (43 vol V p 448 Kuumlhn)rdquo apud Raven J E op

cit p 149-150 τὸ δὲ κάλλος οὐκ ἐν τῇ τῶν στοιχείων ἀλλrsquoἐν τῇ τῶν μορίων συμμετρίᾳ συνίστασθαι

νομίζει δακτύλου πρὸς δάκτυλον δηλονότι καὶ συμπάντων αὐτῶν πρός τε μετακάρπιον καὶ

καρπὸν καὶ τούτων πρὸς πῆχυν καὶ πήχεως πρὸς βραχίονα καὶ πάντων πρὸς πάντα καθάπερ ἐν

τῷ Πολυκλείτου Κανόνι γέγραπται πάσας γὰρ ἐκδιδάξας ἡμᾶς ἐν ἐκείνῳ τῷ συγγράμματι τὰς

συμμετρίας τοῦ σώματος ὁ Πολύκλειτος ἔργῳ τὸν λόγον ἐβεβαίωσε δημιουργήσας ἀνδριάντα κατὰ

τὰ τοῦ λόγου προστάγματα καὶ καλέσας δὴ καὶ αὐτὸν τὸν ἀνδριάντα καθάπερ καὶ τὸ σύγγραμμα

Κανόνα Traduccedilatildeo ldquoa beleza natildeo reside na comensurabilidade (συμμετρία) de seus elementos mas na

comensurabilidade (συμμετρία) de suas partes tais como do dedo ao dedo e deste conjunto ao

metacarpo e ao carpo de todos esses ao antebraccedilo do antebraccedilo ao braccedilo de fato de todas as coisas

com todas as coisas como estaacute estabelecido no Cacircnone de Policleto Pois tendo ensinado todas as

comensurabilidades (τὰς συμμετρίας) do corpo Policleto embasou seu escrito (σύγγραμμα) em uma

obra tendo feito uma estaacutetua de homem segundo os princiacutepios preceituados e tendo chamado a proacutepria

estaacutetua como o escrito (σύγγραμμα) de Cacircnonerdquo

68

na symmetria (συμμετρία) dos elementos (στοιχείων) mas na symmetria das partes

(μορίων) com outras partes do dedo (δακτύλου) com relaccedilatildeo ao dedo (δάκτυλον)

dos dedos com o metacarpo (μετακάρπιον) e com o carpo (καρπόν) destes com o

antebraccedilo (πῆχυν) do antebraccedilo com o braccedilo (βραχίονα) e de todas essas partes com

o todo (καί πάντων πρὸς πάντα) As coincidecircncias entre os textos de Vitruacutevio e

Galeno e de ambos com outros fragmentos reminiscentes de autores vinculados agraves

doutrinas pitagoacutericas leva Raven a elaborar a hipoacutetese de uma fonte pitagoacuterica

comum ndash possivelmente os escritos atribuiacutedos a Filolau ndash entre o arquiteto e o meacutedico

transmitindo o Cacircnone de Policleto10

A presenccedila desse Cacircnone em obras diacutespares tratando de arquitetura e

medicina revelaria um campo de interesse que ultrapassa a teacutecnica de plasmar figuras

uma vez que a trasmissatildeo de preceitos de estatuaacuteria natildeo parece fazer parte do escopo

de Galeno tampouco de Vitruacutevio11 Todavia os excertos atribuiacutedos a Policleto ocupam

posiccedilotildees natildeo negligenciaacuteveis nos escritos que os transmitem o que convida a

consideraccedilatildeo mais detida

O Cacircnone de Policleto costuma ser interpretado como portador de um rigoroso

referencial meacutetrico e segundo se lecirc em Galeno diz respeito tanto a um escrito como

a uma estaacutetua De acordo com Eugenio La Rocca o Cacircnone era ldquoum tratado que

procurava fornecer um sistema proporcional de tal modo a criar uma relaccedilatildeo entre as

partes do corpo humano baseada em nuacutemerosrdquo12 e o Doriacuteforo seria a estaacutetua de

10 Raven J E ldquoPolyclitus and pythagoreanismrdquo p 151 11 Pierre Gros afirma que seria um erro tratar a ldquomontage proporcionnelrdquo vitruviana como ensinamento

de escultura cf Gros P ldquoLa geacuteomeacutetrie platonicienne de la notice vitruvienne sur lrsquohomme parfait (De

Architectura III 1 2-3)rdquo n 13 p 23 12 La Rocca E ldquoPolicleto e la sua escuolardquo p 522 Para La Rocca o Doriacuteforo eacute ainda a ldquochave para se

compreender e reconstruir a obra de Policletordquo por se tratar de um trabalho da maturidade do escultor

argivo ldquoainda profundamente ligado agrave matriz artiacutestica peloponeacutesicardquo e anterior agrave sua permanecircncia em

Atenas que deixaria rastros em sua obra (ibid p 527)

69

Policleto identificada ao Cacircnone13 Aleacutem das coacutepias restantes do Doriacuteforo14 expondo

os preceitos de Policleto haacute ainda um registro literaacuterio que sugere a associaccedilatildeo dessa

estaacutetua ao Cacircnone no Brutus de Ciacutecero pela afirmaccedilatildeo de que Lisipo considerava sua

obra guia o Doriacuteforo de Policleto15 Pliacutenio o Velho autoridade para os poacutesteros no

seacuteculo I dC noticia o Doriacuteforo como obra de Policleto e em seguida fala da existecircncia

do Cacircnone16 contudo a identificaccedilatildeo entre o Doriacuteforo e o Cacircnone natildeo eacute clara na notiacutecia

fornecida17

De fato em Galeno lecirc-se que a seacuterie de correlaccedilotildees proporcionais entre as partes

do corpo ndash do dedo com o dedo deste com o metacarpo do metacarpo com o carpo

deste com o antebraccedilo do antebraccedilo com o braccedilo e assim por diante com todo o corpo

13 La Rocca identifica o Cacircnone de Policleto ao Doriacuteforo alegando inicialmente o ldquoconsenso da criacuteticardquo

e sem maiores esclarecimentos ldquoGaleno parla di una statua di Policleto detta Canone realizzata

lsquosecondo i dettami del ragionamento (scil dello scultore)rsquo La critica egrave concorde nel ritenere che tale

statua sia identificabile con il Doriforo una delle opere piugrave celebri dellrsquoantichitagraverdquo (La Rocca E ldquoPolicleto

e la sua escuolardquo p 524) Traduccedilatildeo ldquoGaleno fala de uma estaacutetua de Policleto dita Cacircnone realizada

lsquosegundo os ditames do raciociacutenio (scil do escultor)rsquo A criacutetica eacute concorde ao afirmar que tal estaacutetua

possa ser identificada com o Doriacuteforo uma das obras mais ceacutelebres da antiguidaderdquo A partir do

fragmento atribuiacutedo a Policleto e transmitido por Galeno Raven admite apenas que o Cacircnone diria

respeito tambeacutem a um escrito ldquoit is interesting to learn that Polyclitus not only practised his Canon in

his art but also expounded it in writingrdquo (Raven J E ldquoPolyclitus and pythagoreanismrdquo p 150)

Traduccedilatildeo ldquoeacute interessante notar que Policleto natildeo apenas praticou seu Cacircnone em sua arte mas tambeacutem

o expocircs em um escritordquo 14 As principais coacutepias restantes estatildeo no Moseo Nazionale di Napoli na Galeria Uffizi de Florenccedila e no

Staatliche Museen de Berlim cf La Rocca E op cit p 524 15 La Rocca E ldquoPolicleto e la sua escuolardquo p 524 Em latim Brutus 296 ldquout Polycliti Doryphorum

[magistrum fuisse] sibi Lysippus aiebatrdquo (Ciceacuteron ldquoBrutusrdquo 296 p 109) Traduccedilatildeo ldquode modo que Lisipo

alegava ter por mestre o Doriacuteforo de Policleto rdquo 16 Pline LrsquoAncien ldquoHistoire Naturellerdquo Livre XXXIV Texte eacutetabli et traduit par H Le Bonniec

commenteacute par H Gallet de Santerre et par H Le Bonniec Paris Les Belles Lettres 1953 [34 55-56] p

126-127 ldquoPolyclitus Sicyonius Hageladae discipulus diadumenum fecit molliter iuuenem centum talentis

nobilitatum idem et doryphorum uiriliter puerum Fecit et quem canona artifices uocant liniamenta artis ex eo

petentes ueluti a lege quadam solusque hominum artem ipsam fecisse artis opere iudicaturrdquo Traduccedilatildeo

ldquoPolicleto de Siciatildeo disciacutepulo de Ageladas fez um delicado jovem diaduacutemeno [portador do diadema]

valendo cem talentos do mesmo modo fez um viril rapaz doriacuteforo [portador da lanccedila] Fez tambeacutem o

que os artiacutefices chamam Cacircnone delimitando a arte a que recorrem como a uma lei Somente ele dentre

os homens fez com que toda a arte fosse julgada a partir de uma obrardquo 17 Cf Gros P In Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III n 6 p 64-65 Sobre um suposto erro de Pliacutenio

o Velho Henri Le Bonniec escreve ldquoo desdobramento do Doriacuteforo de Policleto em duas estaacutetuas dentre

as quais uma seria o famoso canon (sect55) eacute um erro que Pliacutenio pode ter cometido ele mesmo ou pode ter

encontrado em um de seus predecessoresrdquo (Le Bonniec H ldquoIntroductionrdquo in Pline LrsquoAncien

ldquoHistoire Naturellerdquo Livre XXXIV n 2 p 55)

70

ndash vincula-se agrave noccedilatildeo de τὸ κάλλος (toacute kaacutellos) de modo que para se alcanccedilar a beleza haacute

que se observar a συμμετρία (symmetriacutea) entre as partes que compotildeem o corpo Em

outras palavras τὸ κάλλος (toacute kaacutellos) reside na comensurabilidade18 dessas partes

Constata-se portanto nesse ponto especiacutefico mais uma convergecircncia entre o

extrato apreendido em Galeno e o De Architectura relativamente agrave centralidade do

conceito de symmetria O Livro Terceiro jaacute o distinguia em suas linhas iniciais ldquoa

composiccedilatildeo dos templos assenta na comensurabilidade (symmetria) cuja regulaccedilatildeo os

arquitetos devem observar com a maacutexima diligecircnciardquo19 O termo symmetria eacute frequente

nos sete primeiros livros que tratam da aedificatio e eacute mesmo definido como uma das

tarefas do arquiteto no Livro I20 Junto agrave proportio e ratio symmetria ocupa segundo os

dizeres de Pierre Gros ldquoo centro das preocupaccedilotildees do autor [] as quais organizam

efetivamente a maior parte dos desenvolvimentos [desde as primeiras linhas de III 1]

ateacute o fim do livro IVrdquo21 O caraacuteter central da symmetria eacute ressaltado pela ecircnfase obtida

com a associaccedilatildeo agrave noccedilatildeo de diligentia expressa no superlativo (diligentissime)

retomando o grego ἀκρίβεια conforme nos faz notar o estudioso francecircs mas

principalmente como se lecirc em Galeno (ἀκριβῶς)22 A ideia de cuidado e atenccedilatildeo

18 Comensurabilidade verte o grupo semacircntico de termos latinos cujos sufixos derivam ou se aproximam

de modus como commodus e commoditas Estes traduzem com variaccedilotildees de nuances o termo grego

συμμετρία (symmetria) encerrando μέτρον Modus seria o equivalente de μέτρον cf Gros P In

Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III n 2 p 56-57 Cf ainda Gaffiot ldquoDictionnaire Latin Franccedilaisrdquo p

353 354 19 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III (III 1 1) p 5ldquoAedium compositio constat ex symmetria cuius

rationem diligentissime architecti tenere debentrdquo 20 Vitruacutevio (I 2 4) ldquodo mesmo modo a symmetria eacute o acordo conveniente dos membros da proacutepria obra

entre si e a correlaccedilatildeo de uma determinada parte (ratae partis) dentre as partes separadas com a vista

do conjunto da figura (uniuersae figurae speciem)rdquo Em latim ldquoItem symmetria est ex ipsius operis membris

conueniens consensus ex partibusque separatis ad universae figurae speciem ratae partis responsusrdquo (Vitruve

ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre I p 16) 21 Gros P ldquoIntroductionrdquo in Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III p VII 22 Galen ldquoΠερὶ τῶν καθrsquoΙπποκράτην καὶ Πλάτωνα (43 vol V p 448 Kuumlhn)rdquo apud Raven J E

ldquoPolyclitus and pythagoreanismrdquo p 149 grifo nosso ldquoἐπὶ μὲν γὰρ τοῦ σώματος ἀκριβῶς αὐτὰ

διωρίσατοrdquo Cf ldquoAnexo 3rdquo ao fim deste trabalho

71

escrupulosa aparecem ainda em outros autores como Quintiliano23 e Pliacutenio o Velho24

tambeacutem em passagens que fazem referecircncia agrave Policleto25

O conceito de συμμετρία (symmetriacutea) por outro lado jaacute estava presente em

escritos gregos anteriores mesmo em Platatildeo Lecirc-se pois no Filebo26 que o primeiro

dos bens eacute a medida (μέτρον) o segundo a symmetria (συμμετρία) vindo em terceiro

lugar a inteligecircncia e a sabedoria (νοῦς καὶ φρόνησις) No Poliacutetico Platatildeo recorre agraves

artes (τὰς τέχνας) para mostrar que tambeacutem na poliacutetica a ausecircncia de medida (τὸ

23 Quintilien ldquoInstitutio Oratoriardquo (XII 10 7) p 116 ldquodiligentia ac decor in Polyclito supra ceteros cui

quamquam a plerisque tribuitur palma tamen ne nihil detrahatur deesse pondus putantrdquo Traduccedilatildeo ldquoa

diligecircncia e a adequaccedilatildeo em Policleto ultrapassava os demais e embora a maioria lhe atribuiacutesse gloacuteria

afirmavam que lhe faltava gravidade para natildeo parecer que natildeo carecia de nadardquo 24 Trata-se de uma comparaccedilatildeo em que Pliacutenio o Velho atribui ao escultor Miacuteron mais diligecircncia no uso

da symmetria do que Policleto ldquoin symmetria diligentiorrdquo (Pline LrsquoAncien XXXIV 58 p 128) 25 Gros P in Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III n 2 p 56 26 Plato Philebus (66a-b) ed John Burnet Oxford University Press 1903

Σωκράτης πάντῃ δὴ φήσεις ὦ Πρώταρχε ὑπό τε ἀγγέλων πέμπων καὶ παροῦσι φράζων ὡς ἡδονὴ

κτῆμα οὐκ ἔστι πρῶτον οὐδ᾽ αὖ δεύτερον ἀλλὰ πρῶτον μέν πῃ περὶ μέτρον καὶ τὸ μέτριον καὶ

καίριον καὶ πάντα ὁπόσα χρὴ τοιαῦτα νομίζειν τὴν daggerἀίδιον ᾑρῆσθαι

Πρώταρχος φαίνεται γοῦν ἐκ τῶν νῦν λεγομένων

Σωκράτης δεύτερον μὴν περὶ τὸ σύμμετρον καὶ καλὸν καὶ τὸ τέλεον καὶ ἱκανὸν καὶ πάνθ᾽ ὁπόσα

τῆς γενεᾶς αὖ ταύτης ἐστίν

Πρώταρχος ἔοικε γοῦν

Σωκράτης τὸ τοίνυν τρίτον ὡς ἡ ἐμὴ μαντεία νοῦν καὶ φρόνησιν τιθεὶς οὐκ ἂν μέγα τι τῆς

ἀληθείας παρεξέλθοις

Em traduccedilatildeo para a liacutengua portuguesa de Carlos Alberto Nunes

Soacutecrates - Entatildeo Protarco proclamaraacutes a todos por meio de mensageiros ou de viva voz para os

presentes que o prazer natildeo eacute o primeiro dos bens nem mesmo o segundo mas que o primeiro eacute a

medida e o que for moderado e oportuno e o mais a que possamos atribuir qualidades semelhantes

concedidas pela natureza

Protarco - Eacute o que seraacute liacutecito concluir do que dissemos antes

Soacutecrates - O segundo bem eacute a proporccedilatildeo o belo o perfeito o suficiente e tudo o que faz parte da mesma

famiacutelia

Protarco - Pelo menos assim parece

Soacutecrates - E agora sendo eu bom adivinho se atribuiacuteres o terceiro lugar agrave inteligecircncia e agrave sabedoria natildeo

te afastaraacutes muito da verdade

72

μέτρον) pode ser ruinosa sendo ela capaz de garantir tudo o que haacute de bom e de belo

nas obras27

O estudo de Raven ldquoPolyclitus and Pythagoreanismrdquo no entanto procurou

construir a hipoacutetese bem fundamentada ndash embora de difiacutecil comprovaccedilatildeo definitiva

segundo o proacuteprio autor ndash de que a presenccedila simultacircnea do Cacircnone de Policleto em

Galeno e em Vitruacutevio indicaria uma possiacutevel matriz comum ligada agraves doutrinas

pitagoacutericas No meacutedico grego dentre as duas proposiccedilotildees centrais ndash de que a beleza

reside nas proporccedilotildees das partes do corpo e de que a sauacutede reside nas proporccedilotildees dos

elementos do corpo ndash a segunda estaria muito proacutexima aos fragmentos de Alcmeacuteon

vinculado aos ciacuterculos pitagoacutericos28 ldquoesta visatildeo de sauacutede que consiste na correta

proporccedilatildeo dos elementos no corpo eacute precisamente a visatildeo de ἰσονομία originalmente

introduzida por Alcmeacuteonrdquo29 Como variante dessa visatildeo de ἰσονομία Raven aponta a

doutrina de Filolau para quem o corpo humano seria composto apenas do quente

embora imediatamente apoacutes o nascimento ocorreria uma ldquoharmonizaccedilatildeo do quente no

corpo com o frio do exterior imediatordquo30 sendo a morte o cessar desse processo

ao menos a teoria meacutedica de Filolau coincide com aquela descrita por Galeno Noacutes

encontramos de fato nessa passagem de Galeno a visatildeo de que a beleza reside nas

proporccedilotildees das partes do corpo conjugada com outra visatildeo que foi sustentada natildeo

apenas por Alcmeacuteon mas tambeacutem de uma forma variada por um distinto pitagoacuterico

contemporacircneo e associado ao proacuteprio Eurito de nome Filolau31

27 Platon ldquoLe politiquerdquo (284a-b) p 45 ldquoκαὶ τούτῳ δὴ τῷ τρόπῳ τὸ μέτρον σῴζουσαι πάντα ἀγαθὰ

καὶ καλὰ ἀπεργάζονταιrdquo Traduccedilatildeo ldquoe ao preservar a medida asseguram o bem e o belo de suas

obrasrdquo 28 Eacute o que se lecirc em Aristoacuteteles ldquoparece que tambeacutem Alcmeacuteon de Crotona pensava desse modo quer ele

tenha tomado essa doutrina dos pitagoacutericos quer estes a tenham tomado dele pois Alcmeacuteon se

destacou quando Pitaacutegoras jaacute era velho e professou uma doutrina muito semelhante agrave dos pitagoacutericosrdquo

(Aristoacuteteles ldquoMetafiacutesicardquo Vol II 986a 30 p 29) Em grego ldquoκαὶ Ἀλκμαίων ὁ Κροτωνιάτης ὑπολαβεῖν

καὶ ἤτοι οὗτος παρ᾽ ἐκείνων ἢ ἐκεῖνοι παρὰ τούτου παρέλαβον τὸν λόγον τοῦτον καὶ γὰρ ἐγένετο

τὴν ἡλικίαν Ἀλκμαίων [30] ἐπὶ γέροντι Πυθαγόρᾳ ἀπεφήνατο δὲ παραπλησίως τούτοιςrdquo (Aristotles

Metaphysics ed WD Ross Oxford Clarendon Press 1924) 29 Raven J E ldquoPolyclitus and pythagoreanismrdquo p 150 30 Ibid p 150 31 Ibid p 150 ldquo[] at least the medical theory of Philolaus coincides with that described by Galen We

find in fact in this passage from Galen the view that beauty lies in the proportions of the parts of the

73

A primeira proposiccedilatildeo de Galeno ndash de que a beleza reside nas proporccedilotildees das

partes do corpo ndash revela conformidade ao que se lecirc nos paraacutegrafos iniciais do Livro III

do De Architectura subsequentes ao prefaacutecio Raven sustenta ainda a correspondecircncia

entre o fragmento de Vitruacutevio e o Cacircnone de Policleto ldquohaacute uma longa passagem em

Vitruacutevio (312-7) cujo tema central eacute tatildeo semelhante ao Cacircnone de Policleto que muito

claramente deriva de laacuterdquo32 A continuaccedilatildeo do texto de Vitruacutevio traria ainda outros

pontos de contato com o pitagorismo diferentes daqueles presentes em Galeno

segundo Raven Trata-se da referecircncia agrave perfeiccedilatildeo do nuacutemero dez Decad ou τέλεος

(teacuteleos)

Acerca dos nuacutemeros perfeitos Vitruacutevio escreve

e tambeacutem [os antigos] retiraram dos membros do corpo humano o sistema de medidas

que parece necessaacuterio em todas as obras tal como o dedo o palmo o peacute o cocircvado que

distribuiacuteram com relaccedilatildeo a um nuacutemero perfeito que os gregos dizem τέλεος (teacuteleos) Os

antigos instituiacuteram esse nuacutemero perfeito que se diz dez33

Na importacircncia concedida ao nuacutemero dez ecoaria a reverecircncia que os

pitagoacutericos devotavam ao nuacutemero que consideravam perfeito conforme se lecirc em

Aristoacuteteles ldquocomo o nuacutemero dez parece ser perfeito e parece compreender em si toda

a realidade dos nuacutemeros eles afirmavam que os corpos que se movem no ceacuteu tambeacutem

deviam ser dezrdquo34

body coupled with another view that was held not only by Alcmaeon but also in a variant form by a

distinguished Pythagorean contemporary and associate of Eurytus himself namely Philolausrdquo 32 Raven J E ldquoPolyclitus and pythagoreanismrdquo p 151 ldquothere is a long passage from Vitruvius (312-

7) the central theme of which is something so very like the Canon of Polyclitus that it pretty clear derives

therefromrdquo 33 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III (III 1 5) p 8 ldquoNec minus mensurarum rationes quae in omnibus

operibus uidentur necessariae esse ex corporis membris collegerunt uti digitum palmum pedem cubitum et eas

distribuerunt in perfectum numerum quem Graeci τέλεον dicunt Perfectum autem antiqui instituerunt

numerum qui decem diciturrdquo 34 Aristoacuteteles ldquoMetafiacutesicardquo Vol II (986a 8) p 27 Em grego a partir da ediccedilatildeo de Ross de 1924 ldquoἐπειδὴ

τέλειον ἡ δεκὰς εἶναι δοκεῖ καὶ πᾶσαν περιειληφέναι τὴν τῶν ἀριθμῶν φύσιν καὶ τὰ φερόμενα

κατὰ τὸν οὐρανὸν δέκα μὲν εἶναί φασινrdquo

74

Agrave hipoacutetese de vinculaccedilatildeo do excerto de Vitruacutevio agrave doutrina pitagoacuterica Raven

apensa ainda um fragmento de Filolau35 evidenciando natildeo apenas a compartilhada

remissatildeo ao nuacutemero dez mas que a afirmaccedilatildeo vitruviana da necessidade da presenccedila

desse nuacutemero perfeito agraves obras (quae in omnibus operibus uidentur necessariae esse)

guardaria grande afinidade com a sentenccedila daquele pensador (ἐν τοῖς ἀνθροπικοῖς

ἔργοις καὶ λόγοις πᾶσι παντᾶ καὶ κατὰ τὰς δημιουργίας τὰς τεχνικὰς πάσας) Em

Vitruacutevio exclusivamente a reverecircncia ao nuacutemero dez36 soacute faria reforccedilar a sintonia ao

pitagorismo ldquoao contraacuterio da outra doutrina de Galeno com a qual o Cacircnone estaacute

associado a crenccedila na natureza perfeita da Decad foi ao menos por um longo periacuteodo

peculiar aos pitagoacutericosrdquo37 Pollitt compartilha essa posiccedilatildeo que propotildee aproximar o

registro de Vitruacutevio (III 1 5) ao ciacuterculo pitagoacuterico ldquoa uacuteltima sentenccedila nessa passagem

[perfectum autem antiqui instituerunt numerum qui decem dicitur] eacute claramente uma

referecircncia agrave Decad pitagoacutericardquo38

O que nos chegou das doutrinas ditas pitagoacutericas eacute bastante precaacuterio e

fragmentado em termos de documentos Os escritos de Aristoacuteteles constituem pois

uma das principais fontes acerca do pitagorismo No exame que empreende na

Metafiacutesica das doutrinas de predececessores lecirc-se que para os chamados pitagoacutericos

os princiacutepios matemaacuteticos eram tomados como o princiacutepio de todos os seres e os

nuacutemeros estariam presentes em todas as coisas

35 Raven J E ldquoPolyclitus and pythagoreanismrdquo p 151 Raven se refere ao excerto de Vitruacutevio ldquoquae in

omnibus operibus uidentur necessariae esserdquo (Vitr III 1 5) E ao fragmento de Filolau ldquoἴδοις δέκα οὐ μόνον

ἐν τοῖς δαιμονίοις καὶ θείοις πράγμασι τὰν τῶ ἀριθμῶ φύσιν καὶ τὰν δύναμιν ἰσχύουσαν ἀλλὰ καὶ

ἐν τοῖς ἀνθροπικοῖς ἔργοις καὶ λόγοις πᾶσι παντᾶ καὶ κατὰ τὰς δημιουργίας τὰς τεχνικὰς πάσας

καὶ κατὰ τὰν μουσικάνrdquo (Philolaus fr II ap Stob Ecl I I 3 apud Raven ldquoPolyclitus and

pythagoreanismrdquo p 151) 36 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III (III 1 5) p 8 ldquoperfectum autem antiqui instituerunt numerum

qui decem diciturrdquo 37 Raven J E ldquoPolyclitus and pythagoreanismrdquo p 151 ldquounlike the other from Galen the further

doctrine with which the Canon is coupled the belief in the perfect nature of the Decad is one that was

for a long time at least peculiar to the Pythagoreansrdquo 38 Pollitt ldquoThe ancient view of greek artrdquo p 19 ldquothe last sentence in this passage [perfectum autem antiqui

instituerunt numerum qui decem dicitur] is clearly a reference to the Pythagorean decadrdquo

75

eles [os pitagoacutericos] por primeiro se aplicaram agraves matemaacuteticas fazendo-as progredir e

nutridos por elas acreditaram que os princiacutepios delas eram os princiacutepios de todos os

seres E dado que nas matemaacuteticas os nuacutemeros satildeo por sua natureza os primeiros

princiacutepios e dado que justamente nos nuacutemeros mais do que no fogo e na terra e na

aacutegua eles achavam que viam muitas semelhanccedilas com as coisas que satildeo e que se geram

ndash por exemplo consideravam que determinada propriedade dos nuacutemeros era a justiccedila

outra a alma e o intelecto outra ainda o momento e o ponto oportuno e em poucas

palavras de modo semelhante para todas as outras coisas ndash e aleacutem disso por verem

que as notas e os acordes musicais consistiam em nuacutemeros e finalmente porque todas

as outras coisas em toda a realidade lhes pareciam feitas agrave imagem dos nuacutemeros e

porque os nuacutemeros tinham a primazia na totalidade da realidade pensaram que os

elementos dos nuacutemeros eram elementos de todas as coisas e que a totalidade do ceacuteu

era harmonia e nuacutemero39

Vemos que ateacute mesmo a justiccedila a alma e o intelecto satildeo tidas como

propriedades dos nuacutemeros para os assim chamados pitagoacutericos Eacute significativa

ademais a menccedilatildeo agraves notas e acordes musicais como ponto evidente de acesso agraves

realidades numeacutericas isto eacute as proporccedilotildees musicais tornam patentes simultaneamente

a constituiccedilatildeo numeacuterica da muacutesica e do cosmos pois se constata afinal uma

semelhanccedila entre a realidade de todas as coisas e os nuacutemeros Ainda de acordo com

Aristoacuteteles para os pitagoacutericos os nuacutemeros natildeo eram entidades desvinculadas do

sensiacutevel o que reitera uma compreensatildeo do mundo constituiacutedo efetivamente por uma

ordem matemaacutetica

os pitagoacutericos supuseram que os nuacutemeros fossem coisas sensiacuteveis pois constataram que

muitas propriedades dos nuacutemeros estatildeo presentes nos corpos sensiacuteveis Assim

39 Aristoacuteteles ldquoMetafiacutesicardquo Vol II (985b 22 - 986a) p 27 Em grego a partir da ediccedilatildeo de Ross de 1924

ldquoἐν δὲ τούτοις καὶ πρὸ τούτων οἱ καλούμενοι Πυθαγόρειοι τῶν μαθημάτων ἁψάμενοι πρῶτοι ταῦτά

τε προήγαγον καὶ [25] ἐντραφέντες ἐν αὐτοῖς τὰς τούτων ἀρχὰς τῶν ὄντων ἀρχὰς ᾠήθησαν εἶναι

πάντων ἐπεὶ δὲ τούτων οἱ ἀριθμοὶ φύσει πρῶτοι ἐν δὲ τούτοις ἐδόκουν θεωρεῖν ὁμοιώματα πολλὰ

τοῖς οὖσι καὶ γιγνομένοις μᾶλλον ἢ ἐν πυρὶ καὶ γῇ καὶ ὕδατι ὅτι τὸ μὲν τοιονδὶ τῶν ἀριθμῶν πάθος

δικαιοσύνη [30] τὸ δὲ τοιονδὶ ψυχή τε καὶ νοῦς ἕτερον δὲ καιρὸς καὶ τῶν ἄλλων ὡς εἰπεῖν ἕκαστον

ὁμοίως ἔτι δὲ τῶν ἁρμονιῶν ἐν ἀριθμοῖς ὁρῶντες τὰ πάθη καὶ τοὺς λόγους ἐπεὶ δὴ τὰ μὲν ἄλλα

τοῖς ἀριθμοῖς ἐφαίνοντο τὴν φύσιν ἀφωμοιῶσθαι πᾶσαν οἱ δ᾽ ἀριθμοὶ πάσης τῆς φύσεως

πρῶτοιτὰ τῶν ἀριθμῶν στοιχεῖα τῶν ὄντων στοιχεῖα πάντων ὑπέλαβον εἶναι καὶ τὸν ὅλον

οὐρανὸν ἁρμονίαν εἶναι καὶ ἀριθμόνrdquo

76

supuseram os nuacutemeros natildeo como separados mas como constitutivos imanentes das

coisas sensiacuteveis E por quecirc Porque as propriedades dos nuacutemeros estatildeo presentes na

harmonia no ceacuteu e em muitas outras coisas40

Os pitagoacutericos teriam portanto alargado a perquiriccedilatildeo numeacuterica para os corpos

sensiacuteveis e ateacute mesmo para os corpos celestes Segundo a leitura que Pollitt empreende

da Metafiacutesica de Aritoacuteteles a constituiccedilatildeo numeacuterica dos corpos sensiacuteveis adviria do

fato de que os pitagoacutericos natildeo fariam uma distinccedilatildeo rigorosa entre a unidade

matemaacutetica e a unidade geomeacutetrica41 Em Aristoacuteteles lecirc-se mesmo o caraacuteter imanente

do nuacutemero ao sensiacutevel

tambeacutem para os pitagoacutericos soacute existe o nuacutemero matemaacutetico mas eles sustentam que este

natildeo eacute separado e que antes eacute constitutivo imanente das substacircncias sensiacuteveis Eles

constituem todo o universo com os nuacutemeros e estes natildeo satildeo puras unidades mas unidades

dotadas de grandeza42

Uma passagem da Metafiacutesica de Aristoacuteteles envolvendo Eurito disciacutepulo de

Filolau orienta Pollitt43 e eacute tambeacutem mencionada por Raven44 o qual apresenta ainda

outros dois registros de Teofrasto e Alexandre de Afrodiacutesia descrevendo o

procedimento do mesmo Eurito que consistia em estabelecer o nuacutemero de cada coisa

ldquodeterminado nuacutemero para o homem outro para o cavalo reproduzindo com

pedrinhas a forma dos viventes de modo semelhante aos que remetem os nuacutemeros agraves

40 Aristoacuteteles ldquoMetafiacutesicardquo (1090a 21) p 675 Em grego a partir da ediccedilatildeo de Ross de 1924 ldquoοἱ δὲ

Πυθαγόρειοι διὰ τὸ ὁρᾶν πολλὰ τῶν ἀριθμῶν πάθη ὑπάρχοντα τοῖς αἰσθητοῖς σώμασιν εἶναι μὲν

ἀριθμοὺς ἐποίησαν τὰ ὄντα οὐ χωριστοὺς δέ ἀλλ᾽ ἐξ ἀριθμῶν τὰ ὄντα διὰ τί δέ ὅτι τὰ πάθη τὰ

τῶν ἀριθμῶν ἐν ἁρμονίᾳ ὑπάρχει καὶ ἐν [25] τῷ οὐρανῷ καὶ ἐν πολλοῖς ἄλλοιςrdquo 41 Pollitt J J ldquoThe ancient view of greek artrdquo p 17-18 ldquothe conception of sensible bodies as being made

up of lsquonumbersrsquo seems to have stemmed from the fact that the Pythagoreans did not draw a strict

distinction between mathematical units and geometric units (Metaphysics 1080b16)rdquo 42 Aristoacuteteles ldquoMetafiacutesicardquo (1080b 14) p 617 Em grego a partir da ediccedilatildeo de Ross de 1924 ldquoοἱ δὲ τὸν

μαθηματικὸν [15] μόνον ἀριθμὸν εἶναι τὸν πρῶτον τῶν ὄντων κεχωρισμένον τῶν αἰσθητῶν καὶ

οἱ Πυθαγόρειοι δ᾽ ἕνα τὸν μαθηματικόν πλὴν οὐ κεχωρισμένον ἀλλ᾽ ἐκ τούτου τὰς αἰσθητὰς

οὐσίας συνεστάναι φασίν τὸν γὰρ ὅλον οὐρανὸν κατασκευάζουσιν ἐξ ἀριθμῶν πλὴν οὐ

μοναδικῶν ἀλλὰ τὰς μονάδας [20] ὑπολαμβάνουσιν ἔχειν μέγεθοςrdquo 43 Pollitt J J ldquoThe ancient view of greek artrdquo p 18 44 Raven J E ldquoPolyclitus and pythagoreanismrdquo p 147 148

77

figuras do triacircngulo e do quadradordquo45 Eurito produzia diagramas das coisas com

pedrinhas de modo que ldquoo nuacutemero de pedrinhas necessaacuterio ao diagrama constituiacutea o

lsquonuacutemerorsquo do homem e assim por dianterdquo46 Esse modo aparentemente grosseiro de

equiparar coisas concretas a nuacutemeros da parte de um autor como Eurito foi

assinalado por Raven47 E sua proposta de interpretaccedilatildeo do procedimento passa pela

assunccedilatildeo da hipoacutetese de que o Cacircnone de Policleto transmitido por Galeno e por

Vitruacutevio ateste uma possiacutevel fonte pitagoacuterica comum a ambos Essa fonte comum diria

respeito agrave obra atribuiacuteda a Filolau ou a algum autor vinculado agrave essa doutrina48 Mas

o proacuteprio Raven reconhece os limites de sua hipoacutetese dado o caraacuteter espuacuterio da

suposta obra de Filolau49 Natildeo obstante o teor conjectural da proposiccedilatildeo para Raven

o procedimento de Eurito em definir as coisas por meio de diagramas de pedrinhas

natildeo consistiria apenas na descriccedilatildeo de um simploacuterio procedimento de obtenccedilatildeo de

contornos de corpos mas retrataria uma doutrina que possivelmente advinda de

Policleto seria elucidada pela afirmaccedilatildeo vitruviana de que ldquoassim a natureza compocircs

o corpo do homem de modo que as proporccedilotildees dos membros correspondessem agrave

figura total []rdquo50

O estudo de Raven abre caminho a um vieacutes interpretativo das passagens do De

Architectura marcadas pelos nuacutemeros sugerindo a possibilidade consistente ndash embora

natildeo comprovaacutevel em definitivo ndash de algum modo de vinculaccedilatildeo agraves doutrinas

associadas ao pitagorismo Raven mostrou a afinidade entre as passagens vitruvianas

45 Aristoacuteteles ldquoMetafiacutesicardquo (1092b 11) p 689 Em grego a partir da ediccedilatildeo de Ross de 1924 ldquoκαὶ ὡς

Εὔρυτος ἔταττε τίς ἀριθμὸς τίνος οἷον ὁδὶ μὲν ἀνθρώπου ὁδὶ δὲ ἵππου ὥσπερ οἱ τοὺς ἀριθμοὺς

ἄγοντες εἰς τὰ σχήματα τρίγωνον καὶ τετράγωνονrdquo 46 Pollitt J J ldquoThe ancient view of greek artrdquo p 18 47 Raven J E ldquoPolyclitus and pythagoreanismrdquo p 148 Can any philosopher of so relatively advanced

a date and of such considerable eminence as Eurytus apparently achieved have really adopted so

singularly crude a method of equating concrete things with numbers 48 A conexatildeo entre Galeno e os pitagoacutericos dar-se-ia pela proximidade da afirmaccedilatildeo de que ldquoa sauacutede

reside nas proporccedilotildees das partes do corpordquo aos escritos meacutedicos de Alcmeacuteon e Filolau que remetem agrave

noccedilatildeo de ἰσονομία 49 Raven J E op cit p 152 50 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III (III 1 4) p 7 ldquoergo si ita natura composuit corpus hominis uti

proportionibus membra ad summam figurationem eius respondeant []rdquo

78

que elencam as proporccedilotildees das partes do corpo e a que remete ao nuacutemero dez tido

como perfeito com escritos associados ao pitagorismo e ainda que no Livro Terceiro

natildeo haja menccedilatildeo direta agrave Pitaacutegoras em outras partes dos Dez Volumes a evocaccedilatildeo eacute

expliacutecita como no Livro V em que se fala desse pensador e seus sectaacuterios (Pythagorae

quique eius haeresim fuerunt secuti)51 Ali Vitruacutevio fala de um sistema cuacutebico de escrita

empreendido por Pitaacutegoras e seus sectaacuterios Natildeo obstante as dificuldades de

interpretaccedilatildeo acerca do modo pelo qual tais razotildees cuacutebicas (cybicis rationibus)

operariam relacionando-se ao nuacutemero 250 indicado ao nuacutemero de versos (CC et L

uersus) fica claro que o que se pretende nesse ponto eacute apresentar criteacuterios para a

ordenaccedilatildeo da obra escrita isto eacute Vitruacutevio tem em vista a proacutepria composiccedilatildeo do De

Architectura

Na medida em que nenhuma das outras alusotildees a Pitaacutegoras faz referecircncia agraves

proporccedilotildees das partes do corpo ou agrave perfeiccedilatildeo do nuacutemero dez e Vitruacutevio atribui a

Pitaacutegoras as regras para a realizaccedilatildeo do esquadro no Livro IX evocando seu nome

repetidamente resta que os preceitos numeacutericos sem autoria explicitada nas passagens

contidas no Livro do Templos poderiam mesmo ter chegado a Vitruacutevio a partir de

autores vinculados de algum modo ao pitagorismo conforme a hipoacutetese de Raven

No Livro III recorre-se ainda agrave autoridade de Platatildeo para o qual o nuacutemero dez

eacute perfeito diz Vitruacutevio ldquoporque se obteacutem a dezena a partir das coisas singulares que

entre os gregos se dizem monadesrdquo52 Mas o autor latino sem apresentar nomes refere-

51 Vitruacutevio ldquoTratado de Arquiteturardquo (V pref 3) p 240 ldquoPitaacutegoras e aqueles que seguiram a sua escola

resolveram escrever os seus preceitos em volumes segundo um sistema cuacutebicordquo Em latim ldquoetiamque

Pythagorae quique eius haeresim fuerunt secuti placuit cybicis rationibus praecepta in uoluminibus scribererdquo

(Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre V p 2) Cf comentaacuterio de Saliou in ibid n 3 p 91-92 O nome

de Pitaacutegoras eacute mencionado ainda em (II 2 1 - pythagoreorum disciplina) (VIII pref 1) (IX pref 2) (IX

pref 6) (IX pref 7) (IX 6 3) (X 6 4) 52 Vitruacutevio ldquoTratado de Arquiteturardquo (III 1 5) p 170 Em latim ldquoetiam Platoni placuit esse eum numerum

ea re perfectum quod ex singularibus rebus quae μονάδες apud Graecos dicuntur perficitur decusisrdquo (Vitruve

ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III p 8) Traduccedilatildeo da passagem toda ldquotambeacutem Platatildeo pensou ser esse

nuacutemero perfeito porque se obteacutem a dezena a partir dos nuacutemeros singulares que entre os gregos se

dizem monadesrdquo Maciel esclarece com brevidade que as monades (μονάδες) mocircnadas ou unidades satildeo

ldquoos quatro primeiros nuacutemeros cuja soma eacute igual a dez 1+2+3+4=10rdquo (Maciel M J in Vitruacutevio ldquoTratado

de Arquiteturardquo n 14 p 170)

79

se ainda aos mathematici que por oposiccedilatildeo diziam ser perfeito o nuacutemero seis53 As

posiccedilotildees demarcadas entre os antiqui de um lado e os mathematici de outro fica patente

no texto Para Pierre Gros os antiqui satildeo aqueles associados ao pitagorismo ao passo

que mathematici muito possivelmente designariam os representantes da matemaacutetica

euclidiana e ainda que no Livro Primeiro Filolau e Arquitas apareccedilam entre os

mathematici o comentador francecircs expotildee que o nuacutemero seis natildeo era negligenciado

pelos pitagoacutericos sendo mesmo ldquodefinido como princiacutepio vital de acordo com

Filolaurdquo54 Vitruacutevio justifica a perfeiccedilatildeo do nuacutemero seis pela conveniecircncia de suas

reparticcedilotildees ldquoassim um sexto eacute um um terccedilo eacute dois metade trecircs dois terccedilos a que

chamam dimoeros quatro cinco sextos que dizem pentemoeros cinco e o nuacutemero

perfeito seisrdquo55 Tais particcedilotildees (partitiones) permitem natildeo apenas vincular o nuacutemero

seis ao peacute humano de modo que possua a sexta parte da altura do homem ou

inversamente multiplicado por seis produza a altura do homem mas a outras partes

do corpo pois segundo Vitruacutevio o cocircvado consta de seis palmos ou ainda vinte e

quatro dedos (seis vezes quatro) O nuacutemero seis aleacutem de permitir o estabelecimento

de unidades de medida pode tambeacutem servir de referecircncia a unidades monetaacuterias

ldquoparece que foi tambeacutem por isso que as cidades dos gregos como o cocircvado mede seis

palmos cunharam com equivalecircncia agrave dracma que eacute o dinheiro que usam moedas

53 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III (III 1 6) p 8 Mathematici uero contra disputantes ea re perfectum

dixerunt esse numerum qui sex diciturrdquo Traduccedilatildeo ldquoQuanto aos matemaacuteticos em oposiccedilatildeo disseram ser

perfeito o nuacutemero seisrdquo 54 Gros P in Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III n 1 p 73 A passagem do Livro Primeiro referida

eacute aquela que sucede o elenco das variadas disciplinas que devem ser medianamente conhecidas

(mediocriter habet notas ndash Vitr I 1 16) pelo arquiteto Aqueles pois que receberam da natureza soleacutercia

agudeza e memoacuteria puderam nelas aprofundar-se (penitus habere notas ndash Vitr I 1 17) e ultrapassaram

o ofiacutecio de arquiteto tornando-se mathematici 55 Vitruacutevio ldquoTratado de Arquiteturardquo (III 1 6) p 171 Em latim a passagem completa ldquoMathematici

uero contra disputantes ea re perfectum dixerunt esse numerum qui sex dicitur quod is numerus habet partitiones

eorum rationibus sex numero conuenientes sic sextantem unum trientem duo semissem tria bessem quem

δίμοιρον dicunt quattuor quintarium quem πεντέμοιρον dicunt quinque perfectum sexrdquo (Vitruve ldquoDe

LrsquoArchitecturerdquo Livre III p 8-9) Traduccedilatildeo da passagem completa ldquoQuanto aos matemaacuteticos em

oposiccedilatildeo disseram ser perfeito o nuacutemero seis porque segundo seus caacutelculos tem particcedilotildees

convenientes assim um sexto eacute um um terccedilo eacute dois metade trecircs dois terccedilos a que chamam dimoeros

quatro cinco sextos que dizem pentemoeros cinco e o nuacutemero perfeito seisrdquo

80

de bronze como asses e tambeacutem em nuacutemero de seis a que chamam oacutebolosrdquo56 A seus

ancestrais latinos (nostri) Vitruacutevio atribui a escolha do antigo nuacutemero perfeito dez a

partir do que se constituiu o denaacuterio57 afirma

Enfim da coexistecircncia em Vitruacutevio de ambos os nuacutemeros perfeitos58 dez e seis

eacute difiacutecil identificar a prevalecircncia de algum Se o nuacutemero seis possui um forte lastro na

proporccedilatildeo do peacute relativamente agrave altura do homem o nuacutemero dez eacute do mesmo modo

associado ao corpo ldquoos antigos instituiacuteram esse nuacutemero perfeito que se diz dez pois

foi encontrado a partir do nuacutemero de dedos das matildeosrdquo59 A natureza eacute produtora da

perfeiccedilatildeo do nuacutemero dez patente nas articulaccedilotildees de ambas as palmas das matildeos

enquanto Platatildeo ndash o uacutenico nome suscitado nessas passagens do De Architectura em que

os nuacutemeros perfeitos satildeo reportados ndash considerava o nuacutemero dez perfeito porque

resultante da soma das mocircnadas60 segundo Vitruacutevio

56 Vitruacutevio ldquoTratado de Arquiteturardquo (III 1 7) p 171 Em latim ldquoEx eo etiam uidentur ciuitates Graecorum

fecisse quemadmodum cubitus est sex palmorum in drachma qua nummo uterentur aereos signatos uti asses ex

aequo sex quos obolos appellantrdquo (Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III p 10) 57 ldquoVitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III (III 1 8) p 10 ldquonostri autem primo fecerunt ltperfectumgt

antiquum numerum et in denario denos aeris constituerunt et ea re compositio nominis ad hodiernum diem

denarium retinetrdquo Traduccedilatildeo ldquoos nossos poreacutem primeiramente consideraram perfeito o antigo nuacutemero

e constituiacuteram no denaacuterio dez moedas de bronze e por isso a composiccedilatildeo do nome manteacutem ateacute hoje o

signficado de dezrdquo (Vitruacutevio ldquoTratado de Arquiteturardquo p 172) 58 Vitruacutevio chega a afirmar que os seus ancestrais latinos reuniram os nuacutemeros perfeitos dez e seis em

um nuacutemero perfeitiacutessimo o dezesseis ldquopostea autem quam animaduerterunt utrosque numeros esse perfectos

et sex et decem utrosque in unum coiecerunt e fecerunt perfectissimum decusis sexisrdquo (Vitruve ldquoDe

LrsquoArchitecturerdquo Livre III - III 1 8 - p 10) Traduccedilatildeo ldquomas depois ao darem conta de que tanto era

perfeito o nuacutemero seis como o dez juntaram-nos num soacute e estabeleceram como perfeitiacutessimo o nuacutemero

dezesseisrdquo (Vitruacutevio ldquoTratado de Arquiteturardquo p 172) Essas especulaccedilotildees satildeo concluiacutedas firmando-se

simultaneamente uma unidade de medida referenciada no corpo e uma unidade monetaacuteria ldquoita efficitur

uti habeat pes sedecim digitos et totidem asses aeracius denariusrdquo (Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III - III

1 8 - p 11) Traduccedilatildeo ldquodesse modo se conclui que o peacute tem dezesseis dedos e o denaacuterio de bronze

outros tantos assesrdquo (Vitruacutevio ldquoTratado de Arquiteturardquo p 172) 59 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III (III 1 5) p 8 ldquoperfectum autem antiqui instituerunt numerum

qui decem dicitur namque ex manibus digitorum numero [ab palmo pes] est inuentusrdquo 60 Ibid (III 1 5) p 8 ldquosi autem in utrisque palmis ex articulis ab natura decem sunt perfecti etiam Platoni

placuit esse eum numerum ea re perfectum quod ex singularibus rebus quae μονάδες apud Graecos dicuntur

perficitur decusisrdquo Traduccedilatildeo ldquomas se nas articulaccedilotildees de ambas as palmas das matildeos o nuacutemero dez foi

feito pela natureza tambeacutem Platatildeo pensou ser esse nuacutemero perfeito porque se obteacutem a dezena a partir

dos nuacutemeros singulares que entre os gregos se dizem monadesrdquo

81

Essa incursatildeo pelos nuacutemeros procura apresentar algum desenvolvimento aos

sistemas de medidas (mensurarum rationes) necessaacuterios a todas as obras edificadas e

extraiacutedos dos membros do corpo61 Vale lembrar que tanto o nuacutemero dez quanto o seis

vinculam-se ao corpo seja pela quantidade de dedos das matildeos exibindo o nuacutemero

dez seja pela relaccedilatildeo proporcional em que o peacute possui a sexta parte da altura do corpo

ou ainda o cocircvado que conteacutem seis palmos62

Vitruacutevio afirmara que agrave semelhanccedila das exatas razotildees existentes entre os

membros de um homem bem configurado deve se dar a composiccedilatildeo do templo

regulada por symmetria e proporccedilatildeo63 E se elencara no escrito certas proporccedilotildees

existentes entre os membros do homem bem configurado pela natureza64 natildeo tinha

em vista expor um modelo pronto ao decalque ldquode maneira semelhante (similiter) os

membros dos templos sagrados devem possuir adequadiacutessima correspondecircncia na

comensuraccedilatildeo de cada uma de suas partes com a soma global da magnitude do todordquo65

O corpo do homem bem configurado eacute instado a evidenciar as propriedades

geomeacutetricas de que dispotildee pois se lecirc que o umbigo foi constituiacutedo pela natureza como

seu centro (corporis centrum medium naturaliter est umbilicus) ndash do que se estabelece

ainda sua inserccedilatildeo no ciacuterculo e no quadrado

do mesmo modo o umbigo eacute naturalmente o centro do corpo com efeito se um homem

for colocado deitado de costas com as matildeos e os peacutes estendidos e colocarmos um centro

de compasso no seu umbigo descrevendo uma circunferecircncia os dedos de ambas as

61 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III (III 1 5) p 8 ldquo [] ex corporis membris collegerunt []rdquo Cf n

33 supra 62 Ibid (III 1 7) p 9-10 ldquonon minus etiam quod pes hominis altitudinis sextam habet partem ita etiam ex eo

quod perficitur pedum numero sexies corporis altitudinis terminatio eum perfectum constituerunt cubitumque

animaduerterunt ex sex palmis constare digitisque XXIIIIrdquo Traduccedilatildeo ldquoe tambeacutem porque o peacute do homem

tem a sexta parte da altura ou seja porque esse nuacutemero do peacute multiplicado por seis determina a altura

do corpo constituiram-no como perfeito e observaram que o cocircvado constava de seis palmos ou 24

diacutegitosrdquo 63 Cf n 3 supra 64 Cf n 4 e 5 supra 65 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III (III 1 3) p 7 ldquosimiliter uero sacrarum aedium membra ad

uniuersam totius magnitudinis summam ex partibus singulis conuenientissimum debent habere commensus

responsumrdquo

82

matildeos e peacutes seratildeo tocados pela linha Igualmente do mesmo modo como o esquema da

circunferecircncia se executa no corpo nele se encontra a designaccedilatildeo do quadrado [quadrata

designatio] de fato se medirmos da base dos peacutes ao alto da cabeccedila e transferirmos essa

medida para a dos braccedilos abertos seraacute encontrada uma largura igual agrave altura como nas

aacutereas ortogonais obtidas pelo esquadro66

A conformaccedilatildeo do corpo consonante agraves figuras geomeacutetricas do ciacuterculo e do

quadrado nas quais se inscreve ajustadamente entre outros indiacutecios textuais levaram

Pierre Gros a identificar fortes ressonacircncias da filosofia de Platatildeo em torno da

descriccedilatildeo do homo bene figuratus67 que serve de referecircncia agrave arquitetura pela

concordacircncia proporcional de suas partes A noccedilatildeo de symmetria assume uma posiccedilatildeo

central nessa interpretaccedilatildeo tatildeo logo eacute tomada como instacircncia reguladora de todos os

agenciamentos que produzem as medidas da construccedilatildeo relacionadas pelos

ldquomuacuteltiplos e sub-muacuteltiplos de um moacutedulo de baserdquo68 orquestrando o conjunto ldquoa

symmetria eacute portanto a chave da unidade orgacircnica da arte do construtor

transformando a aedificatio em um sistema racional ela permite um salto qualitativo

decisivo ao menos em teoriardquo69

66 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III (III 1 3) p 7 ldquoitem corporis centrum medium naturaliter est

umbilicus namque si homo conlocatus fuerit supinus manibus et pedibus pansis circinique conlocatum centrum

in umbilico eius circumagendo rotundationem utrarumque manuum et pedum digiti linea tangentur Non minus

quemadmodum schema rotundationis in corpore efficitur item quadrata designatio in eo inuenietur nam si a

pedibus imis ad summum caput mensum erit eaque mensura relata fuerit ad manus pansas inuenietur eadem

latitudo uti altitudo quemadmodum areae quae ad normam sunt quadrataerdquo 67 Gros P ldquoLa geacuteomeacutetrie platonicienne de la notice vitruvienne sur lrsquohomme parfait (De Architectura

III 1 2-3)rdquo Segundo leitura que faz do Timeu Gros afirma que para Platatildeo o Demiurgo uniria os

elementos que compotildeem o universo agrave maneira de um artesatildeo e tais elementos seriam simbolizados por

poliedros regulares Assim tetraedro octaedro icosaedro e cubo estariam associados aos quatro

elementos e o dodecaedro ao Todo do universo Mas Gros identifica ainda uma transferecircncia dessa

simbologia ligada aos poliedros para os poliacutegonos no comentaacuterio que Proclo faz aos Elementos de

Euclides de modo que ldquocada uma das figuras planas que formam cada um dos lados dos poliedros

regulares pode ser posta em relaccedilatildeo com uma das partes do universo Assim o quadrado eacute assimilado

agrave terra e o ciacuterculo ao ceacuteu segundo uma tradiccedilatildeo que o mesmo exegeta tardio faz remontar ao

pitagorismo recente e mais precisamente a Filolaurdquo (ibid p 20) Embora o texto vitruviano seja pouco

afeito agraves especulaccedilotildees cosmoloacutegicas como nota o proacuteprio Gros (ibid p 22) essa perspicaz interpretaccedilatildeo

natildeo eacute desprovida de interesse na medida em que nos potildee a par de doutrinas natildeo incompatiacuteveis com os

ensinamentos preceituados pelo autor do De Architectura mesmo que uma demonstraccedilatildeo definitiva de

seu caraacuteter operante no interior do escrito seja dificilmente alcanccedilaacutevel 68 Ibid p 16 69 Ibid p 16

83

A ausecircncia de preocupaccedilotildees anatocircmicas efetivas torna o homo bene figuratus um

constructo prioritariamente matemaacutetico no sentido em que se traduz por relaccedilotildees

proporcionais A dimensatildeo excessiva do peacute ndash a sexta parte da altura ndash bem como a

cabeccedila diminuta ndash a oitava parte da altura ndash denunciam um interesse pelas razotildees

numeacutericas que diverge da compleiccedilatildeo dos corpos humanos existentes em carne e osso

A descriccedilatildeo meacutetrica do homo bene figuratus de III 1 2 parte de uma relaccedilatildeo que envolve

o nuacutemero perfeito dez (os capitis a mento ad frontem summam et radices imas capilli esset

decimae partis)70 mas natildeo deixa de acomodar o nuacutemero perfeito seis associado agrave relaccedilatildeo

do peacute com a altura do corpo (pes uero altitudinis corporis sextae)71 ndash em elaboraccedilatildeo

retomada e explicitada em III 1 6 e III 1 772 Assim dois sistemas meacutetricos estariam

presentes e operariam no cacircnone vitruviano73

Gros observa que as proporccedilotildees das partes do corpo enunciadas em III 1 2

relacionadas entre si produzem nuacutemeros epiacutemoros que compotildeem os intervalos

musicais ldquoo corpo humano se constroacutei segundo uma escansatildeo musical no sentido

pitagoacuterico do termordquo74 Nuacutemeros epiacutemoros ou superparticularis satildeo caracterizados

pela relaccedilatildeo (n+1n) Relacionando a razatildeo da cabeccedila ao corpo (18) com a razatildeo do

rosto ao corpo (110) obteacutem-se a razatildeo que caracteriza o intervalo da grande terccedila (54)

Da parte superior do peito ateacute a raiz dos cabelos comparada ao corpo tem-se (16)

que por sua vez em relaccedilatildeo agrave razatildeo da cabeccedila ao corpo (18) proporciona o intervalo

de quarta (43) Do peito agrave raiz dos cabelos (16) em relaccedilatildeo agrave razatildeo obtida do meio do

peito agrave extremidade da cabeccedila (14) obteacutem-se o intervalo de quinta (32) Vitruacutevio natildeo

explicita tais relaccedilotildees derivadas das proporccedilotildees expostas do homo bene figuratus

portanto natildeo eacute possiacutevel sustentar a intenccedilatildeo de transmiti-las Ademais para obtecirc-las

70 Cf n 5 n 57 n 59 e n 60 supra 71 Cf n 5 supra 72 Cf n 55 n 56 e n 62 supra 73 Cf n 58 supra Gros relata ainda as dificuldades acarretadas pela coexistecircncia de dois sistemas

meacutetricos ao estabelecimento de um cacircnone numeacuterico em De Architectura III 1 2 cf Gros P in Vitruve

ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III n 1 p 61-63 74 Gros P ldquoLa geacuteomeacutetrie platonicienne de la notice vitruvienne sur lrsquohomme parfait (De Architectura

III 1 2-3) p 18

84

na sequecircncia sugerida por Gros e exposta acima eacute preciso alterar a ordem em que

aparecem no texto75

Em III 1 7 Vitruacutevio afirma que a perfeiccedilatildeo do nuacutemero seis adveacutem igualmente

das particcedilotildees convenientes (partitiones conuenientes)76 que possui apresentadas por

nomes gregos e que seriam tambeacutem segundo Gros termos empregados por

pitagoacutericos para designar relaccedilotildees numeacutericas que caracterizam os acordes da ciacutetara77

Do mesmo modo aqui Vitruacutevio natildeo faz qualquer menccedilatildeo expliacutecita a uma ordenaccedilatildeo

musical contudo o Livro Primeiro estabelecia a muacutesica como uma das nove

disciplinas78 que o arquiteto deveria conhecer ldquoconveacutem que saiba muacutesica de modo

que esteja habituado agrave regulaccedilatildeo canocircnica e matemaacuteticardquo79

Pierre Gros natildeo deixa ainda de aproximar o excerto vitruviano de III 1 2-3 agrave

matemaacutetica platocircnica ldquoagrave maneira do demiurgo do Timeu de Platatildeo o arquiteto tece

portanto suas construccedilotildees entrelaccedilando o par e o iacutemparrdquo80 Se o arquiteto ldquonatildeo deve

ser muacutesico como Aristoacutexeno mas conhecer algo de muacutesicardquo81 natildeo eacute impossiacutevel que as

proporccedilotildees transmitidas por Vitruacutevio ecoem ensinamentos de leis harmocircnicas as

quais se supunha reger a um soacute tempo os movimentos dos astros e as combinaccedilotildees

sonoras ambos identificados por relaccedilotildees numeacutericas ldquode modo semelhante

astroacutelogos e muacutesicos tecircm em comum a discussatildeo acerca da harmonia das estrelas e dos

75 Em Vitruacutevio III 1 2 a sequumlecircncia das razotildees eacute i-(110) ii-(18) iii-(16) iiii-(14) Para que se obtenha

os intervalos musicais eacute preciso relacionar ii com i (54) iii com ii (43) e finalmente iii e iiii (32) Eacute

preciso operar uma inversatildeo na ordem (na comparaccedilatildeo entre iii e iiii o nuacutemero menor - 16 - vem antes

do segundo membro da comparaccedilatildeo - 14 - ao contraacuterio das outras relaccedilotildees em que o nuacutemero menor

vem depois) isto eacute requer-se um procedimento de quebra da sequecircncia apresentada no trecho do De

Architectura Seraacute possiacutevel entatildeo ldquodescriptografarrdquo as razotildees vitruvianas em intervalos musicais

Talvez nos faltem elementos da matemaacutetica pitagoacuterica Talvez o quadro tenha chegado parcial a

Vitruacutevio 76 Cf n 55 supra 77 Gros P in Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III n 5 p 74-75 78 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre I ( I 1 3) p 5 Satildeo elas letras desenho geometria histoacuteria

filosofia muacutesica medicina direito e astronomia 79 Ibid (I 1 8) p 8 ldquomusicen autem sciat oportet uti canonicam rationem et mathematicam notam habeatrdquo 80 Gros P ldquoLa geacuteomeacutetrie platonicienne de la notice vitruvienne sur lrsquohomme parfait (De Architectura

III 1 2-3) p 18 81 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre I (I 1 13) p 11 ldquonec musicus ut Aristoxenus sed non amusosrdquo

85

acordes musicais em quadrados e em triacircngulos em quartas e em quintasrdquo82 Assim

cumpre ressaltar que a visada nas passagens vitruvianas do Livro III se direciona

sobretudo aos acordos que podem ser estabelecidos entre as partes da obra e seu

conjunto menos que a preceitos numeacutericos afinal o arquiteto natildeo se confunde com os

raros mathematici83 As mensurarum rationes satildeo necessaacuterias a todas as obras por isso eacute

preciso deter-se aos sistemas numeacutericos Mas natildeo se pode perder de vista que de

acordo com Vitruacutevio esses princiacutepios meacutetricos foram coligidos do corpo do homem e

servem para compor os corpos dos edifiacutecios

22 Μίμησις Imitatio Similitudo

No volume que trata da estatuaacuteria Pliacutenio o Velho escreve que Lisipo fez sua

a ousada resposta do pintor Eupompo sobre a indagaccedilatildeo acerca dos antecessores a que

pudesse seguir ldquoa proacutepria natureza deve ser imitada natildeo um artiacuteficerdquo84 A descriccedilatildeo

mostra na sequecircncia a oposiccedilatildeo das estaacutetuas de Lisipo face agraves signa quadrata dos

antigos mais precisamente de Policleto85

natildeo haacute um nome latino para symmetria a qual ele [Lisipo] observou com extrema

diligecircncia substituindo os portes quadrados dos antigos por um sistema de proporccedilotildees

novo e ainda natildeo empreendido e [Lisipo] dizia costumeiramente (uulgoque) que aqueles

82 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III (III 1 16) p 12 ldquosimiliter cum astrologis et musicis est disputatio

communis de symphatia stellarum et symphoniarum in quadratis et trigonis diatessaron et diapenterdquo 83 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre I ( I 1 17) p 13 84 Pline LrsquoAncien ldquoHistoire Naturellerdquo Livre XXXIV (34 61) p 129 ldquoeum enim interrogatum quem

sequeretur antecedentium dixisse monstrata hominum multitudine naturam ipsam imitandam esse non

artificemrdquo Traduccedilatildeo tendo sido interrogado sobre qual predecessor seguia disse mostrando a multidatildeo

de homens que a proacutepria natureza deve ser imitada natildeo um artiacuteficerdquo 85 Ibid (34 56) p 127 ldquoquadrata tamen esse ea [sc signa] ait Varro et paene ad unum exemplumrdquo Traduccedilatildeo

ldquoVarratildeo afirma serem quadradas [as estaacutetuas] e quase todas de um mesmo modelo (exemplum)rdquo Sobre

as dificuldades na interpretaccedilatildeo do termo quadratus cf apecircndice B ldquoO Cacircnone de Policleto e a hipoacutetese

de Tobinrdquo

86

[os antigos]86 faziam os homens como eram ao passo que ele os fazia tal como eram

vistos87

De acordo com o registro da Naturalis Historia a imitaccedilatildeo da natureza

empreendida por Lisipo levava em conta o modo pelo qual os homens eram vistos

ldquoele contribuiu muito agrave arte estatuaacuteria produzindo o detalhe do cabelo fazendo

cabeccedilas menores que os antigos corpos mais esbeltos e secos para que por meio do

adelgaccedilamento as estaacutetuas parecessem maioresrdquo88 As estaacutetuas dos artiacutefices divergiam

desse modo quanto agraves relaccedilotildees proporcionais do corpo do homem porque partiam de

certos pressupostos distintos as signa quadrata de Policleto tomavam-nos como eram

(quales essent) ao passo que a visatildeo que se tinha deles (quales uiderentur) importava a

Lisipo a ponto de orientar as relaccedilotildees meacutetricas empregadas Isso natildeo quer dizer que

Lisipo natildeo cuidasse minuciosamente da symmetria pelo contraacuterio ldquonon habet Latinum

nomen symmetria quam diligentissime custoditrdquo89 Importa aqui novamente apontar a

proximidade de termos e noccedilotildees entre o excerto de Pliacutenio o Velho e o iniacutecio do Livro

III do De Architectura ldquoaedium compositio constat ex symmetria cuius rationem diligentisse

architecti tenere debentrdquo90 A diligecircncia superlativa dedicada agrave symmetria estaacute presente

em ambos os escritos e o De Architectura preceitua uma relaccedilatildeo meacutetrica da cabeccedila ao

corpo que mais se aproxima das ldquocabeccedilas menoresrdquo atribuiacutedas a Lisipo91 Mas seraacute

86 Os antigos entenda-se ao modo de Policleto 87 Pline LrsquoAncien ldquoHistoire Naturellerdquo vol XXXIV (34 65) p 130 ldquonon habet Latinum nomen symmetria

quam diligentissime custodit noua intactaque ratione quadratas ueterum staturas permutando uulgoque dicebat

ab illis factos quales essent homines a se quales uiderentur esserdquo 88 Ibid (34 65) p 130 ldquostatuariae arti plurimum traditur contulisse capillum exprimendo capita minora

faciendo quam antiqui corpora graciliora siccioraque per quae proceritas signorum maior uidereturrdquo 89 Ibid (34 65) p 130 cf n 87 supra 90 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III (III 1 1) p 5-6 Traduccedilatildeo ldquoa composiccedilatildeo dos templos assenta

na symmetria cuja regulaccedilatildeo os arquitetos deveratildeo observar com extrema diligecircnciardquo Cf n 1 n 18

supra 91 Cf apecircndice B ldquoO Cacircnone de Policleto e a hipoacutetese de Tobinrdquo cf Gros P in Vitruve ldquoDe

LrsquoArchitecturerdquo Livre III n 1 p 62 As preocupaccedilotildees visuais permeiam o De Architectura e a descriccedilatildeo

da Basiacutelica de Fano no Livro V eacute um exemplo de como satildeo empreendidas alteraccedilotildees na symmetria (pela

supressatildeo das duas colunas medianas no lado maior da nave central) para garantir a vista entre o

Templo de Augusto e o Foro cf capiacutetulo 3 ldquoPreceitos para o encantordquo especialmente as seccedilotildees ldquoObra

isolada e conjunto edificadordquo e ldquoAcumen Eurythmia Symmetriardquo

87

possiacutevel inferir que o cacircnone vitruviano compartilha o intento de imitaccedilatildeo da natureza

atribuiacuteda ao estatuaacuterio de Siciatildeo

Surpreende que no De Architectura dentre os sete primeiros volumes voltados

agrave aedificatio apenas no primeiro e no terceiro natildeo seja possiacutevel encontrar qualquer

ocorrecircncia de imito imitatio ou derivaccedilotildees da raiz imit-92 A ausecircncia do grupo

terminoloacutegico no Livro I ateacute poderia ser explicada pelo seu caraacuteter amplo

apresentando as diretrizes para a arquitetura as instruccedilotildees necessaacuterias ao arquiteto e

certos paracircmetros de ocupaccedilatildeo dos recintos urbanos eximindo-o do uso dos termos

pelo vieacutes da abordagem O Livro III no entanto expotildee um cacircnone com estreitos pontos

de contato agravequeles dos estatuaacuterios produzindo a expectativa da presenccedila de vocaacutebulos

remetendo agrave imitaccedilatildeo Entre a notiacutecia que Pliacutenio oferece de Lisipo e o iniacutecio do Livro

Terceiro do De Architectura constata-se mesmo uma coincidecircncia terminoloacutegica quanto

agraves noccedilotildees centrais de symmetria diligentia e natura Mas nesse uolumen Vitruacutevio natildeo faz

qualquer menccedilatildeo expliacutecita agrave famiacutelia de imitatio ao contraacuterio do que se observa na

parelha passagem de Pliacutenio (naturam ipsam imitandam esse non artificem) 93

No Livro V a formulaccedilatildeo vitruviana traz agrave tona o liame entre arquitetura e

imitaccedilatildeo ao preceituar as disposiccedilotildees do foro

as colunas superiores devem ser constituiacutedas a quarta parte menores que as inferiores

isso porque suportando o peso as inferiores devem ser mais firmes do que as

superiores Do mesmo modo conveacutem imitar a natureza das plantas conforme as

aacutervores de tronco roliccedilo como o abeto o cipreste e o pinheiro nas quais nada eacute mais

espesso do que as bases que crescendo avanccedilam em altura por meio de uma

equilibrada contratura natural desenvolvendo-se em direccedilatildeo ao cume Portanto se a

92 Natildeo eacute possiacutevel identificar nos Livros I III VIII e IX qualquer termo derivado de imit- raiz de termos

como imitor imitare imitatio Dentre os sete primeiros volumes que correspondem agrave aedificatio apenas

em I e III o grupo terminoloacutegico eacute ausente Os livros VIII e IX tratam respectivamente das aacuteguas e da

gnomocircmica o X versa sobre as maacutequinas Os termos podem ser encontrados em (II 1 2) (II 1 3) (IV

1 8) (IV 2 2) (IV 2 3) - duas ocorrecircncias (IV 2 5) (V 1 3) (V 6 9) (VI 7 4) (VII 5 1) (VII 5 2)

(VII 10 4) (VII 14 1) (VII 14 2) (X 1 4) (X 6 2) 93 Cf n 84 supra

88

natureza das plantas assim postula corretamente se estabelece que as alturas e as

espessuras superiores tornam-se mais contraiacutedas relativamente agraves inferiores94

A passagem mostra claramente que as aacutervores constituem o referencial de

estabilidade para a disposiccedilatildeo das colunas que se sobrepotildeem nos poacuterticos do foro

Vitruacutevio eacute direto ao afirmar que eacute preciso imitar a natureza (oportet imitari naturam)

No campo da firmitas a natureza baliza os elementos da edificaccedilatildeo de modo que o

estreitamento do tronco de aacutervores como o abeto o cipreste e o pinheiro devem ser

imitados na contratura das colunas mas tambeacutem servem como princiacutepio ordenador

do conjunto da obra determinando que em um poacutertico de dois pavimentos a coluna

superior deve ser menor que a inferior jaacute que esta sustenta aquela

A notiacutecia em torno do homo bene figuratus atribuiacutea agrave natureza o rigor da

configuraccedilatildeo estabelecida ldquoita natura composuit corpus hominis []rdquo95 Fica evidente a

natureza compocircs o corpo do homem Ao mesmo tempo Vitruacutevio afirma que pintores

e estatuaacuterios devem fazer uso desse estabelecimento no intuito de obter a mais elevada

estima96 A sentenccedila transmitida por Pliacutenio de que ldquoa proacutepria natureza deve ser

imitada natildeo um artiacuteficerdquo97 quase caberia nesse ponto do escrito vitruviano que remete

aos pintores e estatuaacuterios natildeo tivesse o autor-arquiteto rememorado ao leitor que se

trata aqui de uma preceptiva edificatoacuteria direcionada nesse uolumen agrave composiccedilatildeo dos

templos ldquode maneira semelhante (similiter) os membros dos templos sagrados devem

possuir adequadiacutessima correspondecircncia na comensuraccedilatildeo de cada uma de suas partes

94 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre V (V 1 3) p 4 ldquocolumnae superiores quarta parte minores quam

inferiores sunt constituendae propterea quod oneri ferendo quae sunt inferiora firmiora debent esse quam

superiora Non minus quod etiam nascentium oportet imitari naturam ut in arboribus teretibus abiete cupresso

pinu e quibus nulla non crassior est ab radicibus deinde crescendo progreditur in altitudinem naturali

contractura peraequata nascens ad cacumen Ergo si natura nascentium ita postulat recte est constitutum et

altitudinibus et crassitudinibus superiora inferiorum fieri contractiorardquo 95 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III (III 1 4) p 7 Traduccedilatildeo ldquoassim a natureza compocircs o corpo

do homem []rdquo 96 Cf n 6 supra 97 Cf n 84 supra

89

com a soma global da magnitude do todordquo98 Diferente do contraponto entre natureza

e artiacutefices presente na sentenccedila que se lecirc em Pliacutenio no De Architectura agraves liccedilotildees da

natureza somam-se os ensinamentos dos antigos que aliaacutes encarregaram-se de

transferi-las para as obras

logo se a natureza assim compocircs o corpo do homem de modo que seus membros

possuiacutessem correspondecircncia pelas proporccedilotildees ao conjunto da figura vecirc-se que com

razatildeo os antigos estabeleceram que ainda a perfeiccedilatildeo de cada membro da obra tivesse

comensuraccedilatildeo exata para com o aspecto da configuraccedilatildeo do conjunto Entatildeo como

transmitissem as ordenaccedilotildees para todos os gecircneros de obras era sobretudo aos templos

dos deuses em que os meacuteritos e as faltas costumam perdurar eternamente99

Vale insistir sobre a relaccedilatildeo que se propotildee entre o corpo do homem e a

arquitetura similiter De modo semelhante agrave constituiccedilatildeo concedida pela natureza ao

corpo do homem bem configurado deve ser estabelecido o acordo de

comensurabilidades entre as partes e o todo dos edifiacutecios sagrados Todavia natildeo cabe

ao arquiteto imitar a configuraccedilatildeo do homem do mesmo modo que fazem o pintor e o

estatuaacuterio o arquiteto natildeo pinta ou plasma homens mas edifica Os territoacuterios das

diferentes artes se afiguram bem delimitados ldquoConveacutem ao arquiteto imitar a

naturezardquo (oportet imitari naturam)100 dizia Vitruacutevio mas na medida em que faz a

coluna tal como os troncos roliccedilos que diminuem sua espessura agrave medida que ficam

mais altos Eacute algo semelhante agrave contratura natural das aacutervores que se deve fazer nas

colunas e nos poacuterticos de dois pavimentos nesse sentido diz-se que a arquitetura imita

a natureza O estreitamento do fuste figura algo da imago do tronco da aacutervore ao

mesmo tempo recolhe da natureza um arranjo que serve agrave estabilidade da construccedilatildeo

98 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III (III 1 3) p 7 ldquosimiliter uero sacrarum aedium membra ad

uniuersam totius magnitudinis summam ex partibus singulis conuenientissimum debent habere commensus

responsumrdquo 99 Ibid (III 1 4) p 7-8 ldquoergo si ita natura composuit corpus hominis uti proportionibus membra ad summam

figurationem eius respondeant cum causa constituisse uidentur antiqui ut etiam in operum perfectionibus

singulorum membrorum ad uniuersam figurae speciem habeant commensus exactionem Igitur cum in omnibus

operibus ordines traderent maxime in aedibus deorum ltquod eorumgt operum et laudes et culpae aeternae solent

permanererdquo 100 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre V (V 1 3) p 4 Cf n 94 supra

90

No livro IV expotildee-se como a construccedilatildeo dos ornamentos do templo doacuterico

consiste na imitaccedilatildeo em pedra de elementos originariamente produzidos em madeira

assim cada coisa tem a ver com o lugar gecircnero e ordem proacuteprios Disto e a partir dos

trabalhos em madeira do carpinteiro os artiacutefices imitaram as disposiccedilotildees dos templos

sagrados nos entalhes em pedra e maacutermore das construccedilotildees e julgaram que essas

invenccedilotildees deviam ser seguidas101

Vitruacutevio explica em seguida como os antigos carpinteiros (antiqui fabri)

deixavam as vigas proeminentes (tigna prominentia habuissent conlocata) na direccedilatildeo do

exterior das paredes do templo Os espaccedilos entre essas vigas (intertignia) precisavam

ser preenchidos e acima deles vinham as cornijas (coronas) e os frontotildees (fastigia) como

ornamento tornando o aspecto mais venusto (uenustiore specie)102 As vigas salientes

eram entatildeo cortadas no alinhamento das paredes mas como produziam uma visatildeo

desagradaacutevel (quae species cum inuenusta eis uisa esset)103 eram revestidas com tabelas

(tabellae)104 produzidas ldquocomo satildeo feitos os triacuteglifos de agorardquo (uti nunc fiunt

triglyphi)105 escreve o arquiteto Uma pintura em encaacuteustica azul (cera caerulea) cobria

as fendas entre as vigas (que anteriomente se projetavam) evitando que ofendessem a

visatildeo ldquoet eas cera caerulea depinxerunt ut praecisiones tignorum tectae non offenderent

uisumrdquo106 Os intervalos entre essas vigas agrupadas produziram as meacutetopas escreve

101 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre IV (IV 2 2) p 10 ldquoita unaquaeque res et locum et genus et ordinem

proprium tuetur E quibus rebus et a materiatura fabrili in lapideis et marmoreis aedium sacrarum aedificationibus

artifices dispositiones eorum scalpturis sunt imitati et eas inuentiones persequendas putaueruntrdquo 102 Ibid (IV 2 2) p 10-11 ldquoideo quod antiqui fabri quodam in loco aedificantes cum ita ab interioribus

parietibus ad extremas partes tigna prominentia habuissent conlocata intertignia struxerunt supraque coronas et

fastigia uenustiore specie fabrilibus operibus ornauerunt []rdquo Traduccedilatildeo assim os antigos carpinteiros

construindo em um certo local como haviam disposto as vigas proeminentes na direccedilatildeo das partes

externas vindas do interior das paredes preencheram os vatildeos entre as vigas sobre as quais ornaram

cornijas e frontotildees com elementos trabalhados em madeira para uma vista mais venustardquo 103 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre IV (IV 2 2) p 11 104 Segundo Maciel tabellae eram ldquotabelas de madeira taacutebuas esquadriadas tabuinhas que foram sendo

substituiacutedas por placas de terracota e de pedra Singular tabellardquo (Vitruacutevio ldquoTratado de Arquiteturardquo

n 38 p 209) 105 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre IV (IV 2 2) p 11 106 Ibid (IV 2 2) p 11 Traduccedilatildeo ldquoe pintaram-nas com cera azul-ceruacuteleo de modo que as fendas entre

as vigas da cobertura natildeo ofendessem a visatildeordquo Maciel explica que cera faz ldquoreferecircncia agrave teacutecnica da

encaacuteustica que consistia em pintar diluindo os pigmentos em cera liacutequidardquo (Maciel M J in ldquoTratado

91

O texto do Livro IV prossegue mostrando que posteriormente as extremidades

das traves inclinadas (cantherii) foram postas a prumo em relaccedilatildeo aos triacuteglifos tendo

as projeturas aplanadas107 Mas depois passaram a ser produzidos muacutetulos em pedra

procurando imitar aquela inclinaccedilatildeo das traves de madeira assim como os triacuteglifos

faziam com as vigas

por isso do mesmo modo como os triacuteglifos surgiram das disposiccedilotildees das vigas assim

os princiacutepios dos muacutetulos foram inventados a partir das projeccedilotildees das traves

inclinadas (cantheriorum) sob as cornijas Desse modo normalmente os muacutetulos satildeo

esculpidos inclinados nas obras de pedra e de maacutermore porque haacute imitaccedilatildeo das traves

inclinadas (cantheriorum) efetivamente eacute necessaacuterio que elas sejam colocadas com

inclinaccedilatildeo por causa do escoamento das aacuteguas pluviais Portanto tanto as regras dos

triacuteglifos quanto dos muacutetulos foram inventadas nas obras doacutericas a partir dessa

imitaccedilatildeo 108

Lecirc-se pois que a inclinaccedilatildeo dos muacutetulos adveacutem da imitaccedilatildeo (imitatio) tal como

os triacuteglifos109 em sua origem ambos os elementos dos templos doacutericos resultam da

transposiccedilatildeo de peccedilas de madeira para a pedra Mesmo que os elementos peacutetreos natildeo

de Arquiteturardquo n 40 p 209) ldquoCaeruleardquo designaria a cor o azul-ceruacuteleo ou azul-egiacutepcio mencionado

tambeacutem em VII 11 1 (ibid n 39 p 209) 107 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre IV (IV 2 3) p 11 ldquopostea alii in aliis operibus ad perpendiculum

triglyphorum cantherios prominentes proiecerunt eorumque proiecturas simaueruntrdquo Traduccedilatildeo

ldquoposteriormente outros em outras obras colocaram as extremidades das traves inclinadas a prumo com

relaccedilatildeo aos triacuteglifos aplanando as projeturas delasrdquo 108 Ibid (IV 2 3) p 11 ldquoex eo uti ltegt tignorum dispositionibus triglyphi ita e cantheriorum proiecturis

mutulorum sub coronis ratio est inuenta Ita fere in operibus lapideis et marmoreis mutuli inclinatis scalpturis

deformantur quod imitatio est cantheriorum etenim necessario propter stillicidia proclinati conlocantur Ergo et

triglyphorum et mutulorum in doricis operibus ratio ex ea imitatione inuenta estrdquo 109 Os comentaacuterios de Silvio Ferri (Ferri S in Vitruvio ldquoArchitetturardquo n 2 p 232-233) esclarecem

construtiva e etimologicamente acerca do triacuteglifo O ldquoglifordquo diria respeito agrave fissura ou agrave fenda vertical

que resulta da uniatildeo de traves (trabs) de madeira que justapostas compotildeem uma peccedila estrutural Assim

o ldquotrirdquo indica as trecircs fendas verticais na ponta da peccedila formada pela junccedilatildeo de quatro vigas Seria um

ldquodiglyphonrdquo se contasse com trecircs traves produzindo duas fendas Segundo Ferri haacute registros de obras

apresentando monoglifos diacuteglifos triacuteglifos e tetraglifos sendo que a cera aplicada sobre esses

elementos teria a finalidade de alisar proteger as quinas contra rupturas em lascas e impermeabilizar

impedindo a infiltraccedilatildeo de aacutegua pelos canaliacuteculos verticais da extremidade (Ferri S in Vitruvio

ldquoArchitetturardquo n 2 p 232-233) Ferri se vale das passagens de V 1 8 e V 1 9 agrave interpretaccedilatildeo desses

trechos do Livro IV O Livro V eacute importante fonte sobre a carpintaria no periacuteodo de escrita do De

Architectura conforme observa Catherine Saliou (Saliou C in Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre V

n 3 p 154)

92

desempenhem mais a funccedilatildeo exercida pelas originaacuterias peccedilas liacutegneas obtiveram lugar

nas convenccedilotildees construtivas enquanto ornamento resultante da imitaccedilatildeo

Antes poreacutem no mesmo Livro IV Vitruacutevio propunha transferir as proporccedilotildees

do homem para o gecircnero doacuterico Segundo a explicaccedilatildeo apresentada os atenienses

fundaram treze colocircnias na Aacutesia que em homenagem ao liacuteder Iacuteon chamaram de Jocircnia

(Ionia) onde passaram a erigir edificaccedilotildees sagradas Estabeleceram primeiro um

templo a Apolo Paniocircnio ldquotal como tinham visto em Acaiardquo (uti uiderant in Achaia)110

escreve o autor chamando-o de ldquodoacuterico porque viram primeiramente um templo

desse gecircnero nas cidades de Doacuteriderdquo111 As palavras que se seguem mostram bem a

busca das relaccedilotildees meacutetricas nas proporccedilotildees do corpo do homem para dar forma agrave

coluna doacuterica

Como quisessem dispor as colunas nesse templo natildeo possuindo suas

comensurabilidades (symmetrias) e procurando que a partir dessas regulaccedilotildees

pudessem fazer com que tanto fossem aptas a suportar os pesos como possuiacutessem

venustidade assegurada ao aspecto mediram a impressatildeo (uestigium) do peacute viril e a

relacionaram com a altura Como haviam descoberto que o peacute tinha a sexta parte da

altura do homem assim transferiram para a coluna cuja espessura fizeram de base ao

fuste e a elevaram seis vezes em altura incluso o capitel Desse modo comeccedilou-se a

distinguir na coluna doacuterica a proporccedilatildeo do corpo viril bem como a firmeza e a

venustidade nos edifiacutecios112

110 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre IV ( IV 1 5) p 5 111 Vitruacutevio ldquoTratado de Arquiteturardquo (IV 1 5) p 202 Em latim ldquoet primum Apollini Panionio aedem

uti uiderant in Achaia constituerunt et eam doricam appelaureunt quod in Dorieon ciuitatibus primum factam

eo genere uideruntrdquo (Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre IV p 5) 112 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre IV (IV 1 6) p 5-6 ldquoin ea aede cum uoluissent columnas conlocare

non habentes symmetrias earum et quaerentes quibus rationibus efficere possent uti et ad onus ferendum essent

idoneae et in aspectu probatam haberent uenustatem dimensi sunt uirilis pedis uestigium et id retulerunt in

altitudinem Cum inuenissent pedem sextam partem esse altitudinis in homine item in columnam transtulerunt

et qua crassitudine fecerunt basim scapi tantas sex cum capitulo in altitudinem extulerunt Ita dorica columna

uirilis corporis proportionem et firmitatem et uenustatem in aedificiis praestare coepitrdquo

93

A transferecircncia113 de relaccedilotildees proporcionais explicitada por Vitruacutevio ao gecircnero

doacuterico marca igualmente as prescriccedilotildees ao jocircnico Neste entretanto a

correspondecircncia meacutetrica eacute estabelecida a partir do corpo da mulher

do mesmo modo construiacuteram posteriormente um templo a Diana procurando o aspecto

de um gecircnero novo pela mesma impressatildeo [do peacute] transferiram para a coluna a

delicadeza (gracilitatem) da mulher e fizeram inicialmente a espessura da coluna com a

oitava parte da altura para que tivesse um aspecto mais elevado114

Ao Jocircnico prevecirc-se ainda uma espira de base fazendo as vezes de um calccedilado

(basi spiram supposuerunt pro calceo) 115 a disposiccedilatildeo de volutas pendentes agrave esquerda e

agrave direita do capitel como cachos enrolados do cabelo cimaacutecios e festotildees116 ornando a

fronte da coluna ldquodispostos como madeixasrdquo117 aleacutem das caneluras ou estrias nos

fustes das colunas ao modo das dobras das vestes matronais

Portanto dos dois gecircneros de colunas prescritos o primeiro apresenta o caraacuteter

viril e despojado de ornamentos enquanto o segundo exibe a fineza o ornato e a

symmetria da mulher Mas Vitruacutevio fala ainda de um terceiro gecircnero o coriacutentio que

imita a delicadeza virginal pois ldquoas virgens por causa da brandura da idade figurada

por membros mais delicados revestem-se dos efeitos mais venustos ao ornatordquo118

Se o termo imitatio ocorre apenas na apresentaccedilatildeo do gecircnero coriacutentio natildeo parece

demasiado afirmar que no jocircnico as associaccedilotildees ndash entre a espira e o calccedilado (calceo)

113 O termo empregado eacute ldquotranstuleruntrdquo a terceira pessoa do plural do perfeito de transfero (transfero

transtuli translatum) vertido aqui ao moderno ldquotransferirrdquo Da combinaccedilatildeo do prefixo ldquotransrdquo ao verbo

ldquoferordquo pode ser entendido segundo Torrinha ldquolevar para aleacutem transportar levar de um lugar para

outro || transferre castra transferir o acampamentordquo (Torrinha ldquoDicionaacuterio latino-portuguecircsrdquo p 884) 114 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre IV (IV 1 7) p 6 ldquoitem postea Dianae constituere aedem Quaerentes

noui generis speciem isdem uestigiis ad ltcolumnamgt muliebrem transtulerunt gracilitatem et fecerunt primum

columnae crassitudinem altitudinis octaua parte ut haberet speciem excelsioremrdquo 115 Ibid (IV 1 7) p 6 116 Segundo Maciel as ldquoencarpardquo designam festotildees ou grinaldas ldquodo grego [encarpos] haacutepax vitruvianordquo

(Maciel M J in ldquoTratado de Arquiteturardquo n 5 p 203) 117 Vitruacutevio ldquoTratado de Arquiteturardquo (IV 1 7) p 203 118 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre IV (IV 1 8) p 7 ldquotertium uero quod corinthium dicitur uirginalis

habet gracilitatis imitationem quod uirgines propter aetatis teneritatem gracilioribus membris figuratae effectus

recipiunt in ornatu uenustioresrdquo

94

bem como das volutas nas laterais da coluna aos cachos de cabelo dos cimaacutecios e

festotildees agraves mechas frontais das caneluras agraves dobras das vestes ndash constituiriam tambeacutem

imitaccedilotildees tal como se diz que os triacuteglifos e os muacutetulos imitam Mas se esses dois

elementos das obras doacutericas imitam o aspecto de antigas peccedilas de madeira os

ornamentos da coluna jocircnica procuram transpor ornamentos humanos (calccedilado cacho

de cabelo dobras das vestes) agrave coluna Aleacutem disso os trecircs gecircneros consistem em

imitaccedilotildees de caracteres a coluna doacuterica imitaria o caraacuteter viril a jocircnica o feminil e a

coriacutentia o virginal Eacute possiacutevel observar que nessas ocorrecircncias a imitaccedilatildeo envolve

elementos naturais que se vinculam a partes do edifiacutecio o corpo do homem da mulher

e da virgem agrave coluna a madeira das antigas vigas cujo aspecto frontal eacute reproduzido

pelo triacuteglifo peacutetreo a aacutervore figurada no esquema vertical de cada coluna e da

montagem de colunas nos poacuterticos e nas basiacutelicas Eacute de se notar que em todos esses

usos de imitatio Vitruacutevio tem em vista apenas elementos construtivos ou partes da

edificaccedilatildeo a coluna ou partes dela (como as espiras e as volutas) o triacuteglifo o muacutetulo

Mesmo quando se propunha a imitaccedilatildeo das plantas e do princiacutepio natural presente

nas aacutervores cujo tronco se contrai verticalmente garantindo a estabilidade voltava-se

apenas a um segmento da obra

No Livro II por outro lado Vitruacutevio provecirc um registro de imitaccedilatildeo integral da

construccedilatildeo inserido em uma digressatildeo histoacuterica119 que trata de um momento anterior

ao estabelecimento da arquitetura elevada pelo pensamento120 e pelas artes capaz de

119 No primeiro capiacutetulo do Livro II Vitruacutevio elabora os traccedilos de uma ldquogrande histoacuteria da civilizaccedilatildeordquo

segundo Elisa Romano e mais que o interesse pelas inuentiones tratar-se-ia de um ldquoquadro

historiograacutefico amplo e complexordquo voltado aos initia humanitatis (Romano E ldquoVitruvio fra storia e

antiquariardquo sect12) 120 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre II (II 1 6) p 8 ldquoet natura non solum sensibus ornauisset gentes

quemadmodum reliqua animalia sed etiam cogitationibus et consiliis armauisset mentesrdquo Traduccedilatildeo ldquoe a

natureza natildeo apenas tinha guarnecido as gentes com os sentidos como os restantes animais mas ainda

tinha armado as mentes com pensamentos e planosrdquo

95

ornar a vida com elegacircncia121 e engenho solerte122 ldquoalguns imitando os ninhos das

andorinhas e o seu modo de construir [comeccedilaram] a fazer habitaccedilotildees de lama e

gravetos onde pudessem se abrigarrdquo123

O relato das construccedilotildees humanas que imitam ninhos de andorinhas parece

aproximar-se menos de uma preceituaccedilatildeo de caraacuteter exemplar do que da narraccedilatildeo dos

passos primordiais da arte edificatoacuteria no interior da apresentaccedilatildeo de um quadro geral

da origem da civilizaccedilatildeo A imitaccedilatildeo nesse passo do De Architectura portanto estaria

muito mais apta a desempenhar uma funccedilatildeo etioloacutegica do que paradigmaacutetica124

Embora essa descriccedilatildeo cumpra seu papel na elucidaccedilatildeo das causas dos processos

primitivos de construccedilatildeo deixa entrever a conexatildeo primordial com a natureza que eacute

fonte de ensinamentos a serem imitados125 ademais afirma o autor que os homens

possuem uma disposiccedilatildeo natural para imitar e aprender126 Assim certos elementos da

natureza devem ser imitados os primitivos refuacutegios humanos natildeo A imitaccedilatildeo dos

ninhos das andorinhas apenas ilustra os primeiros passos na arte de construir

deixando entrever contudo o imitar como parte da atividade humana exprimindo-se

nos mais rudimentares gestos construtivos De acordo com Vitruacutevio a imitaccedilatildeo da

natureza eacute intriacutenseca agrave construccedilatildeo dos abrigos humanos presente antes mesmo da

121 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre II (II 1 7) p 8 ldquoposteaquam animaduerterunt profusos esse partus

naturae ad materiam et abundantem copiam ad aedificationes ab ea comparatam tractando nutrierunt et auctam

per artes ornauerunt uoluptatibus elegantiam uitaerdquo Traduccedilatildeo ldquoquando perceberam a profusatildeo de

produtos da natureza que serviam de material e a abundacircncia por ela fornecida para as edificaccedilotildees

valeram-se deles manejando-os e por meio das artes ornaram de prazeres a elegacircncia da vida que se

elevavardquo 122 Ibid (II 1 6) p 7 ldquocum autem cotidie faciendo tritiores manus ad aedificandum perfecissent et sollertia

ingenia exercendo perconsuetudinem ad artes peruenissentrdquo Traduccedilatildeo ldquocomo entretanto aperfeiccediloassem

cotidianamente o treino das matildeos em realizar e exercitando a soleacutercia do engenho com o costume

alcanccedilaram as artesrdquo 123 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre II (II 1 2) p 5 ldquononnulli hirundinum nidos et aedificationes earum

imitantes de luto et uirgulis facere loca quae subirentrdquo 124 Sobre o papel desempenhado pela etiologia no relato histoacuterico vitruviano cf Romano E ldquoVitruvio

fra storia e antiquariardquo 125 Em especial (III 1 3) (III 1 4) (V 1 3) 126 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre II (II 1 3) p 5 ldquocum essent autem homines imitabili docilique

naturardquo Traduccedilatildeo ldquocomo fossem os homens propensos por natureza agrave imitaccedilatildeo e agrave aprendizagemrdquo

96

condiccedilatildeo de dignidade e autoridade oferecida pelo acuacutemulo de convenccedilotildees

arquitetocircnicas127

Em campo alheio agrave arte edificatoacuteria mas natildeo sem notaacuteveis pontos de contato

com a tessitura do escrito vitruviano128 a Retoacuterica a Herecircnio fala da imitaccedilatildeo como um

dos meios pelos quais as tarefas do orador podem ser desempenhadas

o orador deve ter invenccedilatildeo disposiccedilatildeo elocuccedilatildeo memoacuteria e pronunciaccedilatildeo [] Tudo

isso poderemos alcanccedilar por trecircs meios arte imitaccedilatildeo e exerciacutecio Arte eacute o preceito que

daacute um caminho certo e regras ao discurso Imitaccedilatildeo eacute aquilo a partir do que somos

impelidos com diligecircncia para que possamos ser semelhantes a outros no dizer

Exerciacutecio eacute o uso assiacuteduo e o costume do dizer129

O orador deve se valer de arte imitaccedilatildeo e exerciacutecio para bem desempenhar as

tarefas proacuteprias a seu ofiacutecio Sendo a arte entendida como o conjunto de preceitos

convencionados130 e o exerciacutecio a frequentaccedilatildeo contiacutenua da atividade resta agrave imitaccedilatildeo

indicar que se busque na semelhanccedila de outrem o impulso Natildeo surpreende que o

orador deva imitar outro orador considerando-se a fala e o pensar como traccedilos

distintivos do homem e as bases para a elaboraccedilatildeo do discurso que aspira ao

127 Distante da descriccedilatildeo dos primoacuterdios da arte edificatoacuteria a exortaccedilatildeo ao Imperator em gecircnero alto no

prefaacutecio ao Livro I deixa ver ao contraacuterio o papel elevado que se reivindica agrave arquitetura ldquoCum uero

adtenderem te non solum de uita communi omnium curam publicaeque rei constitutione habere sed etiam de

opportunitate publicorum aedificiorum ut ciuitas per te non solum prouinciis esset aucta uerum etiam ut maiestas

imperii publicorum aedificiorum egregias haberet auctoritatesrdquo (Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre I - I

pref 2 - p 3) Traduccedilatildeo ldquocomo notei tua preocupaccedilatildeo natildeo soacute com a vida comum a todos e a organizaccedilatildeo

da Repuacuteblica mas ainda com as vantagens advindas das construccedilotildees puacuteblicas de modo que Roma natildeo

fosse por ti ampliada apenas com proviacutencias e sim para que a majestade do poder recebesse a

autoridade das egreacutegias edificaccedilotildees puacuteblicasrdquo Ainda no primeiro prefaacutecio Vitruacutevio afirma ter escrito

praescriptiones terminatas tornando patentes todos os meandros da disciplina com os Dez Volumes

compostos (namque his uoluminibus aperui omnes disciplinae rationes) 128 Cf capiacutetulo 1 ldquoDe Architectura e Retoacutericardquo n 43 129 [Cicero] Retoacuterica a Herecircnio (1 3) p 54 ldquooportet igitur esse in oratore inuentionem dispositionem

elocutionem memoriam pronuntiationem [] Haec omnia tribus rebus adsequi poterimus arte imitatione

exercitatione Ars est praeceptio quae dat certam uiam rationemque dicendi Imitatio est qua inpellimur cum

diligenti ratione ut aliquorum similes in dicendo ualeamus esse Exercitatio est adsiduus usus consuetudoque

dicendirdquo 130 Em Ad Herennium (I 3) arte eacute preceito (ars est praeceptio) e no Prefaacutecio ao Livro I (I pref 3) em

formulaccedilatildeo siacutemile Vitruacutevio promete prescriccedilotildees bem acabadas (conscripsi praescriptiones terminatas)

97

assentimento do auditoacuterio131 No De Architectura entretanto nenhuma das ocorrecircncias

de imitatio aqui listadas se refere a qualquer pessoa mas a elementos da natureza (o

homem as aacutervores os ninhos das andorinhas) ou do artifiacutecio humano (o calccedilado as

dobras do vestido as peccedilas de madeira ndash imitadas pelo triacuteglifo e pelo muacutetulo)

O termo imitatio e seus derivados encontram-se em Pliacutenio o Velho e na

anocircnima Retoacuterica agrave Herecircnio conforme apontado mas tambeacutem em outros autores da

liacutengua latina como Ciacutecero Quintiliano Horaacutecio e Virgiacutelio132 Traduz-se

costumeiramente imitatio por ldquoimitaccedilatildeordquo ou ldquoimitationrdquo nas liacutenguas modernas

portuguecircs e francecircs respectivamente133 Chantraine propotildee igualmente ldquoimitationrdquo

como traduccedilatildeo aos termos gregos μῖμος e μίμησις derivado este do primeiro da

mesma maneira que o verbo μιμέομαι ldquoμῖμος eacute atestado desde Eacutesquilo e μιμέομαι eacute

o verbo denominativo correspondenterdquo134 Sendo imitatio e μίμησις traduzidos

frequentemente por imitaccedilatildeo Chantraine expotildee ainda que o latim tomou μῖμος de

empreacutestimo a mimus135 mas nada diz acerca de imitatio Gaffiot e Torrinha remetem

imitor a imago136 Do mesmo modo Ernout e Meillet em seu ldquoDictionnaire

eacutetymologique de la langue latinerdquo vinculam esses termos pelo radical

131 [Cicero] Retoacuterica a Herecircnio (1 2) p 54 ldquooratoris officium est de iis rebus posse dicere quae res ad usum

ciuilem moribus et legibus consitutae sunt cum adsensione auditorum quoad eius fieri poteritrdquo Traduccedilatildeo ldquoo

ofiacutecio do orador eacute poder discorrer sobre as coisas que o costume e as leis instituiacuteram para o uso civil

mantendo o assentimento dos ouvintes ateacute onde for possiacutevelrdquo (ibid p 55) 132 Palavras desse campo semacircntico satildeo abundantes em Ciacutecero e nas Instituiccedilotildees Oratoacuterias de

Quintiliano mas para ficar em ocorrecircncias do termo imitatio Ciacutecero Filiacutepicas (14 17) De Officiis (3 1)

Quintiliano Inst Or (1 3 1) Menos frequentes Virgiacutelio Eneida (6 585 dum flammas Iouvis et sonitus

imitatur Olympi) Geoacutergicas (livro 4 et uox auditor fractos sonitus imitata tubarum) Horaacutecio Epistulae (1

15 decipit exemplar uitiis imitabile [ ] o imitatores seruom pecus ut mihi saepe) 133 Cf Torrinha ldquoDicionaacuterio latino-portuguecircsrdquo p 396 Gaffiot ldquoDictionnaire Latin Franccedilaisrdquo p 774 134 Chantraine P ldquoDictionnaire eacutetymologique de la langue grecque Histoire des motsrdquo p 703-704 135 Gaffiot reporta que mimus relacionado ao grego μῖμος diz respeito agrave miacutemica agrave pantomima ao ator

de baixo niacutevel agrave farsa teatral (Gaffiot ldquoDictionnaire Latin Franccedilaisrdquo p 977) Torrinha aproxima-se

dessas definiccedilotildees definindo mimus como ldquopantomimo comediante farsanterdquo ou ainda como ldquomimo

farsa (teatral)rdquo (Torrinha ldquoDicionaacuterio latino-portuguecircsrdquo p 520) Vemos que nenhum dos autores

aponta qualquer traccedilo de vinculaccedilatildeo entre mimus e imitatio 136 Gaffiot ldquoDictionnaire Latin Franccedilaisrdquo p 775 e p 773 Torrinha ldquoDicionaacuterio latino-portuguecircsrdquo p 396

e p 395

98

imāgō supotildee talvez um verbo de radical im- de que ele seria derivado como uorāgō eacute

derivado uorō sem duacutevida pelo intermediaacuterio uorāx Desse verbo existe o frequentativo

imitor -āris (e imitō entre os arcaicos) procurar reproduzir a imagem imitar Imitor tem

numerosos derivados imitātor -trīx -tiō tābilis (e inimitābilis Quint = ἀμίμετος) -tāmen

(termo de Oviacutedio) -tāmentum (eacutepoca imper) -tātīus -tātorius (ambos tardios)137

Embora Ernout e Meillet faccedilam uma breviacutessima menccedilatildeo ao grupo de correlatos

de μίμησις pela remissatildeo de inimitābilis agrave ἀμίμετος o grupo de imago eacute associado com

ecircnfase a outras palavras gregas ldquo[imago] corresponde ao gr εἰκών e a φάντασμα

como imitor imāginor agrave εἰκάζω e agrave φαντάζω (todavia o latim emprega tambeacutem

figūra)rdquo138 Ora o que se depreende dessas consideraccedilotildees eacute que as diferenccedilas

semacircnticas denunciariam distacircncias ou ao menos uma natildeo equivalecircncia completa

entre as noccedilotildees de μίμησις e imitatio A presenccedila e a importacircncia de μίμησις em

diversas obras gregas da trageacutedia agrave filosofia suscitou muitos estudos ao passo que

pouco se falou da imitatio tomada aliaacutes frequentemente como mera transposiccedilatildeo da

noccedilatildeo grega Muito provavelmente o conceito latino de imitatio eacute tributaacuterio de algum

modo da μίμησις dos gregos Vale notar contudo que imitor ndash associado ao grego

φάντασμα ndash e derivado de imago ndash que por sua vez remete a εἰκών ndash parece se

distanciar ainda mais da noccedilatildeo de μίμησις talvez pela assimilaccedilatildeo de outros

sentidos139

Do mesmo modo pouco se fala sobre o conceito de imitaccedilatildeo em Vitruacutevio No

estudo dedicado aos paraacutegrafos iniciais do Livro III Pierre Gros sustenta que a

arquitetura eacute uma arte mimeacutetica como a pintura pela relaccedilatildeo estabelecida com a

natureza140 Em seu comentaacuterio ao Livro Terceiro o estudioso afirma acerca de III 1 3

137 Ernout A amp Meillet A ldquoDictionnaire eacutetymologique de la langue latine - histoire des motsrdquo p 552 138 Ibid p 552 139 Em Vitruacutevio (III 1 1) a traduccedilatildeo de ἀναλογία por proportio mostra como a traduccedilatildeo de palavras aqui

do termo grego para o latino pode acarretar enormes variaccedilotildees conceituais cf Gros P in Vitruve ldquoDe

LrsquoArchitecturerdquo Livre III n 3 p 58-59 140 Gros P ldquoLa geacuteomeacutetrie platonicienne de la notice vitruvienne sur lrsquohomme parfait (De Architectura

III 1 2-3)rdquo p 17 ldquoarte mimeacutetica no sentido platocircnico do termo a arquitetura deve como a pintura

reproduzir em seu domiacutenio o que eacute dado pela naturezardquo

99

que o estabelecimento do cacircnone em Vitruacutevio legitima o princiacutepio de commensus pela

relaccedilatildeo com a natureza e ldquoem nome da lsquomimeacutesisrsquo [] toda percepccedilatildeo do processo

evolutivo no domiacutenio artiacutestico eacute resolutamente encobertardquo141 Vale salientar que que

nesse paraacutegrafo (III 1 3) a relaccedilatildeo estabelecida por Vitruacutevio se daacute exclusivamente

entre a natureza e as proporccedilotildees conferidas ao homem (item corporis centrum medium

naturaliter est umbilicus) que serve de referecircncia agrave arquitetura Como nota o proacuteprio

Gros eacute no paraacutegrafo seguinte que Vitruacutevio apresenta a figura dos antiqui como

intermediaacuterios entre a natureza e os artiacutefices mas sem uma cronologia definida dado

seu pertencimento a um sistema etioloacutegico de justificaccedilatildeo142 Para Silvio Ferri a

passagem de III 1 4 que comeccedila com ldquoergo si ita naturardquo143 trata ao mesmo tempo das

convenccedilotildees humanas e das leis naturais

eacute repetido [] o princiacutepio claacutessico da imutabilidade normativa das leis que governam

tanto os gecircneros literaacuterios como aqueles arquitetocircnicos estas leis foram elaboradas

pelos lsquoantiquirsquo e a elas os poacutesteros devem se adaptar Aleacutem do mais acena-se agrave atividade

mimeacutetica do homem e da natureza ndash que orientou a preparaccedilatildeo e a justificaccedilatildeo dessas

leis144

Tanto Gros quanto Ferri sinalizam para miacutemesis em relaccedilatildeo agrave natureza nos

paraacutegrafos iniciais do Livro III Ferri aponta ainda para a ldquoattivitagrave mimetica dallrsquouomordquo

e observar essas leis normatizadas pelos antiqui tal como propotildee Vitruacutevio natildeo seria

mesmo empreender uma sorte de imitatio tal como aquela descrita na Retoacuterica a

Herecircnio O fato eacute que Vitruacutevio natildeo emprega essa terminologia no Livro dos Templos

seja ao homem seja agrave natureza ndash natildeo haacute qualquer ocorrecircncia do grupo de imitatio ao

contraacuterio do que faz na maior parte dos sete primeiros livros dedicados agrave aedificatio145

Na tentativa de identificar a possiacutevel presenccedila do conceito de μίμησις a operar no

141 Gros P in Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III n 2 p 70 ldquoau nom de la lsquomimeacutesisrsquo qui seule peut

justifier lrsquoactiviteacute creacuteatrice de lrsquohomme toute perception des processus eacutevolutifs dans le domaine

artistique est reacutesolument estompeacuteerdquo 142 Ibid n 2 p 70 Cf ainda Romano E ldquoVitruvio fra storia e antiquariardquo 143 Vitruacutevio (III 1 4) Cf n 99 supra 144 Ferri S in Vitruvio ldquoArchitetturardquo n 4 p 168 145 Cf n 92 supra

100

iniacutecio do Livro III ainda que natildeo nomeadamente valeria apontar alguns aspectos

dessa noccedilatildeo complexa presente em diversos escritos antigos

Estudando a famiacutelia de μιμέομαι no quinto seacuteculo aC Veloso procura retraccedilar

empregos do verbo μιμεῖσθαι derivado de μῖμος e acaba concluindo pela dificuldade

intransponiacutevel ao esforccedilo de acompanhar o desenvolvimento desse grupo de termos146

De todo modo o seu estudo permite algumas elucidaccedilotildees acerca de primitivos usos

da noccedilatildeo147 mas principalmente mostra seu alcance mais amplo148 Segundo Veloso

[] por volta do tempo de Aristoacuteteles o verbo μιμέομαι significa lsquofazer a mesma coisa

quersquo [] Todavia existem por assim dizer trecircs modos de fazer a mesma coisa lsquoparecer

fazer o mesmorsquo lsquotentar fazer o mesmorsquo e lsquofazer (efetivamente) o mesmorsquo Simulaccedilatildeo

emulaccedilatildeo e identidade definem o campo semacircntico da famiacutelia de μιμέομαι149

O estudioso reconhece entretanto a presenccedila simultacircnea desses aspectos na

imitaccedilatildeo

de todo modo muitas vezes natildeo eacute faacutecil estabelecer em qual acepccedilatildeo a famiacutelia de

μιμέομαι estaacute empregada por Aristoacuteteles ou por qualquer outro autor dos seacuteculos V e

IV a C Talvez os trecircs sentidos estejam todos de algum modo sempre presentes Natildeo

146 Veloso C W Apecircndice in ldquoAristoacuteteles mimeacuteticordquo p 733-823 147 Ibid p 822-823 ldquose o verbo μιμέομαι significa lsquocomportar-se como ndash ou imitar ndash um ator de mimosrsquo

ele eacute de per si ambivalente Se a atividade dos mimos eacute imitaccedilatildeo quem imita tal atividade imitaraacute

segundo o mesmo sentido em que se diz que os mimos imitam Natildeo creio imitar os mimos eacute antes

fazer ou buscar fazer o mesmo que os mimos fazem enquanto os mimos propriamente simulam Se eu

dissesse que algueacutem que imita as accedilotildees de outrem macaqueia isto eacute imita o macaco eu poderia

entender lsquoimitarrsquo segundo acepccedilotildees diferentes quem macaqueia imita o macaqueado no sentido de

lsquoemularrsquo enquanto subentendo que imita os macacos no sentido de lsquosimularrsquo Assim buscar-se-ia

simular no sentido em que se busca fazer o mesmo que os macacos fazem ndash de fato fazemos o mesmo

que eles ou os emulamos em sua simulaccedilatildeo Isso poderia explicar de algum modo a duplicidade de

sentido que a famiacutelia de μιμέομαι apresenta desde a primeira metade do V seacuteculordquo 148 Veloso C W ldquoAristoacuteteles mimeacuteticordquo p 66 ldquoa imitaccedilatildeo com efeito natildeo eacute nem produccedilatildeo nem accedilatildeo

mas algo de necessaacuterio para a atividade intelectiva pelo menos para a humana e eventualmente para

algum anaacutelogo em outros animaisrdquo 149 Ibid p 173-174 E completa afirmando que a identidade ldquoeacute um caso-limite na medida em que quem

faz a mesma coisa que outrem viria a ser idecircntico a esse outrem e outrem natildeo seria pelo menos nissordquo

(ibid p 174) A natildeo coincidecircncia entre imitante e imitado seria condiccedilatildeo da imitaccedilatildeo natildeo obstante a

tentativa de ldquofazer o mesmo querdquo (ibid p 174)

101

se trata de trecircs acepccedilotildees avulsas Simulaccedilatildeo emulaccedilatildeo e identidade satildeo antes os

elementos constitutivos de toda imitaccedilatildeo150

Lecirc-se na Poeacutetica de Aristoacuteteles que ldquoo imitar eacute congecircnito no homemrdquo151 este o

mais imitador dentre os viventes que aprende as primeiras noccedilotildees por imitaccedilatildeo e se

compraz no imitado152 Para o estagirita aprender natildeo apraz apenas aos filoacutesofos mas

a todos os homens ainda que a maioria participe menos dele153 E eacute por isso que as

imagens deleitam e se contempla com prazer as imagens daquilo que por si mesmo

causa repugnacircncia como os animais ferozes e os cadaacuteveres A imitaccedilatildeo na Poeacutetica diz

respeito natildeo apenas agrave poesia mas agrave epopeacuteia agrave trageacutedia agrave poesia ditiracircmbica e agrave

ldquomaior parte da auleacutetica e da citariacutesticardquo154 aleacutem de referir aos que se exprimem com

cores e figuras Assim as artes elencadas por Aristoacuteteles

imitam com o ritmo a linguagem e a harmonia usando estes elementos separada ou

conjuntamente Por exemplo soacute de harmonia e ritmo usam a auleacutetica e a citariacutestica e

quaisquer outras artes congecircneres como a siriacutengica com o ritmo e sem harmonia imita

a arte dos danccedilarinos porque tambeacutem estes por ritmos gesticulados imitam caracteres

afetos e accedilotildees155

150 Veloso C W ldquoAristoacuteteles mimeacuteticordquo p 188 151 Aristoacuteteles ldquoPoeacuteticardquo (1448b 4) p 445 152 Aristotle ldquoAristotles Ars Poeticardquo ed R Kassel (1448b) Oxford Clarendon Press 1966 Em grego

ldquoἐοίκασι δὲ γεννῆσαι μὲν ὅλως τὴν ποιητικὴν αἰτίαι [5] δύο τινὲς καὶ αὗται φυσικαί τό τε γὰρ

μιμεῖσθαι σύμφυτον τοῖς ἀνθρώποις ἐκ παίδων ἐστὶ καὶ τούτῳ διαφέρουσι τῶν ἄλλων ζῴων ὅτι

μιμητικώτατόν ἐστι καὶ τὰς μαθήσεις ποιεῖται διὰ μιμήσεως τὰς πρώτας καὶ τὸ χαίρειν τοῖς

μιμήμασι πάνταςrdquo 153 Aristoacuteteles ldquoPoeacuteticardquo (1448b 9) p 445 A abertura da Metafiacutesica jaacute explicitava que ldquotodos os homens

tecircm por natureza desejo de conhecerrdquo Em grego ldquoπάντες ἄνθρωποι τοῦ εἰδέναι ὀρέγονται φύσειrdquo

(Aristotle ldquoAristotles Metaphysicsrdquo Ed WD Ross Oxford Clarendon Press 1924) 154 Ibid (1447a 13) p 443 155 Ibid (1447a 17) p 443 Em grego ldquoμὲν ποιοῦνται τὴν μίμησιν ἐν ῥυθμῷ καὶ λόγῳ καὶ ἁρμονίᾳ

τούτοις δ᾽ ἢ χωρὶς ἢ μεμιγμένοις οἷον ἁρμονίᾳ μὲν καὶ ῥυθμῷ χρώμεναι μόνον ἥ τε αὐλητικὴ καὶ

ἡ κιθαριστικὴ κἂν εἴ τινες [25] ἕτεραι τυγχάνωσιν οὖσαι τοιαῦται τὴν δύναμιν οἷον ἡ τῶν

συρίγγων αὐτῷ δὲ τῷ ῥυθμῷ [μιμοῦνται] χωρὶς ἁρμονίας ἡ τῶν ὀρχηστῶν (καὶ γὰρ οὗτοι διὰ τῶν

σχηματιζομένων ῥυθμῶν μιμοῦνται καὶ ἤθη καὶ πάθη καὶ πράξεις)rdquo (Aristotle ldquoAristotles Ars

Poeticardquo)

102

Vemos que segundo a Poeacutetica ldquoos imitadores imitam homens que praticam

alguma accedilatildeordquo156 por conseguinte eacute de acordo com a variedade dos caracteres que os

pintores retratam (εἴκαζεν) homens superiores como fazia Polignoto homens

inferiores como fazia Pauson homens semelhantes a noacutes como fazia Dioniacutesio157

Segundo Aristoacuteteles as demais artes mencionadas danccedila auleacutetica e citariacutestica podem

conter essas diferenccedilas assim como os discursos e os versos Homero imitou homens

superiores Cleofatildeo semelhantes Hegecircmon de Taso e Nicoacutecares inferiores158 Enfim

a imitaccedilatildeo na Poeacutetica se refere a diferentes artes e deve estar de acordo com o que

pode exprimir ldquoo poeta eacute imitador como o pintor ou qualquer outro imaginaacuterio por

isso sua imitaccedilatildeo incidiraacute num destes trecircs objetos coisas quais eram ou quais satildeo

quais os outros dizem que satildeo ou quais parecem ou quais deveriam serrdquo159

No Livro VII Vitruacutevio fala em certae rationes picturarum ou normas certas de

pintura constituiacutedas pelos antigos (antiqui) para os aposentos de primavera outono

veratildeo ou ainda aacutetrios e peristilos

pois a imagem pictoacuterica (pictura imago) se faz daquilo que eacute ou que pode ser de modo

que homens edifiacutecios naus e as restantes coisas estabeleccedilam exemplos de similitude

figurada (figurata similitude) pelos corpos definidos e certos A partir daiacute os antigos

que instituiacuteram os princiacutepios dos acabamentos imitaram primeiro as variedades e

disposiccedilotildees dos maacutermores de revestimento entatildeo as vaacuterias distribuiccedilotildees das cornijas

das molduras e das bandas separadoras (cuneorum) entre si160

156 Aristoacuteteles ldquoPoeacuteticardquo (1448a 7) p 444 Em grego ldquoἐπεὶ δὲ μιμοῦνται οἱ μιμούμενοι πράττονταςrdquo

(Aristotle ldquoAristotles Ars Poeticardquo) 157 Aristoacuteteles ldquoPoeacuteticardquo (1448a 7) p 444 Em grego ldquoἤτοι βελτίονας ἢ καθ᾽ ἡμᾶς ἢ χείρονας [5] ἢ

καὶ τοιούτους ὥσπερ οἱ γραφεῖς Πολύγνωτος μὲν γὰρ κρείττους Παύσων δὲ χείρους Διονύσιος

δὲ ὁμοίους εἴκαζενrdquo (Aristotle ldquoAristotles Ars Poeticardquo) 158 Aristoacuteteles ldquoPoeacuteticardquo (1448a 9) p 444 Em grego ldquoὍμηρος μὲν βελτίους Κλεοφῶν δὲ ὁμοίους

Ἡγήμων δὲ ὁ Θάσιος ltὁgt τὰς παρῳδίας ποιήσας πρῶτος καὶ Νικοχάρης ὁ τὴν Δειλιάδα χείρουςrdquo

(Aristotle ldquoAristotles Ars Poeticardquo) 159 Aristoacuteteles ldquoPoeacuteticardquo (1460b 8) p 468 Em grego ldquoἐπεὶ γάρ ἐστι μιμητὴς ὁ ποιητὴς ὡσπερανεὶ

ζωγράφος ἤ τις ἄλλος εἰκονοποιός ἀνάγκη μιμεῖσθαι τριῶν ὄντων τὸν [10] ἀριθμὸν ἕν τι ἀεί ἢ γὰρ

οἷα ἦν ἢ ἔστιν ἢ οἷά φασιν καὶ δοκεῖ ἢ οἷα εἶναι δεῖrdquo (Aristotle ldquoAristotles Ars Poeticardquo) 160 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre VII (VII 5 1) p 22-23 ldquonamque pictura imago fit eius quod est seu

potest esse uti homines aedificia naues reliquarumque rerum e quibus finitis certisque corporibus figurata

similitudine sumuntur exempla Ex eo antiqui qui initia expolitionibus insituerunt imitati sunt primum

103

Essa breve passagem reuacutene uma seacuterie de noccedilotildees caras ao De Architectura e

auxilia a elucidar seus empregos na concatenaccedilatildeo do escrito Novamente nos

deparamos com a evocaccedilatildeo dos antiqui dessa feita como garantes das normas de

pintura a serem instaladas nos aposentos da edificaccedilatildeo Natildeo satildeo quaisquer normas

mas um conjunto de regras precisas que se propotildeem a apresentar as coisas definidas

e certas como satildeo (quibus finitis certisque) A imagem pictoacuterica (pictura imago) se vale

dos exemplos (exempla) das coisas existentes e procura na semelhanccedila (similitudine) dos

corpos os criteacuterios para a figuraccedilatildeo Os antigos primeiramente imitaram (imitati sunt)

diz Vitruacutevio as variedades e disposiccedilotildees dos revestimentos marmoacutereos

Posteriormente ldquopassaram a imitar as figuras dos edifiacutecios as saliecircncias proeminentes

das colunas e dos frontotildeesrdquo161 Foram pintados ldquoportos promontoacuterios litorais rios

fontes canais santuaacuterios bosques montes rebanhos pastoresrdquo162 e tambeacutem

simulacros dos deuses em grandes dimensotildees as guerras Troianas as erracircncias de

Ulisses por paisagens aleacutem de ldquooutras coisas que de modo semelhante a essas satildeo

produzidas pela natureza das coisasrdquo163 Interessa aqui sobretudo sublinhar a sentenccedila

final que direciona todos os temas pictoacutericos agrave semelhanccedila da natureza (ceteraque quae

sunt eorum similibus rationibus ab rerum natura procreata)

crustarum marmorearum uarietates et collocationes deinde coronarum siliculorum cuneorum inter se uarias

distributionesrdquoTomamos de empreacutestimo da traduccedilatildeo de Maciel a soluccedilatildeo ldquobandas separadorasrdquo para

verter ldquocuneorumrdquo genitivo plural de cuneus Vale ainda apontar a concordacircncia dessa passagem de

Vitruacutevio com as recomendaccedilotildees que Aristoacuteteles faz na Poeacutetica acerca do verossiacutemil cf Aristoacuteteles

ldquoPoeacuteticardquo 1454a 28 p 456 161 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre VII (VII 5 2) p 23 ldquopostea ingressi sunt ut etiam aedificiorum

figuras columnarum et fastigiorum eminentes proiecturas imitarenturrdquo Sobre as questotildees pictoacutericas

envolvidas nessas passagens cf Ferri S in Vitruvio ldquoArchitetturardquo n 1-2 p 378-383 162 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre VII (VII 5 2) p 23 163 O trecho todo em latim ldquopinguntur enim portus promuntoria litora flumina fontes euripi fana luci

montes pecora pastores nonnullis locis item signorum megalographiae habentes deorum simulacra seu

fabularum dispositas explicationes non minus Troianas pugnas seu Vlixis errationes per topia ceteraque quae

sunt eorum similibus rationibus ab rerum natura procreatardquo (Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre VII -VII 5

2 - p 23) Traduccedilatildeo ldquopintaram pois portos promontoacuterios litorais rios fontes canais santuaacuterios

bosques montes rebanhos pastores tambeacutem em alguns locais estaacutetuas em grandes dimensotildees

expondo simulacros dos deuses ou de mitos igualmente as guerras Troianas as erracircncias de Ulisses

por lugares aleacutem de outras coisas que de modo semelhante a essas satildeo produzidas pela natureza das

coisasrdquo

104

Esses trechos alinham imitaccedilatildeo agrave similitude da natureza na produccedilatildeo das

imagens pictoacutericas (pictura imago) As coisas existentes e as possiacuteveis (quod est seu potest

esse) constituem os exemplos a serem imitados nas figuras que seratildeo produzidas A

partir de estudo sobre o Livro VII Marie-Theacuteregravese Cam afirma que ldquoa regra em torno

da qual ele [Vitruacutevio] insiste em 51 sem a nomear eacute aquela da mimesisrdquo164 e retoma a

questatildeo ampliando-a no comentaacuterio ao trecho

o princiacutepio em nome do qual se opera a distinccedilatildeo entre boa e maacute pintura aos olhos de

Vitruacutevio eacute aquele da μίμησις numerosos termos lembram-no em todo o capiacutetulo imago

e imitari similis e similitudo exemplum (equivalente do grego ὁμοίωμα J J Pollitt 1974

p366-367)165

Cotejados aos paraacutegrafos iniciais do Livro III em torno da descriccedilatildeo do homo

bene figuratus essas passagens do Livro VII fazem saltar agrave vista pontos de contato e

distanciamento entre as partes do De Architectura Os comentaacuterios sobre ambos os

volumes III e VII indicam a presenccedila do princiacutepio da μίμησις No Seacutetimo Volume

Vitruacutevio explicita que os antigos primeiro ldquoimitaramrdquo (imitati sunt) os maacutermores

posteriormente ldquoimitaramrdquo (imitarentur) as figuras de edificaccedilotildees bem como as

saliecircncias proeminentes das colunas e dos frontotildees Se nesses dois casos haacute μίμησις

porque Vitruacutevio natildeo teria evidenciado esse princiacutepio naquele que constitui um dos

momentos mais centrais dentre os volumes dedicados agrave aedificatio qual seja o Livro

III De fato Vitruacutevio emprega um termo correlato similiter Entre as proporccedilotildees do

corpo do homem e as razotildees meacutetricas buscadas ao edifiacutecio sagrado haacute uma relaccedilatildeo de

semelhanccedila indicada pelo adveacuterbio similiter mas tambeacutem pela partiacutecula ldquoutirdquo e a

expressatildeo ldquocum causardquo conectando natura e antiqui166 Se em ambos Livros III e VII

tem-se em vista a figura a ser produzida ldquouniversam figurae speciemrdquo (em III 1 4) e

ldquofigurata similitudinerdquo (em VII 5 1) respectivamente resta uma diferenccedila fundamental

entre os enunciados o Seacutetimo Volume trata de pictura imago E da imagem pintada

164 Cam M-T ldquoIntroductionrdquo in Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre VII p XXXV 165 Cam M-T in Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre VII n 3 p 127 166 Cf n 98 e n 99 supra

105

que imita (antiqui imitati sunt imitarentur) as coisas existentes para o homem bem

configurado que serve de modelo proporcional agrave toda a arte edificatoacuteria haacute uma

distacircncia consideraacutevel O homem bem configurado natildeo pode ser imitado sem mais

pelo arquiteto do mesmo modo que as obras de Lisipo teriam imitado a natureza pois

apenas o estatuaacuterio intenta plasmar homens em bronze como os que satildeo vistos

Em determinado momento do De Oratore de Ciacutecero Ceacutevola sugere ldquoporque natildeo

imitamos Crasso o Soacutecrates que estaacute no Fedro de Platatildeordquo167 Crasso responde ldquosim

mas faccedilamos com mais comodidade ainda que pedira almofadas e que todos

acomodaram-se sobre os assentos que estavam sob o plaacutetanordquo168 A imitaccedilatildeo de um

gesto retratada pelo arpinate ndash o de se sentar sob o Plaacutetano ndash comporta um acreacutescimo

ndash o uso de almofadas ndash sem que se cancele a imitaccedilatildeo Imitar um gesto nesse caso natildeo

implica necessariamente que haja uma relaccedilatildeo estreitamente fidedigna169 Sem querer

adentrar nas implicaccedilotildees dessa imagem quiccedila alegoacuterica do grupo que se assenta sob

o plaacutetano agrave construccedilatildeo do diaacutelogo vale notar por mais esse emprego do verbo imitor

que uma das dificuldades impostas pelo conceito de imitaccedilatildeo eacute a sobreposiccedilatildeo de

sentidos que frequentemente o acompanham ora exprimindo uma simples miacutemica

ora significando a imitaccedilatildeo de caracteres ou ainda como a replicaccedilatildeo proacutepria agraves artes

que forjam imagens170 No excerto ciceroniano eacute possiacutevel identificar tanto a miacutemica do

gesto de se sentar sob o plaacutetano quanto a imitaccedilatildeo do exemplo de uma escola

filosoacutefica

De volta ao De Architectura a semelhanccedila entre as proporccedilotildees do corpo do

homem e as comensurabilidades do edifiacutecio sagrado se aproximam do princiacutepio de

167 Scatolin A ldquoA invenccedilatildeo no Do Orador de Ciacutecero um estudo agrave luz de Ad Familiares I 9 23rdquo (I 28) p

152 Em latim ldquocur non imitamur Crasse Socratem illum qui est in Phaedro Platonisrdquo (Cicero ldquoDe Oratorerdquo

p 20) 168 Scatolin A ldquoA invenccedilatildeo no Do Orador de Ciacutecero um estudo agrave luz de Ad Familiares I 9 23rdquo (I 29) p

152 Em latim ldquoimmo uero commodius etiam puluinosque poposcisse et omnes in eis sedibus quae erant sub

platano consedisse dicebatrdquo (Cicero ldquoDe Oratorerdquo p 22) 169 Cf De Angeli ldquoMimesis e Technerdquo p 30 170 Cf Pollitt J J ldquoThe ancient view of greek artrdquo p 39 40

106

imitaccedilatildeo (μίμησις) Todavia o termo imitatio no escrito vitruviano parece empregado

em situaccedilotildees bastante especiacuteficas com frequecircncia vinculadas mais diretamente agrave

produccedilatildeo que resulta de algum modo em imago como atesta aliaacutes a etimologia da

famiacutelia de imitor aleacutem da descriccedilatildeo da pintura no Livro VII Imitatio nos Dez Volumes

diz respeito recorrentemente a partes ou elementos da construccedilatildeo Emular os antiqui

natildeo coincide exatamente com a imitaccedilatildeo que produz algo (uma pintura um triacuteglifo)

tampouco o homo bene figuratus eacute imitado no sentido em que um estatuaacuterio imita o

homem ou que o pintor imita as coisas que satildeo ou que podem ser Sua inserccedilatildeo no

ciacuterculo e no quadrado expotildee o interesse pelas qualidades abstratas de um modelo

geral por conseguinte desprovido de espessura e de conformidade agrave anatomia dos

homens de carne e osso

Ainda que a transferecircncia das proporccedilotildees do corpo viril agrave coluna doacuterica tenha

lhe assegurado firmeza e venustidade a transferecircncia da delicadeza da mulher agrave

coluna jocircnica tenha conferido a ela um aspecto elevado e a imitaccedilatildeo da delicadeza

virginal tenha revestido a coluna corintiacutea dos ornatos mais venustos171 vecirc-se que eacute de

outra ordem a mensagem transmitida com o homem vitruviano A imitaccedilatildeo dos

homens como satildeo vistos no sentido de suas determinaccedilotildees acidentais ndash como as

caracteriacutesticas anatocircmicas que diferenciam cada indiviacuteduo ndash ou ornamentais ndash

calccedilados cachos de cabelo dobras das vestes ndash natildeo tecircm lugar na notiacutecia do homem

bem configurado pela natureza Pois ali importa a inteligibilidade de suas razotildees

meacutetricas como garantia do aspecto da construccedilatildeo A semelhanccedila172 entre o corpo do

homem e a arquitetura eacute como a semelhanccedila que concatena astrologis e musicis naqueles

debates compartilhados (similiter cum astrologis et musicis est disputatio comuni) acerca

171 Relativamente aos caracteres Aristoacuteteles escreve na Poeacutetica que a ldquosegunda qualidade do caraacuteter eacute a

conveniecircncia haacute um caraacuteter de virilidade mas natildeo conveacutem agrave mulher ser viril ou terriacutevelrdquo (Aristoacuteteles

ldquoPoeacuteticardquo 1454a 21 p 456) Em grego ldquoδεύτερον δὲ τὸ ἁρμόττοντα ἔστιν γὰρ ἀνδρείαν μὲν τὸ ἦθος

ἀλλ᾽ οὐχ ἁρμόττον γυναικὶ οὕτως ἀνδρείαν ἢ δεινὴν εἶναιrdquo (Aristotle ldquoAristotles Ars Poeticardquo) 172 Vitruacutevio relacionava a descriccedilatildeo das proporccedilotildees do corpo do homem bem configurado aos edifiacutecios

sagrados pelo adveacuterbio similiter O terceiro ponto a ser observado relativamente aos caracteres segundo

a Poeacutetica eacute a semelhanccedila (ὅμοιον) cf Aristoacuteteles ldquoPoeacuteticardquo 1454a 23 p 456 Em grego ldquoτρίτον δὲ τὸ

ὅμοιονrdquo (Aristotle ldquoAristotles Ars Poeticardquo)

107

da harmonia das estrelas e dos acordes musicais (sympathia stellarum et

symphoniarum)173 Agrave semelhanccedila do corpo do homem podem ser constituiacutedas e

justificadas as comensurabilidades entre cada membro e a configuraccedilatildeo da totalidade

da obra

173 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre I (I 1 16) p 12 ldquosimiliter cum astrologis et musicis est disputatio

communis de symphatia stellarum et symphoniarum in quadratis et trigonis diatessaron et diapenterdquo Traduccedilatildeo

ldquode modo semelhante astroacutelogos e muacutesicos tecircm em comum a discussatildeo acerca da harmonia das estrelas

e dos acordes musicais em quadrados e em triacircngulos em quartas e em quintasrdquo

108

Figura 2 homo bene figuratus inserido no ciacuterculo e no quadrado segundo interpretaccedilatildeo

de Cesare Cesariano em ediccedilatildeo do De Architectura de 1521 Fonte Wittkower R ldquoArchitectural Principles in the age of Humanismrdquo p 24

Capiacutetulo 3

PRECEITOS PARA O ENCANTO

110

3 PRECEITOS PARA O ENCANTO

Os princiacutepios (principia) definidores dos templos tal como exposto no Livro

Terceiro baseiam-se no aspecto de sua configuraccedilatildeo (figurarum aspectus)1 Assim os

edifiacutecios sagrados se distinguem segundo o De Architectura por possuiacuterem pilastras

que prolongam as paredes laterais (in antis) colunata na parte frontal (prostylos)

colunata na parte frontal e na anterior simultaneamente (amphiprostylos) colunata ao

redor de todos os lados (peripteros) dupla colunata ao redor de todos os lados (dipteros)

espaccedilamento de dupla colunata subtraiacutedas as colunas internas (pseudodipteros)

abertura central sem telhado (hypaethros) Mas aleacutem das conformaccedilotildees (formationes) que

determinam os diversos templos estes ainda se dividem pelos intervalos existentes

entre suas colunas em cinco espeacutecies picnostilo sistilo diastilo areostilo eustilo

Vemos que os criteacuterios de diferenciaccedilatildeo em ambos os modos empregados para

categorizar os templos sustentam-se sobre a apreensatildeo de seu aspecto exterior2 Essas

designaccedilotildees articulam desde o iniacutecio efeitos sensoriais a esquemas proporcionais de

1 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III (III 2 1) p 11 ldquoaedium autem principia sunt e quibus constat

figurarum aspectus ea primum in antis quod graece ναὸς ἐν παραστάσιν dicitur deinde prostylos

amphiprostylos peripteros pseudodipteros ltdipterosgt hypaethros Horum exprimuntur formationes his

rationibusrdquo Traduccedilatildeo ldquoos princiacutepios dos templos a partir dos quais se estabelece o aspecto de sua

configuraccedilatildeo satildeo estes primeiro in antis a que os gregos dizem naoacutes en parastaacutesin entatildeo prostilo

anfiprostilo periacuteptero pseudodiacuteptero ltdiacutepterogt hipetro As conformaccedilotildees deles satildeo expressas por

essas regulaccedilotildeesrdquo 2 Para Pierre Gros o aspecto exterior dos templos ldquoeacute tributaacuterio quase unicamente da peristasis

sobretudo a colunata da fachadardquo (Gros P ldquoAurea Templardquo p 102)

111

modo que no pycnostylos do texto vitruviano eacute possiacutevel entrever o grego πυκνός3

indicando a densidade das colunas mais proacuteximas entre si num conjunto cerrado

(crebris columnis)4 O systylos indica um grupo de colunas menos contraiacutedo (paulo

remissioribus)5 O diastylos eacute ainda mais aberto (amplius patentibus) e o araeostylos tem

colunas mais separadas do que conveacutem (rare quam oportet inter se diductis)6 Finalmente

o eustylos se define por uma justa distribuiccedilatildeo dos intervalos (interuallorum iusta

distributione)7

O sentido classificatoacuterio vinculado inicialmente agraves espeacutecies (species)8 de templos

sucedendo a catalogaccedilatildeo dos princiacutepios dados pelas suas configuraccedilotildees acaba

cedendo lugar a uma acepccedilatildeo propriamente visual do termo species que ocupa a maior

parte das ocorrecircncias nos Dez Volumes Por isso dentre as desvantagens associadas

ao modo areostilo estaacute o fato de apresentar segundo Vitruacutevio uma vista (species)

escancarada aplanada baixa larga9 Por oposiccedilatildeo o ritmo eustilo eacute o mais aprovado

3 Cf Bailly A ldquoAbregeacute du Dictionnaire Grec-Franccedilaisrdquo p 768 Cf Ainda Gros P in Vitruve ldquoDe

LrsquoArchitecturerdquo Livre III n 2 p 99 4 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III (III 3 1) p 14 5 Ibid (III 3 1) p 14 Segundo Gros o termo em questatildeo se constitui pelo prefixo σύν mais στῦλος

natildeo apresentando conexatildeo com o termo grego συστολή (que designa contraccedilatildeo) embora tambeacutem

indique colunas cerradas mas segundo a progressatildeo que se estabelece aos intercoluacutenios das ritmaccedilotildees

apresentadas (Gros P in Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III n 3 p 99) 6 Ibid (III 3 1) p 14 7 Ibid (III 3 1) p 14 8 Pierre Gros entende o termo species de III 1 1 como subordinado ao gecircnero ldquospecies eacute aqui o

equivalente do εἶδος platocircnico ou aristoteacutelico designa as espeacutecies no interior de um gecircnerordquo (Gros P

in Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III n 1 p 98) Haveria ainda uma correspondecircncia entre

principia e genera ldquoisso significa que no interior de cada principium ou genus pode-se em princiacutepio

encontrar as cinco species definidas nesse capiacutetulordquo (ibid n 1 p 98) 9 Vitruacutevio ldquoTratado de Arquiteturardquo Traduccedilatildeo do latim introduccedilatildeo e notas M Justino Maciel Satildeo

Paulo Martins Fontes 2007 (III 3 5) p 179 Em latim ldquoet ipsarum aedium species sunt uaricae

barycephalae humiles lataerdquo (Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III p 16) Eacute de se notar ainda um

antropomorfismo nos dois primeiros adjetivos uaricae podendo designar as pernas afastadas o grego

βαρύς (barys) segundo Chantraine quer dizer ldquopesadordquo e tambeacutem ldquopenoso difiacutecil de suportarrdquo

(Chantraine P ldquoDictionnaire eacutetymologique de la langue grecque Histoire des motsrdquo p 165) a partir

do que barycephalae suscita a imagem de uma cabeccedila pesada κεφαλή (kephaleacute) remetendo agrave cabeccedila ou

extremidade (ibid p 522)

112

quanto agrave vista (ad speciem) propiciada mas entre as qualidades superiores somam-se

ainda aquelas relativas ao uso (ad usum) e agrave firmeza (ad firmitatem)10

Figura 1 Principia dos templos 1- templo in antis 2- templo prostilo 3- templo

anfiprostilo Fonte Gros P in Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III p 79

10 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III (III 3 6) p 16 ldquoreddenda nunc est eustyli ratio quae maxime

probabilis et ad usum et ad speciem et ad firmitatem rationes habet explicatasrdquo Traduccedilatildeo ldquodeve ser reportado

agora o modo eustilo que possui regulaccedilotildees desenvolvidas sendo maximamente aprovado quanto ao

uso ao aspecto e agrave firmezardquo

113

Figura 2 Principia dos templos 4- templo periacuteptero 5- templo

periacuteptero sem posticum 6 - templo pseudodiacuteptero 7- templo diacuteptero Fonte Gros P in Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III p 80

114

Figura 3 Species de templos A- ritmo picnostilo B- ritmo sistilo

C- ritmo diastilo Fonte Gros P in Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III p 100

115

Figura 4 Species de templos D- ritmo areostilo E- ritmo eustilo Fonte Gros P in Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III p 101

116

O espaccedilamento preceituado para o intervalo entre as colunas determina a

ritmaccedilatildeo modular das cinco espeacutecies de templos mas soacute posteriormente satildeo

apresentadas as proporccedilotildees das espessuras das colunas em relaccedilatildeo a suas alturas

Desse modo lecirc-se que o picnostilo deve ter um intercoluacutenio de uma vez e meia11 a

espessura da coluna o sistilo deve possuir intercoluacutenio de duas vezes12 a espessura da

coluna o diastilo deve ter intercoluacutenio de trecircs vezes13 a espessura da coluna o eustilo

ritmo mais excelente deve ter intercoluacutenio de duas vezes e um quarto14 a espessura da

coluna quanto ao areostilo Vitruacutevio natildeo apresenta prescriccedilatildeo ao intercoluacutenio15 Essa

primeira exposiccedilatildeo leva a supor a espessura da coluna como moacutedulo que serve de

referecircncia tanto aos intercoluacutenios definidores das cinco espeacutecies de ritmaccedilotildees quanto

agraves respectivas alturas recomendadas16 Em III 3 10 satildeo apresentadas as relaccedilotildees entre

espessuras e alturas das colunas

nos templos areostilos as colunas devem ser feitas de modo que suas espessuras tenham a

oitava parte da altura No diastilo a altura da coluna deve ser medida em oito partes e

meia e uma dessas partes deve ser posta como espessura da coluna No sistilo a altura

deve ser dividida em nove partes e meia das quais uma deve ser dada agrave espessura da

coluna No picnostilo a altura deve ser dividida em dez e delas uma parte faraacute a espessura

da coluna Jaacute a altura das colunas do templo eustilo como do sistilo devem ser divididas

em nove partes e meia e delas uma parte seraacute tomada como a espessura do imoscapo17

11 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III (III 3 2) p 14 12 Ibid (III 3 2) p 14 13 Ibid (III 3 4) p 15 14 Ibid (III 3 6) p 16 15 Devido ao espaccedilamento mais pronunciado Vitruacutevio assinala a impossibilidade de se construir

arquitrave de pedra ou maacutermore nessa ritmaccedilatildeo cf ibid (III 3 5) p 15-16 Isso levaria a inferir para o

areostilo um intercoluacutenio com espaccedilamento superior a trecircs vezes a espessura da coluna que eacute o maior

espaccedilamento proposto anteriormente cf Gros P in Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III n 1 p 117 16 Em III 3 7 Vitruacutevio explicita a correspondecircncia entre espessura da coluna e moacutedulo ldquocuius moduli

unius erit crassitudinis columnarumrdquo (Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III p 17) Traduccedilatildeo ldquocada

moacutedulo seraacute constituiacutedo pela espessura da colunardquo 17 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III (III 3 10) p 18-19 ldquoaedibus araeostylos columnae sic sunt

faciendae uti crassitudines earum sint partis octauae ad altitudines Item in diastylo dimetienda est altitudo

columnae in partes octo et dimidium et unius partis columnae crassitudo conlocetur In systylo altitudo diuidatur

in nouem et dimidiam partem et ex eis una ad crassitudinem columnae detur Item in pycnostylo diuidenda est

altitudo in decem et eius una pars facienda est columnae crassitudo Eustyli autem aedis columnae ut systyli in

nouem partes altitudo diuidatur et dimidiam partem et eius uma pars constituatur in crassitudine imi scapirdquo

117

Altura da coluna da

coluna

(em relaccedilatildeo agrave espessura)

Intercoluacutenio

AREOSTILO 8 -

DIASTILO 8frac12 3

SISTILO 9frac12 2

PICNOSTILO 10 1frac12

EUSTILO 9frac12 2frac14

Tabela 1 Comparaccedilatildeo entre a seacuterie que relaciona as alturas das colunas agraves espessuras (III 3 10)

e as prescriccedilotildees de intercoluacutenios segundo as ritmaccedilotildees dos templos (III 3 2 - III 3 6)

O que se depreende poreacutem nessa prescriccedilatildeo (III 3 10) eacute que a espessura deve

se adaptar agrave altura da coluna invertendo o modo de exposiccedilatildeo da seacuterie anterior que

fazia justamente da espessura da coluna o moacutedulo a partir do qual os espaccedilamentos

dos intercoluacutenios eram obtidos18 Aqui parece admitir-se implicitamente como

constante a altura da coluna o que implicaria na alteraccedilatildeo de sua espessura para

manter a relaccedilatildeo proporcional Vitruacutevio conclui a passagem afirmando ldquoita habebitur

pro rata parte intercolumniorum ratiordquo19 De difiacutecil interpretaccedilatildeo conforme observado por

Gros20 essa frase procura vincular o modo de estabelecimento dos intercoluacutenios

(intercolumniorum ratio) a uma constante (rata parte) ao passo que o excerto todo (III 3

10) fixava a altura da coluna para que se encontrasse seu diacircmetro (a cada espeacutecie de

ritmaccedilatildeo de templo obtinha-se a espessura da coluna a partir de uma parte tomada agrave

sua altura) Daiacute emerge a sugestatildeo de que se interprete a sentenccedila ldquoita habebitur pro rata

parte intercolumniorum ratiordquo como a indicaccedilatildeo da possibilidade de se mudar de

variante ldquoque se parta de um diacircmetro constante ou de uma altura constante o

resultado eacute o mesmo desde que se conheccedila a ratio isto eacute a relaccedilatildeo que liga o valor do

18 Cf Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III (III 3 2 - III 3 6) p 14-16 19 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III - III 3 10 - p 19 Traduccedilatildeo ldquoassim a regulaccedilatildeo dos

intercoluacutenios seraacute estabelecida por uma parte determinada (rata parte)rdquo 20 Gros P in Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III n 6 p 118

118

intercoluacutenio o diacircmetro da coluna e sua alturardquo21 A frase seguinte no texto de Vitruacutevio

(em III 3 11) natildeo contraria essa leitura invertendo mais uma vez a perspectiva em

torno do elemento construtivo a ser ajustado ndash mas dentro do mesmo sistema

relacional ndash ao propor alteraccedilotildees na espessura da coluna caso o intercoluacutenio seja

ampliado ldquocom efeito na mesma medida em que aumentam os espaccedilos entre as

colunas devem ser acrescentadas em proporccedilatildeo as espessuras dos fustesrdquo22

Pierre Gros chama atenccedilatildeo ainda para essa ruptura entre III 3 10 e III 3 11 que

entende na esteira de Silvio Ferri como uma marca da mudanccedila da fonte a que

Vitruacutevio recorreria23 Se em ambos os casos a resultante eacute equivalente do ponto de

vista aritmeacutetico24 o segundo enunciado apontaria no entanto para questotildees da ordem

das correccedilotildees oacuteticas segundo Gros25 De fato o vocabulaacuterio da segunda exposiccedilatildeo

evidencia preocupaccedilotildees visuais e inicia uma seacuterie de prescriccedilotildees de ajustes oacuteticos26

que vatildeo pontuar todo o desenvolvimento do Livro Terceiro A atenccedilatildeo recai portanto

ao modo como as espeacutecies de templo aparecem (appareo) aos olhos de maneira que um

acreacutescimo no intercoluacutenio requer o aumento proporcional da espessura das colunas27

Vitruacutevio propusera ao areostilo uma espessura de coluna possuindo a oitava parte da

altura28 Instrui em seguida que se o mesmo areostilo tiver espessura de coluna com a

21 Gros P in Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III n 6 p 118 22 Vitruacutevio ldquoTratado de Arquiteturardquo (III 3 11) p 182 Em latim ldquoquemadmodum enim crescunt spatia

inter columnas proportionibus adaugendae sunt crassitudines scaporumrdquo (Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo

Livre III p 19) 23 Gros P ldquoAurea Templardquo p 103 24 Eacute possiacutevel obter uma ritmaccedilatildeo equivalente do ponto de vista das relaccedilotildees numeacutericas seja mantendo

a espessura da coluna constante com alteraccedilatildeo do intercoluacutenio e da altura da coluna seja conservando

sua altura constante e alterando as outras variaacuteveis quais sejam intercoluacutenio e espessura 25 Gros P ldquoAurea Templardquo p 103 ldquose aritmeticamente as duas formulaccedilotildees satildeo equivalentes a

segunda se baseia na realidade em um sistema de correccedilotildees oacuteticas extraiacutedo certamente de uma fonte

diferenterdquo 26 Segundo Ferri ldquoportanto de uma outra fonte certamente tambeacutem essa heleniacutestica a qual trata as

correccedilotildees oacuteticas a serem aplicadas aos valores geomeacutetricos do edifiacutecio para que assumam ao aspecto a

sua justa lsquoauctoritasrsquo Vitruacutevio produz toda uma seacuterie de ulteriores adaptaccedilotildees e acomodaccedilotildees que ao

menos potencialmente tenderiam a esvaziar e a anular a natureza do intercoluacutenio mais ou menos

longordquo (Ferri S in Vitruvio ldquoArchitettura ndash dai libri I-VIIrdquo n 11 p 186) 27 Cf n 22 supra 28 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III (III 3 10) p 18

119

nona ou deacutecima parte de sua altura pareceraacute tecircnue e delgado pois devido ao

espaccedilamento largo dessa modalidade de edifiacutecio o ar corroacutei por assim dizer e

diminui a espessura da coluna alterando negativamente seu aspecto (aspectus)29

Vitruacutevio exemplifica ainda com o picnostilo afirmando que se esse modo possuir

espessura de oitava parte da altura devido ao estreitamento dos intercoluacutenios

produziraacute uma vista (species) entumecida e sem encanto (inuenustam) Em outras

palavras alterar a relaccedilatildeo proporcional de uma espeacutecie de templo significa

descaracterizaacute-lo desprovecirc-lo daquilo que o compotildee ndash seu aspectus sua species ndash em

funccedilatildeo do que lhes foram atribuiacutedos os nomes ldquoassim conveacutem perseguir as

comensurabilidades (symmetrias) dos gecircneros de obrasrdquo30 Embora os ritmos de

intercoluacutenios tivessem sido tratados inicialmente por species31 Vitruacutevio bascula a

terminologia e os agrupa como genera referenciais agraves comensurabilidades a serem

buscadas (itaque generis operis oportet persequi symmetrias)

O proacuteximo passo propotildee a primeira adiectio no livro dos templos de acordo com

a qual ldquoas colunas angulares devem ser feitas mais espessas a quinquageacutesima parte de

seu diacircmetrordquo32 Esse ajuste eacute explicado por Vitruacutevio como a intenccedilatildeo de tornar tais

partes mais agradaacuteveis agrave vista do espectador revertendo o efeito causado pelo ar que

parece cortaacute-las ao seu redor Vitruacutevio conclui a proposiccedilatildeo exortando o emprego do

29 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III (III 3 11) p 19 ldquoNamque si in araeostylo nona aut decima pars

crassitudini fuerit tenuis et exilis apparebit ideo quod per latitudinem intercolumniorum aer consumit et

inminuit aspectu scaporum crassitudinemrdquo Traduccedilatildeo ldquopois se no areostilo a espessura for da nona ou da

deacutecima parte apareceraacute tecircnue e atrofiado porque devido agrave largura dos intercoluacutenios o ar consume e

diminui o aspecto da espessura dos fustesrdquo 30 Ibid (III 3 11) p 19 ldquoitaque generis operis oportet persequi symmetriasrdquo 31 Natildeo apenas no sentido visual evocado pelo vocaacutebulo mas possivelmente no sentido classificatoacuterio de

emprego do termo cf n 2 supra 32 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III (III 3 11) p 19 ldquoetiamque angulares columnae crassiores facienda

sunt ex suo diametro quinquagesima parte quod eae ab aere circumciduntur et graciliores uidentur esse

aspicientibusrdquo Traduccedilatildeo ldquoas colunas angulares devem ser feitas mais espessas a quinquageacutesima parte

de seu diacircmetro pois elas satildeo cortadas ao redor pelo ar e pareceratildeo mais delgadas aos espectadoresrdquo

120

raciociacutenio para equilibrar as distorccedilotildees produzidas pelo olho ldquoergo quod oculus fallit

ratiocinatione est exaequandumrdquo33

31 Contratura e Ecircntase

Apoacutes prescrever o aumento das colunas angulares Vitruacutevio trata das

contraturas das colunas De acordo com Pierre Gros a contratura ou diminuiccedilatildeo do

diacircmetro da parte alta da coluna em relaccedilatildeo ao diacircmetro da base natildeo constitui uma

correccedilatildeo oacutetica mas apenas um procedimento usual de sua fabricaccedilatildeo34 Todavia o

arquiteto romano enumera uma seacuterie de indicaccedilotildees proporcionais que relacionam a

diminuiccedilatildeo do diacircmetro de sua base (imoscapo) ateacute a parte alta (sumoscapo) com a

altura total da coluna

quanto agraves contraturas nos cimos dos hipotraqueacutelios35 das colunas entende-se que

devem ser feitas de modo que se a coluna tiver de um miacutenimo ateacute quinze peacutes a

espessura36 inferior deve ser dividida em seis partes e cinco delas devem constituir a

33 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III (III 3 11) p 19 Traduccedilatildeo ldquoportanto o raciociacutenio deve

equilibrar o que engana o olhordquo 34 Cf Gros P in Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III n 2 p 121-122 No Livro V Vitruacutevio iraacute propor

uma analogia entre o estreitamento do tronco da aacutervore agrave medida em que fica mais alta e a arquitetura

que a imita cf capiacutetulo 2 ldquoRazotildees do Corpordquo em especial a seccedilatildeo ldquoΜίμησις Imitatio Similitudordquo 35 Segundo Maciel os hipotraqueacutelios dizem respeito agrave ldquoparte superior dos fustes por vezes decorada

com linhas circulares paralalelas filetes ou aneacuteis vestigiais na pedra das marcas de corte de serra no

protoacutetipo de madeira Eacute consitituinte ainda do fuste como aqui afirma o texto vitruviano O

hipotraqueacutelio termina com um ressalto ou uma moldura saliente a apoacutefigerdquo (Maciel M J in Vitruacutevio

n 67 p 182) 36 O termo empregado por Vitruacutevio eacute ldquocrassitudordquo a que todas as traduccedilotildees consultadas vertem por

ldquodiacircmetrordquo (Maciel ldquodiacircmetrordquo Gros ldquodiamegravetrerdquo Ferri ldquodiametrordquo Granger ldquodiameterrdquo) Embora

saibamos pelo Livro I que a geometria eacute uma disciplina que deve estar presente na formaccedilatildeo do

arquiteto natildeo parece ser o caso aqui de recorrer a um expediente de estabelecimento de medida da

coluna a partir de sua descriccedilatildeo geomeacutetrica A consideraccedilatildeo da crassitudo nesse trecho natildeo implica

necessariamente a preponderacircncia de suas propriedades matemaacuteticas mas da massa corpoacuterea a

espessura que a constitui e que sofre um afilamento agrave medida que se eleva verticalmente (contractura)

Ao que parece a coluna aqui natildeo eacute tomada como ente abstrato mas como corpo denso muito embora

em III 3 11 Vitruacutevio prescreva o espessamento das colunas de acircngulo pela quinquageacutesima parte de seu

ldquodiametrordquo Nesse passo talvez Vitruacutevio queira dizer que em qualquer ponto da coluna de acircngulo em

que se fizesse uma seccedilatildeo horizontal esta deveria se mostrar aumentada da sua quinquageacutesima parte

121

espessura do cume Igualmente a coluna que tiver de quinze a vinte peacutes deve ter o

imoscapo dividido em seis partes e meia das quais cinco e meia faratildeo a espessura

superior da coluna Do mesmo modo as que tiverem de vinte a trinta peacutes devem ter o

imoscapo dividido em sete partes e delas seis perferatildeo a contratura elevada Quanto agrave

coluna de trinta a quarenta peacutes de altura a extremidade inferior deve ser dividida em

sete partes e meia das quais seis e meia teratildeo como razatildeo de contratura no topo As

colunas que tiverem de quarenta a cinquenta peacutes do mesmo modo devem ser divididas

em oito partes que devem ser contraiacutedas a sete no sumoscapo sob o capitel Tambeacutem

se as colunas forem mais altas devem ser constituiacutedas a partir do mesmo modo na

determinaccedilatildeo das contraturas37

Altura da coluna

(em peacutes)

Diacircmetro inferior em

relaccedilatildeo ao diacircmetro

superior

ateacute 15 65

15-20 6555

20-30 76

30-40 7565

40-50 87

Tabela 2 Contraturas prescritas agraves diferentes alturas de colunas

37 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III (III 3 12) p 20 ldquocontracturae autem in summis columnarum

hypotracheliis ita faciendae uidentur uti si columna sit ab minimo ad pedes quinos denos ima crassitudo diuidatur

in partes sex et earum partium quinque summa constituatur Item quae erit ab quindecim pedibus ad pedes uiginti

scapus imus in partes [septem superior crassitudo columnae] sex et semissem diuidatur earumque partium

quinque et semisse superior crassitudo columnae fiat Item quae erunt a pedibus uiginti ad pedes triginta scapus

imus diuidatur in partes septem earumque sex summa contractura perficiatur Quae autem ab triginta pedibus

ad quadraginta alta erit ima diuidatur in partes septem et dimidiam ex his sex et dimidiam in summo habeat

contracturae ratione Quae erunt ab quadraginta pedibus ad quinquaginta item diuidendae sunt in octo partes

et earum septem in summo scapo sub capitulo contrahantur Item si quae altiores erunt eadem ratione pro rata

constituantur contracturaerdquo

122

Se a contratura ela mesma natildeo constitui um ajuste da ordem das adiectio e

retractio a prescriccedilatildeo do montante de variaccedilatildeo da espessura parece sim constituir um

ajuste desse tipo O que eacute indicado na continuidade do texto pelo uso do termo

adiciuntur ldquoesses ajustes (temperaturae) satildeo adicionados (adiciuntur) agraves espessuras

[]rdquo38 Vitruacutevio propotildee uma seacuterie em que a espessura da coluna se reduz menos agrave

medida em que sua altura aumenta Por exemplo uma coluna de ateacute 15 peacutes possui

uma relaccedilatildeo de 65 entre o imoscapo e o sumoscapo enquanto que uma coluna de 40

a 50 peacutes possui a relaccedilatildeo de 87 entre suas espessuras A relaccedilatildeo 87 eacute menor que 65

logo haacute uma reduccedilatildeo menor da espessura em uma coluna maior Como eacute possivel

chamar uma reduccedilatildeo progressiva39 de adiccedilatildeo (adiectio) Justamente por ser progressiva

e variar acrescentando espessura agraves colunas maiores (que sofrem menor reduccedilatildeo)

aleacutem do que ela se aparta do procedimento trivial da contratura constituindo-se

expediente especial que altera as relaccedilotildees de medidas Comparando os ajustes

prescritos agraves respectivas alturas observamos uma diminuiccedilatildeo proporcional da

contratura agrave medida que a coluna fica mais alta Logo esse acreacutescimo relativo do ajuste

proporcional do fuste pode ser entendido como adiectio40

Daiacute tambeacutem o texto vitruviano sustentar que os ajustes proporcionais se

adicionam agraves espessuras ldquopor causa da distacircncia que se eleva em altura dos raios

visuais41 ao olho (oculi species)rdquo42 Pois o aspecto visual eacute o que determina a proporccedilatildeo

obtida pela reduccedilatildeo do diacircmetro da coluna em funccedilatildeo de sua altura afinal como

sustenta Vitruacutevio ldquoa visatildeo persegue as venustidadesrdquo43 E ldquose natildeo somos acariciados

38 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III (III 3 13) p 20-21 ldquohaec autem [] adiciuntur crassitudinibus

temperaturaerdquo 39 As prescriccedilotildees de contratura variam segundo a seacuterie 65 = 120 gt 6555 = 118 gt 76 = 116 gt 7565 =

115 gt 87 = 114 40 Cf Gros P in Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III n 1 p 122 Cf ainda n 33 supra 41 Segundo Bluteau ldquoem phrase Optica Especies se chamaoacute os rayos da luz diversamente reflexos pella

desigualdade da superficie dos corpos amp que na Tunica do olho chamada Retinea fazem humas

impressoens que saoacute causas da visaoacuterdquo (Bluteau R ldquoVocabulario Portuguez e Latinordquo vol III p 262) 42 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III (III 3 13) p 20 ldquopropter altitudinis interuallum scandentis oculi

speciesrdquo Cf ainda Gros P in Vitruve op cit n 2 p 123 acerca de species interpretado como genitivo 43 Ibid (III 3 13) p 21 ldquouenustates enim persequitur uisusrdquo

123

pelo prazer advindo da proporccedilatildeo e das adiccedilotildees modulares de modo que o que falta

seja aumentado por meio de ajustes um aspecto devastado e sem graccedila seraacute remetido

aos observadoresrdquo44 completa Vitruacutevio Vale notar primeiramente tal como aponta

Pierre Gros a consonacircncia da frase ldquouenustates enim persequitur uisusrdquo com a proacutepria

definiccedilatildeo de eurhytmia de I 2 3 ldquoeurhytmia est uenusta speciesrdquo sendo o termo species

entendido nesses contextos como as impressotildees daquilo que se persegue com a visatildeo

(uisus)45 O trecho que segue ndash ldquocuius si non blandimur uoluptati proportione et modulorum

adiectionibusrdquo ndash alinha termos vinculados ao campo da venustidade remetendo

consequumlentemente ao conceito de eurhytmia e ao mesmo tempo a termos do acircmbito da

noccedilatildeo de symmetria46 blandior e uoluptas ndash par que se vincula semanticamente aos

domiacutenios do encanto ligado agrave uenustas proportio e modulus ndash par associado agrave

matemaacutetica modular da symmetria a qual se supotildee embasar toda a aedificatio47 Temos

assim eurhytmia e symmetria vinculados pelo expediente da adiectio um dispositivo de

ajuste meacutetrico da obra arquitetocircnica que ocorre no aumento proporcional do fator que

regula a contratura e mais nitidamente na ecircntase48 ndash o acreacutescimo da espessura no meio

44 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III (III 3 13) p 21 ldquoVenustates enim persequitur uisus cuius si non

blandimur uoluptati proportione et modulorum adiectionibus uti quod fallitur temperatione adaugeatur uastus

et inuestus conspicientibus remittetur aspectusrdquo 45 Cf Gros P in Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III n 3 p 123-124 46 Segundo Gros (ibid n 3 p 123-124) a dupla exigecircncia de symmetria e uenustas estaacute expressa na

descriccedilatildeo da ratio uenustatis de I 3 2 ldquo[ratio] uenustatis uero [erit habita] cum fuerit operis species grata et

elegans membrorumque commensus iustas habeat symmetriarum ratiocinationesrdquo (Vitruve ldquoDe

LrsquoArchitecturerdquo Livre I p 20) Traduccedilatildeo ldquoos princiacutepios relativos agrave venustidade seratildeo obtidos quando

houver uma vista agradaacutevel e elegante da obra e a comensuraccedilatildeo de seus membros tiver justos

raciociacutenios de comensurabilidades (symmetriarum)rdquo 47 A composiccedilatildeo dos templos assenta na symmetria (aedium compositio constat ex symmetria) afirma

Vitruacutevio em III 1 1 Como essa ordem de construccedilotildees eacute exemplar agrave toda sorte de edificaccedilatildeo (cum in

omnibus operibus ordines traderent maxime in aedibus deorum - Vitr III 1 4) conclui-se que a symmetria

tem papel fundamental agrave toda aedificatio 48 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III (III 3 13) p 21 ldquode adiectione quae adicitur in mediis columnis

quae apud Graecos ἔντασις appellatur in extremo libro erit forma ltetgt ratio eius quemadmodum mollis et

conueniens efficiatur subscriptardquo Traduccedilatildeo ldquoda adiectio que promove acreacutescimos na parte meacutedia da

coluna chamada eacutentasis entre os gregos haveraacute desenho e regra ao fim do livro indicando de que modo

eacute feita com suavidade e concordacircnciardquo A ediccedilatildeo francesa do De Architectura estabelecida por Pierre

Gros bem como a italiana de Silvio Ferri trazem mesmo o vocaacutebulo em grego ἔντασις Para Ferri

haveria aiacute um erro ortograacutefico ldquode fato lsquoadiectiorsquo natildeo significa ἔντασις mas προσθήκη πρόσθεσις

ἔνθεσις ἐπιβολή ou siacutemiles nem ἔντασις pode ser traduzido por lsquoadiectiorsquo mas por lsquointentiorsquo

lsquocontentiorsquo e similaresrdquo (Ferri S in Vitruvio ldquoArchitetturardquo n 13 p 193) Embora de todo consolidado

124

da coluna ndash cujo esquema Vitruacutevio promete expor ao fim do livro Tais formae contudo

natildeo nos chegaram

Acerca ainda da ecircntase Gros se vale de uma passagem de Geminos ou Heron49

tomada como referecircncia agrave interpretaccedilatildeo proposta ao tratar da necessidade dessa

adiectio afirmando que ldquoo arquiteto deve realizar uma obra harmoniosa agrave visatildeordquo50 A

questatildeo dos descaminhos desse fragmento a que se recorre frequentemente na

interpretaccedilatildeo de passagens do De Architectura seraacute tratada agrave frente Mas vale por hora

antecipar que os termos empregados para designar essa obra ldquoharmoniosa agrave visatildeordquo

satildeo eurythmon e phantasiacutean 51 Segundo Ferri a passagem de Geminus-Damianos

forneceria uma explicaccedilatildeo para o ajuste ldquoo corpo ciliacutendrico da coluna engastado entre

estiloacutebata e arquitrave apareceria como estreitando-se (στενούμενον) ao centro por

isso se deve recorrer a um remeacutedio e fazer o centro ligeiramente mais grosso

(εὐρύτερον)rdquo52

32 Estiloacutebata

Com relaccedilatildeo agraves bases dos templos o De Architectura prevecirc tambeacutem uma adiectio

aos estiloacutebatas ldquosuperfiacutecies ou pavimentos dos templos onde assentam as colunasrdquo53

segundo Maciel Vitruacutevio escreve que ldquoconveacutem assim equilibrar o estiloacutebata de modo

o termo ecircntase proveacutem para Ferri de um possiacutevel erro de transcriccedilatildeo subvertendo a vogal ldquoerdquo por ldquoardquo

e transformado ldquoenthesisrdquo em ldquoenthasisrdquo O coacutedice S (Selestadiensis 1153 bis) traria ldquoenthasisrdquo em vez

de ldquoentasisrdquo como se lecirc no H atestando a corrupccedilatildeo do termo (ibid p 193) Para Gros a ideia de tensatildeo

contida no termo ἔντασις justificaria seu emprego em Vitruacutevio (Gros P in Vitruve ldquoDe

LrsquoArchitecturerdquo Livre III n 5 p 124) 49 Cf Gros P in Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III n 1 p 122-123 cf infra n 96 50 Ibid n 5 p 124-125 51 ldquoΠρός φαντασίαν εὔρυθμον ποιῆσαι τὸ ἔργονrdquo apud Gros op cit n 5 p 125 52 Ferri S in Vitruvio ldquoArchitetturardquo n 13 p 192 Essa justificaccedilatildeo oacutetico-eurriacutetmica no entanto de

acordo com Ferri valeria apenas para os templos da metade do seacuteculo V em diante natildeo explicando o

emprego desse expediente em obras do seacuteculo VI como a ldquoBasiacutelicardquo de Paestum e a ldquoTavole Paladinerdquo

de Metaponto (ibid n 13 p 192) 53 Vitruacutevio ldquoTratado de Arquiteturardquo n 74 p 185

125

que tenha no meio uma adiectio obtida com os niveladores de altura desigual54

[scamillos inpares] pois se for alinhado em niacutevel pareceraacute cocircncavo ao olhordquo55

Constata-se no excerto em questatildeo novamente um procedimento que interveacutem no

edifiacutecio e tem por fim ou ao menos reivindica como meta a visatildeo da obra na medida

em que procura evitar a impressatildeo de concavidade (alueolatum oculo uidebitur) que o

estiloacutebata nivelado produziria A orientaccedilatildeo de Vitruacutevio eacute de que a base do templo

onde se assentam as colunas deve ser realizada de modo a possuir uma adiectio no

meio compondo uma curvatura no conjunto Segundo o texto esta convexidade

construiacuteda anularia a percepccedilatildeo de concavidade a que tende a visatildeo relativamente a

uma superfiacutecie plana

A expressatildeo scamilli inpares suscitou muita controveacutersia pois tal como no caso

da ecircntase Vitruacutevio promete um desenho ao fim do livro explicando o processo de

obtenccedilatildeo dessa adiectio56 mas o esquema natildeo chegou ateacute noacutes e dezenas de hipoacuteteses

foram elaboradas desde o seacuteculo XVI a ponto da expressatildeo ser considerada por

Claude Perrault ldquoumas das coisas mais difiacuteceis e obscuras em Vitruacuteviordquo57 A hipoacutetese

de Burnouf retomada por Goodyear de que os scamilli inpares seriam instrumentos

desiguais como que marcos ou balizas permitindo a obtenccedilatildeo de uma curva a partir

da horizontal lanccedilou luz ao problema eliminando a possibilidade de que os scamilli

fossem tomados por componentes da proacutepria obra A preposiccedilatildeo ldquoperrdquo que antecede a

expressatildeo indicaria tratar-se de um instrumento aleacutem do valor semacircntico do termo

scamnum (origem do diminutivo scamillus) por vezes designando objetos como

banquetas assentos ou escadinhas conforme observa Pierre Gros58 O estudioso

54 Trata-se de uma soluccedilatildeo encontrada por Maciel (Vitruacutevio ldquoTratado de Arquiteturardquo p 186) para

verter ao portuguecircs a controversa expressatildeo scamillos inpares 55 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III (III 4 5) p 23-24 ldquostylobatam ita oportet exaequari uti habeat per

medium adiectionem per scamillos inpares si enim ad libellam dirigetur alueolatum oculo uidebiturrdquo 56 Ibid (III 4 5) p 24 ldquohoc autem ut scamilli ad id conuenientes fiant item in extremo libro forma et

demonstratio erit descriptardquo Traduccedilatildeo ldquosobre isso a que os niveladores de altura (scamilli) tornam

concordantes igualmente haveraacute ao fim do livro desenho e demonstraccedilatildeo descritardquo 57 Gros P in Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III n 5 p 140 58 Ibid n 5 p 139-145

126

noticia ainda as descobertas de vestiacutegios arqueoloacutegicos por D Mertens apontando para

um procedimento um tanto diferente daquele proposto por Burnouf mas natildeo

incompatiacutevel com a sua orientaccedilatildeo geral59 A questatildeo natildeo estaacute em definitivo encerrada

embora essas interpretaccedilotildees pareccedilam oferecer algum alento face a obscuridade que

envolvia a expressatildeo

Os scamilli tornam a curvatura do estiloacutebata concordante (hoc autem ut scamilli

ad id conuenientes fiant )60 e por consequecircncia agradaacutevel agrave visatildeo voltada ao poacutedio Do

mesmo modo as partes que o compotildeem ndash plinto espira ortostatos cornijas e

emolduramento ndash devem harmonizar-se ao estiloacutebata sob a base das colunas61 Feito

isso escreve Vitruacutevio deve-se dispor as bases das colunas em seus lugares segundo as

symmetriae que prescreve agraves bases (spirae) aacutetica e jocircnica Em seguida recomenda que

as colunas medianas do pronau e da parte posterior do templo sejam dispostas agrave

prumo quanto a seu eixo central (ad perpendiculum medii centri conlocandae) As colunas

angulares e as que seguem seu alinhamento nos lados maiores devem estar no

entanto agrave prumo na ldquofacerdquo voltada agrave cela (uti partes interiores quae ad parietes cellae

spectant ad perpendiculum latus habeant conlocatum) e devem seguir as recomendaccedilotildees

anteriores de contratura (segundo III 3 12) em sua ldquofacerdquo exterior (exteriores autem

partes uti dictum ltantegt de earum contractura)62 Eacute possiacutevel entrever que a sutileza destas

59 Segundo Gros Mertens teria descoberto na base do templo de Segesta incisotildees em cruz cujas hastes

horizontais estariam em niacutevel Elas serviriam de referecircncia a pranchas fixadas com pregos no eixo

determinando a ldquoflechardquo da curvatura cujos pontos seriam marcados por uma corda ou corrente Como

exatamente ocorreriam as transferecircncias das medidas da base nivelada aos pontos da curva fica sem

resposta Se a hipoacutetese de Mertens tem o meacuterito de se basear em vestiacutegios arqueoloacutegicos de um meacutetodo

aparentemente simples deixa contudo sem explicaccedilatildeo a significaccedilatildeo ldquoconcretardquo do termo scamillo (Gros

P in Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III n 5 p 142-144) 60 Cf n 56 supra cf n 48 supra 61 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III (III 4 5) p 23 ldquosin autem circa aedem ex tribus lateribus podium

faciendum erit ad id constituatur uti quadrae spirae trunci coronae lysis ad ipsum stylobatam qui erit sub

columnarum spiris conueniantrdquo Traduccedilatildeo ldquomas se em trecircs lados ao redor do templo fizer-se poacutedio ele

deve ser constituiacutedo de maneira que os plintos as espiras [molduras de base] os blocos de cantaria as

cornijas e o emolduramento concordem com o proacuteprio estiloacutebata que estaraacute sob as bases (spiris) das

colunasrdquo 62 Ibid (III 5 4) p 25 ldquospiris perfectis et conlocatis columnae sunt medianae in pronao et postico ad

perpendiculum medii centri conlocandae angulares autem quaeque e regione earum futurae sunt in lateribus

aedis dextra ac sinistra uti partes interiores quae ad parietes cellae spectant ad perpendiculum latus habeant

127

prescriccedilotildees requerem agrave obra uma complexa elaboraccedilatildeo A curvatura do estiloacutebata por

si soacute jaacute impunha dificuldades teacutecnicas nem um pouco negligenciaacuteveis agrave construccedilatildeo de

todas as partes superiores do templo A implantaccedilatildeo das colunas de sua parte

variando conforme a posiccedilatildeo acrescenta ainda mais desafios agrave arte de construir com

primor

33 Arquitrave

Vitruacutevio deteacutem-se agraves prescriccedilotildees para as arquitraves a que chama no Livro

Terceiro epistylia63 Em outras partes do De Architectura o termo latino designa a noccedilatildeo

geral que abarca ainda o entablamento aproximando-se do valor etimoloacutegico do

vocaacutebulo que remete a tudo o que estaacute sobre a coluna conforme aponta Pierre Gros64

A passagem do texto que apresenta as prescriccedilotildees para as arquitraves (III 5 8)

conta com acreacutescimos e supressotildees de termos em seu estabelecimento pelos editores

de modo que as versotildees de Silvio Ferri65 e Pierre Gros66 sempre indicando as alteraccedilotildees

propostas acrescentam ambas ldquoin scapisrdquo e suprimem ldquosymmetria epistyliorumrdquo A

ediccedilatildeo de Antonio Corso e Elisa Romano por sua vez natildeo opera qualquer das duas

conlocatum exteriores autem partes uti dictum ltantegt de earum contracturardquo Traduccedilatildeo ldquotendo sido

concluiacutedas e dispostas suas bases (spirae) as colunas medianas do pronau e da face posterior devem ser

dispostas a prumo quanto ao seu eixo central poreacutem as angulares e aquelas que ficaratildeo em sua mesma

direccedilatildeo nas laterais direita e esquerda do templo deveratildeo ser dispostas de modo que as partes interiores

voltadas para as paredes da cela tenham essa lsquofacersquo a prumo enquanto as partes exteriores deveratildeo

apresentar contratura tal como foi exposto anteriormenterdquo Cf Gros P in Vitruve ldquoDe

LrsquoArchitecturerdquo Livre III n 1 e 2 p 154-155 63 Cf Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III (III 5 8) p 28 64 Cf Gros P in Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III n 2 p 176 65 Vitruvio ldquoArchitetturardquo Dai libri I-VII Introduzione di Stefano Maggi testo crititico traduzione e

commento di Silvio Ferri Milano BUR 2002 p 204 66 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III (III 5 8) p 28 ldquocapitulis perfectis deinde ltin scapisgt columnarum

non ad libellam sed ad aequalem modulum conlocatis ut quae adiectio in stylobatis facta fuerit in superioribus

membris respondeat [symmetria epistyliorum] epystiliorum ratio sic est habenda uti []rdquo Traduccedilatildeo

ldquocompletos os caipiteacuteis depois dispostos nas colunas natildeo em niacutevel mas em modulaccedilatildeo equilibrada de

modo que esta adiectio que tinha sido feita no estiloacutebata tenha correspondecircncia nos membros

superiores a regulaccedilatildeo das arquitraves deve ser feita assim []rdquo

128

modificaccedilotildees ao texto vitruviano67 enquanto a ediccedilatildeo inglesa de Granger suprime ldquoin

scapisrdquo e manteacutem ldquosymmetria epistyliorumrdquo68 De todo modo eacute possiacutevel depreender em

todas elas a ideia de transferecircncia da curvatura do estiloacutebata para a arquitrave (quae

adiectio in stylobatis facta fuerit in superioribus membris respondeat) A adiectio aplicada agrave

base deve portanto concordar com uma adiectio proposta aos elementos horizontais

que se apoiam sobre os capiteacuteis das colunas Para Pierre Gros a expressatildeo symmetria

epistyliorum deve ser suprimida uma vez que aleacutem de natildeo se ajustar bem agrave sintaxe do

trecho produziria ambiguidade69 Por sua vez a expressatildeo ldquoad aequalem modulum

conlocatisrdquo de III 5 8 reivindicaria medida e moacutedulo a uma operaccedilatildeo exclusivamente

manual de obtenccedilatildeo da curvatura superior com referecircncia na de base efetuada por

meio dos scamilli inpares70 Desperta inquietaccedilatildeo nos comentadores71 essa suposta

promiscuidade entre a noccedilatildeo de modulus e uma tarefa manual de transferecircncia de

medidas da adiectio do estiloacutebata para a arquitrave Ademais segundo essa

67 Vitruvio ldquoDe Architecturardquo Volume Primo Traduzione e commento de Antonio Corso e Elisa

Romano Torino Giulio Einaudi editore p 258 Aleacutem da ediccedilatildeo de Corso e Romano apenas a de

Fensterbuch recusa a supressatildeo de symmetria epistyliorum ao contraacuterio ainda das de Rose Choisy e

Krohn de acordo com Gros (Gros P In Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III n 3 p 176) 68 Vitruvius ldquoOn Architecturerdquo Vol I p 190 69 Segundo Gros ldquocette locution introduit une ambiguiumlteacute ruineuse puisqursquoelle eacutetablit une confusion

entre deux types de proceacutedures et deux genres de corrections optiques qursquoil est difficile drsquoimputer agrave

Vitruverdquo (Gros P In Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III n 3 p 176) Traduccedilatildeo ldquoessa expressatildeo

introduz uma ambiguidade ruinosa pois estabelece uma confusatildeo entre dois tipos de procedimentos e

dois gecircneros de correccedilotildees oacuteticas o que eacute difiacutecil de imputar a Vitruacuteviordquo No entanto natildeo fica claro nesse

comentaacuterio quais seriam os dois gecircneros de correccedilotildees oacuteticas mencionados Seraacute possiacutevel supor que um

diria respeito agrave adiectio (como aquela obtida no estiloacutebata pelos scamilli inpares) e o outro a alguma

alteraccedilatildeo de symmetria como aquela proposta ao intercoluacutenio central do templo eustilo que deve ter 3

vezes a espessura da coluna em vez de 2frac14 conforme eacute prescrito aos espaccedilamentos dessa ritmaccedilatildeo em

III 3 6 70 Cf n 55 e 56 supra 71 Gros P in Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III n 3 p 176 ldquoon peut certes discuter de la leacutegitimiteacute

du terme modulum comme le fait justement Fensterbusch p 546 n 196 car il ne srsquoagit ni de mesure ni

de modules mais drsquoune courbure obtenue par des moyens empiriquesrdquo Traduccedilatildeo ldquopode-se certamente

discutir a legitimidade do termo modulum como faz justamente Fensterbusch p 546 n 196 pois natildeo se

trata nem de medida nem de moacutedulos mas de uma curvatura obtida por meios empiacutericosrdquo

129

interpretaccedilatildeo a adiectio consistiria apenas em uma correccedilatildeo ou ajuste nas relaccedilotildees e

comesurabilidades (symmetriae) jaacute estabelecidas previamente72

No Livro Primeiro (I 2 2) lecirc-se que a ordinatio ldquoeacute o acordo das medidas dos

membros da obra tomados separadamente e a comparaccedilatildeo das proporccedilotildees no conjunto

global para se obter symmetriardquo73 A ordenaccedilatildeo diz respeito agrave quantidade dita em grego

ποσότης a qual ldquoconsiste em tomar moacutedulos de membros da proacutepria obra bem como

na efetuaccedilatildeo conveniente da totalidade da obra a partir de cada uma das partes dos

seus membrosrdquo74 segundo I 2 2 Ora as palavras ldquoad aequalem modulumrdquo de III 5 8

remetem a noccedilotildees presentes na definiccedilatildeo de ordinatio que assume o moacutedulo no que

concerne agraves quantidades que compotildeem a obra em suas relaccedilotildees de symmetria De fato

natildeo se vecirc em III 5 8 uma exposiccedilatildeo mais pormenorizada das quantidades como em

III 3 7 que atualiza a definiccedilatildeo de ordinatio de I 2 2 descrevendo os

desenvolvimentos do templo eustilo em que o moacutedulo eacute assimilado agrave espessura da

coluna75 Mas isso seria o bastante para identificar uma incoerecircncia nos usos dos

termos modulus e conlocatio na prescriccedilatildeo da adiectio da arquitrave Em III 5 8 o termo

ldquoconlocatisrdquo remete agrave terminologia usada na definiccedilatildeo de dispositio exposta tambeacutem em

I 2 2 como a ldquocolocaccedilatildeo adequada dos elementos e a execuccedilatildeo elegante da composiccedilatildeo

da obra relativamente agrave qualidaderdquo76

A passagem de III 5 8 natildeo poderia referir-se a um procedimento ndash algo distinto

da prescriccedilatildeo de uma adiectio ndash que visa a tomar moacutedulos de porccedilotildees da proacutepria obra

72 O processo de construccedilatildeo da curvatura do estiloacutebata serve de referecircncia agraves arquitraves que natildeo satildeo

niveladas no plano horizontal (non ad libellam) O termo libella havia sido empregado em III 4 5 (si enim

libellam dirigetur) em torno da proposta de correccedilatildeo visual por meio dos scamilli inpares Cf n 55 supra 73 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre I (I 2 2) p 14 ldquoordinatio est modica membrorum operis commoditas

separatim uniuerseque proportionibus ad symmetriam comparatiordquo 74 Ibid (I 2 2) p 15 ldquoQuantitas autem est modulorum ex ipsius operis ltmembrisgt sumptio e singulisque

membrorum partibus uniuersi operis conueniens effectusrdquo 75 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III (III 3 7) p 17 ldquoitem ex his partibus siue tetrastyli siue hexastyli

siue octastyli una pars sumatur eaque erit modulus Cuius moduli unius erit crassitudinis columnarumrdquo

Traduccedilatildeo ldquoigualmente destas partes tomamos uma e ela seraacute o moacutedulo seja do tetrastilo do hexastilo

ou do octastilo Cada moacutedulo desses seraacute equivalente agrave espessura das colunasrdquo 76 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre I (I 2 2) p 15 ldquodispositio autem est rerum apta conlocatio elegansque

compositionibus effectus operis cum qualitaterdquo

130

estabelecendo uma concordacircncia com outras porccedilotildees dessa mesma obra Isto eacute

tomaria moacutedulos do estiloacutebata (cuja adiectio teria sido explicada por esquemas ao fim

do livro) como referecircncia a outras partes da obra tendo em vista a comensurabilidade

do todo Esta leitura implicaria ao menos para essa passagem uma compreensatildeo mais

ampla do termo modulus que natildeo estaria vinculado estritamente a partes definidas da

obra como por exemplo a base da coluna Mas talvez a principal questatildeo a ser feita

aqui eacute se modulus e adiectio satildeo mesmo noccedilotildees antagocircnicas isto eacute se as quantidades

determinadas de moacutedulos que servem agrave ordinatio da obra constituem um expediente

incompatiacutevel com as quantidades acrescentadas pelos ajustes das adiectiones Em

outras palavras o estiloacutebata contendo ajustes natildeo poderia servir de moacutedulo agrave

arquitrave Afinal Vitruacutevio natildeo diz na definiccedilatildeo de symmetria que o acordo

conveniente entre as partes e o todo da obra e de suas partes entre si exclui os ajustes

eurriacutetmicos77 Assim a palavra ldquomodulumrdquo de III 5 8 parece retomar os termos da

definiccedilatildeo de ordinatio prevendo a preparaccedilatildeo das medidas e ldquoconlocatisrdquo parece

remeter agrave definiccedilatildeo de dispositio descrevendo as tarefas elementares do arquiteto pois

tendo sido determinadas as quantidades eacute preciso em seguida estabelecer uma

configuraccedilatildeo agrave obra que observe as qualidades de suas partes

No De Architectura se apresenta em seguida as epistyliorum ratio ou seja um

conjunto de prescriccedilotildees voltadas a regrar agora sim claramente as medidas das

arquitraves

a regulaccedilatildeo das arquitraves deve ser feita assim se as colunas tiverem um miacutenimo de

12 ateacute quinze peacutes que a altura da arquitrave seja a metade da espessura da base da

coluna se as colunas tiverem de 15 a 20 peacutes que se divida a altura da coluna em treze

partes e de uma se faccedila a altura da arquitrave de 20 a 25 peacutes que se divida a altura da

77 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre I (I 2 4) p 16 ldquoItem symmetria est ex ipsius operis membris

conueniens consensus ex partibusque separatis ad uniuersae figurae speciem ratae partis responsus Vti in hominis

corpore e cubito pede palmo digito ceterisque particulis symmetros est eurythmiae qualitas sic est in operum

perfectionibusrdquo Traduccedilatildeo ldquopor sua vez symmetria eacute o acordo conveniente dos membros da proacutepria obra

entre si e a correlaccedilatildeo de uma determinada parte dentre as partes separadas com a vista do conjunto

da figura Do mesmo modo que no corpo do homem desde o cocircvado o peacute o palmo o diacutegito e outras

partes a comensurabilidade eacute uma qualidade eurriacutetmica assim ocorre na realizaccedilatildeo das obras

131

coluna em 12 partes e meia e com uma delas se faccedila a altura da arquitrave de 25 a 30

peacutes que se divida a altura da coluna em 12 partes e com uma delas se faccedila a altura da

arquitrave 78

Vale notar nessas prescriccedilotildees a coexistecircncia de dois sistemas um para as

colunas de quinze a vinte peacutes outro para as demais O primeiro relaciona a altura da

arquitrave ao diacircmetro de base da coluna ao passo que o outro propotildee uma

progressatildeo crescente da arquitrave em funccedilatildeo da progressatildeo crescente da altura das

colunas Em outras palavras nesse segundo sistema quanto maior a coluna maior a

arquitrave

Altura das colunas

(em peacutes)

Altura da arquitrave

Com relaccedilatildeo agrave altura

das colunas

Com relaccedilatildeo ao

diacircmetro inferior

12-15 12

15-20 113

20-25 1125

25-30 112

Tabela 3 Os dois sistemas para obtenccedilatildeo das alturas das arquitraves Fonte Gros P In Vitruve De LrsquoArchitecture Livre III n 4 p 177

Gros propotildee estabelecer uma seacuterie a partir do primeiro sistema (dado apenas

para um grupo de colunas o de 15 a 20 peacutes) associado ao diacircmetro inferior aplicando-

o (altura da arquitrave igual agrave metade do diacircmetro inferior da coluna) agraves

78 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III (III 5 8) p 28- 29 ldquoepistyliorum ratio sic est habenda uti si

columnae fuerint a minima XII pedum ad quindecim pedes epistylii sit altitudo dimidia crassitudinis imae

columnae item ab XV pedibus ad XX columnae altitudo dimetiatur in partes tredecim et unius partis altitudo

epistylii fiat item si a XX ad XXV pedes diuidatur altitudo in partes XII et semissem et eius una pars epistylium

in altitudine fiat item si ab XXV pedibus ad XXX diuidatur in partes XII et eius una pars altitudo fiatrdquo

132

recomendaccedilotildees anteriores (expostas em III 3 10) de relaccedilotildees entre espessura da coluna

e altura para as espeacutecies de templos prescritas previamente (areostilo diastilo sistilo

eustilo e picnostilo) a fim de que se pudesse visualizar o comportamento desse

primeiro sistema em diferentes alturas de colunas uma vez que foi dado apenas para

um grupo (de 12-15 peacutes) Constata entatildeo que agrave medida que a altura da coluna

aumenta a altura da arquitrave diminui Isso contraria o sentido da progressatildeo do

segundo sistema de III 5 8 em que se obteacutem uma arquitrave de altura maior para uma

coluna de altura maior

Ritmo da colunata

Altura da arquitrave (12 da espessura

da coluna) da categoria menor (12-15

peacutes) obtida da relaccedilatildeo entre espessura e

altura das colunas (segundo III 3 10)

Areostilo 116 (E = 18 de H)

Diastilo 117 (E = 185 de H)

Sistilo

Eustilo

119 (E = 195 de H)

Picnostilo 120 (E = 110 de H)

Tabela 4 Aplicaccedilatildeo do primeiro sistema de obtenccedilatildeo de alturas de arquitraves agraves prescriccedilotildees de

III 3 10 Fonte Gros P In Vitruve De LrsquoArchitecture Livre III n 4 p 178

Ora isso leva Gros a concluir que se trata de dois sistemas de regulaccedilatildeo

distintos justapostos e inconciliaacuteveis O primeiro privilegiaria a relaccedilatildeo tectocircnica que

se estabelece entre o peso da arquitrave e seu suporte daiacute o aumento da altura das

arquitraves com o aumento da espessura das colunas e vice-versa Jaacute o segundo

exibiria preocupaccedilotildees relacionadas ao efeito visual produzido pelas dimensotildees das

133

peccedilas de modo que a uma coluna maior ndash que torna os elementos do alto mais

distantes ndash cabe um aumento na arquitrave para corrigir a alteraccedilatildeo que a ampliaccedilatildeo

da distacircncia produz agrave visatildeo79 Mesmo sendo dois sistemas estrangeiros entre si a

coerecircncia na continuidade da exposiccedilatildeo de Vitruacutevio cuja sequecircncia eacute enumerada pela

repeticcedilatildeo da partiacutecula ldquoitemrdquo deixa inequiacutevoco o caraacuteter unitaacuterio do texto80 aleacutem da

ausecircncia de eventuais corrupccedilotildees ou acreacutescimos posteriores agrave passagem E o trecho

dedicado agraves arquitraves se encerra com uma espeacutecie de generalizaccedilatildeo do segundo

modo de obtenccedilatildeo das alturas dessas peccedilas ldquoigualmente as alturas das arquitraves

devem ser estabelecidas a partir de uma parte determinada segundo a mesma regra

com relaccedilatildeo agraves alturas das colunasrdquo81

O que se segue no texto explicita as preocupaccedilotildees visuais como escopo Pois

uma vez que a arquitrave se localiza nas porccedilotildees mais altas do templo a atenccedilatildeo se

volta para as distorccedilotildees ocasionadas pela distacircncia do olho aos elementos

arquitetocircnicos

com efeito quanto mais alto estiver o raio visual em relaccedilatildeo ao olho menos facilmente

atravessa a densidade do ar assim dissipado pela distacircncia da altura e exaurido de

suas forccedilas devolve aos sentidos uma quantidade incerta de moacutedulos Por esse motivo

sempre eacute preciso que se adicione um suplemento para a regulaccedilatildeo dos membros

envolvidos nas relaccedilotildees de symmetria de modo que possuam uma relaccedilatildeo adequada

entre as grandezas sejam elas obras em lugares muito altos sejam elas proacuteprias obras

colossais82

Em conformidade a esse procedimento recomendado que procura corrigir a

distorccedilatildeo devida agrave distacircncia soacute cabe o segundo tipo de prescriccedilatildeo o do aumento da

79 Gros P in Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III n 4 p 177-179 80 Cf ibid n 4 p 177-179 Gros se baseia tambeacutem nos estudos de B Wesenberg a essa questatildeo 81 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III (III 5 8) p 29 ldquoitem rata parte ad eundem modum ex altitudine

columnarum expediendae sunt altitudines epistyliorumrdquo 82 Ibid (III 5 9) p 29 ldquoquo altius enim scandit oculi species non facile persecat aeris crebritatem dilapsa itaque

altitudinis spatio et uiribus exuta incertam modulorum renuntiat sensibus quantitatem Quare semper

adiciendum est rationi supplementum in symmetriarum membris ltutgt cum fuerit [ut] aut altioribus locis opera

aut etiam ipsa colossicotera habeant magnitudinum rationemrdquo

134

altura da arquitrave atrelado ao aumento da altura da coluna a visatildeo que tanto mais

se eleva promove uma impressatildeo de deformaccedilatildeo do que se contempla Se a

dificuldade visual se amplia com o aumento da distacircncia natildeo faz sentido que o

primeiro modo de estabelecimento da altura da arquitrave ndash que diminui com o

aumento da distacircncia ou da altura da coluna ndash tenha como horizonte um ajuste visual

E o trecho subsequente deixa claro que a adiectio eacute necessaacuteria (adiciendum est) aos

pontos mais altos da obra bem como agraves obras colossais

Pierre Gros propotildee que nessa passagem Vitruacutevio esteja seguindo um texto

grego de skenographiacutea heleniacutestica do qual se tem notiacutecia a partir das Definitiones de

Heron de Alexandria83 Ao mesmo tempo a expressatildeo oculi species estabelece um ponto

de contato com as prescriccedilotildees anteriores de adiectio sobretudo de III 3 13 (que falava

da variaccedilatildeo nas contraturas e na ecircntase) ao reclamar dispositivos destinados a corrigir

as distorccedilotildees na visatildeo da obra A adiectio proposta agrave arquitrave consiste na previsatildeo da

regulaccedilatildeo proporcional de grandezas (magnitudinum rationem) e eacute pautada pelo

conjunto de relaccedilotildees de symmetria que perpassa cada parte da obra sem perder de vista

o conjunto

Vitruacutevio conclui esse assunto afirmando que a arquitrave eacute mais larga em sua

parte alta ndash cuja largura deve ser igual agrave espessura da base da coluna ndash do que em sua

base que ao repousar sobre o capitel deve ter em sua largura a dimensatildeo do diacircmetro

do topo da coluna84

83 Gros reporta que segundo se lecirc nas Definitiones de Heron de Alexandria ldquoa finalidade do arquiteto eacute

tornar a obra harmoniosa em sua aparecircnciardquo (Gros P in Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III n 1

p 179) Abordaremos agrave frente certas questotildees relativas a esse escrito e sua controversa autoria 84 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III (III 5 9) p 29 ldquoepystilii latitudo in imo quod supra capitulum

erit quanta crassitudo summae columnae sub capitulo erit tanta fiat summum quantum imus scapusrdquo

Traduccedilatildeo ldquoa largura da base da arquitrave que estaraacute sobre o capitel deve ter a espessura do

sumoscapo abaixo do capitel a largura do topo da arquitrave deve ter a espessura da imoscapordquo Pierre

Gros nos lembra ainda que eacute possiacutevel identificar a partir de templos construiacutedos em Roma que a

largura da base da arquitrave foi durante um largo periacuteodo maior que o diacircmetro superior da coluna

inversamente ao que propotildee a preceptiva O exemplo fornecido eacute o do templo de Apolo in Circo que

contaria com uma arquitrave de largura inferior de 13m apoiada sobre a parte superior da coluna com

diacircmetro de aproximadamente 12m (Gros P in Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III n 6 p 181)

135

34 Entablamento

Agraves partes mais altas dos edifiacutecios sagrados satildeo prescritos ajustes cuja finalidade

atestada no escrito vitruviano circunscreve igualmente as precauccedilotildees visuais85 para

com a obra Fica prevista assim a inclinaccedilatildeo do conjunto elevado ldquotodos os membros

que estaratildeo acima dos capiteacuteis das colunas isto eacute arquitraves frisos cornijas

tiacutempanos frontotildees e acroteacuterios devem inclinar-se agrave frente em 112 de sua alturardquo86

O iniacutecio de III 5 9 marcava a atenccedilatildeo agraves questotildees concernentes ao que os olhos

captam (quo altius enim scandit oculi species) A justificativa para a inclinaccedilatildeo do

entablamento (compreendendo o conjunto de elementos situados acima dos capiteacuteis

das colunas) em 112 de sua altura exposta em III 5 13 reitera essa sorte de

preocupaccedilatildeo

quando paramos diante do frontispiacutecio e prolongamos duas linhas a partir do olho

atingindo uma delas a parte inferior do templo e a outra o seu topo a que tocar o ponto

mais alto seraacute a mais extensa Assim quanto mais longa eacute a linha de visatildeo que avanccedila

para a parte superior mais inclinada para traacutes nos surge no seu aspecto87

Desses apontamentos temos um vislumbre da distacircncia que por vezes se encontra entre o escrito de

Vitruacutevio e remanescentes de construccedilotildees antigas

85 O que se atesta pelas expressotildees ldquoab oculordquo ldquouisusrdquo ldquoeius speciemrdquo ldquoin aspecturdquo (Vitruve ldquoDe

LrsquoArchitecturerdquo Livre III - III 5 13 - p 31-32) 86 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III (III 5 13) p 31 ldquomembra omnia quae supra capitula columnarum

sunt futura id est epistylia zophora coronae tympana fastigia acroteria inclinanda sunt in fronte suae cuiusque

altitudinis parte XIIrdquo Vale apontar que tanto a ediccedilatildeo francesa editada por Pierre Gros (Vitruve ldquoDe

LrsquoArchitecturerdquo Livre III - III 5 13 - p 31) quanto aquela em liacutengua portuguesa traduzida por M J

Maciel (Vitruacutevio ldquoTratado de Arquiteturardquo - III 5 13 - p 194-195) designam por entablamento (nos

subtiacutetulos agraves respectivas traduccedilotildees agrave passagem) o conjunto de membros ou elementos arquitetocircnicos

situados acima do capitel da coluna segundo descrito em III 5 13 No entanto os esquemas graacuteficos

realizados por Lawrence para o templo jocircnico preveem ao entablamento apenas arquitrave friso e

cornija sem incluir os elementos superiores tiacutempano frontatildeo e acroteacuterio (Lawrence A W ldquoArquitetura

gregardquo traduccedilatildeo Maria Luiza Moreira de Alba Satildeo Paulo Cosac amp Naify 1998) W Goodyear adota

igualmente essa classificaccedilatildeo que separa o entablamento (entablature) incluindo arquitrave friso e

cornija do frontatildeo (pediment) o qual engloba os elementos dispostos acima do entablamento

(Goodyear W H ldquoGreek refinements studies in temperamental architecturerdquo p 29) 87 Vitruacutevio ldquoTratado de Arquiteturardquo (III 5 13) p 195 Em latim ldquoideo quod cum steterimus contra frontes

ab oculo lineae duae si extensae fuerint et una tetigerit imam operis partem altera summam quae summam

136

As prescriccedilotildees de ajustes oacuteticos concentram-se no do Livro III voltado ao

gecircnero jocircnico E nessa passagem Vitruacutevio expotildee a intenccedilatildeo dos expedientes de

correccedilatildeo preceituando que se execute na obra o inverso da distorccedilatildeo produzida ao

olho neutralizando-a ldquose poreacutem como acima foi escrito estiverem inclinados para a

frente entatildeo [os membros acima do capitel] pareceratildeo diante dos olhos como dispostos

a fio de prumo e esquadrordquo88

35 Skenographiacutea

Um fragmento de autoria incerta conhecido pelo tiacutetulo ldquoO que eacute o

cenograacuteficordquo (Τί τὸ σκηνογρφικόν) atribui ao arquiteto a tarefa de velar pelo aspecto

segundo o qual a obra se apresenta (φαίνεται) evitando as distorccedilotildees impostas ao

olho (πρὸς ὄψιν)89 A eurritmia ocupa segundo esse registro posiccedilatildeo fulcral nas

tetigerit longior fiet Ita quo longior uisus linea in superiorem partem procedit resupinatam facit eius speciemrdquo

(Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III p 31) 88 Vitruacutevio ldquoTratado de Arquiteturardquo (III 5 13) p 195 Em latim ldquocum autem uti supra scriptum est in

fronte inclinata fuerint tunc in aspectu uidebuntur esse ad perpendiculum et normamrdquo (Vitruve ldquoDe

LrsquoArchitecturerdquo Livre III p 31-32) 89 Gemino ldquoΤί τὸ σκηνογρφικόνrdquo apud Acerbi F ldquoAppendice Grdquo in Euclide ldquoTutte le opererdquo

Milano Bompiani 2007 p 2612 τὸ σκηνογραφικὸν τῆς ὀπτικῆς μέρος ζητεῖ πῶς προσήκει γράφειν

τὰς εἰκόνας τῶν οἰκοδομημάτων ἐπειδὴ γὰρ οὐχ οἷα [τε] ἔστι τὰ ὄντα τοιαῦτα καὶ φαίνεται

σκοποῦσιν πῶς μὴ τοὺς ὑποκειμένους ῥυθμοὺς ἐπιδείξονται ἀλλ ὁποῖοι φανήσονται

ἐξεργάσονται τέλος δὲ τῷ ἀρχιτέκτονι τὸ πρὸς φαντασίαν εὔρυθμον ποιῆσαι τὸ ἔργον καὶ ὁπόσον

ἐγχωρεῖ πρὸς τὰς τῆς ὄψεως ἀπάτας ἀλεξήματα ἀνευρίσκειν οὐ τῆς κατ ἀλήθειαν ἰσότητος ἢ

εὐρυθμίας ἀλλὰ τῆς πρὸς ὄψιν στοχαζομένῳ οὕτω γοῦν τὸν μὲν κυλινδρltικgtὸν κίονα ἐπεὶ

κατεαγότα ἔμελλε θεωρήσειν κατὰ μέσον πρὸς ὄψιν στενούμενον εὐρύτερον κατὰ ταῦτα ποιεῖ

καὶ τὸν μὲν κύκλον ἔστιν ὅτε οὐ κύκλον γράφει ἀλλ ὀξυγωνίου κώνου τομήν τὸ δὲ τετράγωνον

προμηκέστερον καὶ τοὺς πολλοὺς καὶ μεγέθει διαφέροντας κίονας ἐν ἄλλαις ἀναλογίαις κατὰ

πλῆθος καὶ μέγεθος τοιοῦτος δ ἐστὶ λόγος καὶ τῷ κολοσσοποιῷ διδοὺς τὴν φανησομένην τοῦ

ἀποτελέσματος συμμετρίαν ἵνα πρὸς τὴν ὄψιν εὔρυθμος εἴη ἀλλὰ μὴ μάτην ἐργασθείη κατὰ τὴν

οὐσίαν σύμμετρος οὐ γὰρ οἷα ἔστι τὰ ἔργα τοιαῦτα φαίνεται ἐν πολλῷ ἀναστήματι τιθέμενα

Traduccedilatildeo A cenografia enquanto parte da oacutetica busca traccedilar com pertinecircncia as figuras (τὰς εἰκόνας)

dos edifiacutecios Pois uma vez que as coisas natildeo satildeo tal como se mostram (φαίνεται) natildeo se vecirc os ritmos

proacuteprios e intriacutensecos mas tal como exteriomente se afiguram ao desempenharem seu papel A

finalidade do arquiteto eacute fazer a obra mostrar-se (τὸ πρὸς φαντασίαν) eurriacutetmica e a sua tarefa permite

o quanto eacute possiacutevel descobrir remeacutedios para os enganos dos olhos natildeo com vistas agraves eurritmias

correspondentes agraves verdadeiras mas aos olhos Assim faz mais largas as colunas ciliacutendricas porque

pareceriam cortadas na regiatildeo meacutedia estreitando-se aos olhos Vecirc-se que haacute um ciacuterculo quando natildeo se

traccedilou um ciacuterculo mas um tronco de cone eliacuteptico e se vecirc um quadrado quando se traccedilou um

137

atividades que desempenha o arquiteto90 mas tambeacutem ao artiacutefice que realiza

esculturas colossais (τῷι κολοσσοποιῷ) Por outro lado vimos que Vitruacutevio reserva

lugar niacutetido a essas preocupaccedilotildees91 e chegava mesmo a prever adiectiones para os

elementos da obra situados em locais muito altos (altioribus locis opera) e para as

proacuteprias obras colossais (ipsa colossicotera)92 Mas seraacute possiacutevel inferir a partir do De

Architectura que a finalidade primeira dessa arte esteja vinculada agrave visatildeo que se tem da

obra

Antes cabe uma indagaccedilatildeo a respeito desse fragmento que sustenta boa parte

das interpretaccedilotildees das passagens do De Architectura relativas agrave depuraccedilatildeo visual da

aedificatio Ademais vale tentar recuperar as circunstacircncias em que esse breve texto

que supostamente evoca os fins da arquitetura nos foi transmitido e difundido no

passado mais recente procurando averiguar se ele permitiria discernir algo em torno

de sua proveniecircncia Seraacute mesmo possiacutevel afirmar que se trata de um escrito sobre arte

edificatoacuteria ou que apenas faz menccedilatildeo a essa disciplina

Em seu comentaacuterio ao De Architectura junto agrave traduccedilatildeo dos sete primeiros

livros Silvio Ferri fala de um fragmento atribuiacutedo a Damianus ldquoquase idecircnticordquo a um

de Heron afirmando tratar-se de um texto sobre skenographiacutea no qual se lecirc que ldquoo

escopo do arquiteto eacute tornar a obra eurriacutetmica agrave visatildeordquo93 Ferri escreve que ldquocomo todos

paralelogramo e colunas de diferentes grandezas em outras relaccedilotildees proporcionais quanto ao nuacutemero

e magnitude Tal eacute o princiacutepio segundo o qual o escultor de colossos confere simetria aparente (τὴν

φανησομένην συμμετρίαν) agrave compleiccedilatildeo final [da obra] eurriacutetmica aos olhos sem trabalhar em vatildeo

pela simetria essencial (κατὰ τὴν οὐσίαν σύμμετρος) Pois a obra natildeo eacute assim ao se mostrar (φαίνεται)

disposta em grande altura 90 Geminos in Euclide ldquoTutte le opererdquo Appendice G p 2612 ldquoΤέλος δὲ τῷι ἀρχιτέκτονι τὸ πρὸς

φαντασίαν εὔρυθμον ποιῆσαι τὸ ἔργονrdquo 91 A sentenccedila de III 3 13 resume essa orientaccedilatildeo ldquouenustates enim persequitur uisusrdquo (cf n 44 supra) As

referecircncias agrave dimensatildeo visual satildeo frequentes no Livro III proliferando-se variadamente por esse campo

semacircntico atraveacutes de termos como species aspectus aspiciens figura uisus oculus imago Podem ainda ser

encontradas referecircncias diretas ao olho tomado como norteador de procedimentos de ajustes de

medidas tal como em III 3 11 ldquoergo quod oculus fallit ratiocinatione est exaequandumrdquo (cf n 33 supra)

Ou ainda em III 4 5 ldquosi enim ad libellam dirigetur alueolatum oculo uidebiturrdquo (cf n 55 supra) 92 Cf Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III (III 5 9) p 29 Cf n 82 supra 93 Ferri S in Vitruvio ldquoArchitteturardquo Dai libri I-VII Introduzione di Stefano Maggi testo critico

taduzione e commento di Silvio Ferri Milatildeo BUR 2002 n 13 p 191 ldquoScopo dellrsquoarchitetto egrave di fare

lrsquoopera euritimica alla vistardquo

138

veem entre o texto de Damianus (disciacutepulo de Posidocircnio e portanto contemporacircneo

a Ciacutecero) e o texto de Vitruacutevio os pontos de contato satildeo numerosos e evidentes no

particular e no geralrdquo94 sobretudo quanto agrave correlaccedilatildeo entre κολοσσοποιός e

colossicotera95 Tais fragmentos norteiam igualmente os comentaacuterios de Pierre Gros96 agraves

passagens centrais do De Architectura relativamente aos refinamentos97 construtivos e

ao papel da visatildeo de modo a explicitar uma possiacutevel assimilaccedilatildeo de certos

desdobramentos da empresa vitruviana ao fragmento grego ldquoO que eacute o cenograacuteficordquo

(Τί τὸ σκηνογρφικόν) atribuiacutedo por esse estudioso a Heron de Alexandria98 Restam

todavia diferenccedilas entre os dois comentadores quanto agrave interpretaccedilatildeo do

posicionamento da obra de Vitruacutevio face a esses propoacutesitos99

94 Ferri S in Vitruvio ldquoArchitteturardquo n 13 p 191 95 Ibid n 13 p 191 96 Cf Gros P In Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III n1 p 122-123 n 2 p 123 n 5 p 125 n 1 p

179 n 5 p 180 Apontou-se no presente trabalho dois momentos em que Gros recorre a esse fragmento

no comentaacuterio ao De Architectura um em que o comentador se reporta a ldquoGeacuteminosrdquo (ou ldquoHeacuteronrdquo) na

interpretaccedilatildeo da ecircntase cf n 49 supra outro pela remissatildeo agrave Heron relativamente agraves prescriccedilotildees sobre

a arquitrave cf n 83 supra 97 O termo ldquorefinamentordquo eacute largamente empregado pelos estudiosos da arquitetura antiga grega e

romana W H Goodyear procurou ampliar a abrangecircncia do termo na obra referencial ldquoGreek

refinements studies in temperamental architecturerdquo de 1912 O autor argumenta que na arquitetura

antiga grega e romana (mas tambeacutem naquelas de outros periacuteodos) as variaccedilotildees nos elementos

construtivos nem sempre visavam agrave correccedilatildeo oacutetica daiacute a escolha de um termo que expressasse o caraacuteter

intencional de determinados procedimentos construtivos visando agrave eurythmia Cf apecircndice A ldquoAjustes

meacutetricos e variaccedilotildees na arquitetura antigardquo ao final deste trabalho 98 Gros P in Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III n 1 p 179 ldquoeacute provaacutevel que Vitruacutevio siga aqui

um texto grego extraiacutedo de um tratado heleniacutestico de scaenographia cujos elementos podem ser

encontrados em uma notiacutecia de Heron de Alexandria sob a rubrica Τί τό σχηνογρφιχόν (Definitiones

135 13 Heiberg IV p 107) noacutes aprendemos que a finalidade do arquiteto eacute tornar a obra harmoniosa

em sua aparecircncia e na medida do possiacutevel descobrir os remeacutedios contra os erros da visatildeo (ἀλεξήματα

ἀνευρίσειν) firmando-se em manter as relaccedilotildees harmocircnicas natildeo em sua forma real (χατὰ ἀλήθειαν)

mas naquelas que elas assumem aos olhos dos observadoresrdquo Pierre Gros anunciara conhecer a

controversa atribuiccedilatildeo do mesmo fragmento a autores diferentes seguindo as indicaccedilotildees de outros

estudiosos franceses ldquoG Aujac Geacuteminos Introduction aux pheacutenomenes CUF Paris 1975 p XIII n 2

lembra que o texto aprentado por Schoumlne como sendo de Geacuteminos eacute atribuiacutedo por Hultsch aos

Catoacuteptricos de Heron P Tannery Sur le classement des matheacutematiques em La geacuteometrie gecque Paris 1887

p 42 e ss reconhece nesse texto os ensinamentos de Geacuteminosrdquo (Gros P in Vitruve ldquoDe

LrsquoArchitecturerdquo Livre III n 1 p 122-123) 99 O comentaacuterio de Silvio Ferri aponta como inexatidatildeo a assunccedilatildeo vitruviana de que ldquoquando uma

estrutura eacute lsquocomensuradarsquo eacute tambeacutem venustardquo (Ferri S Vitruvio ldquoArchitetturardquo n 3 p 116) jaacute que de

fato a eurythmia historicamente diria respeito a um estaacutegio superior caracterizado pela correccedilatildeo da

symmetria numeacuterica (ibid n 3 p 116) Em desacordo a essa posiccedilatildeo de Ferri e explicitando a

139

Pollitt por seu turno esclarece que a passagem Τί τὸ σκηνογρφικόν (Tiacute tograve

skenographikoacuten) anexada aos manuscritos de Damianus no seacuteculo XVI ldquoeacute agraves vezes

atribuiacuteda a Heron de Alexandria de eacutepoca incerta mas tratando-se provavelmente do

final do periacuteodo heleniacutestico [] e agraves vezes eacute atribuiacuteda agrave Geminus cuja data eacute tambeacutem

incerta mas parece ter sido contemporacircneo de Posidocircnio (portanto em torno de 70

aC)rdquo100 No entanto esse estudioso natildeo exclui uma dataccedilatildeo mais tardia ldquonatildeo eacute

inconcebiacutevel que a passagem de fato pertenccedila a Damianus datado por Hultsch (e

grafado ldquoDamianosrdquo) em torno do seacuteculo quarto d Crdquo101 Pollitt ainda afirma que a

skenographiacutea (σκηνογραφία) ldquotornou-se com o tempo uma das subdivisotildees formais da

ciecircncia oacuteticardquo102 fazendo parte da educaccedilatildeo avanccedilada que um grego recebia a partir

do que infere que ldquoessa subdivisatildeo da oacutetica deve ter sido particularmente importante

para os arquitetos que eram obrigados a preparar perspectivas dos edifiacutecios

projetados a seus clientesrdquo103 Apoiando-se em um fragmento de Dioacutegenes Laeacutercio

segundo o qual o filoacutesofo Menedemus e seu pai arquiteto teriam praticado ambos a

skenographiacutea (σκενογραφία) Pollitt pretende sustentar a hipoacutetese de que esse suposto

setor da oacutetica fazia parte de um conhecimento de que os arquitetos se serviam

Pierre-Maxime Schuhl tambeacutem retransmite o Tiacute tograve skenographikoacuten e fornece

esclarecimentos sobre a controversa atribuiccedilatildeo a Geminus dado que o fragmento

chega anonimamente anexado ora a extratos atribuiacutedos a Heron (publicado como

apecircndice na ediccedilatildeo de 1864 de Hultsch104) ora a um pequeno tratado de oacutetica de

discordacircncia com F W Schlikker nesse ponto para Pierre Gros a symmetria natildeo eacute sobrepujada pela

eurythmia na medida em que esta uacuteltima procura tatildeo somente restituir a symmetria aparente (uerae

symmetriae) alterada pelas deformaccedilotildees visuais (Gros P in Vitruve Livre III 1990 n 139 p LVII) 100 Pollitt J J ldquoThe ancient view of greek artrdquo New Haven and London Yale University Press 1974 n

44 p 96 101 Ibid n 44 p 96 Cf os comentaacuterios sobre a hipoacutetese de dataccedilatildeo de Acerbi n 113 infra 102 Ibid p 245 103 Ibid p 245-246 Cf ibid n 2 p 246 fr 9 p 238 104 Hultsch F ldquoHeronis Alexandrini Geometricorum et Stereometricorum reliquiaerdquo Accedunt

Anonymi uariae collectiones ex Herone Euclide Gemino Proclo Anatolio allisque Berlin 1864 p 252 Trazemos

coacutepia do fragmento ldquoTiacute tograve skenographikoacutenrdquo editado por Hultsch ao final desse trabalho

140

Damianus reunido por um copista no seacuteculo XVI publicado em 1897 por Schoumlne105 e

atribuiacutedo entatildeo a Geminus106 Compulsando ambas as ediccedilotildees do seacuteculo XIX pocircde-se

confirmar as informaccedilotildees que Schuhl difunde e mais eacute possiacutevel entender que a

confusatildeo na atribuiccedilatildeo da autoria do fragmento entre os estudiosos do seacuteculo XX varia

conforme a fonte aqueles que seguem a ediccedilatildeo de Hultsch de 1864 costumam associar

a autoria do fragmento a Heron os que seguem a ediccedilatildeo de Schoumlne de 1897 tendem a

imputaacute-lo a Damianus ou Geminus Hultsch apresenta o fragmento como

remanescente provaacutevel dos Catoacuteptricos de Heron (fragmenta excerpta ut uidetur e

Catoptricis Heronis) Jaacute Schoumlne insere o fragmento ldquoTiacute tograve skenographikoacutenrdquo entre extratos

de Geminus na sequecircncia do pequeno tratado de oacutetica de Damianus

Essa atribuiccedilatildeo a Geminus segundo Schuhl deve-se ldquoa uma certa analogia que

esse fragmento possui com os fragmentos de Geminus presentes em outros autores

notadamente em Proclordquo107 Observamos enfim que Schuhl108 adota o excerto a partir

da ediccedilatildeo de Schoumlne de 1897 assim como Pollitt109 Pierre Gros110 em seu comentaacuterio agrave

ediccedilatildeo de Vitruacutevio e mesmo Erwin Panofsky111 em ldquoA perspectiva como forma

simboacutelicardquo No propalado livro ldquoArquitetura gregardquo Lawrence reporta um fragmento

semelhante preconizando a regularizaccedilatildeo aparente das medidas das partes da obra

arquitetocircnica e que atribui a mais um nome Heliodoro de Larissa112 Damianus teria

sido disciacutepulo de Heliodoro segundo Fabio Acerbi e Philippe Fleury113 Sob essa

105 Schoumlne R ldquoDamianos Schrift uumlber Optik mit Auszuumlgen aus Geminosrdquo Griechisch und deutsch

heraugegeben Berlin 1897 p 28-30 Trazemos coacutepia do fragmento ldquoTiacute tograve skenographikoacutenrdquo editado por

Schoumlne ao final deste trabalho 106 Schuhl P-M ldquoPlaton et lrsquoart de son tempsrdquo (arts plastiques) Paris Presses Universitaires de France

1952 Cf p 77-78 107 Ibid ldquoPlaton et lrsquoart de son tempsrdquo p 78 108 Ibid n 1 p 78 109 Pollitt J J ldquoThe ancient view of greek artrdquo p 239 110 Gros P in Vitruve Livre III n 1 p 123 Cf supra n 96 111 Panofsky E ldquoA perspectiva como forma simboacutelicardquo Traduccedilatildeo Elisabete Nunes Lisboa Ediccedilotildees 70

1993 p 87-88 112 Lawrence A W ldquoGreek Architecturerdquo London Penguin Books 1957 p 172 ediccedilatildeo brasileira

ldquoArquitetura gregardquo traduccedilatildeo Maria Luiza Moreira de Alba Satildeo Paulo Cosac amp Naify 1998 p 127 113 Vale notar ainda que a ediccedilatildeo Schoumlne de 1897 faz menccedilatildeo a Heliodoro de Larissa no tiacutetulo do

manuscrito do Vaticano cf Schoumlne ldquoDamianos Schrift uumlber Optik mit Auszuumlgen aus Geminosrdquo p V

Fabio Acerbi em ediccedilatildeo italiana das obras de Euclides apresenta como anexo o fragmento Τί τό

141

mesma denominaccedilatildeo (Heliodoro) Goodyear apresenta um fragmento similar e relata

encontraacute-lo igualmente em Penrose Boutmy e Hauck114

J J Coulton em seu ldquoGreek architects at workrdquo inicia a seccedilatildeo em que trata dos

refinamentos arquitetocircnicos dos templos gregos apresentando um excerto que atribui

a Fiacutelon de Bizacircncio e que revela ao mesmo tempo uma proximidade estreita com

aquele de Heron (que como visto eacute tambeacutem atribuiacutedo a Damianus Geminus e

Heliodoro)115

Mais que perscrutar os meandros atinentes aos pensamentos que produziram

tais excertos viacutevidos mas escassos em seus remanescentes e portanto imersos em

incertezas cumpre apontar a recorrente menccedilatildeo desses fragmentos quando se trata de

σχηνογρφιχόν que atribui a Geminus argumentando que uma passagem de Proclo atesta de maneira

precisa essa associaccedilatildeo pela coincidecircncia temaacutetica (Acerbi F ldquoAppendice Grdquo in Euclide ldquoTutte le

opererdquo Milano Bompiani 2007 p 2596) Segundo Acerbi o nome de Damianus provavelmente ligado

agraves escolas neo-platocircnicas entre o V e o VI seacuteculo esteve envolvido em uma compilaccedilatildeo de extratos sobre

oacutetica (ibid p 2589) Acerbi apresenta uma hipoacutetese sobre a inclusatildeo dos nomes de Damianus e

Heliodoro no tiacutetulo dos extratos que traduz como ldquoCapitoli delle Ipotesi Ottiche di Damiano di Eliodoro

di Larissardquo ldquoeacute mais plausiacutevel que Damiano tivesse tido acesso a uma compilaccedilatildeo de oacutetica de algum

Heliodoro eventualmente como seu aluno e dela tivesse preparado uma revisatildeo posterior simplificada

para uso escolarrdquo (ibid p 2589) Entatildeo Acerbi sugere que o Heliodoro do tiacutetulo do excerto pudesse ser

o irmatildeo do filoacutesofo platocircnico Amocircnio mas reconhece as dificuldades para explicar a referecircncia agrave cidade

de Larissa nesse mesmo tiacutetulo jaacute que o Heliodoro irmatildeo de Amocircnio muito provavelmente teria nascido

em Alexandria (ibid p 2589-2590) Cf tambeacutem Fleury Ph in Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre I n

16 p 110 114 Goodyear W H ldquoGreek refinements studies in temperamental architecturerdquo Yale Yale University

Press 1912 p 144 n 5 p 157 115 Coulton J J ldquoGreek architects at workrdquo Problems of structure and design London Paul Elek 1977

Cf cap 5 n 1 p 174 n 28 p 175 Sobre a expressatildeo ldquorefinamentos arquitetocircnicosrdquo para designar

ajustes meacutetricos e certas variaccedilotildees de elementos das obras cf n 97 supra cf ainda apecircndice A ldquoAjustes

meacutetricos e variaccedilotildees na arquitetura gregardquo Coulton natildeo apresenta o texto grego do excerto que reporta

ldquosome of the individual parts of a building although they were in fact of equal thickness and straight

seemed to be neither of equal thickness nor straight because our sight is misled in such matters by

differences in distance So by trial and error by adding to and subtracting from the sizes by taperings

and by all sorts of experiment they made them (the parts) in accordance with vision and apparently well-

shaped for this was the goal in that artrdquo (Philon apud Coulton ldquoGreek architects at workrdquo p 97)

Traduccedilatildeo ldquoalgumas das partes individuais de uma construccedilatildeo embora fossem de fato de mesma

espessura e alinhamento pareciam natildeo possuir nem mesma espessura nem mesmo alinhamento

porque nossa visatildeo eacute enganada nessas questotildees por diferenccedilas de distacircncia Entatildeo por tentativa e erro

adicionando e subtraindo dos tamanhos por estreitamentos e por toda sorte de experimento eles as

fazem [as partes] em concordacircncia com a visatildeo e bem modeladas em sua aparecircncia pois este eacute o objetivo

naquela arterdquo

142

interpretar o texto vitruviano e a arquitetura antiga especialmente a grega Coulton

escreve acerca da passagem que reporta tratar-se do que mais proacuteximo ldquonoacutes temos

da visatildeo de um arquiteto grego em accedilatildeo na histoacuteria e das finalidades da arquitetura

Pois embora Fiacutelon tenha escrito sobre mecacircnica esta era [] intimamente relacionada

agrave arquiteturardquo116 E quanto ao Τί τὸ σκηνογρφικόν (Tiacute tograve skenographikoacuten) seraacute capaz de

transmitir em tatildeo poucas palavras o propoacutesito de uma arte tatildeo complexa como a

arquitetura E estariacuteamos falando de qual modo de entender a arquitetura Pois natildeo

haacute seguranccedila quanto agrave atribuiccedilatildeo do lugar preciso de sua escrita ou agrave dataccedilatildeo do

fragmento Por fim estaraacute ele se referindo agrave arquitetura propriamente dita ou a

prescriccedilotildees para a eleboraccedilatildeo de um cenaacuterio que figure os elementos de uma

edificaccedilatildeo cuja preparaccedilatildeo eacute incumbecircncia do arquiteto A passagem revela com

vivacidade a importacircncia dada agraves preocupaccedilotildees oacuteticas mas deixa numerosas lacunas

36 Scaenographia

O grego σκηνή na origem de σκηνο-γραφία designara construccedilatildeo leve feita

de folhagens e galhos de aacutervores ou tecido servindo para se abrigar dormir ou

celebrar uma festa ndash uma barraca ou tenda em resumo segundo Chantraine117 Por

outro lado e ainda segundo o estudioso o termo σκηνή tambeacutem se referia agrave

construccedilatildeo no fundo do teatro a partir do que a ldquocenardquo se associa agrave proacutepria arte teatral

e com essa acepccedilatildeo passa ao latim como scaena118

Em Vitruacutevio scaenographia na sequecircncia de ichnographia e orthorgraphia eacute uma

subdivisatildeo da dispositio exposta no Livro Primeiro Diferentemente do fragmento de

116 Coulton J J ldquoGreek architects at workrdquo p 97 Para Coulton a orientaccedilatildeo unicamente visual do

fragmento que atribui a Fiacutelon o afasta da proposta vitruviana em torno da triacuteade firmitas utilitas

uenustas 117 Chantraine P ldquoDictionnaire eacutetymologique de la langue grecque Histoire des motsrdquo p 1015-1016 118 Cf ainda Cam M-T in Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre VII n 3 p 59

143

autoria incerta ldquoTiacute tograve skenographikoacutenrdquo a scaenographia natildeo aparece diretamente

associada aos ajustes eurriacutetmicos prescritos no Livro Terceiro Ademais eurythmia eacute a

definiccedilatildeo subsequente agrave dispositio na exposiccedilatildeo vitruviana119 A dispositio por sua vez

como mencionado eacute a ldquocolocaccedilatildeo adequada dos elementos e a execuccedilatildeo elegante da

composiccedilatildeo da obra relativamente agrave qualidaderdquo120 Na realizaccedilatildeo de suas

especificaccedilotildees e na composiccedilatildeo da obra deve-se valer das trecircs espeacutecies de disposiccedilatildeo

(dispositio) ndash ichnographia orthorgraphia e scaenographia ndash ditas ἰδέαι entre os gregos121

A ichnographia com auxiacutelio de compasso e reacutegua relaciona-se ao traccedilado da planta (in

solis descriptiones)122 da obra Significando pegada rastro traccedilo e agraves vezes peacute ou planta

do peacute123 o termo ἴχνος presente no radical da palavra transliterada permite entrever

o sentido do desenho referido no escrito latino que remete ao solo (in solis) como a

marca deixada pelos peacutes e que eacute vista de cima em oposiccedilatildeo agrave orthographia que designa

de modo ainda mais patente a figura tomada frontalmente (erecta frontis imago)124 Agrave

scaenographia Vitruacutevio associa simultaneamente vista frontal e lateral (frontis et

laterum) num sombreado (adumbratio) que se afasta (abscedo) isto eacute encaminha-se

convergindo ao centro (abscedentium adumbratio ad circinique centrum responsus)125

Para Pierre Gros ldquocircini centrumrdquo natildeo implica uma definiccedilatildeo esfeacuterica do campo

visual uma vez que circinus deve ser lido como instrumento o campasso e natildeo como

119 Segundo o Livro I a arquitetura consta de ordinatio dispositio eurythmia symmetria decor e distributio

(Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre I - I 2 1 - p 14) 120 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre I (I 2 2) p 15 ldquodispositio autem est rerum apta conlocatio elegansque

compositionibus effectus operis cum qualitaterdquo Cf supra n 76 121 Ibid (I 2 2) p 15 122 Ibid (I 2 2) p 15 ldquoichnografia est circini regulaeque modice continens usus e qua capiuntur formarum in

solis arearum descriptionesrdquo Traduccedilatildeo ldquoa icnografia eacute o uso contiacutenuo metricamente regrado de

compasso e reacutegua a partir do que satildeo obtidas as descriccedilotildees das formas das aacutereas no solordquo 123 Chantraine P ldquoDictionnaire eacutetymologique de la langue grecque Histoire des motsrdquo p 474 124 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre I (I 2 2) p 15 ldquoortographia autem est erecta frontis imago modiceque

picta rationibus operis futuri figurardquo Traduccedilatildeo ldquoa ortografia por sua vez eacute o retrato do alccedilado frontal e a

configuraccedilatildeo futura da obra pintada segundo regulaccedilotildees meacutetricasrdquo 125 Ibid (I 2 2) p 15 ldquoscaenographia est frontis et laterum abscedentium adumbratio ad circinique centrum

omnium linearum responsusrdquo Traduccedilatildeo ldquoa cenografia eacute o sombreado da frente e da lateral que convergem

para o centro determinado por um compasso e a correspondecircncia de todas as linhasrdquo

144

a figura geomeacutetrica do ciacuterculo126 Do mesmo modo a definiccedilatildeo precedente de

ichnographia indicava mais nitidamente o emprego de circinus como instrumento

(ichnographia est circini regulaeque usus) o que se atesta ainda pelo registro de centrum

como o ponto fixo em torno do qual o braccedilo do compasso se move127 e ainda pelas

praacuteticas elementares de construccedilatildeo empregadas no periacuteodo em que uma simples

corda girando em torno de um centro podia fazer as vezes de um compasso

possibilitando diversas operaccedilotildees no terreno128

Assim a expressatildeo ad centrum impotildeem uma direccedilatildeo ao sombreado que se

distancia (abscendentium adumbratio) ndash o que permite ainda inferir uma convergecircncia

de todas as linhas postas em relaccedilatildeo (omnium linearum responsus)129 Eacute comum a

aproximaccedilatildeo entre esse trecho de I 2 2 a VII pref 11

tendo sido um certo local constituiacutedo como centro conveacutem agrave apreensatildeo dos olhos e

agrave propagaccedilatildeo dos raios visuais corresponder agraves linhas segundo um ordenamento

natural de modo que de coisas incertas imagens certas produzam a vista de

126 Gros P ldquoLe rocircle de la scaenographia dans les projets architecturaux du deacutebut de lrsquoEmpire Romainrdquo

p 252 Gros propotildee ainda que se interprete com valor de instrumento a palavra circinus que aparece na

exposiccedilatildeo da geometria como mateacuteria de base agrave disciplina do arquiteto em I 1 4 ldquogeometria autem plura

praesidia praestat architecturae et primum ex euthygrammis circini tradit usumrdquo (Vitruve ldquoDe

LrsquoArchitecturerdquo Livre I p 5) Traduccedilatildeo ldquoa geometria por sua vez provecirc muito apoio agrave arquitetura e

em primeiro lugar logo depois das linhas retas ensina o uso do compassordquo Fleury parece aceder a essa

compreensatildeo pelo que traduz o mesmo trecho ldquoquant agrave la geacuteomeacutetrie elle apporte plusieurs secours agrave

lrsquoarchitecture aussitocirct apregraves les lignes droites elle enseigne en prioriteacute lrsquousage du compasrdquo (ibid p 5)

A traduccedilatildeo de Silvio Ferri jaacute trazia essa interpretaccedilatildeo agrave I 1 4 ldquola geometria dagrave molti aiuti allrsquoarchitettura

e per prima cosa insegna oltre la retta lrsquouso del compassordquo (Vitruvio Architettura p 91) Eacute o que vecirc

tambeacutem na traduccedilatildeo de Ferri para I 2 2 ldquola scenografia egrave lo schizzo della facciata e dei lati in iscorcio

colla convergenza di tutte le linee al centro del compassordquo (Vitruvio Architettura p 115) 127 Cf Gaffiot FldquoDictionnaire Latin Franccedilaisrdquo p 289 128 Gros P ldquoLe rocircle de la scaenographia dans les projets architecturaux du deacutebut de lrsquoEmpire Romainrdquo

p 252 129 Agrave adumbratio cenograacutefica eacute difiacutecil natildeo notar algum eco do grego σκιαγραφία (skiagraphiacutea) designando

a perspectiva mas tambeacutem o logro da pintura cf Chantraine P ldquoDictionnaire eacutetymologique de la

langue grecque Histoire des motsrdquo p 1017 Para Gros adumbratio consiste na transcriccedilatildeo latina do

termo grego (Gros P ldquoLe rocircle de la scaenographia dans les projets architecturaux du deacutebut de lrsquoEmpire

Romainrdquo n 30 p 248)

145

edifiacutecios nas pinturas das cenas e figuradas frontalmente em alinhamento planar

pareccedilam ora afastadas ora proeminentes 130

Eacute preciso ter em mente que embora as passagens guardem alguma

proximidade estatildeo inseridas em situaccedilotildees diversas no De Architectura A explicaccedilatildeo de

scaenographia do Livro I estaacute presente na definiccedilatildeo de dispositio uma das partes da

arquitetura O excerto presente no Livro VII refere-se aos comentaacuterios tratando da

execuccedilatildeo da cena (scaena) Vitruacutevio escreve ali que Agatarco foi o primeiro a deixar um

comentaacuterio sobre a cena que fez para uma trageacutedia de Eacutesquilo a partir do que

Demoacutecrito e Anaxaacutegoras teriam escrito sobre o mesmo assunto ndash as pinturas das

cenas131

Em seu comentaacuterio Fleury adverte baseado nos estudos de R A Tybout que

embora haja alguma concordacircncia terminoloacutegica entre as passagens elas se baseiam

em sistemas de perspectiva diferentes e de eacutepocas distintas de modo que apenas no

Livro I haveria a convergecircncia em um uacutenico ponto para todas as linhas que tomam

parte no arranjo132 De fato apenas na primeira temos algo como ldquoad circinique centrum

omnium linearum responsusrdquo que aliado a abscedentium adumbratio passa a ideia de

convergecircncia em um ponto Por outro lado o ldquocerto loco centro constitutordquo da segunda

natildeo exclui a constituiccedilatildeo de outros centros agrave mesma cena

Ainda que a noccedilatildeo de responsus na definiccedilatildeo de scaenographia do Livro I

implique relaccedilatildeo de medidas e talvez ateacute proporccedilatildeo marca uma mudanccedila

terminoloacutegica face agraves outras duas formas de disposiccedilatildeo Pois agrave ichnographia diz-se

ldquomodice continens ususrdquo e agrave orthorgraphia diz-se ldquomodiceque picta rationibusrdquo A regulaccedilatildeo

130 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre VII (VII pref 11) p 5-6 ldquooporteat ad aciem oculorum radiorumque

extentionem certo loco centro constituto lineas ratione naturali respondere uti de incerta re certae imagines

aedificiorum in scaenarum picturis redderent speciem et quae in directis planisque frontibus sint figurata alia

abscendentia alia prominentia esse uideanturrdquo 131 Segundo Marie-Theacuteregravese Cam ainda que Agatarco natildeo tenha sido o primeiro a produzir uma scaena

eacute preciso atentar para a afirmaccedilatildeo vitruviana de que ele teria sido o primeiro a escrever sobre ela Sobre

essa questatildeo e as menccedilotildees de Demoacutecrito e Anaxaacutegoras cf Cam M-T in Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo

Livre VII n 1-5 p 58-60 132 Fleury Ph in Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre I n 16 p 111

146

meacutetrica mais estrita (modice) parece dar lugar agrave correspondecircncia expressa por

responsus em continuidade a uma gradaccedilatildeo que vai de forma (na ichnographia) passa a

imago picta e operis futuri figura (na orthorgraphia) ateacute adumbratio (na scaenographia)

Jaacute eacute possiacutevel identificar a distacircncia que se instaura entre a noccedilatildeo vitruviana de

scaenographia procedimento graacutefico compreendido pela disposiccedilatildeo (dispositio)

tomando qualitativamente a elaboraccedilatildeo da obra e a σκηνογραφία (skenographiacutea) que

procura corrigir as deformaccedilotildees impostas ao olho ndash preocupaccedilatildeo que natildeo eacute alheia ao

De Architectura embora ali natildeo receba esse nome como se verifica nas prescriccedilotildees das

adiectiones A adumbratio que caracteriza a scaenographia vitruviana revela jaacute pelo

vocabulaacuterio que a apresenta uma imprecisatildeo maior que as outras duas espeacutecies de

disposiccedilatildeo (orthographia e ichnographia) O sombreado da scaenographia destoa das

formae que Vitruacutevio promete ao fim do livro para as prescriccedilotildees da ecircntase133 da coluna

e do estiloacutebata134 Como vimos no Livro III as colunas angulares devem receber um

acreacutescimo da quinquageacutesima parte de seu diacircmetro para que natildeo apresentem aos

espectadores um aspecto mais esguio do que conveacutem jaacute que o ar ldquoas consomerdquo ao

redor135 Do mesmo modo a variaccedilatildeo das contraturas das colunas satildeo regradas

numericamente em relaccedilatildeo agraves alturas conformando um ajuste oacutetico (haec autem propter

altitudinis interuallum scandentis oculi species adiciuntur crassitudinibus temperaturae)136

Tais procedimentos que modificam a composiccedilatildeo da obra conforme a vista que se tem

dela assemelham-se muito aos remeacutedios para os enganos dos olhos (πρὸς ὄψιν) de que

se falava no fragmento de autoria controversa ldquoergo quod oculus fallit ratiocinatione est

exaequandumrdquo137 Entretanto os ajustes meacutetricos natildeo se confundem com o sombreado

ou com a scaenographia vitruviana que se distinguem portanto do conjunto de

133 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III (III 3 13) p 21 Cf n 48 supra 134 Ibid (III 4 5) p 23-24 Cf n 56 supra 135 Ibid (III 3 11) p 19 Cf n 32 136 Ibid (III 3 13) p 20-21 Traduccedilatildeo ldquopor causa da distacircncia dos raios visuais ao olho (oculi species)

que se eleva em altura esses ajustes (temperaturae) satildeo adicionados (adiciuntur) agraves espessurasrdquo 137 Cf n 33 supra

147

intenccedilotildees que de acordo com o excerto grego era dito perfazer ldquoo cenograacuteficordquo (τὸ

σκηνογρφικόν)

37 Obra isolada e conjunto edificado

As regras preconizadas no Livro Terceiro procurando harmonizar as medidas

do edifiacutecio agrave visatildeo dizem respeito agrave obra tomada como unidade ao fazer concordar o

ritmo produzido pelo aspecto dos membros Com isso agrave cada estrato do templo ndash base

colunas e epiacutestilio ndash eram preceituados ajustes levando em consideraccedilatildeo a montagem

junto aos elementos construtivos conexos mas ao mesmo tempo constituindo

gradualmente o conjunto completo da composiccedilatildeo considerada a partir do exterior

pela pressuposiccedilatildeo reiterada de um espectador (aspicientibus)138 tantas vezes

apresentado metonimicamente pelos olhos que contemplam a obra139

As relaccedilotildees entre os edifiacutecios natildeo satildeo abordadas no Livro dos Templos

enquanto o Primeiro Volume exibe preocupaccedilotildees com a constituiccedilatildeo dos recintos

urbanos (moenia) primeiramente do ponto de vista dos princiacutepios de salubridade pela

escolha do lugar e sua inserccedilatildeo geograacutefica topograacutefica suas implicaccedilotildees teacutermicas e de

insolaccedilatildeo Observadas as questotildees sanitaacuterias e garantidas as possibilidades de

abastacimento pela produccedilatildeo de alimentos e comunicaccedilatildeo por vias de acesso e rios

vecircm as preocupaccedilotildees com a defesa por meio da construccedilatildeo de torres e muralhas Entre

as muralhas a orientaccedilatildeo das ruas deve obedecer criteacuterios quanto agrave propagaccedilatildeo dos

ventos Soacute entatildeo satildeo expostas as recomendaccedilotildees quanto agrave implantaccedilatildeo de obras

puacuteblicas os edifiacutecios sagrados os foros e demais lugares comuns Mas a eleiccedilatildeo dos

locais se indica ad opportunitatem isto eacute segundo vantagens praacuteticas que possam

138 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III (III 3 11) p 19 Cf n 32 supra 139 Cf ibid (III 3 13) (III 4 5) (III 5 9) (III 5 13)

148

oferecer140 Assim aos templos de Jove Juno e Minerva devem ser reservados os

lugares mais elevados para que possam ser avistados pela maior extensatildeo possiacutevel da

cidade delimitada com as muralhas O templo de Mercuacuterio deve situar-se junto ao

foro o de Iacutesis e Seraacutepis junto ao empoacuterio Os de Apolo e Liacutebero devem ficar proacuteximos

do teatro e o de Heacutercules junto ao circo quando natildeo houver ginaacutesio nem anfiteatro O

de Marte deve situar-se fora da cidade e o de Vecircnus junto ao porto Vitruacutevio remete

ainda aos escritos dos aruacutespices etruscos que teriam revelado as justificativas para que

os templos de Vecircnus Vulcano e Marte fossem implantados fora das muralhas141 o da

deusa para natildeo acostumar os adolescentes e matildees de famiacutelia ao desejo amoroso

(ueneria libido) o de Vulcano estando afastado livra do temor de que edifiacutecios sejam

incendiados com a evocaccedilatildeo do poder do deus por meio de sacrifiacutecios fora dos muros

o templo de Marte evitaraacute luta armada entre os cidadatildeos defendendo a cidade dos

perigos beacutelicos impostos pelos inimigos E aiacute Vitruacutevio encerra as recomendaccedilotildees ao

estabelecimento da urbe no Livro I sem pormenores quanto agraves relaccedilotildees dos edifiacutecios

entre si em sua instalaccedilatildeo

Entretanto os eixos visuais dos complexos arquitetocircnicos parecem ter sido uma

preocupaccedilatildeo dos arquitetos antigos Fazendo um balanccedilo dos estudos sobre as casas

de Pompeacuteia e Herculano Pierre Gros afirma que ldquonatildeo seria possiacutevel compreender a

ordenaccedilatildeo dessas habitaccedilotildees sem restituir os circuitos sabiamente propostos ao

olharrdquo142 Mas tal prospectus ou visatildeo que se daacute atraveacutes de uma abertura seja do interior

para o exterior seja atravessando determinado elemento da construccedilatildeo (como um

140 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre I (I 7 1) p 41 ldquodiuisis angiportis et plateis constitutis arearum

electio ad opportunitatem et usum communem ciuitatis est explicanda aedibus sacris foro reliquisque locis

communibusrdquo Traduccedilatildeo ldquodivididas as ruelas e constituiacutedas as avenidas a escolha das aacutereas agraves

oportunidades e ao uso comum da cidade deve ser estendida em seus criteacuterios para os templos sagrados

o foro e restantes lugares comunsrdquo 141 Ibid (I 7 1) p 41 ldquoid autem etiam Etruscis haruspicibus disciplinarum scripturis ita est dedicatum extra

murum Veneris Volcani Martis fanardquo Traduccedilatildeo quanto a isso ainda os aruacutespices etruscos mostraram

nos escritos de suas disciplinas que os santuaacuterios de Vecircnus Vulcano e Marte devem se situar fora das

muralhasrdquo Vale notar aqui como as declaraccedilotildees dos aruacutespices satildeo tomadas por Vitruacutevio a partir de um

ponto de vista natildeo religioso 142 Gros P ldquoLe rocircle de la scaenographia dans les projets architecturaux du deacutebut de lrsquoEmpire Romainrdquo

p 242

149

intercoluacutenio)143 tambeacutem pode ser verificado em construccedilotildees puacuteblicas o foro flaviano

de Bolsena pelo corredor enviesado possibilitaria uma visatildeo obliacutequa do conjunto a

Porticus Absidata de Roma pela planta trapezoidal em vez de retangular possibilitaria

a sua visatildeo desde a via Argileto o foro severiano de Lepcis Magna guardaria ldquocertas

dissimetrias planimeacutetricasrdquo no intuito de agenciar linhas visuais144

Avaliar em que medida tais princiacutepios identificados nas disposiccedilotildees de

edificaccedilotildees privadas poderiam ter orientado o estabelecimento de conjuntos urbanos

eacute o que propotildee estudo de Lise Bek145 A autora detecta nas plantas de casas e vilas

romanas a ausecircncia de uma ordem geomeacutetrica estrita como escopo A casa de

Menandro em Pompeia e a Vila de Adriano em Tiacutevoli constituiriam exemplos desse

procedimento146 Quartos contiacuteguos voltados ao jardim e ao peristilo diferem quanto

agraves dimensotildees internas e das aberturas do mesmo modo a colunata que se lhes

antepotildee Isso fica ainda mais evidente no plano das vilas que pela aacuterea maior a ser

ocupada chegam a transmitir a impressatildeo de uma ocupaccedilatildeo aleatoacuteria dadas as

separaccedilotildees e agrupamentos dos cocircmodos147 afirma Bek procurando ainda confirmar

sua interpretaccedilatildeo com as descriccedilotildees feitas por autores latinos dessas modalidades de

edificaccedilotildees De fato a carta de Pliacutenio o Jovem a Domiacutecio Apolinaacuterio retrata com

grande vivacidade a vila de Toscana Embora posterior e com finalidade diacutespar148 a

terminologia empregada por Pliacutenio o Jovem chega a coincidir com aquela presente

no De Architectura149 relativamente agraves preocupaccedilotildees com o clima do siacutetio em que se

143 Gros P ldquoLe rocircle de la scaenographia dans les projets architecturaux du deacutebut de lrsquoEmpire Romainrdquo

n 5 p 242 144 Ibid p 244 145 Bek L ldquolsquoVenusta speciesrsquo A Hellenistic Rhetorical Concept as the Aesthetic Principle in Roman

Townscaperdquo 146 Ibid p 140 147 Ibid p 140 148 Com a descriccedilatildeo Pliacutenio o Jovem pretende expor ldquoas condiccedilotildees do clima a situaccedilatildeo do lugar as

amenidades da vila o que seraacute para ti uma alegria ouvir e para mim relatarrdquo Em latim ldquotemperiem caeli

regionis situm uillae amoenitatem quae et tibi auditu et mihi relatu iucunda eruntrdquo (Pline Le Jeune ldquoLettresrdquo

V 6 1 p 62) 149 Pliacutenio o Jovem escreve do clima da vila de Toscana ldquoaestatis mira clementia Semper aer spiritu aliquo

mouetur frequentius tamen auras quam uentos habetrdquo (Pline Le Jeune ldquoLettresrdquo V 6 5 p 63) ndash traduccedilatildeo

ldquoo veratildeo eacute de uma suavidade admiraacutevel O ar sempre se move por algum sopro mas as brisas satildeo mais

150

deve inserir a aacuterea a ser edificada Mas as congruecircncias natildeo se resumem aos cuidados

na inserccedilatildeo geograacutefica quanto agrave ventilaccedilatildeo e agrave insolaccedilatildeo ou quanto agraves facilidades de

acesso e abastecimento150 alcanccedilando ainda o propoacutesito de deleitar o interlocutor com

a descriccedilatildeo da vista ldquoteraacutes o maior prazer se avistares a situaccedilatildeo desse lugar a partir

do monterdquo151 Essa sentenccedila de Pliacutenio o Jovem reforccedila a conjectura de Rose endossada

e reinvindicada por Gros para a liccedilatildeo de I 2 6 do De Architectura segundo a qual se

deve ler ldquoprospectusrdquo no lugar em que mesmo ediccedilotildees recentes deixam passar um

ldquoperfectusrdquo152 que parece natildeo se encaixar bem na sentenccedila153 ldquosi enim interiora prospectus

habuerint elegantesrdquo154 Ora tendo sido o decor definido pouco antes como ldquoo aspecto

frequentes que os ventosrdquo e ainda ldquoubi aquae plurimum palus nullardquo (ibid V 6 11 p 64) ndash traduccedilatildeo

ldquolaacute onde as aacuteguas satildeo abundantes e natildeo haacute pacircntanordquo Exatamente os mesmos termos spiritus aura e

uentus eram empregados por Vitruacutevio no Livro I ao advertir sobre os malefiacutecios das regiotildees pantanosas

ldquodeinde si uitabitur palustris uicinitas Cum enim aurae matutinae cum sole oriente ad oppidum peruenint et his

ortae nebulae adiungentur spiritusque bestiarum palustrium uenenatos cum nebula mixtos in habitatorum

corpora flatu spargent efficient locum pestilentemrdquo (Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre I - I 4 1 - p 21) ndash

traduccedilatildeo ldquoentatildeo a vizinhanccedila de pacircntanos seraacute evitada Pois quando as brisas matutinas chegarem ao

oacutepido com o sol nascente e se unirem a essas neacutevoas ali originadas tornaratildeo o lugar pestilento e os

sopros envenenados das bestas palustres misturados agrave neacutevoa aspergiratildeo exalaccedilotildees aos corpos dos

habitantesrdquo e ainda nas orientaccedilotildees subsequentes que levam em conta o veratildeo (aestas) ldquoper aestatem

caelum meridianum sole exoriente calescitrdquo (ibid I 4 1 p 21) ndash traduccedilatildeo ldquodurante o veratildeo o quadrante

sul se aquece desde o nascer do solrdquo Nesta aproximaccedilatildeo terminoloacutegica natildeo se deve perder de vista

todavia que Vitruacutevio apresenta as recomendaccedilotildees agrave instalaccedilatildeo da urbe (moenia) e Pliacutenio o Jovem

descreve uma vila em especial Ainda assim a familiaridade dos criteacuterios eacute surpreendente sobretudo

pelo o caraacuteter ameno (iucunditas) da epiacutestola em contraste ao caraacuteter teacutecnico e didaacutetico do escrito

vitruviano cf Vitruve (V pref 1) 150 Pliacutenio o Jovem aponta a proximidade ao rio que permite o abastecimento da vila no inverno ldquomedios

ille [Tiberis] agros secat nauium patiens omnisque fruges deuehit in urbem hieme dumtaxat et uererdquo (Pline Le

Jeune ldquoLettresrdquo V 6 12 p 64) ndash traduccedilatildeo ldquoele [o rio Tibre] atravessa os campos e passiacutevel de

navegaccedilatildeo transporta toda sorte de frutos ao menos no inverno e na primaverardquo Preocupaccedilatildeo essa

registrada por Vitruacutevio ldquocum [] regionesque electae fuerint fructibus ad alendam ciuitatem copiosae et uiarum

munitiones aut opportunitates fluminum []rdquo (Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre I - I 5 1 - p 28) ndash

traduccedilatildeo ldquo[] e [quando] as regiotildees escolhidas forem abundantes em frutos para alimentar a cidade e

tiverem rotas viaacuterias ou bem oportunidades de rios []rdquo 151 Pline Le Jeune ldquoLettresrdquo (V 6 13) p 64 ldquomagnam capies uoluptatem si hunc regionis situm ex monte

prospexerisrdquo 152 Proveniente do manuscrito H Granger opta pela substituiccedilatildeo de perfectus por prospectus na ediccedilatildeo

Loeb (Vitruvius Vol I p 28) Ferri e Fleury mantecircm perfectus 153 Gros P ldquoLe rocircle de la scaenographia dans les projets architecturaux du deacutebut de lrsquoEmpire Romainrdquo

n 5 p 242 154 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre I (I 2 6) p 17 ldquosi enim interiora perfectus habuerint elegantesrdquo

Segundo a proposiccedilatildeo de Gros e Rose ldquosi enim interiora prospectus habuerint elegantesrdquo Traduccedilatildeo ldquose os

interiores produzirem uma perspectiva eleganterdquo

151

irrepreensiacutevel tomado das partes aprovadas compostas com autoridaderdquo155 resta que

prospectus parece alinhar-se plenamente ao sentido do trecho de Vitruacutevio ao mesmo

tempo em que se elucida pela passagem de Pliacutenio quando expotildee um modo de

apreender a vila A descriccedilatildeo do edifiacutecio da Toscana revela o agrado promovido pelos

efeitos sensoriais produzidos E Pliacutenio o Jovem completa a cena em que propotildee a

Domiacutecio avistar do monte aquele siacutetio ldquonatildeo veraacutes terras mas discerniraacutes como que

uma figura pintada de extraordinaacuteria beleza com tal variedade com tal conformaccedilatildeo

que onde quer que os olhos recaiam revigorar-se-atildeordquo156 A vila eacute descrita a seguir na

parte baixa do monte mas permitindo uma visatildeo como se estivesse no topo ldquouilla in

colle imo sita prospicit quasi ex summordquo157 A ascensatildeo suave anestesia os sentidos no

percurso intensificando o efeito ao final pois a vila ldquose eleva tatildeo leve e

imperceptivelmente por uma inclinaccedilatildeo falaz que sem que julgues subir sentiraacutes ter

subidordquo158

A vila de Toscana tem uma vista como que do cume (uilla prospicit quasi ex

summo) Vale depreender da narraccedilatildeo o ponto de vista a partir do qual satildeo

reconhecidos os atributos da edificaccedilatildeo que natildeo satildeo predominantemente externos agrave

obra ou incluem a posiccedilatildeo interior com importacircncia na variedade do arranjo

relacionando-a ao lugar (situs) Haacute uma rara ocasiatildeo no De Architectura em que

Vitruacutevio prevecirc a disposiccedilatildeo de um conjunto de edificaccedilotildees tendo por finalidade a

visatildeo a ser proporcionada Trata-se de passagem do Livro Quinto

satildeo quatro as colunas no lado menor no sentido da largura da nave central inclusas as

de acircngulo agrave direita e agrave esquerda no lado maior no sentido do comprimento que fica

proacuteximo ao foro satildeo oito inclusas as mesmas colunas de acircngulo no lado oposto com

as angulares satildeo seis porque as duas do meio natildeo satildeo postas nessa parte para natildeo

155 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre I (I 2 5) p 16 ldquodecor autem est emendatus operis aspectus probatis

rebus conpositi cum auctoritaterdquo 156 Pline Le Jeune ldquoLettresrdquo (V 6 13) p 64 ldquoneque enim terras tibi sed formam aliquam ad eximiam

pulchritudinem pictam uideberis cernere ea uarietate ea descriptione quocumque inciderint oculi reficienturrdquo 157 Ibid (V 6 14) p 64 Traduccedilatildeo ldquoa vila situada no sopeacute da colina tem uma vista como que do topordquo 158 Ibid (V 6 14) p 64-65 ldquoita leuiter et sensim cliuo fallente consurgit ut cum ascendere te non putes sentias

ascendisserdquo

152

impedir a visatildeo (aspectus) do pronau do templo de Augusto disposto no ponto meacutedio

da face da parede (in medio latere) da basiacutelica visando o centro do foro (spectans medium

forum) e o templo de Juacutepiter 159

O que se tem na passagem eacute a descriccedilatildeo do expediente que constitui a basiacutelica

de Fano pela supressatildeo de duas colunas no lado maior da planta retangular levando

em conta a relaccedilatildeo a ser estabelecida entre o templo de Augusto (abside contiacutegua agrave

basiacutelica que a intercepta perpendicularmente no lado maior)160 e o templo de Juacutepiter

Com o espaccedilo livre do foro interpondo-se aos dois edifiacutecios resta que as instruccedilotildees

fornecidas no De Architectura preveem uma conexatildeo agraves obras Vitruacutevio estabelece

portanto um liame visual entre o templo de Augusto inserido no lado maior da

basiacutelica e o templo de Juacutepiter O primeiro mira (spectans) o segundo por um campo

visual que atravessa o foro Uma das duas linhas de colunas do poacutertico interno da

basiacutelica perpendiculares ao templo de Augusto e situadas no lado maior da planta

retangular sofre reduccedilatildeo do par de colunas centrais para natildeo impedir a visatildeo

(aspectus) do anexo edificado A relaccedilatildeo proporcionada entre os templos eacute menos a que

se caracteriza pelo estabelecimento de um eixo visual uacutenico do que a de um campo de

visatildeo que vincula os dois templos comportando muacuteltiplos eixos dentro de um

determinado espectro Pressupor um eixo visual uacutenico tornaria pois desnecessaacuteria a

exclusatildeo das duas colunas jaacute que este poderia se dar pelo intercoluacutenio central

O texto vitruviano natildeo poderia ser mais claro quanto agraves motivaccedilotildees que

governam o edifiacutecio a comportar simultaneamente basiacutelica e templo Sua organizaccedilatildeo

formal eacute tributaacuteria de um intento de dar aos olhos uma composiccedilatildeo que natildeo trata

apenas de excluir as duas colunas centrais mas tambeacutem de realizar uma distribuiccedilatildeo

especial das vigas desviadas para acompanhar o templo de Augusto que se insere

159 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre V (V 1 7) p 6 ldquocolumnae sunt in latitudine testudinis cum

angularibus dextra ac sinistra quaternae in longitudine quae est foro proxima cum isdem angularibus octo ex

altera parte cum angularibus VI ideo quod mediae duae in ea parte non sunt positae ne impediant aspectus pronai

aedis Augusti quae est in medio latere parietis basilicae collocata spectans medium forum et aedem Iouisrdquo 160 Cf Saliou C in Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre V n 2 p 148

153

como prolongamento no lado maior da planta retangular da basiacutelica161 Mas se no Livro

III os ajustes visuais de todas as partes do templo eram prescritos no detalhe das

proporccedilotildees no Livro V as alteraccedilotildees propostas com vistas ao aspectus natildeo recebem a

mesma pormenorizaccedilatildeo Coincidecircncia ou natildeo trata-se de um momento singular do De

Architectura em que satildeo consideradas as posiccedilotildees relativas das edificaccedilotildees de um

conjunto arquitetocircnico Por outro lado os elementos constitutivos da basiacutelica

propriamente dita englobando o templo de Augusto ndash que se confunde com o

tribunal162 ndash satildeo descritos em suas metragens detalhadas nave central poacuterticos

abside colunas pilastras vigas etc Para Pierre Gros se Vitruacutevio natildeo apresenta

qualquer especificaccedilatildeo numeacuterica a essa abertura advinda da exclusatildeo das duas

colunas ao contraacuterio do que faz com todos as outras partes da basiacutelica isso significa

que essas dimensotildees satildeo deduzidas durante a construccedilatildeo e natildeo previamente

determinadas163 Eacute preciso ter em mente que a basiacutelica de Fano eacute apresentada como

obra em que Vitruacutevio afirma ter sido o responsaacutevel (collocaui curauique faciendam) Natildeo

estariacuteamos portanto diante de uma preceituaccedilatildeo geral mas do registro da aplicaccedilatildeo

dos princiacutepios (aliaacutes apresentados logo antes) em uma situaccedilatildeo concreta E a

especificidade desse quadro uacutenico teria possibilitado o arranjo que decide suprimir

precisamente duas colunas Os ajustes construtivos entre as edificaccedilotildees que compotildeem

um conjunto parecem assim depender menos de preceituaacuterio preacutevio do que do

acumen do arquiteto

161 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre V (V 1 8) p 6 ldquosupra columnas ex tribus tignis bipedalibus

compactis trabes sunt circa collocatae eaeque ab tertiis columnis quae sunt in interiore parte reuertuntur ad antas

quae a pronao procurrunt dextraque et sinistra hemicyclium tanguntrdquo Traduccedilatildeo ldquosobre as colunas satildeo

colocadas traves compostas pela reuniatildeo de trecircs vigas de dois peacutes cada uma e essas traves a partir das

terceiras colunas voltam-se em direccedilatildeo agraves pilastras que avanccedilam do pronau e tocam o recinto

semicircular agrave direita e agrave esquerdardquo 162 Cf Saliou C in Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre V n 1 p 150 163 Gros P ldquoLe rocircle de la scaenographia dans les projets architecturaux du deacutebut de lrsquoEmpire Romainrdquo

p 254

154

38 Acumen eurythmia symmetria

Vitruacutevio falava dos mathematici no Livro Primeiro como aqueles a quem a

natureza concedeu elevada soleacutercia agudeza (acumen) e memoacuteria164 No Terceiro

Volume poreacutem Vitruacutevio atribui agrave aguda e elevada soleacutercia de Hermoacutegenes a fineza

da disposiccedilatildeo do pseudodiacuteptero165 O Livro VI que trata da ediliacutecia privada oferece

valiosa elucidaccedilatildeo do conceito de acumen e sua relaccedilatildeo com a symmetria

nenhum cuidado tomado pelo arquiteto deve ser maior do que garantir aos edifiacutecios

exatidotildees nas regras pelas proporccedilotildees relacionadas a uma parte determinada (ratae

partis) Uma vez estabelecido esse sistema de comensurabilidades (symmetriarum) e

desenvolvidas as comensuraccedilotildees (conmensus) segundo esses criteacuterios entatildeo conveacutem

igualmente agrave agudeza (acuminis) prover ajustes por subtraccedilotildees ou adiccedilotildees

considerando a natureza do lugar ou o uso ou a vista Ao se subtrair ou ao se adicionar

agrave symmetria a conformaccedilatildeo pareceraacute justa e o aspecto em nada deixaraacute a desejar166

As remissotildees ao Livro Terceiro satildeo inequiacutevocas quanto a evocaccedilatildeo de conceitos

como proportio rata pars symmetria commensus temperatura E mesmo quando

aparecem como expressotildees verbais variantes ndash tal eacute o caso de rationum exactiones que

retoma a exacta ratio do final de III 1 1167 O Livro dos Templos ensinava que a

164 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre I (I 1 17) p 13 ldquoquibus uero natura tantum tribuit sollertiae

acuminis memoriae [] praetereunt officia architectorum et efficiuntur mathematicirdquo Traduccedilatildeo ldquoaqueles a

quem a natureza conferiu tamanha soleacutercia agudeza e memoacuteria [] ultrapassaram o campo de deveres

dos arquitetos e se tornaram matemaacuteticosrdquo 165 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III (III 3 9) p 18 ldquoquare uidetur acuta magnaque sollertia effectus

operum Hermogenes fecisserdquo Traduccedilatildeo ldquopor isso vecirc-se que pela aguda e elevada soleacutercia Hermoacutegenes

realizou tais feitos nessas obrasrdquo 166 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre VI (VI 2 1) p 11-12 ldquonulla architecto maior cura esse debet nisi uti

proportionibus ratae partis habeant aedificia rationum exactiones Cum ergo constituta symmetriarum ratio fuerit

et conmensus ratiocinationibus explicati tum etiam acuminis est proprium prouidere ad naturam loci aut usum

aut speciem ltdetractionibus autgt adiectionibus temperaturas ltetgt efficere cum de symmetria sit detractum aut

adiectum uti uideatur recte esse formatum in aspectuque nihil desidereturrdquo 167 Sobre as aproximaccedilotildees terminoloacutegicas e de conceitos entre VI 1 2 e III 1 1 cf comentaacuterios de

Callebat L in Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre VI n 1-5 p 88-90 Conveacutem apenas apontar aqui a

diferenccedila de grafia entre conmensus de VI 2 1 e commensus de III 1 2 e de III 1 4 Essa variaccedilatildeo natildeo

implicaria mudanccedila no significado do termo uma vez que tais grafias satildeo tomadas como equivalentes

Gaffiot por exemplo remete as palavras que possuem o prefixo conm- ao grupo comm- (Gaffiot

FldquoDictionnaire Latin Franccedilaisrdquo p 396)

155

symmetria constitui o fundamento da composiccedilatildeo arquitetocircnica que deve ser dotada

de comensurabilidades em similitude agravequelas presentes entre os membros de um

homem bem configurado pela natureza Relaccedilotildees proporcionais que garantiram

louvores sem fim aos notoacuterios pintores e estatuaacuterios de outrora168 e que poderatildeo

afianccedilar aos templos elogios eternos Se a symmetria deve tomar parte em toda sorte de

edificaccedilatildeo nos edifiacutecios sagrados o esmero deve ser maacuteximo pois uma vez que eles

costumam perdurar mais que as outras obras estatildeo expostos natildeo soacute aos elogios mas

aos vitupeacuterios sem fim Daiacute a ecircnfase que se deposita agrave symmetria no Livro dos Templos

Daiacute tambeacutem as recomendaccedilotildees que abarcam desde a firmeza (firmitas) na base do

templo169 ateacute os frequentes ajustes (temperaturae)170 que adicionam medidas para

promover encanto aos olhos171

O Livro Sexto que deixa preceitos sobre as edificaccedilotildees privadas noticia que eacute a

partir da agudeza (acuminis) que se pode salvaguardar o aspecto agradaacutevel da obra

por meio de subtraccedilotildees e adiccedilotildees agrave trama de symmetria A elaboraccedilatildeo proporcional que

subjaz necessariamente agrave obra excelente mostra-se maleaacutevel Pronta a dar e a receber

quantidades de moacutedulos os nuacutemeros que a constituem dizem respeito menos a uma

mera abstraccedilatildeo do que ao raciociacutenio transformado em obra que se adequa ao lugar ao

uso e encanta os olhos Vitruacutevio diraacute pouco a frente (VI 2 4) que a natureza do lugar

requer subtraccedilotildees e adiccedilotildees (detractiones aut adiectiones) agrave completude da obra com a

expressatildeo ldquoad locorum naturasrdquo que retoma a precauccedilatildeo anterior de VI 2 1 (ad naturam

loci) relativamente agraves comensurabilidades A adequaccedilatildeo da obra ao uso (ad usum)

remete agrave correta disposiccedilatildeo no lugar da regiatildeo escolhida mas tambeacutem agrave aptidatildeo ao

gecircnero de obra apropriado e agrave distribuiccedilatildeo comedida dos recursos conforme se lecirc no

168 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III (III 1 2) p 6-7 ldquoreliqua quoque membra suas habent commensus

proportiones quibus etiam antiqui pictores et statuarii nobiles usi magnas et infinitas laudes sunt adsecutirdquo

Traduccedilatildeo ldquoseus demais membros possuem igualmente comensuraccedilotildees proporcionais a partir do uso

das quais ainda os antigos pintores e ceacutelebres estatuaacuterios alcanccedilaram elevados e infinitos elogiosrdquo 169 Cf ibid (III 4 1) p 21 170 Cf ibid (III 3 13) p 20-21 171 Cf n 138 supra

156

Livro I172 o esmero da obra para com os olhos (ad speciem) deve ser observado pois ldquoa

visatildeo persegue as venustidadesrdquo173 E para Vitruacutevio eacute claro que os olhos se enganam174

pois escreve que a visatildeo de algo proacuteximo natildeo condiz com a visatildeo dessa mesma coisa

estando em altura elevada175 Nas cenas pintadas tem-se a impressatildeo de que os

elementos retratados ocupam posiccedilotildees diferentes alguns parecem estar agrave frente

outros ao fundo mas se sabe que tudo estaacute no plano da tabula sobre a qual se pinta

diz o arquiteto176 Recorrendo a uma imagem que haveria ainda de ter longa fortuna

no campo da filosofia instrui-nos que o remo de um barco quando submerso parece

quebrado mostrando-se perfeito fora drsquoaacutegua177 E conclui

portanto como coisas verdadeiras podem parecer falsas e outras podem ser apreciadas

pelos olhos diferentemente do que satildeo natildeo estimo que se possa duvidar de que

subtraccedilotildees e adiccedilotildees devem ser realizadas em face da natureza de um lugar ou das

necessidades de modo que nada nas obras deixe a desejar178

Essa passagem evidencia o que fora posto em praacutetica no relato da supressatildeo de

duas colunas da basiacutelica de Fano que leva em consideraccedilatildeo uma particularidade do

lugar composto por edificaccedilotildees singulares Mas o texto vai aleacutem e elucida porque essa

172 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre I (I 3 2) p 20 ldquo[ratio] utilitatis autem ltcum fuerintgt emendata et

sine inpeditione usus locorum dispositio et ad regiones sui cuiusque generis apta et commoda distributiordquo

Traduccedilatildeo ldquoo princiacutepio da utilidade seraacute obtido quando houver uma correta disposiccedilatildeo e o uso sem

obstaacuteculos dos lugares em suas regiotildees bem como uma distribuiccedilatildeo apta segundo o gecircnero e

comedidardquo 173 Cf n 43 supra 174 Cf n 33 supra 175 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre VI (VI 2 2) p 12 ldquoalia enim ad manum species esse uidetur alia in

excelsordquo Traduccedilatildeo ldquopois tem-se uma visatildeo do que estaacute proacuteximo agraves matildeos outra do que estaacute elevadordquo 176 Ibid (VI 2 2) p 12 ldquoquemadmodum etiam in scaenis pictis uidentur columnarum proiecturae mutulorum

ecphorae signorum figurae prominentes cum sit tabula sine dubio ad regulam planardquo Traduccedilatildeo ldquodo mesmo

modo tambeacutem nas cenas pintadas veem-se as projeturas das colunas os relevos dos muacutetulos as

saliecircncias da configuraccedilatildeo das estaacutetuas ainda que a prancha [sobre a qual se pinta] seja sem duacutevida

planardquo 177 Ibid (VI 2 2) p 12 ldquosimiliter in nauibus remi cum sint sub aqua directi tamen oculis infracti uidenturrdquo

Traduccedilatildeo ldquode modo semelhante os remos retos das naves quando submersos parecem no entanto

quebrados aos olhosrdquo 178 Ibid (VI 2 4) p 12-13 ldquocum ergo quae sunt uera falsa uideantur et nonnulla aliter quam sunt oculis

probentur non puto oportere esse dubium quin ad locorum naturas aut necessitates detractiones aut adiectiones

fieri debeant sed ita uti nihil in his operibus desidereturrdquo

157

modificaccedilatildeo em particular natildeo recebe prescriccedilotildees mais pormenorizadas para que se

alcance esses resultados eacute preciso agudeza de engenho e natildeo apenas doutrina179

O Livro Sexto estabelece ainda uma sequecircncia conectando symmetria ndash que

deteacutem a precedecircncia ndash decor e eurythmia

Portanto primeiramente deve-se estabelecer o sistema de comensurabilidades

(symmetriae) em relaccedilatildeo ao qual sem duacutevida satildeo empreendidas alteraccedilotildees

(commutatio) depois as distacircncias de comprimento e largura no solo (imum spatium

longitudinis ltet latitudinisgt) satildeo determinadas no local da futura obra e uma vez

constituiacuteda a magnitude que seu aparato (apparatio) siga essa proporccedilatildeo conforme o

decoro (decor) de modo que o aspecto (aspectus) da eurythmia natildeo seja considerado

incerto por aquele que contempla (considerantibus)180

Resta inequiacutevoca a previsatildeo das alteraccedilotildees (commutatio) que o sistema de

symmetria inicialmente estabelecido deve sofrer Segundo se lecirc no Sexto Volume a

eurythmia reveste pois symmetria e decor de uma aspecto que natildeo oscila ao incerto

ajustado que estaacute completamente ao olho

Mas se atenccedilatildeo ao visiacutevel era uma preocupaccedilatildeo recorrente no Livro Terceiro a

agudeza (acumen) natildeo era reivindicada ao arquiteto naquele volume jaacute que

apresentava o exemplum do ritmo eustilo como fiador de auctoritas agrave obra pela

ambulatio Expunha ainda os feitos de Hermoacutegenes arquiteto de soleacutercia maior que

teria constituiacutedo como que as fontes a serem hauridas pelos poacutesteros181 Porque entatildeo

solicitar do arquiteto acumen no Livro Sexto se em relaccedilatildeo aos templos Vitruacutevio

reunira os preceitos e exemplos mais excelsos prescindindo desse atributo Os

179 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre VI (VI 2 4) p 13 ldquohaec autem etiam ingeniorum acuminibus non

solum doctrinis efficiunturrdquo Traduccedilatildeo ldquoessas coisas natildeo satildeo realizadas apenas com as doutrinas mas pela

agudeza de engenhordquo 180 Ibid (VI 2 5) p 13 ldquoigitur statuenda est primum ratio symmetriarum a qua sumatur sine dubitatione

commutatio deinde explicetur operis futuri locorum imum spatium longitudinis ltet latitudinisgt cuius cum

semel constituta fuerit magnitudo sequatur eam proportionis ad decorem apparatio uti non sit considerantibus

aspectus eurythmiae dubiusrdquo 181 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III (III 3 9) p 18 A soleacutercia do arquiteto grego natildeo era apenas

elevada mas aguda ldquoacuta magnaque sollertiardquo

158

edifiacutecios sagrados tendem a perdurar muito mais e estatildeo menos sujeitos agraves

contigecircncias que rondam as demais construccedilotildees puacuteblicas mas especialmente as

construccedilotildees privadas Pierre Gros menciona um episoacutedio transmitido por Suetocircnio

em que Ceacutesar manda destruir uma vila receacutem construiacuteda simplesmente porque ela

natildeo correspondia agrave imagem evocada antes pelos esquemas planimeacutetricos as formae182

Expostas ateacute mesmo aos caprichos pessoais as edificaccedilotildees privadas natildeo contam com

o rigor do preceituaacuterio dos templos sujeitos agraves ldquolaudes et culpae aeternaerdquo183 A exposiccedilatildeo

elegante de Vitruacutevio nesse quesito absorve as adequaccedilotildees contingenciais pertinentes agrave

circunscriccedilatildeo do decor e em observacircncia ao domiacutenio do usus Assim as alteraccedilotildees

(commutatio) proporcionais previstas no Livro VI pela agudeza (acumen) do arquiteto

contemplam as acomodaccedilotildees requeridas pela especificidade do lugar e da situaccedilatildeo a

exemplo dos procedimentos peculiares descritos no Livro V de implementaccedilatildeo das

vistas da basiacutelica de Fano (com a abside do templo de Augusto spectans)

As symmetriae instituiacutedas por Hermoacutegenes se desdobram na disposiccedilatildeo

exemplar do pseudodiacuteptero a qual promete auctoritas ao arquiteto pelo aspectus da

impressatildeo de relevo que o claro-escuro produz entre coluna e vatildeo no pteroma por

assim dizer de poacutertico estendido As minuacutecias prescritas no Livro III procuram

garantir o bom efeito da obra agrave vista como tambeacutem a supressatildeo das duas colunas da

basiacutelica de Fano intentam garantir o aspectus do pronau do Templo de Augusto ainda

que natildeo sejam prescritas as medidas desse arranjo singular Igualmente o Livro das

Domus estende o foco das atenccedilotildees ao aspectus nesse momento explicitamente

associado agrave eurythmia que regula o horizonte da symmetria engendrada pela

proporccedilatildeo Natildeo eacute agrave toa que no Livro Primeiro eurythmia seja definida antes da

symmetria embora esta esteja na base (aedium compositio constat ex symmetria) da

concepccedilatildeo da obra pelo agenciamento meacutetrico que conduz Por isso tambeacutem o Livro

dos Templos daacute ecircnfase na symmetria e natildeo no acumen ndash preciacutepua ela agraves disposiccedilotildees

182 Gros P ldquoLe rocircle de la scaenographia dans les projets architecturaux du deacutebut de lrsquoEmpire Romainrdquo

n 21 p 246 Sueacutetone apud Gros op cit ldquoquid non tota ad animum ei responderatrdquo 183 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III (III 1 4) p 8 Cf n 168

159

exemplares das edificaccedilotildees que aspiram agrave eternidade Venusta species a eurythmia quer

saber de harmonizar convenientemente altura largura e comprimento em

correspondecircncia muacuteltipla agrave symmetria

Eacute possiacutevel ver finalmente que a scaenographia em Vitruacutevio diz respeito

unicamente aos dispositivos graacuteficos que conclamam a consecuccedilatildeo das premissas

norteadoras da arquitetura aliando fabrica e ratiocinatio A σκενογραφία (skenographiacutea)

grega tal como nos chegou pelo fragmento anocircnimo ao propor que a tarefa do

arquiteto se resume ao ajuste eurriacutetmico da obra coincide apenas em parte agraves

propostas vitruvianas que elevam frequentemente a importacircncia dos olhos inserida

todavia em arranjos complexos que levam em conta variados fatores na composiccedilatildeo

da arquitetura

CONCLUSAtildeO

161

CONCLUSAtildeO

Dirigindo-se com o calor da amplificaccedilatildeo epidiacutetica ao Imperator Caesar

destinaacuterio natildeo soacute excelente como numinoso Vitruacutevio adverte no frontispiacutecio do De

Architectura que a majestade do poder de Roma podia se fazer ainda mais elevada se

contasse com as egreacutegias autoridades (egregias auctoritates) das edificaccedilotildees puacuteblicas

Vantagens benefiacutecios e utilidades puacuteblicas satildeo atributos esperados das obras1

condensados na noccedilatildeo de opportunitas advinda dessa empresa (de opportunitate

publicorum aedificiorum) Agrave frente no Primeiro Volume satildeo explicadas as divisotildees da

arquitetura e a inserccedilatildeo da opportunitas no campo de accedilatildeo dessa arte

as partes da proacutepria arquitetura satildeo trecircs edificaccedilatildeo gnomocircnica mecacircnica A edificaccedilatildeo

eacute ainda dividida em duas partes das quais uma consiste em locar as fortificaccedilotildees e as

obras comuns em lugares puacuteblicos a outra no desenvolvimento de edificaccedilotildees privadas

Quanto agraves distribuiccedilotildees das obras puacuteblicas satildeo trecircs das quais uma diz respeito agrave defesa

outra agrave religiatildeo e uma terceira agraves oportunidades (opportunitas) Os meacutetodos concebidos

para a defesa com muros torres e portas devem impedir continuamente os ataques de

inimigos para a religiatildeo envolvem a localizaccedilatildeo dos santuaacuterios e dos templos sagrados

dos deuses imortais para as oportunidades destinam-se agrave disposiccedilatildeo dos lugares

comuns ao uso puacuteblico de modo que sejam demarcados os portos foros poacuterticos

1 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre I (I pref 2) p 2-3 ldquocum uero adtenderem te non solum de uita

communi omnium curam publicaeque rei constitutione habere sed etiam de opportunitate publicorum

aedificiorum ut ciuitas per te non solum prouinciis esset aucta uerum etiam ut maiestas imperii publicorum

aedificiorum egregias haberet auctoritates non putaui praetermittendum quin primo quoque tempore de his rebus

ea tibi ederem []rdquo Traduccedilatildeo ldquocomo notei tua preocupaccedilatildeo natildeo soacute com a vida comum a todos e a

organizaccedilatildeo da Repuacuteblica mas ainda com as vantagens advindas das construccedilotildees puacuteblicas de modo

que Roma natildeo fosse por ti ampliada apenas com proviacutencias e sim para que a majestade do poder

recebesse a autoridade das egreacutegias edificaccedilotildees puacuteblicas julguei que natildeo devia deixar passar o primeiro

momento para apresentar estes volumes a ti []rdquo

162

banhos teatros passeios cobertos e outras coisas que sigam os mesmos princiacutepios em

lugares puacuteblicos2

Essa primeira ocorrecircncia de opportunitas apoacutes aquela do Prefaacutecio refere-se a

uma das trecircs partes em que satildeo divididas as construccedilotildees puacuteblicas (defesa religiatildeo e

oportunidades) Vecirc-se que a concepccedilatildeo abarca as implantaccedilotildees das obras nos lugares

comuns para uso puacuteblico desde os portos ateacute os passeios cobertos O termo

opportunitas aparece ainda no Livro I com emprego um tanto diverso desse primeiro

associado agrave disponibilidade de rios para o abastecimento dos recintos urbanos

portanto quando por meio dessas regras for possiacutevel garantir salubridade ao

desenvolvimento do recinto a ser disposto e as regiotildees escolhidas forem abundantes

em frutos para alimentar a cidade e tiverem rotas viaacuterias ou bem oportunidades de

rios ou conduccedilatildeo por portos mariacutetimos para facilidade nos transportes ateacute o recinto

urbano entatildeo os fundamentos das torres e das muralhas assim devem ser feitos []3

Nesse caso opportunitas fluminum mostra um uso da noccedilatildeo que engloba a oferta

natural de rios Se as construccedilotildees dos portos satildeo artifiacutecios humanos e jaacute haviam sido

elencados em I 3 1 entre as construccedilotildees puacuteblicas com vistas agrave opportunitas por outro

lado a opportunitas fluminum eacute um dado fiacutesico e conta com a atuaccedilatildeo do homem

apenas na eleiccedilatildeo da melhor regiatildeo irrigada por rios a se estabelecer a urbe Nisso

divergem os empregos do termo em I 3 1 e I 5 1 de resto em ambos haacute o sentido da

ocasiatildeo favoraacutevel no primeiro pelas vantagens advindas das benfeitorias puacuteblicas no

recinto urbano no segundo pelas escolhas adequadas que prezam as condicionantes

fiacutesicas do lugar a receber a urbe Outro ponto de contato eacute que nas duas ocorrecircncias

2 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre I (I 3 1) p 19-20 ldquopartes ipsius architecturae sunt tres aedificatio

gnomonice machinatio Aedificatio autem diuisa est bipertito e quibus una est moenium et communium operum

in publicis locis conlocatio altera est priuatorum aedificiorum explicatio Publicorum autem distributiones sunt

tres e quibus est una defensionis altera religionis tertia opportunitatis Defensionis est murorum turriumque et

portarum ratio ad hostium impetus perpetuo repellendos excogitata religionis deorum inmortalium fanorum

aediumque sacrarum conlocatio opportunitatis communium locorum ad usum publicum dispositio uti portus

fora porticus balnea theatra inambulationes ceteraque quae isdem rationibus in publicis locis designanturrdquo 3 Ibid (I 5 1) p 27-28 ldquocum ergo his rationibus erit salubritatis [in] moenium conlocandorum explicatio

regionesque electae fuerint fructibus ad alendam ciuitatem copiosae et uiarum munitiones aut opportunitates

fluminum seu per portus marinae subuectiones habuerint ad moenia comportationes expeditas tunc turrium

murorumque fundamenta sic sunt facienda []rdquo

163

existe a preocupaccedilatildeo em viabilizar as condiccedilotildees para a vida comum dos habitantes do

ponto de vista das facilidades que tornam o conviacutevio mais cocircmodo ndash foros poacuterticos

banhos teatros etc ndash e das necessidades baacutesicas ndash pelas vias de transporte que

permitem o abastecimento e o comeacutercio Eacute de se destacar tambeacutem que a opportunitas

fluminum eacute uma preocupaccedilatildeo que antecede a construccedilatildeo das torres e muralhas que

estabelecem os limites fiacutesicos da urbe4 inserindo-se apoacutes as previsotildees feitas com vistas

agrave salubridade como a eleiccedilatildeo de um local para a implantaccedilatildeo da moenia e suas

orientaccedilotildees em relaccedilatildeo ao clima5

Haacute ainda no Livro I uma menccedilatildeo agrave opportunitas ligada agrave escolha das aacutereas de

uso comum da cidade para os templos sagrados o foro entre outros ldquodivididas as

ruelas e constituiacutedas as avenidas a escolha das aacutereas agraves oportunidades e ao uso comum

da cidade deve ser estendida em seus criteacuterios para os templos sagrados o foro e

restantes lugares comunsrdquo6 Aqui a opportunitas vinculada aos edifiacutecios puacuteblicos

sucede as regras de arruamento expostas anteriormente e orientadas pelas questotildees

climaacuteticas em especial pelos ventos Do que se depreende que a noccedilatildeo eacute apresentada

frequentemente em proximidade agraves regras que atentam para as necessidades mais

baacutesicas ao estabelecimento das cidades chegando ateacute a coincidir com elas no caso dos

rios (opportunitas fluminum)

O prefaacutecio ao Livro II se inicia com uma breve narrativa do encontro entre o

arquiteto macedocircnio Dinoacutecrates e o rei Alexandre Confiante de suas ideias e soleacutercia

(cogitationibus et sollertia fretus) Dinoacutecrates deixou sua paacutetria cuacutepido por obter a

confianccedila do soberano e servi-lo Recorreu inicialmente agrave intervenccedilatildeo daqueles que

4 Segundo Maciel o termo moenia designa ldquomuralhas recinto fortificado e por metoniacutemia cidaderdquo

(Maciel M J in Vitruacutevio ldquoTratado de arquiteturardquo n 101 p 81) E oppidum significa cidade fortificada

ldquoem Vitruacutevio essa palavra parece ser sinocircnima de moenia e de ciuitas [] Por sua vez o termo ciuitas

lsquocidadersquo sublinha o conceito juriacutedico da cidade como ponto de referecircncia para os cidadatildeos Por vezes

Vitruacutevio usa o termo urbs lsquourbersquo para se referir agrave cidade ainda que mais raramente porque de fato

para os romanos a Vrbs por excelecircncia era Romardquo (Ibid n 18 p 64) 5 Cf Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre I (I 4 1-12) p 20-27 6 Ibid (I 7 1) p 41 ldquodiuisis angiportis et plateis constitutis arearum electio ad opportunitatem et usum

communem ciuitatis est explicanda aedibus sacris foro reliquisque locis communibusrdquo

164

pudessem facilitar seu acesso ao ciacuterculo de Alexandre mas como as promessas

tardavam em surtir efeito decidiu ele proacuteprio ir se encontrar com o governante Para

isso despiu-se ungiu o corpo com oacuteleo coroou-se com um ramo de choupo tal qual

Heacuteracles cobriu o ombro com uma pele de leatildeo empunhou uma clava na destra e

avanccedilou ao tribunal onde o rei ditava a lei Chamando a atenccedilatildeo dos que laacute estavam

fez-se notar a Alexandre que admirado ordenou que lhe dessem lugar e interrogou

quem era Entatildeo o arquiteto apresentou-se e expocircs os planos que tinha

trago a ti ideias e desenhos dignos de tua celebridade Pois pensei em dar ao Monte Atos

a forma de uma estaacutetua viril em cuja matildeo esquerda demarquei as muralhas de uma cidade

ampliacutessima na destra uma paacutetera que recebesse a aacutegua de todos os rios existentes naquele

monte de modo que de laacute fosse vertida ao mar7

Vitruacutevio escreve que Alexandre se deleitou com a proposiccedilatildeo da forma (ratio

formae) mas imediatamente questionou se havia ao redor campos para o cultivo de

gratildeos (frumentaria ratio) que pudessem suprir as necessidades dos cidadatildeos Vendo

logo que essas provisotildees soacute poderiam ser feitas por transporte mariacutetimo Alexandre

falou ao macedocircnio

observo a egreacutegia composiccedilatildeo dessa forma e me deleito com ela mas advirto que se

algueacutem conduzir uma colocircnia ateacute esse local seraacute vituperado por essa decisatildeo Pois

assim como um receacutem-nascido sem amas de leite natildeo pode ser nutrido nem atingir os

estaacutegios de crescimento da vida do mesmo modo uma cidade sem campos e sem os

frutos deles que chegam ao interior de suas muralhas natildeo pode crescer nem ter uma

populaccedilatildeo numerosa sem abundacircncia de alimentos e natildeo se pode manter o povo sem

provisotildees Assim do mesmo modo que estimo a forma aprovada julgo o lugar

reprovado Mas quero tecirc-lo comigo porque utilizarei teus serviccedilos8

7 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre II (II pref 2) p 2 ldquoad te cogitationes et formas adfero dignas tuae

claritati Namque Athon montem formaui in statuae uirilis figuram cuius manu laeua designaui ciuitatis

amplissimae moenia dextra pateram quae exciperet omnium fluminum quae sunt in eo monte aquam ut inde in

mare profundereturrdquo 8 Ibid (II pref 2) p 2 ldquoattendo egregiam formae compositionem et ea delector sed animaduerto si qui deduxerit

eo loco coloniam fore ut iudicium eius uituperetur Vt enim natus infans sine nutricis lacte non potest ali neque

ad uitae crescentis gradus perduci sic ciuitas sine agris et eorum fructibus in moenibus affluentibus non potest

crescere nec sine abundantia cibi frequentiam habere populumque sine copia tueri Itaque quemadmodum

165

Essa sucinta narrativa que inaugura o prefaacutecio do Livro II retoma questotildees

abordadas nas partes do Primeiro Volume que tratam da implantaccedilatildeo dos recintos

urbanos em especial a importacircncia da copiosidade de frutos na regiatildeo eleita9 Mas

natildeo se trata de mera reiteraccedilatildeo dos postulados anteriores Apesar da censura agrave escolha

do lugar haacute algo na proposta de Dinoacutecrates que interessa ao soberano (teque uolo esse

mecum quod tua opera sum usurus) Se dos planos para o Monte Atos o cuidado no

aprovisionamento de gratildeos (frumentaria ratio) foi reprovado a forma proposta (ratio

formae) causou deleite e permitiu que o arquiteto fosse aceito para acompanhaacute-lo ao

Egito encarregado da construccedilatildeo da cidade de Alexandria em uma regiatildeo dotada de

um porto naturalmente protegido um mercado de destaque campos cultivaacuteveis e as

enormes vantagens do rio Nilo Eacute preciso sublinhar que segundo o texto vitruviano

todos esses recursos decisivos foram vislumbrados por Alexandre (ibi Alexander cum

animaduertisset)10

Nesse excerto insiste-se sobre os atributos fiacutesicos de Dinoacutecrates ldquode amplissiacutema

estatura semblante agradaacutevel conformaccedilatildeo e dignidade da mais elevadardquo11 por meio

dos quais pocircde obter a confianccedila do soberano ldquoassim recomendado pelo semblante e

pela dignidade do corpo Dinoacutecrates alcanccedilou aquela notoriedaderdquo12 Vitruacutevio por

outro lado oferece de si uma descriccedilatildeo que se opotildee agraves qualidades do macedocircnio ldquoa

mim poreacutem Imperator a natureza natildeo atribuiu estatura a idade deformou o

semblante a condiccedilatildeo precaacuteria de sauacutede subtraiu as forccedilasrdquo13 O vocativo ldquoImperatorrdquo

indica natildeo soacute o destinataacuterio da interlocuccedilatildeo mas o procedimento discursivo que se

constroacutei pois Vitruacutevio aspira ele proacuteprio agrave aprovaccedilatildeo mas natildeo pelas qualidades do

corpo e sim pela scientia nos preceitos que expotildee ldquopor conseguinte jaacute que sou

formationem puto probandam sic iudico locum improbandum Teque uolo esse mecum quod tua opera sum

usurusrdquo 9 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre I (I 5 1) p 27-28 Cf n 3 supra 10 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre II (II pref 4) p 3 11 Ibid (II pref 1) p 1 ldquofuerat enim amplissima statura facie grata forma dignitateque summardquo 12 Ibid (II pref 4) p 3 ldquoita Dinocrates a facie dignitateque corporis commendatus ad eam nobilitatem peruenit 13 Ibid (II pref 4) p 3 ldquomihi autem imperator staturam non tribuit natura faciem deformauit aetas ualetudo

detraxit uiresrdquo

166

desprovido do apoio desses atributos espero com o auxiacutelio da ciecircncia e dos escritos

(scriptaque) alcanccedilar a tua recomendaccedilatildeordquo14 Fica evidente que Vitruacutevio tem em vista

os preceitos propostos por meio de seus escritos (scripta) E se pelo contraste com a

figura de Dinoacutecrates rebaixa ainda mais a compleiccedilatildeo do proacuteprio corpo eacute para elevar

ao maacuteximo o corpus da preceptiva que prescinde das formae de quem quer que seja

porque lastreada na scientia ldquoa ciecircncia (scientia) do arquiteto eacute ornada de muitas

disciplinas e variadas instruccedilotildeesrdquo15 declarava-se no iniacutecio do Primeiro Volume Quem

mais indicado a prescrever as regras da arte do que aquele que se destaca no que mais

interessa A baixa estatura a compleiccedilatildeo disforme e a sauacutede deacutebil contribuem na

construccedilatildeo da auctoritas do autor da doutrina

Se na breve narrativa quem se distingue eacute Dinoacutecrates o papel mais importante eacute

ocupado por Alexandre aquele que sabe avaliar os riscos de um plano que ao primar

pela forma atraente (ratio formae) descuida de pontos estrateacutegicos fundamentais

(relacionados agrave frumentaria ratio) Eacute ainda o soberano que encontra na bacia do Nilo um

lugar adequado ao futuro estabelecimento da cidade Vitruacutevio desprovido de summa

forma mas imbuiacutedo de erudiccedilatildeo e de auctoritas sinalizara no primeiro exoacuterdio para a

opportunitas nas construccedilotildees puacuteblicas (de opportunitate publicorum aedificiorum) e ao

longo do Primeiro Volume mostrou que se tratava justamente daquilo que na faacutebula

Dinoacutecrates negligenciava Ao contraacuterio de Alexandre nos assuntos pertinentes agrave arte

o Imperator conta com as praescriptiones terminatas de Vitruacutevio auctor

Eacute claro que o assunto natildeo se encerra aiacute Se a forma de Dinoacutecrates serve de

contraponto agrave estatura que Vitruacutevio reivindica ao escrito haacute ainda que se explicar a

apreciaccedilatildeo da ratio formae por parte de Alexandre Pois o talhe de Dinoacutecrates

despertara a atenccedilatildeo mas natildeo seria o bastante para fazer dele arquiteto do rei (teque

uolo esse mecum quod tua opera sum usurus) Conveacutem entatildeo retomar alguns pontos A

14 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre II (II pref 4) p 3 ldquoitaque quoniam ab his praesidiis sum desertus

per auxilia scientiae scriptaque ut spero perueniam ad commendationemrdquo 15 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre I (I 1 1) p 4

167

opportunitas16 de que falava o primeiro exoacuterdio era explicada agrave frente no Livro I17 como

uma das trecircs partes das obras puacuteblicas ao lado da defesa e da religiatildeo O Livro V eacute o

que trata das obras comuns18 e vale aqui resgatar agrave memoacuteria a descriccedilatildeo nele contida

da basiacutelica de Fano cuja construccedilatildeo esteve aos cuidados de Vitruacutevio responsaacutevel

ainda por suas disposiccedilotildees patenteando a mais elevada dignidade e venustidade

(summa dignitas et uenustas)19 As colunas de cinquenta peacutes de altura ininterrupta

acrescentavam ainda magnificecircncia e sobretudo autoridade (auctoritas) agrave obra No

Livro IV Vitruacutevio conta que tendo jaacute posse de provisotildees em maacutermore preparadas para

realizar um templo doacuterico Hermoacutegenes mudou os planos e com o mesmo material fez

um templo jocircnico ao deus Liacutebero ldquonatildeo porque a vista do gecircnero doacuterico natildeo seja

venusta ou a forma natildeo seja digna mas porque eacute difiacutecil e incocircmoda a distribuiccedilatildeo dos

triacuteglifos e lacunaacuterios a serem repartidos na obrardquo20 Resta enfim que eacute na exposiccedilatildeo

das regras para os templos jocircnicos do Livro III que se encontram as disposiccedilotildees mais

excelentes distinguindo-se dos demais gecircneros de edifiacutecios sagrados e ainda servindo

16 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre I (I pref 2) p 2 Cf n 1 supra 17 Ibid (I 3 1) p 19-20 Cf n 2 supra 18 Ao final do Livro IV lecirc-se ldquoexplicatis aedium sacrarum compositionibus in hoc libro insenquenti de

communium operum reddemus distributionibus explicationesrdquo (Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre IV - IV

9 1 - p 32) Traduccedilatildeo ldquotendo sido expostas as composiccedilotildees dos templos sagrados nesse livro no

seguinte ofereceremos as explicaccedilotildees para as distribuiccedilotildees das obras comunsrdquo Do mesmo modo que no

prefaacutecio ao proacuteprio Livro V ldquoitaque Caesar tertio et quarto uolumine aedium sacrarum rationes exposui hoc

libro publicorum locorum expediam dispositiones Primumque forum uti oporteat constitui dicam quod in eo et

publicarum et priuatarum rerum rationes per magistratus gubernanturrdquo (Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre

V - V pref 5 - p 3) Traduccedilatildeo ldquoe assim Ceacutesar no terceiro e no quarto volume expus as regras dos

templos sagrados neste livro apresentarei as disposiccedilotildees dos lugares puacuteblicos Primeiramente falarei

sobre como conveacutem constituir o foro porque nele satildeo conduzidas as regras tanto dos assuntos puacuteblicos

quanto dos privadosrdquo 19 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre V (V 1 6) p 5 ldquonon minus summam dignitatem et uenustatem

possunt habere comparationes basilicarum quo genere Coloniae Iuliae Fanestri collocaui curauique faciendam

cuius proportiones et symmetriae sic sunt constitutaerdquo Traduccedilatildeo ldquoigualmente a preparaccedilatildeo das basiacutelicas

contaraacute com a mais eminente dignidade e venustidade conforme o gecircnero daquela da Colocircnia Juacutelia de

Fano para a qual propus a disposiccedilatildeo e cuidei da execuccedilatildeo e cujas proporccedilotildees e comensurabilidades

(symmetriae) assim foram estabelecidasrdquo Sobre as dificuldades na interpretaccedilatildeo do termo curaui para

determinar em que medida Vitruacutevio teria sido o responsaacutevel pela obra se na administraccedilatildeo das financcedilas

eou da execuccedilatildeo dos trabalhos cf Saliou C in Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre V n 2 p 139 20 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre IV (IV 3 1) p 14 ldquonon quod inuenusta est species aut genus aut

formae dignitas sed quod inpedita est distributio et incommoda in opere triglyphorum et lacunariorum

distributionerdquo

168

de exemplo a toda aedificatio O templo pseudodiacuteptero feito maior de Hermoacutegenes

reveste-se de auctoritas graccedilas ao aspecto e ao efeito produzido pelo pteroma O eustilo

eacute o modo de maacutexima aprovaccedilatildeo porque a um soacute tempo garante um uso cocircmodo e sem

entraves encanto aos olhos e firmeza na sustentaccedilatildeo da obra reunindo precisamente

as caracteriacutesticas enaltecidas na narrativa sobre Dinoacutecrates e Alexandre A ritmaccedilatildeo

mais excelente tambeacutem estaacute de acordo com a descriccedilatildeo que Ciacutecero faz do navio cujas

partes absolutamente necessaacuterias mais parecem ter sido feitas para o prazer do que

para o desempenho de suas tarefas dada a venustidade proporcionada ao serem

vistas21 E o arpinate chega mesmo a afirmar que as colunas demonstram dignidade

tanto quanto desempenham sua tarefa de suportar as partes do templo Se o Livro III

se volta agraves prescriccedilotildees para o edifiacutecio sagrado e agrave arquitetura tomada unitariamente

o Livro Primeiro procurava captar a benevolecircncia e a atenccedilatildeo do ilustre destinataacuterio jaacute

no exoacuterdio anunciando a autoridade das construccedilotildees puacuteblicas cujas opportunitates

vantagens e benefiacutecios no estabelecimento dos recintos urbanos expunham-se ao longo

do uolumen

No De Architectura firmitas utilitas e uenustas natildeo constituem territoacuterios

estanques muito embora possam ser enunciados separadamente O agenciamento

dessas trecircs esferas compotildee a complexidade e a dificuldade da arte de edificar ao

mesmo tempo em que lega faccedilanhas Assim a estabilidade das construccedilotildees se

conforma agrave conveniecircncia do decoro e do uso ornada pelo aspecto venusto Vitruacutevio

mostra que a vista encantadora passa ao largo do supeacuterfluo conferindo auctoritas agrave

obra no aacutepice de um processo iniciado com a eleiccedilatildeo do lugar Se as preocupaccedilotildees

concernentes agrave ratio uenustatis natildeo se revelam com nitidez no primeiro exoacuterdio com a

21 Ciceacuteron ldquoDe Oratorerdquo Livre Troisiegraveme (III 180) p 73 ldquoquid tam in nauigio necessarium quam latera

quam cauernae quam prora quam puppis quam antennae [quam uela] quam mali Quae tamen hanc habent in

specie uenustatem ut non solum salutis sed etiam uoluptatis causa inuenta esse uideatur Columnae templa et

porticus sustinent tamen habent non plus utilitatis quam dignitatisrdquo Traduccedilatildeo ldquoo que eacute mais necessaacuterio a

um navio do que os flancos o poratildeo a proa a popa as antenas as velas e os mastros Essas partes

oferecem tal venustidade agrave vista que natildeo parecem apenas ter sido inventadas para garantir o bem estar

mas para o prazer As colunas sustentam os templos e os poacuterticos todavia natildeo possuem mais utilidade

do que dignidaderdquo

169

promessa de ascensatildeo da autoridade do poder pela autoridade da ediliacutecia puacuteblica

estatildeo presentes ao longo do escrito mas nitidamente formuladas e justificadas no

Terceiro Volume A auctoritas da arquitetura estaacute relacionada agrave opportunitas das

construccedilotildees puacuteblicas algo de que o soberano natildeo pode descurar mas eacute na agudez da

soleacutercia que o arquiteto inscreve seu nome na pedra construindo venustidades

APEcircNDICES E ANEXOS

171

APEcircNDICE A

ldquoAjustes meacutetricos e variaccedilotildees na arquitetura antigardquo

Fig 1 Curvas na base da face oeste do Pathernon Fonte Goodyear W H ldquoGreek refinements studies in temperamental architecturerdquo p 15

Em estudo sobre a arquitetura grega antiga William Dinsmoor aborda questotildees

da teacutecnica construtiva a partir do que identifica no Parthenon uma consistecircncia nas

proporccedilotildees pouco usual sugerindo um esmero no estudo de sua elaboraccedilatildeo1 Aleacutem

disso o bom estado de preservaccedilatildeo das partes principais desse templo permite

segundo Dinsmoor ldquoanalisar matematicamente aqueles sutis refinamentos quanto ao

desenho e quanto agrave construccedilatildeordquo2 Esse autor entende que algumas irregularidades nas

dimensotildees do Parthenon natildeo se devem a uma espontaneidade construtiva mas a

mudanccedilas do desenho durante a construccedilatildeo como por exemplo ocorre nas

1 Dinsmoor W B ldquoThe architecture of ancient Greecerdquo London B T Batsford Ltd 1950 p 161 2 Ibid p 164

172

dimensotildees dos aacutebacos dos capiteacuteis que possuindo certa medida nas faces sul e oeste

ldquoaparentemente vista como muito pequenardquo foi aumentada na face norte em duas

etapas (teria recebido um aumento em sua porccedilatildeo oeste e um acreacutescimo maior em sua

porccedilatildeo leste) e recebeu finalmente um aumento ainda maior em sua face leste3 Estas

ldquoirregularidades imprevistasrdquo natildeo impedem todavia segundo Dinsmoor a

meticulosa gradaccedilatildeo das meacutetopas que repetiria a impressatildeo de perspectiva produzida

pelas colunas de modo que o ajuste entre triacuteglifo e meacutetopa natildeo ocorre apenas nos

cantos mas se distribui por toda a face e como consequumlecircncia disso ldquonenhum triacuteglifo

em uma fachada estaacute exatamente centralizado sobre a coluna correspondenterdquo4 Para

Dinsmoor algumas das irregularidades no Parthenon resultam de alteraccedilotildees de plano

durante a construccedilatildeo e as discrepacircncias nos espaccedilamentos das colunas devem-se a um

equiacutevoco dos trabalhadores que as centralizaram sobre as juntas do estiloacutebata em vez

de sobre as marcaccedilotildees gravadas dos diacircmetros como ocorre em outros templos5

Acerca desse assunto Roland Martin em conhecida obra sobre materiais e teacutecnicas da

arquitetura grega faz a ressalva

o ritmo da colunata impotildee sua lei igualmente aos acircngulos onde a diminuiccedilatildeo dos entre-

eixos reduz tambeacutem a extensatildeo dos blocos do crepidoma Todavia natildeo se deve exagerar

a rigidez da regra impondo o posicionamento da coluna no centro de uma placa os

exemplos natildeo faltam de situaccedilotildees em que a coluna sobrepotildee uma junta e repousa sobre

duas placas Parthenon templo de Atena Nikeacute na Acroacutepole templo de Atena em

Paestum e numerosos templos na Siciacutelia []6

De todo modo Dinsmoor vecirc na execuccedilatildeo do Parthenon uma precisatildeo

matemaacutetica sem paralelo no que concerne agrave delicadeza das curvas e inclinaccedilotildees

3 Dinsmoor W B ldquoThe architecture of ancient Greecerdquo p 162 4 Ibid p 162 Sobre o problema dos triacuteglifos e meacutetopas cf Robertson D S ldquoArquitectura Griega y

Romanardquo Madrid Catedra 1994 cf Coulton J J ldquoGreek architects at workrdquo p 129 5 Dinsmoor W B ldquoThe architecture of ancient Greecerdquo p 164 6 Martin R ldquoManuel drsquoArchitecture Grecquerdquo mateacuteriaux et techniques vol I Paris Eacuted A E J Picard

1965 p 355-356

173

verticais e horizontais quer no estiloacutebata no entablamento ou nas ecircntases de modo a

se declarar convencido do caraacuteter intencional desses refinamentos

noacutes temos justificativa para tomar esses elementos como refinamentos oacuteticos pois

apesar de certos experimentos modernos terem sido feitos com o propoacutesito de

demonstrar que as ilusotildees oacuteticas a que esses refinamentos deveriam corrigir poderiam

de fato natildeo ter ocorrido noacutes temos todavia evidecircncia definitiva de que os gregos

antigos acreditavam que tais ilusotildees requeriam corretivos e em consequumlecircncia devemos

admitir que tais eram o primeiro propoacutesito de seu emprego7

No entanto eacute surpreendente que a despeito das notiacutecias sobre as adiectiones e

demais ajustes descritos por Vitruacutevio as curvaturas soacute foram observadas em templos

gregos e romanos haacute relativamente pouco tempo Eacute o que atesta William Goodyear em

obra de 1912 dedicada especificamente ao tema8

a descoberta da existecircncia desses refinamentos gregos eacute relativamente recente Eles

eram totalmente desconhecidos dos estudiosos modernos ateacute em torno de 1837 quando

as curvaturas horizontais do Parthenon foram observadas pelo arquiteto inglecircs John

Pennethorne (1808-1888) e pelo arquiteto alematildeo Joseph Hoffer A primeira publicaccedilatildeo

sobre o assunto foi feita pelo uacuteltimo em quatro nuacutemeros da lsquoWiener Bauzeitungrsquo em

1838 com muitos detalhes e numerosas mediccedilotildees cuidadosamente ilustradas9

Hoffer e Pennethorne teriam observado as curvaturas nos templos de modo

independente Ocupando o alematildeo o cargo de arquiteto oficial do receacutem fundado

Reino Grego sob domiacutenio do rei baacutevaro coordena os trabalhos de limpeza e

desobstruccedilatildeo da base do Parthenon o que teria propiciado a identificaccedilatildeo das curvas

inglecircs por seu turno fez as observaccedilotildees paralelamente agrave leitura de Vitruacutevio e chegou

7 Dinsmoor W B ldquoThe architecture of ancient Greecerdquo p 165 8 Segundo Goodyear a expressatildeo ldquoarchitectural refinementrdquo (refinamento arquitetocircnico) havia ateacute entatildeo

se limitado a designar dispositivos construtivos em uso nos templos gregos (W H Goodyear ldquoGreek

refinements studies in temperamental architecturerdquo Yale Yale University Press 1912 p 3) Embora

Penrose seja uma referecircncia importante a Goodyear e provavelmente o pioneiro no estudo sistemaacutetico

desses dispositivos de construccedilatildeo em ldquoAn Investigation of the Principles of Athenian Architecture de

1851 trata cada recurso separadamente (a inclinaccedilatildeo das colunas a ecircntase as curvaturas etc) sem

atribuir um nome comum a esses expedientes 9 Goodyear W H ldquoGreek refinements studies in temperamental architecturerdquo p 3

174

a realizar uma publicaccedilatildeo de tiragem muito restrita em 1844 que antecede um trabalho

maior publicado apenas em 1878

A obra ldquoAn Investigation of the Principles of Athenian Architecturerdquo de

Penrose publicado em 1851 eacute considerada por Goodyear como ldquoa mais sistemaacutetica e

exaustiva descriccedilatildeordquo dos refinamentos dos templos antigos muito embora careccedila de

seacuterias revisotildees em suas teorias e explicaccedilotildees pois

as curvas frequentemente citadas e as uacutenicas reconhecidas por Penrose como

intencionais satildeo as curvas ascendentes em planos verticais (curvas em elevaccedilatildeo) O

anuacutencio de Hoffer em 1838 da existecircncia de curvas no plano (ie em planos

horizontais) cocircncavas para o exterior nas fachadas [fronts] do Parthenon nas linhas

dos capiteacuteis e nos entablamentos e frontotildees (mas natildeo no tiacutempano) tem sido geralmente

negligenciado ou desacreditado porque Penrose sustentou que essas curvas eram

acidentais10

Fig 2 Maison Carreacute em Nicircmes Curva em elevaccedilatildeo na cornija da face oeste

segundo Goodyear Fonte Goodyear W H ldquoGreek refinements studies in temperamental architecturerdquo p 43

10 Goodyear W H ldquoGreek refinements studies in temperamental architecturerdquo p 5

175

Goodyear argumenta que a concavidade em plano horizontal foi detectada em

outros templos de modo a restabelecer o anuacutencio que Hoffer havia feito O estudioso

estadunidense identifica na Maison Carreacutee em Nicircmes templo romano do periacuteodo

imperial curvas convexas para o exterior nos dois lados mais longos A descoberta eacute

confirmada pelos arquitetos responsaacuteveis pelas obras puacuteblicas da cidade de Nicircmes

evidenciando que as curvaturas nas laterais do templo natildeo tinham sido causadas por

uma simples deflexatildeo na cornija devido agrave pressatildeo de cargas do telhado uma vez que

na linha da base das colunas tambeacutem fora constatada a curva A descoberta eacute

importante porque feita em um edifiacutecio romano enquanto ateacute entatildeo as principais

observaccedilotildees de ajustes tinham sido realizadas no Parthenon e em templos gregos

como enfatiza o proacuteprio autor em artigo publicado

esta eacute a primeira observaccedilatildeo de curvas horizontais em uma construccedilatildeo totalmente

romana e prova sua continuaccedilatildeo em um periacuteodo trecircs ou quatro seacuteculos posterior ao que

era previamente conhecido Essa observaccedilatildeo tambeacutem se opotildee agrave corrente pressuposiccedilatildeo

dos arqueoacutelogos de que o periacuteodo imperial foi indiferente a este refinamento ou incapaz

de realizaacute-lo11

Essa descoberta entre outras leva Goodyear a questionar as teorias oacuteticas de

Penrose e dos experts em oacutetica August Thiersch e Guido Hauck argumentando que

os trecircs teoacutericos limitam-se a tratar das curvas em elevaccedilatildeo desconhecendo outros

aspectos das curvaturas Estas podem se apresentar convexas em relaccedilatildeo ao

observador como em Nicircmes e no chamado templo de Posecircidon em Paestum

observado por Jacob Burckhardt12 Podem ainda ocorrer templos com curvas cocircncavas

no plano horizontal e em relaccedilatildeo a um observador externo Eacute o caso do templo de

Egesta observado por Allan Marquand13 mas tambeacutem do templo de Cori em que as

curvaturas foram descobertas por Gustavo Giovannoni cujo levantamento mostra

11 Goodyear W H ldquoA discovery of Greek Horizontal Curves in the Maison Carreacutee at Nicircmesrdquo In

American Journal of Archaeology vol X nordm 1 jan-mar 1895 p 1 12 Goodyear W H ldquoGreek refinements studies in temperamental architecturerdquo p 41-42 13 Ibid p 42

176

ldquoque a curva comeccedila no alinhamento das colunas na plataforma removendo toda

suspeita de acidenterdquo14

Fig 3 4 5 Templo de Heacutercules em Cori cerca de 80 aC Acima agrave esquerda

frontispiacutecio Acima agrave direita curva em elevaccedilatildeo Abaixo esquema das curvas

cocircncavas em Cori Fonte Goodyear W H ldquoGreek refinements studies in temperamental architecturerdquo p 47

48 49

14 Goodyear W H ldquoGreek refinements studies in temperamental architecturerdquo p 48

177

Goodyear aponta assim um equiacutevoco que supostamente se difundiu mesmo entre

renomados teoacutericos da arquitetura como Auguste Choisy F M Simpson e Russell

Sturgis tornando-se um erro ldquopopularrdquo Na esteira de Hoffer Goodyear parece se

inclinar pela tese da exageraccedilatildeo

muito longe de sugerir que as curvas gregas em elevaccedilatildeo tencionassem corrigir um

efeito de arqueamento para baixo ele [Hoffer] supocircs que elas visavam a acentuar e a

exagerar uma curva de caraacuteter exatamente contraacuterio [ao de uma pretendida correccedilatildeo]

aleacutem disso essa curvatura foi adequada e expressamente mencionada por ele como

tendo a aparecircncia oacutetica habitual devido agrave perspectiva15

Para Goodyear portanto de acordo com a experiecircncia oacutetica habitual ldquoas linhas

horizontais acima do niacutevel dos olhos geralmente natildeo parecem arquear-se para baixo

em direccedilatildeo ao centrordquo16 E eacute verdadeiro entatildeo para ele que o efeito oacutetico de

arqueamento para baixo ocorra em superfiacutecies completamentamente planas e

niveladas quando a linha horizontal se encontra abaixo do niacutevel dos olhos ldquoeacute um

efeito de perspectiva curvilinear (e de fato toda perspectiva eacute curvilinear) que toda

superfiacutecie planar abaixo do niacutevel dos olhos deve tender oticamente a ficar cocircncava isto

eacute aparecer remotamente como uma tigela ou um vasordquo17

Mas tomar as curvas dos templos antigos como dispositivo de correccedilatildeo oacutetica de

um suposto arqueamento para baixo seria mesmo um suposiccedilatildeo difundida apenas

entre os modernos Pois o texto de Vitruacutevio era claro ao afirmar que se o estiloacutebata

estivesse em niacutevel pareceria dotado de concavidade18 Goodyear sugere uma saiacuteda

sagaz para a questatildeo supondo que Vitruacutevio esteja se referindo a essa impressatildeo de

concavidade em relaccedilatildeo a um observador que esteja na plataforma do templo e

15 Goodyear W H ldquoGreek refinements studies in temperamental architecturerdquo p 57 16 Ibid p 58 17 Ibid p 58 18 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo (III 4 5) p 23-24 ldquosi enim ad libellam dirigetur alueolatum oculo

uidebiturrdquo Traduccedilatildeo ldquopois se for alinhado em niacutevel pareceraacute cocircncavo ao olhordquo

178

olhando para baixo em direccedilatildeo a ela Essa abordagem contraria a interpretaccedilatildeo usual

de que o observador esteja diante do templo abaixo de sua base A apreensatildeo proposta

para o trecho de Vitruacutevio parece satisfazer a demanda segundo a oacutetica em relaccedilatildeo ao

estiloacutebata mas Goodyear natildeo apresenta lastro textual no De Architectura para a

hipoacutetese em questatildeo Em todo caso ela natildeo parece ao estudioso estar em desacordo

com o que se tem observado nos templos gregos pois ldquotoda a superfiacutecie da plataforma

do Parthenon eacute delicadamente esfeacuterica [] e isso daacute um interesse adicional agrave

interpretaccedilatildeo sugerida da passagem de Vitruacuteviordquo19

E ainda segundo Goodyear no Parthenon ldquosuperfiacutecies ou membros

verdadeiramente perpendiculares satildeo exceccedilotildeesrdquo20 pois todas as colunas das faces se

inclinam para dentro sendo que as colunas de acircngulo possuem inclinaccedilatildeo em

diagonal Se as paredes dos fundos parecem ser os uacutenicos elementos sem inclinaccedilatildeo

as paredes laterais ldquoinclinam-se para dentro mais que as colunasrdquo21 Ateacute mesmos as

antas (antae) pilastras que datildeo continuidade agraves paredes laterais possuem inclinaccedilatildeo

nesse caso para frente As faces verticais dos degraus das plataformas da arquitrave

e do friso inclinam-se para dentro Outros elementos inclinam-se para fora como

acroteacuterios antefixos a face vertical da cornija a face vertical da frente dos aacutebacos Os

batentes das portas aproximam-se ligeiramente agrave medida que ficam mais altos E mais

ndash ldquoas colunas e capiteacuteis do Parthenon satildeo de tamanhos desiguaisrdquo22 ndash o que natildeo implica

para Goodyear em imprecisatildeo mas em ldquovariaccedilotildees sistemaacuteticasrdquo Eacute o que atestam

igualmente os levantamentos de Penrose

a pequena diferenccedila de 0022 em 101 peacutes que aparece entre a largura dos poacuterticos

oriental e ocidental mostra a margem de erro que pode ter surgido da imprecisatildeo da

19 Goodyear W H ldquoGreek refinements studies in temperamental architecturerdquo p 58-59 Goodyear

precisa tambeacutem que ldquoessa impressatildeo equivocada de que as curvas gregas ascendentes em elevaccedilatildeo

intentavam corrigir um efeito de arqueamento deve ter como causa em alguma medida uma

popularizaccedilatildeo acriacutetica da explicaccedilatildeo de Vitruacutevio que de fato natildeo se refere absolutamente agraves linhas do

entablamentordquo (ibid p 59) 20 Ibid p 9 21 Ibid p 9 22 Ibid p 9

179

manufatura no Parthenon noacutes podemos portanto sempre suspeitar de algum desvio

(disturbing cause) quando em somas que tendem agrave uniformidade ou a alguma

proporccedilatildeo oacutebvia uma diferenccedila sensivelmente maior que essa eacute encontrada Com

relaccedilatildeo agrave diferenccedila de 0022 entre as larguras das faces frontais ateacute mesmo reacuteguas de

madeira satildeo passiacuteveis de sofrer variaccedilatildeo dessa magnitude a partir de mudanccedilas na

umidade atmosfeacuterica23

A constataccedilatildeo de irregularidades propositalmente obtidas no Parthenon

produziram perplexidade uma vez que demoraram seacuteculos para serem percebidas ao

mesmo tempo que contrariavam a regularidade esperada agravequele templo dotado de

precisatildeo meticulosa em sua feitura Para demonstrar a intencionalidade dessas

variaccedilotildees Goodyear apresenta duas provas A primeira se refere aos ajustes que as

colunas devem receber sobretudo no primeiro e no uacuteltimo tambor que possuiratildeo uma

face maior que a outra de modo a adequar-se agrave inclinaccedilatildeo do estiloacutebata em que se

assenta e ao capitel que suporta mantendo um eixo vertical de alinhamento Em outras

palavras se uma coluna de base plana for colocada sobre uma base inclinada ela ficaraacute

inclinada Por questotildees de estaacutetica a manutenccedilatildeo da coluna ereta requer um miacutenimo

alinhamento vertical em seu centro de gravidade em relaccedilatildeo agrave sua base Para isso o

tambor recebe ajustes conforme o esquema que Goodyear recolhe de Penrose

Fig 6 Desenho da disposiccedilatildeo dos fustes em escala exagerada mostrando alteraccedilotildees

nos tambores inferior e superior como adequaccedilatildeo agrave curvatura do estiloacutebata e da

arquitrave Fonte Goodyear W H ldquoGreek refinements studies in temperamental architecturerdquo p 17

23 Penrose F C ldquoAn Investigation of the Principles of Athenian Architecturerdquo London Macmillan and

Co 1888 n 1 p 12

180

Outra prova diz respeito agraves juntas dos degraus da plataforma ldquoque satildeo

perpendiculares enquanto os proacuteprios blocos satildeo inclinados Se o assentamento ou a

pressatildeo tivessem causado a curva as juntas se inclinariam para forardquo24

Coulton concorda que o Parthenon tenha sido elaborado com ldquoextrema

precisatildeordquo de modo que a diferenccedila de medida entre os lados paralelos do estiloacutebata eacute

inferior a uma parte para 500025 Mas ao mesmo tempo laacute se verifica uma imprecisatildeo

muito maior na implantaccedilatildeo das colunas que podem apresentar uma variaccedilatildeo de

metade do intercoluacutenio ateacute uma parte em 250 ldquotais variaccedilotildees evitaacuteveis no espaccedilamento

das colunas no miacutenimo foram intencionalmente toleradas e uma vez que elas natildeo

poderiam corrigir qualquer ilusatildeo de oacutetica devem ter tido por intento relaxar

ligeiramente a rigidez da completa regularidaderdquo26 E Coulton conclui o raciociacutenio

inferindo que se esse tiver sido o motivo das variaccedilotildees no espaccedilamento das colunas

entatildeo poderia tambeacutem explicar outras variaccedilotildees na regularidade

Vimos argumentos fortes em defesa da intencionalidade de variaccedilotildees desiguais

e agraves vezes inconstantes de medidas Como entatildeo concatenar essa hipoacutetese com as

prescriccedilotildees de symmetria visando agrave relaccedilatildeo das partes entre si e com o todo Rykwert

capta o aspecto contraditoacuterio entre os chamados refinamentos arquitetocircnicos presentes

nos templos e a sua ordenaccedilatildeo proporcional como a reclamada no De Architectura

ldquoesses ajustes parecem aleacutem disso estar em conflito teoacuterico com a elaborada regulaccedilatildeo

canocircnica da coluna e da trave embora os gregos certamente natildeo pareccedilam considerar

essas duas abordagens como estando em oposiccedilatildeo a despeito de Platatildeordquo27 Rykwert

entende a questatildeo como se esses refinamentos fossem alheios agrave poiesis da construccedilatildeo

acreacutescimos agrave superfiacutecie e natildeo ao que eacute intriacutenseco agrave obra constituindo ldquooutra ordem de

24 Goodyear W H ldquoGreek refinements studies in temperamental architecturerdquo p 17 25 Coulton J J ldquoGreek architects at workrdquo p 109 26 Ibid p 109-110 27 Rykwert J ldquoThe dancing columnrdquo Cambridge The MIT Press 1996 p 226 Eacute preciso notar que essa

passagem atribui a Platatildeo uma posiccedilatildeo avessa aos ajustes que deturpariam as verdadeiras medidas o

que eacute passiacutevel de discussatildeo cf Torrano J A A ldquoEntre catildeo e lobo com sofista por mestrerdquo in Hypnos

nordm 17 ano 11 2ordm sem 2006

181

preocupaccedilotildeesrdquo Mas seraacute mesmo possiacutevel distinguir uma ordenada trama conceitual

de base e um conjunto de acreacutescimos epideacutermicos composto por variaccedilotildees28

Fig 7 Perfis de capitel doacuterico em escala segundo diacircmetro inferior (a) Templo de

Apolo em Corinto aprox 540 a C (b) Templo de Zeus em Oliacutempia aprox 470-460

a C (c) Parthenon em Atenas aprox 447-440 aC (d) Templo de Atena em Tegea

aprox 360 a C Fonte Coulton J J ldquoGreek architects at workrdquo p 103

Quanto a essa questatildeo vale considerar um caso emblemaacutetico reportado por

Coulton e que diz respeito ao capitel doacuterico o qual ldquoem qualquer data consiste de um

aacutebaco quadrado em planta sobre um equino circular em plantardquo29 a porccedilatildeo inferior do

equino ligando-se agrave coluna por saliecircncias em forma de anel que circundam o fuste

28 Cf capiacutetulo 3 ldquoPreceitos para o encantordquo especialmente a seccedilatildeo ldquoAcumen Eurythmia Symmetriardquo 29 Coulton J J Greek architects at workrdquo p 104

182

Mantidas essas caracteriacutesticas o capitel doacuterico sofre mudanccedilas ao longo do tempo

pois a sinuosidade protuberante do equino nos primeiros capiteacuteis parecida com uma

almofada saliente cede lugar agrave ldquoforma de um cone truncadordquo30 nos capiteacuteis mais

tardios intermediados no tempo por outras variaccedilotildees

No entanto Coulton ressalta que ldquoeacute provaacutevel que natildeo existam dois conjuntos

de capiteacuteis doacutericos que possuam precisamente as mesmas proporccedilotildees e perfil de

equino e de fato mesmo em uma construccedilatildeo cuidadosa como o templo de Zeus em

Oliacutempia os capiteacuteis natildeo satildeo exatamente idecircnticosrdquo31 Tais variaccedilotildees seriam fortuitas

ou intencionais Para Coulton as variaccedilotildees em um mesmo grupo de capiteacuteis devem

ser decorrentes da imperfeiccedilatildeo na coacutepia principalmente em se tratando dos templos

do seacuteculo sexto e as variaccedilotildees nos perfis de templos diferentes satildeo mais esperadas

Contudo o templo de Afaia em Egina possui quatro perfis distintos de capiteacuteis com

diferentes tamanhos guardando contudo uma semelhanccedila no traccedilado ldquoa

similaridade geral de todos os quatro perfis eacute oacutebvia entretanto e natildeo haacute razatildeo para

acreditar que as diferenccedilas representem diferentes intenccedilotildees arquitetocircnicasrdquo32 A

interessante conclusatildeo de Coulton aponta desse modo que

a uniformidade do desenho do capitel doacuterico sobre consideraacuteveis aacutereas e periacuteodos eacute

realmente mais surpreendente que as variaccedilotildees e provavelmente se tornou possiacutevel

pela especificaccedilatildeo de cada novo desenho como conjunto de regras proporcionais As

maiores mudanccedilas no perfil do equino devem ter envolvido mudanccedilas nas regras e

outras diferenccedilas na proporccedilatildeo provavelmente tambeacutem envolveram diferentes regras

e portanto diferentes intenccedilotildees arquitetocircnicas33

Assim segundo o estudioso as variaccedilotildees no capitel doacuterico mostrariam que natildeo

haacute algo como uma ldquoevoluccedilatildeo contiacutenuardquo As mudanccedilas mais significativas teriam sido

30 Coulton J J Greek architects at workrdquo p 105 31 Ibid p 105 32 Ibid p 105 33 Ibid p 106-107

183

aquelas ocorridas na proporccedilatildeo do perfil do capitel34 em lugares e eacutepocas particulares

envolvendo alteraccedilatildeo das regras que apenas lentamente teriam se difundido

Essa interpretaccedilatildeo ldquopragmaacuteticardquo segundo as palavras do proacuteprio autor sobre

as variaccedilotildees no perfil do capitel doacuterico visam a oferecer algum suporte acerca da

compreensatildeo dos refinamentos na arquitetura grega uma vez que se justificariam

mais ldquoempiricamenterdquo do que ldquoteoricamenterdquo ldquoeles eram destinados a melhorar a

efetiva aparecircncia da construccedilatildeordquo35 Essas explicaccedilotildees de Coulton sobre as variaccedilotildees no

capitel doacuterico pretendem ldquodar algum suporte para aquele que talvez seja o aspecto

mais sofisticado do desenho do templo grego as pequenas e inesperadas variaccedilotildees na

vertical na horizontal e nas linhas retasrdquo36

Cumpre ainda sublinhar o caraacuteter imperceptiacutevel de certas variaccedilotildees enquanto

tais isto eacute enquanto discrepacircncia de medidas pois conforme resume Goodyear ao

discorrer sobre variaccedilotildees imperceptiacuteveis na Catedral de Pisa fornecendo um exemplo

mais ldquopalpaacutevelrdquo ao expediente dos templos antigos37

o olho que nunca vecirc dimensotildees verdadeiramente iguais como verdadeiramente iguais

a natildeo ser a distacircncias iguais delas natildeo nota portanto as irregularidades que

verdadeiramente existem entre coisas presumivelmente iguais porque essas

irregularidades satildeo atribuiacutedas agraves variaccedilotildees oacuteticas normais de tamanho38

O problema do triacuteglifo de acircngulo eacute resolvido nos templos doacutericos posteriores

com sistemas de contraccedilatildeo que procuravam fazer coincidir tanto quanto possiacutevel a

posiccedilatildeo dos triacuteglifos sobre as colunas pois sendo o nuacutemero daqueles quase o dobro

34 Coulton J J ldquoGreek architects at workrdquo p 107 ldquoas regras de proporccedilatildeo aplicadas com mais ou

menos precisatildeo teriam determinado pontos fixos no perfil do capitel ao qual a curva do equino deveria

ser adaptadardquo 35 Ibid p 108 36 Ibid p 108 37 Goodyear W H ldquoGreek refinements studies in temperamental architecturerdquo p 170-173 Goodyear

se vale da analogia com arquitetura posterior com o intuito de amenizar ou explicar a surpresa diante

da existecircncia de variaccedilotildees natildeo percebidas no templo G em Selinunte 38 Ibid p 170

184

destas39 para um mesmo comprimento da face do templo a divisatildeo natildeo resultaria

coincidente sem ajustes que envolvem ateacute a diminuiccedilatildeo dos intercoluacutenios proacuteximos agrave

coluna de acircngulo40 ldquodeste modo a maioria dos templos gregos do quinto seacuteculo tinha

trecircs diferentes dimensotildees de intercoluacutenios em cada lado ndash a medida normal e dois

intervalos diversamente reduzidos proacuteximos agrave coluna de acircngulordquo41 Essa sorte de

recursos converte-se em um ldquodilemardquo para os arquitetos Koldewey e Puchstein que

segundo Goodyear foram responsaacuteveis pelas mediccedilotildees mais meticulosas e

sistemaacuteticas das ruiacutenas gregas do sul da Itaacutelia uma vez que partiam da ldquopresunccedilatildeo de

que uma simetria puramente formal de arranjo fosse o fim buscado por aqueles

arquitetos da ordem doacuterica que introduziram a contraccedilatildeo espacial das colunas de

acircngulo para regular a relaccedilatildeo dos triacuteglifos com as colunas e com os espaccedilos entre as

colunasrdquo42 Aqueles autores veriam no doacuterico um enorme esforccedilo em busca de

regularidade que natildeo resulta bem sucedido por completo em funccedilatildeo justamente das

variaccedilotildees de medidas que restam nos intercoluacutenios e nas meacutetopas Goodyear identifica

aiacute no entanto a confusatildeo de duas tendecircncias contemporacircneas mas distintas uma

tendecircncia agrave maior precisatildeo das medidas e outra que procura estabelecer relaccedilotildees

espaciais entre triacuteglifos e colunas43 Ele propotildee que a pressuposiccedilatildeo de uma

regularidade formal leva a tal confusatildeo que pode ser desfeita pela noccedilatildeo de ritmo

assumindo-se que os construtores gregos ao estabelecerem uma igualdade aproximada

de relaccedilatildeo na disposiccedilatildeo das colunas e dos triacuteglifos estivessem se empenhando pelo

ritmo em vez da regularidade o dilema desaparece Haacute um inegaacutevel encanto em um

templo grego doacuterico que se deve agrave repeticcedilatildeo e agrave duplicaccedilatildeo do efeito perpendicular das

colunas na linha horizontal do friso Esta repeticcedilatildeo e a duplicaccedilatildeo satildeo encontradas nos

triacuteglifos mas essa relaccedilatildeo riacutetmica com as colunas de modo algum requer uma igualdade

39 Em alguns templos como o Parthenon haacute um triacuteglifo que coincide aproximadamente com o

alinhamento vertical da coluna e outro triacuteglifo no centro do espaccedilo entre duas colunas de modo que o

nuacutemero de triacuteglifos de uma face seja o dobro do nuacutemero de colunas menos um 40 Goodyear W H ldquoGreek refinements studies in temperamental architecturerdquo p 187 No Parthenon

essa reduccedilatildeo se daacute apenas no uacuteltimo intercoluacutenio 41 Ibid p 187 42 Ibid p 187 43 Ibid p 187-188

185

matemaacutetica de medidas correspondentes Uma vez que a posiccedilatildeo mais desejaacutevel do

triacuteglifo de acircngulo fez essa igualdade de medidas impossiacutevel disso natildeo se segue de

modo algum que os construtores gregos do quinto seacuteculo teriam considerado tal

igualdade desejaacutevel se ela pudesse ser obtida44

Assim a constataccedilatildeo da intencionalidade de alguns expedientes construtivos

pode causar certo espanto aos olhos modernos O De Architectura preceitua em seu

Livro Terceiro uma seacuterie de ajustes meacutetricos voltados a todas as partes do templo da

base ao epistiacutelio passando pelas colunas A leitura dessa obra teria despertado a

atenccedilatildeo de Pennethorne agraves curvaturas horizontais do Pathernon segundo Goodyear45

Vitruacutevio indica frequentemente o propoacutesito desses dispositivos de tornar a obra

encantadora agrave visatildeo O registro dessas preocupaccedilotildees permeia o texto em breves

exposiccedilotildees que surgem tatildeo sem alarde a ponto de fazer parecer corriqueiros certos

expedientes construtivos bastante eleborados requerendo enorme destreza na arte e

aumentando consideravelmente o labor A Maison Carreacute em Nicircmes atesta a

pertinecircncia desses recursos aos templos romanos todavia os vestiacutegios de seacuteculos de

edificaccedilatildeo de templos entre os povos de liacutengua grega ampliam as questotildees O uso das

curvas em edifiacutecios sagrados gregos por muito tempo despercebido deixa incertezas

quanto aos seus desiacutegnios na medida em que os remanescentes exibem expedientes

construtivos que ultrapassam as descriccedilotildees do De Architectura uacutenica obra escrita

supeacuterstite do periacuteodo antigo46 As variaccedilotildees intencionais natildeo podem ser

negligenciadas e constituem um polo da discussatildeo em torno da arquitetura antiga Por

outro lado como indicam os estudos de Coulton haacute que se reconhecer o esforccedilo no

estabelecimento de regras construtivas e convenccedilotildees proporcionais que se difundiam

pelos territoacuterios dos povos gregos no alvorecer da arte edificatoacuteria no ocidente a

44 Goodyear W H ldquoGreek refinements studies in temperamental architecturerdquo p 188 45 Ibid p 4 46 O De Architectura data do seacuteculo I aC (cf Romano E ldquoLa capanna e il tempiordquo p 21-26) enquanto

alguns dos templos gregos o antecedem em seacuteculos O Parthenon por exemplo foi construiacutedo no seacuteculo

V a C (cf Dinsmoor ldquoThe architecture of Ancient Greecerdquo p 159-160) Assim entre o De Architectura e

os templos gregos haacute natildeo apenas um vasto lapso temporal mas uma grande diversidade de princiacutepios

arquitetocircnicos sendo desenvolvidos e aplicados nas diferentes localidades

186

uniformidade eacute tambeacutem algo notaacutevel considerando-se sobretudo o processo de

produccedilatildeo inteiramente artesanal No entanto ela natildeo era um fim mas resultava da

aplicaccedilatildeo de certos princiacutepios construtivos que natildeo excluiacuteam ajustes e variaccedilotildees para

tornar a obra admiraacutevel

Fig 8 Face sul do assim chamado Templo de Poseidon em

Paestum Fonte Goodyear W H ldquoGreek refinements studies in temperamental

architecturerdquo p 37

187

APEcircNDICE B

ldquoO Cacircnone de Policleto e a hipoacutetese de Tobinrdquo

O Cacircnone de Policleto preceitua que a beleza (κάλλος) se obteacutem pela symmetria

(συμμετρία) isto eacute pela comensurabilidade das partes entre si e com o todo desse

modo as coacutepias que nos chegaram do Doriacuteforo poderiam fornecer esclarecimentos

acerca dos princiacutepios de que Policleto se valia Justamente no intuito de avaliar a

aplicaccedilatildeo do Cacircnone de Policleto agrave estatuaacuteria eacute que Richard Tobin se pocircs a perscrutar

o Doriacuteforo de Naacutepoles examinando suas possiacuteveis relaccedilotildees com a geometria da eacutepoca

do estatuaacuterio Um conjunto de estudos aponta segundo Tobin a associaccedilatildeo entre o

Cacircnone de Policleto e princiacutepios matemaacuteticos ditos pitagoacutericos tomando ldquoos nuacutemeros

como entidades geomeacutetricas possuindo identidade espacialrdquo1 A partir dessa

premissa o estudioso entendeu ser mais acertado ldquoprocurar por um fundamento

geomeacutetrico em vez de linear para o Cacircnonerdquo2

A proposta de Tobin baseando-se no fragmento transmitido por Galeno eacute que

o ponto de partida do Cacircnone seja a medida da terceira falange ou falange distal do

dedo miacutenimo cujas dimensotildees ndash comprimento e largura ndash determinadas ldquopela

naturezardquo produziriam um retacircngulo um ldquonuacutemero espacialrdquo3 A partir do lado maior

desse retacircngulo Policleto obteria o lado de um quadrado cuja diagonal forneceria o

comprimento do proacuteximo ldquonuacutemero espacialrdquo isto eacute a falange meacutedia O mesmo

1 Tobin R ldquoThe Canon of Polykleitosrdquo p 307 Os eruditos (scholars) a que Tobin alude seguidos dos

trabalhos mencionados H Diels ldquoAntike Technikrdquo C Antiacute ldquoMonumenti Policleteirdquo R Bianchi

Bandinelli ldquoPolicletordquo S Ferri ldquoNuovi contributi esegetici al lsquoCanonersquo della scultura grecardquo L

Stefanini ldquoInspirazione pitagorica del Canone di Policletordquo J E Raven ldquoPoliclytus and

Pythagoreanismrdquo D Schulz ldquoZum Kanon Polykletsrdquo P E Arias ldquoPolicletordquo Th Lorenz ldquoPolykletrdquo

H Von Steuben ldquoPolykletrdquo Para mais detalhes da bibliografia cf ibid n 1 p 307 2 Ibid p 307 3 Ibid p 308

188

procedimento aplicado agrave falange meacutedia resultaria na falange proximal do dedo

miacutenimo A razatildeo que se observa assim entre uma falange e outra seria a mesma e se

aplicaria sucessivamente agraves demais partes do corpo como elencadas em Galeno Esse

conjunto de razotildees constantes produz uma proporccedilatildeo4 Cada razatildeo aproximadamente

igual a 114142 obtida pelo processo baseado na diagonal do quadrado engloba

repetidamente um nuacutemero irracional Mas Tobin argumenta que o valor aritmeacutetico

natildeo eacute necessaacuterio agrave obtenccedilatildeo das grandezas tampouco caacutelculos matemaacuteticos jaacute que o

procedimento praacutetico dar-se-ia facilmente apenas com o auxiacutelio de uma corda

Figura 1 a progressatildeo geomeacutetrica do Cacircnone de Policleto parte da

falange distal segundo hipoacutetese de Tobin Fonte Tobin R ldquoThe Canon of Polykleitosrdquo p 308

4 Tobin chama a atenccedilatildeo para os equiacutevocos interpretativos relacionados aos conceitos gregos de

symmetria proporccedilatildeo e harmonia Lembrando que a razatildeo eacute relaccedilatildeo que ocorre apenas entre dois termos

sua sucessatildeo produz uma proporccedilatildeo a qual em seacuterie garante a symmetria cf Tobin R ldquoThe Canon of

Polykleitosrdquo n 5-7 p 307-308 Sobre as distorccedilotildees produzidas pela traduccedilatildeo de ἀναλογία por proportio

cf Gros P Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III n 3 p 58-59

189

Figura 2 Procedimento praacutetico de estabelecimento das proporccedilotildees com o

uso de corda segundo Tobin Fonte Tobin R ldquoThe Canon of Polykleitosrdquo p 311

Tobin estaria com isso em seu modelo explicativo seguindo a descriccedilatildeo do

cacircnone transmitido por Galeno ao relacionar a falange distal com a falange meacutedia

esta com a falange proximal todas as falanges isto eacute o comprimento de todo o dedo

miacutenimo com a matildeo a matildeo com o antebraccedilo o antebraccedilo com o braccedilo Daiacute em diante

do braccedilo com relaccedilatildeo agraves demais partes do corpo (καί πάντων πρός πάντα) Tobin

propotildee a transferecircncia da medida da parte superior do braccedilo (que vai do cotovelo ateacute

o acrocircmio isto eacute a extremidade superior do ombro) para o tronco como medida para

a parte que vai do topo da cabeccedila agrave articulaccedilatildeo da claviacutecula (no mesmo alinhamento

de onde se encerrava a mediccedilatildeo do braccedilo) E a obtenccedilatildeo de medidas subsequentes

prossegue pelo processo das diagonais dos quadrados produzidos sobre o lado maior

dos ldquonuacutemeros espaciaisrdquo de modo que a medida que vai da cabeccedila agrave claviacutecula se torna

190

o lado de um quadrado cuja diagonal perfaz a proacutexima medida que vai da cabeccedila aos

mamilos e assim sucessivamente

Policleto desenvolveu a figura inteira dessa maneira Ele empregou um moacutedulo que era

uacutenico ao mesmo tempo que muacuteltiplo uma unidade geomeacutetrica gerando uma seacuterie de

proporccedilotildees baseadas em uma razatildeo constante Tal razatildeo era o comprimento de cada

nuacutemero espacial com a diagonal do seu quadrado ou 114142 A seacuterie de proporccedilotildees

envolveu a geraccedilatildeo de dimensotildees planares (comprimento e largura) de cada parte

sucessiva do corpo cada uma concebida como um nuacutemero geomeacutetrico Esses nuacutemeros

foram desenvolvidos por meio de uma progressatildeo geomeacutetrica comeccedilando com a

unidade inicial da falange distal5

Esse procedimento tornaria os nuacutemeros comensuraacuteveis entre si a partir da

dimensatildeo dada ldquopela naturezardquo da falange distal desenvolvida em uma sucessatildeo

geomeacutetrica Para Tobin a arte de Policleto eacute complementada pela rigidez geomeacutetrica

sem se submeter a ela dado que a forma depende inteiramente do artiacutefice ainda que

pautada por uma concepccedilatildeo geomeacutetrica do mundo

as coisas satildeo nuacutemeros ou ao menos os contecircm A beleza visual eacute uma expressatildeo do

nuacutemero Por meio da lsquodescobertarsquo da teoria do nuacutemero que correspondia agraves proporccedilotildees

visuais do corpo Policleto descortinou a realidade elementar da forma humana e os

meios para expressaacute-la 6

5 Tobin ldquoThe Canon of Polykleitosrdquo p 310 6 Ibid p 313

191

Figura 3 Procedimento de estabelecimento das proporccedilotildees a partir de razatildeo

constante segundo Tobin Fonte Tobin R ldquoThe Canon of Polykleitosrdquo p 309

O pensamento matemaacutetico vinculado ao periacuteodo em que Policleto produziu

suas obras estaria portanto em total consonacircncia ao Cacircnone Com efeito a

compreensatildeo associada aos chamados pitagoacutericos de que ldquotudo eacute nuacutemerordquo natildeo

destoa dos fragmentos atribuiacutedos a Policleto tampouco de certas relaccedilotildees meacutetricas do

Cacircnone7 Os vestiacutegios dos princiacutepios de Policleto se mostram alinhados a uma

concepccedilatildeo do universo que tem o nuacutemero por elemento primeiro e segundo a

descriccedilatildeo de Michel ldquoo nuacutemero que se identifica agraves coisas eacute o ἀριθμός no seu sentido

preciso e estrito o nuacutemero discretordquo8 No alvorecer dessa matemaacutetica a evoluccedilatildeo dar-

7 As passagens em torno da descriccedilatildeo do homo bene figuratus no De Architectura com possiacuteveis pontos

de contato ao Cacircnone de Policleto indicam relaccedilotildees entre os nuacutemeros dez e seis tomados por perfeitos

pelos pitagoacutericos e o corpo do homem Cf capiacutetulo 2 ldquoRazotildees do corpordquo 8 Michel P-H ldquoDe Pythagore agrave Eucliderdquo p 673

192

se-ia ldquodo nuacutemero inteiro ao espaccedilo concretordquo9 ldquoa tendecircncia da matemaacutetica grega a

uma geometrizaccedilatildeo se delineia na Escola talvez no ambiente geral talvez no

pensamento mesmo de Pitaacutegorasrdquo10

Em Vitruacutevio observa-se com grande frequecircncia a ocorrecircncia de relaccedilotildees

numeacutericas simples Pierre Gros aponta a proximidade entre as proporccedilotildees prescritas

no Livro III para as partes da face do homem bem configurado e as medidas extraiacutedas

do Doriacuteforo Lecirc-se em Vitruacutevio que da base do queixo agrave base das narinas haacute a terccedila

parte da altura do rosto razatildeo que se repete para a distacircncia que vai da base das

narinas ao meio das sobrancelhas e tambeacutem do meio destas ateacute a raiacutez dos cabelos Ora

os valores obtidos na progressatildeo hipoteacutetica de Tobin (aproximadamente iguais agraves

medidas aferidas no Doriacuteforo de Naacutepoles por Kalkmann) para o rosto do Doriacuteforo

guardam entre si a relaccedilatildeo aproximada de radic2 ou 14142 Para os trecircs intervalos

elencados por Vitruacutevio (da base do queixo agrave base das narinas da base das narinas ao

meio das sobrancelhas e destas agrave raiacutez dos cabelos) a progressatildeo de Tobin oferece os

respectivos valores de 71 142 2009 Tais nuacutemeros mostram que cada uma dessas

trecircs partes tem cerca de um terccedilo do comprimento total do rosto Daiacute se conclui a

coincidecircncia proporcional entre a transmissatildeo vitruviana das razotildees meacutetricas na face

do homem bem configurado e aquelas identificadas no Doriacuteforo de Policleto ainda

que o autor romano se restrinja a elencar alguns pontos do rosto

9 Milhaud G apud Michel P-H ldquoDe Pythagore agrave Eucliderdquo p 671 10 Michel P-H ldquoDe Pythagore agrave Eucliderdquo p 671

193

Fig 4 Comparaccedilatildeo feita por Tobin entre sua progressatildeo hipoteacutetica para

obtenccedilatildeo de medidas segundo o Cacircnone de Policleto e as mediccedilotildees

empreendidas por Kalkman na face do Doriacuteforo de Naacutepoles Fonte Tobin R ldquoThe Canon of Polykleitosrdquo p 315

Para Gros essa escolha empreendida por Vitruacutevio em III 1 2 de determinados

pontos da face do homo bene figuratus revelaria um esforccedilo em eliminar os dados

irracionais por meio de aproximaccedilotildees miacutenimas no Cacircnone Os pontos eleitos por

Vitruacutevio permitiriam expressar com nuacutemeros inteiros ndash a terccedila parte ndash uma progressatildeo

que anteriormente no Cacircnone de Policleto envolveria o nuacutemero irracional radic2

o que isso quer dizer a natildeo ser que o teoacuterico [Vitruacutevio] ao preccedilo de aproximaccedilotildees

miacutenimas aliaacutes imperceptiacuteveis no sistema de unidades que utilizava escolheu um tipo

de subdivisotildees que certamente natildeo davam mais conta do modo de caacutelculo original mas

garantiam entre os diversos pontos notaacuteveis relaccedilotildees aritmeacuteticas simples11

11 Gros P ldquoNombres irrationnels et nombres parfaits chez Vitruverdquo p 676 O proacuteprio Gros sinaliza

para um caraacuteter operatoacuterio na realizaccedilatildeo de atividades que envolviam nuacutemeros irracionais entre os

gregos (ibid p 678) Ao mesmo tempo esse comentador atesta a incapacidade do romano em lidar com

a noccedilatildeo de irracionalidade ou mesmo definir o quadrado de um nuacutemero dificuldades que ficariam

194

A apresentaccedilatildeo dos dados numeacutericos por Vitruacutevio como relaccedilotildees de nuacutemeros

inteiros revelaria ainda segundo Gros uma recusa aos irracionais como ameaccedila agrave

beleza conferida pela symmetria

no niacutevel dos princiacutepios aleacutem do mais a existecircncia desses entes matemaacuteticos devia

constituir para Vitruacutevio como para muitas mentes antigas uma espeacutecie de escacircndalo

Na medida em que a beleza de um edifiacutecio reside inicialmente na symmetria ou

commodulatio isto eacute na comensurabilidade de todas as suas partes entre elas e das partes

com o todo os irracionais dificilmente encontrariam lugar no interior de um sistema

que nos parece fundado sobre a transparecircncia aritmeacutetica de relaccedilotildees modulares 12

Mas se o Doriacuteforo segue as prescriccedilotildees de Policleto transmitidas por Galeno

buscando beleza (κάλλος) por meio da symmetria (συμμετρία) numa progressatildeo

supostamente embasada em nuacutemeros irracionais como entender entatildeo a consonacircncia

proporcional desse Cacircnone com as proporccedilotildees propostas ao homem bem configurado

no De Architectura Na medida em que Vitruacutevio supostamente teria adaptado a

progressatildeo geomeacutetrica das medidas da face do Doriacuteforo para relaccedilotildees de nuacutemeros

inteiros na face de seu homo bene figuratus estaria buscando tal ldquotransparecircncia

aritmeacutetica de relaccedilotildees modularesrdquo como exemplo agrave arquitetura Para Vitruacutevio a seacuterie

proporcional requer necessariamente um divisor inteiro para garantir a symmetria

Certamente o Livro I nos potildee a par das responsabilidades financeiras entre outras

atribuiccedilotildees do arquiteto envolvendo a lida com nuacutemeros ldquoquanto agrave aritmeacutetica eacute por

meio dela que satildeo somadas as despesas dos edifiacutecios exposto o sistema de medidas

[]rdquo13 No entanto a imediata sequumlecircncia do texto associa symmetria agrave geometria ldquoe satildeo

resolvidas as dificeis questotildees das comensurabilidades [symmetriarum quaestiones] por

meio de regras e meacutetodos geomeacutetricosrdquo14 Assim se a aritmeacutetica contribui agraves somas

expliacutecitas no prefaacutecio do livro IX quando procura abordar certas questotildees atinentes a demonstraccedilotildees

matemaacuteticas (ibid p 671) 12 ldquoNombres irrationnels et nombres parfaits chez Vitruverdquo p 672 13 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre I (I 1 4) p 4-5 ldquoper arithmeticen uero sumptus aedificiorum

consummantur mensurarum rationes explicanturrdquo 14 O trecho todo em latim ldquoper arithmeticen uero sumptus aedificiorum consummantur mensurarum rationes

explicantur difficilesque symmetriarum quaestiones geometricis rationibus et methodis inueniunturrdquo (Vitruve

ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre I - I 1 4 - p 5- 6) Traduccedilatildeo do trecho ldquoquanto agrave aritmeacutetica eacute por meio dela

195

dos gastos dos edifiacutecios e aos sistemas de medidas cabe agrave geometria auxiliar na

resoluccedilatildeo das ldquodifficiles quaestionesrdquo envolvendo a symmetria O contexto desse excerto

esclarece sobre o procedimento

a geometria por sua vez provecirc muito apoio agrave arquitetura e em primeiro lugar logo

depois das linhas retas ensina o uso do compasso a partir do que com o maacuteximo de

facilidade as descriccedilotildees dos esquadros dos niacuteveis e das orientaccedilotildees das linhas dos

edificios satildeo lanccediladas nas superfiacutecies15

Gros interpreta essas passagens como uma indicaccedilatildeo de que as questotildees

matemaacuteticas que natildeo se inserem entre os nuacutemeros inteiros devem ser resolvidas

geometricamente por meio de desenhos sem que isso implique a compreensatildeo dos

desdobramentos dos princiacutepios matemaacuteticos envolvidos nos traccedilados realizados

Vitruacutevio daacute a saber que em relaccedilatildeo aos elementos que natildeo puderem ser reduzidos a um

conjunto de relaccedilotildees numeacutericas simples (certas difficiles quaestiones precisamente) ele se

contentaraacute em lhes desenhar a geometria como ele propotildee no mesmo paraacutegrafo

define-se por um conjunto de teacutecnicas realizadas com a intervenccedilatildeo da reacutegua do

compasso e do esquadro trata-se de um meio de execuccedilatildeo e natildeo de uma fonte de

reflexatildeo16

A descriccedilatildeo da ecircxedra do tribunal da basiacutelica de Fano17 em relaccedilatildeo a qual

Vitruacutevio se diz arquiteto e responsaacutevel (collocaui curauique faciendam) revela-se por isso

que satildeo somadas as despesas dos edifiacutecios exposto o sistema de medidas e satildeo resolvidas as difiacuteceis

questotildees das comensurabilidades [symmetriarum quaestiones] por meio de regras e meacutetodos

geomeacutetricosrdquo 15 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre I (I 1 4) p 5 ldquogeometria autem plura praesidia praestat architecturae

et primum ex euthygrammis circini tradit usum e quo maxime facilius aedificiorum in areis expediuntur

descriptiones normarumque et librationum et linearum directionesrdquo 16 Gros P ldquoNombres irrationnels et nombres parfaits chez Vitruverdquo p 673 Trecircs exemplos satildeo

apresentados por Pierre Gros de construccedilotildees propostas no De Achitectura envolvendo radic2 em que

supostamente Vitruacutevio natildeo se daacute conta ou ldquoafeta ignorarrdquo a medida irracional 1- a construccedilatildeo das

volutas do capitel jocircnico 2- o traccedilado da canelura na coluna doacuterica 3- a construccedilatildeo do aacutebaco do capitel

coriacutentio (ibid p 683-690) Esses casos seriam emblemaacuteticos para o comentador francecircs da tentativa

vitruviana de escamotear as grandezas irracionais frequentes nas construccedilotildees geomeacutetricas sobretudo

nas que envolvem o rebatimento da diagonal do quadrado 17 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre V (V 1 6) p 5 ldquonon minus summam dignitatem et uenustatem

possunt habere comparationes basilicarum quo genere Coloniae Iuliae Fanestri collocaui curauique faciendam

cuius proportiones et symmetriae sic sunt constitutae Mediana testudo inter columnas est longa pedes CXX

196

mesmo segundo Gros o melhor exemplo do caraacuteter pouco operatoacuterio dos

procedimentos prescritos na medida em que os dados apresentados natildeo permitem de

pronto a reconstruccedilatildeo de sua planta Seria esperado que o autor da obra mencionasse

os procedimentos tecnicamente mais eficientes agrave sua execuccedilatildeo mas falta o principal ao

leitor a localizaccedilatildeo do centro da circunferecircncia em que se inscreve o arco da abside

Um triacircngulo retacircngulo de lados medindo aproximadamente 10 23 e 25 (25 sendo uma

aproximaccedilatildeo de radic629) permitiria encontrar de modo praacutetico o centro da circunferecircncia

a partir da qual seria desenhado o arco da ecircxedra sugere Gros Mas Vitruacutevio omite o

procedimento envolvendo nuacutemeros irracionais que poderiam ser obtidos por

construccedilotildees geomeacutetricas ldquoele prefere laacute ainda e sem ser constrangido pelas

deformaccedilotildees simplificadoras da presenccedila de um manual como intermediaacuterio a

aparecircncia de clareza agrave eficaacutecia praacutetica um logos pesado de rigor ilusoacuterio a uma praacutexis

concretardquo18

lata pedes LX porticus eius circa testudinem inter parietes et columnas lata pedes XXrdquo Traduccedilatildeo ldquoigualmente

a preparaccedilatildeo das basiacutelicas contaraacute com a mais eminente dignidade e venustidade conforme o gecircnero

daquela da Colocircnia Juacutelia de Fano para a qual propus a disposiccedilatildeo e cuidei da execuccedilatildeo e cujas

proporccedilotildees e comensurabilidades (symmetriae) assim foram estabelecidas A nave central entre as

colunas tem comprimento de cento e vinte peacutes e largura de sessenta peacutes seu poacutertico em torno da nave

entre as paredes e as colunas tem largura de vinte peacutes rdquo Em V 1 8 trata da abside ldquoitem tribunal quod

est in ea aede hemicyclii schematis minoris curuatura formatum eius autem hemicycli in fronte est interuallum

pedes XLVI introrsus curuatura pedes XV uti qui apud magistratus starent negotiantes in basilica ne

impedirentrdquo (Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre V p 6) Segundo a traduccedilatildeo de Maciel ldquotambeacutem o

tribunal que se encontra nesse templo eacute constituiacutedo por uma curvatura de setor menor que o

semiciacuterculo A abertura desse hemiciclo na parte da frente eacute de quarenta e seis peacutes com uma

profundidade de quinze peacutes para que os que se encontrem junto do magistrado natildeo perturbem os

comerciantes na basiacutelicardquo (Vitruacutevio ldquoTratado de Arquiteturardquo - V 1 8 - p 245-246) 18 Gros P ldquoNombres irrationnels et nombres parfaits chez Vitruverdquo p 698

197

Fig 5 A partir dos dados de V 1 8 ndash Planta parcial da Basiacutelica de Fano

segundo K F Ohr Fonte Gros P ldquoNombres irrationnels et nombres parfaits chez Vitruverdquo p 697

Fig 6 e 7 respectivamente agrave esq ndash determinaccedilatildeo do centro da abside segundo

meacutetodo do triacircngulo isoacutesceles de Philibert de LrsquoOrme agrave dir ndash meacutetodo do triacircngulo

retacircngulo notaacutevel de 10 x 23 x radic629 ( 25) Fonte Gros P ldquoNombres irrationnels et nombres parfaits chez Vitruverdquo p 697

Outro exemplo desse aparente rigor aritmeacutetico na exposiccedilatildeo buscado por

Vitruacutevio estaria no terceiro capiacutetulo do livro III em que satildeo prescritos os ritmos de

intercoluacutenios Gros nos informa de um postulado natildeo explicitado por Vitruacutevio mas

que supotildee presente de que a soma da altura com a distacircncia que separa os eixos

centrais das colunas eacute sempre igual a 125 (H+E=125) Isso natildeo teria relevacircncia alguma

para um construtor no entanto tratar-se-ia de uma relaccedilatildeo constante agraves diferentes

198

espeacutecies de templos quanto aos intercoluacutenios ldquopouco lhe importa que o mesmo dado

ndash no caso uma soma ndash natildeo tenha qualquer utilidade praacutetica desde que seja constante

Ela fornece um quadro rigoroso ainda que impliacutecitordquo19 Mas eacute preciso lembrar que o

ritmo eustilo o mais aprovado (probabilis) natildeo se enquadra nessa equaccedilatildeo tomada de

empreacutestimo de Dinsmoor e que envolve a altura e a distacircncia entre os eixos centrais

das colunas (H+E=125)20 Aleacutem disso em III 3 5 Vitruacutevio natildeo especificara a distacircncia

entre as colunas para o ritmo areostilo do que se infere que seja superior ao

intercoluacutenio do diastilo de trecircs vezes o diacircmetro da coluna (o que equivale a um entre-

eixo de 4 vezes o diacircmetro da coluna)21 Portanto a ldquoconstanterdquo da equaccedilatildeo precisa ser

matizada

H E H+E

Ritmo Picnostilo 10 25 125

Ritmo Sistilo 95 3 125

Ritmo Diastilo 85 4 125

Ritmo Areostilo 8 - (gt 4) - (gt125)

Ritmo Eustilo 95 325 1275

Tabela 1 H = altura das colunas E = distacircncia entre os eixos centrais das colunas

De todo modo para Gros em suma Vitruacutevio compreende mal e se esforccedila em

ocultar os nuacutemeros irracionais mesmo ao preccedilo de complicaccedilotildees na exposiccedilatildeo das

operaccedilotildees construtivas22 Mas Vitruacutevio afirma escrever como arquiteto natildeo como

19 Gros P ldquoNombres irrationnels et nombres parfaits chez Vitruverdquo p 694 20 Sendo H a altura da coluna E a distacircncia entre os eixos centrais das colunas Cf capiacutetulo 3 ldquoPreceitos

para o encantordquo tab 1 p 117 Considerando a espessura da coluna igual a um eacute preciso somar esse

valor aos intervalos prescritos entre as colunas Tomemos o ritmo picnostilo como exemplo 10 (H) + 25

(E) = 125 Para o eustilo a soma eacute outra 95 (H) + 325 (E) = 1275 ou 12frac34 21 Cf Gros P in Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III n 1 p 117 22 Gros nota ainda que ldquomais que as somas satildeo as relaccedilotildees de fato que desempenham um papel praacuteticordquo

(ldquoNombres irrationnels et nombres parfaits chez Vitruverdquo p 693) Assim as relaccedilotildees envolvendo as

distacircncias entre os eixos centrais das colunas e suas alturas nos ritmos picnostilo e sistilo seriam

199

filoacutesofo23 apontando os limites da tarefa de escrita empreendida por um artiacutefice

Excusatio retoacuterica muito provavelmente Ainda assim aponta o campo de interesse e

accedilatildeo em que situa a arquitetura Faz-nos lembrar ao mesmo tempo que o domiacutenio

mediano que o arquiteto deve ter de diferentes disciplinas empreendido desde tenra

idade eacute o que permite adentrar no sumo templo da arquitetura Metaforicamente pela

aquisiccedilatildeo do preparo necessaacuterio ao ofiacutecio Em sentido proacuteprio porque o extenso

percurso de aprendizagem eacute via imprescindiacutevel aos que almejam professar-se

arquitetos realizando obras E o edificado jamais eacute incomensuraacutevel ao contraacuterio

precisa ser medido Mesmo que um quadro numeacuterico rigoroso estivesse no escopo do

autor latino o descontiacutenuo aritmeacutetico ndash pelo emprego recorrente de nuacutemeros inteiros

ndash poderia ser a via mais conveniente para se registrar os preceitos da arquitetura

enquanto voltada ao campo concreto de accedilatildeo ou ao menos simplesmente a uacutenica via

que seus conhecimentos matemaacuteticos tornavam possiacutevel diante do pretendido

empreendimento teoacuterico Michel nos lembra que o ldquolsquoteorema de Pitaacutegorasrsquo eacute anterior

agrave noccedilatildeo de irracional que ele implicardquo24 Se no livro IX Vitruacutevio natildeo mostra conhecer a

proximidade entre o caso da duplicaccedilatildeo do quadrado que ele ensina com o teorema

de Pitaacutegoras que enuncia em seguida talvez o autor latino apenas desconheccedila as

implicaccedilotildees e propriedades algeacutebricas envolvidas com os nuacutemeros irracionais ldquoSe

houver um local ou um campo quadrado e de lados iguais e quisermos duplicaacute-lo o

resultado que pretendemos natildeo se encontra por multiplicaccedilatildeo mas atraveacutes de

notaacuteveis pela facilidade de sua construccedilatildeo Da multiplicaccedilatildeo do entre-eixo do picnostilo por 4 obter-se-

ia a altura de 10 vezes o diacircmetro da coluna (ou relacionando altura H com o entre-eixo E 10 25 =

4) Na relaccedilatildeo entre altura e entre-eixo do ritmo sistilo Gros identifica uma aproximaccedilatildeo agrave diagonal

(radic10) do retacircngulo de lados 3 e 1 pois 95(H) 3(E) = 3166 O nuacutemero 3166 seria uma aproximaccedilatildeo de

radic10 o que denunciaria um modo praacutetico de obtenccedilatildeo da altura pelo rebatimento da diagonal (ibid p

693) 23 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre I (I 1 18) p 14 ldquopois natildeo foi como sumo filoacutesofo nem como

retor eloquente nem como sumo gramaacutetico exercitado nas regras da arte mas como arquiteto que me

esforcei em escrever estes volumesrdquo Traduccedilatildeo ldquonamque non uti summus philosophus nec rhetor disertus

nec grammaticus summis rationibus artis exercitatus sed ut architectus his litteris imbutus haec nisus sum

scribererdquo 24 Michel P-H ldquoDe Pythagore agrave Eucliderdquo p 668

200

descriccedilotildees precisas de linhasrdquo25 Conforme descrito Vitruacutevio oferece um meacutetodo

geomeacutetrico para a obtenccedilatildeo de um quadrado com aacuterea duas vezes maior A partir do

traccedilado da diagonal do primeiro quadrado satildeo produzidos dois triacircngulos retacircngulos

isoacutesceles Um novo quadrado que tenha por lado a diagonal daquele primeiro pelo

cruzamento de suas duas diagonais conteraacute quatro triacircngulos de aacuterea semelhante a

cada um dos dois triacircngulos contidos no primeiro quadrado logo sua aacuterea seraacute o

dobro

Embora natildeo haja menccedilatildeo ao De Architectura em linhas gerais as bases da

hipoacutetese interpretativa de Tobin para a construccedilatildeo praacutetica do Cacircnone de Policleto natildeo

se afastam muito do procedimento da duplicaccedilatildeo do quadrado transmitido por

Vitruacutevio no prefaacutecio ao Livro IX A cadeia de ldquopartes comensuraacuteveisrdquo proposta por

Tobin se pretende coerente agrave matemaacutetica grega E natildeo eacute apenas essa consonacircncia que

Tobin reivindica por meio de sua hipoacutetese chegando mesmo a ensaiar uma explicaccedilatildeo

para a descriccedilatildeo apresentada por Pliacutenio das esculturas ldquoquadradasrdquo de Policleto em

sua Histoacuteria Natural ldquoVarratildeo afirma serem quadradas [as estaacutetuas] e quase todas de

um mesmo modelo (exemplum)rdquo26 Assim o aspecto ldquoquadradordquo das obras de Policleto

resultaria de seu processo de elaboraccedilatildeo pois segundo a proposta de Tobin ldquoa

lsquoquadraturarsquo das figuras de Policleto refere-se primeiramente ao procedimento

matemaacutetico no cerne de sua construccedilatildeo cada comprimento sucessivo se torna o lado

do quadrado cuja diagonal produz o novo comprimento na progressatildeordquo27 Haveria

de acordo com essa interpretaccedilatildeo uma correspondecircncia entre o processo geomeacutetrico

que embasava a realizaccedilatildeo da escultura e o efeito visual resultante na obra sendo

apenas este uacuteltimo transmitido por Pliacutenio o Velho28 Em seu comentaacuterio agrave Histoacuteria

25 Vitruve De LrsquoArchitecturerdquo Livre IX (IX praef 4) p 3 ldquolocus aut ager paribus lateribus si erit quadratus

eumque oportuerit duplicare quod opus fuerit genere numeri quod multiplicationibus non inuenitur eo

descriptionibus linearum emendatis reperiturrdquo 26 Pline LrsquoAncien ldquoHistoire Naturellerdquo Livre XXXIV (34 56) p 127 ldquoquadrata tamen esse ea [sc signa] ait

Varro et paene ad unum exemplumrdquo 27 Tobin R The Canon of Polykleitosrdquo p 320 28 Tobin R The Canon of Polykleitosrdquo p 320 ldquoem algum ponto da transmissatildeo sobre a informaccedilatildeo

acerca do Cacircnone o sentido teacutecnico da ldquoquadraturardquo foi perdido e substituiacutedo pela alusatildeo ao aspecto

201

Natural de Pliacutenio o Velho Gallet de Santerre registra outras interpretaccedilotildees para o

termo ldquoquadratardquo das quais a mais usual veria no termo a designaccedilatildeo das corpulentas

estaacutetuas policlecircteas por oposiccedilatildeo agrave esbeltez das lisiacutepeas Ainda segundo esse

comentador uma explicaccedilatildeo mais recente tomaria ldquosigna quadratardquo em referecircncia agrave

noccedilatildeo de symmetria29 Desse modo tanto o termo quadratus quanto o grego

τετράγωνος conformariam empreacutestimos da linguagem retoacuterica designando

ldquoalternacircncia de membros simeacutetricosrdquo isto eacute o conhecido esquema em quiasma de

Policleto no qual o ombro relaxado corresponde agrave perna flexionada do lado oposto

cruzando-se com o inverso qual seja o ombro tensionado correspondente agrave perna

estendida30

Eacute de se notar a ausecircncia de convergecircncia quanto agraves interpretaccedilotildees de

ldquoquadratusrdquo relativamente agrave descriccedilatildeo que Pliacutenio transmite acerca das estaacutetuas de

Policleto As suposiccedilotildees elaboradas sugerem entretanto abordagens que estimulam

vias de leitura agraves passagens do De Architectura concernentes agrave proacutepria apresentaccedilatildeo

do Cacircnone meacutetrico partindo da identificaccedilatildeo de pontos de contato e distanciamento

Tobin parte do termo δάκτυλος da descriccedilatildeo de Galeno entendendo-o como a

falange distal do dedo miacutenimo tomada como geradora do moacutedulo planar obtido por

seu comprimento e altura em perfil Contudo Charles Picard apontara em estudo

sobre a escultura grega mais remota que ldquodaacutectylosrdquo refere-se ao dedo tomado em sua

largura de modo que quatro dedos perfazem um palmo isto eacute a matildeo tomada tambeacutem

em sua largura

o jogo de proporccedilotildees que ele [Policleto] escolhera tinha por base um lsquomoacutedulorsquo natildeo

metroloacutegico mas real noacutes sabemos que era dado pela largura do dedo o dactylo que

multiplicado por quatro constituiacutea o palmo ou seja a largura da matildeo A partir daiacute

visual de suas figuras Eacute nesse sentido limitado que o termo ldquoquadratardquo do sistema de Policleto chegou

a Pliacuteniordquo 29 Gallet de Santerre escreve em 1953 e remete ao estudos de Silvio Ferri pela associaccedilatildeo do termo

quadrata agrave noccedilatildeo de symmetria (Gallet de Santerre H in Pline LrsquoAncien ldquoHistoire Naturellerdquo Livre

XXXIV n 6 p 223) 30 Ibid n 6 p 223 A menccedilatildeo do esquema em quiasma remete agrave Charles Picard

202

todas as relaccedilotildees eram construiacutedas por proporccedilotildees saacutebias verificadas na natureza de

tal modo que se podia deduzir as dimensotildees de uma das partes a partir daquelas do

todo e reciprocamente 31

Outro erudito nas artes gregas Jean Charbonneaux compartilha o

entendimento de Picard de que o ldquodaacutectylosrdquo consiste na largura do dedo e serve de

moacutedulo inicial da obra escultoacuterica32 tendo por muacuteltiplo o palmo Ainda que os pontos

de partida sejam discrepantes vemos que entre as abordagens de Picard e

Charbonneaux de um lado e a de Tobin de outro natildeo prevalece a discordacircncia

completa sobretudo quanto ao encadeamento proporcional necessaacuterio agrave elaboraccedilatildeo

da escultura Eacute certo que Tobin havia previsto a possibilidade de que o ponto de

partida do escultor se desse ndash ainda que isso lhe soasse menos provaacutevel ndash a partir das

dimensotildees do todo sem comprometimento do sistema33 Em Vitruacutevio lecirc-se que o

palmo conteacutem quatro diacutegitos34 o que parece indicar que os dedos satildeo tomados em sua

largura de modo que o polegar ou o quinto dedo fica excluiacutedo do moacutedulo plaacutestico

do palmo35 Haacute comparaccedilotildees entre os moacutedulos plaacutesticos do cocircvado com o peacute e o

palmo36 do palmo com o dedo37 e do peacute com o dedo38 Resta enfim que nas passagens

do De Architectura que tratam dessas referecircncias de mensuraccedilatildeo natildeo eacute possiacutevel

encontrar qualquer indicaccedilatildeo de que o digitus seja tomado em seu comprimento

tampouco como falange Embora perspicaz a inferecircncia de Tobin de que a relaccedilatildeo do

31 Picard C ldquoLa Sculpture Antiquerdquo p 379 32 Charbonneaux J ldquoLa sculpture grecque classiquerdquo p 41 33 Tobin R ldquoThe Canon of Polykleitosrdquo p 317 34 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III (III 1 8) p 11 ldquopalmus autem habet quattuor digitosrdquo 35 Eacute difiacutecil deixar de aproximar a escolha do nuacutemero quatro perfazendo o nuacutemero de diacutegitos do palmo

ao enunciado de III 1 5 no qual se evoca Platatildeo por ter considerado perfeito o nuacutemero dez composto

das mocircnadas (1+2+3+4) Cf cap 2 ldquoRazotildees do corpordquo Sobre o moacutedulo plaacutestico cf breve comentaacuterio de

Gros P in Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III n 1 p 62 36 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III (III 1 8) p 10-11 ldquoe cubito enim cum dempti sunt palmi duo

relinquitur pes quattuor palmorumrdquo Traduccedilatildeo ldquoquando pois satildeo subtraiacutedos dois palmos ao cocircvado resta

um peacute ou quatro palmosrdquo 37 Cf n 35 supra 38 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III (III 1 8) p 10-11 ldquoita efficitur uti habeat pes sedecim digitosrdquo Cf

cap 2 ldquoRazotildees do corpordquo n 58 p 80

203

dedo com o dedo (δακτύλου πρὸς δάκτυλον)39 ndash tal como transmitido pelo fragmento

atribuiacutedo a Policleto ndash envolveria a falange distal natildeo encerra a discussatildeo sobretudo

considerando-se outros registros De fato o consenso natildeo alcanccedila o δάκτυλος

A invocaccedilatildeo da natureza em Vitruacutevio ndash corpus enim hominis ita natura composuit40

ndash assimila a boa compleiccedilatildeo do homem a uma ordem matemaacutetica imanente a ele e agraves

demais coisas existentes na terra e no orbe celeste pela simbologia do ciacuterculo e do

quadrado em que se inscreve41 De Policleto se afimou simultaneamente agrave diligecircncia

numeacuterica das comensurabilidades um empenho em apresentar nas suas obras os

homens como satildeo ndash eacute o que parece atestar a ceacutelebre passagem de Pliacutenio ldquouulgoque

dicebat ab illis [sc Antiqui] factos quales essent hominesrdquo42 A estatuaacuteria ldquoquadratardquo de

Policleto procuraria assim plasmar as caracteriacutesticas anatocircmicas do homem em

consonacircncia agraves relaccedilotildees numeacutericas que lhes satildeo proacuteprias sem descurar do intento de

figurar a vida tal como afirmara Charbonneaux ldquoem todo caso estejamos certos de

que para um grego do Vordm seacuteculo o Nuacutemero como a Lei era sagrado e vivo o Cacircnone

nasceu portanto natildeo de uma combinaccedilatildeo de caacutelculos frios mas de uma busca ardente

[] Por isso essa figura eacute vivazrdquo 43

Para Ferri poreacutem o moacutedulo numeacuterico foi tomando o lugar do cacircnone-membro

mais incocircmodo ao fracionamento e graccedilas aos matemaacuteticos pitagoacutericos eacute que as

antigas mensuraccedilotildees baseadas nos membros teriam sido substituiacutedas pelo nuacutemero de

maneira que ldquoo cacircnone de Policleto mesmo mantendo a foacutermula tradicional anatocircmica

(dedo palmo peacute etc) deve ter sido fundado efetivamente sobre o nuacutemerordquo44 Ao

39 Cf cap 2 ldquoRazotildees do corpordquo cf ldquoAnexo 3rdquo 40 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III (III 1 2) p 6 Traduccedilatildeo ldquoassim a natureza compocircs o corpo

do homemrdquo 41 Trata-se de um vieacutes interpretativo da inserccedilatildeo do homem bem configurado no ciacuterculo e no quadrado

baseado no valor simboacutelico que exerceram essas duas figuras no interior de doutrinas antigas como a

filosofia platocircnica Cf Gros P ldquoLa geacuteomeacutetrie platonicienne de la notice vitruvienne sur lrsquohomme parfait

(De Architectura III 1 2-3)rdquo p 20-21 Cf cap 2 ldquoRazotildees do corpordquo n 67 42 Pline LrsquoAncien ldquoHistoire Naturellerdquo Livre XXXIV (34 65) p 130 Em portuguecircs ldquo[Lisipo] dizia

costumeiramente que aqueles [os antigos] faziam os homens como eramrdquo 43 Charbonneaux J ldquoLa sculpture grecque classiquerdquo p 42 44 Ferri S in Vitruvio ldquoArchitetturardquo n 6-9 p 170-171

204

mesmo tempo acerca da passagem de Vitruacutevio III 1 2 o comentador italiano afirma

que ldquoo moacutedulo segundo a fonte vitruviana natildeo eacute um nuacutemero (como jaacute era o lsquopeacutersquo em

eacutepoca claacutessica uma quantidade numeacuterica e nada mais) mas um membrordquo45 Ainda

assim para Ferri a fonte de Vitruacutevio natildeo eacute Policleto

que se trata de uma fonte heleniacutestica pode-se facilmente determinar pela frequente

mescla de expressotildees e princiacutepios artiacutesticos do seacuteculo V com outros evidentemente dos

seacuteculos IV e seguintes (como a cabeccedila = 18 do todo proporccedilatildeo lisiacutepea enquanto

Policleto pelo que podemos julgar a partir do doriacuteforo e do fragmento de Crisipo em

Galeno lsquoDe pla Hipp Et Platrsquo 5 mas tambeacutem dos dois fragmentos do Cacircnone

[recolhidos por Diels] adota para a cabeccedila uma relaccedilatildeo pouco inferior a 17)46

Por outro lado em ldquoPolyclitus and pythagoreanismrdquo John E Raven mostra que

haacute notaacuteveis pontos de contato entre o suposto cacircnone de Policleto transmitido por

Galeno e as passagens iniciais do Livro III do De Architectura47 Se os documentos

textuais apontam uma provaacutevel conexatildeo entre as doutrinas ditas pitagoacutericas e os

relatos do arquiteto e do meacutedico natildeo significa que o cacircnone apresentado nos Dez

Volumes siga necessariamente as orientaccedilotildees de Policleto Assim como Ferri Gros

nota essa discrepacircncia

a relaccedilatildeo entre a altura da cabeccedila e aquela do conjunto da silhueta estabelecida em 18

sugere uma composiccedilatildeo mais proacutexima do lsquocacircnonersquo de Lisipo que daquele de Policleto

de fato as estaacutetuas em que se observa a aplicaccedilatildeo mais fiel das proporccedilotildees enunciadas

por Vitruacutevio satildeo aquelas de Aacutegias e de Agelaos48

Essa divergecircncia entre a descriccedilatildeo do homem bem configurado por Vitruacutevio e

o Cacircnone de Policleto fora assinalada tambeacutem por La Rocca

45 Ferri S in Vitruvio ldquoArchitetturardquo n 2 p 166 46 Ibid n 2 p 166 47 Cf cap 2 ldquoRazotildees do corpordquo 48 Gros P ldquoIntroductionrdquo in Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III p XLIII

205

uma passagem muito ceacutelebre de Vitruacutevio parece ateacute dar a exata relaccedilatildeo matemaacutetica

entre as partes do corpo com referecircncia agrave altura total mas tal relaccedilatildeo natildeo encontra

correspondecircncia com as mediccedilotildees feitas em obras seguramente atribuiacuteveis a Policleto49

Afastando-se do Cacircnone a descriccedilatildeo do arquiteto prevecirc a cabeccedila do homem

com a oitava parte da altura do corpo ldquocaput a mento ad summum uerticem octauaerdquo50

enquanto as mediccedilotildees de Kalkman e Anti na coacutepia do Doriacuteforo do Museu de Naacutepoles

mostram uma cabeccedila que mede entre 28cm e 29cm e altura total equivalente a

1995cm51 o que nos daacute uma relaccedilatildeo aproximada de 17 Paolo Moreno tambeacutem nos

informa a partir da estaacutetua de Aacutegias de Lisipo uma relaccedilatildeo de 18 ldquoa cabeccedila eacute um

oitavo [] Em particular a proporccedilatildeo da cabeccedila coincide com aquela sugerida por

Vitruacutevio em um passo derivado dos tratados da escola de Siciatildeo []rdquo52

No volume dedicado agrave arte do bronze Pliacutenio o Velho compara aspectos das

obras de Lisipo aos antigos53 ldquoele contribuiu muito agrave arte estatuaacuteria produzindo o

detalhe do cabelo fazendo cabeccedilas menores que os antigos corpos mais esbeltos e

secos para que por meio do adelgaccedilamento as estaacutetuas parecessem maioresrdquo54 As

mediccedilotildees feitas no Doriacuteforo mostram que a dimensatildeo da cabeccedila excede a dimensatildeo

esperada se fosse aplicada a progressatildeo geomeacutetrica segundo o modelo de Tobin Este

propotildee que a cabeccedila do Doriacuteforo recebe um aumento (que altera a dimensatildeo

proporcional esperada segundo sua hipoacutetese) em funccedilatildeo de um ajuste da dimensatildeo

global da estaacutetua55 visto que o Doriacuteforo natildeo se encontra plenamente ereto possuindo

ligeira inclinaccedilatildeo no quadril e na cabeccedila Isto eacute para Tobin a cabeccedila eacute

proporcionalmente maior para que a figura global natildeo totalmente ereta insira-se na

49 La Rocca E ldquoPolicleto e la sua scuolardquo p 524 50 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III (III 1 2) p 6 Cf cap 2 ldquoRazotildees do corpordquo n 5 51 Tobin R ldquoThe Canon of Polykleitosrdquo p 315 52 Moreno Paolo ldquoVita e Arte di Lisippordquo p 38 53 Gallet de Santerre sugere que eacute provaacutevel que o procedimento dos ldquoantigosrdquo remeta integralmente agrave

doutrina do Cacircnone de Policleto Cf Pline LrsquoAncien vol XXXIV sect 65 n 1 p 234 54 Pline LrsquoAncien ldquoHistoire Naturellerdquo vol XXXIV (34 65) p 130 ldquostatuariae arti plurimum traditur

contulisse capillum exprimendo capita minora faciendo quam antiqui corpora graciliora siccioraque per quae

proceritas signorum maior uidereturrdquo 55 Cf Tobin R ldquoThe Canon of Polykleitosrdquo p 314 320

206

progressatildeo numeacuterica Tal elucubraccedilatildeo embora astuta e demonstrada com nuacutemeros

parece ameaccedilar a proacutepria hipoacutetese da progressatildeo geomeacutetrica implacaacutevel em Policleto

por apontar uma exceccedilatildeo absolutamente natildeo negligenciaacutevel (a cabeccedila do Doriacuteforo) ao

suposto sistema Seja como for algo das dimensotildees da cabeccedila do Doriacuteforo jaacute chamara

a atenccedilatildeo de Charbonneaux o qual remete ao Timeu de Platatildeo

eacute admiraacutevel constatar que a cabeccedila de comprimento igual agrave altura e largura reproduz

tanto quanto possiacutevel a forma da esfera e natildeo eacute possiacutevel aqui deixar de pensar em uma

passagem do Timeu na qual Platatildeo diz que os deuses deram agrave cabeccedila do homem uma

forma esfeacuterica lsquoimitando a forma do universorsquo 56

O Timeu sendo perpassado por doutrinas pitagoacutericas natildeo restaria de todo

improvaacutevel a percepccedilatildeo de Charbonneaux que coincide com uma variaccedilatildeo meacutetrico

proporcional detectada por Tobin aleacutem claro da consonacircncia com a observaccedilatildeo que

Pliacutenio fizera sobre a cabeccedila na estatuaacuteria dos ldquoantigosrdquo

Segundo a interpretaccedilatildeo de Paolo Moreno ldquoLisipo declarava por mestre natildeo

outro artista mas uma estaacutetua o Doriacuteforo de Policletordquo57 e a julgar por Pliacutenio Lisipo

observa ainda a symmetria tal como preceituado por Policleto

natildeo haacute um nome latino para symmetria a qual ele [Lisipo] observou com extrema

diligecircncia substituindo os portes quadrados dos antigos por um sistema de proporccedilotildees

novo e ainda natildeo empreendido e [Lisipo] dizia costumeiramente (uulgoque) que aqueles

[os antigos]58 faziam os homens como eram ao passo que ele os fazia tal como eram

vistos59

Sem cancelar as escolhas que cabem ao artiacutefice na elaboraccedilatildeo de suas obras os

homens feitos por Policleto em suas estaacutetuas teriam demonstrado na symmetria de seus

membros a inclinaccedilatildeo da doutrina por concepccedilotildees de matiz pitagoacuterico Segundo Pliacutenio

56 Charbonneaux J ldquoLa sculpture grecque classiquerdquo p 41 57 Moreno P ldquoVita e Arte di Lisippordquo p 12 58 Os antigos entenda-se ao modo de Policleto 59 Pline LrsquoAncien (34 65) p 130 ldquonon habet Latinum nomen symmetria quam diligentissime custodit noua

intactaque ratione quadratas ueterum staturas permutando uulgoque dicebat ab illis factos quales essent homines

a se quales uiderentur esserdquo

207

Lisipo dizia que os antigos faziam os homens como eram Os antigos dentre os quais

Policleto teriam procurado nos homens a geometria imanente confeccionando

homens de bronze semelhantes aos existentes e aspirantes agrave beleza que resultava da

symmetria das relaccedilotildees estabelecidas pela natureza

208

ANEXO 1 Fragmento atribuiacutedo a Heron por Hultsch F in ldquoHeronis Alexandrini Geometricorum et

Stereometricorum reliquiaerdquo Accedunt Anonymi uariae collectiones ex Herone Euclide

Gemino Proclo Anatolio allisque Berlin 1864 p 252

209

ANEXO 2 Fragmento atribuiacutedo a Geminus por Schoumlne R ldquoDamianos Schrift uumlber Optik mit Auszuumlgen

aus Geminosrdquo Griechisch und deutsch heraugegeben Berlin 1897 p 28-30

210

ANEXO 3 Galen ldquoΠερὶ τῶν καθrsquoΙπποκράτην καὶ Πλάτωνα (43 vol V p 448 Kuumlhn)rdquo apud Raven

J E op cit p 149-150

ἐπὶ μὲν γὰρ τοῦ σώματος ἀκριβῶς αὐτὰ διωρίσατο τὴν μὲν ὑγίειαν τῶν στοιχείων

ἐν συμμετρίᾳ θέμενος τὸ δέ κάλλος ἐν τῇ τῶν μορίων ἐδήλωσε γὰρ σαφῶς τοῦτο

διὰ τῆς προγεγραμμένης ὀλίγον ἔμπροσθεν ῥήσεως ἐν ᾗ τὴν μὲν ὑγιείαν τοῦ

σώματος ἐν θερμοῖς καὶ ψυχροῖς καὶ ξηροῖς καὶ ὑγροῖς συμμετρίαν εἶναί φησιν

ἅπερ δὴ στοιχεῖα δηλονότι τῶν σωμάτων ἐστί τὸ δὲ κάλλος οὐκ ἐν τῇ τῶν

στοιχείων ἀλλrsquoἐν τῇ τῶν μορίων συμμετρίᾳ συνίστασθαι νομίζει δακτύλου πρὸς

δάκτυλον δηλονότι καὶ συμπάντων αὐτῶν πρός τε μετακάρπιον καὶ καρπὸν καὶ

τούτων πρὸς πῆχυν καὶ πήχεως πρὸς βραχίονα καὶ πάντων πρὸς πάντα καθάπερ

ἐν τῷ Πολυκλείτου Κανόνι γέγραπται πάσας γὰρ ἐκδιδάξας ἡμᾶς ἐν ἐκείνῳ τῷ

συγγράμματι τὰς συμμετρίας τοῦ σώματος ὁ Πολύκλειτος ἔργῳ τὸν λόγον

ἐβεβαίωσε δημιουργήσας ἀνδριάντα κατὰ τὰ τοῦ λόγου προστάγματα καὶ

καλέσας δὴ καὶ αὐτὸν τὸν ἀνδριάντα καθάπερ καὶ τὸ σύγγραμμα Κανόνα τὸ μὲν

δὴ κάλλος τοῦ σώματος ἐν τῇ τῶν μορίων συμμετρίᾳ κατὰ πάντας ἰατροὺς καὶ

φιλοσόφους ἐστίν ἡ δὲ ὑγιεία τῶν στοιχείων αὖ πάλιν ἅττα ποτrsquo ἂν ᾖ πρὸς

ἄλληλά έστι συμμετρία

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Virgiacutelio Maro por Manuel Odorico Mendes Campinas Editora Unicamp 2008

VITRUVE De LrsquoArchitecture Livre I Texte eacutetabli traduit et commenteacute par Philippe

Fleury Paris Les Belles Lettres 1990

VITRUVE De LrsquoArchitecture Livre II Texte eacutetabli et traduit par Louis Callebat

introduit et commenteacute par Pierre Gros Paris Les Belles Lettres 2003

VITRUVE De LrsquoArchitecture Livre III Texte eacutetabli traduit et commenteacute par Pierre

Gros Paris Les Belles Lettres 1990

VITRUVE De LrsquoArchitecture Livre IV Texte eacutetabli traduit et commenteacute par Pierre

Gros Paris Les Belles Lettres 2003

VITRUVE De LrsquoArchitecture Livre V Texte eacutetabli traduit et commenteacute par Catherine

Saliou Paris Les Belles Lettres 2009

VITRUVE De LrsquoArchitecture Livre VI Texte eacutetabli traduit et commenteacute par Louis

Callebat Paris Les Belles Lettres 2004

VITRUVE De LrsquoArchitecture Livre VII Text eacutetabli et traduit par Bernard Liou et

Michel Zinghedau comenteacute par Marie-Theacuteregravese Cam Paris Les Belles Lettres 1995

VITRUVE De LrsquoArchitecture Livre VIII Texte eacutetabli traduit et commenteacute par Louis

Callebat Paris Les Belles Lettres 2002

VITRUVE De LrsquoArchitecture Livre IX Texte eacutetabli traduit et commenteacute par Jean

Soubiran Paris Les Belles Lettres 1969

VITRUVE De LrsquoArchitecture Livre X Texte eacutetabli traduit et commenteacute par Louis

Callebat avec la collaboration pour le commentaire de P Fleury Paris Les Belles

Lettres 2002

VITRUVIO Architettura Dai libri I-VII Introduzione di Stefano Maggi testo critico

taduzione e commento di Silvio Ferri Milatildeo BUR 2002

VITRUVIO De Architectura Volume Primo Traduzione e commento de Antonio

Corso e Elisa Romano Torino Giulio Eiunaudi Editore 1997

VITRUacuteVIO Tratado de arquitetura Traduccedilatildeo do latim introduccedilatildeo e notas M Justino

Maciel Satildeo Paulo Martins Fontes 2007

VITRUVIUS P On Architecture Vol I Edited from the Harleian Manuscript 2767 and

translated into English by Frank Granger Cambridge Mass Harvard University

Press 1983-1985

VITRUVIUS P On Architecture Vol II Edited from the Harleian Manuscript 2767

and translated into English by Frank Granger Cambridge Mass Harvard University

Press1985

WITTKOWER R Architectural Principles in the Age of Humanism New York

London W W Norton and Company 1971

CLOacuteVIS ANTOcircNIO BENEDINI LIMA

RATIO VENVSTATIS RAZOtildeES DA BELEZA NOS

LIVROS I E III DO DE ARCHITECTVRA DE

VITRUacuteVIO

Dissertaccedilatildeo apresentada agrave Faculdade de

Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Satildeo

Paulo para obtenccedilatildeo do tiacutetulo de Mestre em

Arquitetura e Urbanismo

Aacuterea de Concentraccedilatildeo Histoacuteria e Fundamentos

da Arquitetura e do Urbanismo

Orientador Prof Dr Maacuterio Henrique Simatildeo

DrsquoAgostino

EXEMPLAR REVISADO E ALTERADO EM RELACcedilAtildeO Agrave

VERSAtildeO ORIGINAL SOB RESPONSABILIDADE DO AUTOR

E ANUEcircNCIA DO ORIENTADOR

O original se encontra disponiacutevel na sede do programa

Satildeo Paulo de julho de 2015

Satildeo Paulo

2015

AUTORIZO A REPRODUCcedilAtildeO E DIVULGACcedilAtildeO TOTAL OU PARCIAL DESTE

TRABALHO POR QUALQUER MEIO CONVENCIONAL OU ELETROcircNICO PARA FINS

DE ESTUDO E PESQUISA DESDE QUE CITADA A FONTE

E-MAIL DO AUTOR clovislimauspbr

Lima Cloacutevis Antocircnio Benedini

L732r Ratio Venustatis razotildees da beleza nos livros I e III do De Architectura

de Vitruacutevio Cloacutevis Antocircnio Benedini Lima --Satildeo Paulo 2015

222 p il

Dissertaccedilatildeo (Mestrado - Aacuterea de Concentraccedilatildeo Histoacuteria e

Fundamentos da Arquitetura e do Urbanismo) ndash FAUUSP

Orientador Maacuterio Henrique Simatildeo DrsquoAgostino

1Teoria da arquitetura 2Historia da arquitetura 3Arquitetura antiga

4Vitruvius Pollio 5Auctoritas 6Symmetria 7Eurythmia ITiacutetulo

CDU 7201

FOLHA DE APROVACcedilAtildeO

CLOacuteVIS ANTOcircNIO BENEDINI LIMA

RATIO VENVSTATIS RAZOtildeES DA BELEZA NOS LIVROS I E III DO

DE ARCHITECTVRA DE VITRUacuteVIO

Dissertaccedilatildeo apresentada agrave Faculdade de

Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Satildeo

Paulo para obtenccedilatildeo do tiacutetulo de Mestre em

Arquitetura e Urbanismo

Aacuterea de Concentraccedilatildeo Histoacuteria e Fundamentos

da Arquitetura e do Urbanismo

APROVADO EM

BANCA EXAMINADORA

Prof Dr __________________________________ Instituiccedilatildeo ____________________________

Julgamento __________________________________ Asinatura ____________________________

Prof Dr __________________________________ Instituiccedilatildeo ____________________________

Julgamento __________________________________ Asinatura ____________________________

Prof Dr __________________________________ Instituiccedilatildeo ____________________________

Julgamento __________________________________ Asinatura ____________________________

Agrave memoacuteria de Beth Benedini e de

Cloacutevis Correcirca Lima

AGRADECIMENTOS

Esse trabalho natildeo teria sido possiacutevel sem o professor Dr Maacuterio Henrique S

DrsquoAgostino certamente pelos trabalhos pioneiros no campo dos estudos vitruvianos

no Brasil natildeo menos que pela orientaccedilatildeo precisa estimulante e sempre aberta ao

diaacutelogo de modo que eacute de minha inteira responsabilidade a escolha pelas veredas

bravias que desafiam esse itineraacuterio por paisagens venustas Ao professor Dr Leon

Kossovitch cujos cursos proferidos anos atraacutes na Faculdade de Filosofia da

Universidade de Satildeo Paulo permitiram o primeiro contato com a doutrina de Vitruacutevio

agradeccedilo pela grande contribuiccedilatildeo aos rumos desse projeto e pela participaccedilatildeo na

banca examinadora Agradeccedilo igualmente ao professor Dr Juacutelio Ceacutesar Vitorino pela

participaccedilatildeo na banca vencendo a distacircncia ateacute Satildeo Paulo para acrescentar ao trabalho

suas ponderaccedilotildees fundamentadas em um grande percurso de estudos sobre o De

Architectura

Eacute preciso ainda agradecer a todos os professores cujos ensinamentos ao longo

dos anos contribuiacuteram agraves bases dos estudos que procuramos aqui desenvolver Para

esse trabalho foram fundamentais as liccedilotildees de liacutengua latina dos professores Dr

Marcelo Vieira Fernandes e Dr Pablo Schwartz Frydman do Departamento de Letras

Claacutessicas e Vernaacuteculas do curso de Letras da Universidade de Satildeo Paulo Agradeccedilo

ainda agrave professora Dra Andrea Buchidid Loumlewen da Faculdade de Arquitetura e

Urbanismo da Universidade de Satildeo Paulo

Foi imprescindiacutevel o apoio conferido pelas Bibliotecas da Universidade de Satildeo

Paulo bem como a solicitude e competecircncia de seus funcionaacuterios a quem deixo os

agradecimentos agrave Lucila Borges e agrave Rejane Alves na Biblioteca na Faculdade de

Arquitetura e Urbanismo (FAU-USP) agrave Ana Cristina e agrave Mariana Queiroz na Biblioteca

da Faculdade de Filosofia Letras e Ciecircncias Humanas (FFLCH-USP) ao Heacutelio Rosa de

Miranda na Biblioteca do Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE-USP) agrave Biblioteca

da Escola Politeacutecnica (EP-USP) Na FAU Maranhatildeo agradeccedilo agrave Luacutecia Nepomuceno

Maria Joseacute Isa Dinaacute Maria Aparecida

Sou grato aos amigos e colegas que participaram de algum modo dessa jornada

Ricardo Zanchetta pelo diaacutelogo e valiosas contribuiccedilotildees presentes nesse trabalho

Claudio Duarte Maria Celina Gil Mariana Maria Faacutebia Alvim Siacutelvia Campanholo

Mayara Guimaratildees Maria Fernanda Rezende Rafael Urano Ana Paula Giardini

Pedro Camila Lima Ingrid Quintana Matheus Pustrello Rafael Gargano Ana Letiacutecia

Adami Yuri Ulbricht

Agradeccedilo aos amigos e familiares que proacuteximos ou distantes geograficamente

sempre estiveram por perto de alguma maneira Seacutergio Dallfollo Roberto Gasparini

Wladimir Barbieri Rodrigo Benedini Christiane Benedini Rafael Benedini Renan

Benedini Siacutelvia Benedini Wendel Dima Bruno Dima Michele Cardoso Alex

Cardoso Leonardo Basaglia Joseacute Basaglia Fabriacutecio Pupin Fernando Vicente

Fernanda Sandrin Fausto Radaelli Oliveira Fernando Radaelli Oliveira Francine

Radaelli Oliveira Deixo ainda agradecimentos ao meu irmatildeo Marcello A B Lima e agrave

Juliana Marchiori

Cumpre agradecer agrave FAPESP Fundaccedilatildeo de Amparo agrave Pesquisa do Estado de

Satildeo Paulo pelo apoio concedido

Mas se algum meacuterito haacute nesse trabalho deve-se antes a meus pais Beth

Benedini e Cloacutevis Correcirca Lima que cuidaram de assegurar instruccedilotildees diversas itaque

ego maximas infinitasque parentibus ago atque habeo gratias

χαλεπώτερον γὰρ καλὴν οἰκίαν ἢ οἰκίαν εἶναι

Aristoacuteteles ldquoArte Retoacutericardquo 1392a

RESUMO

Segundo Vitruacutevio a arquitetura deve se orientar pelos princiacutepios de firmeza

utilidade e venustidade Procurou-se perquirir de que modo a ratio uenustatis se insere

no De Architectura e o papel desempenhado Em torno da noccedilatildeo de uenustas reuacutenem-

se termos ndash tais como species aspectus aspiciens figura uisus oculus ndash concernentes agraves

preocupaccedilotildees visuais dirigidas agraves obras indicadas jaacute nas definiccedilotildees fundamentais da

arquitetura ndash ordinatio dispositio eurythmia symmetria decor e distributio Lecirc-se no Livro

III que o aspectus da obra lhe confere autoridade (auctoritas) e o templo eustilo

pseudodiacuteptero se afigura como exemplo maior na preceptiva Mas eacute preciso contar

antes com a auctoritas do arquiteto para isso instruiacutedo nas letras (litterae) dentre

variadas artes e erudiccedilotildees e apto simultaneamente ao fazer e ao raciocinar (fabrica et

ratiocinatio) As autoridades egreacutegias (egregias auctoritates) prometidas no primeiro

exoacuterdio agrave majestade do poder conduzido pelo Imperator por ocasiatildeo dos esforccedilos

empreendidos na construccedilatildeo puacuteblica dizem respeito agraves oportunidades e vantagens

(opportunitas) advindas de uma adequada ordenaccedilatildeo dos recintos urbanos (moenia) ndash

desde a escolha do siacutetio ateacute a determinaccedilatildeo das obras de uso comum ndash demonstrando-

se intrinsecamente conexas agrave diligecircncia no campo das venustidades que permeia os

demais acircmbitos da arte edificatoacuteria

Palavras-chave Vitruacutevio De Architectura Arquitetura Antiga Retoacuterica Auctoritas

Symmetria Eurythmia

ABSTRACT

According to Vitruvius architecture must be oriented by the principles of

firmitas utilitas and uenustas We tried to question how the ratio uenustatis is inserted

in the De Architectura and its role There are some terms which are gathered around

the concept of uenustas ndash such as species aspectus aspiciens figura uisus oculus ndash

concerning the visual matters directed to the building works already indicated by the

architecturersquos fundamental definitions ndash ordinatio dispositio eurythmia symmetria decor

and distributio As it is witten in Book III the aspectus bestows aucthority (auctoritas) on

the building and the eustylos pseudodipteros temple appears as a major exemplum in the

set of preceptions But before it is necessary to the authorized work to count upon the

architectrsquos authority to that instructed in the litterae among varied arts and eruditions

and apt at the same time to fabrica and ratiocinatio The prominent authority (egregias

auctoritates) promised to the majesty of the power lead by the Imperator in the first

exordium on the occasion of the efforts undertaken in the public building are

concerned with the opportunities and advantages (opportunitas) issued from an

adequate arrangement of the limited urban area (moenia) ndash from the selection of the

site to the common use buildings settlement ndash showing themselves intrinsically

connected with the heed of the ratio uenustatis that permeates the other fields of the ars

aedificatoria

Keywords Vitruvius De Architectura Ancient Architecture Rhetoric Auctoritas

Symmetria Eurythmia

SUMAacuteRIO

INTRODUCcedilAtildeO ____________________________________________ 15

1 DE ARCHITECTVRA E RETOacuteRICA _______________________ 23

11 Auctoritas e Litterae ____________________________________ 24

111 Encyclios disciplina __________________________________ 26

112 O arquiteto e o orador_______________________________ 31

113 Auctoritas e a doutrina ______________________________ 35

114 Expedientes discursivos _____________________________ 37

115 Vitruacutevio auctor ____________________________________ 42

12 Auctoritas e Venustas ___________________________________ 45

121 Eustilo e auctoritas __________________________________ 46

122 Sentidos de auctoritas _______________________________ 47

123 Asperitas __________________________________________ 49

13 Auctoritas e Aedificatio __________________________________ 52

131 Auctoritas e Maiestas Imperii __________________________ 53

132 Basiacutelica de Fano auctoritas e uenustas __________________ 55

133 Auctoritas no De Architectura _________________________ 58

2 RAZOtildeES DO CORPO ____________________________________ 65

21 Corpus Hominis et Mensurarum Rationes ___________________ 67

22 Μίμησις Imitatio Similitudo _____________________________ 85

3 PRECEITOS PARA O ENCANTO _________________________ 110

31 Contratura e Ecircntase ___________________________________ 120

32 Estiloacutebata ___________________________________________ 124

33 Arquitrave __________________________________________ 127

34 Entablamento ________________________________________ 135

35 Skenographiacutea _________________________________________ 136

36 Scaenographia ________________________________________ 142

37 Obra isolada e conjunto edificado _______________________ 147

38 Acumen eurythmia symmetria ___________________________ 154

CONCLUSAtildeO ____________________________________________ 161

APEcircNDICE A ____________________________________________ 171

ldquoAjustes meacutetricos e variaccedilotildees na arquitetura antigardquo

APEcircNDICE B ____________________________________________ 187

ldquoO Cacircnone de Policleto e a hipoacutetese de Tobinrdquo

ANEXO 1 _______________________________________________ 208

Fragmento O que eacute o cenograacutefico segundo ediccedilatildeo Hultsch

ANEXO 2 _______________________________________________ 209

Fragmento O que eacute o cenograacutefico segundo ediccedilatildeo Schoumlne

ANEXO 3 _______________________________________________ 210

Excerto de De Placitis Hippocratis et Platonis de Galeno

BIBLIOGRAFIA __________________________________________ 212

NOTA PREacuteVIA As referecircncias de traduccedilotildees a que recorremos neste trabalho satildeo

sempre indicadas junto agraves citaccedilotildees As demais traduccedilotildees satildeo nossas Procurou-se ainda

verter as passagens dos estudiosos modernos seja do inglecircs do francecircs ou do italiano

para o portuguecircs entretanto optou-se por apresentar tambeacutem o original quando

oportuno

INTRODUCcedilAtildeO

15

INTRODUCcedilAtildeO

Mais de dois mil anos se passaram desde a escrita do De Architectura De cada

uolumen ateacute a prensa mecacircnica muito se manuseou o corpus vitruviano por vezes

alterado com o labor de anocircnimos copistas graccedilas aos quais no entanto evitou-se que

fosse lanccedilado ao esquecimento As ediccedilotildees impressas soacute fizeram propagar o escrito

reproduzido em ritmo que a caligrafia natildeo poderia alcanccedilar A liacutengua latina de outrora

distanciava-se cada vez mais dos idiomas nascentes nos territoacuterios que haviam

constituiacutedo os domiacutenios de Roma e a proacutepria Vrbs O legado de Vitruacutevio passava

entatildeo a ser traduzido ao mesmo tempo que as interpretaccedilotildees se multiplicavam Mas

logo do escrito se depreendia mais obscuridade1 do que diferenccedilas Claude Perrault

afirmou em ediccedilatildeo de 1684 aos Dez Volumes que o autor latino eacute impreciso por dizer

a mesma coisa nas definiccedilotildees de eurythmia e symmetria em um discurso embaraccedilado2

Seraacute mesmo

Antes poreacutem Leon Batista Alberti evocara Vitruacutevio em seu De Re Aedificatoria

elogiando-o como scriptorem instructissimum uacutenico supeacuterstite ao naufraacutegio causado

pelas ldquoinjuacuterias dos tempos e dos homensrdquo (temporum hominumque iniuria) dentre tantos

1 Conforme mostra DrsquoAgostino ldquoontem e hoje hermenecircutas vecircem na lsquoobscuridade de Vitruacuteviorsquo um

claro sinal da confusatildeo de propoacutesitos e despreparo do autor ao ambicionar um escrito de tamanha

pujanccedilardquo (DrsquoAgostino ldquoA beleza e o maacutermore - o Tratado De Architectura de Vitruacutevio e o Renascimentordquo

p 64) Eacute de se notar por outro lado que recentes estudos procuram rever ldquocontradiccedilotildees e incoerecircncias

apontadas no De Architecturardquo (ibid p 66) tal como se lecirc na abertura da ediccedilatildeo italiana de 1997 dirigida

por Pierre Gros 2 Perrault C ldquoLes Dix Livres drsquoArchitecture de Vitruve ndash corrigez e traduits nouvellement en Franccedilois

avec des Notes amp des Figuresrdquo I cap 2 n 8 b-c p 11 ldquotous les Interpretes ont cru que lrsquoEurythmie amp

la Proportion que Vitruve apelle Symmetria font icy deux choses differentes parce qursquoil semble qursquoil en

donne deux definitions mais ces definitions agrave les bien prendre ne disent que la mesme chose lrsquoune amp

lrsquoautre ne parlant par un discours eacutegalement embrouumlilleacute que de la Convenance de la Correspondance

amp de la Proportion que les parties ont au toutrdquo

16

monumentos ilustriacutessimos mas natildeo sem se deixar corromper pela tempestade dos

seacuteculos3 Contudo as faltas de Vitruacutevio natildeo eram atribuiacutedas por Alberti apenas agraves

contingecircncias ldquoocorriam ainda porque o modo como aquilo tinha sido transmitido era

inculto com efeito sua elocuccedilatildeo era tal que aos latinos parecia grego e os gregos

supunham que falasse latimrdquo4 Alberti chega a afirmar que a linguagem de Vitruacutevio

natildeo era testemunha nem do latim nem do grego pois ininteligiacutevel5 A invectiva contra

a escrita ldquonon cultardquo do autor do De Architectura eacute clara No entanto em que medida

ela consistiria um juiacutezo contra Vitruacutevio No primeiro dos Dez Volumes eacute possiacutevel

observar um ataque de semelhante veemecircncia ao que sustentou em seus comentaacuterios

o antigo arquiteto do templo de Minerva em Priene ldquovecirc-se que nisso Piacutetio errourdquo6

sentencia Vitruacutevio A investida de Ciacutecero contra Hermaacutegoras no De Inuentione beira

o insulto ldquode fato eacute muito pouco falar sobre a arte tal como fez Hermaacutegoras Muito

mais importante eacute pronunciar um discurso a partir dos preceitos da arte o que ele era

incapaz de fazer conforme todos vemosrdquo7 A recorrecircncia da censura a antepassados

insignes leva a conjecturar o recurso a certo expediente discursivo8 Pois para nos

atermos aos escritos voltados agrave arte edificatoacuteria eacute possiacutevel observar que Vitruacutevio natildeo

deixa de haurir das fontes dos arquitetos gregos recorrendo ao proacuteprio Piacutetio9 embora

o critique Igualmente a despeito das apreciaccedilotildees desfavoraacuteveis Alberti natildeo deixa de

3 Alberti L B ldquoDe Re Aedificatoriardquo (VI 1) p 441 ldquonanque dolebam quidem tam multa tamque praeclarissima

scriptorum monumenta interisse temporum hominumque iniuria ut vix unum ex tanto naufragio Vitruvium

superstitem haberemus scriptorem procul dubio instructissimum sed ita affectum tempestate atque lacerum ut

multis locis multa desint et multis plurima desideresrdquo 4 Alberti L B ldquoDe Re Aedificatoriardquo (VI 1) p 441 ldquoaccedebat quod ista tradidisset non culta sic enim

loquebatur ut Latini Graecum videri voluisse Graeci locutum Latine vaticinenturrdquo 5 Alberti L B ldquoDe Re Aedificatoriardquo (VI 1) p 441 ldquores autem ipsa in sese porrigenda neque Latinum neque

Graecum fuisse testetur ut par sit non scripsisse hunc nobis qui ita scripserit ut non intelligamusrdquo Traduccedilatildeo

ldquomas a proacutepria linguagem apresentada natildeo era testemunha nem do Latim nem do Grego pois se fosse

como a de seus pares natildeo teria escrito isso a noacutes assim de modo que natildeo entendecircssemosrdquo 6 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre I (I 1 15) p 12 ldquoigitur in hac re Pytheos errasse uideturrdquo 7 Cicero ldquoDe Inventionerdquo (I 8) p 18 ldquouerum oratori minimum est de arte loqui quod hic fecit multo maximum

ex arte dicere quod eum minime potuisse omnes uidemusrdquo 8 Cf Gueacuterin C ldquoCicero as User and Critic of Traditional Rhetorical Patterns structural authority from

De Inventione to De Oratorerdquo In Galewicz C (ed) Texts of Power The power of the Text ndash Readings in

Textual Authority Across History and Cultures Krakoacutew Homini 2006 p 79 9 Cf Vitr (VII pref 12)

17

ter Vitruacutevio como exemplo agrave composiccedilatildeo de seu De Re Aedificatoria mesmo entre tantas

contribuiccedilotildees que divergem do escrito antigo Ademais no prefaacutecio ao Livro V

Vitruacutevio justifica o modo de escrita adotado pela adequaccedilatildeo agrave dificuldade da mateacuteria

que trata cujo vocabulaacuterio se afasta da linguagem cotidiana requerendo uma elocuccedilatildeo

diversa daquelas de outros gecircneros de escrita como a histoacuteria e a poesia10

Essa sorte de indagaccedilatildeo norteou o Capiacutetulo Primeiro do presente trabalho em

que se procurou discutir alguns toacutepicos da construccedilatildeo do De Architectura

relativamente agrave sua adequaccedilatildeo a um sistema de escrita Vitruacutevio afirma que o arquiteto

deve ser litteratus e associa as litterae com a auctoritas de seu labor Mas em que medida

o arquiteto deve dispor dessa instruccedilatildeo Ciacutecero escreve no De Oratore que Filo o

arquiteto do arsenal ateniense expocircs ao povo as explicaccedilotildees sobre essa obra com

grande eloquecircncia (perdiserte) como orador e natildeo como construtor11 Mas a ratio

dicendi natildeo estaacute entre as erudiccedilotildees que Vitruacutevio recomenda ao arquiteto12 Se a chancela

a esse artiacutefice se daacute entre outros fatores pelo conhecimento das litterae resta que elas

constituem a chave de acesso agraves liccedilotildees legadas por comentaacuterios pelas obras dos

antepassados ilustres mas sobretudo agrave doutrina erigida pelo proacuteprio Vitruacutevio que

se pretende auctor e por meio de suas precisas prescriccedilotildees (praescriptiones terminatas)

10 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre V (I pref 1-2) p 1 ldquonon enim de architectura sic scribitur uti historia

aut poemata Historiae per se tenent lectores habent enim nouarum rerum uarias exspectationes Poematorum

uero carminum metra et pedes ac uerborum elegans dispositio et sententiarum inter personas distinctas uersuum

pronuntiatio prolectando sensus legentium perducit sine offensa ad summam scriptorum terminationem Id autem

in architecturae conscriptionibus non potest fieri quod uocabula ex artis propria necessitate concepta inconsueto

sermone obiciunt sensibus obscuritatemrdquo Traduccedilatildeo ldquopois natildeo se escreve sobre arquitetura assim como

histoacuteria ou poemas As histoacuterias por si mesmas retecircm os leitores jaacute que contam com vaacuterias expectativas

de coisas novas Os metros dos versos e os peacutes dos poemas assim como a disposiccedilatildeo elegante das

palavras e das frases entre pessoas distintas atraindo os sentidos dos leitores pela pronunciaccedilatildeo dos

versos conduz ateacute o teacutermino dos escritos sem obstaacuteculo Mas isso natildeo ocorre nos escritos sobre

arquitetura porque os vocaacutebulos concebidos pela necessidade proacutepria agrave arte lanccedilam obscuridade ao

discurso natildeo habitualrdquo 11 Cicero ldquoDe Oratorerdquo (I 62) p 46 12 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre I (I 1 18) p 14 ldquonamque non uti summus philosophus nec rhetor

disertus nec grammaticus summis rationibus artis exercitatus sed ut architectus his litteris imbutus haec nisus

sum scribererdquo Traduccedilatildeo ldquopois natildeo foi como sumo filoacutesofo nem como retor eloquente nem como sumo

gramaacutetico exercitado nas regras da arte mas como arquiteto que me esforcei em escrever estes

volumesrdquo

18

intenta expor nada menos que ldquotodas as regras da disciplinardquo (namque his uoluminibus

aperui omnes disciplinae rationes)13 segundo a amplificaccedilatildeo presente no primeiro

exoacuterdio

Agrave semelhanccedila das relaccedilotildees proporcionais existentes entre os membros de um

homem bem configurado pela natureza deve ser estabelecida a composiccedilatildeo dos

templos Cabe ao arquiteto portanto observar com a maacutexima diligecircncia a symmetria

entre as partes e o todo dos edifiacutecios sagrados que se constituem exempla para toda

sorte de edificaccedilatildeo Os comentadores falam em miacutemesis14 para essa transferecircncia

proposta entre o corpo do homem e a arquitetura Pocircde-se observar no Segundo

Capiacutetulo deste trabalho que o termo imitatio tomado muitas vezes como equivalente

latino da μίμησις (miacutemesis) grega estaacute em sete dos dez volumes do De Architectura e

em cinco dos sete livros voltados agrave aedificatio revelando que a noccedilatildeo perpassa boa parte

do corpus vitruviano Mas precisamente no Livro III que recomenda a composiccedilatildeo dos

templos em similitude agraves relaccedilotildees entre as partes do corpo do homem bem

configurado Vitruacutevio natildeo fala em imitatio tampouco emprega μίμησις (miacutemesis)

Aleacutem do que os usos que Vitruacutevio faz de imitatio natildeo coincidem exatamente com o

difiacutecil conceito de μίμησις (miacutemesis) e suas variantes presentes em diversos autores

gregos e mesmo nos filoacutesofos A descriccedilatildeo do homem vitruviano prima pela regulaccedilatildeo

meacutetrica que determina sua configuraccedilatildeo relacionada esta com as preocupaccedilotildees

voltadas aos sistemas de medidas (mensurarum rationes) baseados nos nuacutemeros

perfeitos Ao mesmo tempo eacute possiacutevel identificar no Livro dos Templos a

preceituaccedilatildeo de uma seacuterie de ajustes meacutetricos que alteram as relaccedilotildees proporcionais

anteriormente estabelecidas tendo por fim o aspecto da obra Assim o exame da trama

conceitual em torno da descriccedilatildeo do homo bene figuratus permite rever a formulaccedilatildeo

que recai na contradiccedilatildeo aparente entre um suposto rigor matemaacutetico e os ajustes

13 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre I (I pref 3) p 3 14 Cf Gros P ldquoLa geacuteomeacutetrie platonicienne de la notice vitruvienne sur lrsquohomme parfait (De Architectura

III 1 2-3)rdquo p 17 cf Cam M-T ldquoIntroductionrdquo in Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre VII p XXXV

cf Ferri S in Vitruvio ldquoArchitetturardquo n 4 p 168

19

meacutetrico-proporcionais que alteram essa ordenaccedilatildeo considerando-se que a rigidez

implacaacutevel dos nuacutemeros nunca esteve no horizonte do autor-arquiteto preocupado

mais com as relaccedilotildees de medidas e as concordacircncias pelo que se datildeo a ver

De acordo com Vitruacutevio natildeo basta que o arquiteto tenha auctoritas sendo

conhecedor das litterae ao mesmo tempo que instruiacutedo em variadas artes e disciplinas

Eacute preciso ainda que a obra seja autorizada e o templo eustilo pseudodiacuteptero pode

garantir autoridade (auctoritas) ao edifiacutecio a partir da disposiccedilatildeo de seu

deambulatoacuterio mais precisamente pelo aspectus que resulta da symmetria de seus

membros em concordacircncia com a distribuiccedilatildeo e a parcimocircnia no uso dos materiais

Vecirc-se pois que uma noccedilatildeo concernente ao acircmbito da ratio uenustatis ndash o aspectus ndash

dirige a auctoritas que se reivindica agrave obra pelo propoacutesito de dar a ver o efeito da

magna e aguda soleacutercia do arquiteto e deleitar Sendo que o aspectus promove a

autoridade da obra e ldquoa visatildeo persegue as venustidadesrdquo (uenustates enim persequitur

uisus)15 como conferir encanto agraves obras Eacute o que indagamos no Terceiro Capiacutetulo

percorrendo o preceituaacuterio vitruaviano que classifica os princiacutepios dos templos pelo

aspecto de sua configuraccedilatildeo (figurarum aspectus) aliado agrave divisatildeo posterior em species

pelas cinco modalidades de ritmaccedilotildees das colunas Observou-se que na descriccedilatildeo de

todas as partes do templo ndash base colunas e epistiacutelio ndash satildeo previstos ajustes eurriacutetmicos

cujo propoacutesito se vincula a preocupaccedilotildees visuais natildeo sem implicar enorme esforccedilo

teacutecnico Nessas passagens a noccedilatildeo de uenustas16 se evidencia por termos que evocam

15 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III (III 3 13) p 21 16 O termo uenustas adveacutem de uenus e segundo Pierre Gros eacute ldquocalcado diretamente sobre a deusa do

amor implicando uma relaccedilatildeo direta com a noccedilatildeo de prazerrdquo (Gros P ldquoVoluptas chez Vitruverdquo p

488) Segundo Ernout e Meillet ldquovenusrdquo designa ldquoo amor fiacutesico o instinto o apetite ou o ato sexualrdquo

(Ernout amp Meillet ldquoDictionnaire Eacutetymologique de la Langue Latinerdquo p 721) Haacute para ldquovenusrdquo o sentido

de conjunto de ldquoqualidades que excitam o amor a graccedila a seduccedilatildeo os encantos no plural traduz

χάριτες (khaacuterites)rdquo (ibid p 722) ldquoVenusrdquo pode se referir ainda agrave deusa do amor ldquocorrespondente latina

da Αφροδίτη (Aphrodiacutete) grega da qual tomou plenamente o sentidordquo (ibid p 722) Pierre Grimal

reitera essa posiccedilatildeo de que ldquoAfrodite eacute a deusa do amor identificada em Roma com a velha divindade

itaacutelica Vecircnusrdquo (Grimal ldquoDicionaacuterio de Mitologia Grega e Romanardquo p 10) De uenus adveacutem ainda o

adjetivo uenustus que indica a qualidade daquele ldquolsquoque possui ou que excita o amorrsquo [] e por

derivaccedilatildeo lsquodesejaacutevel sedutor amaacutevel graciosorsquordquo (Ernout amp Meillet op cit p 722) Enfim uenustas

aparece como mais uma derivaccedilatildeo e eacute sinocircnimo de seduccedilatildeo graccedila etc no De Architectura eacute o termo

empregado para designar o encanto que se daacute especialmente pelos olhos Beleza talvez seja a traduccedilatildeo

20

os olhos e a visatildeo ndash species aspectus aspiciens figura uisus oculus ndash que jaacute orbitavam as

definiccedilotildees fundamentais da arquitetura ndash ordinatio dispositio eurythmia symmetria

decor e distributio ndash com mais ou menos ecircnfase Com efeito diz-se que a eurythmia eacute

ldquouenusta speciesrdquo (a vista venusta) e ldquocommodus aspectusrdquo (o aspecto comensurado) a

symmetria ldquoo acordo conveniente dos membros da proacutepria obra entre si e a correlaccedilatildeo

de uma determinada parte dentre as partes separadas com a vista do conjunto da

figura (ad uniuersae figurae speciem)rdquo

Um fragmento grego chamado ldquoO que eacute o cenograacuteficordquo (Τί τό σκηνογρφιχόν)

de autoria incerta eacute frequentemente evocado pelos comentadores de Vitruacutevio pelo

menos desde o final do seacuteculo XIX para explicar os ajustes oacuteticos propostos Segundo

o autor do fragmento anocircnimo a finalidade do arquiteto eacute cuidar da εὐρυθμία

(eurythmiacutea) da obra propondo remeacutedios aos enganos dos olhos Entretanto em

Vitruacutevio a scaenographia diferente da σκενογραφία (skenographiacutea) do fragmento

grego estaacute associada a uma das modalidades da disposiccedilatildeo (dispositio) da obra e diz

respeito agrave produccedilatildeo de desenhos natildeo sendo vinculada diretamente a quaisquer dos

ajustes oacuteticos prescritos Procurou-se tambeacutem nessa parte do trabalho reconhecer

pontos de contato entre o exiacuteguo fragmento e o escrito vitruviano marcando as

mais usual agrave palavra latina no De Architectura adotada na ediccedilatildeo portuguesa de M J Maciel (ldquoTratado

de Arquiteturardquo - I 3 2 - p 82) na ediccedilatildeo francesa de Ph Fleury como ldquobeauteacuterdquo (Vitruve ldquoDe

LrsquoArchitecturerdquo Livre I - I 3 2 - p 20) e tambeacutem por Pierre Gros (Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre

III - III 3 13 - p 21) entre outros Eacute amplamente atestada em Ciacutecero (para nos atermos apenas ao

primeiro livro do De Oratore I 17 - ldquosubtili uenustaterdquo I 130 - ldquosumma uenustaterdquo I 142 ndash ldquocum dignitate

ac uenustaterdquo I 243 - ldquosumma festiuitate et uenustaterdquo I 251 - ldquogestum et uenustatemrdquo) e em Quintiliano

(apenas no Livro IX da Institutio Oratoria IX 33 - ldquouel ad uenustatem ipsardquo IX 60 - ldquounde etiam uenusti

transitus fiuntrdquo IX 66 - ldquoqui uenustatis modo gratia adhibeturrdquo IX 72 - ldquoacer uenustatemrdquo IX 145 -

ldquouenustatis et gratiaerdquo) Todavia como nos faz notar Pollitt pelo caraacuteter ldquomais mundanordquo uenustas se

distingue de pulchritudo mais proacutexima esta ao grego τὸ κάλλος (Pollitt J J ldquoThe Ancient View of Greek

Artrdquo p 448) De fato haacute algo na uenustas vitruviana que destoa por exemplo da pulchritudo superlativa

que Virgiacutelio atribui a Dido ldquoforma pulcherrima Didordquo (Virgiacutelio Eneida I 496) Pulcher natildeo ocorre no De

Architectura cuja ratio uenustatis parece divergir igualmente do τὸ κάλλος dos filoacutesofos A liacutengua

portuguesa dispotildeem dos vocaacutebulos ldquovenustordquo e ldquovenustidaderdquo que procuramos eleger

preferencialmente para verter uenustas no corpo deste trabalho porque aleacutem de guardarem grande

semelhanccedila morfoloacutegica ao termo latino podem ainda servir de balizamento agrave tentativa de preservar

tanto quanto possiacutevel a trama de significaccedilatildeo proacutepria ao De Architetura Pouco habituais na liacutengua

corrente moderna ldquovenustordquo e ldquovenustidaderdquo natildeo se mostram vinculados pelo uso a determinadas

doutrinas de artes ou esteacuteticas

21

distacircncias entre ambos e incluindo os usos divergentes que cada um faz dos termos

que se assemelham

Satildeo apresentados ainda dois apecircndices que fornecem paracircmetros agrave leitura do

De Architectura especialmente agraves questotildees aqui suscitadas O primeiro deles trata dos

ajustes meacutetricos na arquitetura antiga grega e romana baseando-se em obras de

estudiosos da aacuterea e nos escassos registros dessa dimensatildeo da antiga arte edificatoacuteria

que quase foi levada ao esquecimento O segundo apecircndice procura reunir elementos

de apoio agrave leitura da descriccedilatildeo do homo bene figuratus tomando por base a hipoacutetese

proposta por Tobin de interpretaccedilatildeo do Cacircnone de Policleto transmitido por Galeno

segundo dispositivos geomeacutetricos e teacutecnicos supostos agrave elaboraccedilatildeo da estatuaacuteria Essa

hipoacutetese permite pensar possiacuteveis pontos de contato e de distanciamento do Cacircnone

de Policleto agraves passagens em que satildeo elencadas as proporccedilotildees do homem vitruviano

Capiacutetulo 1

DE ARCHITECTVRA E RETOacuteRICA

23

1 DE ARCHITECTVRA E RETOacuteRICA

O Livro Primeiro do De Architectura apresenta as instruccedilotildees a que o arquiteto

deve recorrer para desempenhar a sua arte A seacuterie de nove disciplinas enumeradas se

inicia com a afirmaccedilatildeo de que o arquiteto deve ser litteratus precedida pela advertecircncia

de que sem letras (sine litteris) seria impossiacutevel conferir autoridade (auctoritas) ao labor

Por mais distante que a sutileza das letras possa se afigurar em relaccedilatildeo aos penosos

procedimentos que constituem a arte de edificar ndash pela lida com materiais brutos e em

dimensotildees que podem alcanccedilar o colosso ndash haacute algo nelas de que o arquiteto natildeo pode

prescindir O fazer (fabrica) e o raciocinar (ratiocinatio) se conjugam em muacutetua

implicaccedilatildeo de modo que a operaccedilatildeo das matildeos que fabricam pressupotildee meditaccedilatildeo e

propositum enquanto a ratiocinatio desempenhada com soleacutercia e meacutetodo (ratio)

depende da mateacuteria das res fabricatas O arquiteto precisa portanto de ambos ndash fabrica

e ratiocinatio ndash para assegurar auctoritas ao intento Mas como podem as letras deter o

primeiro posto na seacuterie de erudiccedilotildees prescritas Vitruacutevio aproxima as litterae agrave

ratiocinatio por oposiccedilatildeo agrave fabrica expondo que ambos os polos satildeo imprescindiacuteveis agrave

arte edificatoacuteria

Aleacutem das disciplinas que se somam ao engenho do arquiteto deve-se atentar

ainda para uma face do De Architectura menos visiacutevel ao leitor pouco afeito agraves

convenccedilotildees de escrita da eacutepoca de Vitruacutevio que no entanto regulam a preceptiva

explicando algumas de suas escolhas O cuidado com a doutrina inserida num

conjunto de transmissatildeo de obras escritas com relaccedilatildeo a qual natildeo se medem esforccedilos

24

no intento de fazecirc-la autorizada revela que a disciplina do arquiteto necessita ainda

se ancorar em preceitos estabelecidos para obter auctoritas

11 Auctoritas e Litterae

A ciecircncia1 do arquiteto eacute guarnecida por muitas disciplinas (pluribus disciplinis)

e instruccedilotildees variadas (uariis eruditionibus) ndash satildeo as palavras que iniciam o Livro

Primeiro do De Architectura Ressoando a toacutepica retoacuterica de variedade e copiosidade2

propotildee-se agrave disciplina abarcar territoacuterios diversos mas comunicantes entre si O

julgamento do arquiteto prova das outras artes como quem experimenta ou toma um

pouco de algo para lhe examinar o sabor mas tambeacutem e talvez principalmente no

1 Quintiliano tambeacutem define a retoacuterica como ciecircncia ldquoars erit quae disciplina percipi debet ea est bene dicendi

scientiardquo (Quintiliano II 14 5) Traduccedilatildeo ldquoa arte [retoacuterica] eacute o que deve ser apreendido pelas instruccedilotildees

ela eacute a ciecircncia do dizer bemrdquo Beatriz Vasconcelos aponta um uso sinocircnimo de ciecircncia e arte que

remontaria aos estoicos Zenatildeo e Cleantes por oposiccedilatildeo agrave distinccedilatildeo aristoteacutelica entre ciecircncia (episteacuteme) e

arte (teacutechne) (Vasconcelos ldquoCiecircncia do dizer bemrdquo n 13 p 61) 2 Segundo Ciacutecero variedade e copiosidade satildeo centrais ao orador ldquonunquam enim negabo esse quasdam

artes proprias eorum qui in his cognoscendis atque tratandis studium suum omne posuerunt sed oratorem

plenum et perfectum esse eum dicam qui de omnibus rebus possit varie copioseque dicererdquo (Cicero ldquoDe Oratorerdquo

I 59 p 44) Traduccedilatildeo ldquocom efeito jamais negarei a existecircncia de determinadas artes proacuteprias daqueles

que depositaram todos os seus esforccedilos no aprendizado e tratamento de tais coisas mas o orador

completo e perfeito eacute aquele capaz de falar sobre todos os assuntos de maneira variada e abundanterdquo

(Scatolin A ldquoA invenccedilatildeo no Do Orador de Ciacutecero um estudo agrave luz de Ad Familiares I 9 23rdquo p 157) Cf

ainda Cicero ldquoDe Oratorerdquo (I 16) (I 85) (I 262) Variedade e copiosidade nos estudos por outro lado

satildeo marcas do modo de investigaccedilatildeo da filosofia uma sorte de procriadora de todas as artes escrevera

Ciacutecero ldquoneque enim te fugit artium omnium laudatarum procreatricem quamdam et quasi parentem eam quam

φιλοσοφίαν Graeci vocant ab hominibus doctissimis iudicari in qua difficile est enumerare quot viri quanta

scientia quantaque in suis studiis varietate et copia fuerint qui non una aliqua in re separatim elaborarint sed

omnia quaecumque possent uel scientiae peruestigatione vel desserendi ratione comprehenderintrdquo (Cicero ldquoDe

Oratorerdquo I 9 p 8) Na traduccedilatildeo para o portuguecircs de Scatolin ldquonatildeo ignoras com efeito o fato de os

mais doutos julgarem aquela que os gregos chamam philosophiacutea a procriadora por assim dizer e como

que matildee de todas as artes de valor nela eacute difiacutecil enumerar quantos homens de grande saber e grande

variedade e abundacircncia em seus estudos houve que natildeo trabalharam isoladamente sobre um uacutenico

tema mas abarcaram tudo o que lhes era possiacutevel fosse por meio da investigaccedilatildeo cientiacutefica fosse da

dialeacuteticardquo (Scatolin A ldquoA invenccedilatildeo no Do Orador de Ciacutecero um estudo agrave luz de Ad Familiares I 9 23rdquo

p 150) Sobre a uarietas no discurso cf ainda Quintiliano Institutio Oratoria I 12 4

25

sentido de que se vale de conhecimentos aprovados isto eacute bem sucedidos quando

postos agrave prova3 estabelecidos

Para Vitruacutevio a ciecircncia do arquiteto nasce do fazer e do raciocinar (ea nascitur

ex fabrica et ratiocinatione) Menos que fases sucessivas essas duas dimensotildees se

completam a ponto de imiscuir-se conferindo autoridade ao arquiteto ldquomas aqueles

que aprenderam a fundo uma e outra coisa como que ornados de armamentos mais

facilmente alcanccedilaram o propoacutesito com autoridaderdquo4

Se o que se segue ao empreendimento duplo de fabrica e ratiocinatio5 eacute a

autoridade (auctoritas) coroando o propoacutesito buscado pelo arquiteto aqueles no

entanto que se fiaram exclusivamente nos pensamentos e nas letras como que

perseguem a sombra e natildeo a proacutepria coisa afirma Vitruacutevio6 Jaacute os arquitetos que

prescindiram das letras (litteris) esforccedilando-se em exercitar as matildeos natildeo puderam

conferir auctoritas ao labor7

3 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre I (I 1 1) p 4 ldquoArchitecti est scientia pluribus disciplinis et uariis

eruditionibus ornata cuius iudicio probantur omnia quae ab ceteris artibus perficiuntur operardquo Traduccedilatildeo ldquoA

ciecircncia do arquiteto eacute ornada de muitas disciplinas e variadas instruccedilotildees seu julgamento prova tudo o

que perfaz as obras de outras artesrdquo Cf Ernout A amp Meillet A ldquoDictionnaire eacutetymologique de la

langue latine - histoire des motsrdquo verbete ldquoprobusrdquo p 950 Cf ainda Bluteau R ldquoVocabulario

Portuguez e Latinordquo verbetes ldquoprovardquo p 799 e ldquoprovarrdquo p 800 4 Ibid (I 1 2) p 4 ldquoat qui utrumque perdidicerunt uti omnibus armis ornati citius cum auctoritate quod fuit

propositum sunt adsecutirdquo 5 Elisa Romano afirma que natildeo haacute uma distinccedilatildeo niacutetida entre os dois conceitos de modo que ldquoa fabrica

pressupotildee o propositum enquanto a ratiocinatio parece pressupor as res fabricataerdquo (Romano E ldquoLa

capana e il tempiordquo p 53) Para a comentadora a pouca precisatildeo na definiccedilatildeo de ambos os termos

impede que se reduza ratiocinatio a mero comentaacuterio de fabrica (ibid p 53) De fato a presunccedilatildeo da

posterioridade do conceito de ratiocinatio em relaccedilatildeo ao de fabrica parece afastar-se dos

desenvolvimentos expostos no De Architectura 6 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre I (I 1 2) p 4 ldquoqui autem ratiocinationibus et litteris solis confisi

fuerunt umbram non rem persecuti uidenturrdquo Traduccedilatildeo ldquovecirc-se que aqueles que se fiaram somente nos

raciociacutenios e nas letras perseguem a sombra e natildeo a coisardquo 7 Ibid (I 1 2) p 4 ldquoitaque architecti qui sine litteris contenderant ut manibus essent exercitati non potuerunt

efficere ut haberent pro laboribus auctoritatemrdquo Traduccedilatildeo ldquoassim os arquitetos que se esforccedilaram sem os

conhecimentos obtidos pelos livros como tivessem apenas as matildeos exercitadas natildeo puderam garantir

autoridade aos trabalhosrdquo

26

Sustenta-se ainda que o arquiteto deve ser conhecedor das letras para que a

memoacuteria seja reforccedilada por meio de comentaacuterios8 Mas se trata da memoacuteria do

arquiteto a ser reforccedilada ou de uma memoacuteria a ser deixada agrave posteridade9 Quer se

entenda comentariis como apontamentos de utilizaccedilatildeo do artiacutefice quer como

elaboraccedilatildeo a ser divulgada resta que o arquiteto deve natildeo apenas ser letrado mas

ldquohaacutebil em desenho instruiacutedo em geometria deve conhecer muitas histoacuterias ter ouvido

os filoacutesofos com diligecircncia saber de muacutesica natildeo ser ignorante em medicina conhecer

as decisotildees dos jurisconsultos ter conhecimentos de astrologia e dos sistemas celestesrdquo10

ndash instruccedilotildees difundidas em boa medida por meio de escritos

111 Encyclios disciplina

As instruccedilotildees variadas e copiosas constituem como que os degraus a serem

transpostos por aqueles que almejam alccedilar-se ao templo da arquitetura e poderaacute

parecer admiraacutevel aos pouco versados na mateacuteria que a natureza tivesse permitido a

aprendizagem de tal nuacutemero de doutrinas (tantum numerum doctrinarum)11 e sua

retenccedilatildeo na memoacuteria Vitruacutevio diz que os leigos (inperitis) acreditaratildeo facilmente que

possa ser assim tatildeo logo observarem que todas essas disciplinas possuem elementos

de ligaccedilatildeo e compartilhamento Ademais natildeo eacute possiacutevel declarar-se legitimamente

arquiteto de suacutebito sem ter sido nutrido por muitas letras e artes desde tenra idade

8 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre I (I 1 4) p 5 ldquolitteras architectum scire oportet uti commentariis

memoriam firmiorem efficere possitrdquo Traduccedilatildeo ldquoconveacutem ao arquiteto saber letras para que possa tornar a

memoacuteria mais firme por meio de comentaacuteriosrdquo 9 Sobre os sentidos possiacuteveis de comentarii cf Ph Fleury in ibid n I p 71 Sobre a memoacuteria como

parte da retoacuterica cf sobretudo a anocircnima Retoacuterica a Herecircnio (III 28-40) o De Oratore (II 350-360) de

Ciacutecero e a Institutio Oratoria de Quintiliano (XI 2 1-51) 10 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre I (I 1 3) p 5 ldquoet ut litteratus sit peritus graphidos eruditus

geometria historias complures nouerit philosophos diligenter audierit musicam scierit medicinae non sit

ignarus responsa iurisconsultorum nouerit astrologiam caelique rationes cognitas habeatrdquo O Livro VII

apresenta exaustiva listagem de auctores muitos dos quais tendo deixado obras escritas ou comentaacuterios

cf n 52 infra 11 Ibid (I 1 12) p 10

27

afirma O conjunto de erudiccedilotildees que compotildeem a disciplina do arquiteto perfaz-se

entatildeo corpo unitaacuterio constituiacutedo a partir de seus membros as mateacuterias ancilares

encyclios enim disciplina uti corpus unum ex his membris est composita12

O autor latino faz menccedilatildeo a Piacutetio apresentado como construtor do notaacutevel

templo de Priene dedicado a Minerva em cujos comentaacuterios teria sustentado que o

arquiteto deve ultrapassar em todas as artes e doutrinas o estaacutegio obtido por aqueles

que se dedicam particularmente a alguma delas Mas tal posiccedilatildeo eacute rechaccedilada por

Vitruacutevio

o arquiteto natildeo deve e nem mesmo pode ser gramaacutetico como tinha sido Aristarco ainda

assim natildeo deve ser desconhecedor de gramaacutetica natildeo deve ser muacutesico como Aristoacutexeno

12 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre I (I 1 12) p 10 Traduccedilatildeo ldquopois o ciclo da disciplina eacute composto

como que por um corpo uacutenico a partir de seus membrosrdquo Quintiliano por sua vez afirma que o engenho

humano eacute aacutegil e veloz a ponto de permitir que se dedique a coisas diversas natildeo apenas no mesmo dia

mas no mesmo momento ldquosed non satis perspiciunt quantum natura humani ingenii ualeat quae ita est agilis

ac uelox sic in omnem partem ut ita dixerim spectat ut ne possit quidem aliquid agere tantum unum in plura

uero non eodem die modo sed eodem temporis momento uim suam intendatrdquo (Quintilien ldquoInstitution

Oratoirerdquo I 12 2 p 148) Assim tambeacutem escreve o citaredo recorre simultaneamente agrave memoacuteria cuida

da voz e das inflexotildees tange as cordas do instrumento variando as posiccedilotildees aleacutem de marcar o ritmo

com os peacutes an uero citharoedi non simul et memoriae et sono uocis et plurimis flexibus seruiunt cum interim

alios neruos dextra percurrent alios laeua trahunt continent praebent ne pes quidem otiosus certam legem

temporumseruat et haec pariter omniardquo (Quintilien ldquoInstitution Oratoirerdquo I 12 3 p 148) A variedade

restaura o acircnimo e separar os estudos de gramaacutetica geometria muacutesica latim e grego seria o mesmo

que persuadir um agricultor a natildeo cultivar simultaneamente as lavouras as vinhas as oliveiras e

aacutervores ldquoquae si uelut sub uno conatu tam diuersa parent simul cur non pluribus curis horas partiamur cum

praesertim reficiat animos ac reparet uarietas ipsa contraque sit aliquando difficilius in labore uno

perseuerare[] Grammatico soli deseruiamus deinde γεωμέτρῃ tantum omittamus interim quod didicimus

Mox transeamus ad musicum excidant priora Et cum latinis studebimus litteris non respiciamus ad graecasut

semel finiam nihil faciamus nisi nouissimum Cur non idem suademus agricolis ne arua simul et uineta et oleas

et arbustum colant Ne pratis et pecoribus et hortis et aluearibus et auibusque accomodent curamrdquo (Quintilien

ldquoInstitution Oratoirerdquo I 12 4-7 p 148-149) Quintiliano fala em ldquoἐγκύκλιος παιδείαrdquo (encyclios paideiacutea)

com relaccedilatildeo agraves artes que devem ser ensinadas agraves crianccedilas antes da retoacuterica (Institutio Oratoria - I 10 1 -

p 131) Segundo Ilsetraut Hadot tanto para Quintiliano (Livros II e XII) quanto para Vitruacutevio os

estudos recomendados ldquonatildeo correspondem nem um pouco a um ensino lsquocorrentersquo ou lsquohabitualrsquordquo

(Hadot I ldquoArts libeacuteraux et philosophie dans la penseacutee antiquerdquo p 267) destinados a uma minoria

Ainda segundo a estudiosa ldquoos termos enkuklios disciplina e enkuklios paideia designam portanto um

percurso de estudos unificados pelo meacutetodo e estrutura que eacute preciso percorrer e acabar para que se

tenha uma educaccedilatildeo completa eacute de algum modo um lsquociclorsquordquo (ibid p 268) Quando Pliacutenio o Velho fala

em ldquoτῆς ἐγκυκλίου παιδείαςrdquo (Pline LrsquoAncien Histoire Naturelle - I 14 - p 51) refere-se igualmente

a uma aprendizagem que ultrapassa qualquer educaccedilatildeo corriqueira mas em um sentido que engloba o

escopo de sua Histoacuteria Natural abrangendo desde a astronomia a geografia etnologia ateacute zoologia

botacircnica farmacologia artes etc

28

mas natildeo de todo alheio aos conhecimentos musicais natildeo deve ser pintor como Apeles

nem por isso incompetente em desenho natildeo deve ser escultor como foram Miacuteron ou

Policleto mas natildeo deve ignorar os meacutetodos de plasmar natildeo deve ainda ser meacutedico

como Hipoacutecrates nem por isso deve ser total desconhecedor de medicina13

Tambeacutem com relaccedilatildeo agraves outras doutrinas tomadas singularmente Vitruacutevio natildeo

recomenda a excelecircncia senatildeo algum conhecimento14 Eacute difiacutecil obter aprofundamentos

especiacuteficos diante da variedade de campos E os arquitetos natildeo podem conseguir

grandes feitos em tantas aacutereas Nem mesmo aqueles que dominam uma arte em

particular tecircm garantias de uma louvaacutevel proeminecircncia15 Ora se em cada doutrina

tomada isoladamente poucos artiacutefices atingiram a excelecircncia como esperar do

arquiteto versado em diversas artes que supere aqueles que se distinguiram com

exclusividade a alguma

Se o fazer e o raciocinar (fabrica et ratiocinatio) estatildeo na origem da disciplina do

arquiteto16 outro binocircnio apresentado na sequecircncia do texto eacute ingenium et disciplina

(engenho e instruccedilatildeo) atributos esperados do arquiteto os quais pela presenccedila

conjunta satildeo fiadores do artiacutefice perfeito17 E tal como apontado por Elisa Romano18

esse mesmo par ingenium et disciplina toma parte no cerne do debate apresentado no

13 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre I (I 1 13) p 11 ldquonon enim debet nec potest esse architectus

grammaticus uti fuerit Aristarchus sed non agrammatus nec musicus ut Aristoxenus sed non amusos nec pictor

ut Apelles sed graphidos non inperitus nec plastes quemadmodum Myron seu Polyclitus sed rationis plasticae

non ignarus nec denuo medicus ut Hippocrates sed non aniatrologetusrdquo 14 Ibid (I 1 13) p 11 ldquonec in ceteris doctrinis singulariter excellens sed in his non inperitusrdquo Traduccedilatildeo

ldquonem [deve o arquiteto] ser excelente em outras doutrinas tomadas singularmente mas delas natildeo deve

ser desconhecedorrdquo 15 Ibid (I 1 14) p 11 ldquonec tamen non tantum architecti non possunt in omnibus rebus habere summum

effectum sed etiam ipsi qui priuatim proprietates tenent artium non efficiunt ut habeant omnes summum laudis

principatumrdquo Traduccedilatildeo ldquotodavia nem apenas os arquitetos natildeo podem ter o mais elevado resultado em

todas as mateacuterias como ainda nem todos aqueles que desempenham especificamente uma arte

conseguem a suma primazia do louvorrdquo 16 Cf n 5 supra 17 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre I (I 1 3) p 5 ldquoQuare uidetur utraque parte exercitatus esse debere

qui se architectum profiteatur Itaque eum etiam ingeniosum oportet esse et ad disciplinam docilem neque enim

ingenium sine disciplina aut disciplina sine ingenio perfectum artificem potest efficererdquo Traduccedilatildeo ldquopor isso

vecirc-se que aquele que venha a se professar arquiteto deva ser exercitado em ambas as partes Pois

conveacutem que seja engenhoso e disposto agrave instruccedilatildeo com efeito nem engenho sem instruccedilatildeo nem

instruccedilatildeo sem engenho pode fazer um artiacutefice perfeitordquo 18 Romano Elisa ldquoLa capanna e il tempio Vitruvio o Dellrsquoarchitetturardquo p 57 58

29

De Oratore de Ciacutecero cujos personagens principais se dividem justamente em torno da

defesa de um conhecimento vasto por parte do orador como propotildee Crasso de um

lado ou da praacutetica forense aliada aos dotes naturais como quer Antocircnio de outro

Ciacutecero fala em ldquoingenium et cogitatiordquo19 e tambeacutem ldquoingenium et doctrinardquo20 E ainda que

Vitruacutevio faccedila menccedilatildeo agrave Ciacutecero21 como um contemporacircneo cuja memoacuteria prevecirc perene

em funccedilatildeo do quilate de sua obra eacute difiacutecil afirmar que tenha se amparado diretamente

na discussatildeo ampla desenvolvida no De Oratore dadas as disparidades nas inflexotildees

De todo modo ambas as obras compartilham o fato de abordarem a questatildeo dos

conhecimentos necessaacuterios respectivamente ao orador e ao arquiteto Vitruacutevio

afirmava que ldquoarchitecti est scientia pluribus disciplinis et uariis eruditionibus ornatardquo22 ao

passo que Ciacutecero escrevera acerca da eloquecircncia ldquoest enim et scientia comprehendenda

rerum plurimarum sine qua uerborum uolubilitas inanis atque irridenda estrdquo23 Jaacute se pode

entrever aiacute um possiacutevel ponto de distanciamento entre as artes do arquiteto e do

orador a palavra Mais precisamente o uso que se faz dela Pois o discurso se constroacutei

com palavras a arquitetura natildeo No prefaacutecio ao Quinto Volume Vitruacutevio afirma que

a escrita sobre arquitetura natildeo se apresenta de pronto sem embaraccedilos Escrever sobre

arquitetura natildeo eacute como escrever segundo o gecircnero histoacuteria ndash que cativa o leitor pela

expectativa ndash ou poemas ndash que provocam os sentidos pela meacutetrica e pela pronunciaccedilatildeo

ndash envolvendo vocaacutebulos e conceitos incomuns ao uso cotidiano

mas isso natildeo ocorre nos escritos sobre arquitetura porque os vocaacutebulos concebidos pela

necessidade proacutepria agrave arte lanccedilam obscuridade ao discurso natildeo habitual Como eles

entatildeo por si mesmos natildeo satildeo evidentes nem se expotildeem nas palavras costumeiras

19 Cicero ldquoDe Oratorerdquo (I 14) p 12 20 Ibid (I 22) p 16 21Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre IX (IX pref 17) p 8-9 ldquoItem plures post nostram memoriam

nascentes cum Lucretio uidebuntur uelut coram de rerum natura disputare de arte uero rhetorica cum Ciceronerdquo

Segundo a traduccedilatildeo de Maciel ldquode fato muitos que nasceratildeo depois de nossa eacutepoca seratildeo vistos a

dissertar sobre a natureza das coisas juntamente com Lucreacutecio como se ele estivesse presente ou sobre

a arte da retoacuterica com Ciacutecerordquo (Vitruacutevio Tratado de Arquitetura p 434) 22 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre I (I 1 1) p 4 cf n 3 supra 23 Cicero ldquoDe Oratorerdquo (I 17) p 12-14 Traduccedilatildeo De fato deve-se adquirir o conhecimento de inuacutemeros

assuntos sem o qual o fluxo de palavras eacute vazio e ridiacuteculordquo (Scatolin A ldquoA invenccedilatildeo no Do Orador de

Ciacutecero um estudo agrave luz de Ad Familiares I 9 23rdquo p 150)

30

segue que se os escritos que discorrem longamente sobre os preceitos natildeo forem

condensados e explicados em poucas e claras proposiccedilotildees a quantidade e a

multiplicidade do discurso tornaraacute incerta a compreensatildeo do leitor 24

De outra parte no De Oratore Ciacutecero faz notar a escassez de homens dignos de

admiraccedilatildeo na oratoacuteria25 e a resposta para o exiacuteguo nuacutemero de oradores se deve agrave

ldquoincriacutevel magnitude e dificuldade dessa arterdquo26 que eacute ldquocomposta de muitas artes e

campos de estudordquo27 Mas se a arquitetura envolve difficiles quaestiones de symmetria

para mencionar apenas o campo da geometria28 a ratio dicendi se mostra ldquoao alcance

de todosrdquo29 e

diz respeito a uma praacutetica de certa maneira geral bem como aos costumes e agraves

conversas cotidianas dos homens de modo que nas demais [artes] sobressaia-se

sobretudo aquele que estiver mais afastado do entendimento e juiacutezo dos ignorantes na

oratoacuteria o viacutecio maior seja apartar-se do gecircnero comum de discurso e do costume da

opiniatildeo geral30

Nesse ponto De Architectura e De Oratore que partiam ambos da investigaccedilatildeo

do que possa concernir ao domiacutenio de suas respectivas artes ndash o que deve saber o

24 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre V (I pref 2) p 1-2 ldquoid autem in architecturae conscriptionibus non

potest fieri quod uocabula ex artis propria necessitate concepta inconsueto sermone obiciunt sensibus

obscuritatem Cum ergo ea per se non sint aperta nec pateant eorum in consuetudine nomina tum etiam

praeceptorum late uagantes scripturae si non contrahentur et paucis et perlucidis sententiis explicentur

frequentia multitudineque sermonis impediente incertas legentium efficient cogitationesrdquo 25 Cicero ldquoDe Oratorerdquo (I 6) p 6 ldquoAc mihi quidem saepenumero in summus homines ac summis ingeniis

praeditos intuenti quaerendum esse uisum est quid esset cur plures in omnibus artibus quam in dicendo

admirabiles exsistissentrdquo Traduccedilatildeo ldquoquanto a mim atentando inuacutemeras vezes aos homens mais

eminentes e dotados dos mais eminentes talentos pareceu-me apropriado perguntar o motivo de haver

mais pessoas dignas de admiraccedilatildeo nas demais atividades do que na oratoacuteriardquo (Scatolin A ldquoA invenccedilatildeo

no Do Orador de Ciacutecero um estudo agrave luz de Ad Familiares I 9 23 p 149) 26 Scatolin A ldquoA invenccedilatildeo no Do Orador de Ciacutecero um estudo agrave luz de Ad Familiares I 9 23rdquo p 150

Em latim Cicero ldquoDe Oratorerdquo (I 16) p 12 ldquorei quandam incredibilem magnitudem ac difficultatemrdquo 27 Cicero ldquoDe Oratorerdquo (I 16) p 12 ldquoet pluribus ex artibus studiisque collectumrdquo 28 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre I (I 1 4) p 6 ldquodifficilesque symmetriarum quaestiones geometricis

rationibus et methodis inueniunturrdquo Traduccedilatildeo ldquoe as difiacuteceis questotildees das symmetriae satildeo resolvidas por

procedimentos geomeacutetricosrdquo 29 Scatolin A op cit p 149 Cicero ldquoDe Oratorerdquo (I 12) p 10 ldquodicendi autem omnis ratio in medio positardquo 30 Ibid p 149 150 Cicero ldquoDe Oratorerdquo (I 12) ldquo[] communi quodam in usu atque in hominum more et

sermone uersatur ut in ceteris id maxime excellat quod longissime sit ab imperitorum intellegentia sensuque

disiunctum in dicendo autem uitium uel maximum sit a uulgari genere orationis atque a consuetudine communis

sensus abhorrererdquo

31

arquiteto e o orador ndash mostram-se em certo sentido invertidos como em filme

negativo um do outro A escrita de Vitruacutevio malgrado a inserccedilatildeo dos prefaacutecios

fazendo as vezes de lumes no conjunto do texto eacute plana aacuterida quase desprovida de

ornamentos gramaticais e elaboraccedilotildees linguiacutesticas refinadas tal como conveacutem ao

gecircnero didaacutetico quando trata de uma mateacuteria cujo pormenor eacute alheio ao entendimento

comum Por outro lado a obra de Ciacutecero preconiza que o orador precisa estar inserido

no modo usual de discurso acessiacutevel agrave compreensatildeo geral A exposiccedilatildeo ciceroniana

todavia emana sofisticaccedilatildeo em sua escrita repleta dos mais diversos recursos verbais

a comeccedilar pela escolha da forma diaacutelogo que por si soacute potildee uma seacuterie de questotildees

relativamente agrave formaccedilatildeo do orador especialmente se confrontada ao modo de

exposiccedilatildeo de obras que mais se assemelham a manuais como a Retoacuterica agrave Herecircnio ou

mesmo o De Inuentione escrito de juventude de Ciacutecero que adotava procedimento

diverso31

112 O arquiteto e o orador

Quando Vitruacutevio afirmava que o arquiteto deve ser litteratus e que conveacutem ao

arquiteto ldquosaber letrasrdquo (litteras architectum scire oportet)32 em que medida o fazia As

letras seriam estritamente o meio pelo qual o arquiteto pode se informar das demais

instruccedilotildees preparar notas e comentaacuterios enfim satildeo elas mais um dos instrumentos de

31 Por sinal explicitamente recusado por Ciacutecero na obra de 55 ldquoVis enim ut mihi saepe dixisti quoniam

quae pueris aut adolescentulis nobis ex commentariolis nostris inchoata ac rudia exciderunt uix hac aetate digna

et hoc usu quem ex causis quas diximus tot tantisque consecuti sumus aliquid eisdem de rebus politius nobis

perfectiusque proferrirdquo (Cicero ldquoDe Oratorerdquo - I 5 - p 4-6) Traduccedilatildeo ldquode fato como me disseste vaacuterias

vezes pretendes pelo fato de os escritos que escaparam incompletos e grosseiros de nossos

apontamentos quando eacuteramos meninos ou adolescentes mal serem dignos desta nossa idade e desta

experiecircncia que granjeamos em tantas e tatildeo importantes causas defendidas que publiquemos algo mais

refinado e completo acerca do mesmo temardquo (Scatolin A ldquoA invenccedilatildeo no Do Orador de Ciacutecero um

estudo agrave luz de Ad Familiares I 9 23rdquo p 148) 32 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre I (I 1 4) p 5

32

que se vale Ou o arquiteto ldquoliteratordquo eacute aquele que possui um saber amplo que

ultrapassa o territoacuterio restrito da sua arte

No De Oratore Crasso lanccedila o exemplo de Filo que aleacutem de arquiteto eacute conhecedor

da eloquecircncia

de fato se eacute sabido que Filo o ceacutelebre arquiteto que construiu o arsenal para os atenienses

prestou contas de sua obra ao povo de maneira extremamente eloquente nem por isso

deve-se considerar que sua eloquecircncia era devida antes agrave habilidade de arquiteto do que agrave

de orador33

Segundo esse registro Filo reuniria duas habilidades em simultacircneo ndash a de

arquiteto e a de orador Retomemos do diaacutelogo ciceroniano em linhas gerais as

atribuiccedilotildees debatidas em torno da segunda arte mencionada para que possamos

avaliar em que medida esse arquiteto-orador poderia se relacionar ao arquiteto

litteratus proposto por Vitruacutevio

A magnitude e dificuldade da arte do orador diz Ciacutecero resultam do

conhecimento de assuntos variados (et scientia comprehendenda rerum plurimarum) do

proacuteprio arranjo das palavras da comoccedilatildeo (animorum motus) cujos dispositivos

naturais devem ser conhecidos jaacute que toda a forccedila e o funcionamento da arte do dizer

daacute-se acalmando e excitando as mentes daqueles que ouvem34 Conveacutem ainda ao

orador escreve Ciacutecero alguma jovialidade faceacutecia erudiccedilatildeo digna de um homem

livre rapidez e concisatildeo no responder e no atacar graciosidade na sutileza e

33 Scatolin A ldquoA invenccedilatildeo no Do Orador de Ciacutecero um estudo agrave luz de Ad Familiares I 9 23rdquo p 158

Cicero ldquoDe Oratorerdquo (I 62) p 46 ldquoneque enim si Philonem illum architectum qui Atheniensibus

armamentarium fecit constat perdiserte populo rationem operis sui reddidisse existimandum est architecti

potius artificio disertum quam oratoris fuisserdquo 34 Ciacutecero aqui parece referir-se ao esquema encontrado na Retoacuterica de Aristoacuteteles e em textos posteriores

ligados a chamada escola peripateacutetica segundo a qual se propotildee trecircs tipos de persuasatildeo pelo proacuteprio

discurso em seu raciociacutenio (διὰ τοῦ λόγου) pelo caraacuteter (διὰ τοῦ ἤθους) pelas paixotildees (διὰ τοῦ

πάθους) cf Aristoacuteteles Retoacuterica 1356a Essa divisatildeo natildeo se encontra em manuais como A Retoacuterica a

Herecircnio ou no De Inuentione do proacuteprio Ciacutecero (cf Gueacuterin C ldquoCicero as User and Critic of Traditional

Rhetorical Patterns structural authority from De Inventione to De Oratorerdquo p 78) e culminaratildeo na

foacutermula recorrente de ldquodocere delectare e mouererdquo Cf tambeacutem ldquoDe Oratorerdquo (I 60) p 44 ldquo[] oratio ad

sensus animorum atque motus uel inflammandos uel etiam exstinguendos (quod unum in oratore dominatur)rdquo

33

urbanidade35 O orador deve observar ainda os exemplos dos antigos conhecer as leis

e o direito civil Os gestos e movimentos corporais expressatildeo facial e articulaccedilatildeo da

voz tambeacutem devem ser considerados pelo orador bem como a memoacuteria ldquoguardiatilde das

coisas e palavras descobertas e pensadasrdquo36

Diante desse programa vasto proposto ao orador como um arquiteto poderia

ser versado simultaneamente na arte de construir e na oratoacuteria Pois para Crasso

personagem do De Oratore o orador completo deve estar apto a tratar de todo e

qualquer assunto e natildeo apenas das disputas judiciais diante do povo ou do senado37

ldquodo que quer que se trate qualquer que seja a arte qualquer que seja o gecircnero o

orador se o estudar tal como a causa de um cliente falaraacute melhor e com mais distinccedilatildeo

do que o proacuteprio especialista no assuntordquo38

Seria uma posiccedilatildeo proacutexima agravequela que Vitruacutevio atribui a Piacutetio sobre a formaccedilatildeo

do arquiteto Natildeo parece pois na visatildeo reportada de Piacutetio o arquiteto poderia avanccedilar

mais em alguma das artes que compotildeem a arquitetura do que os proacuteprios artiacutefices que

a elas se dedicam integralmente No caso de Crasso trata-se de se informar sobre

qualquer tema requerido ao discurso Afinal como seria possiacutevel discursar contra ou

a favor de um comandante sem o conhecimento das praacuteticas militares ou mesmo sem

conhecimento das regiotildees terrestres ou mariacutetimas A resposta vem por analogia os

saberes da matemaacutetica da fiacutesica e das demais artes satildeo proacuteprios daqueles que a elas se

dedicam mas se eles quiserem iluminar o discurso em sua exposiccedilatildeo deveratildeo recorrer

35 Cicero ldquoDe Oratorerdquo (I 17) p 14 ldquoaccedat eodem oportet lepos quidam facetiaeque et eruditio libero digna

celeritasque et brevitas et respondendi et lacessendi subtili uenustate atque urbanitate coniunctardquo 36 Scatolin A ldquoA invenccedilatildeo no Do Orador de Ciacutecero um estudo agrave luz de Ad Familiares I 9 23rdquo p 151

Cicero ldquoDe Oratorerdquo (I 18) p 14 ldquocustos inuentis cogitatisque rebus et uerbisrdquo 37 Cf Cicero ldquoDe Oratorerdquo (I 48) p 36 38 Scatolin A op cit p 156 Cicero ldquoDe Oratorerdquo (I 51) ldquoquidquid erit igitur quacumque ex arte

quocumque de genere id orator si tanquam clientis causam didicerit dicet melius et ornatius quam ille ipse eius

rei inuentor atque artifexrdquo

34

agrave faculdade do orador39 Portanto no fundo eacute essa faculdade que sustenta qualquer

discurso segundo o De Oratore

Diferentemente do orador o arquiteto deve conhecer medianamente todas as

doutrinas que embasam sua arte Segundo Vitruacutevio aqueles a quem a natureza proveu

de soleacutercia agudez e memoacuteria a ponto de conhecerem a fundo geometria astrologia

muacutesica e outras disciplinas ultrapassaram o campo de deveres do arquiteto tornando-

se saacutebios (mathematici) Apenas estes municiados dos ensinamentos de muitas

disciplinas podem combater e disputar nesses campos Aleacutem do mais satildeo raros assim

como o orador completo era raro para Crasso mas Vitruacutevio se refere nesse ponto a

nomes do passado que se destacaram na mecacircnica e na gnomocircnica a partir do caacutelculo

e do entendimento dos princiacutepios naturais40 Aristarco de Samos Filolau e Arquitas de

Tarento Apolocircnio de Perga Eratoacutestenes de Cirene Arquimedes e Escopinas de

Siracusa41

Podemos entender entatildeo o exemplo de Filo que discursa bem natildeo pelo

conhecimento que tem de arquitetura senatildeo da eloquecircncia Mas a figura de Filo

extrapola a formaccedilatildeo esperada ao arquiteto tal como apresentada por Vitruacutevio que

natildeo prevecirc junto agraves disciplinas listadas a arte oratoacuteria (artificium oratoris)42 Em Vitruacutevio

39 Cicero ldquoDe Oratorerdquo (I 60) p 44 ldquoQuaero enim num possit aut contra imperatorem aut pro imperatore

dici sine rei militaris usu aut saepe etiam sine regionum terrestrium aut maritimarum scientiardquo Traduccedilatildeo

ldquocom efeito eu me pergunto se eacute possiacutevel discursar contra ou a favor de um comandante sem

experiecircncia militar ou muitas vezes ateacute sem o conhecimento das regiotildees terrestres e mariacutetimasrdquo

(Scatolin A ldquoA invenccedilatildeo no Do Orador de Ciacutecero um estudo agrave luz de Ad Familiares I 9 23 p 157-158)

Ainda Cicero ldquoDe Oratorerdquo (I 61) p 46 ldquophysica ista ipsa et mathematica et quae paulo ante ceterarum

artium propria posuisti scientiae sunt eorum qui illa profitentur illustrare autem oratione si quis istas ipsas

artes uelit ad oratoris ei confugiendum est facultutatemrdquo Traduccedilatildeo ldquoa fiacutesica a matemaacutetica e o que colocastes

pouco antes como proacuteprio das demais artes fazem parte da ciecircncia dos que fazem delas profissatildeo mas

se algueacutem pretende embelezar essas mesmas artes pelo discurso deveraacute fazer recurso da faculdade do

oradorrdquo (Scatolin Aop cit p158) 40 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre I (I 1 17) p 13 ldquoqui multas res organicas gnomonicas numero

naturalibusque rationibus inuentas atque explicatas posteris reliqueruntrdquo Traduccedilatildeo ldquoaqueles que deixaram

aos poacutesteros muitas coisas sobre mecacircnica e gnomocircnica encontradas e desenvolvidas graccedilas aos

nuacutemeros e aos princiacutepios naturaisrdquo 41 Ibid (I 1 17) p 13 42 Ibid (I 1 18) p 14 ldquonamque non uti summus philosophus nec rhetor disertus nec grammaticus summis

rationibus artis exercitatus sed ut architectus his litteris imbutus haec nisus sum scribererdquo Traduccedilatildeo ldquopois

natildeo foi como sumo filoacutesofo nem como retor eloquente nem como sumo gramaacutetico exercitado nas regras

35

portanto o ldquoconhecimento das letrasrdquo (litteras architectum oportet scire) que lhe confere

auctoritas natildeo diz respeito agrave eloquecircncia mas a um saber literaacuterio geral isto eacute a

possibilidade de acesso ao registro escrito dos conhecimentos ndash via ldquolivrosrdquo ndash que

propicia ao arquiteto enveredar-se pelos assuntos que mais diretamente nutrem o

corpo de sua disciplina A auctoritas diz respeito igualmente a uma condiccedilatildeo de

domiacutenio da arte em seus princiacutepios especiacuteficos como veremos a seguir

113 Auctoritas e a doutrina

A escrita do De Architectura parece aproximar-se mais da anocircnima Retoacuterica a

Herecircnio43 do que do De Oratore A identificaccedilatildeo de um sistema comum ajudaria a

explicar a semelhanccedila formal entre alguns pontos das preceptivas voltadas a artes tatildeo

diacutespares como a do orador e a do arquiteto A obra de maturidade de Ciacutecero revela

poreacutem um modo de compreensatildeo que alccedila a ratio dicendi a um patamar superior natildeo

apenas agrave disciplina do arquiteto A construccedilatildeo em forma de diaacutelogo engendra a um soacute

tempo toda uma trama de significados dados jaacute pela forja-escolha dos personagens

da arte mas como arquiteto que me esforcei em escrever estes volumesrdquo A captatio beneuolentia (cf

Fleury Ph in Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre I p LXXXVII) inserida na peroratio que conclui esta

parte do Livro I (e que ocupa o primeiro capiacutetulo nas ediccedilotildees recentes) acaba por deixar claro que natildeo

se espera do arquiteto que seja retor eloquente (rhetor disertus) 43 Os modos de exposiccedilatildeo guardam semelhanccedilas

De Architectura (I 2 1) ldquoArchitectura autem constat ex ordinatione quae graece τάξις dicitur et ex dispositione

ndash hanc autem Graeci διάθεσιν vocitant ndash et eurythmia et symmetria et decore et distributione quae graece

οἰχονομία diciturrdquo A sequecircncia do texto traz uma espeacutecie de lista de definiccedilotildees para cada um dos

componentes elencados da arquitetura ldquoOrdinatio est Dispositio autem est Eurythmia est Item

symmetria est Decor autem est Distributio autem estrdquo (Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre I (I 2 1)

p 14-19

Retoacuterica a Herecircnio (I 3) ldquoOportet igitur esse in oratore inuentionem dispositionem elocutionem memoriam

pronuntiationem Inuentio est Dispositio est Elocutio est Memoria est Pronuntiatio estrdquo

([Ciacutecero] ldquoRetoacuterica a Herecircniordquo (I 3) p 54

36

mas tambeacutem pela ambiccedilatildeo expliacutecita de aproximaccedilatildeo ao territoacuterio da filosofia mais

especificamente da filosofia platocircnica marcada fortemente pela escrita dialoacutegica44

Para Charles Gueacuterin a imitaccedilatildeo platocircnica sugerida pelo personagem Ceacutevola eacute

implementada por Ciacutecero na proacutepria escolha da forma dialoacutegica visando a conferir

auctoritas agrave obra45 Em contraposiccedilatildeo o proacuteprio De Inuentione escrito de adolescecircncia

estruturado ao modo dos manuais como o Ad Herenium buscava tornar-se autorizado

por outros recursos A opccedilatildeo pelo diaacutelogo confere um espectro de complexidade agrave

obra que natildeo se propotildee apenas a listar preceitos mas a discutir temas amplos que

perpassam diferentes disciplinas como a filosofia a retoacuterica a poliacutetica as leis e a eacutetica

A confrontaccedilatildeo de tal escrito com o De Architectura clarifica pelo contraste a

distacircncia entre os caminhos adotados e aponta intenccedilotildees distintas A reivindicaccedilatildeo no

corpus vitruviano destoa da pretensatildeo aristocraacutetica do De Oratore que pressupotildee do

leitor um vasto conhecimento preacutevio natildeo apenas de retoacuterica Entatildeo vemos que as

litterae a que Vitruacutevio se referia no iniacutecio do Livro I natildeo podem suportar um sentido

amplo demais pois o arquiteto litteratus estaacute longe de coincidir com a figura do

perfectus orator segundo Ciacutecero capaz de abarcar um conhecimento ampliacutessimo

sendo por esse motivo muito difiacutecil de ser encontrado

44 Cicero ldquoDe Oratorerdquo (I 28-29) p 20 ldquodicebat tum Scaeuolam duobus spatiis tribusue factis dixisse Cur

non imitamur Crasse Socratem illum qui est in Phaedro Platonis Nam me haec tua platanus admonuit quae

non minus ad opacandum hunc locum patulis est diffusa ramis quam illa cuius umbram secutus est Socrates

quae mihi uidetur non tam lsquoipsa acularsquo quae describitur quam Platonis oratione creuisse et quod ille durissimis

pedibus fecit ut se abiceret in herbam atque ita illa quae philosophi diuinitus ferunt esse dicta loqueretur id

meis pedibus certe concedi est aequius Tum Crassum Immo uero commodius etiam puluinosque poposcisse et

omnes in eis sedibus quae erant sub platano consedisse dicebatrdquo Segundo a traduccedilatildeo de Scatolin ldquoCeacutevola

apoacutes duas ou trecircs voltas disse - Porque natildeo imitamos Crasso o Soacutecrates que estaacute no Fedro de Platatildeo

Pois me traz sua lembranccedila este teu plaacutetano que estaacute espalhado por vastos ramos para dar sombra a

este lugar tanto quanto aquele cuja sombra Soacutecrates procurava que parece ter crescido natildeo tanto pelo

regato propriamente dito que ali se descreve quanto pelo discurso de Platatildeo Crasso entatildeo respondera

- Sim mas faccedilamos com mais comodidade ainda que pedira almofadas e que todos acomodaram-se

sobre os assentos que estavam sob o plaacutetanordquo (Scatolin A ldquoA invenccedilatildeo no Do Orador de Ciacutecero um

estudo agrave luz de Ad Familiares I 9 23rdquo p 152) 45 Cf Gueacuterin C ldquoCicero as User and Critic of Traditional Rhetorical Patterns structural authority from

De Inventione to De Oratorerdquo In Galewicz C (ed) Texts of Power The power of the Text ndash Readings in

Textual Authority Across History and Cultures Krakoacutew Homini 2006 p 79

37

A estrateacutegia visando agrave auctoritas pela forma de diaacutelogo destoa daquelas

empregadas em escritos que adotam um discurso mais direto como o De Inuentione

composto pelo proacuteprio Ciacutecero O que teria sido deixado para traacutes Ainda segundo

Gueacuterin a aspiraccedilatildeo agrave autoridade de um escrito sobre retoacuterica passa pela sua

capacidade de ser compreensiacutevel utilizaacutevel e eficiente ou percebido como tal dada

sua finalidade de persuasatildeo46 A autoridade textual eacute entendida nesse contexto retoacuterico

como ldquoa habilidade do proacuteprio texto em fornecer ao leitor a impressatildeo de que a mateacuteria

ali contida eacute a mais eficiente disponiacutevelrdquo47 Inicialmente essa autoridade se apresenta

sob dois aspectos seja pelo pertencimento ao conjunto de obras legado transmitido ao

longo dos anos pelas geraccedilotildees anteriores seja pela sua fundamentaccedilatildeo a partir do uso

E tambeacutem a desaprovaccedilatildeo por vezes ateacute mesmo o insulto a outros autores pode ser

um modo de reivindicar a auctoritas a determinado escrito48

114 Expedientes discursivos

O entendimento de Piacutetio acerca das instruccedilotildees necessaacuterias ao arquiteto eacute

reportado no De Architectura e recusado

por isso entre os arquitetos antigos Piacutetio que notavelmente arquitetou o templo de

Minerva em Priene afirma em seus comentaacuterios que cabe ao arquiteto fazer mais em

todas as artes e doutrinas do que aqueles que por meio de sua aplicaccedilatildeo e exerciacutecio

a apenas uma disciplina conduziram-na ao mais elevado brilhantismo Isso poreacutem

natildeo se verifica49

46 Gueacuterin ldquoCicero as User and Critic of Traditional Rhetorical Patterns structural authority from De

Inventione to De Oratorerdquo p 62 47 Ibid p 62 48 Ibid p 62-63 67 49 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre I (I 1 12) p 10 ldquoideoque de ueteribus architectis Pytheos qui Prieni

aedem Mineruaea nobiliter est architectatus ait in suis commentariis architectum omnibus artibus et doctrinis

plus oportere posse facere quam qui singulas res suis industriis et exercitationibus ad summam claritatem

perduxerunt Id autem re non expediturrdquo

38

E Vitruacutevio explicita sua oposiccedilatildeo ao arquiteto grego ldquovecirc-se que nisso Piacutetio

errourdquo50 Tal investida de Vitruacutevio contra Piacutetio tambeacutem pode ser lida como expediente

discursivo Pois porque confrontar o portador de uma dada posiccedilatildeo divergente e natildeo

apenas a proacutepria posiccedilatildeo Afirmar que Piacutetio errou significa elevar a proacutepria doutrina

acima mesmo dos exemplos consagrados reivindicando autoridade Esse dispositivo

fica evidente no Livro I do De Inuentione em que a censura a Hermaacutegoras ou mesmo o

insulto marcaria uma estrateacutegia em busca de auctoritas51

Embora conteste Piacutetio Vitruacutevio afirma recorrer aos comentaacuterios desse mesmo

arquiteto cujo nome faz parte da lista de autores em quem confia52 apresentada no

Livro VII53 Ademais o arquiteto latino recorrentemente invoca os gregos no Primeiro

Volume indicando termos sem correspondecircncia em latim54 Assim quando fala da

50 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre I (I 1 15) p 12 ldquoigitur in hac re Pytheos errasse uideturrdquo 51 Cicero ldquoDe Inventionerdquo (I 8) p 18 ldquoquodsi magnam in his Hermagoras habuisset facultatem studio et

disciplina comparatam uideretur fretus sua scientia falsum quiddam constituisse de oratoris artificio et non quid

ars sed quid ipse posset exposuisse Nunc uero ea uis est in homine ut ei multo rhetoricam citius quis ademerit

quam philosophiam concesserit neque eo quod eius ars quam edidit mihi mendosissime scripta uideatur nam

satis in ea uidetur ex antiquis artibus ingeniose et diligenter electas res collocasse et nonnihil ipse quoque noui

protulisse uerum oratori minimum est de arte loqui quod his fecit multo maximum ex arte dicere quod eum

minime potuisse omnes uidemusrdquo Traduccedilatildeo ldquomas se nesses assuntos Hermaacutegoras havia tido elevada

habilidade adquirida por estudo e instruccedilatildeo parecia ter estabelecido a partir de seu conhecimento algo

falso acerca da arte do orador expondo natildeo o que fosse a arte mas aquilo que ele proacuteprio podia fazer

Em verdade a capacidade do homem eacute tal que algueacutem poderia mais facilmente negar o seu

conhecimento em retoacuterica do que reconhecer seu conhecimento em filosofia natildeo que a doutrina

publicada se afigure a mim excessivamente falha pois parece haver disposto nela coisas suficientemente

selecionadas a partir das doutrinas dos antigos de maneira engenhosa e diligente como tambeacutem propocircs

ele proacuteprio coisas novas De fato eacute muito pouco falar sobre a arte tal como fez Hermaacutegoras Muito mais

importante eacute pronunciar um discurso a partir dos preceitos da arte o que ele era incapaz de fazer

conforme todos vemosrdquo Curiosamente o procedimento de Hermaacutegoras englobando possivelmente

conhecimentos do campo da filosofia em adiccedilatildeo aos preceitos retoacutericos (thesis e hypothesis ou causa e

quaestio cf Hubell n ldquoardquo p 18 in Cicero ldquoDe Inuentionerdquo) criticado nessa obra de juventude

aproximar-se-ia da posiccedilatildeo adotada e defendida por Ciacutecero no De Oratore De todo modo a atitude

ofensiva de Ciacutecero para com Hermaacutegoras no De Inuentione representa um dispositivo retoricamente

codificado que reivindica auctoritas agrave sua obra ao desqualificar o adversaacuterio 52 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre VII (VII pref 10) p 5 ldquotalibusque confidentes auctoribus audemus

institutiones nouas compararerdquo Traduccedilatildeo ldquoconfiantes em tais autores notaacuteveis ousamos propor novas

instituiccedilotildeesrdquo Cf n 66 infra 53 Ibid (VII pref 12) p 6 ldquode fano Mineruae quod est Priene ionicum Pytheos [edidit uolumen]rdquo Traduccedilatildeo

ldquoPiacutetio publicou um volume sobre o templo jocircnico de Minerva em Prienerdquo 54 Expediente similar de recusa pode ser observado logo no iniacutecio do manual anocircnimo mas ali natildeo

apenas um autor eacute posto de lado senatildeo os ldquoescritores gregosrdquo como que em bloco no empreendimento

dessa obra que se declara destinada a Herecircnio e natildeo a interesses condenaacuteveis ldquoDesprezamos por isso

39

importacircncia da muacutesica na formaccedilatildeo do arquiteto afirma que nos teatros vasos de

bronze devem ser dispostos em nichos de acordo com sistema de relaccedilotildees matemaacuteticas

de intervalos sonoros ldquoque os gregos chamam ἠχεῖαrdquo55 O arquiteto deve saber de

medicina por causa da inclinaccedilatildeo do ceacuteu ldquoque os gregos chamam κλίματαrdquo56 para

que haja salubridade na habitaccedilatildeo57 Astroacutelogos (astrologi) e muacutesicos (musici) tratam

ldquodo que os gregos chamam de λόγος ὀπτικόςrdquo58 Os homens exemplares nas

disciplinas a que o arquiteto deve conhecer sem ser excelente satildeo todos gregos

Aristarco Aristoacutexeno Apeles Miacuteron Policleto e Hipoacutecrates As proacuteprias partes que

compotildeem a arquitetura tecircm nomes gregos sendo que para trecircs delas Vitruacutevio

apresenta o nome original anterior agrave sua traduccedilatildeo ordenaccedilatildeo (ordinatio) ndash τάξις ndash

disposiccedilatildeo (dispositio) ndash διάθεσιν ndash e distribuiccedilatildeo (distributio) ndash οἰκονομία59 Symmetria

e eurythmia satildeo transliteraccedilotildees Decor eacute o uacutenico termo cujo correspondente grego

possivelmente πρέπον natildeo eacute apresentado60 Na definiccedilatildeo de symmetria Vitruacutevio

as coisas de que se apropriaram por vatilde arrogacircncia os escritores gregos [] Noacutes entretanto adotamos

aquilo que parece pertencer ao meacutetodo do discurso pois natildeo viemos a escrever movidos pela gloacuteria ou

pela expectativa de lucro como os demais e sim para com diligecircncia atender a tua vontaderdquo ([Ciacutecero]

ldquoRetoacuterica a Herecircniordquo I 1 p 53) Em latim ldquoquas ob res illa quae Graeci scriptores inanis adrogantiae causa

sibi adsumpserunt reliquimus [] Non enim spe quaestus aut gloria commoti uenimus ad scribidendum

quemadmodum ceteri sed ut industria nostra tuae morem geramos uoluntatirdquo (ibid p 52) Seria por outro

lado efetivamente muito difiacutecil ao autor do manual desprezar os escritos sobre retoacuterica no contexto em

que a preceptiva Ad Herennium foi redigida E no livro IV a dependecircncia agraves fontes gregas eacute mesmo

explicitada apoacutes a sua recusa parcial ldquoJaacute que neste livro Herecircnio escrevemos sobre a elocuccedilatildeo e

quando foi preciso usar exemplos usamos nossos proacuteprios ndash contra o haacutebito dos gregos que escreveram

sobre o mesmo assunto [] Entenderaacutes contudo mais facilmente a nossa razatildeo se antes souberes o que

dizem os gregosrdquo (id IV 1 p 199) Em latim ldquoquoniam in hoc libro Herenni de elocutione conscripsimus

et quibus in rebus opus fuit exemplis uti nostris exemplis usi sumus et id fecimus praeter consuetudinem

Graecorum qui de hac re scripserunt [] Sed facilius nostram rationem intelleges si prius quid illi dicant

cognouerisrdquo (ibid p 198) Vemos que natildeo se trata de contradiccedilatildeo por parte do autor anocircnimo uma vez

que se considera a recusa incial aos gregos como expediente do discurso ndash marca da superaccedilatildeo pelo

ecircmulo que visa a engrandecer a proacutepria obra 55 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre I (I 1 9) p 9 ldquoquae Graece ἠχεῖα appelantrdquo Traduccedilatildeo ldquoa que os

gregos chamam de echeiardquo (Vitruacutevio ldquoTratado de Arquiteturardquo p 67) 56 Ibid (I 1 10) p 9 ldquoquae Graeci κλίματα dicuntrdquo Traduccedilatildeo ldquoa que os gregos dizem climatardquo (Vitruacutevio

ldquoTratado de Arquiteturardquo p 68) 57 Sobre a relaccedilatildeo entre medicina e astronomia dos ares aacuteguas e lugares na constituiccedilatildeo da salubridade

do lugar cf Fleury Ph In Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre I n 1 p 90 58 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre I (I 1 16) p 12 ldquoqui graece λόγος ὀπτικός appelaturrdquo Traduccedilatildeo

ldquoque em grego se chama loacutegos optikoacutesrdquo (Vitruacutevio ldquoTratado de Arquiteturardquo p 72) 59 Ibid (I 2 1) p 14 60 Cf Pollitt J J ldquoThe Ancient View of Greek Artrdquo p 341-347

40

recorre aos termos gregos περίτρητον para designar a abertura da balista e

διπηχυαῖα referindo-se ao espaccedilo entre os toletes do navio61 Na definiccedilatildeo de decor

remete ao termo θεματισμῷ62 Quando fala do princiacutepio de constituiccedilatildeo dos corpos

usa o termo στοιχεῖα63

Esses foram apenas alguns exemplos da contribuiccedilatildeo grega operante na proacutepria

constituiccedilatildeo do Livro Primeiro do De Architectura De maneira direta por outro lado

o prefaacutecio ao Livro VII mostra que o discurso de Vitruacutevio assume uma posiccedilatildeo

diferente daquela do autor anocircnimo de Ad Herennium64 e de Ciacutecero65 diante dos

saberes legados aos quais presta reverecircncia mas ao mesmo tempo afirma ultrapassar

61 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre I (I 1 4) p 16 ldquoballista e foramine quod Graeci περίτρητον uocitant

nauibus interscalmio quae διπηχυαῖα diciturrdquo Traduccedilatildeo ldquona balista pela abertura a que os gregos

chamam peritreton nas embarcaccedilotildees pelo espaccedilo entre dois toletes que se diz dipechyaiardquo (Vitruacutevio

ldquoTratado de Arquiteturardquo p 76) Voltaremos a essas definiccedilotildees das partes da arquitetura agrave frente 62 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre I (I 2 5) p 16 ldquois perficitur statione quod graece θεματισμῷ

diciturrdquo Traduccedilatildeo ldquoconsegue-se pelo cumprimento de um princiacutepio que em grego se diz thematismosrdquo

(Vitruacutevio ldquoTratado de Arquiteturardquo p 76-77) 63 Ibid (I 4 5) p 23 ldquonamque e principiis quae Graeci στοιχεῖα appellant ut omnia corpora sunt compositardquo

Traduccedilatildeo ldquopois como todos os organismos satildeo constituiacutedos com origem em princiacutepios a que os gregos

chamam stoicheiardquo (Vitruacutevio ldquoTratado de Arquiteturardquo p 85) 64 Tanto o autor anocircnimo quanto Ciacutecero no De Inuentione fazem duras criacuteticas a autores anteriores Cf

n 51 e n 54 supra 65 Esse procedimento fica evidente no De Oratore mais precisamente na fala que antecede o diaacutelogo

propriamente dito entre os personagens ilustres figuras latinas de outro tempo ldquorepetamque non ab

incunabulis nostrae ueteris puerilisque doctrinae quemdam ordinem praeceptorum sed ea quae quondam accepi

in nostrorum hominum eloquentissimorum et omni dignitate principium disputatione esse uersata Non quod illa

contemnam quae Graeci dicendi artifices et doctores reliquerunt sed cum illa pateant in promptuque sint

omnibus neque ea interpretatione mea aut ornatius explicari aut planius exprimiri possint dabis hanc ueniam

mi frater ut opinor ut eorum quibus summa dicendi laus a nostris hominibus concessa est auctoritatem Graecis

anteponamrdquo (Cicero ldquoDe Oratorerdquo I 23 p 18) Segundo a traduccedilatildeo para o portuguecircs de Scatolin ldquoe

retomarei natildeo determinada ordem dos preceitos tomada aos elementos de nossa antiga e pueril

doutrina mas aquilo que soube outrora foi examinado numa discussatildeo de nossos conterracircneos mais

eloquentes e primeiros em toda dignidade natildeo que eu despreze o que os escritores e mestres de oratoacuteria

gregos nos legaram mas como tais escritos satildeo acessiacuteveis e estatildeo ao alcance de todos e natildeo podem por

meio de minha traduccedilatildeo ser explicados com maior ornato ou expressos com maior clareza concederaacutes

a licenccedila meu irmatildeo segundo penso de colocar acima dos gregos a autoridade daqueles a quem os

latinos concederam a suma gloacuteria na oratoacuteriardquo (Scatolin A ldquoA invenccedilatildeo no Do Orador de Ciacutecero um

estudo agrave luz de Ad Familiares I 9 23rdquo p 151-152) Ora exaltar a suma gloacuteria dos antepassados no diaacutelogo

composto parece engrandecer e revestir de auctoritas justamente e ainda mais ndash porque sem arrogacircncia

ndash aquele que o compotildee o proacuteprio Ciacutecero No De Inuentione (I 22) p 44 Ciacutecero preceitua como captar a

benevolecircncia do ouvinte no exoacuterdio a partir de nossa pessoa ldquoab nostra si de nostris factis et officiis sine

41

eu mesmo Ceacutesar de fato nem interponho meu nome a tiacutetulos alheios nesse corpus que

apresento nem procurei aprovaccedilatildeo vituperando quaisquer reflexotildees mas sou

infinitamente grato a todos os autores porque a partir da egreacutegia soleacutercia de seus

engenhos haacute tempos cultivados prepararam abundantes provisotildees cada um em seu

campo as quais direcionamos a nossos proacuteprios propoacutesitos mais fecundos e expeditos

como que haurindo a aacutegua das fontes e tendo a possibilidade de escrever confiantes

em tais autores notaacuteveis ousamos propor novas instituiccedilotildees66

Recebem agradecimentos os scriptores de engenho solerte que reuniram

reflexotildees em diversas aacutereas hauridas todas para a confecccedilatildeo da obra rendendo-a

melhor acabada Tamanho respeito investido em tais autores eacute o que permite ousar

essa nova doutrina escreve Vitruacutevio transformando os provedores dos contributos

em fiadores de sua proacutepria empreitada A comeccedilar pelos antecessores latinos os

maiores que por meio de comentaacuterios encarregaram-se de ldquotransmitir suas

proposiccedilotildees aos poacutesteros para que natildeo se perdessem mas recebendo acreacutescimos das

publicaccedilotildees de cada eacutepoca gradativamente atingissem com o passar do tempo a

suma finura das doutrinasrdquo67 E louva os comentaacuterios (commentari)68 que permitiram

transmitir a memoacuteria dos feitos de Troacuteia e de fiacutesicos como Tales Anaxaacutegoras e

Xenoacutefanes de filoacutesofos como Soacutecrates Platatildeo Aristoacuteteles Zenatildeo e Epicuro69 que

adrogantia dicemusrdquo Traduccedilatildeo ldquo[a benevolecircncia eacute captada] a partir de nossa pessoa se nos referirmos a

nossos feitos e serviccedilos sem arrogacircnciardquo Vitruacutevio adota um expediente semelhante no Livro VII (VII

pref 10) agradecendo aos poacutesteros 66 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre VII (VII pref 10) p 5 ldquoEgo uero Caesar neque alienis indicibus

nomine meo id profero corpus neque ullius cogitata uituperans institui ex eo me approbare sed omnibus

scriptoribus infinitas ago gratias quod egregiis ingeniorum sollertiis ex aeuo collatis abundantes alius alio genere

copias praeparauerunt unde nos uti fontibus haurientes aquam et ad propria proposita traducentes facundiores et

expeditiores habemus ad scribendum facultates talibus confidentes auctoribus audemus institutiones nouas

compararerdquo 67 Ibid (VII pref 1) p 1 ldquomaiores cum sapienter tum etiam utiliter instituerunt per commentariorum

relationes cogitata tradere posteris ut ea non interirent sed singulis aetatibus crescentia uoluminibus edita

gradatim peruenirent uetustatibus ad summam doctrinarum subtilitatemrdquo 68 Ibid (VII pref 2) p 2 69 Outro procedimento com vistas a auctoritas eacute a remissatildeo agraves autoridades do passado como tambeacutem faz

Ciacutecero em relaccedilatildeo a Aristoacuteteles no De Inuentione ldquoAc ueteres quidem scriptores artis usque a principe illo

atque inuentore Tisia repetitos unum in locum conduxit Aristoteles e nominatim cuiusque praecepta magna

conquisita cura perspicue conscripsit atque enodata diligenter exposuitrdquo (Cicero De Inuentione II 6 p 170)

Traduccedilatildeo ldquoAristoacuteteles reuniu os antigos escritores de retoacuterica tomados desde Tiacutesias o primeiro e

inventor dessa arte e registrou nomeadamente os preceitos com o maior cuidado na recolha e com

42

estabeleceram os fins da accedilatildeo humana de reis como Creso Alexandre e Dario e o que

empreenderam

Vitruacutevio prossegue apresentando uma longa lista de mestres gregos que

deixaram escritos sobre cenaacuterio de trageacutedia e o modo de figurar edifiacutecios escritos de

arquitetos sobre a symmetria no gecircnero doacuterico sobre o templo jocircnico e outros aleacutem de

comentaacuterios sobre outras modalidades de edificaccedilotildees e mesmo escritos de escultores

A seleccedilatildeo realizada na extensa enumeraccedilatildeo de exemplos atesta ainda uma maioria de

autores gregos e uma tiacutemida presenccedila de romanos ldquoobservei as as coisas uacuteteis para

esse assunto recolhidas a partir de comentaacuterios e reuni em um corpus a partir do que

vi muito bem que nessa mateacuteria haacute mais volumes publicados pelos gregos do que os

poucos pela nossa terrardquo 70

115 Vitruacutevio auctor

O Livro II do De Inuentione de Ciacutecero comeccedila com a anedota em que Zecircuxis

escolhe as cinco mais belas jovens de Crotona para que delas pudesse extrair uma

imagem de Helena cuja beleza era incomparaacutevel agrave de qualquer mulher Ciacutecero se

propotildee a desempenhar uma tarefa semelhante71 Como um Zecircuxis Ciacutecero quer extrair

clareza ademais expocircs explicaccedilotildees diligentementerdquo Nesse excerto Ciacutecero remete agrave autoridade de

Aristoacuteteles especialmente no que concerne ao assunto tratado isto eacute a retoacuterica Vitruacutevio por sua vez

faz menccedilatildeo a toda uma linhagem de pensadores e mesmo a reis na constituiccedilatildeo de um lastro amplo a

seu discurso 70 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre VII (VII pref 14) p 7 ldquoquorum ex commentariis quae utilia esse his

rebus animaduerti collecta in unum coegi corpus et ideo maxime quod animaduerti in ea re ab Graecis uolumina

plura edita ab nostris oppido quam paucardquo 71 Cicero ldquoDe Inuentionerdquo (II 4) p 168 ldquoquod quoniam nobis quoque uoluntatis accidit ut artem dicendi

perscriberemus non unum aliquod proposuimus exemplum cuius omnes partes quocumque essent in genere

exprimendae nobis necessariae uiderentur sed omnibus unum in locum coactis scriptoribus quod quisque

commodissime praecipere uidebatur excerpsimus et ex uariis ingeniis excellentissima quaeque libauimusrdquo

Traduccedilatildeo ldquopor isso quando nos ocorreu tambeacutem o iacutempeto para que escrevecircssemos uma doutrina da

arte do dizer natildeo estabelecemos algum modelo uacutenico em que todas as partes parecessem dever ser

tomadas necessariamente tal como eram mas tendo sido todos os escritores reunidos em um soacute lugar

43

o melhor de cada doutrina legada superando-as todas com sua proacutepria inigualaacutevel

esta segundo esse raciociacutenio embora ao mesmo tempo se reivindique ancoradiacutessima

nos escritos precedentes Ciacutecero afirma mesmo superar em sua seleccedilatildeo aquela de

Zecircuxis que contava com um restrito nuacutemero de belas jovens a se espelhar naquele

momento e local ao passo que ele podia se valer dos mais excelentes preceitos

transmitidos ateacute seu tempo72

Ora se no De Inuentione Ciacutecero se pretendia um Zecircuxis com relaccedilatildeo aos escritos

sobre oratoacuteria o que dizer sobre a listagem verdadeiramente exaustiva de Vitruacutevio

Remetendo agrave autoridade dos maiores mas tambeacutem agrave dos fiacutesicos e filoacutesofos mais

ilustres Vitruacutevio procura tornar sua obra autorizada e traz ainda agrave memoacuteria os nomes

e os feitos de numerosos artiacutefices que prestaram serviccedilos agrave arquitetura incluindo

aqueles minus nobiles mas que legaram preceitos Tal recolha vasta direcionada agrave

constituiccedilatildeo de instituiones nouas vai ao encontro do que se lecirc no prefaacutecio ao Livro IV

quando Vitruacutevio dirigindo-se ao Imperator assume a tarefa de ordenar a disciplina do

arquiteto em um corpo coeso

como notei oacute Imperador haver muitos preceitos sobre arquitetura e volumes de

comentaacuterios natildeo ordenados e inacabados deixados como fragmentos errantes julguei

digno e utiliacutessimo conduzir o corpo de tatildeo importante disciplina a uma perfeita

ordenaccedilatildeo e explicar as qualidades prescritas a cada gecircnero em volumes distintos73

O estabelecimento da doutrina que abrange a maior extensatildeo possiacutevel de

conhecimentos pertinentes se endereccedila ainda e sobretudo agrave obtenccedilatildeo de auctoritas

aqueles oacute Imperador que desenvolveram as reflexotildees de engenho e os preceitos em

volumes mais amplos acrescentaram maacutexima e egreacutegia autoridade a seus escritos

extraiacutemos aquilo que cada um via como mais vantajoso a preceituar e saboreamos as partes mais

excelentes de variados engenhosrdquo 72 Cf Cicero ldquoDe Inuentionerdquo (II 5) p 170 73 Vitruve De LrsquoArchitecture Livre IV (IV Pref I) p 2 ldquoCum animaduertissem Imperator plures de

architectura praecepta uoluminaque commentariorum non ordinata sed incepta uti particulas errabundas

reliquisse dignam et utilissimam rem putaui tantae disciplinae corpus ad perfectam ordinationem perducere et

praescriptas in singulis uoluminibus singulorum generum qualitates explicarerdquo

44

Que isso se revelasse tambeacutem em nossos estudos de modo que pela amplificaccedilatildeo

da autoridade (auctoritas) tambeacutem esses preceitos fossem engrandecidos74

Com os recursos retoacutericos que reivindicam autoridade a uma preceptiva

Vitruacutevio pretende legitimar sua doutrina firmando-se ele proacuteprio como auctor

Rememorando a trajetoacuteria etimoloacutegica do termo Hansen aponta que

a significaccedilatildeo geneacuterica de autor eacute assim o que faz crescer mas tambeacutem o que faz

surgir o que produz [] Na sua significaccedilatildeo posterior parecem concorrer aleacutem do

verbo augere formas supinas do verbo latino agere (ago -is actum) agir fazer e o

grego autoacutes proacuteprio e authentia autoridade poder total75

Em certa medida o auctor se reveste da carga semacircntica que lhe fora atribuiacuteda

no direito a de fiador como mostra Hansen76 Mas ao mesmo tempo trata-se de

garantir a transmissatildeo de um saber ou de um saber fazer

na Roma claacutessica autor eacute o que tendo a posse de uma teacutecnica (ars) exercita sua arte

como artifex segundo regras precisas e especiacuteficas de articulaccedilatildeo (artificialis) Como

artificiosus perito conforme um artificium ou princiacutepio eacute tambeacutem um gnarus que natildeo

ignora a auctoritas e por isso narra produzindo artefatos que datildeo autoridade e servem

de exemplos para outros77

Assim para que um arquiteto possa se revestir de auctoritas aleacutem de letrado

(litteratus) eacute preciso contar com os preceitos estabelecidos e sancionados por um auctor

Considerando o quadro descrito de transmissatildeo fragmentaacuteria das doutrinas por meio

de obras esparsas e pouco ordenadas no campo da arquitetura o corpus disciplinar

erigido se afigura como empreendimento uacutenico e Vitruacutevio o auctor por excelecircncia

74 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre V (V pref 1) p 1 ldquoQui amplioribus uoluminibus Imperator ingenii

cogitationes praeceptaque explicauerunt maximas et egregias adiecerunt suis scriptis auctoritates Quod etiam uel

in nostris quoque studiis res pateretur ut amplificationibus auctoritas et in his praeceptis augereturrdquo 75 Hansen J A ldquoAutorrdquo p 16 In Jobim Joseacute Juiacutes (org) ldquoPalavras da Criacutetica Tendecircncias e conceitos no

Estudo da Literaturardquo Imago Editora Ltda RJ 1992 76 Ibid p 17 ldquoem direito auctor designava fiadorrdquo 77 Ibid p 18

45

12 Auctoritas e Venustas

No De Architectura o conceito de auctoritas natildeo se volta apenas ao arquiteto e ao

auctor que compotildee a preceptiva abrangendo com recorrecircncia o edifiacutecio que mediante

determinadas qualidades torna-se digno de louvor Eacute no Livro III que pela recolha e

ordenaccedilatildeo dos ensinamentos transmitidos satildeo efetivamente apresentadas as

preceituaccedilotildees para os templos ndash estes maximamente exemplares porque destinados a

permanecer ao longo do tempo Com isso as regras que orientam sua elaboraccedilatildeo

podem ser aplicadas a toda a aedificatio78 Para Vitruacutevio foram os antigos79 que as

constituiacuteram de modo que as partes tomadas separadamente possuiacutessem uma

concordacircncia proporcional isto eacute de symmetria ou comensurabilidade com a figura

visiacutevel da obra tomada como um todo80 Desse modo satildeo elencados os princiacutepios a

partir dos quais dividem-se os templos segundo seu aspecto81 in antis prostilo

anfiprostilo periacuteptero pseudodiacuteptero [diacuteptero] e hipetro Sendo que a forma de cada

modalidade dessas eacute explicada e exemplos de edifiacutecios sagrados existentes satildeo

fornecidos Mas os templos podem ser classificados ainda segundo categorias

determinadas pelo ritmo de sua colunata perifeacuterica que eacute dado pela relaccedilatildeo entre o

espaccedilamento das colunas e sua altura dividindo-se assim em cinco espeacutecies (species)

picnostilo sistilo diastilo areostilo e eustilo Esse uacuteltimo sobressai aos demais pelas

78 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III (III 1 4) p 7-8 ldquoigitur cum in omnibus operibus ordines traderent

maxime in aedibus deorum ltquod eorumgt operum et laudes et culpae aeternae solent permanererdquo Traduccedilatildeo

ldquoentatildeo como [os antigos] transmitissem as ordens para todos os gecircneros de obras sobretudo nos

templos dos deuses os meacuteritos e as faltas costumam perdurar eternamenterdquo 79 De acordo com Elisa Romano as noccedilotildees de antiqui ueteres e maiores em Vitruacutevio satildeo ldquodenominaccedilotildees

elaacutesticas capazes de se dilatar chegando a compreender eacutepocas muito arcaicas ou a englobar um

passado geneacuterico e indiferenciado ou de restringir-se em indicaccedilotildees mais precisas mas flexiacuteveis com

relaccedilatildeo ao plano cronoloacutegicordquo (Romano E ldquoVitruvio fra storia e antiquariardquo sect 26) 80 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III (III 1 4) p 7 ldquocum causa constituisse uidentur antiqui ut etiam

in operum perfectionibus singulorum membrorum ad universam figurae speciem habeant commensus

exactionemrdquo Traduccedilatildeo ldquovecirc-se que com razatildeo os antigos estabeleceram que ainda a perfeiccedilatildeo de cada

membro da obra possuiacutesse comensuraccedilatildeo exata para com a vista da configuraccedilatildeo do conjuntordquo 81 Ibid (III 2 1) p 11 ldquoaedium autem principia sunt e quibus constat figurarum aspectus eardquo Traduccedilatildeo

ldquoestes satildeo os princiacutepios a partir dos quais fundamentam-se os aspectos de suas configuraccedilotildeesrdquo Cf

capiacutetulo 3 ldquoPreceitos para o encantordquo

46

singulares vantagens oferecidas e se afirma no De Architectura como ponto alto na

prescriccedilatildeo dos templos82

121 Eustilo e auctoritas

O Livro III concentra o maior nuacutemero de referecircncias ao termo auctoritas de todo

De Architectura parte delas associadas agrave prescriccedilatildeo do modo eustilo A recomendaccedilatildeo

dessa espeacutecie de templo como a mais louvaacutevel deve-se ao desenvolvimento superior

de sua ordenaccedilatildeo relativamente ao uso agrave vista e agrave solidez da obra assim concebida

ldquoreddenda nunc est eustyli ratio quae maxime probabilis et ad usum et ad speciem et ad

firmitatem rationes habet explicatasrdquo83 As prescriccedilotildees que Vitruacutevio apresenta em seguida

do intercoluacutenio possuindo duas vezes e um quarto o diacircmetro da base da coluna com

exceccedilatildeo do intercoluacutenio central que deve possuir trecircs vezes essa dimensatildeo da coluna

satildeo os elementos necessaacuterios para que haja garantia de aspecto venusto do uso sem

entraves e da auctoritas do deambulatoacuterio84 Vitruacutevio aponta a ausecircncia de um

exemplar nesses moldes em Roma mas se refere ao templo hexastilo dedicado ao deus

Liacutebero em Teos na Aacutesia como portador dessas caracteriacutesticas proporcionais

superiores Tais symmetriae satildeo remetidas agrave autoridade de Hermoacutegenes vinculado por

Vitruacutevio ao desenvolvimento do princiacutepio do pseudodiacuteptero caracterizado pela

82 Como nota Pierre Gros a palavra ldquonuncrdquo que inicia a exposiccedilatildeo do eustilo em III 3 6 (reddenda nunc

est eustyli ratio) indica uma quebra na exposiccedilatildeo chamando a atenccedilatildeo para o modo que realmente

interessa (Gros P in Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III n 1 p 108) Aleacutem disso o eustilo estaacute fora

da seacuterie isto eacute Vitruacutevio apresenta os ritmos de templos em ordem crescente de intercoluacutenio com

exceccedilatildeo dele (picnostilo 1 frac12 sistilo 2 diastilo 3 areostilo gt3 eustilo 2 frac14) O eustilo deveria vir entre

o sistilo e o diastilo mas o adveacuterbio ldquonuncrdquo marca de fato uma interrupccedilatildeo na exposiccedilatildeo para apresentar

por uacuteltimo o princiacutepio definitivo Cf capiacutetulo 3 ldquoPreceitos para o encantordquo 83 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III (III 3 6) p 16 Traduccedilatildeo ldquodeve ser reportado agora o modo

eustilo que possui regulaccedilotildees desenvolvidas sendo maximamente aprovado quanto ao uso ao aspecto

e agrave firmezardquo 84 Ibid (III 3 6) p 16 ldquosic enim habebit et figurationis aspectum uenustum et aditus usum sine inpeditionibus

et circa cellam ambulatio auctoritatemrdquo Traduccedilatildeo ldquopois assim teraacute aspecto venusto quanto agrave configuraccedilatildeo

acesso sem impedimentos ao uso e autoridade ao deambulatoacuterio em torno da celardquo

47

supressatildeo de uma linha de colunas das duas paralelas que constituem o templo

diacuteptero Obteacutem-se daiacute o alargamento notaacutevel do vatildeo do deambulatoacuterio em torno agrave cela

sem diminuir a visatildeo que se tem da obra Eliminando-se ao mesmo tempo o que possa

ser supeacuterfluo conserva-se a auctoritas pela distribuiccedilatildeo da obra em seu todo afirma

Vitruacutevio ldquoele [Hermoacutegenes] notavelmente produziu um alargamento no interior do

deambulatoacuterio em torno da cela que em nada diminuiu o aspecto mas sem apego ao

supeacuterfluo conservou a autoridade na distribuiccedilatildeo de toda a obrardquo85

O trecho de elogio ao modo eustilo revela no entanto um emprego do termo

auctoritas relacionado natildeo mais ao corpus prescritivo tampouco direcionado ao

arquiteto mas agrave obra de arquitetura insigne que segue tais princiacutepios na busca de um

coroamento infaliacutevel Inicialmente a auctoritas aparece vinculada agrave ambulatio86

Referindo-se agraves symmetriae do pseudodiacuteptero hexastilo instituiacutedas por Hermoacutegenes

Vitruacutevio aponta ao deambulatoacuterio um alargamento egregiamente empreendido que

vela pela auctoritas sem prejuiacutezo da economia de recursos que a ditribuiccedilatildeo adequada

propicia

122 Sentidos de auctoritas

Diante da sobreposiccedilatildeo semacircntica que o termo encerra Pierre Gros chama a

atenccedilatildeo para as diferentes acepccedilotildees de auctoritas87 que identifica no De Architectura de

85 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III (III 3 8) p 17-18 ldquois in medio ambulationi laxamentum egregie

circa cellam fecit de aspectuque nihil inminuit sed sine desiderio superuacuorum conseruauit auctoritatem totius

operis distributionerdquo 86 Ambulatio ou deambulatoacuterio eacute a aacuterea que circunda a cela do templo sendo delimitada em geral pelas

colunas do pteroma Segundo M Justino Maciel pteroma ldquoeacute a disposiccedilatildeo das colunas em volta do

templo ala peristilar ou poacutertico envolvente dos templos periacutepteros Pode tambeacutem por metoniacutemia

significar a ambulatio ou zona de circulaccedilatildeo em torno das colunas do templordquo (Maciel M J in Vitruacutevio

ldquoTratado de arquiteturardquo n 63 p 181) 87 Em relaccedilatildeo ao emprego de auctoritas em contextos ligados agraves artes visuais Pollitt apontara uma

variaccedilatildeo de sentidos que recaiacuteam basicamente em trecircs direccedilotildees a do prestiacutegio e reputaccedilatildeo do artista a

da sanccedilatildeo coletiva concedida a uma obra o efeito de magnificecircncia e grandiosidade Cf Pollitt J J

ldquoThe Ancient View of Greek Art - Criticism history and terminologyrdquo p 311-318

48

modo que primeiramente o termo pode fazer referecircncia aos antecessores88 que se

constituiacuteram autoridades e cujos preceitos satildeo transmitidos pelas doutrinas como

convenccedilotildees modulares89 Nesse caso a auctoritas presente na edificaccedilatildeo adveacutem da

sutileza do artiacutefice (subtilitas artificis)90 que domina as instruccedilotildees transmitidas pela

doutrina Num segundo sentido auctoritas apareceria relacionada ao emprego de

materiais luxuosos sobretudo o maacutermore de modo que o edifiacutecio acaba por transmitir

uma impressatildeo de pujanccedila em funccedilatildeo das expensas consentidas pelo promotor da

obra Eacute o que lemos no Livro VII quando Vitruacutevio se refere agrave ausecircncia de comentaacuterios

agrave obra de G Muacutecio

que contando com grande ciecircncia perfez as symmetriae ndash legitimamente embasadas na

arte ndash das celas colunas e epistiacutelios do templo de Honra e Virtude dedicado por Maacuterio

Quanto a esse templo se fosse de maacutermore de modo que tivesse assim como a sutileza

da arte a autoridade da magnifecircncia e das expensas teria seu nome entre as primeiras

e mais elevadas obras91

A terceira acepccedilatildeo de auctoritas eacute entendida por Gros como aquela presente nas

passagens que tratam das species de templos no Livro III remetendo ao elogio do ritmo

88 Gros faz lembrar que tal sorte de remissatildeo se atesta por exemplo em Quintiliano I 6 42 ao invocar

os summi auctores (Gros Pierre ldquoLrsquoauctoritas chez Vitruve Contribution agrave lrsquoeacutetude de la seacutemantique des

ordres dans le De Architecturardquo p 264 n 21 p 268) 89 Gros Pierre ldquoLrsquoauctoritas chez Vitruve Contribution agrave lrsquoeacutetude de la seacutemantique des ordres dans le De

Architecturardquo p 264 90 Cf Vitruacutevio (IV 1 10) (VII 5 7) (VII pref 17) (X 1 2) 91 Vitruacutevio ldquoTratado de Arquiteturardquo (VII pref 17) p 338-339 Em Latim ldquoqui magna scientia confisus

aedes Honoris et Virtutis Marianae cellae columnarumque et epistyliorum symmetrias legitimis artis institutis

perfecit Id uero si marmoreum fuisset ut haberet quemadmodum ab arte subtilitatem sic ab magnificentia et

impensis auctoritatem in primis et summis operibus nominareturrdquo (Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre VII

p 9) Natildeo se deve perder de vista contudo a censura aos gastos e ao abuso das cores em detrimento da

periacutecia do artiacutefice encarregado de decorar a edificaccedilatildeo nesse mesmo livro que trata dos acabamentos

ldquoutinam dii immortales fecissent uti Lykinos reuiuisceret et corrigeret hanc amentiam tectoriorumque errantia

instituta Quod enim antiqui insumentes laborem et industriam probare contendebant artibus id nunc coloribus

et eorum eleganti specie consecuntur et quam subtilitas artificis adiciebat operibus auctoritatem nunc dominicus

sumptus efficit ne desidereturrdquo (Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre VII - VII 5 7 - p 26) Traduccedilatildeo

ldquopudessem os deuses imortais fazer com que Liciacutenio voltasse agrave vida e corrigisse a loucura e os erros

instaurados das pinturas dos revestimentos [] Pois aquilo pelo que os antigos lutavam em tornar

aprovado agrave arte valendo-se de labor e aplicaccedilatildeo agora se consegue pelas cores e pela vista elegante e

a sutileza do artiacutefice que acrescentava autoridade agraves obras agora se faz pelos gastos do comitente de

modo que mais nada seja desejadordquo

49

da peristasis ndash regiatildeo composta pela colunata que circunda o templo ndash obtido na

ordenaccedilatildeo de tipo eustilo pseudodiacuteptero o exemplar mais excelente dentre os modos

prescritos

Lemos em Vitruacutevio que ldquoo sistema do pteroma como a disposiccedilatildeo das colunas

ao redor do templo foi inventado para que o aspecto por causa do realce (asperitas)

dos intercoluacutenios tivesse autoridaderdquo92 Pode-se depreender nesse excerto a

aproximaccedilatildeo feita entre a disposiccedilatildeo do pteroma e o aspecto (aspectus) da obra cuja

auctoritas adveacutem dos intercoluacutenios na medida em que satildeo portadores de determinada

caracteriacutestica Trata-se da asperitas noccedilatildeo difiacutecil de traduzir nessa passagem De que

modo a asperitas dos intercoluacutenios poderia ser a causa da autoridade do aspecto

123 Asperitas

Pierre Gros dedicou um estudo especificamente a essa noccedilatildeo93 e uma das

maiores dificuldades na compreensatildeo do uso do termo em Vitruacutevio era o emprego

aparentemente oposto em obras sobre retoacuterica nas quais o uso figurado de asperitas

assume um sentido de todo negativo associado a viacutecios do discurso que produzem

incocircmodo aos ouvidos quebra no ritmo cacofonia Eacute o que identificamos no Orator

quando satildeo apresentadas duas possibilidades ao discurso ldquograndiloquenterdquo aacutespero

severo inculto imperfeito e inacabado ou por outro lado liso bem construiacutedo bem

acabado94 Ao tratar da eufonia Ciacutecero atribui a Luciacutelio uma citaccedilatildeo em que a

92 Vitruacutevio ldquoTratado de Arquiteturardquo (III 3 9) p 181 Em latim ldquopteromatos enim ratio et columnarum

circum aedem dispositio ideo est inuenta ut aspectus propter asperitatem intercolumniorum habeat auctoritatemrdquo

(Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III p 18) Maciel verte ldquoasperitatemrdquo por ldquorealcerdquo que parece uma

boa opccedilatildeo para indicar o problema da impressatildeo de relevo implicada pelo uso peculiar que Vitruacutevio faz

da noccedilatildeo 93 Gros P ldquoDe La Rheacutetorique agrave LrsquoArchitecture LrsquoAmbiguiteacute de LrsquoAsperitasrdquo 94 Ciceron ldquoLrsquoOrateurrdquo 20 p 7 ldquoalii aspera tristi horrida oratione neque perfecta atque conclusa alii leui et

structa et terminatardquo Traduccedilatildeo ldquouns com uma oratoacuteria aacutespera severa imperfeita e inacabada outros

com uma oratoacuteria lisa bem construiacuteda bem acabadardquo

50

graciosidade do arranjo das palavras eacute exaltada e elas satildeo comparadas agraves peccedilas que

compotildeem uma pavimentaccedilatildeo feita com arte tal como mosaico95 Ciacutecero recomenda

enfim a virtude no uso das palavras e o afastamento da ldquoasperezardquo (asperitatem)96

O trecho de elogio em que asperitas aparece no Livro III do De Architectura

parece distanciar-se da conotaccedilatildeo viciosa descrita por Ciacutecero ao mesmo termo Aliaacutes

em Vitruacutevio asperitas provecirc auctoritas (ut aspectus propter asperitatem intercolumniorum

habeat auctoritatem)97 Assim o sistema do pteroma e da disposiccedilatildeo das colunas garante

a qualidade superior do pseudodiacuteptero98 em virtude da auctoritas conferida pela

asperitas ao aspectus autoridade essa conservada por uma distribuiccedilatildeo adequada e

aliada agrave comodidade do uso jaacute que o alargamento do deambulatoacuterio permite ainda

uma espera mais cocircmoda agrave multidatildeo surpreendida pela forccedila da chuva e impedida de

sair do templo99

A soleacutercia aguda de Hermoacutegenes proporcionou esse feito conferindo aos

poacutesteros como que as fontes a serem hauridas no domiacutenio desses princiacutepios100 Tal

legado satisfaz a um soacute tempo duas esferas da aedificatio101 a ratio utilitatis pela

comodidade provida ao uso a ratio uenustatis pelo que propicia ao aspecto da obra

Resta ainda saber de que modo a noccedilatildeo de asperitas se vincula ao campo da uenustas

95 Ibid 149 p 54 ldquoquam lepide lexis compostae ut tesserulae omnes arte pauimento atque emblemate

uermiculato rdquo Traduccedilatildeo ldquocomo satildeo graciosamente compostas essas palavras do mesmo modo que as

pedras todas satildeo dispostas com arte nos pavimentos e nos mosaicos vermiculadosrdquo 96 Ibid 164 p 62 ldquoimmo uero ista sequamur asperitatemque fugiamurrdquo Traduccedilatildeo ldquoou melhor sigamos esta

e fujamos da asperidaderdquo 97 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III (III 3 9) p 18 98 Ibid (III 3 9) p 18 ldquohaec autem ut explicantur in pseudodipteris aedium dispositionibusrdquo Traduccedilatildeo

ldquocomo isso se encontra desenvolvido nas disposiccedilotildees dos templos pseudodiacutepterosrdquo 99 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III (III 3 9) p 18 ldquopraeterea si ex imbribus aquae uis occupauerit et

intercluserit hominum multitudinem ut habeat in aede circaque cellam cum laxamento liberam moramrdquo

Traduccedilatildeo ldquoaleacutem disso se a forccedila da aacutegua da chuva surpreender e bloquear uma multidatildeo de homens

ela teraacute no templo uma espera mais cocircmoda com o alargamento ao redor da celardquo 100 Ibid (III 3 9) p 18 ldquoquare uidetur acuta magnaque sollertia effectus operum Hermogenes fecisse

reliquisseque fontes unde posteri possent haurire disciplinarum rationesrdquo Traduccedilatildeo ldquopor isso vecirc-se que

Hermoacutegenes realizou esses feitos nas obras com aguda e elevada soleacutercia aleacutem do que deixou as fontes

onde os poacutesteros pudessem haurir os princiacutepios disciplinaresrdquo A imagem da fonte a ser haurida eacute

retomada no Livro VII (VII pref 10) por ocasiatildeo justamente da listagem de autores referenciais agrave

proacutepria constituiccedilatildeo da preceptiva Cf n 66 supra 101 Cf Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre I (I 3 2) p 20

51

Pierre Gros propotildee uma aproximaccedilatildeo semacircntica entre o termo asperitas de III 3

9 com sua ocorrecircncia em passagem do Livro Seacutetimo embora esse trecho consista na

descriccedilatildeo de cenaacuterio teatral pintado

e com efeito ainda em Trales Apatuacuterio de Alabanda tinha realizado (finxisset) com matildeo

elegante um cenaacuterio (scaenam) em um pequeno teatro chamado ecclesiasterion entre eles

e nesse cenaacuterio tinha feito colunas estaacutetuas centauros sustentando epistiacutelios

coberturas de cuacutepulas circulares acircngulos salientes de frontotildees e cornijas ornadas por

cabeccedilas de leotildees cuja razatildeo era a de escoar a aacutegua das coberturas aleacutem disso sobre

todas as coisas havia nada menos que um coroamento de cena (episcenon) com cuacutepulas

pronaus semi-frontotildees e variados ornatos pintados no teto Assim como o aspecto

desse cenaacuterio por causa de seu realce (asperitatem) acariciava a visatildeo de todos que jaacute

estavam preparados para aprovar essa obra entatildeo []102

Fica claro que os motivos pintados embora planos remetem a elementos

arquiteturais (colunas epistiacutelios cuacutepulas) apresentados no cenaacuterio como se tivessem

relevo (fastigiorum prominentes uersuras) Ora trata-se de uma scaena forjada (finxisset)

por Apatuacuterio que portanto natildeo constroacutei de fato colunas epistiacutelios coberturas etc O

termo asperitas designaria esse efeito atuante no olho do observador como uma espeacutecie

de aspereza ou rugosidade (itaque cum aspectus eius scaenae propter asperitatem

eblandiretur omnium uisus) donde a opccedilatildeo de Gros por traduzi-lo como ldquoimpressatildeo de

relevordquo (impression de relief) no Livro III Ali a associaccedilatildeo entre asperitas e auctoritas

supotildee uma ecircnfase no caraacuteter sensorial evocado pelo pteroma do templo eustilo

pseudodiacuteptero feito da arguacutecia aguda do artiacutefice que considera a posiccedilatildeo de quem

usa o templo na qualidade sobretudo de espectador O ritmo produzido pelo

contraste luminoso entre a luz refletida na superfiacutecie das colunas e a obscuridade dos

102 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre VII (VII 5 5) p 25 ldquoetenim etiam Trallibus cum Apaturius

Alabandeus eleganti manu finxisset scaenam in minusculo theatro quod ἐχχλησιαστήριν apud eos uocitatur in

eaque fecisset columnas signa centauros sustinentes epistylia tholorum rotunda tecta fastigiorum prominentes

uersuras coronasque capitibus leoninis ornatas quae omnia stillicidiorum e tectis habent rationem praetera supra

ea nihilominus episcenon in qua tholi pronai semifastigia omnisque tecti uarius picturis fuerat ornatus itaque

cum aspectus eius scaenae propter asperitatem eblandiretur omnium uisus et iam id opus probare fuissent parati

tum []rdquo

52

intervalos dilatados em profundidade no deambulatoacuterio perfaz uma espeacutecie de efeito

de aspereza aos olhos diante da epiderme exterior do templo ndash para usar uma imagem

de Pierre Gros103 A noccedilatildeo de aspectus conecta as passagens do Livro III e do VII104 pelo

estabelecimento da posiccedilatildeo comum agravequele que contempla o edifiacutecio sagrado e o que

se potildee diante da pintura Mas enquanto a impressatildeo de relevo (asperitas) na cena

(scaena) acaricia e agrada a visatildeo105 o edifiacutecio se eleva em autoridade por causa da

asperitas106 Se a preocupaccedilatildeo com o aspectus constitui um traccedilo comum entre o cenaacuterio

e o templo eustilo pseudodiacuteptero eacute apenas na arquitetura que assume o vigor da

auctoritas

13 Auctoritas e Aedificatio

Como se viu estaacute no escopo do De Architectura a obtenccedilatildeo de auctoritas pelo

arquiteto o qual para isso deve contar natildeo apenas com o engenho ou com um longo

percurso de aprendizagem mas ainda com o contributo de uma doutrina autorizada

Aleacutem do arquiteto e da preceptiva a se fazerem autorizados a proacutepria obra de

arquitetura deve demonstrar por si o resultado da soleacutercia do arquiteto e da adequaccedilatildeo

agraves convenccedilotildees construtivas revestindo-se de autoridade Nesse intuito o aspecto

confere agrave obra auctoritas conservada por uma distribuiccedilatildeo107 adequada conforme

explicitou Vitruacutevio Dificilmente perceptiacutevel a quem natildeo estaacute envolvido com

103 Gros P ldquoDe La Rheacutetorique agrave LrsquoArchitecture LrsquoAmbiguiteacute de LrsquoAsperitasrdquo p 286 104 Vitruacutevio (III 3 9) e (VII 5 5) 105 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre VII (VII 5 5) p 25 ldquocum aspectus eius scaenae propter asperitatem

eblandiretur omnium uisusrdquo Cf n 102 supra 106 Cf n 92 supra 107 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre I (I 2 8) p 18 ldquodistributio autem est copiarum locique commoda

dispensatio parcaque in operibus sumptus ratione temperatiordquo Segundo a traduccedilatildeo de Maciel ldquoa distribuiccedilatildeo

eacute a reparticcedilatildeo apropriada dos meios e do solo assim como um equiliacutebrio nas contas de despesa das

obrasrdquo (Vitruacutevio Tratado de Arquitetura p 79) Sobre distributio e auctoritas cf n 85 supra

53

proximidade agraves atividades construtivas108 a distribuiccedilatildeo embora fundamental resta

oculta agrave maioria Por outro lado o aspectus eacute uma das dimensotildees mais abrangentes de

uma obra puacuteblica ou de um templo na medida em que a simples presenccedila da

edificaccedilatildeo franqueia a todos os olhos o feito de sua elaboraccedilatildeo Ratio Venustatis eacute como

Vitruacutevio nomeou o campo cujas preocupaccedilotildees envolvem a vista agradaacutevel e elegante

(species grata et elegans)109 da obra efeito de suas justas comensurabilidades (iustas

symmetriarum ratiocinationes)110 Essa contudo eacute apenas uma das vias para tornar a

edificaccedilatildeo autorizada De todo modo haveria melhor maneira de expor o poder aos

olhos aleacutem da autoridade visiacutevel de seus edifiacutecios

131 Auctoritas e Maiestas Imperii

O prefaacutecio ao Livro I exibe a primeira ocorrecircncia do termo auctoritas no De

Architectura em torno da dedicatoacuteria da obra agrave Augusto

como notei tua preocupaccedilatildeo natildeo soacute com a vida comum a todos e a organizaccedilatildeo da

Repuacuteblica mas ainda com as vantagens advindas das construccedilotildees puacuteblicas de modo

que a Cidade natildeo fosse por ti ampliada apenas com proviacutencias e sim para que a

majestade do poder recebesse a autoridade das egreacutegias edificaccedilotildees puacuteblicas julguei

que natildeo devia deixar passar o primeiro momento para apresentar estes volumes a ti

[]111

108 A dificuldade no controle dos gastos eacute um problema antigo retratado por Vitruacutevio no Livro X ao

expor a lei de Eacutefeso sobre o cumprimento dos orccedilamentos ldquonobili Graecorum et ampla ciuitate Ephesi lex

uetusta dicitur a maioribus dura condicione sed iure esse non iniquo constituta Nam architectus cum publicum

opus curandum recipit pollicetur quanto sumptu id sit futurum Tradita aestimatione magistratui bona eius

obligantur donec opus sit perfectumrdquo (Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre X - X pref 1 p 2) Traduccedilatildeo

ldquoDiz-se que na nobre e grande cidade grega de Eacutefeso foi instituiacuteda pelos maiores uma vetusta lei de

duras condiccedilotildees mas natildeo juridicamente iniacutequa Quando um arquiteto assumia os cuidados de uma obra

puacuteblica estimava os gastos a serem empregados Levada a estimativa ao magistrado os bens do

arquiteto eram dados em garantia ateacute que a obra fosse concluiacutedardquo 109 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre I (I 3 2) p 20 110 Ibid (I 3 2) p 20 111 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre I (I pref 2) p 3 ldquoCum uero adtenderem te non solum de uita

communi omnium curam publicaeque rei constitutiuone habere sed etiam de opportunitate publicorum

54

Vitruacutevio ressalta as vantagens advindas por ocasiatildeo da empreitada ediliacutecia ao

lado dos cuidados com a vida comum e a organizaccedilatildeo da Repuacuteblica para que Roma

natildeo crescesse apenas com a expansatildeo territorial mas se deixasse revestir da autoridade

concedida agrave sua potecircncia precisamente por meio dos edifiacutecios puacuteblicos Afinal como

fica registrado no periacuteodo de escrita do De Architectura Augusto jaacute havia edificado

muito e ainda o fazia ldquoquod animaduerti multa te aedificauisse et nunc aedificarerdquo112 Seraacute

contudo possiacutevel entrever nessas linhas do exoacuterdio conformes aos preceitos

retoacutericos113 de que modo a arquitetura poderia contribuir agrave autoridade magnificente

do poder de Roma

Ali Vitruacutevio insiste sobre as vantagens das edificaccedilotildees puacuteblicas (de opportunitate

publicorum aedificiorum) Eacute certo que no mesmo Livro I iraacute tratar das opportunitates

enquanto diretrizes agrave constituiccedilatildeo dos recintos urbanos voltadas agraves necessidades mais

elementares na implantaccedilatildeo de uma urbe tais como a escolha do siacutetio questotildees de

insolaccedilatildeo trajetoacuterias dos ventos acessos para escoamento e abastecimento de

mercadorias construccedilatildeo de muralhas e torres de proteccedilatildeo determinaccedilatildeo de ruelas e

avenidas etc Estaraacute Vitruacutevio se referindo exclusivamente a essa sorte de preocupaccedilotildees

no exoacuterdio ao Livro Primeiro Eacute possiacutevel embora nos demais desenvolvimentos em

torno das opportunitates ndash os que se encontram fora do primeiro prefaacutecio ndash natildeo haja

aedificiorum ut ciuitas per te non solum prouinciis esset aucta uerum etiam ut maiestas imperii publicorum

aedificiorum egregias haberet auctoritates non putaui praetermittendum quin primo quoque tempore de his rebus

ea tibi ederem []rdquo 112 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre I (I pref 3) p 3 113 O exoacuterdio ocupa papel importante no discurso pois segundo se lecirc na Retoacuterica a Herecircnio ldquoessa tripla

utilidade isto eacute que os ouvintes se mantenham continuamente atentos doacuteceis e benevolentes conosco

embora se deva buscaacute-la em todo o discurso eacute preparada sobretudo no exoacuterdiordquo ([Ciacutecero] ldquoRetoacuterica a

Herecircniordquo- I 11 - p 63) Em latim ldquouerum hae tres utilitates tametsi in tota oratione sunt conparandae hoc

est ut auditores sese perpetuo nobis adtentos dociles beniuolos praebeant tamen id per exordium causae maxime

conparandum estrdquo (ibid - I 11 - p 62) Se eacute por meio do exoacuterdio que se dispotildee o acircnimo do ouvinte (ibid

I 4 p 57) e o Imperator constitui o destinataacuterio privilegiado desse discurso eacute preciso considerar o tom

elevado de elogio nesses dizeres iniciais em conformidade ao gecircnero deliberativo a que se recorre como

uma tentativa de tornar o ouvinte atento ldquoteremos ouvintes atentos se prometermos falar de mateacuteria

importante nova e extraordinaacuteria ou que diz respeito agrave Repuacuteblica ou aos proacuteprios ouvintes []rdquo (ibid

I 7 p 59) Em latim ldquoattentos habebimus si pollicebimur nos de rebus magnis nouis inusitatis uerba facturos

aut de iis quae ad rem publicam pertineant aut ad eos ipsos qui audient []rdquo(ibid I 7 p 58)

55

menccedilatildeo ao conceito de auctoritas O De Architectura todavia reserva lugar a esse

conceito em outras de suas partes e a partir de inflexotildees outras

132 Basiacutelica de Fano auctoritas e uenustas

O livro V eacute destinado agraves prescriccedilotildees de obras puacuteblicas que natildeo edifiacutecios

sagrados ndash mateacuteria dos Livros III e IV Foros poacuterticos basiacutelicas teatros banhos

palestras e portos satildeo as espeacutecies de edificaccedilotildees tratadas no Quinto Volume Dentre os

assuntos apresentados no entanto chamam a atenccedilatildeo os apontamentos sobre a

basiacutelica de Fano da qual Vitruacutevio afirma ter sido ele proacuteprio o responsaacutevel ldquocollocaui

curauique faciendamrdquo114 O debatido passo suscitou muitas controveacutersias ateacute mesmo

com as conjecturas de que pudese constituir uma interpolaccedilatildeo posterior115 Mas ainda

que o teor das prescriccedilotildees e a escrita do excerto em questatildeo natildeo permitam excluiacute-lo da

unidade do corpus vitruviano116 resta que a descriccedilatildeo da basiacutelica de Fano destoa das

prescriccedilotildees gerais destinadas agraves basiacutelicas que a antecedem imediatamente Nessas

preceitua-se que as colunas superiores sejam a quarta parte menores do que as

inferiores117 Quanto agrave basiacutelica de Fano Vitruacutevio escreve que

as colunas tem altura ininterrupta de cinquenta peacutes com os capiteacuteis espessura de cinco

peacutes possuindo atraacutes de si pilastras de vinte peacutes de altura dois peacutes e meio de largura e

um peacute e meio de espessura que sustentam as traves sobre as quais se encontram os

vigamentos dos poacuterticos118

114 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre V (V 1 6) p 5 Traduccedilatildeo ldquodispus e cuidei da execuccedilatildeordquo 115 Cf Francesco Pellati ldquoLa basilica di Fano e la formazione del Trattato de Vitruviordquo p 157 Cf ainda

Saliou C in Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre V n 4 p 141 116 Pellati procura refutar os argumentos de ordem arquitetocircnica histoacuterica e filoloacutegica que defendem

que a descriccedilatildeo da basiacutelica de Fano se trata de interpolaccedilatildeo posterior 117 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre V (V 1 3) p 4 ldquocolumnae superiores quarta parte minores quam

inferiores sunt constituendaerdquo Traduccedilatildeo ldquoas colunas superiores devem ser constituiacutedas a quarte parte

menores que as inferioresrdquo 118 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre V (V 1 6) p 5-6 ldquocolumnae altitudinibus perpetuis cum capitulis

pedes L crassitudinibus quinum habentes post se parastaticas altas pedem XX latas pedem II S crassas I S quae

56

Sejam quais forem as motivaccedilotildees que teriam levado Vitruacutevio a adotar os

criteacuterios proacuteprios agrave elaboraccedilatildeo da basiacutelica de Fano sua descriccedilatildeo revela mais que uma

obra singular Pois conclui a passagem demonstrando que as colunas ininterruptas

diminuem os gastos pela supressatildeo dos ornamentos do epiacutestilio existente entre as

colunas inferiores e as superiores no esquema geral119 Mas principalmente as colunas

in altitudine perpetuae ldquoelevam a magnifecircncia das expensas e a autoridade da obrardquo120

As colunas de cinquumlenta peacutes de altura e cinco de espessura da basiacutelica de Fano

constituem certamente um feito notaacutevel agrave arte edificatoacuteria todavia a grandiosidade

exaltada natildeo prescinde do aspecto venusto da dupla disposiccedilatildeo exterior dos telhados

e da alta nave interior ldquoita fastigiorum duplex pectinata dispositio extrinsecus tecti et

sustinent trabes in quibus inuehuntur porticuum contignationesrdquo Ora Vitruacutevio deliberadamente potildee de lado

as regras que pouco antes havia prescrito (V 1 3) Uma passagem das Instituiccedilotildees Oratoacuterias de

Quintiliano ainda que voltada ao orador eacute esclarecedora ldquonemo autem a me exigat id praeceptorum genus

quod est a plerisque scriptoribus artium traditum ut quasi quasdam leges inmutabili necessitate constrictas

studiosis dicendi feram utique prohoemium et id quale proxima huic narratio quae lex deinde narrandi propositio

post hanc uel ut quibusdam placuit excursio tum certus ordo quaestionum ceteraque quae uelut si aliter facere

fas non sit quidam tanquam iussi secutur Erat enim rhetorice res prorsus facilis ac parua si uno et breui

praescripto contineretur sed mutantur pleraque causis temporibus occasione necessitate Atque ideo res in

oratore praecipua consilium est quia uarie et ad rerum momenta conuertiturrdquo (Quintilien ldquoIntitution

Oratoirerdquo - II 13 1-2 - p 69-70) Traduccedilatildeo ldquoque ningueacutem exija de mim esse gecircnero de preceitos o qual

eacute transmitido pela maior parte das obras dos escritores de modo que eu ofereccedila como que certas leis

restritas por uma necessidade imutaacutevel aos estudantes de oratoacuteria e de modo que primeiro o proecircmio

e como deva ser depois a narraccedilatildeo entatildeo quais sejam as leis da narraccedilatildeo depois a proposiccedilatildeo ou

como agrada a alguns a digressatildeo entatildeo a ordem correta das questotildees e outras coisas a que alguns

seguem como que a decretos e tal como uma lei divina que natildeo pudesse ser feita de outro modo Pois

a retoacuterica assim alinhada seria algo faacutecil e modesto se pudesse estar contida em uma breve prescriccedilatildeo

mas a maior parte das causas muda com as circunstacircncias a ocasiatildeo e a necessidade E por isso o

principal ao orador eacute a ponderaccedilatildeo (consilium) que se altera variadamente e em relaccedilatildeo agraves conjunturasrdquo

Vitruacutevio parece justamente se adaptar agraves circunstacircncias valendo-se do engenho e da instruccedilatildeo no que

propotildee desenvolver para a Basiacutelica de Fano 119 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre V (V 1 10) p 7 ldquoitem sublata epistyliorum ornamenta et pluteorum

columnarumque superiorum distributio operosam detrahit molestiam sumptusque inminuit ex magna parte

summamrdquo Traduccedilatildeo ldquodo mesmo modo subtraiacutedos os ornamentos dos epiacutestilios e dos pluacuteteos e as

colunas superiores a distribuiccedilatildeo elimina um labor penoso e diminui grande parte da soma total dos

gastosrdquo 120 Ibid (V 1 10) p 7 ldquoipsae uero columnae in altitudine perpetua sub trabes testudinis perductae et

magnificentiam inpensae et auctoritatem operi adaugere uidenturrdquo Traduccedilatildeo ldquoquanto agraves proacuteprias colunas de

altura ininterrupta levadas ateacute debaixo das traves da nave central vecirc-se que elevam a magnifecircncia das

expensas e a autoridade da obrardquo

57

interioris altae testudinis praestat speciem uenustamrdquo121 A descriccedilatildeo dessa obra se iniciava

apontando para a suma dignidade e venustidade que a revestiam ldquoigualmente a

preparaccedilatildeo das basiacutelicas contaraacute com a mais eminente dignidade e venustidade

conforme o gecircnero daquela da Colocircnia Juacutelia de Fano para a qual propus a disposiccedilatildeo

e cuidei da execuccedilatildeo e cujas proporccedilotildees e comensurabilidades (symmetriae) assim

foram estabelecidasrdquo122

A grandeza alcanccedilada na uacutenica obra atribuiacuteda pelo autor a si mesmo no De

Architectura natildeo suspende as demais diretivas enunciadas no corpus Desse modo a

economia de recursos na obra eacute observada a partir do que as colunas grandiosas da

basiacutelica de Fano reduzem nos gastos (sumptus) no acircmbito da distributio A preocupaccedilatildeo

com o aspecto recorre na passagem em duas ocasiotildees reivindicando uenustas agrave vista

produzida pela obra

Se no templo eustilo pseudodiacuteptero a auctoritas estava relacionada agrave disposiccedilatildeo

do pteroma e ao aspecto produzido visto do exterior e a uma distribuiccedilatildeo adequada

na basiacutelica de Fano por outro lado a disposiccedilatildeo colossal das colunas garante uma

distribuiccedilatildeo eficiente e auctoritas pelo arroubo da dimensatildeo vertical e vista de seu

interior aleacutem do aspecto exterior de sua cobertura Assumindo a proximidade

conceitual entre os termos dignitas e auctoritas que ocorrem respectivamente no iniacutecio

e no final da descriccedilatildeo da basiacutelica de Fano123 fica evidente a associaccedilatildeo estabelecida

entre as comensurabilidades dadas sobretudo pelas colunas elevadas e a auctoritas

proporcionada agrave obra

121 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre V (V 1 10) p 7 Traduccedilatildeo ldquoassim a disposiccedilatildeo exterior da

cobertura em duas aacuteguas e a altura do interior da nave central garantem uma vista venustardquo 122 Ibid (V 1 6) p 5 ldquonon minus summam dignitatem et uenustatem possunt habere comparationes basilicarum

quo genere Coloniae Iuliae Fanestri collocaui curauique faciendam cuius proportiones et symmetriae sic sunt

constitutaerdquo 123 Cf n 120 e n 122 supra

58

133 Auctoritas no De Architectura

No prefaacutecio ao Livro Seacutetimo satildeo apresentadas quatro edificaccedilotildees que se

destacam pelo emprego do maacutermore ornando suas disposiccedilotildees124 Dentre elas

Vitruacutevio fala da cela de Ceres e Proseacuterpina feita por Ictino em Elecircusis125 de prodigiosa

magnitude mas sem colunas no seu exterior e que posteriormente acaba recebendo

esse acreacutescimo pelo arquiteto Filo126 quando Demeacutetrio de Falero exercia o poder em

Atenas ldquotendo construiacutedo colunas diante do templo na sua parte frontal Filo tornou-

o prostilo assim com a aumento do vestiacutebulo acrescentou um alargamento da aacuterea

aos ingressantes e suma autoridade agrave obrardquo127 Relacionada ao emprego das colunas a

auctoritas eacute afirmada nessa passagem pelo incremento da obra que recebe um

elemento construtivo exterior e ascende em imponecircncia A cela jaacute era apresentada

como grandiosa (cellam immani magnitudine) mas a suma autoridade (summam

auctoritatem) adveacutem aqui do acreacutescimo ndash aucto uestibulo A dilataccedilatildeo exterior

proporcionada pelas colunas que transformaram a cela em templo prostilo eacute o que

eleva o prestiacutegio garantindo auctoritas acima mesmo do que o maacutermore fizera

A promessa de auctoritas anunciada desde o primeiro prefaacutecio mostra-se

enredada na variedade prevista pela preceptiva e que se ancora no conceito de decor

Cada edifiacutecio deve portanto ajustar-se ao papel que lhe cabe na esfera puacuteblica ou

124 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre VII (VII pref 16) p 8 ldquonam quattuor locis sunt aedium sacrarum

marmoreis operibus ornatae dispositionesrdquo Traduccedilatildeo ldquocom efeito em quatro lugares as disposiccedilotildees dos

edifiacutecios sagrados satildeo ornadas com obras em maacutermorerdquo 125 Ibid (VII pref 16) p 9 ldquoEleusine Cereris et Proserpinae cellam immani magnitududine Ictinos dorico more

sine exterioribus columnis ad laxamentum usus sacrificiorum pertexitrdquo Traduccedilatildeo ldquoIctino completou em

Elecircusis a cela de Ceres e Proseacuterpina de prodigiosa magnitude segundo o modo doacuterico sem colunas

exteriores para o uso sacrificial nessa aacuterea de alargamentordquo 126 Trata-se do mesmo arquiteto mencionado por Ciacutecero no De Oratore cf supra cf De Oratore (I 62)

Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre VII (VII pref 12) p 6 ldquoPhilo de aedium sacrarum symmetriis et de

armamentario quod fuerat Piraei porturdquo Traduccedilatildeo ldquoFilo [publicou um volume] sobre as symmetriae dos

templos sagrados e do arsenal que ficava no porto do Pireurdquo 127 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre VII (VII pref 17) p 9 ldquoPhilo ante templum in fronte columnis

constitutis prostylon fecit ita aucto uestibulo laxamentum initiantibus operique summam adiecit auctoritatemrdquo

59

privada pautando-se ainda pelas noccedilotildees que fundamentam a erudiccedilatildeo do arquiteto

convenientemente administradas agraves diversas situaccedilotildees previstas O ponto alto da

prescritiva edificatoacuteria se encontra no Livro Terceiro e o exemplo por excelecircncia eacute o

templo eustilo pseudodiacuteptero por suas comensurabilidades e aspectus proporcionado

pelo pteroma Do Livro Seacutetimo se depreende que o vestiacutebulo adicionado por Filo agrave cela

de Ceres e Proseacuterpina engrandece-a com as colunas implantadas conferindo-lhe suma

auctoritas tal como fazem as dimensotildees prodigiosas das colunas da basiacutelica de Fano

apresentada no Livro Quinto como portadora de proporccedilotildees e symmetriae capazes de

lhe assegurar dignidade venustidade e auctoritas

Logo tem-se que as disciplinae rationes preditas por Vitruacutevio no primeiro

exoacuterdio passam necessariamente pela observacircncia da disposiccedilatildeo dos elementos

construtivos enquanto suportes riacutetmicos regulados pelas comensurabilidades entre

suas partes Ora a composiccedilatildeo das obras exemplares fundamenta-se na symmetria que

eacute definida como ldquoo acordo conveniente dos membros da proacutepria obra entre si e a

correlaccedilatildeo de uma determinada parte dentre as partes separadas com a vista do

conjunto da figura (uniuersae figurae speciem)rdquo128 Vitruacutevio relaciona symmetria e

eurythmia ao afirmar que a qualidade eurriacutetmica estaacute presente na comensurabilidade

entre as partes do corpo ndash como o cocircvado o peacute o palmo e o diacutegito ndash do mesmo modo

que na realizaccedilatildeo das obras E completa que nos templos a symmetria eacute obtida em

primeiro lugar a partir da espessura das colunas Estas se portam como os elementos

balizadores da qualidade eurriacutetmica da obra pois para Vitruacutevio eurythmia ldquoeacute a vista

128 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre I (I 2 4) p 16 ldquoItem symmetria est ex ipsius operis membris

conueniens consensus ex partibusque separatis ad uniuersae figurae speciem ratae partis responsus Vti in hominis

corpore e cubito pede palmo digito ceterisque particulis symmetros est eurythmiae qualitas sic est in operum

perfectionibus Et primum in aedibus sacris aut e columnarum crassitudinibus aut triglypho aut etiam embatererdquo

traduccedilatildeo ldquopor sua vez symmetria eacute o acordo conveniente dos membros da proacutepria obra entre si e a

correlaccedilatildeo de uma determinada parte dentre as partes separadas com a vista do conjunto da figura Do

mesmo modo que no corpo do homem ndash desde o cocircvado o peacute o palmo o diacutegito e outras partes ndash a

comensurabilidade eacute uma qualidade eurriacutetmica assim ocorre na realizaccedilatildeo das obras E primeiro nos

templos sagrados ou a partir das espessuras das colunas ou do triacuteglifo ou ainda do embaterrdquo Maciel

afirma que embater eacute ldquouma palavra de difiacutecil interpretaccedilatildeordquo mas ldquoem termos gerais segundo as proacuteprias

palavras de Vitruacutevio (4 3 3) era o nome dado ao moacutedulo do templo doacutericordquo (Maciel M J in Vitruacutevio

ldquoTratado de Arquiteturardquo n 82 p 76)

60

venusta e o aspecto comensurado nas composiccedilotildees dos membrosrdquo129 e eacute explicada pela

comensuraccedilatildeo entre suas dimensotildees isto eacute altura largura e profundidade

Da circularidade entre os conceitos de symmetria e de eurythmia em que cada

termo aparece na definiccedilatildeo do outro pode-se extrair como ponto comum o campo em

torno do termo e da noccedilatildeo de species a uenusta species que constitui a eurythmia e a

relaccedilatildeo ad uniuersae figurae speciem que caracteriza a symmetria Decor a definiccedilatildeo

apresentada na sequecircncia tambeacutem se insere no territoacuterio semacircntico das noccedilotildees ligadas

agrave visatildeo (como species) pela referecircncia ao aspectus Ao mesmo tempo decor nos reenvia

ao conceito de auctoritas ldquodecor eacute o aspecto irrepreensiacutevel das obras compostas com

autoridade a partir das coisas aprovadasrdquo130 Os edifiacutecios que se potildeem de acordo com

o princiacutepio de decor reproduzem as determinaccedilotildees do costume tornando visiacutevel a

conformaccedilatildeo conveniente aos usos que procura autoridade seja do templo adequado

ao caraacuteter de cada deus seja agrave magnificecircncia do proprietaacuterio seja ao clima

Vitruacutevio assevera no primeiro prefaacutecio que a potecircncia de Roma pode ser

engrandecida pela autoridade das edificaccedilotildees puacuteblicas Revela com isso uma

dimensatildeo do conceito de auctoritas voltado aos edifiacutecios Inevitavelmente a noccedilatildeo

passa tambeacutem a orbitar a figura do arquiteto que se quer fazer autorizado pelo uso da

doutrina Emerge entatildeo outro aspecto menos visiacutevel mas natildeo menos fundamental

do conceito de auctoritas associado agrave proacutepria preceptiva e a seu auctor Vitruacutevio

sustenta que os edifiacutecios puacuteblicos e privados constituiratildeo a memoacuteria deixada aos

poacutesteros como marcas da grandeza dos feitos do Imperator Caesar E ao ecircxito dessa

empreitada eacute que oferece tais precisas prescriccedilotildees (praescriptiones terminatas) para que

o Imperator possa ter conhecimento sobre a qualidade das obras feitas e das que

haveratildeo de aparecer Por meio de seu escrito Vitruacutevio promete expor todos os

129 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre I (I 2 3) p 15-16 ldquoeurythmia est uenusta species commodusque in

compositionibus membrorum aspectus Haec efficitur cum membra operis conuenientia sunt altitudinis ad

latitudinem latitudinis ad longitudinem et ad summam omnia respondent suae symmetriaerdquo Traduccedilatildeo

ldquoeurythmia eacute a vista venusta e o aspecto comensurado nas composiccedilotildees dos membros Ela se faz quando

a conveniecircncia dos membros da obra ocorre da altura para a largura da largura para o comprimento e

quando suas comensurabilidades (symmetriae) correspondem ao conjunto de todas as coisasrdquo 130 Ibid (I 2 5) p16 ldquodecor autem est emendatus operis aspectus probatis rebus conpositi cum auctoritaterdquo

61

conhecimentos relativos agrave arquitetura ldquonamque his uoluminibus aperui omnes disciplinae

rationesrdquo131 E a amplificaccedilatildeo na frase ndash a totalidade dos saberes relativos agrave arquitetura

ndash que conclui o proecircmio constitui o horizonte que leva Vitruacutevio a configurar os Dez

Volumes procurando abarcar o conjunto de instruccedilotildees necessaacuterias ao arquiteto em sua

vasta abrangecircncia isto eacute desde a aedificatio ateacute a machinatio passando pela gnomonice

e pelas questotildees de hidraacuteulica

A sobreposiccedilatildeo de significaccedilotildees natildeo deve nos impedir de identificar no corpus

vitruviano as direccedilotildees diversas relativamente ao termo auctoritas presentes na busca

da edificaccedilatildeo louvaacutevel do arquiteto completo e do corpus disciplinar que aspira agrave

excelecircncia O De Architectura toma parte num sistema de escrita e mobiliza dispositivos

similares aos presentes na Retoacuterica a Herecircnio e em Ciacutecero Lanccedila matildeo portanto nesse

domiacutenio de estrateacutegias codificadas para legitimar a doutrina e seu auctor No prefaacutecio

ao Livro IX Vitruacutevio louva o vigor florescente das obras de Pitaacutegoras Demoacutecrito

Platatildeo e Aristoacuteteles132 entre ldquooutros saacutebiosrdquo (ceterorumque sapientium) indicando nesse

momento que seu interesse se endereccedila menos a algum ensinamento especiacutefico

transmitido por esses grandes pensadores do que agrave perenidade de seus legados A

evocaccedilatildeo desses autores reclama autoridade ao De Architectura endereccedilado natildeo

apenas aos construtores ldquoquanto agraves potencialidades da arte e agraves raciocinaccedilotildees que lhe

satildeo proacuteprias prometo segundo espero distinguir-me sem duacutevida com maacutexima

autoridade por meio desses volumes natildeo somente aos que constroem mas a todos os

131 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre I (I pref 3) p 3 Traduccedilatildeo ldquopois a partir destes volumes expus

todas as regras da disciplinardquo 132 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre IX (IX pref 2) p 3 ldquoPythagorae uero praecepta Democriti Platonis

Aristotelis ceterorumque sapientium cotidiana perpetuis industriis culta non solum suis ciuibus sed etiam

omnibus gentibus recentes et floridos edunt fructusrdquo Traduccedilatildeo ldquoos preceitos de Pitaacutegoras de Demoacutecrito

de Platatildeo de Aristoacuteteles e de outros saacutebios por meio de uma aplicaccedilatildeo ininterrupta cultivada natildeo

apenas para seus concidadatildeos mas ainda para todas as gentes produzem frutos frescos e florescentesrdquo

Acerca dessa passagem Callebat escreve ldquoquando Vitruacutevio faz menccedilatildeo no prefaacutecio ao Livro IX aos

ensinamentos transmitidos por Pitaacutegoras Demoacutecrito Platatildeo Aristoacuteteles a cauccedilatildeo proposta interessa

certamente menos agrave contribuiccedilatildeo desses saacutebios e filoacutesofos a tal ou tal disciplina particular do que ao

estabelecimento de um campo fundamental de referecircncia os componentes estruturais de um modelo

universalmente vaacutelido encontrando no escrito sua plena significaccedilatildeordquo (Callebat L ldquoLa notion

drsquoAuctoritas dans le De Architectura de Vitruverdquo p 117)

62

saacutebiosrdquo133 A auctoritas da preceptiva se confirma todavia quando posta agrave prova pelo

arquiteto consumando-se na edificaccedilatildeo engrandecida pelas regras da arte

133 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre I (I 1 18) p 14 ldquode artis uero potestate quaeque insunt in ea

ratiocinationes polliceor uti spero his uoluminibus non modo aedificantibus sed etiam omnibus sapientibus cum

maxima auctoritate me sine dubio praestaturumrdquo

Capiacutetulo 2

RAZOtildeES DO CORPO

64

Figura 1 homo bene figuratus inserido no ciacuterculo e no quadrado segundo interpretaccedilatildeo

de Leonardo Da Vinci Fonte Wittkower R ldquoArchitectural Principles in the age of Humanismrdquo p 23

65

2 RAZOtildeES DO CORPO

Evocando o Imperator no exoacuterdio ao Livro Terceiro Vitruacutevio resume os passos

empreendidos ateacute entatildeo no De Architectura e reaviva a atenccedilatildeo do leitor trazendo agrave

lembranccedila que o Primeiro Volume tratou de modo amplo das potencialidades

(uirtutes) da arte de construir e das instruccedilotildees que engrandecem o arquiteto

Rememora tambeacutem que laacute foi delimitado o campo da arquitetura composto de

disciplinas que lhe formam as partes tendo sido apresentadas as definiccedilotildees Em

seguida expocircs-se o que eacute de primeira necessidade ressalta o autor a saber o modo

pelo qual se elegem os lugares salubres onde seratildeo estabelecidos os recintos urbanos

aleacutem das preocupaccedilotildees com as direccedilotildees dos ventos e com a distribuiccedilatildeo correta das

vias O Segundo Volume comenta abordou os materiais de construccedilatildeo e suas

propriedades em vista dos empregos mais vantajosos (utilitates) Finalmente o Volume

Terceiro que se abre versaraacute sobre os templos sagrados dos deuses imortais cujas

minuciosas prescriccedilotildees seratildeo expostas tal como conveacutem (uti oporteat) assevera

Vitruacutevio

Aacutepice da prescritiva edificatoacuteria o Livro dos Templos oferece vasta coleccedilatildeo de

recursos listados sobretudo de relaccedilotildees meacutetricas O ponto de partida se erige em torno

agrave noccedilatildeo de symmetria que constitui o substrato sobre o qual se assenta1 a excelecircncia na

1 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III (III 1 1) p 5-6 ldquoAedium compositio constat ex symmetria cuius

rationem diligentissime architecti tenere debentrdquo Traduccedilatildeo ldquoa composiccedilatildeo dos templos assenta na

comensurabilidade (symmetria) cuja regulaccedilatildeo os arquitetos devem observar com a maacutexima diligecircnciardquo

66

composiccedilatildeo dos edifiacutecios sagrados e por extensatildeo de toda aedificatio2 A symmetria

nasce da proporccedilatildeo que consiste na relaccedilatildeo comensuraacutevel estabelecida entre as partes

da obra e o todo a partir do moacutedulo de seus membros3 Ademais conforme instrui o

romano a composiccedilatildeo do templo natildeo pode prescindir das precisas relaccedilotildees meacutetricas

tais quais aquelas existentes entre os membros de um homem bem configurado4 pela

natureza

assim a natureza compocircs o corpo do homem tal que o rosto desde o queixo ateacute o alto da

testa e a base das raiacutezes dos cabelos tivesse a sua deacutecima parte do mesmo modo que a

matildeo estendida desde a articulaccedilatildeo do punho ateacute a extremidade do dedo meacutedio tivesse o

mesmo tanto a cabeccedila desde o queixo ateacute a extremidade superior a oitava com a base da

cerviz desde o topo do peito ateacute a base das raiacutezes dos cabelos a sexta parte do meio do

peito agrave extremidade superior da cabeccedila a quarta Quanto agrave altura do proacuteprio rosto da base

do queixo agrave base das narinas tem-se a sua terccedila parte o nariz desde a base das narinas ateacute

o meio das sombrancelhas o mesmo tanto do meio das sombrancelhas ateacute a base das raiacutezes

dos cabelos tem-se a testa tambeacutem com a terccedila parte O peacute por sua vez tem a sexta parte

da altura do corpo o antebraccedilo tem a quarta o peito igualmente a quarta 5

2 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III (III 1 4) p 7-8 ldquoigitur cum in omnibus operibus ordines traderent

maxime in aedibus deorum ltquod eorumgt operum et laudes et culpae aeternae solent permanererdquo Traduccedilatildeo

ldquoentatildeo como [os antigos] transmitissem as ordens para todos os gecircneros de obras era sobretudo aos

templos dos deuses em que os meacuteritos e as faltas costumam perdurar eternamenterdquo 3 Ibid (III 1 1) p 5-6 ldquoEa autem paritur a proportione quae graece ἀναλογία dicitur Proportio est ratae

partis membrorum in omni opere totoque commodulatio ex qua ratio efficitur symmetriarumrdquo Traduccedilatildeo ldquoela

[comensurabilidade ou symmetria] eacute engendrada pela proporccedilatildeo que os gregos dizem ἀναλογία

Proporccedilatildeo eacute a comodulaccedilatildeo de uma parte determinada dos membros para com tudo na obra e o todo a

partir do que se faz a regulaccedilatildeo das comensurabilidades (symmetriarum)rdquo 4 Ibid (III 1 1) p 6 ldquoNamque non potest aedis ulla sine symmetria atque proportione rationem habere

compositionis nisi uti [ad] hominis bene figurati membrorum habuerit exactam rationemrdquo Traduccedilatildeo ldquopois

nenhum templo pode ter uma composiccedilatildeo regulada sem comensurabilidade (symmetria) e proporccedilatildeo e

a natildeo ser que tenha exata regulaccedilatildeo tal qual aquela dos membros de um homem bem configuradordquo 5 Ibid (III 1 2) p 6 ldquoCorpus enim hominis ita natura composuit uti os capitis a mento ad frontem summan et

radices imas capilli esset decimae partis item manus pansa ab articulo ad extremum medium digitum tantundem

caput a mento ad summum uerticem octauae cum ceruicibus imis ab summo pectore ad imas radices capillorum

sextae lta medio pectoregt ad summum uerticem quartae Ipsius autem oris altitudinis tertia est pars ab imo mento

ad imas nares nasum ab imis naribus ad finem medium superciliorum tantundem ab ea fine imas radices capilli

frons efficitur item tertiae partis Pes uero altitudinis corporis sextae cubitus quartae pectus item quartaerdquo

67

21 Corpus Hominis et Mensurarum Rationes

Natildeo obstante o elenco numeacuterico-proporcional exposto Vitruacutevio afirma que os

demais membros do corpo tambeacutem guardam entre si proporccedilotildees comensuraacuteveis

Delas fizeram uso os antigos pintores e reconhecidos estatuaacuterios reservando para si

os mais elevados louvores sem fim6 O autor-arquiteto natildeo nomeia na passagem

qualquer um desses pictores e statuarii que teriam dominado o uso do sistema das

symmetriae Entretanto investigaccedilotildees mais recentes potildeem-se a perscrutar tais veredas

propondo hipoacuteteses Nessa direccedilatildeo o estudo de John Raven ldquoPolyclitus and

pythagoreanismrdquo procurou demonstrar a proximidade do excerto vitruviano a outro

encontrado em Galeno reportando a afirmaccedilatildeo do filoacutesofo Crisipo de que ldquoa beleza

reside nas proporccedilotildees do corpordquo7 associada agrave doutrina de que ldquoa sauacutede reside nas

proporccedilotildees dos elementos corporaisrdquo8

A referecircncia ao Cacircnone de Policleto eacute expliacutecita na obra De Placitis Hippocratis et

Platonis de Galeno9 a partir da qual se lecirc que para Crisipo a beleza (κάλλος) natildeo consta

6 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III (III 1 2) p 6-7 ldquoreliqua quoque membra suas habent commensus

proportiones quibus etiam antiqui pictores et statuarii nobiles usi magnas et infinitas laudes sunt adsecutirdquo

Traduccedilatildeo ldquoseus demais membros possuem igualmente comensuraccedilotildees proporcionais a partir do uso

das quais ainda os antigos pintores e ceacutelebres estatuaacuterios alcanccedilaram elevados e infinitos elogiosrdquo 7 Raven J E ldquoPolyclitus and pythagoreanismrdquo p 150 ldquobeauty lies in the proportions of the bodyrdquo 8 Ibid p 150 ldquohealth lies in the proportions of the bodily elementsrdquo 9 Galen ldquoΠερὶ τῶν καθrsquoΙπποκράτην καὶ Πλάτωνα (43 vol V p 448 Kuumlhn)rdquo apud Raven J E op

cit p 149-150 τὸ δὲ κάλλος οὐκ ἐν τῇ τῶν στοιχείων ἀλλrsquoἐν τῇ τῶν μορίων συμμετρίᾳ συνίστασθαι

νομίζει δακτύλου πρὸς δάκτυλον δηλονότι καὶ συμπάντων αὐτῶν πρός τε μετακάρπιον καὶ

καρπὸν καὶ τούτων πρὸς πῆχυν καὶ πήχεως πρὸς βραχίονα καὶ πάντων πρὸς πάντα καθάπερ ἐν

τῷ Πολυκλείτου Κανόνι γέγραπται πάσας γὰρ ἐκδιδάξας ἡμᾶς ἐν ἐκείνῳ τῷ συγγράμματι τὰς

συμμετρίας τοῦ σώματος ὁ Πολύκλειτος ἔργῳ τὸν λόγον ἐβεβαίωσε δημιουργήσας ἀνδριάντα κατὰ

τὰ τοῦ λόγου προστάγματα καὶ καλέσας δὴ καὶ αὐτὸν τὸν ἀνδριάντα καθάπερ καὶ τὸ σύγγραμμα

Κανόνα Traduccedilatildeo ldquoa beleza natildeo reside na comensurabilidade (συμμετρία) de seus elementos mas na

comensurabilidade (συμμετρία) de suas partes tais como do dedo ao dedo e deste conjunto ao

metacarpo e ao carpo de todos esses ao antebraccedilo do antebraccedilo ao braccedilo de fato de todas as coisas

com todas as coisas como estaacute estabelecido no Cacircnone de Policleto Pois tendo ensinado todas as

comensurabilidades (τὰς συμμετρίας) do corpo Policleto embasou seu escrito (σύγγραμμα) em uma

obra tendo feito uma estaacutetua de homem segundo os princiacutepios preceituados e tendo chamado a proacutepria

estaacutetua como o escrito (σύγγραμμα) de Cacircnonerdquo

68

na symmetria (συμμετρία) dos elementos (στοιχείων) mas na symmetria das partes

(μορίων) com outras partes do dedo (δακτύλου) com relaccedilatildeo ao dedo (δάκτυλον)

dos dedos com o metacarpo (μετακάρπιον) e com o carpo (καρπόν) destes com o

antebraccedilo (πῆχυν) do antebraccedilo com o braccedilo (βραχίονα) e de todas essas partes com

o todo (καί πάντων πρὸς πάντα) As coincidecircncias entre os textos de Vitruacutevio e

Galeno e de ambos com outros fragmentos reminiscentes de autores vinculados agraves

doutrinas pitagoacutericas leva Raven a elaborar a hipoacutetese de uma fonte pitagoacuterica

comum ndash possivelmente os escritos atribuiacutedos a Filolau ndash entre o arquiteto e o meacutedico

transmitindo o Cacircnone de Policleto10

A presenccedila desse Cacircnone em obras diacutespares tratando de arquitetura e

medicina revelaria um campo de interesse que ultrapassa a teacutecnica de plasmar figuras

uma vez que a trasmissatildeo de preceitos de estatuaacuteria natildeo parece fazer parte do escopo

de Galeno tampouco de Vitruacutevio11 Todavia os excertos atribuiacutedos a Policleto ocupam

posiccedilotildees natildeo negligenciaacuteveis nos escritos que os transmitem o que convida a

consideraccedilatildeo mais detida

O Cacircnone de Policleto costuma ser interpretado como portador de um rigoroso

referencial meacutetrico e segundo se lecirc em Galeno diz respeito tanto a um escrito como

a uma estaacutetua De acordo com Eugenio La Rocca o Cacircnone era ldquoum tratado que

procurava fornecer um sistema proporcional de tal modo a criar uma relaccedilatildeo entre as

partes do corpo humano baseada em nuacutemerosrdquo12 e o Doriacuteforo seria a estaacutetua de

10 Raven J E ldquoPolyclitus and pythagoreanismrdquo p 151 11 Pierre Gros afirma que seria um erro tratar a ldquomontage proporcionnelrdquo vitruviana como ensinamento

de escultura cf Gros P ldquoLa geacuteomeacutetrie platonicienne de la notice vitruvienne sur lrsquohomme parfait (De

Architectura III 1 2-3)rdquo n 13 p 23 12 La Rocca E ldquoPolicleto e la sua escuolardquo p 522 Para La Rocca o Doriacuteforo eacute ainda a ldquochave para se

compreender e reconstruir a obra de Policletordquo por se tratar de um trabalho da maturidade do escultor

argivo ldquoainda profundamente ligado agrave matriz artiacutestica peloponeacutesicardquo e anterior agrave sua permanecircncia em

Atenas que deixaria rastros em sua obra (ibid p 527)

69

Policleto identificada ao Cacircnone13 Aleacutem das coacutepias restantes do Doriacuteforo14 expondo

os preceitos de Policleto haacute ainda um registro literaacuterio que sugere a associaccedilatildeo dessa

estaacutetua ao Cacircnone no Brutus de Ciacutecero pela afirmaccedilatildeo de que Lisipo considerava sua

obra guia o Doriacuteforo de Policleto15 Pliacutenio o Velho autoridade para os poacutesteros no

seacuteculo I dC noticia o Doriacuteforo como obra de Policleto e em seguida fala da existecircncia

do Cacircnone16 contudo a identificaccedilatildeo entre o Doriacuteforo e o Cacircnone natildeo eacute clara na notiacutecia

fornecida17

De fato em Galeno lecirc-se que a seacuterie de correlaccedilotildees proporcionais entre as partes

do corpo ndash do dedo com o dedo deste com o metacarpo do metacarpo com o carpo

deste com o antebraccedilo do antebraccedilo com o braccedilo e assim por diante com todo o corpo

13 La Rocca identifica o Cacircnone de Policleto ao Doriacuteforo alegando inicialmente o ldquoconsenso da criacuteticardquo

e sem maiores esclarecimentos ldquoGaleno parla di una statua di Policleto detta Canone realizzata

lsquosecondo i dettami del ragionamento (scil dello scultore)rsquo La critica egrave concorde nel ritenere che tale

statua sia identificabile con il Doriforo una delle opere piugrave celebri dellrsquoantichitagraverdquo (La Rocca E ldquoPolicleto

e la sua escuolardquo p 524) Traduccedilatildeo ldquoGaleno fala de uma estaacutetua de Policleto dita Cacircnone realizada

lsquosegundo os ditames do raciociacutenio (scil do escultor)rsquo A criacutetica eacute concorde ao afirmar que tal estaacutetua

possa ser identificada com o Doriacuteforo uma das obras mais ceacutelebres da antiguidaderdquo A partir do

fragmento atribuiacutedo a Policleto e transmitido por Galeno Raven admite apenas que o Cacircnone diria

respeito tambeacutem a um escrito ldquoit is interesting to learn that Polyclitus not only practised his Canon in

his art but also expounded it in writingrdquo (Raven J E ldquoPolyclitus and pythagoreanismrdquo p 150)

Traduccedilatildeo ldquoeacute interessante notar que Policleto natildeo apenas praticou seu Cacircnone em sua arte mas tambeacutem

o expocircs em um escritordquo 14 As principais coacutepias restantes estatildeo no Moseo Nazionale di Napoli na Galeria Uffizi de Florenccedila e no

Staatliche Museen de Berlim cf La Rocca E op cit p 524 15 La Rocca E ldquoPolicleto e la sua escuolardquo p 524 Em latim Brutus 296 ldquout Polycliti Doryphorum

[magistrum fuisse] sibi Lysippus aiebatrdquo (Ciceacuteron ldquoBrutusrdquo 296 p 109) Traduccedilatildeo ldquode modo que Lisipo

alegava ter por mestre o Doriacuteforo de Policleto rdquo 16 Pline LrsquoAncien ldquoHistoire Naturellerdquo Livre XXXIV Texte eacutetabli et traduit par H Le Bonniec

commenteacute par H Gallet de Santerre et par H Le Bonniec Paris Les Belles Lettres 1953 [34 55-56] p

126-127 ldquoPolyclitus Sicyonius Hageladae discipulus diadumenum fecit molliter iuuenem centum talentis

nobilitatum idem et doryphorum uiriliter puerum Fecit et quem canona artifices uocant liniamenta artis ex eo

petentes ueluti a lege quadam solusque hominum artem ipsam fecisse artis opere iudicaturrdquo Traduccedilatildeo

ldquoPolicleto de Siciatildeo disciacutepulo de Ageladas fez um delicado jovem diaduacutemeno [portador do diadema]

valendo cem talentos do mesmo modo fez um viril rapaz doriacuteforo [portador da lanccedila] Fez tambeacutem o

que os artiacutefices chamam Cacircnone delimitando a arte a que recorrem como a uma lei Somente ele dentre

os homens fez com que toda a arte fosse julgada a partir de uma obrardquo 17 Cf Gros P In Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III n 6 p 64-65 Sobre um suposto erro de Pliacutenio

o Velho Henri Le Bonniec escreve ldquoo desdobramento do Doriacuteforo de Policleto em duas estaacutetuas dentre

as quais uma seria o famoso canon (sect55) eacute um erro que Pliacutenio pode ter cometido ele mesmo ou pode ter

encontrado em um de seus predecessoresrdquo (Le Bonniec H ldquoIntroductionrdquo in Pline LrsquoAncien

ldquoHistoire Naturellerdquo Livre XXXIV n 2 p 55)

70

ndash vincula-se agrave noccedilatildeo de τὸ κάλλος (toacute kaacutellos) de modo que para se alcanccedilar a beleza haacute

que se observar a συμμετρία (symmetriacutea) entre as partes que compotildeem o corpo Em

outras palavras τὸ κάλλος (toacute kaacutellos) reside na comensurabilidade18 dessas partes

Constata-se portanto nesse ponto especiacutefico mais uma convergecircncia entre o

extrato apreendido em Galeno e o De Architectura relativamente agrave centralidade do

conceito de symmetria O Livro Terceiro jaacute o distinguia em suas linhas iniciais ldquoa

composiccedilatildeo dos templos assenta na comensurabilidade (symmetria) cuja regulaccedilatildeo os

arquitetos devem observar com a maacutexima diligecircnciardquo19 O termo symmetria eacute frequente

nos sete primeiros livros que tratam da aedificatio e eacute mesmo definido como uma das

tarefas do arquiteto no Livro I20 Junto agrave proportio e ratio symmetria ocupa segundo os

dizeres de Pierre Gros ldquoo centro das preocupaccedilotildees do autor [] as quais organizam

efetivamente a maior parte dos desenvolvimentos [desde as primeiras linhas de III 1]

ateacute o fim do livro IVrdquo21 O caraacuteter central da symmetria eacute ressaltado pela ecircnfase obtida

com a associaccedilatildeo agrave noccedilatildeo de diligentia expressa no superlativo (diligentissime)

retomando o grego ἀκρίβεια conforme nos faz notar o estudioso francecircs mas

principalmente como se lecirc em Galeno (ἀκριβῶς)22 A ideia de cuidado e atenccedilatildeo

18 Comensurabilidade verte o grupo semacircntico de termos latinos cujos sufixos derivam ou se aproximam

de modus como commodus e commoditas Estes traduzem com variaccedilotildees de nuances o termo grego

συμμετρία (symmetria) encerrando μέτρον Modus seria o equivalente de μέτρον cf Gros P In

Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III n 2 p 56-57 Cf ainda Gaffiot ldquoDictionnaire Latin Franccedilaisrdquo p

353 354 19 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III (III 1 1) p 5ldquoAedium compositio constat ex symmetria cuius

rationem diligentissime architecti tenere debentrdquo 20 Vitruacutevio (I 2 4) ldquodo mesmo modo a symmetria eacute o acordo conveniente dos membros da proacutepria obra

entre si e a correlaccedilatildeo de uma determinada parte (ratae partis) dentre as partes separadas com a vista

do conjunto da figura (uniuersae figurae speciem)rdquo Em latim ldquoItem symmetria est ex ipsius operis membris

conueniens consensus ex partibusque separatis ad universae figurae speciem ratae partis responsusrdquo (Vitruve

ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre I p 16) 21 Gros P ldquoIntroductionrdquo in Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III p VII 22 Galen ldquoΠερὶ τῶν καθrsquoΙπποκράτην καὶ Πλάτωνα (43 vol V p 448 Kuumlhn)rdquo apud Raven J E

ldquoPolyclitus and pythagoreanismrdquo p 149 grifo nosso ldquoἐπὶ μὲν γὰρ τοῦ σώματος ἀκριβῶς αὐτὰ

διωρίσατοrdquo Cf ldquoAnexo 3rdquo ao fim deste trabalho

71

escrupulosa aparecem ainda em outros autores como Quintiliano23 e Pliacutenio o Velho24

tambeacutem em passagens que fazem referecircncia agrave Policleto25

O conceito de συμμετρία (symmetriacutea) por outro lado jaacute estava presente em

escritos gregos anteriores mesmo em Platatildeo Lecirc-se pois no Filebo26 que o primeiro

dos bens eacute a medida (μέτρον) o segundo a symmetria (συμμετρία) vindo em terceiro

lugar a inteligecircncia e a sabedoria (νοῦς καὶ φρόνησις) No Poliacutetico Platatildeo recorre agraves

artes (τὰς τέχνας) para mostrar que tambeacutem na poliacutetica a ausecircncia de medida (τὸ

23 Quintilien ldquoInstitutio Oratoriardquo (XII 10 7) p 116 ldquodiligentia ac decor in Polyclito supra ceteros cui

quamquam a plerisque tribuitur palma tamen ne nihil detrahatur deesse pondus putantrdquo Traduccedilatildeo ldquoa

diligecircncia e a adequaccedilatildeo em Policleto ultrapassava os demais e embora a maioria lhe atribuiacutesse gloacuteria

afirmavam que lhe faltava gravidade para natildeo parecer que natildeo carecia de nadardquo 24 Trata-se de uma comparaccedilatildeo em que Pliacutenio o Velho atribui ao escultor Miacuteron mais diligecircncia no uso

da symmetria do que Policleto ldquoin symmetria diligentiorrdquo (Pline LrsquoAncien XXXIV 58 p 128) 25 Gros P in Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III n 2 p 56 26 Plato Philebus (66a-b) ed John Burnet Oxford University Press 1903

Σωκράτης πάντῃ δὴ φήσεις ὦ Πρώταρχε ὑπό τε ἀγγέλων πέμπων καὶ παροῦσι φράζων ὡς ἡδονὴ

κτῆμα οὐκ ἔστι πρῶτον οὐδ᾽ αὖ δεύτερον ἀλλὰ πρῶτον μέν πῃ περὶ μέτρον καὶ τὸ μέτριον καὶ

καίριον καὶ πάντα ὁπόσα χρὴ τοιαῦτα νομίζειν τὴν daggerἀίδιον ᾑρῆσθαι

Πρώταρχος φαίνεται γοῦν ἐκ τῶν νῦν λεγομένων

Σωκράτης δεύτερον μὴν περὶ τὸ σύμμετρον καὶ καλὸν καὶ τὸ τέλεον καὶ ἱκανὸν καὶ πάνθ᾽ ὁπόσα

τῆς γενεᾶς αὖ ταύτης ἐστίν

Πρώταρχος ἔοικε γοῦν

Σωκράτης τὸ τοίνυν τρίτον ὡς ἡ ἐμὴ μαντεία νοῦν καὶ φρόνησιν τιθεὶς οὐκ ἂν μέγα τι τῆς

ἀληθείας παρεξέλθοις

Em traduccedilatildeo para a liacutengua portuguesa de Carlos Alberto Nunes

Soacutecrates - Entatildeo Protarco proclamaraacutes a todos por meio de mensageiros ou de viva voz para os

presentes que o prazer natildeo eacute o primeiro dos bens nem mesmo o segundo mas que o primeiro eacute a

medida e o que for moderado e oportuno e o mais a que possamos atribuir qualidades semelhantes

concedidas pela natureza

Protarco - Eacute o que seraacute liacutecito concluir do que dissemos antes

Soacutecrates - O segundo bem eacute a proporccedilatildeo o belo o perfeito o suficiente e tudo o que faz parte da mesma

famiacutelia

Protarco - Pelo menos assim parece

Soacutecrates - E agora sendo eu bom adivinho se atribuiacuteres o terceiro lugar agrave inteligecircncia e agrave sabedoria natildeo

te afastaraacutes muito da verdade

72

μέτρον) pode ser ruinosa sendo ela capaz de garantir tudo o que haacute de bom e de belo

nas obras27

O estudo de Raven ldquoPolyclitus and Pythagoreanismrdquo no entanto procurou

construir a hipoacutetese bem fundamentada ndash embora de difiacutecil comprovaccedilatildeo definitiva

segundo o proacuteprio autor ndash de que a presenccedila simultacircnea do Cacircnone de Policleto em

Galeno e em Vitruacutevio indicaria uma possiacutevel matriz comum ligada agraves doutrinas

pitagoacutericas No meacutedico grego dentre as duas proposiccedilotildees centrais ndash de que a beleza

reside nas proporccedilotildees das partes do corpo e de que a sauacutede reside nas proporccedilotildees dos

elementos do corpo ndash a segunda estaria muito proacutexima aos fragmentos de Alcmeacuteon

vinculado aos ciacuterculos pitagoacutericos28 ldquoesta visatildeo de sauacutede que consiste na correta

proporccedilatildeo dos elementos no corpo eacute precisamente a visatildeo de ἰσονομία originalmente

introduzida por Alcmeacuteonrdquo29 Como variante dessa visatildeo de ἰσονομία Raven aponta a

doutrina de Filolau para quem o corpo humano seria composto apenas do quente

embora imediatamente apoacutes o nascimento ocorreria uma ldquoharmonizaccedilatildeo do quente no

corpo com o frio do exterior imediatordquo30 sendo a morte o cessar desse processo

ao menos a teoria meacutedica de Filolau coincide com aquela descrita por Galeno Noacutes

encontramos de fato nessa passagem de Galeno a visatildeo de que a beleza reside nas

proporccedilotildees das partes do corpo conjugada com outra visatildeo que foi sustentada natildeo

apenas por Alcmeacuteon mas tambeacutem de uma forma variada por um distinto pitagoacuterico

contemporacircneo e associado ao proacuteprio Eurito de nome Filolau31

27 Platon ldquoLe politiquerdquo (284a-b) p 45 ldquoκαὶ τούτῳ δὴ τῷ τρόπῳ τὸ μέτρον σῴζουσαι πάντα ἀγαθὰ

καὶ καλὰ ἀπεργάζονταιrdquo Traduccedilatildeo ldquoe ao preservar a medida asseguram o bem e o belo de suas

obrasrdquo 28 Eacute o que se lecirc em Aristoacuteteles ldquoparece que tambeacutem Alcmeacuteon de Crotona pensava desse modo quer ele

tenha tomado essa doutrina dos pitagoacutericos quer estes a tenham tomado dele pois Alcmeacuteon se

destacou quando Pitaacutegoras jaacute era velho e professou uma doutrina muito semelhante agrave dos pitagoacutericosrdquo

(Aristoacuteteles ldquoMetafiacutesicardquo Vol II 986a 30 p 29) Em grego ldquoκαὶ Ἀλκμαίων ὁ Κροτωνιάτης ὑπολαβεῖν

καὶ ἤτοι οὗτος παρ᾽ ἐκείνων ἢ ἐκεῖνοι παρὰ τούτου παρέλαβον τὸν λόγον τοῦτον καὶ γὰρ ἐγένετο

τὴν ἡλικίαν Ἀλκμαίων [30] ἐπὶ γέροντι Πυθαγόρᾳ ἀπεφήνατο δὲ παραπλησίως τούτοιςrdquo (Aristotles

Metaphysics ed WD Ross Oxford Clarendon Press 1924) 29 Raven J E ldquoPolyclitus and pythagoreanismrdquo p 150 30 Ibid p 150 31 Ibid p 150 ldquo[] at least the medical theory of Philolaus coincides with that described by Galen We

find in fact in this passage from Galen the view that beauty lies in the proportions of the parts of the

73

A primeira proposiccedilatildeo de Galeno ndash de que a beleza reside nas proporccedilotildees das

partes do corpo ndash revela conformidade ao que se lecirc nos paraacutegrafos iniciais do Livro III

do De Architectura subsequentes ao prefaacutecio Raven sustenta ainda a correspondecircncia

entre o fragmento de Vitruacutevio e o Cacircnone de Policleto ldquohaacute uma longa passagem em

Vitruacutevio (312-7) cujo tema central eacute tatildeo semelhante ao Cacircnone de Policleto que muito

claramente deriva de laacuterdquo32 A continuaccedilatildeo do texto de Vitruacutevio traria ainda outros

pontos de contato com o pitagorismo diferentes daqueles presentes em Galeno

segundo Raven Trata-se da referecircncia agrave perfeiccedilatildeo do nuacutemero dez Decad ou τέλεος

(teacuteleos)

Acerca dos nuacutemeros perfeitos Vitruacutevio escreve

e tambeacutem [os antigos] retiraram dos membros do corpo humano o sistema de medidas

que parece necessaacuterio em todas as obras tal como o dedo o palmo o peacute o cocircvado que

distribuiacuteram com relaccedilatildeo a um nuacutemero perfeito que os gregos dizem τέλεος (teacuteleos) Os

antigos instituiacuteram esse nuacutemero perfeito que se diz dez33

Na importacircncia concedida ao nuacutemero dez ecoaria a reverecircncia que os

pitagoacutericos devotavam ao nuacutemero que consideravam perfeito conforme se lecirc em

Aristoacuteteles ldquocomo o nuacutemero dez parece ser perfeito e parece compreender em si toda

a realidade dos nuacutemeros eles afirmavam que os corpos que se movem no ceacuteu tambeacutem

deviam ser dezrdquo34

body coupled with another view that was held not only by Alcmaeon but also in a variant form by a

distinguished Pythagorean contemporary and associate of Eurytus himself namely Philolausrdquo 32 Raven J E ldquoPolyclitus and pythagoreanismrdquo p 151 ldquothere is a long passage from Vitruvius (312-

7) the central theme of which is something so very like the Canon of Polyclitus that it pretty clear derives

therefromrdquo 33 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III (III 1 5) p 8 ldquoNec minus mensurarum rationes quae in omnibus

operibus uidentur necessariae esse ex corporis membris collegerunt uti digitum palmum pedem cubitum et eas

distribuerunt in perfectum numerum quem Graeci τέλεον dicunt Perfectum autem antiqui instituerunt

numerum qui decem diciturrdquo 34 Aristoacuteteles ldquoMetafiacutesicardquo Vol II (986a 8) p 27 Em grego a partir da ediccedilatildeo de Ross de 1924 ldquoἐπειδὴ

τέλειον ἡ δεκὰς εἶναι δοκεῖ καὶ πᾶσαν περιειληφέναι τὴν τῶν ἀριθμῶν φύσιν καὶ τὰ φερόμενα

κατὰ τὸν οὐρανὸν δέκα μὲν εἶναί φασινrdquo

74

Agrave hipoacutetese de vinculaccedilatildeo do excerto de Vitruacutevio agrave doutrina pitagoacuterica Raven

apensa ainda um fragmento de Filolau35 evidenciando natildeo apenas a compartilhada

remissatildeo ao nuacutemero dez mas que a afirmaccedilatildeo vitruviana da necessidade da presenccedila

desse nuacutemero perfeito agraves obras (quae in omnibus operibus uidentur necessariae esse)

guardaria grande afinidade com a sentenccedila daquele pensador (ἐν τοῖς ἀνθροπικοῖς

ἔργοις καὶ λόγοις πᾶσι παντᾶ καὶ κατὰ τὰς δημιουργίας τὰς τεχνικὰς πάσας) Em

Vitruacutevio exclusivamente a reverecircncia ao nuacutemero dez36 soacute faria reforccedilar a sintonia ao

pitagorismo ldquoao contraacuterio da outra doutrina de Galeno com a qual o Cacircnone estaacute

associado a crenccedila na natureza perfeita da Decad foi ao menos por um longo periacuteodo

peculiar aos pitagoacutericosrdquo37 Pollitt compartilha essa posiccedilatildeo que propotildee aproximar o

registro de Vitruacutevio (III 1 5) ao ciacuterculo pitagoacuterico ldquoa uacuteltima sentenccedila nessa passagem

[perfectum autem antiqui instituerunt numerum qui decem dicitur] eacute claramente uma

referecircncia agrave Decad pitagoacutericardquo38

O que nos chegou das doutrinas ditas pitagoacutericas eacute bastante precaacuterio e

fragmentado em termos de documentos Os escritos de Aristoacuteteles constituem pois

uma das principais fontes acerca do pitagorismo No exame que empreende na

Metafiacutesica das doutrinas de predececessores lecirc-se que para os chamados pitagoacutericos

os princiacutepios matemaacuteticos eram tomados como o princiacutepio de todos os seres e os

nuacutemeros estariam presentes em todas as coisas

35 Raven J E ldquoPolyclitus and pythagoreanismrdquo p 151 Raven se refere ao excerto de Vitruacutevio ldquoquae in

omnibus operibus uidentur necessariae esserdquo (Vitr III 1 5) E ao fragmento de Filolau ldquoἴδοις δέκα οὐ μόνον

ἐν τοῖς δαιμονίοις καὶ θείοις πράγμασι τὰν τῶ ἀριθμῶ φύσιν καὶ τὰν δύναμιν ἰσχύουσαν ἀλλὰ καὶ

ἐν τοῖς ἀνθροπικοῖς ἔργοις καὶ λόγοις πᾶσι παντᾶ καὶ κατὰ τὰς δημιουργίας τὰς τεχνικὰς πάσας

καὶ κατὰ τὰν μουσικάνrdquo (Philolaus fr II ap Stob Ecl I I 3 apud Raven ldquoPolyclitus and

pythagoreanismrdquo p 151) 36 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III (III 1 5) p 8 ldquoperfectum autem antiqui instituerunt numerum

qui decem diciturrdquo 37 Raven J E ldquoPolyclitus and pythagoreanismrdquo p 151 ldquounlike the other from Galen the further

doctrine with which the Canon is coupled the belief in the perfect nature of the Decad is one that was

for a long time at least peculiar to the Pythagoreansrdquo 38 Pollitt ldquoThe ancient view of greek artrdquo p 19 ldquothe last sentence in this passage [perfectum autem antiqui

instituerunt numerum qui decem dicitur] is clearly a reference to the Pythagorean decadrdquo

75

eles [os pitagoacutericos] por primeiro se aplicaram agraves matemaacuteticas fazendo-as progredir e

nutridos por elas acreditaram que os princiacutepios delas eram os princiacutepios de todos os

seres E dado que nas matemaacuteticas os nuacutemeros satildeo por sua natureza os primeiros

princiacutepios e dado que justamente nos nuacutemeros mais do que no fogo e na terra e na

aacutegua eles achavam que viam muitas semelhanccedilas com as coisas que satildeo e que se geram

ndash por exemplo consideravam que determinada propriedade dos nuacutemeros era a justiccedila

outra a alma e o intelecto outra ainda o momento e o ponto oportuno e em poucas

palavras de modo semelhante para todas as outras coisas ndash e aleacutem disso por verem

que as notas e os acordes musicais consistiam em nuacutemeros e finalmente porque todas

as outras coisas em toda a realidade lhes pareciam feitas agrave imagem dos nuacutemeros e

porque os nuacutemeros tinham a primazia na totalidade da realidade pensaram que os

elementos dos nuacutemeros eram elementos de todas as coisas e que a totalidade do ceacuteu

era harmonia e nuacutemero39

Vemos que ateacute mesmo a justiccedila a alma e o intelecto satildeo tidas como

propriedades dos nuacutemeros para os assim chamados pitagoacutericos Eacute significativa

ademais a menccedilatildeo agraves notas e acordes musicais como ponto evidente de acesso agraves

realidades numeacutericas isto eacute as proporccedilotildees musicais tornam patentes simultaneamente

a constituiccedilatildeo numeacuterica da muacutesica e do cosmos pois se constata afinal uma

semelhanccedila entre a realidade de todas as coisas e os nuacutemeros Ainda de acordo com

Aristoacuteteles para os pitagoacutericos os nuacutemeros natildeo eram entidades desvinculadas do

sensiacutevel o que reitera uma compreensatildeo do mundo constituiacutedo efetivamente por uma

ordem matemaacutetica

os pitagoacutericos supuseram que os nuacutemeros fossem coisas sensiacuteveis pois constataram que

muitas propriedades dos nuacutemeros estatildeo presentes nos corpos sensiacuteveis Assim

39 Aristoacuteteles ldquoMetafiacutesicardquo Vol II (985b 22 - 986a) p 27 Em grego a partir da ediccedilatildeo de Ross de 1924

ldquoἐν δὲ τούτοις καὶ πρὸ τούτων οἱ καλούμενοι Πυθαγόρειοι τῶν μαθημάτων ἁψάμενοι πρῶτοι ταῦτά

τε προήγαγον καὶ [25] ἐντραφέντες ἐν αὐτοῖς τὰς τούτων ἀρχὰς τῶν ὄντων ἀρχὰς ᾠήθησαν εἶναι

πάντων ἐπεὶ δὲ τούτων οἱ ἀριθμοὶ φύσει πρῶτοι ἐν δὲ τούτοις ἐδόκουν θεωρεῖν ὁμοιώματα πολλὰ

τοῖς οὖσι καὶ γιγνομένοις μᾶλλον ἢ ἐν πυρὶ καὶ γῇ καὶ ὕδατι ὅτι τὸ μὲν τοιονδὶ τῶν ἀριθμῶν πάθος

δικαιοσύνη [30] τὸ δὲ τοιονδὶ ψυχή τε καὶ νοῦς ἕτερον δὲ καιρὸς καὶ τῶν ἄλλων ὡς εἰπεῖν ἕκαστον

ὁμοίως ἔτι δὲ τῶν ἁρμονιῶν ἐν ἀριθμοῖς ὁρῶντες τὰ πάθη καὶ τοὺς λόγους ἐπεὶ δὴ τὰ μὲν ἄλλα

τοῖς ἀριθμοῖς ἐφαίνοντο τὴν φύσιν ἀφωμοιῶσθαι πᾶσαν οἱ δ᾽ ἀριθμοὶ πάσης τῆς φύσεως

πρῶτοιτὰ τῶν ἀριθμῶν στοιχεῖα τῶν ὄντων στοιχεῖα πάντων ὑπέλαβον εἶναι καὶ τὸν ὅλον

οὐρανὸν ἁρμονίαν εἶναι καὶ ἀριθμόνrdquo

76

supuseram os nuacutemeros natildeo como separados mas como constitutivos imanentes das

coisas sensiacuteveis E por quecirc Porque as propriedades dos nuacutemeros estatildeo presentes na

harmonia no ceacuteu e em muitas outras coisas40

Os pitagoacutericos teriam portanto alargado a perquiriccedilatildeo numeacuterica para os corpos

sensiacuteveis e ateacute mesmo para os corpos celestes Segundo a leitura que Pollitt empreende

da Metafiacutesica de Aritoacuteteles a constituiccedilatildeo numeacuterica dos corpos sensiacuteveis adviria do

fato de que os pitagoacutericos natildeo fariam uma distinccedilatildeo rigorosa entre a unidade

matemaacutetica e a unidade geomeacutetrica41 Em Aristoacuteteles lecirc-se mesmo o caraacuteter imanente

do nuacutemero ao sensiacutevel

tambeacutem para os pitagoacutericos soacute existe o nuacutemero matemaacutetico mas eles sustentam que este

natildeo eacute separado e que antes eacute constitutivo imanente das substacircncias sensiacuteveis Eles

constituem todo o universo com os nuacutemeros e estes natildeo satildeo puras unidades mas unidades

dotadas de grandeza42

Uma passagem da Metafiacutesica de Aristoacuteteles envolvendo Eurito disciacutepulo de

Filolau orienta Pollitt43 e eacute tambeacutem mencionada por Raven44 o qual apresenta ainda

outros dois registros de Teofrasto e Alexandre de Afrodiacutesia descrevendo o

procedimento do mesmo Eurito que consistia em estabelecer o nuacutemero de cada coisa

ldquodeterminado nuacutemero para o homem outro para o cavalo reproduzindo com

pedrinhas a forma dos viventes de modo semelhante aos que remetem os nuacutemeros agraves

40 Aristoacuteteles ldquoMetafiacutesicardquo (1090a 21) p 675 Em grego a partir da ediccedilatildeo de Ross de 1924 ldquoοἱ δὲ

Πυθαγόρειοι διὰ τὸ ὁρᾶν πολλὰ τῶν ἀριθμῶν πάθη ὑπάρχοντα τοῖς αἰσθητοῖς σώμασιν εἶναι μὲν

ἀριθμοὺς ἐποίησαν τὰ ὄντα οὐ χωριστοὺς δέ ἀλλ᾽ ἐξ ἀριθμῶν τὰ ὄντα διὰ τί δέ ὅτι τὰ πάθη τὰ

τῶν ἀριθμῶν ἐν ἁρμονίᾳ ὑπάρχει καὶ ἐν [25] τῷ οὐρανῷ καὶ ἐν πολλοῖς ἄλλοιςrdquo 41 Pollitt J J ldquoThe ancient view of greek artrdquo p 17-18 ldquothe conception of sensible bodies as being made

up of lsquonumbersrsquo seems to have stemmed from the fact that the Pythagoreans did not draw a strict

distinction between mathematical units and geometric units (Metaphysics 1080b16)rdquo 42 Aristoacuteteles ldquoMetafiacutesicardquo (1080b 14) p 617 Em grego a partir da ediccedilatildeo de Ross de 1924 ldquoοἱ δὲ τὸν

μαθηματικὸν [15] μόνον ἀριθμὸν εἶναι τὸν πρῶτον τῶν ὄντων κεχωρισμένον τῶν αἰσθητῶν καὶ

οἱ Πυθαγόρειοι δ᾽ ἕνα τὸν μαθηματικόν πλὴν οὐ κεχωρισμένον ἀλλ᾽ ἐκ τούτου τὰς αἰσθητὰς

οὐσίας συνεστάναι φασίν τὸν γὰρ ὅλον οὐρανὸν κατασκευάζουσιν ἐξ ἀριθμῶν πλὴν οὐ

μοναδικῶν ἀλλὰ τὰς μονάδας [20] ὑπολαμβάνουσιν ἔχειν μέγεθοςrdquo 43 Pollitt J J ldquoThe ancient view of greek artrdquo p 18 44 Raven J E ldquoPolyclitus and pythagoreanismrdquo p 147 148

77

figuras do triacircngulo e do quadradordquo45 Eurito produzia diagramas das coisas com

pedrinhas de modo que ldquoo nuacutemero de pedrinhas necessaacuterio ao diagrama constituiacutea o

lsquonuacutemerorsquo do homem e assim por dianterdquo46 Esse modo aparentemente grosseiro de

equiparar coisas concretas a nuacutemeros da parte de um autor como Eurito foi

assinalado por Raven47 E sua proposta de interpretaccedilatildeo do procedimento passa pela

assunccedilatildeo da hipoacutetese de que o Cacircnone de Policleto transmitido por Galeno e por

Vitruacutevio ateste uma possiacutevel fonte pitagoacuterica comum a ambos Essa fonte comum diria

respeito agrave obra atribuiacuteda a Filolau ou a algum autor vinculado agrave essa doutrina48 Mas

o proacuteprio Raven reconhece os limites de sua hipoacutetese dado o caraacuteter espuacuterio da

suposta obra de Filolau49 Natildeo obstante o teor conjectural da proposiccedilatildeo para Raven

o procedimento de Eurito em definir as coisas por meio de diagramas de pedrinhas

natildeo consistiria apenas na descriccedilatildeo de um simploacuterio procedimento de obtenccedilatildeo de

contornos de corpos mas retrataria uma doutrina que possivelmente advinda de

Policleto seria elucidada pela afirmaccedilatildeo vitruviana de que ldquoassim a natureza compocircs

o corpo do homem de modo que as proporccedilotildees dos membros correspondessem agrave

figura total []rdquo50

O estudo de Raven abre caminho a um vieacutes interpretativo das passagens do De

Architectura marcadas pelos nuacutemeros sugerindo a possibilidade consistente ndash embora

natildeo comprovaacutevel em definitivo ndash de algum modo de vinculaccedilatildeo agraves doutrinas

associadas ao pitagorismo Raven mostrou a afinidade entre as passagens vitruvianas

45 Aristoacuteteles ldquoMetafiacutesicardquo (1092b 11) p 689 Em grego a partir da ediccedilatildeo de Ross de 1924 ldquoκαὶ ὡς

Εὔρυτος ἔταττε τίς ἀριθμὸς τίνος οἷον ὁδὶ μὲν ἀνθρώπου ὁδὶ δὲ ἵππου ὥσπερ οἱ τοὺς ἀριθμοὺς

ἄγοντες εἰς τὰ σχήματα τρίγωνον καὶ τετράγωνονrdquo 46 Pollitt J J ldquoThe ancient view of greek artrdquo p 18 47 Raven J E ldquoPolyclitus and pythagoreanismrdquo p 148 Can any philosopher of so relatively advanced

a date and of such considerable eminence as Eurytus apparently achieved have really adopted so

singularly crude a method of equating concrete things with numbers 48 A conexatildeo entre Galeno e os pitagoacutericos dar-se-ia pela proximidade da afirmaccedilatildeo de que ldquoa sauacutede

reside nas proporccedilotildees das partes do corpordquo aos escritos meacutedicos de Alcmeacuteon e Filolau que remetem agrave

noccedilatildeo de ἰσονομία 49 Raven J E op cit p 152 50 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III (III 1 4) p 7 ldquoergo si ita natura composuit corpus hominis uti

proportionibus membra ad summam figurationem eius respondeant []rdquo

78

que elencam as proporccedilotildees das partes do corpo e a que remete ao nuacutemero dez tido

como perfeito com escritos associados ao pitagorismo e ainda que no Livro Terceiro

natildeo haja menccedilatildeo direta agrave Pitaacutegoras em outras partes dos Dez Volumes a evocaccedilatildeo eacute

expliacutecita como no Livro V em que se fala desse pensador e seus sectaacuterios (Pythagorae

quique eius haeresim fuerunt secuti)51 Ali Vitruacutevio fala de um sistema cuacutebico de escrita

empreendido por Pitaacutegoras e seus sectaacuterios Natildeo obstante as dificuldades de

interpretaccedilatildeo acerca do modo pelo qual tais razotildees cuacutebicas (cybicis rationibus)

operariam relacionando-se ao nuacutemero 250 indicado ao nuacutemero de versos (CC et L

uersus) fica claro que o que se pretende nesse ponto eacute apresentar criteacuterios para a

ordenaccedilatildeo da obra escrita isto eacute Vitruacutevio tem em vista a proacutepria composiccedilatildeo do De

Architectura

Na medida em que nenhuma das outras alusotildees a Pitaacutegoras faz referecircncia agraves

proporccedilotildees das partes do corpo ou agrave perfeiccedilatildeo do nuacutemero dez e Vitruacutevio atribui a

Pitaacutegoras as regras para a realizaccedilatildeo do esquadro no Livro IX evocando seu nome

repetidamente resta que os preceitos numeacutericos sem autoria explicitada nas passagens

contidas no Livro do Templos poderiam mesmo ter chegado a Vitruacutevio a partir de

autores vinculados de algum modo ao pitagorismo conforme a hipoacutetese de Raven

No Livro III recorre-se ainda agrave autoridade de Platatildeo para o qual o nuacutemero dez

eacute perfeito diz Vitruacutevio ldquoporque se obteacutem a dezena a partir das coisas singulares que

entre os gregos se dizem monadesrdquo52 Mas o autor latino sem apresentar nomes refere-

51 Vitruacutevio ldquoTratado de Arquiteturardquo (V pref 3) p 240 ldquoPitaacutegoras e aqueles que seguiram a sua escola

resolveram escrever os seus preceitos em volumes segundo um sistema cuacutebicordquo Em latim ldquoetiamque

Pythagorae quique eius haeresim fuerunt secuti placuit cybicis rationibus praecepta in uoluminibus scribererdquo

(Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre V p 2) Cf comentaacuterio de Saliou in ibid n 3 p 91-92 O nome

de Pitaacutegoras eacute mencionado ainda em (II 2 1 - pythagoreorum disciplina) (VIII pref 1) (IX pref 2) (IX

pref 6) (IX pref 7) (IX 6 3) (X 6 4) 52 Vitruacutevio ldquoTratado de Arquiteturardquo (III 1 5) p 170 Em latim ldquoetiam Platoni placuit esse eum numerum

ea re perfectum quod ex singularibus rebus quae μονάδες apud Graecos dicuntur perficitur decusisrdquo (Vitruve

ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III p 8) Traduccedilatildeo da passagem toda ldquotambeacutem Platatildeo pensou ser esse

nuacutemero perfeito porque se obteacutem a dezena a partir dos nuacutemeros singulares que entre os gregos se

dizem monadesrdquo Maciel esclarece com brevidade que as monades (μονάδες) mocircnadas ou unidades satildeo

ldquoos quatro primeiros nuacutemeros cuja soma eacute igual a dez 1+2+3+4=10rdquo (Maciel M J in Vitruacutevio ldquoTratado

de Arquiteturardquo n 14 p 170)

79

se ainda aos mathematici que por oposiccedilatildeo diziam ser perfeito o nuacutemero seis53 As

posiccedilotildees demarcadas entre os antiqui de um lado e os mathematici de outro fica patente

no texto Para Pierre Gros os antiqui satildeo aqueles associados ao pitagorismo ao passo

que mathematici muito possivelmente designariam os representantes da matemaacutetica

euclidiana e ainda que no Livro Primeiro Filolau e Arquitas apareccedilam entre os

mathematici o comentador francecircs expotildee que o nuacutemero seis natildeo era negligenciado

pelos pitagoacutericos sendo mesmo ldquodefinido como princiacutepio vital de acordo com

Filolaurdquo54 Vitruacutevio justifica a perfeiccedilatildeo do nuacutemero seis pela conveniecircncia de suas

reparticcedilotildees ldquoassim um sexto eacute um um terccedilo eacute dois metade trecircs dois terccedilos a que

chamam dimoeros quatro cinco sextos que dizem pentemoeros cinco e o nuacutemero

perfeito seisrdquo55 Tais particcedilotildees (partitiones) permitem natildeo apenas vincular o nuacutemero

seis ao peacute humano de modo que possua a sexta parte da altura do homem ou

inversamente multiplicado por seis produza a altura do homem mas a outras partes

do corpo pois segundo Vitruacutevio o cocircvado consta de seis palmos ou ainda vinte e

quatro dedos (seis vezes quatro) O nuacutemero seis aleacutem de permitir o estabelecimento

de unidades de medida pode tambeacutem servir de referecircncia a unidades monetaacuterias

ldquoparece que foi tambeacutem por isso que as cidades dos gregos como o cocircvado mede seis

palmos cunharam com equivalecircncia agrave dracma que eacute o dinheiro que usam moedas

53 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III (III 1 6) p 8 Mathematici uero contra disputantes ea re perfectum

dixerunt esse numerum qui sex diciturrdquo Traduccedilatildeo ldquoQuanto aos matemaacuteticos em oposiccedilatildeo disseram ser

perfeito o nuacutemero seisrdquo 54 Gros P in Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III n 1 p 73 A passagem do Livro Primeiro referida

eacute aquela que sucede o elenco das variadas disciplinas que devem ser medianamente conhecidas

(mediocriter habet notas ndash Vitr I 1 16) pelo arquiteto Aqueles pois que receberam da natureza soleacutercia

agudeza e memoacuteria puderam nelas aprofundar-se (penitus habere notas ndash Vitr I 1 17) e ultrapassaram

o ofiacutecio de arquiteto tornando-se mathematici 55 Vitruacutevio ldquoTratado de Arquiteturardquo (III 1 6) p 171 Em latim a passagem completa ldquoMathematici

uero contra disputantes ea re perfectum dixerunt esse numerum qui sex dicitur quod is numerus habet partitiones

eorum rationibus sex numero conuenientes sic sextantem unum trientem duo semissem tria bessem quem

δίμοιρον dicunt quattuor quintarium quem πεντέμοιρον dicunt quinque perfectum sexrdquo (Vitruve ldquoDe

LrsquoArchitecturerdquo Livre III p 8-9) Traduccedilatildeo da passagem completa ldquoQuanto aos matemaacuteticos em

oposiccedilatildeo disseram ser perfeito o nuacutemero seis porque segundo seus caacutelculos tem particcedilotildees

convenientes assim um sexto eacute um um terccedilo eacute dois metade trecircs dois terccedilos a que chamam dimoeros

quatro cinco sextos que dizem pentemoeros cinco e o nuacutemero perfeito seisrdquo

80

de bronze como asses e tambeacutem em nuacutemero de seis a que chamam oacutebolosrdquo56 A seus

ancestrais latinos (nostri) Vitruacutevio atribui a escolha do antigo nuacutemero perfeito dez a

partir do que se constituiu o denaacuterio57 afirma

Enfim da coexistecircncia em Vitruacutevio de ambos os nuacutemeros perfeitos58 dez e seis

eacute difiacutecil identificar a prevalecircncia de algum Se o nuacutemero seis possui um forte lastro na

proporccedilatildeo do peacute relativamente agrave altura do homem o nuacutemero dez eacute do mesmo modo

associado ao corpo ldquoos antigos instituiacuteram esse nuacutemero perfeito que se diz dez pois

foi encontrado a partir do nuacutemero de dedos das matildeosrdquo59 A natureza eacute produtora da

perfeiccedilatildeo do nuacutemero dez patente nas articulaccedilotildees de ambas as palmas das matildeos

enquanto Platatildeo ndash o uacutenico nome suscitado nessas passagens do De Architectura em que

os nuacutemeros perfeitos satildeo reportados ndash considerava o nuacutemero dez perfeito porque

resultante da soma das mocircnadas60 segundo Vitruacutevio

56 Vitruacutevio ldquoTratado de Arquiteturardquo (III 1 7) p 171 Em latim ldquoEx eo etiam uidentur ciuitates Graecorum

fecisse quemadmodum cubitus est sex palmorum in drachma qua nummo uterentur aereos signatos uti asses ex

aequo sex quos obolos appellantrdquo (Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III p 10) 57 ldquoVitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III (III 1 8) p 10 ldquonostri autem primo fecerunt ltperfectumgt

antiquum numerum et in denario denos aeris constituerunt et ea re compositio nominis ad hodiernum diem

denarium retinetrdquo Traduccedilatildeo ldquoos nossos poreacutem primeiramente consideraram perfeito o antigo nuacutemero

e constituiacuteram no denaacuterio dez moedas de bronze e por isso a composiccedilatildeo do nome manteacutem ateacute hoje o

signficado de dezrdquo (Vitruacutevio ldquoTratado de Arquiteturardquo p 172) 58 Vitruacutevio chega a afirmar que os seus ancestrais latinos reuniram os nuacutemeros perfeitos dez e seis em

um nuacutemero perfeitiacutessimo o dezesseis ldquopostea autem quam animaduerterunt utrosque numeros esse perfectos

et sex et decem utrosque in unum coiecerunt e fecerunt perfectissimum decusis sexisrdquo (Vitruve ldquoDe

LrsquoArchitecturerdquo Livre III - III 1 8 - p 10) Traduccedilatildeo ldquomas depois ao darem conta de que tanto era

perfeito o nuacutemero seis como o dez juntaram-nos num soacute e estabeleceram como perfeitiacutessimo o nuacutemero

dezesseisrdquo (Vitruacutevio ldquoTratado de Arquiteturardquo p 172) Essas especulaccedilotildees satildeo concluiacutedas firmando-se

simultaneamente uma unidade de medida referenciada no corpo e uma unidade monetaacuteria ldquoita efficitur

uti habeat pes sedecim digitos et totidem asses aeracius denariusrdquo (Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III - III

1 8 - p 11) Traduccedilatildeo ldquodesse modo se conclui que o peacute tem dezesseis dedos e o denaacuterio de bronze

outros tantos assesrdquo (Vitruacutevio ldquoTratado de Arquiteturardquo p 172) 59 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III (III 1 5) p 8 ldquoperfectum autem antiqui instituerunt numerum

qui decem dicitur namque ex manibus digitorum numero [ab palmo pes] est inuentusrdquo 60 Ibid (III 1 5) p 8 ldquosi autem in utrisque palmis ex articulis ab natura decem sunt perfecti etiam Platoni

placuit esse eum numerum ea re perfectum quod ex singularibus rebus quae μονάδες apud Graecos dicuntur

perficitur decusisrdquo Traduccedilatildeo ldquomas se nas articulaccedilotildees de ambas as palmas das matildeos o nuacutemero dez foi

feito pela natureza tambeacutem Platatildeo pensou ser esse nuacutemero perfeito porque se obteacutem a dezena a partir

dos nuacutemeros singulares que entre os gregos se dizem monadesrdquo

81

Essa incursatildeo pelos nuacutemeros procura apresentar algum desenvolvimento aos

sistemas de medidas (mensurarum rationes) necessaacuterios a todas as obras edificadas e

extraiacutedos dos membros do corpo61 Vale lembrar que tanto o nuacutemero dez quanto o seis

vinculam-se ao corpo seja pela quantidade de dedos das matildeos exibindo o nuacutemero

dez seja pela relaccedilatildeo proporcional em que o peacute possui a sexta parte da altura do corpo

ou ainda o cocircvado que conteacutem seis palmos62

Vitruacutevio afirmara que agrave semelhanccedila das exatas razotildees existentes entre os

membros de um homem bem configurado deve se dar a composiccedilatildeo do templo

regulada por symmetria e proporccedilatildeo63 E se elencara no escrito certas proporccedilotildees

existentes entre os membros do homem bem configurado pela natureza64 natildeo tinha

em vista expor um modelo pronto ao decalque ldquode maneira semelhante (similiter) os

membros dos templos sagrados devem possuir adequadiacutessima correspondecircncia na

comensuraccedilatildeo de cada uma de suas partes com a soma global da magnitude do todordquo65

O corpo do homem bem configurado eacute instado a evidenciar as propriedades

geomeacutetricas de que dispotildee pois se lecirc que o umbigo foi constituiacutedo pela natureza como

seu centro (corporis centrum medium naturaliter est umbilicus) ndash do que se estabelece

ainda sua inserccedilatildeo no ciacuterculo e no quadrado

do mesmo modo o umbigo eacute naturalmente o centro do corpo com efeito se um homem

for colocado deitado de costas com as matildeos e os peacutes estendidos e colocarmos um centro

de compasso no seu umbigo descrevendo uma circunferecircncia os dedos de ambas as

61 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III (III 1 5) p 8 ldquo [] ex corporis membris collegerunt []rdquo Cf n

33 supra 62 Ibid (III 1 7) p 9-10 ldquonon minus etiam quod pes hominis altitudinis sextam habet partem ita etiam ex eo

quod perficitur pedum numero sexies corporis altitudinis terminatio eum perfectum constituerunt cubitumque

animaduerterunt ex sex palmis constare digitisque XXIIIIrdquo Traduccedilatildeo ldquoe tambeacutem porque o peacute do homem

tem a sexta parte da altura ou seja porque esse nuacutemero do peacute multiplicado por seis determina a altura

do corpo constituiram-no como perfeito e observaram que o cocircvado constava de seis palmos ou 24

diacutegitosrdquo 63 Cf n 3 supra 64 Cf n 4 e 5 supra 65 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III (III 1 3) p 7 ldquosimiliter uero sacrarum aedium membra ad

uniuersam totius magnitudinis summam ex partibus singulis conuenientissimum debent habere commensus

responsumrdquo

82

matildeos e peacutes seratildeo tocados pela linha Igualmente do mesmo modo como o esquema da

circunferecircncia se executa no corpo nele se encontra a designaccedilatildeo do quadrado [quadrata

designatio] de fato se medirmos da base dos peacutes ao alto da cabeccedila e transferirmos essa

medida para a dos braccedilos abertos seraacute encontrada uma largura igual agrave altura como nas

aacutereas ortogonais obtidas pelo esquadro66

A conformaccedilatildeo do corpo consonante agraves figuras geomeacutetricas do ciacuterculo e do

quadrado nas quais se inscreve ajustadamente entre outros indiacutecios textuais levaram

Pierre Gros a identificar fortes ressonacircncias da filosofia de Platatildeo em torno da

descriccedilatildeo do homo bene figuratus67 que serve de referecircncia agrave arquitetura pela

concordacircncia proporcional de suas partes A noccedilatildeo de symmetria assume uma posiccedilatildeo

central nessa interpretaccedilatildeo tatildeo logo eacute tomada como instacircncia reguladora de todos os

agenciamentos que produzem as medidas da construccedilatildeo relacionadas pelos

ldquomuacuteltiplos e sub-muacuteltiplos de um moacutedulo de baserdquo68 orquestrando o conjunto ldquoa

symmetria eacute portanto a chave da unidade orgacircnica da arte do construtor

transformando a aedificatio em um sistema racional ela permite um salto qualitativo

decisivo ao menos em teoriardquo69

66 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III (III 1 3) p 7 ldquoitem corporis centrum medium naturaliter est

umbilicus namque si homo conlocatus fuerit supinus manibus et pedibus pansis circinique conlocatum centrum

in umbilico eius circumagendo rotundationem utrarumque manuum et pedum digiti linea tangentur Non minus

quemadmodum schema rotundationis in corpore efficitur item quadrata designatio in eo inuenietur nam si a

pedibus imis ad summum caput mensum erit eaque mensura relata fuerit ad manus pansas inuenietur eadem

latitudo uti altitudo quemadmodum areae quae ad normam sunt quadrataerdquo 67 Gros P ldquoLa geacuteomeacutetrie platonicienne de la notice vitruvienne sur lrsquohomme parfait (De Architectura

III 1 2-3)rdquo Segundo leitura que faz do Timeu Gros afirma que para Platatildeo o Demiurgo uniria os

elementos que compotildeem o universo agrave maneira de um artesatildeo e tais elementos seriam simbolizados por

poliedros regulares Assim tetraedro octaedro icosaedro e cubo estariam associados aos quatro

elementos e o dodecaedro ao Todo do universo Mas Gros identifica ainda uma transferecircncia dessa

simbologia ligada aos poliedros para os poliacutegonos no comentaacuterio que Proclo faz aos Elementos de

Euclides de modo que ldquocada uma das figuras planas que formam cada um dos lados dos poliedros

regulares pode ser posta em relaccedilatildeo com uma das partes do universo Assim o quadrado eacute assimilado

agrave terra e o ciacuterculo ao ceacuteu segundo uma tradiccedilatildeo que o mesmo exegeta tardio faz remontar ao

pitagorismo recente e mais precisamente a Filolaurdquo (ibid p 20) Embora o texto vitruviano seja pouco

afeito agraves especulaccedilotildees cosmoloacutegicas como nota o proacuteprio Gros (ibid p 22) essa perspicaz interpretaccedilatildeo

natildeo eacute desprovida de interesse na medida em que nos potildee a par de doutrinas natildeo incompatiacuteveis com os

ensinamentos preceituados pelo autor do De Architectura mesmo que uma demonstraccedilatildeo definitiva de

seu caraacuteter operante no interior do escrito seja dificilmente alcanccedilaacutevel 68 Ibid p 16 69 Ibid p 16

83

A ausecircncia de preocupaccedilotildees anatocircmicas efetivas torna o homo bene figuratus um

constructo prioritariamente matemaacutetico no sentido em que se traduz por relaccedilotildees

proporcionais A dimensatildeo excessiva do peacute ndash a sexta parte da altura ndash bem como a

cabeccedila diminuta ndash a oitava parte da altura ndash denunciam um interesse pelas razotildees

numeacutericas que diverge da compleiccedilatildeo dos corpos humanos existentes em carne e osso

A descriccedilatildeo meacutetrica do homo bene figuratus de III 1 2 parte de uma relaccedilatildeo que envolve

o nuacutemero perfeito dez (os capitis a mento ad frontem summam et radices imas capilli esset

decimae partis)70 mas natildeo deixa de acomodar o nuacutemero perfeito seis associado agrave relaccedilatildeo

do peacute com a altura do corpo (pes uero altitudinis corporis sextae)71 ndash em elaboraccedilatildeo

retomada e explicitada em III 1 6 e III 1 772 Assim dois sistemas meacutetricos estariam

presentes e operariam no cacircnone vitruviano73

Gros observa que as proporccedilotildees das partes do corpo enunciadas em III 1 2

relacionadas entre si produzem nuacutemeros epiacutemoros que compotildeem os intervalos

musicais ldquoo corpo humano se constroacutei segundo uma escansatildeo musical no sentido

pitagoacuterico do termordquo74 Nuacutemeros epiacutemoros ou superparticularis satildeo caracterizados

pela relaccedilatildeo (n+1n) Relacionando a razatildeo da cabeccedila ao corpo (18) com a razatildeo do

rosto ao corpo (110) obteacutem-se a razatildeo que caracteriza o intervalo da grande terccedila (54)

Da parte superior do peito ateacute a raiz dos cabelos comparada ao corpo tem-se (16)

que por sua vez em relaccedilatildeo agrave razatildeo da cabeccedila ao corpo (18) proporciona o intervalo

de quarta (43) Do peito agrave raiz dos cabelos (16) em relaccedilatildeo agrave razatildeo obtida do meio do

peito agrave extremidade da cabeccedila (14) obteacutem-se o intervalo de quinta (32) Vitruacutevio natildeo

explicita tais relaccedilotildees derivadas das proporccedilotildees expostas do homo bene figuratus

portanto natildeo eacute possiacutevel sustentar a intenccedilatildeo de transmiti-las Ademais para obtecirc-las

70 Cf n 5 n 57 n 59 e n 60 supra 71 Cf n 5 supra 72 Cf n 55 n 56 e n 62 supra 73 Cf n 58 supra Gros relata ainda as dificuldades acarretadas pela coexistecircncia de dois sistemas

meacutetricos ao estabelecimento de um cacircnone numeacuterico em De Architectura III 1 2 cf Gros P in Vitruve

ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III n 1 p 61-63 74 Gros P ldquoLa geacuteomeacutetrie platonicienne de la notice vitruvienne sur lrsquohomme parfait (De Architectura

III 1 2-3) p 18

84

na sequecircncia sugerida por Gros e exposta acima eacute preciso alterar a ordem em que

aparecem no texto75

Em III 1 7 Vitruacutevio afirma que a perfeiccedilatildeo do nuacutemero seis adveacutem igualmente

das particcedilotildees convenientes (partitiones conuenientes)76 que possui apresentadas por

nomes gregos e que seriam tambeacutem segundo Gros termos empregados por

pitagoacutericos para designar relaccedilotildees numeacutericas que caracterizam os acordes da ciacutetara77

Do mesmo modo aqui Vitruacutevio natildeo faz qualquer menccedilatildeo expliacutecita a uma ordenaccedilatildeo

musical contudo o Livro Primeiro estabelecia a muacutesica como uma das nove

disciplinas78 que o arquiteto deveria conhecer ldquoconveacutem que saiba muacutesica de modo

que esteja habituado agrave regulaccedilatildeo canocircnica e matemaacuteticardquo79

Pierre Gros natildeo deixa ainda de aproximar o excerto vitruviano de III 1 2-3 agrave

matemaacutetica platocircnica ldquoagrave maneira do demiurgo do Timeu de Platatildeo o arquiteto tece

portanto suas construccedilotildees entrelaccedilando o par e o iacutemparrdquo80 Se o arquiteto ldquonatildeo deve

ser muacutesico como Aristoacutexeno mas conhecer algo de muacutesicardquo81 natildeo eacute impossiacutevel que as

proporccedilotildees transmitidas por Vitruacutevio ecoem ensinamentos de leis harmocircnicas as

quais se supunha reger a um soacute tempo os movimentos dos astros e as combinaccedilotildees

sonoras ambos identificados por relaccedilotildees numeacutericas ldquode modo semelhante

astroacutelogos e muacutesicos tecircm em comum a discussatildeo acerca da harmonia das estrelas e dos

75 Em Vitruacutevio III 1 2 a sequumlecircncia das razotildees eacute i-(110) ii-(18) iii-(16) iiii-(14) Para que se obtenha

os intervalos musicais eacute preciso relacionar ii com i (54) iii com ii (43) e finalmente iii e iiii (32) Eacute

preciso operar uma inversatildeo na ordem (na comparaccedilatildeo entre iii e iiii o nuacutemero menor - 16 - vem antes

do segundo membro da comparaccedilatildeo - 14 - ao contraacuterio das outras relaccedilotildees em que o nuacutemero menor

vem depois) isto eacute requer-se um procedimento de quebra da sequecircncia apresentada no trecho do De

Architectura Seraacute possiacutevel entatildeo ldquodescriptografarrdquo as razotildees vitruvianas em intervalos musicais

Talvez nos faltem elementos da matemaacutetica pitagoacuterica Talvez o quadro tenha chegado parcial a

Vitruacutevio 76 Cf n 55 supra 77 Gros P in Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III n 5 p 74-75 78 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre I ( I 1 3) p 5 Satildeo elas letras desenho geometria histoacuteria

filosofia muacutesica medicina direito e astronomia 79 Ibid (I 1 8) p 8 ldquomusicen autem sciat oportet uti canonicam rationem et mathematicam notam habeatrdquo 80 Gros P ldquoLa geacuteomeacutetrie platonicienne de la notice vitruvienne sur lrsquohomme parfait (De Architectura

III 1 2-3) p 18 81 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre I (I 1 13) p 11 ldquonec musicus ut Aristoxenus sed non amusosrdquo

85

acordes musicais em quadrados e em triacircngulos em quartas e em quintasrdquo82 Assim

cumpre ressaltar que a visada nas passagens vitruvianas do Livro III se direciona

sobretudo aos acordos que podem ser estabelecidos entre as partes da obra e seu

conjunto menos que a preceitos numeacutericos afinal o arquiteto natildeo se confunde com os

raros mathematici83 As mensurarum rationes satildeo necessaacuterias a todas as obras por isso eacute

preciso deter-se aos sistemas numeacutericos Mas natildeo se pode perder de vista que de

acordo com Vitruacutevio esses princiacutepios meacutetricos foram coligidos do corpo do homem e

servem para compor os corpos dos edifiacutecios

22 Μίμησις Imitatio Similitudo

No volume que trata da estatuaacuteria Pliacutenio o Velho escreve que Lisipo fez sua

a ousada resposta do pintor Eupompo sobre a indagaccedilatildeo acerca dos antecessores a que

pudesse seguir ldquoa proacutepria natureza deve ser imitada natildeo um artiacuteficerdquo84 A descriccedilatildeo

mostra na sequecircncia a oposiccedilatildeo das estaacutetuas de Lisipo face agraves signa quadrata dos

antigos mais precisamente de Policleto85

natildeo haacute um nome latino para symmetria a qual ele [Lisipo] observou com extrema

diligecircncia substituindo os portes quadrados dos antigos por um sistema de proporccedilotildees

novo e ainda natildeo empreendido e [Lisipo] dizia costumeiramente (uulgoque) que aqueles

82 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III (III 1 16) p 12 ldquosimiliter cum astrologis et musicis est disputatio

communis de symphatia stellarum et symphoniarum in quadratis et trigonis diatessaron et diapenterdquo 83 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre I ( I 1 17) p 13 84 Pline LrsquoAncien ldquoHistoire Naturellerdquo Livre XXXIV (34 61) p 129 ldquoeum enim interrogatum quem

sequeretur antecedentium dixisse monstrata hominum multitudine naturam ipsam imitandam esse non

artificemrdquo Traduccedilatildeo tendo sido interrogado sobre qual predecessor seguia disse mostrando a multidatildeo

de homens que a proacutepria natureza deve ser imitada natildeo um artiacuteficerdquo 85 Ibid (34 56) p 127 ldquoquadrata tamen esse ea [sc signa] ait Varro et paene ad unum exemplumrdquo Traduccedilatildeo

ldquoVarratildeo afirma serem quadradas [as estaacutetuas] e quase todas de um mesmo modelo (exemplum)rdquo Sobre

as dificuldades na interpretaccedilatildeo do termo quadratus cf apecircndice B ldquoO Cacircnone de Policleto e a hipoacutetese

de Tobinrdquo

86

[os antigos]86 faziam os homens como eram ao passo que ele os fazia tal como eram

vistos87

De acordo com o registro da Naturalis Historia a imitaccedilatildeo da natureza

empreendida por Lisipo levava em conta o modo pelo qual os homens eram vistos

ldquoele contribuiu muito agrave arte estatuaacuteria produzindo o detalhe do cabelo fazendo

cabeccedilas menores que os antigos corpos mais esbeltos e secos para que por meio do

adelgaccedilamento as estaacutetuas parecessem maioresrdquo88 As estaacutetuas dos artiacutefices divergiam

desse modo quanto agraves relaccedilotildees proporcionais do corpo do homem porque partiam de

certos pressupostos distintos as signa quadrata de Policleto tomavam-nos como eram

(quales essent) ao passo que a visatildeo que se tinha deles (quales uiderentur) importava a

Lisipo a ponto de orientar as relaccedilotildees meacutetricas empregadas Isso natildeo quer dizer que

Lisipo natildeo cuidasse minuciosamente da symmetria pelo contraacuterio ldquonon habet Latinum

nomen symmetria quam diligentissime custoditrdquo89 Importa aqui novamente apontar a

proximidade de termos e noccedilotildees entre o excerto de Pliacutenio o Velho e o iniacutecio do Livro

III do De Architectura ldquoaedium compositio constat ex symmetria cuius rationem diligentisse

architecti tenere debentrdquo90 A diligecircncia superlativa dedicada agrave symmetria estaacute presente

em ambos os escritos e o De Architectura preceitua uma relaccedilatildeo meacutetrica da cabeccedila ao

corpo que mais se aproxima das ldquocabeccedilas menoresrdquo atribuiacutedas a Lisipo91 Mas seraacute

86 Os antigos entenda-se ao modo de Policleto 87 Pline LrsquoAncien ldquoHistoire Naturellerdquo vol XXXIV (34 65) p 130 ldquonon habet Latinum nomen symmetria

quam diligentissime custodit noua intactaque ratione quadratas ueterum staturas permutando uulgoque dicebat

ab illis factos quales essent homines a se quales uiderentur esserdquo 88 Ibid (34 65) p 130 ldquostatuariae arti plurimum traditur contulisse capillum exprimendo capita minora

faciendo quam antiqui corpora graciliora siccioraque per quae proceritas signorum maior uidereturrdquo 89 Ibid (34 65) p 130 cf n 87 supra 90 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III (III 1 1) p 5-6 Traduccedilatildeo ldquoa composiccedilatildeo dos templos assenta

na symmetria cuja regulaccedilatildeo os arquitetos deveratildeo observar com extrema diligecircnciardquo Cf n 1 n 18

supra 91 Cf apecircndice B ldquoO Cacircnone de Policleto e a hipoacutetese de Tobinrdquo cf Gros P in Vitruve ldquoDe

LrsquoArchitecturerdquo Livre III n 1 p 62 As preocupaccedilotildees visuais permeiam o De Architectura e a descriccedilatildeo

da Basiacutelica de Fano no Livro V eacute um exemplo de como satildeo empreendidas alteraccedilotildees na symmetria (pela

supressatildeo das duas colunas medianas no lado maior da nave central) para garantir a vista entre o

Templo de Augusto e o Foro cf capiacutetulo 3 ldquoPreceitos para o encantordquo especialmente as seccedilotildees ldquoObra

isolada e conjunto edificadordquo e ldquoAcumen Eurythmia Symmetriardquo

87

possiacutevel inferir que o cacircnone vitruviano compartilha o intento de imitaccedilatildeo da natureza

atribuiacuteda ao estatuaacuterio de Siciatildeo

Surpreende que no De Architectura dentre os sete primeiros volumes voltados

agrave aedificatio apenas no primeiro e no terceiro natildeo seja possiacutevel encontrar qualquer

ocorrecircncia de imito imitatio ou derivaccedilotildees da raiz imit-92 A ausecircncia do grupo

terminoloacutegico no Livro I ateacute poderia ser explicada pelo seu caraacuteter amplo

apresentando as diretrizes para a arquitetura as instruccedilotildees necessaacuterias ao arquiteto e

certos paracircmetros de ocupaccedilatildeo dos recintos urbanos eximindo-o do uso dos termos

pelo vieacutes da abordagem O Livro III no entanto expotildee um cacircnone com estreitos pontos

de contato agravequeles dos estatuaacuterios produzindo a expectativa da presenccedila de vocaacutebulos

remetendo agrave imitaccedilatildeo Entre a notiacutecia que Pliacutenio oferece de Lisipo e o iniacutecio do Livro

Terceiro do De Architectura constata-se mesmo uma coincidecircncia terminoloacutegica quanto

agraves noccedilotildees centrais de symmetria diligentia e natura Mas nesse uolumen Vitruacutevio natildeo faz

qualquer menccedilatildeo expliacutecita agrave famiacutelia de imitatio ao contraacuterio do que se observa na

parelha passagem de Pliacutenio (naturam ipsam imitandam esse non artificem) 93

No Livro V a formulaccedilatildeo vitruviana traz agrave tona o liame entre arquitetura e

imitaccedilatildeo ao preceituar as disposiccedilotildees do foro

as colunas superiores devem ser constituiacutedas a quarta parte menores que as inferiores

isso porque suportando o peso as inferiores devem ser mais firmes do que as

superiores Do mesmo modo conveacutem imitar a natureza das plantas conforme as

aacutervores de tronco roliccedilo como o abeto o cipreste e o pinheiro nas quais nada eacute mais

espesso do que as bases que crescendo avanccedilam em altura por meio de uma

equilibrada contratura natural desenvolvendo-se em direccedilatildeo ao cume Portanto se a

92 Natildeo eacute possiacutevel identificar nos Livros I III VIII e IX qualquer termo derivado de imit- raiz de termos

como imitor imitare imitatio Dentre os sete primeiros volumes que correspondem agrave aedificatio apenas

em I e III o grupo terminoloacutegico eacute ausente Os livros VIII e IX tratam respectivamente das aacuteguas e da

gnomocircmica o X versa sobre as maacutequinas Os termos podem ser encontrados em (II 1 2) (II 1 3) (IV

1 8) (IV 2 2) (IV 2 3) - duas ocorrecircncias (IV 2 5) (V 1 3) (V 6 9) (VI 7 4) (VII 5 1) (VII 5 2)

(VII 10 4) (VII 14 1) (VII 14 2) (X 1 4) (X 6 2) 93 Cf n 84 supra

88

natureza das plantas assim postula corretamente se estabelece que as alturas e as

espessuras superiores tornam-se mais contraiacutedas relativamente agraves inferiores94

A passagem mostra claramente que as aacutervores constituem o referencial de

estabilidade para a disposiccedilatildeo das colunas que se sobrepotildeem nos poacuterticos do foro

Vitruacutevio eacute direto ao afirmar que eacute preciso imitar a natureza (oportet imitari naturam)

No campo da firmitas a natureza baliza os elementos da edificaccedilatildeo de modo que o

estreitamento do tronco de aacutervores como o abeto o cipreste e o pinheiro devem ser

imitados na contratura das colunas mas tambeacutem servem como princiacutepio ordenador

do conjunto da obra determinando que em um poacutertico de dois pavimentos a coluna

superior deve ser menor que a inferior jaacute que esta sustenta aquela

A notiacutecia em torno do homo bene figuratus atribuiacutea agrave natureza o rigor da

configuraccedilatildeo estabelecida ldquoita natura composuit corpus hominis []rdquo95 Fica evidente a

natureza compocircs o corpo do homem Ao mesmo tempo Vitruacutevio afirma que pintores

e estatuaacuterios devem fazer uso desse estabelecimento no intuito de obter a mais elevada

estima96 A sentenccedila transmitida por Pliacutenio de que ldquoa proacutepria natureza deve ser

imitada natildeo um artiacuteficerdquo97 quase caberia nesse ponto do escrito vitruviano que remete

aos pintores e estatuaacuterios natildeo tivesse o autor-arquiteto rememorado ao leitor que se

trata aqui de uma preceptiva edificatoacuteria direcionada nesse uolumen agrave composiccedilatildeo dos

templos ldquode maneira semelhante (similiter) os membros dos templos sagrados devem

possuir adequadiacutessima correspondecircncia na comensuraccedilatildeo de cada uma de suas partes

94 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre V (V 1 3) p 4 ldquocolumnae superiores quarta parte minores quam

inferiores sunt constituendae propterea quod oneri ferendo quae sunt inferiora firmiora debent esse quam

superiora Non minus quod etiam nascentium oportet imitari naturam ut in arboribus teretibus abiete cupresso

pinu e quibus nulla non crassior est ab radicibus deinde crescendo progreditur in altitudinem naturali

contractura peraequata nascens ad cacumen Ergo si natura nascentium ita postulat recte est constitutum et

altitudinibus et crassitudinibus superiora inferiorum fieri contractiorardquo 95 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III (III 1 4) p 7 Traduccedilatildeo ldquoassim a natureza compocircs o corpo

do homem []rdquo 96 Cf n 6 supra 97 Cf n 84 supra

89

com a soma global da magnitude do todordquo98 Diferente do contraponto entre natureza

e artiacutefices presente na sentenccedila que se lecirc em Pliacutenio no De Architectura agraves liccedilotildees da

natureza somam-se os ensinamentos dos antigos que aliaacutes encarregaram-se de

transferi-las para as obras

logo se a natureza assim compocircs o corpo do homem de modo que seus membros

possuiacutessem correspondecircncia pelas proporccedilotildees ao conjunto da figura vecirc-se que com

razatildeo os antigos estabeleceram que ainda a perfeiccedilatildeo de cada membro da obra tivesse

comensuraccedilatildeo exata para com o aspecto da configuraccedilatildeo do conjunto Entatildeo como

transmitissem as ordenaccedilotildees para todos os gecircneros de obras era sobretudo aos templos

dos deuses em que os meacuteritos e as faltas costumam perdurar eternamente99

Vale insistir sobre a relaccedilatildeo que se propotildee entre o corpo do homem e a

arquitetura similiter De modo semelhante agrave constituiccedilatildeo concedida pela natureza ao

corpo do homem bem configurado deve ser estabelecido o acordo de

comensurabilidades entre as partes e o todo dos edifiacutecios sagrados Todavia natildeo cabe

ao arquiteto imitar a configuraccedilatildeo do homem do mesmo modo que fazem o pintor e o

estatuaacuterio o arquiteto natildeo pinta ou plasma homens mas edifica Os territoacuterios das

diferentes artes se afiguram bem delimitados ldquoConveacutem ao arquiteto imitar a

naturezardquo (oportet imitari naturam)100 dizia Vitruacutevio mas na medida em que faz a

coluna tal como os troncos roliccedilos que diminuem sua espessura agrave medida que ficam

mais altos Eacute algo semelhante agrave contratura natural das aacutervores que se deve fazer nas

colunas e nos poacuterticos de dois pavimentos nesse sentido diz-se que a arquitetura imita

a natureza O estreitamento do fuste figura algo da imago do tronco da aacutervore ao

mesmo tempo recolhe da natureza um arranjo que serve agrave estabilidade da construccedilatildeo

98 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III (III 1 3) p 7 ldquosimiliter uero sacrarum aedium membra ad

uniuersam totius magnitudinis summam ex partibus singulis conuenientissimum debent habere commensus

responsumrdquo 99 Ibid (III 1 4) p 7-8 ldquoergo si ita natura composuit corpus hominis uti proportionibus membra ad summam

figurationem eius respondeant cum causa constituisse uidentur antiqui ut etiam in operum perfectionibus

singulorum membrorum ad uniuersam figurae speciem habeant commensus exactionem Igitur cum in omnibus

operibus ordines traderent maxime in aedibus deorum ltquod eorumgt operum et laudes et culpae aeternae solent

permanererdquo 100 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre V (V 1 3) p 4 Cf n 94 supra

90

No livro IV expotildee-se como a construccedilatildeo dos ornamentos do templo doacuterico

consiste na imitaccedilatildeo em pedra de elementos originariamente produzidos em madeira

assim cada coisa tem a ver com o lugar gecircnero e ordem proacuteprios Disto e a partir dos

trabalhos em madeira do carpinteiro os artiacutefices imitaram as disposiccedilotildees dos templos

sagrados nos entalhes em pedra e maacutermore das construccedilotildees e julgaram que essas

invenccedilotildees deviam ser seguidas101

Vitruacutevio explica em seguida como os antigos carpinteiros (antiqui fabri)

deixavam as vigas proeminentes (tigna prominentia habuissent conlocata) na direccedilatildeo do

exterior das paredes do templo Os espaccedilos entre essas vigas (intertignia) precisavam

ser preenchidos e acima deles vinham as cornijas (coronas) e os frontotildees (fastigia) como

ornamento tornando o aspecto mais venusto (uenustiore specie)102 As vigas salientes

eram entatildeo cortadas no alinhamento das paredes mas como produziam uma visatildeo

desagradaacutevel (quae species cum inuenusta eis uisa esset)103 eram revestidas com tabelas

(tabellae)104 produzidas ldquocomo satildeo feitos os triacuteglifos de agorardquo (uti nunc fiunt

triglyphi)105 escreve o arquiteto Uma pintura em encaacuteustica azul (cera caerulea) cobria

as fendas entre as vigas (que anteriomente se projetavam) evitando que ofendessem a

visatildeo ldquoet eas cera caerulea depinxerunt ut praecisiones tignorum tectae non offenderent

uisumrdquo106 Os intervalos entre essas vigas agrupadas produziram as meacutetopas escreve

101 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre IV (IV 2 2) p 10 ldquoita unaquaeque res et locum et genus et ordinem

proprium tuetur E quibus rebus et a materiatura fabrili in lapideis et marmoreis aedium sacrarum aedificationibus

artifices dispositiones eorum scalpturis sunt imitati et eas inuentiones persequendas putaueruntrdquo 102 Ibid (IV 2 2) p 10-11 ldquoideo quod antiqui fabri quodam in loco aedificantes cum ita ab interioribus

parietibus ad extremas partes tigna prominentia habuissent conlocata intertignia struxerunt supraque coronas et

fastigia uenustiore specie fabrilibus operibus ornauerunt []rdquo Traduccedilatildeo assim os antigos carpinteiros

construindo em um certo local como haviam disposto as vigas proeminentes na direccedilatildeo das partes

externas vindas do interior das paredes preencheram os vatildeos entre as vigas sobre as quais ornaram

cornijas e frontotildees com elementos trabalhados em madeira para uma vista mais venustardquo 103 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre IV (IV 2 2) p 11 104 Segundo Maciel tabellae eram ldquotabelas de madeira taacutebuas esquadriadas tabuinhas que foram sendo

substituiacutedas por placas de terracota e de pedra Singular tabellardquo (Vitruacutevio ldquoTratado de Arquiteturardquo

n 38 p 209) 105 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre IV (IV 2 2) p 11 106 Ibid (IV 2 2) p 11 Traduccedilatildeo ldquoe pintaram-nas com cera azul-ceruacuteleo de modo que as fendas entre

as vigas da cobertura natildeo ofendessem a visatildeordquo Maciel explica que cera faz ldquoreferecircncia agrave teacutecnica da

encaacuteustica que consistia em pintar diluindo os pigmentos em cera liacutequidardquo (Maciel M J in ldquoTratado

91

O texto do Livro IV prossegue mostrando que posteriormente as extremidades

das traves inclinadas (cantherii) foram postas a prumo em relaccedilatildeo aos triacuteglifos tendo

as projeturas aplanadas107 Mas depois passaram a ser produzidos muacutetulos em pedra

procurando imitar aquela inclinaccedilatildeo das traves de madeira assim como os triacuteglifos

faziam com as vigas

por isso do mesmo modo como os triacuteglifos surgiram das disposiccedilotildees das vigas assim

os princiacutepios dos muacutetulos foram inventados a partir das projeccedilotildees das traves

inclinadas (cantheriorum) sob as cornijas Desse modo normalmente os muacutetulos satildeo

esculpidos inclinados nas obras de pedra e de maacutermore porque haacute imitaccedilatildeo das traves

inclinadas (cantheriorum) efetivamente eacute necessaacuterio que elas sejam colocadas com

inclinaccedilatildeo por causa do escoamento das aacuteguas pluviais Portanto tanto as regras dos

triacuteglifos quanto dos muacutetulos foram inventadas nas obras doacutericas a partir dessa

imitaccedilatildeo 108

Lecirc-se pois que a inclinaccedilatildeo dos muacutetulos adveacutem da imitaccedilatildeo (imitatio) tal como

os triacuteglifos109 em sua origem ambos os elementos dos templos doacutericos resultam da

transposiccedilatildeo de peccedilas de madeira para a pedra Mesmo que os elementos peacutetreos natildeo

de Arquiteturardquo n 40 p 209) ldquoCaeruleardquo designaria a cor o azul-ceruacuteleo ou azul-egiacutepcio mencionado

tambeacutem em VII 11 1 (ibid n 39 p 209) 107 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre IV (IV 2 3) p 11 ldquopostea alii in aliis operibus ad perpendiculum

triglyphorum cantherios prominentes proiecerunt eorumque proiecturas simaueruntrdquo Traduccedilatildeo

ldquoposteriormente outros em outras obras colocaram as extremidades das traves inclinadas a prumo com

relaccedilatildeo aos triacuteglifos aplanando as projeturas delasrdquo 108 Ibid (IV 2 3) p 11 ldquoex eo uti ltegt tignorum dispositionibus triglyphi ita e cantheriorum proiecturis

mutulorum sub coronis ratio est inuenta Ita fere in operibus lapideis et marmoreis mutuli inclinatis scalpturis

deformantur quod imitatio est cantheriorum etenim necessario propter stillicidia proclinati conlocantur Ergo et

triglyphorum et mutulorum in doricis operibus ratio ex ea imitatione inuenta estrdquo 109 Os comentaacuterios de Silvio Ferri (Ferri S in Vitruvio ldquoArchitetturardquo n 2 p 232-233) esclarecem

construtiva e etimologicamente acerca do triacuteglifo O ldquoglifordquo diria respeito agrave fissura ou agrave fenda vertical

que resulta da uniatildeo de traves (trabs) de madeira que justapostas compotildeem uma peccedila estrutural Assim

o ldquotrirdquo indica as trecircs fendas verticais na ponta da peccedila formada pela junccedilatildeo de quatro vigas Seria um

ldquodiglyphonrdquo se contasse com trecircs traves produzindo duas fendas Segundo Ferri haacute registros de obras

apresentando monoglifos diacuteglifos triacuteglifos e tetraglifos sendo que a cera aplicada sobre esses

elementos teria a finalidade de alisar proteger as quinas contra rupturas em lascas e impermeabilizar

impedindo a infiltraccedilatildeo de aacutegua pelos canaliacuteculos verticais da extremidade (Ferri S in Vitruvio

ldquoArchitetturardquo n 2 p 232-233) Ferri se vale das passagens de V 1 8 e V 1 9 agrave interpretaccedilatildeo desses

trechos do Livro IV O Livro V eacute importante fonte sobre a carpintaria no periacuteodo de escrita do De

Architectura conforme observa Catherine Saliou (Saliou C in Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre V

n 3 p 154)

92

desempenhem mais a funccedilatildeo exercida pelas originaacuterias peccedilas liacutegneas obtiveram lugar

nas convenccedilotildees construtivas enquanto ornamento resultante da imitaccedilatildeo

Antes poreacutem no mesmo Livro IV Vitruacutevio propunha transferir as proporccedilotildees

do homem para o gecircnero doacuterico Segundo a explicaccedilatildeo apresentada os atenienses

fundaram treze colocircnias na Aacutesia que em homenagem ao liacuteder Iacuteon chamaram de Jocircnia

(Ionia) onde passaram a erigir edificaccedilotildees sagradas Estabeleceram primeiro um

templo a Apolo Paniocircnio ldquotal como tinham visto em Acaiardquo (uti uiderant in Achaia)110

escreve o autor chamando-o de ldquodoacuterico porque viram primeiramente um templo

desse gecircnero nas cidades de Doacuteriderdquo111 As palavras que se seguem mostram bem a

busca das relaccedilotildees meacutetricas nas proporccedilotildees do corpo do homem para dar forma agrave

coluna doacuterica

Como quisessem dispor as colunas nesse templo natildeo possuindo suas

comensurabilidades (symmetrias) e procurando que a partir dessas regulaccedilotildees

pudessem fazer com que tanto fossem aptas a suportar os pesos como possuiacutessem

venustidade assegurada ao aspecto mediram a impressatildeo (uestigium) do peacute viril e a

relacionaram com a altura Como haviam descoberto que o peacute tinha a sexta parte da

altura do homem assim transferiram para a coluna cuja espessura fizeram de base ao

fuste e a elevaram seis vezes em altura incluso o capitel Desse modo comeccedilou-se a

distinguir na coluna doacuterica a proporccedilatildeo do corpo viril bem como a firmeza e a

venustidade nos edifiacutecios112

110 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre IV ( IV 1 5) p 5 111 Vitruacutevio ldquoTratado de Arquiteturardquo (IV 1 5) p 202 Em latim ldquoet primum Apollini Panionio aedem

uti uiderant in Achaia constituerunt et eam doricam appelaureunt quod in Dorieon ciuitatibus primum factam

eo genere uideruntrdquo (Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre IV p 5) 112 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre IV (IV 1 6) p 5-6 ldquoin ea aede cum uoluissent columnas conlocare

non habentes symmetrias earum et quaerentes quibus rationibus efficere possent uti et ad onus ferendum essent

idoneae et in aspectu probatam haberent uenustatem dimensi sunt uirilis pedis uestigium et id retulerunt in

altitudinem Cum inuenissent pedem sextam partem esse altitudinis in homine item in columnam transtulerunt

et qua crassitudine fecerunt basim scapi tantas sex cum capitulo in altitudinem extulerunt Ita dorica columna

uirilis corporis proportionem et firmitatem et uenustatem in aedificiis praestare coepitrdquo

93

A transferecircncia113 de relaccedilotildees proporcionais explicitada por Vitruacutevio ao gecircnero

doacuterico marca igualmente as prescriccedilotildees ao jocircnico Neste entretanto a

correspondecircncia meacutetrica eacute estabelecida a partir do corpo da mulher

do mesmo modo construiacuteram posteriormente um templo a Diana procurando o aspecto

de um gecircnero novo pela mesma impressatildeo [do peacute] transferiram para a coluna a

delicadeza (gracilitatem) da mulher e fizeram inicialmente a espessura da coluna com a

oitava parte da altura para que tivesse um aspecto mais elevado114

Ao Jocircnico prevecirc-se ainda uma espira de base fazendo as vezes de um calccedilado

(basi spiram supposuerunt pro calceo) 115 a disposiccedilatildeo de volutas pendentes agrave esquerda e

agrave direita do capitel como cachos enrolados do cabelo cimaacutecios e festotildees116 ornando a

fronte da coluna ldquodispostos como madeixasrdquo117 aleacutem das caneluras ou estrias nos

fustes das colunas ao modo das dobras das vestes matronais

Portanto dos dois gecircneros de colunas prescritos o primeiro apresenta o caraacuteter

viril e despojado de ornamentos enquanto o segundo exibe a fineza o ornato e a

symmetria da mulher Mas Vitruacutevio fala ainda de um terceiro gecircnero o coriacutentio que

imita a delicadeza virginal pois ldquoas virgens por causa da brandura da idade figurada

por membros mais delicados revestem-se dos efeitos mais venustos ao ornatordquo118

Se o termo imitatio ocorre apenas na apresentaccedilatildeo do gecircnero coriacutentio natildeo parece

demasiado afirmar que no jocircnico as associaccedilotildees ndash entre a espira e o calccedilado (calceo)

113 O termo empregado eacute ldquotranstuleruntrdquo a terceira pessoa do plural do perfeito de transfero (transfero

transtuli translatum) vertido aqui ao moderno ldquotransferirrdquo Da combinaccedilatildeo do prefixo ldquotransrdquo ao verbo

ldquoferordquo pode ser entendido segundo Torrinha ldquolevar para aleacutem transportar levar de um lugar para

outro || transferre castra transferir o acampamentordquo (Torrinha ldquoDicionaacuterio latino-portuguecircsrdquo p 884) 114 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre IV (IV 1 7) p 6 ldquoitem postea Dianae constituere aedem Quaerentes

noui generis speciem isdem uestigiis ad ltcolumnamgt muliebrem transtulerunt gracilitatem et fecerunt primum

columnae crassitudinem altitudinis octaua parte ut haberet speciem excelsioremrdquo 115 Ibid (IV 1 7) p 6 116 Segundo Maciel as ldquoencarpardquo designam festotildees ou grinaldas ldquodo grego [encarpos] haacutepax vitruvianordquo

(Maciel M J in ldquoTratado de Arquiteturardquo n 5 p 203) 117 Vitruacutevio ldquoTratado de Arquiteturardquo (IV 1 7) p 203 118 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre IV (IV 1 8) p 7 ldquotertium uero quod corinthium dicitur uirginalis

habet gracilitatis imitationem quod uirgines propter aetatis teneritatem gracilioribus membris figuratae effectus

recipiunt in ornatu uenustioresrdquo

94

bem como das volutas nas laterais da coluna aos cachos de cabelo dos cimaacutecios e

festotildees agraves mechas frontais das caneluras agraves dobras das vestes ndash constituiriam tambeacutem

imitaccedilotildees tal como se diz que os triacuteglifos e os muacutetulos imitam Mas se esses dois

elementos das obras doacutericas imitam o aspecto de antigas peccedilas de madeira os

ornamentos da coluna jocircnica procuram transpor ornamentos humanos (calccedilado cacho

de cabelo dobras das vestes) agrave coluna Aleacutem disso os trecircs gecircneros consistem em

imitaccedilotildees de caracteres a coluna doacuterica imitaria o caraacuteter viril a jocircnica o feminil e a

coriacutentia o virginal Eacute possiacutevel observar que nessas ocorrecircncias a imitaccedilatildeo envolve

elementos naturais que se vinculam a partes do edifiacutecio o corpo do homem da mulher

e da virgem agrave coluna a madeira das antigas vigas cujo aspecto frontal eacute reproduzido

pelo triacuteglifo peacutetreo a aacutervore figurada no esquema vertical de cada coluna e da

montagem de colunas nos poacuterticos e nas basiacutelicas Eacute de se notar que em todos esses

usos de imitatio Vitruacutevio tem em vista apenas elementos construtivos ou partes da

edificaccedilatildeo a coluna ou partes dela (como as espiras e as volutas) o triacuteglifo o muacutetulo

Mesmo quando se propunha a imitaccedilatildeo das plantas e do princiacutepio natural presente

nas aacutervores cujo tronco se contrai verticalmente garantindo a estabilidade voltava-se

apenas a um segmento da obra

No Livro II por outro lado Vitruacutevio provecirc um registro de imitaccedilatildeo integral da

construccedilatildeo inserido em uma digressatildeo histoacuterica119 que trata de um momento anterior

ao estabelecimento da arquitetura elevada pelo pensamento120 e pelas artes capaz de

119 No primeiro capiacutetulo do Livro II Vitruacutevio elabora os traccedilos de uma ldquogrande histoacuteria da civilizaccedilatildeordquo

segundo Elisa Romano e mais que o interesse pelas inuentiones tratar-se-ia de um ldquoquadro

historiograacutefico amplo e complexordquo voltado aos initia humanitatis (Romano E ldquoVitruvio fra storia e

antiquariardquo sect12) 120 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre II (II 1 6) p 8 ldquoet natura non solum sensibus ornauisset gentes

quemadmodum reliqua animalia sed etiam cogitationibus et consiliis armauisset mentesrdquo Traduccedilatildeo ldquoe a

natureza natildeo apenas tinha guarnecido as gentes com os sentidos como os restantes animais mas ainda

tinha armado as mentes com pensamentos e planosrdquo

95

ornar a vida com elegacircncia121 e engenho solerte122 ldquoalguns imitando os ninhos das

andorinhas e o seu modo de construir [comeccedilaram] a fazer habitaccedilotildees de lama e

gravetos onde pudessem se abrigarrdquo123

O relato das construccedilotildees humanas que imitam ninhos de andorinhas parece

aproximar-se menos de uma preceituaccedilatildeo de caraacuteter exemplar do que da narraccedilatildeo dos

passos primordiais da arte edificatoacuteria no interior da apresentaccedilatildeo de um quadro geral

da origem da civilizaccedilatildeo A imitaccedilatildeo nesse passo do De Architectura portanto estaria

muito mais apta a desempenhar uma funccedilatildeo etioloacutegica do que paradigmaacutetica124

Embora essa descriccedilatildeo cumpra seu papel na elucidaccedilatildeo das causas dos processos

primitivos de construccedilatildeo deixa entrever a conexatildeo primordial com a natureza que eacute

fonte de ensinamentos a serem imitados125 ademais afirma o autor que os homens

possuem uma disposiccedilatildeo natural para imitar e aprender126 Assim certos elementos da

natureza devem ser imitados os primitivos refuacutegios humanos natildeo A imitaccedilatildeo dos

ninhos das andorinhas apenas ilustra os primeiros passos na arte de construir

deixando entrever contudo o imitar como parte da atividade humana exprimindo-se

nos mais rudimentares gestos construtivos De acordo com Vitruacutevio a imitaccedilatildeo da

natureza eacute intriacutenseca agrave construccedilatildeo dos abrigos humanos presente antes mesmo da

121 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre II (II 1 7) p 8 ldquoposteaquam animaduerterunt profusos esse partus

naturae ad materiam et abundantem copiam ad aedificationes ab ea comparatam tractando nutrierunt et auctam

per artes ornauerunt uoluptatibus elegantiam uitaerdquo Traduccedilatildeo ldquoquando perceberam a profusatildeo de

produtos da natureza que serviam de material e a abundacircncia por ela fornecida para as edificaccedilotildees

valeram-se deles manejando-os e por meio das artes ornaram de prazeres a elegacircncia da vida que se

elevavardquo 122 Ibid (II 1 6) p 7 ldquocum autem cotidie faciendo tritiores manus ad aedificandum perfecissent et sollertia

ingenia exercendo perconsuetudinem ad artes peruenissentrdquo Traduccedilatildeo ldquocomo entretanto aperfeiccediloassem

cotidianamente o treino das matildeos em realizar e exercitando a soleacutercia do engenho com o costume

alcanccedilaram as artesrdquo 123 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre II (II 1 2) p 5 ldquononnulli hirundinum nidos et aedificationes earum

imitantes de luto et uirgulis facere loca quae subirentrdquo 124 Sobre o papel desempenhado pela etiologia no relato histoacuterico vitruviano cf Romano E ldquoVitruvio

fra storia e antiquariardquo 125 Em especial (III 1 3) (III 1 4) (V 1 3) 126 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre II (II 1 3) p 5 ldquocum essent autem homines imitabili docilique

naturardquo Traduccedilatildeo ldquocomo fossem os homens propensos por natureza agrave imitaccedilatildeo e agrave aprendizagemrdquo

96

condiccedilatildeo de dignidade e autoridade oferecida pelo acuacutemulo de convenccedilotildees

arquitetocircnicas127

Em campo alheio agrave arte edificatoacuteria mas natildeo sem notaacuteveis pontos de contato

com a tessitura do escrito vitruviano128 a Retoacuterica a Herecircnio fala da imitaccedilatildeo como um

dos meios pelos quais as tarefas do orador podem ser desempenhadas

o orador deve ter invenccedilatildeo disposiccedilatildeo elocuccedilatildeo memoacuteria e pronunciaccedilatildeo [] Tudo

isso poderemos alcanccedilar por trecircs meios arte imitaccedilatildeo e exerciacutecio Arte eacute o preceito que

daacute um caminho certo e regras ao discurso Imitaccedilatildeo eacute aquilo a partir do que somos

impelidos com diligecircncia para que possamos ser semelhantes a outros no dizer

Exerciacutecio eacute o uso assiacuteduo e o costume do dizer129

O orador deve se valer de arte imitaccedilatildeo e exerciacutecio para bem desempenhar as

tarefas proacuteprias a seu ofiacutecio Sendo a arte entendida como o conjunto de preceitos

convencionados130 e o exerciacutecio a frequentaccedilatildeo contiacutenua da atividade resta agrave imitaccedilatildeo

indicar que se busque na semelhanccedila de outrem o impulso Natildeo surpreende que o

orador deva imitar outro orador considerando-se a fala e o pensar como traccedilos

distintivos do homem e as bases para a elaboraccedilatildeo do discurso que aspira ao

127 Distante da descriccedilatildeo dos primoacuterdios da arte edificatoacuteria a exortaccedilatildeo ao Imperator em gecircnero alto no

prefaacutecio ao Livro I deixa ver ao contraacuterio o papel elevado que se reivindica agrave arquitetura ldquoCum uero

adtenderem te non solum de uita communi omnium curam publicaeque rei constitutione habere sed etiam de

opportunitate publicorum aedificiorum ut ciuitas per te non solum prouinciis esset aucta uerum etiam ut maiestas

imperii publicorum aedificiorum egregias haberet auctoritatesrdquo (Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre I - I

pref 2 - p 3) Traduccedilatildeo ldquocomo notei tua preocupaccedilatildeo natildeo soacute com a vida comum a todos e a organizaccedilatildeo

da Repuacuteblica mas ainda com as vantagens advindas das construccedilotildees puacuteblicas de modo que Roma natildeo

fosse por ti ampliada apenas com proviacutencias e sim para que a majestade do poder recebesse a

autoridade das egreacutegias edificaccedilotildees puacuteblicasrdquo Ainda no primeiro prefaacutecio Vitruacutevio afirma ter escrito

praescriptiones terminatas tornando patentes todos os meandros da disciplina com os Dez Volumes

compostos (namque his uoluminibus aperui omnes disciplinae rationes) 128 Cf capiacutetulo 1 ldquoDe Architectura e Retoacutericardquo n 43 129 [Cicero] Retoacuterica a Herecircnio (1 3) p 54 ldquooportet igitur esse in oratore inuentionem dispositionem

elocutionem memoriam pronuntiationem [] Haec omnia tribus rebus adsequi poterimus arte imitatione

exercitatione Ars est praeceptio quae dat certam uiam rationemque dicendi Imitatio est qua inpellimur cum

diligenti ratione ut aliquorum similes in dicendo ualeamus esse Exercitatio est adsiduus usus consuetudoque

dicendirdquo 130 Em Ad Herennium (I 3) arte eacute preceito (ars est praeceptio) e no Prefaacutecio ao Livro I (I pref 3) em

formulaccedilatildeo siacutemile Vitruacutevio promete prescriccedilotildees bem acabadas (conscripsi praescriptiones terminatas)

97

assentimento do auditoacuterio131 No De Architectura entretanto nenhuma das ocorrecircncias

de imitatio aqui listadas se refere a qualquer pessoa mas a elementos da natureza (o

homem as aacutervores os ninhos das andorinhas) ou do artifiacutecio humano (o calccedilado as

dobras do vestido as peccedilas de madeira ndash imitadas pelo triacuteglifo e pelo muacutetulo)

O termo imitatio e seus derivados encontram-se em Pliacutenio o Velho e na

anocircnima Retoacuterica agrave Herecircnio conforme apontado mas tambeacutem em outros autores da

liacutengua latina como Ciacutecero Quintiliano Horaacutecio e Virgiacutelio132 Traduz-se

costumeiramente imitatio por ldquoimitaccedilatildeordquo ou ldquoimitationrdquo nas liacutenguas modernas

portuguecircs e francecircs respectivamente133 Chantraine propotildee igualmente ldquoimitationrdquo

como traduccedilatildeo aos termos gregos μῖμος e μίμησις derivado este do primeiro da

mesma maneira que o verbo μιμέομαι ldquoμῖμος eacute atestado desde Eacutesquilo e μιμέομαι eacute

o verbo denominativo correspondenterdquo134 Sendo imitatio e μίμησις traduzidos

frequentemente por imitaccedilatildeo Chantraine expotildee ainda que o latim tomou μῖμος de

empreacutestimo a mimus135 mas nada diz acerca de imitatio Gaffiot e Torrinha remetem

imitor a imago136 Do mesmo modo Ernout e Meillet em seu ldquoDictionnaire

eacutetymologique de la langue latinerdquo vinculam esses termos pelo radical

131 [Cicero] Retoacuterica a Herecircnio (1 2) p 54 ldquooratoris officium est de iis rebus posse dicere quae res ad usum

ciuilem moribus et legibus consitutae sunt cum adsensione auditorum quoad eius fieri poteritrdquo Traduccedilatildeo ldquoo

ofiacutecio do orador eacute poder discorrer sobre as coisas que o costume e as leis instituiacuteram para o uso civil

mantendo o assentimento dos ouvintes ateacute onde for possiacutevelrdquo (ibid p 55) 132 Palavras desse campo semacircntico satildeo abundantes em Ciacutecero e nas Instituiccedilotildees Oratoacuterias de

Quintiliano mas para ficar em ocorrecircncias do termo imitatio Ciacutecero Filiacutepicas (14 17) De Officiis (3 1)

Quintiliano Inst Or (1 3 1) Menos frequentes Virgiacutelio Eneida (6 585 dum flammas Iouvis et sonitus

imitatur Olympi) Geoacutergicas (livro 4 et uox auditor fractos sonitus imitata tubarum) Horaacutecio Epistulae (1

15 decipit exemplar uitiis imitabile [ ] o imitatores seruom pecus ut mihi saepe) 133 Cf Torrinha ldquoDicionaacuterio latino-portuguecircsrdquo p 396 Gaffiot ldquoDictionnaire Latin Franccedilaisrdquo p 774 134 Chantraine P ldquoDictionnaire eacutetymologique de la langue grecque Histoire des motsrdquo p 703-704 135 Gaffiot reporta que mimus relacionado ao grego μῖμος diz respeito agrave miacutemica agrave pantomima ao ator

de baixo niacutevel agrave farsa teatral (Gaffiot ldquoDictionnaire Latin Franccedilaisrdquo p 977) Torrinha aproxima-se

dessas definiccedilotildees definindo mimus como ldquopantomimo comediante farsanterdquo ou ainda como ldquomimo

farsa (teatral)rdquo (Torrinha ldquoDicionaacuterio latino-portuguecircsrdquo p 520) Vemos que nenhum dos autores

aponta qualquer traccedilo de vinculaccedilatildeo entre mimus e imitatio 136 Gaffiot ldquoDictionnaire Latin Franccedilaisrdquo p 775 e p 773 Torrinha ldquoDicionaacuterio latino-portuguecircsrdquo p 396

e p 395

98

imāgō supotildee talvez um verbo de radical im- de que ele seria derivado como uorāgō eacute

derivado uorō sem duacutevida pelo intermediaacuterio uorāx Desse verbo existe o frequentativo

imitor -āris (e imitō entre os arcaicos) procurar reproduzir a imagem imitar Imitor tem

numerosos derivados imitātor -trīx -tiō tābilis (e inimitābilis Quint = ἀμίμετος) -tāmen

(termo de Oviacutedio) -tāmentum (eacutepoca imper) -tātīus -tātorius (ambos tardios)137

Embora Ernout e Meillet faccedilam uma breviacutessima menccedilatildeo ao grupo de correlatos

de μίμησις pela remissatildeo de inimitābilis agrave ἀμίμετος o grupo de imago eacute associado com

ecircnfase a outras palavras gregas ldquo[imago] corresponde ao gr εἰκών e a φάντασμα

como imitor imāginor agrave εἰκάζω e agrave φαντάζω (todavia o latim emprega tambeacutem

figūra)rdquo138 Ora o que se depreende dessas consideraccedilotildees eacute que as diferenccedilas

semacircnticas denunciariam distacircncias ou ao menos uma natildeo equivalecircncia completa

entre as noccedilotildees de μίμησις e imitatio A presenccedila e a importacircncia de μίμησις em

diversas obras gregas da trageacutedia agrave filosofia suscitou muitos estudos ao passo que

pouco se falou da imitatio tomada aliaacutes frequentemente como mera transposiccedilatildeo da

noccedilatildeo grega Muito provavelmente o conceito latino de imitatio eacute tributaacuterio de algum

modo da μίμησις dos gregos Vale notar contudo que imitor ndash associado ao grego

φάντασμα ndash e derivado de imago ndash que por sua vez remete a εἰκών ndash parece se

distanciar ainda mais da noccedilatildeo de μίμησις talvez pela assimilaccedilatildeo de outros

sentidos139

Do mesmo modo pouco se fala sobre o conceito de imitaccedilatildeo em Vitruacutevio No

estudo dedicado aos paraacutegrafos iniciais do Livro III Pierre Gros sustenta que a

arquitetura eacute uma arte mimeacutetica como a pintura pela relaccedilatildeo estabelecida com a

natureza140 Em seu comentaacuterio ao Livro Terceiro o estudioso afirma acerca de III 1 3

137 Ernout A amp Meillet A ldquoDictionnaire eacutetymologique de la langue latine - histoire des motsrdquo p 552 138 Ibid p 552 139 Em Vitruacutevio (III 1 1) a traduccedilatildeo de ἀναλογία por proportio mostra como a traduccedilatildeo de palavras aqui

do termo grego para o latino pode acarretar enormes variaccedilotildees conceituais cf Gros P in Vitruve ldquoDe

LrsquoArchitecturerdquo Livre III n 3 p 58-59 140 Gros P ldquoLa geacuteomeacutetrie platonicienne de la notice vitruvienne sur lrsquohomme parfait (De Architectura

III 1 2-3)rdquo p 17 ldquoarte mimeacutetica no sentido platocircnico do termo a arquitetura deve como a pintura

reproduzir em seu domiacutenio o que eacute dado pela naturezardquo

99

que o estabelecimento do cacircnone em Vitruacutevio legitima o princiacutepio de commensus pela

relaccedilatildeo com a natureza e ldquoem nome da lsquomimeacutesisrsquo [] toda percepccedilatildeo do processo

evolutivo no domiacutenio artiacutestico eacute resolutamente encobertardquo141 Vale salientar que que

nesse paraacutegrafo (III 1 3) a relaccedilatildeo estabelecida por Vitruacutevio se daacute exclusivamente

entre a natureza e as proporccedilotildees conferidas ao homem (item corporis centrum medium

naturaliter est umbilicus) que serve de referecircncia agrave arquitetura Como nota o proacuteprio

Gros eacute no paraacutegrafo seguinte que Vitruacutevio apresenta a figura dos antiqui como

intermediaacuterios entre a natureza e os artiacutefices mas sem uma cronologia definida dado

seu pertencimento a um sistema etioloacutegico de justificaccedilatildeo142 Para Silvio Ferri a

passagem de III 1 4 que comeccedila com ldquoergo si ita naturardquo143 trata ao mesmo tempo das

convenccedilotildees humanas e das leis naturais

eacute repetido [] o princiacutepio claacutessico da imutabilidade normativa das leis que governam

tanto os gecircneros literaacuterios como aqueles arquitetocircnicos estas leis foram elaboradas

pelos lsquoantiquirsquo e a elas os poacutesteros devem se adaptar Aleacutem do mais acena-se agrave atividade

mimeacutetica do homem e da natureza ndash que orientou a preparaccedilatildeo e a justificaccedilatildeo dessas

leis144

Tanto Gros quanto Ferri sinalizam para miacutemesis em relaccedilatildeo agrave natureza nos

paraacutegrafos iniciais do Livro III Ferri aponta ainda para a ldquoattivitagrave mimetica dallrsquouomordquo

e observar essas leis normatizadas pelos antiqui tal como propotildee Vitruacutevio natildeo seria

mesmo empreender uma sorte de imitatio tal como aquela descrita na Retoacuterica a

Herecircnio O fato eacute que Vitruacutevio natildeo emprega essa terminologia no Livro dos Templos

seja ao homem seja agrave natureza ndash natildeo haacute qualquer ocorrecircncia do grupo de imitatio ao

contraacuterio do que faz na maior parte dos sete primeiros livros dedicados agrave aedificatio145

Na tentativa de identificar a possiacutevel presenccedila do conceito de μίμησις a operar no

141 Gros P in Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III n 2 p 70 ldquoau nom de la lsquomimeacutesisrsquo qui seule peut

justifier lrsquoactiviteacute creacuteatrice de lrsquohomme toute perception des processus eacutevolutifs dans le domaine

artistique est reacutesolument estompeacuteerdquo 142 Ibid n 2 p 70 Cf ainda Romano E ldquoVitruvio fra storia e antiquariardquo 143 Vitruacutevio (III 1 4) Cf n 99 supra 144 Ferri S in Vitruvio ldquoArchitetturardquo n 4 p 168 145 Cf n 92 supra

100

iniacutecio do Livro III ainda que natildeo nomeadamente valeria apontar alguns aspectos

dessa noccedilatildeo complexa presente em diversos escritos antigos

Estudando a famiacutelia de μιμέομαι no quinto seacuteculo aC Veloso procura retraccedilar

empregos do verbo μιμεῖσθαι derivado de μῖμος e acaba concluindo pela dificuldade

intransponiacutevel ao esforccedilo de acompanhar o desenvolvimento desse grupo de termos146

De todo modo o seu estudo permite algumas elucidaccedilotildees acerca de primitivos usos

da noccedilatildeo147 mas principalmente mostra seu alcance mais amplo148 Segundo Veloso

[] por volta do tempo de Aristoacuteteles o verbo μιμέομαι significa lsquofazer a mesma coisa

quersquo [] Todavia existem por assim dizer trecircs modos de fazer a mesma coisa lsquoparecer

fazer o mesmorsquo lsquotentar fazer o mesmorsquo e lsquofazer (efetivamente) o mesmorsquo Simulaccedilatildeo

emulaccedilatildeo e identidade definem o campo semacircntico da famiacutelia de μιμέομαι149

O estudioso reconhece entretanto a presenccedila simultacircnea desses aspectos na

imitaccedilatildeo

de todo modo muitas vezes natildeo eacute faacutecil estabelecer em qual acepccedilatildeo a famiacutelia de

μιμέομαι estaacute empregada por Aristoacuteteles ou por qualquer outro autor dos seacuteculos V e

IV a C Talvez os trecircs sentidos estejam todos de algum modo sempre presentes Natildeo

146 Veloso C W Apecircndice in ldquoAristoacuteteles mimeacuteticordquo p 733-823 147 Ibid p 822-823 ldquose o verbo μιμέομαι significa lsquocomportar-se como ndash ou imitar ndash um ator de mimosrsquo

ele eacute de per si ambivalente Se a atividade dos mimos eacute imitaccedilatildeo quem imita tal atividade imitaraacute

segundo o mesmo sentido em que se diz que os mimos imitam Natildeo creio imitar os mimos eacute antes

fazer ou buscar fazer o mesmo que os mimos fazem enquanto os mimos propriamente simulam Se eu

dissesse que algueacutem que imita as accedilotildees de outrem macaqueia isto eacute imita o macaco eu poderia

entender lsquoimitarrsquo segundo acepccedilotildees diferentes quem macaqueia imita o macaqueado no sentido de

lsquoemularrsquo enquanto subentendo que imita os macacos no sentido de lsquosimularrsquo Assim buscar-se-ia

simular no sentido em que se busca fazer o mesmo que os macacos fazem ndash de fato fazemos o mesmo

que eles ou os emulamos em sua simulaccedilatildeo Isso poderia explicar de algum modo a duplicidade de

sentido que a famiacutelia de μιμέομαι apresenta desde a primeira metade do V seacuteculordquo 148 Veloso C W ldquoAristoacuteteles mimeacuteticordquo p 66 ldquoa imitaccedilatildeo com efeito natildeo eacute nem produccedilatildeo nem accedilatildeo

mas algo de necessaacuterio para a atividade intelectiva pelo menos para a humana e eventualmente para

algum anaacutelogo em outros animaisrdquo 149 Ibid p 173-174 E completa afirmando que a identidade ldquoeacute um caso-limite na medida em que quem

faz a mesma coisa que outrem viria a ser idecircntico a esse outrem e outrem natildeo seria pelo menos nissordquo

(ibid p 174) A natildeo coincidecircncia entre imitante e imitado seria condiccedilatildeo da imitaccedilatildeo natildeo obstante a

tentativa de ldquofazer o mesmo querdquo (ibid p 174)

101

se trata de trecircs acepccedilotildees avulsas Simulaccedilatildeo emulaccedilatildeo e identidade satildeo antes os

elementos constitutivos de toda imitaccedilatildeo150

Lecirc-se na Poeacutetica de Aristoacuteteles que ldquoo imitar eacute congecircnito no homemrdquo151 este o

mais imitador dentre os viventes que aprende as primeiras noccedilotildees por imitaccedilatildeo e se

compraz no imitado152 Para o estagirita aprender natildeo apraz apenas aos filoacutesofos mas

a todos os homens ainda que a maioria participe menos dele153 E eacute por isso que as

imagens deleitam e se contempla com prazer as imagens daquilo que por si mesmo

causa repugnacircncia como os animais ferozes e os cadaacuteveres A imitaccedilatildeo na Poeacutetica diz

respeito natildeo apenas agrave poesia mas agrave epopeacuteia agrave trageacutedia agrave poesia ditiracircmbica e agrave

ldquomaior parte da auleacutetica e da citariacutesticardquo154 aleacutem de referir aos que se exprimem com

cores e figuras Assim as artes elencadas por Aristoacuteteles

imitam com o ritmo a linguagem e a harmonia usando estes elementos separada ou

conjuntamente Por exemplo soacute de harmonia e ritmo usam a auleacutetica e a citariacutestica e

quaisquer outras artes congecircneres como a siriacutengica com o ritmo e sem harmonia imita

a arte dos danccedilarinos porque tambeacutem estes por ritmos gesticulados imitam caracteres

afetos e accedilotildees155

150 Veloso C W ldquoAristoacuteteles mimeacuteticordquo p 188 151 Aristoacuteteles ldquoPoeacuteticardquo (1448b 4) p 445 152 Aristotle ldquoAristotles Ars Poeticardquo ed R Kassel (1448b) Oxford Clarendon Press 1966 Em grego

ldquoἐοίκασι δὲ γεννῆσαι μὲν ὅλως τὴν ποιητικὴν αἰτίαι [5] δύο τινὲς καὶ αὗται φυσικαί τό τε γὰρ

μιμεῖσθαι σύμφυτον τοῖς ἀνθρώποις ἐκ παίδων ἐστὶ καὶ τούτῳ διαφέρουσι τῶν ἄλλων ζῴων ὅτι

μιμητικώτατόν ἐστι καὶ τὰς μαθήσεις ποιεῖται διὰ μιμήσεως τὰς πρώτας καὶ τὸ χαίρειν τοῖς

μιμήμασι πάνταςrdquo 153 Aristoacuteteles ldquoPoeacuteticardquo (1448b 9) p 445 A abertura da Metafiacutesica jaacute explicitava que ldquotodos os homens

tecircm por natureza desejo de conhecerrdquo Em grego ldquoπάντες ἄνθρωποι τοῦ εἰδέναι ὀρέγονται φύσειrdquo

(Aristotle ldquoAristotles Metaphysicsrdquo Ed WD Ross Oxford Clarendon Press 1924) 154 Ibid (1447a 13) p 443 155 Ibid (1447a 17) p 443 Em grego ldquoμὲν ποιοῦνται τὴν μίμησιν ἐν ῥυθμῷ καὶ λόγῳ καὶ ἁρμονίᾳ

τούτοις δ᾽ ἢ χωρὶς ἢ μεμιγμένοις οἷον ἁρμονίᾳ μὲν καὶ ῥυθμῷ χρώμεναι μόνον ἥ τε αὐλητικὴ καὶ

ἡ κιθαριστικὴ κἂν εἴ τινες [25] ἕτεραι τυγχάνωσιν οὖσαι τοιαῦται τὴν δύναμιν οἷον ἡ τῶν

συρίγγων αὐτῷ δὲ τῷ ῥυθμῷ [μιμοῦνται] χωρὶς ἁρμονίας ἡ τῶν ὀρχηστῶν (καὶ γὰρ οὗτοι διὰ τῶν

σχηματιζομένων ῥυθμῶν μιμοῦνται καὶ ἤθη καὶ πάθη καὶ πράξεις)rdquo (Aristotle ldquoAristotles Ars

Poeticardquo)

102

Vemos que segundo a Poeacutetica ldquoos imitadores imitam homens que praticam

alguma accedilatildeordquo156 por conseguinte eacute de acordo com a variedade dos caracteres que os

pintores retratam (εἴκαζεν) homens superiores como fazia Polignoto homens

inferiores como fazia Pauson homens semelhantes a noacutes como fazia Dioniacutesio157

Segundo Aristoacuteteles as demais artes mencionadas danccedila auleacutetica e citariacutestica podem

conter essas diferenccedilas assim como os discursos e os versos Homero imitou homens

superiores Cleofatildeo semelhantes Hegecircmon de Taso e Nicoacutecares inferiores158 Enfim

a imitaccedilatildeo na Poeacutetica se refere a diferentes artes e deve estar de acordo com o que

pode exprimir ldquoo poeta eacute imitador como o pintor ou qualquer outro imaginaacuterio por

isso sua imitaccedilatildeo incidiraacute num destes trecircs objetos coisas quais eram ou quais satildeo

quais os outros dizem que satildeo ou quais parecem ou quais deveriam serrdquo159

No Livro VII Vitruacutevio fala em certae rationes picturarum ou normas certas de

pintura constituiacutedas pelos antigos (antiqui) para os aposentos de primavera outono

veratildeo ou ainda aacutetrios e peristilos

pois a imagem pictoacuterica (pictura imago) se faz daquilo que eacute ou que pode ser de modo

que homens edifiacutecios naus e as restantes coisas estabeleccedilam exemplos de similitude

figurada (figurata similitude) pelos corpos definidos e certos A partir daiacute os antigos

que instituiacuteram os princiacutepios dos acabamentos imitaram primeiro as variedades e

disposiccedilotildees dos maacutermores de revestimento entatildeo as vaacuterias distribuiccedilotildees das cornijas

das molduras e das bandas separadoras (cuneorum) entre si160

156 Aristoacuteteles ldquoPoeacuteticardquo (1448a 7) p 444 Em grego ldquoἐπεὶ δὲ μιμοῦνται οἱ μιμούμενοι πράττονταςrdquo

(Aristotle ldquoAristotles Ars Poeticardquo) 157 Aristoacuteteles ldquoPoeacuteticardquo (1448a 7) p 444 Em grego ldquoἤτοι βελτίονας ἢ καθ᾽ ἡμᾶς ἢ χείρονας [5] ἢ

καὶ τοιούτους ὥσπερ οἱ γραφεῖς Πολύγνωτος μὲν γὰρ κρείττους Παύσων δὲ χείρους Διονύσιος

δὲ ὁμοίους εἴκαζενrdquo (Aristotle ldquoAristotles Ars Poeticardquo) 158 Aristoacuteteles ldquoPoeacuteticardquo (1448a 9) p 444 Em grego ldquoὍμηρος μὲν βελτίους Κλεοφῶν δὲ ὁμοίους

Ἡγήμων δὲ ὁ Θάσιος ltὁgt τὰς παρῳδίας ποιήσας πρῶτος καὶ Νικοχάρης ὁ τὴν Δειλιάδα χείρουςrdquo

(Aristotle ldquoAristotles Ars Poeticardquo) 159 Aristoacuteteles ldquoPoeacuteticardquo (1460b 8) p 468 Em grego ldquoἐπεὶ γάρ ἐστι μιμητὴς ὁ ποιητὴς ὡσπερανεὶ

ζωγράφος ἤ τις ἄλλος εἰκονοποιός ἀνάγκη μιμεῖσθαι τριῶν ὄντων τὸν [10] ἀριθμὸν ἕν τι ἀεί ἢ γὰρ

οἷα ἦν ἢ ἔστιν ἢ οἷά φασιν καὶ δοκεῖ ἢ οἷα εἶναι δεῖrdquo (Aristotle ldquoAristotles Ars Poeticardquo) 160 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre VII (VII 5 1) p 22-23 ldquonamque pictura imago fit eius quod est seu

potest esse uti homines aedificia naues reliquarumque rerum e quibus finitis certisque corporibus figurata

similitudine sumuntur exempla Ex eo antiqui qui initia expolitionibus insituerunt imitati sunt primum

103

Essa breve passagem reuacutene uma seacuterie de noccedilotildees caras ao De Architectura e

auxilia a elucidar seus empregos na concatenaccedilatildeo do escrito Novamente nos

deparamos com a evocaccedilatildeo dos antiqui dessa feita como garantes das normas de

pintura a serem instaladas nos aposentos da edificaccedilatildeo Natildeo satildeo quaisquer normas

mas um conjunto de regras precisas que se propotildeem a apresentar as coisas definidas

e certas como satildeo (quibus finitis certisque) A imagem pictoacuterica (pictura imago) se vale

dos exemplos (exempla) das coisas existentes e procura na semelhanccedila (similitudine) dos

corpos os criteacuterios para a figuraccedilatildeo Os antigos primeiramente imitaram (imitati sunt)

diz Vitruacutevio as variedades e disposiccedilotildees dos revestimentos marmoacutereos

Posteriormente ldquopassaram a imitar as figuras dos edifiacutecios as saliecircncias proeminentes

das colunas e dos frontotildeesrdquo161 Foram pintados ldquoportos promontoacuterios litorais rios

fontes canais santuaacuterios bosques montes rebanhos pastoresrdquo162 e tambeacutem

simulacros dos deuses em grandes dimensotildees as guerras Troianas as erracircncias de

Ulisses por paisagens aleacutem de ldquooutras coisas que de modo semelhante a essas satildeo

produzidas pela natureza das coisasrdquo163 Interessa aqui sobretudo sublinhar a sentenccedila

final que direciona todos os temas pictoacutericos agrave semelhanccedila da natureza (ceteraque quae

sunt eorum similibus rationibus ab rerum natura procreata)

crustarum marmorearum uarietates et collocationes deinde coronarum siliculorum cuneorum inter se uarias

distributionesrdquoTomamos de empreacutestimo da traduccedilatildeo de Maciel a soluccedilatildeo ldquobandas separadorasrdquo para

verter ldquocuneorumrdquo genitivo plural de cuneus Vale ainda apontar a concordacircncia dessa passagem de

Vitruacutevio com as recomendaccedilotildees que Aristoacuteteles faz na Poeacutetica acerca do verossiacutemil cf Aristoacuteteles

ldquoPoeacuteticardquo 1454a 28 p 456 161 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre VII (VII 5 2) p 23 ldquopostea ingressi sunt ut etiam aedificiorum

figuras columnarum et fastigiorum eminentes proiecturas imitarenturrdquo Sobre as questotildees pictoacutericas

envolvidas nessas passagens cf Ferri S in Vitruvio ldquoArchitetturardquo n 1-2 p 378-383 162 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre VII (VII 5 2) p 23 163 O trecho todo em latim ldquopinguntur enim portus promuntoria litora flumina fontes euripi fana luci

montes pecora pastores nonnullis locis item signorum megalographiae habentes deorum simulacra seu

fabularum dispositas explicationes non minus Troianas pugnas seu Vlixis errationes per topia ceteraque quae

sunt eorum similibus rationibus ab rerum natura procreatardquo (Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre VII -VII 5

2 - p 23) Traduccedilatildeo ldquopintaram pois portos promontoacuterios litorais rios fontes canais santuaacuterios

bosques montes rebanhos pastores tambeacutem em alguns locais estaacutetuas em grandes dimensotildees

expondo simulacros dos deuses ou de mitos igualmente as guerras Troianas as erracircncias de Ulisses

por lugares aleacutem de outras coisas que de modo semelhante a essas satildeo produzidas pela natureza das

coisasrdquo

104

Esses trechos alinham imitaccedilatildeo agrave similitude da natureza na produccedilatildeo das

imagens pictoacutericas (pictura imago) As coisas existentes e as possiacuteveis (quod est seu potest

esse) constituem os exemplos a serem imitados nas figuras que seratildeo produzidas A

partir de estudo sobre o Livro VII Marie-Theacuteregravese Cam afirma que ldquoa regra em torno

da qual ele [Vitruacutevio] insiste em 51 sem a nomear eacute aquela da mimesisrdquo164 e retoma a

questatildeo ampliando-a no comentaacuterio ao trecho

o princiacutepio em nome do qual se opera a distinccedilatildeo entre boa e maacute pintura aos olhos de

Vitruacutevio eacute aquele da μίμησις numerosos termos lembram-no em todo o capiacutetulo imago

e imitari similis e similitudo exemplum (equivalente do grego ὁμοίωμα J J Pollitt 1974

p366-367)165

Cotejados aos paraacutegrafos iniciais do Livro III em torno da descriccedilatildeo do homo

bene figuratus essas passagens do Livro VII fazem saltar agrave vista pontos de contato e

distanciamento entre as partes do De Architectura Os comentaacuterios sobre ambos os

volumes III e VII indicam a presenccedila do princiacutepio da μίμησις No Seacutetimo Volume

Vitruacutevio explicita que os antigos primeiro ldquoimitaramrdquo (imitati sunt) os maacutermores

posteriormente ldquoimitaramrdquo (imitarentur) as figuras de edificaccedilotildees bem como as

saliecircncias proeminentes das colunas e dos frontotildees Se nesses dois casos haacute μίμησις

porque Vitruacutevio natildeo teria evidenciado esse princiacutepio naquele que constitui um dos

momentos mais centrais dentre os volumes dedicados agrave aedificatio qual seja o Livro

III De fato Vitruacutevio emprega um termo correlato similiter Entre as proporccedilotildees do

corpo do homem e as razotildees meacutetricas buscadas ao edifiacutecio sagrado haacute uma relaccedilatildeo de

semelhanccedila indicada pelo adveacuterbio similiter mas tambeacutem pela partiacutecula ldquoutirdquo e a

expressatildeo ldquocum causardquo conectando natura e antiqui166 Se em ambos Livros III e VII

tem-se em vista a figura a ser produzida ldquouniversam figurae speciemrdquo (em III 1 4) e

ldquofigurata similitudinerdquo (em VII 5 1) respectivamente resta uma diferenccedila fundamental

entre os enunciados o Seacutetimo Volume trata de pictura imago E da imagem pintada

164 Cam M-T ldquoIntroductionrdquo in Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre VII p XXXV 165 Cam M-T in Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre VII n 3 p 127 166 Cf n 98 e n 99 supra

105

que imita (antiqui imitati sunt imitarentur) as coisas existentes para o homem bem

configurado que serve de modelo proporcional agrave toda a arte edificatoacuteria haacute uma

distacircncia consideraacutevel O homem bem configurado natildeo pode ser imitado sem mais

pelo arquiteto do mesmo modo que as obras de Lisipo teriam imitado a natureza pois

apenas o estatuaacuterio intenta plasmar homens em bronze como os que satildeo vistos

Em determinado momento do De Oratore de Ciacutecero Ceacutevola sugere ldquoporque natildeo

imitamos Crasso o Soacutecrates que estaacute no Fedro de Platatildeordquo167 Crasso responde ldquosim

mas faccedilamos com mais comodidade ainda que pedira almofadas e que todos

acomodaram-se sobre os assentos que estavam sob o plaacutetanordquo168 A imitaccedilatildeo de um

gesto retratada pelo arpinate ndash o de se sentar sob o Plaacutetano ndash comporta um acreacutescimo

ndash o uso de almofadas ndash sem que se cancele a imitaccedilatildeo Imitar um gesto nesse caso natildeo

implica necessariamente que haja uma relaccedilatildeo estreitamente fidedigna169 Sem querer

adentrar nas implicaccedilotildees dessa imagem quiccedila alegoacuterica do grupo que se assenta sob

o plaacutetano agrave construccedilatildeo do diaacutelogo vale notar por mais esse emprego do verbo imitor

que uma das dificuldades impostas pelo conceito de imitaccedilatildeo eacute a sobreposiccedilatildeo de

sentidos que frequentemente o acompanham ora exprimindo uma simples miacutemica

ora significando a imitaccedilatildeo de caracteres ou ainda como a replicaccedilatildeo proacutepria agraves artes

que forjam imagens170 No excerto ciceroniano eacute possiacutevel identificar tanto a miacutemica do

gesto de se sentar sob o plaacutetano quanto a imitaccedilatildeo do exemplo de uma escola

filosoacutefica

De volta ao De Architectura a semelhanccedila entre as proporccedilotildees do corpo do

homem e as comensurabilidades do edifiacutecio sagrado se aproximam do princiacutepio de

167 Scatolin A ldquoA invenccedilatildeo no Do Orador de Ciacutecero um estudo agrave luz de Ad Familiares I 9 23rdquo (I 28) p

152 Em latim ldquocur non imitamur Crasse Socratem illum qui est in Phaedro Platonisrdquo (Cicero ldquoDe Oratorerdquo

p 20) 168 Scatolin A ldquoA invenccedilatildeo no Do Orador de Ciacutecero um estudo agrave luz de Ad Familiares I 9 23rdquo (I 29) p

152 Em latim ldquoimmo uero commodius etiam puluinosque poposcisse et omnes in eis sedibus quae erant sub

platano consedisse dicebatrdquo (Cicero ldquoDe Oratorerdquo p 22) 169 Cf De Angeli ldquoMimesis e Technerdquo p 30 170 Cf Pollitt J J ldquoThe ancient view of greek artrdquo p 39 40

106

imitaccedilatildeo (μίμησις) Todavia o termo imitatio no escrito vitruviano parece empregado

em situaccedilotildees bastante especiacuteficas com frequecircncia vinculadas mais diretamente agrave

produccedilatildeo que resulta de algum modo em imago como atesta aliaacutes a etimologia da

famiacutelia de imitor aleacutem da descriccedilatildeo da pintura no Livro VII Imitatio nos Dez Volumes

diz respeito recorrentemente a partes ou elementos da construccedilatildeo Emular os antiqui

natildeo coincide exatamente com a imitaccedilatildeo que produz algo (uma pintura um triacuteglifo)

tampouco o homo bene figuratus eacute imitado no sentido em que um estatuaacuterio imita o

homem ou que o pintor imita as coisas que satildeo ou que podem ser Sua inserccedilatildeo no

ciacuterculo e no quadrado expotildee o interesse pelas qualidades abstratas de um modelo

geral por conseguinte desprovido de espessura e de conformidade agrave anatomia dos

homens de carne e osso

Ainda que a transferecircncia das proporccedilotildees do corpo viril agrave coluna doacuterica tenha

lhe assegurado firmeza e venustidade a transferecircncia da delicadeza da mulher agrave

coluna jocircnica tenha conferido a ela um aspecto elevado e a imitaccedilatildeo da delicadeza

virginal tenha revestido a coluna corintiacutea dos ornatos mais venustos171 vecirc-se que eacute de

outra ordem a mensagem transmitida com o homem vitruviano A imitaccedilatildeo dos

homens como satildeo vistos no sentido de suas determinaccedilotildees acidentais ndash como as

caracteriacutesticas anatocircmicas que diferenciam cada indiviacuteduo ndash ou ornamentais ndash

calccedilados cachos de cabelo dobras das vestes ndash natildeo tecircm lugar na notiacutecia do homem

bem configurado pela natureza Pois ali importa a inteligibilidade de suas razotildees

meacutetricas como garantia do aspecto da construccedilatildeo A semelhanccedila172 entre o corpo do

homem e a arquitetura eacute como a semelhanccedila que concatena astrologis e musicis naqueles

debates compartilhados (similiter cum astrologis et musicis est disputatio comuni) acerca

171 Relativamente aos caracteres Aristoacuteteles escreve na Poeacutetica que a ldquosegunda qualidade do caraacuteter eacute a

conveniecircncia haacute um caraacuteter de virilidade mas natildeo conveacutem agrave mulher ser viril ou terriacutevelrdquo (Aristoacuteteles

ldquoPoeacuteticardquo 1454a 21 p 456) Em grego ldquoδεύτερον δὲ τὸ ἁρμόττοντα ἔστιν γὰρ ἀνδρείαν μὲν τὸ ἦθος

ἀλλ᾽ οὐχ ἁρμόττον γυναικὶ οὕτως ἀνδρείαν ἢ δεινὴν εἶναιrdquo (Aristotle ldquoAristotles Ars Poeticardquo) 172 Vitruacutevio relacionava a descriccedilatildeo das proporccedilotildees do corpo do homem bem configurado aos edifiacutecios

sagrados pelo adveacuterbio similiter O terceiro ponto a ser observado relativamente aos caracteres segundo

a Poeacutetica eacute a semelhanccedila (ὅμοιον) cf Aristoacuteteles ldquoPoeacuteticardquo 1454a 23 p 456 Em grego ldquoτρίτον δὲ τὸ

ὅμοιονrdquo (Aristotle ldquoAristotles Ars Poeticardquo)

107

da harmonia das estrelas e dos acordes musicais (sympathia stellarum et

symphoniarum)173 Agrave semelhanccedila do corpo do homem podem ser constituiacutedas e

justificadas as comensurabilidades entre cada membro e a configuraccedilatildeo da totalidade

da obra

173 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre I (I 1 16) p 12 ldquosimiliter cum astrologis et musicis est disputatio

communis de symphatia stellarum et symphoniarum in quadratis et trigonis diatessaron et diapenterdquo Traduccedilatildeo

ldquode modo semelhante astroacutelogos e muacutesicos tecircm em comum a discussatildeo acerca da harmonia das estrelas

e dos acordes musicais em quadrados e em triacircngulos em quartas e em quintasrdquo

108

Figura 2 homo bene figuratus inserido no ciacuterculo e no quadrado segundo interpretaccedilatildeo

de Cesare Cesariano em ediccedilatildeo do De Architectura de 1521 Fonte Wittkower R ldquoArchitectural Principles in the age of Humanismrdquo p 24

Capiacutetulo 3

PRECEITOS PARA O ENCANTO

110

3 PRECEITOS PARA O ENCANTO

Os princiacutepios (principia) definidores dos templos tal como exposto no Livro

Terceiro baseiam-se no aspecto de sua configuraccedilatildeo (figurarum aspectus)1 Assim os

edifiacutecios sagrados se distinguem segundo o De Architectura por possuiacuterem pilastras

que prolongam as paredes laterais (in antis) colunata na parte frontal (prostylos)

colunata na parte frontal e na anterior simultaneamente (amphiprostylos) colunata ao

redor de todos os lados (peripteros) dupla colunata ao redor de todos os lados (dipteros)

espaccedilamento de dupla colunata subtraiacutedas as colunas internas (pseudodipteros)

abertura central sem telhado (hypaethros) Mas aleacutem das conformaccedilotildees (formationes) que

determinam os diversos templos estes ainda se dividem pelos intervalos existentes

entre suas colunas em cinco espeacutecies picnostilo sistilo diastilo areostilo eustilo

Vemos que os criteacuterios de diferenciaccedilatildeo em ambos os modos empregados para

categorizar os templos sustentam-se sobre a apreensatildeo de seu aspecto exterior2 Essas

designaccedilotildees articulam desde o iniacutecio efeitos sensoriais a esquemas proporcionais de

1 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III (III 2 1) p 11 ldquoaedium autem principia sunt e quibus constat

figurarum aspectus ea primum in antis quod graece ναὸς ἐν παραστάσιν dicitur deinde prostylos

amphiprostylos peripteros pseudodipteros ltdipterosgt hypaethros Horum exprimuntur formationes his

rationibusrdquo Traduccedilatildeo ldquoos princiacutepios dos templos a partir dos quais se estabelece o aspecto de sua

configuraccedilatildeo satildeo estes primeiro in antis a que os gregos dizem naoacutes en parastaacutesin entatildeo prostilo

anfiprostilo periacuteptero pseudodiacuteptero ltdiacutepterogt hipetro As conformaccedilotildees deles satildeo expressas por

essas regulaccedilotildeesrdquo 2 Para Pierre Gros o aspecto exterior dos templos ldquoeacute tributaacuterio quase unicamente da peristasis

sobretudo a colunata da fachadardquo (Gros P ldquoAurea Templardquo p 102)

111

modo que no pycnostylos do texto vitruviano eacute possiacutevel entrever o grego πυκνός3

indicando a densidade das colunas mais proacuteximas entre si num conjunto cerrado

(crebris columnis)4 O systylos indica um grupo de colunas menos contraiacutedo (paulo

remissioribus)5 O diastylos eacute ainda mais aberto (amplius patentibus) e o araeostylos tem

colunas mais separadas do que conveacutem (rare quam oportet inter se diductis)6 Finalmente

o eustylos se define por uma justa distribuiccedilatildeo dos intervalos (interuallorum iusta

distributione)7

O sentido classificatoacuterio vinculado inicialmente agraves espeacutecies (species)8 de templos

sucedendo a catalogaccedilatildeo dos princiacutepios dados pelas suas configuraccedilotildees acaba

cedendo lugar a uma acepccedilatildeo propriamente visual do termo species que ocupa a maior

parte das ocorrecircncias nos Dez Volumes Por isso dentre as desvantagens associadas

ao modo areostilo estaacute o fato de apresentar segundo Vitruacutevio uma vista (species)

escancarada aplanada baixa larga9 Por oposiccedilatildeo o ritmo eustilo eacute o mais aprovado

3 Cf Bailly A ldquoAbregeacute du Dictionnaire Grec-Franccedilaisrdquo p 768 Cf Ainda Gros P in Vitruve ldquoDe

LrsquoArchitecturerdquo Livre III n 2 p 99 4 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III (III 3 1) p 14 5 Ibid (III 3 1) p 14 Segundo Gros o termo em questatildeo se constitui pelo prefixo σύν mais στῦλος

natildeo apresentando conexatildeo com o termo grego συστολή (que designa contraccedilatildeo) embora tambeacutem

indique colunas cerradas mas segundo a progressatildeo que se estabelece aos intercoluacutenios das ritmaccedilotildees

apresentadas (Gros P in Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III n 3 p 99) 6 Ibid (III 3 1) p 14 7 Ibid (III 3 1) p 14 8 Pierre Gros entende o termo species de III 1 1 como subordinado ao gecircnero ldquospecies eacute aqui o

equivalente do εἶδος platocircnico ou aristoteacutelico designa as espeacutecies no interior de um gecircnerordquo (Gros P

in Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III n 1 p 98) Haveria ainda uma correspondecircncia entre

principia e genera ldquoisso significa que no interior de cada principium ou genus pode-se em princiacutepio

encontrar as cinco species definidas nesse capiacutetulordquo (ibid n 1 p 98) 9 Vitruacutevio ldquoTratado de Arquiteturardquo Traduccedilatildeo do latim introduccedilatildeo e notas M Justino Maciel Satildeo

Paulo Martins Fontes 2007 (III 3 5) p 179 Em latim ldquoet ipsarum aedium species sunt uaricae

barycephalae humiles lataerdquo (Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III p 16) Eacute de se notar ainda um

antropomorfismo nos dois primeiros adjetivos uaricae podendo designar as pernas afastadas o grego

βαρύς (barys) segundo Chantraine quer dizer ldquopesadordquo e tambeacutem ldquopenoso difiacutecil de suportarrdquo

(Chantraine P ldquoDictionnaire eacutetymologique de la langue grecque Histoire des motsrdquo p 165) a partir

do que barycephalae suscita a imagem de uma cabeccedila pesada κεφαλή (kephaleacute) remetendo agrave cabeccedila ou

extremidade (ibid p 522)

112

quanto agrave vista (ad speciem) propiciada mas entre as qualidades superiores somam-se

ainda aquelas relativas ao uso (ad usum) e agrave firmeza (ad firmitatem)10

Figura 1 Principia dos templos 1- templo in antis 2- templo prostilo 3- templo

anfiprostilo Fonte Gros P in Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III p 79

10 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III (III 3 6) p 16 ldquoreddenda nunc est eustyli ratio quae maxime

probabilis et ad usum et ad speciem et ad firmitatem rationes habet explicatasrdquo Traduccedilatildeo ldquodeve ser reportado

agora o modo eustilo que possui regulaccedilotildees desenvolvidas sendo maximamente aprovado quanto ao

uso ao aspecto e agrave firmezardquo

113

Figura 2 Principia dos templos 4- templo periacuteptero 5- templo

periacuteptero sem posticum 6 - templo pseudodiacuteptero 7- templo diacuteptero Fonte Gros P in Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III p 80

114

Figura 3 Species de templos A- ritmo picnostilo B- ritmo sistilo

C- ritmo diastilo Fonte Gros P in Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III p 100

115

Figura 4 Species de templos D- ritmo areostilo E- ritmo eustilo Fonte Gros P in Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III p 101

116

O espaccedilamento preceituado para o intervalo entre as colunas determina a

ritmaccedilatildeo modular das cinco espeacutecies de templos mas soacute posteriormente satildeo

apresentadas as proporccedilotildees das espessuras das colunas em relaccedilatildeo a suas alturas

Desse modo lecirc-se que o picnostilo deve ter um intercoluacutenio de uma vez e meia11 a

espessura da coluna o sistilo deve possuir intercoluacutenio de duas vezes12 a espessura da

coluna o diastilo deve ter intercoluacutenio de trecircs vezes13 a espessura da coluna o eustilo

ritmo mais excelente deve ter intercoluacutenio de duas vezes e um quarto14 a espessura da

coluna quanto ao areostilo Vitruacutevio natildeo apresenta prescriccedilatildeo ao intercoluacutenio15 Essa

primeira exposiccedilatildeo leva a supor a espessura da coluna como moacutedulo que serve de

referecircncia tanto aos intercoluacutenios definidores das cinco espeacutecies de ritmaccedilotildees quanto

agraves respectivas alturas recomendadas16 Em III 3 10 satildeo apresentadas as relaccedilotildees entre

espessuras e alturas das colunas

nos templos areostilos as colunas devem ser feitas de modo que suas espessuras tenham a

oitava parte da altura No diastilo a altura da coluna deve ser medida em oito partes e

meia e uma dessas partes deve ser posta como espessura da coluna No sistilo a altura

deve ser dividida em nove partes e meia das quais uma deve ser dada agrave espessura da

coluna No picnostilo a altura deve ser dividida em dez e delas uma parte faraacute a espessura

da coluna Jaacute a altura das colunas do templo eustilo como do sistilo devem ser divididas

em nove partes e meia e delas uma parte seraacute tomada como a espessura do imoscapo17

11 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III (III 3 2) p 14 12 Ibid (III 3 2) p 14 13 Ibid (III 3 4) p 15 14 Ibid (III 3 6) p 16 15 Devido ao espaccedilamento mais pronunciado Vitruacutevio assinala a impossibilidade de se construir

arquitrave de pedra ou maacutermore nessa ritmaccedilatildeo cf ibid (III 3 5) p 15-16 Isso levaria a inferir para o

areostilo um intercoluacutenio com espaccedilamento superior a trecircs vezes a espessura da coluna que eacute o maior

espaccedilamento proposto anteriormente cf Gros P in Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III n 1 p 117 16 Em III 3 7 Vitruacutevio explicita a correspondecircncia entre espessura da coluna e moacutedulo ldquocuius moduli

unius erit crassitudinis columnarumrdquo (Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III p 17) Traduccedilatildeo ldquocada

moacutedulo seraacute constituiacutedo pela espessura da colunardquo 17 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III (III 3 10) p 18-19 ldquoaedibus araeostylos columnae sic sunt

faciendae uti crassitudines earum sint partis octauae ad altitudines Item in diastylo dimetienda est altitudo

columnae in partes octo et dimidium et unius partis columnae crassitudo conlocetur In systylo altitudo diuidatur

in nouem et dimidiam partem et ex eis una ad crassitudinem columnae detur Item in pycnostylo diuidenda est

altitudo in decem et eius una pars facienda est columnae crassitudo Eustyli autem aedis columnae ut systyli in

nouem partes altitudo diuidatur et dimidiam partem et eius uma pars constituatur in crassitudine imi scapirdquo

117

Altura da coluna da

coluna

(em relaccedilatildeo agrave espessura)

Intercoluacutenio

AREOSTILO 8 -

DIASTILO 8frac12 3

SISTILO 9frac12 2

PICNOSTILO 10 1frac12

EUSTILO 9frac12 2frac14

Tabela 1 Comparaccedilatildeo entre a seacuterie que relaciona as alturas das colunas agraves espessuras (III 3 10)

e as prescriccedilotildees de intercoluacutenios segundo as ritmaccedilotildees dos templos (III 3 2 - III 3 6)

O que se depreende poreacutem nessa prescriccedilatildeo (III 3 10) eacute que a espessura deve

se adaptar agrave altura da coluna invertendo o modo de exposiccedilatildeo da seacuterie anterior que

fazia justamente da espessura da coluna o moacutedulo a partir do qual os espaccedilamentos

dos intercoluacutenios eram obtidos18 Aqui parece admitir-se implicitamente como

constante a altura da coluna o que implicaria na alteraccedilatildeo de sua espessura para

manter a relaccedilatildeo proporcional Vitruacutevio conclui a passagem afirmando ldquoita habebitur

pro rata parte intercolumniorum ratiordquo19 De difiacutecil interpretaccedilatildeo conforme observado por

Gros20 essa frase procura vincular o modo de estabelecimento dos intercoluacutenios

(intercolumniorum ratio) a uma constante (rata parte) ao passo que o excerto todo (III 3

10) fixava a altura da coluna para que se encontrasse seu diacircmetro (a cada espeacutecie de

ritmaccedilatildeo de templo obtinha-se a espessura da coluna a partir de uma parte tomada agrave

sua altura) Daiacute emerge a sugestatildeo de que se interprete a sentenccedila ldquoita habebitur pro rata

parte intercolumniorum ratiordquo como a indicaccedilatildeo da possibilidade de se mudar de

variante ldquoque se parta de um diacircmetro constante ou de uma altura constante o

resultado eacute o mesmo desde que se conheccedila a ratio isto eacute a relaccedilatildeo que liga o valor do

18 Cf Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III (III 3 2 - III 3 6) p 14-16 19 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III - III 3 10 - p 19 Traduccedilatildeo ldquoassim a regulaccedilatildeo dos

intercoluacutenios seraacute estabelecida por uma parte determinada (rata parte)rdquo 20 Gros P in Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III n 6 p 118

118

intercoluacutenio o diacircmetro da coluna e sua alturardquo21 A frase seguinte no texto de Vitruacutevio

(em III 3 11) natildeo contraria essa leitura invertendo mais uma vez a perspectiva em

torno do elemento construtivo a ser ajustado ndash mas dentro do mesmo sistema

relacional ndash ao propor alteraccedilotildees na espessura da coluna caso o intercoluacutenio seja

ampliado ldquocom efeito na mesma medida em que aumentam os espaccedilos entre as

colunas devem ser acrescentadas em proporccedilatildeo as espessuras dos fustesrdquo22

Pierre Gros chama atenccedilatildeo ainda para essa ruptura entre III 3 10 e III 3 11 que

entende na esteira de Silvio Ferri como uma marca da mudanccedila da fonte a que

Vitruacutevio recorreria23 Se em ambos os casos a resultante eacute equivalente do ponto de

vista aritmeacutetico24 o segundo enunciado apontaria no entanto para questotildees da ordem

das correccedilotildees oacuteticas segundo Gros25 De fato o vocabulaacuterio da segunda exposiccedilatildeo

evidencia preocupaccedilotildees visuais e inicia uma seacuterie de prescriccedilotildees de ajustes oacuteticos26

que vatildeo pontuar todo o desenvolvimento do Livro Terceiro A atenccedilatildeo recai portanto

ao modo como as espeacutecies de templo aparecem (appareo) aos olhos de maneira que um

acreacutescimo no intercoluacutenio requer o aumento proporcional da espessura das colunas27

Vitruacutevio propusera ao areostilo uma espessura de coluna possuindo a oitava parte da

altura28 Instrui em seguida que se o mesmo areostilo tiver espessura de coluna com a

21 Gros P in Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III n 6 p 118 22 Vitruacutevio ldquoTratado de Arquiteturardquo (III 3 11) p 182 Em latim ldquoquemadmodum enim crescunt spatia

inter columnas proportionibus adaugendae sunt crassitudines scaporumrdquo (Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo

Livre III p 19) 23 Gros P ldquoAurea Templardquo p 103 24 Eacute possiacutevel obter uma ritmaccedilatildeo equivalente do ponto de vista das relaccedilotildees numeacutericas seja mantendo

a espessura da coluna constante com alteraccedilatildeo do intercoluacutenio e da altura da coluna seja conservando

sua altura constante e alterando as outras variaacuteveis quais sejam intercoluacutenio e espessura 25 Gros P ldquoAurea Templardquo p 103 ldquose aritmeticamente as duas formulaccedilotildees satildeo equivalentes a

segunda se baseia na realidade em um sistema de correccedilotildees oacuteticas extraiacutedo certamente de uma fonte

diferenterdquo 26 Segundo Ferri ldquoportanto de uma outra fonte certamente tambeacutem essa heleniacutestica a qual trata as

correccedilotildees oacuteticas a serem aplicadas aos valores geomeacutetricos do edifiacutecio para que assumam ao aspecto a

sua justa lsquoauctoritasrsquo Vitruacutevio produz toda uma seacuterie de ulteriores adaptaccedilotildees e acomodaccedilotildees que ao

menos potencialmente tenderiam a esvaziar e a anular a natureza do intercoluacutenio mais ou menos

longordquo (Ferri S in Vitruvio ldquoArchitettura ndash dai libri I-VIIrdquo n 11 p 186) 27 Cf n 22 supra 28 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III (III 3 10) p 18

119

nona ou deacutecima parte de sua altura pareceraacute tecircnue e delgado pois devido ao

espaccedilamento largo dessa modalidade de edifiacutecio o ar corroacutei por assim dizer e

diminui a espessura da coluna alterando negativamente seu aspecto (aspectus)29

Vitruacutevio exemplifica ainda com o picnostilo afirmando que se esse modo possuir

espessura de oitava parte da altura devido ao estreitamento dos intercoluacutenios

produziraacute uma vista (species) entumecida e sem encanto (inuenustam) Em outras

palavras alterar a relaccedilatildeo proporcional de uma espeacutecie de templo significa

descaracterizaacute-lo desprovecirc-lo daquilo que o compotildee ndash seu aspectus sua species ndash em

funccedilatildeo do que lhes foram atribuiacutedos os nomes ldquoassim conveacutem perseguir as

comensurabilidades (symmetrias) dos gecircneros de obrasrdquo30 Embora os ritmos de

intercoluacutenios tivessem sido tratados inicialmente por species31 Vitruacutevio bascula a

terminologia e os agrupa como genera referenciais agraves comensurabilidades a serem

buscadas (itaque generis operis oportet persequi symmetrias)

O proacuteximo passo propotildee a primeira adiectio no livro dos templos de acordo com

a qual ldquoas colunas angulares devem ser feitas mais espessas a quinquageacutesima parte de

seu diacircmetrordquo32 Esse ajuste eacute explicado por Vitruacutevio como a intenccedilatildeo de tornar tais

partes mais agradaacuteveis agrave vista do espectador revertendo o efeito causado pelo ar que

parece cortaacute-las ao seu redor Vitruacutevio conclui a proposiccedilatildeo exortando o emprego do

29 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III (III 3 11) p 19 ldquoNamque si in araeostylo nona aut decima pars

crassitudini fuerit tenuis et exilis apparebit ideo quod per latitudinem intercolumniorum aer consumit et

inminuit aspectu scaporum crassitudinemrdquo Traduccedilatildeo ldquopois se no areostilo a espessura for da nona ou da

deacutecima parte apareceraacute tecircnue e atrofiado porque devido agrave largura dos intercoluacutenios o ar consume e

diminui o aspecto da espessura dos fustesrdquo 30 Ibid (III 3 11) p 19 ldquoitaque generis operis oportet persequi symmetriasrdquo 31 Natildeo apenas no sentido visual evocado pelo vocaacutebulo mas possivelmente no sentido classificatoacuterio de

emprego do termo cf n 2 supra 32 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III (III 3 11) p 19 ldquoetiamque angulares columnae crassiores facienda

sunt ex suo diametro quinquagesima parte quod eae ab aere circumciduntur et graciliores uidentur esse

aspicientibusrdquo Traduccedilatildeo ldquoas colunas angulares devem ser feitas mais espessas a quinquageacutesima parte

de seu diacircmetro pois elas satildeo cortadas ao redor pelo ar e pareceratildeo mais delgadas aos espectadoresrdquo

120

raciociacutenio para equilibrar as distorccedilotildees produzidas pelo olho ldquoergo quod oculus fallit

ratiocinatione est exaequandumrdquo33

31 Contratura e Ecircntase

Apoacutes prescrever o aumento das colunas angulares Vitruacutevio trata das

contraturas das colunas De acordo com Pierre Gros a contratura ou diminuiccedilatildeo do

diacircmetro da parte alta da coluna em relaccedilatildeo ao diacircmetro da base natildeo constitui uma

correccedilatildeo oacutetica mas apenas um procedimento usual de sua fabricaccedilatildeo34 Todavia o

arquiteto romano enumera uma seacuterie de indicaccedilotildees proporcionais que relacionam a

diminuiccedilatildeo do diacircmetro de sua base (imoscapo) ateacute a parte alta (sumoscapo) com a

altura total da coluna

quanto agraves contraturas nos cimos dos hipotraqueacutelios35 das colunas entende-se que

devem ser feitas de modo que se a coluna tiver de um miacutenimo ateacute quinze peacutes a

espessura36 inferior deve ser dividida em seis partes e cinco delas devem constituir a

33 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III (III 3 11) p 19 Traduccedilatildeo ldquoportanto o raciociacutenio deve

equilibrar o que engana o olhordquo 34 Cf Gros P in Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III n 2 p 121-122 No Livro V Vitruacutevio iraacute propor

uma analogia entre o estreitamento do tronco da aacutervore agrave medida em que fica mais alta e a arquitetura

que a imita cf capiacutetulo 2 ldquoRazotildees do Corpordquo em especial a seccedilatildeo ldquoΜίμησις Imitatio Similitudordquo 35 Segundo Maciel os hipotraqueacutelios dizem respeito agrave ldquoparte superior dos fustes por vezes decorada

com linhas circulares paralalelas filetes ou aneacuteis vestigiais na pedra das marcas de corte de serra no

protoacutetipo de madeira Eacute consitituinte ainda do fuste como aqui afirma o texto vitruviano O

hipotraqueacutelio termina com um ressalto ou uma moldura saliente a apoacutefigerdquo (Maciel M J in Vitruacutevio

n 67 p 182) 36 O termo empregado por Vitruacutevio eacute ldquocrassitudordquo a que todas as traduccedilotildees consultadas vertem por

ldquodiacircmetrordquo (Maciel ldquodiacircmetrordquo Gros ldquodiamegravetrerdquo Ferri ldquodiametrordquo Granger ldquodiameterrdquo) Embora

saibamos pelo Livro I que a geometria eacute uma disciplina que deve estar presente na formaccedilatildeo do

arquiteto natildeo parece ser o caso aqui de recorrer a um expediente de estabelecimento de medida da

coluna a partir de sua descriccedilatildeo geomeacutetrica A consideraccedilatildeo da crassitudo nesse trecho natildeo implica

necessariamente a preponderacircncia de suas propriedades matemaacuteticas mas da massa corpoacuterea a

espessura que a constitui e que sofre um afilamento agrave medida que se eleva verticalmente (contractura)

Ao que parece a coluna aqui natildeo eacute tomada como ente abstrato mas como corpo denso muito embora

em III 3 11 Vitruacutevio prescreva o espessamento das colunas de acircngulo pela quinquageacutesima parte de seu

ldquodiametrordquo Nesse passo talvez Vitruacutevio queira dizer que em qualquer ponto da coluna de acircngulo em

que se fizesse uma seccedilatildeo horizontal esta deveria se mostrar aumentada da sua quinquageacutesima parte

121

espessura do cume Igualmente a coluna que tiver de quinze a vinte peacutes deve ter o

imoscapo dividido em seis partes e meia das quais cinco e meia faratildeo a espessura

superior da coluna Do mesmo modo as que tiverem de vinte a trinta peacutes devem ter o

imoscapo dividido em sete partes e delas seis perferatildeo a contratura elevada Quanto agrave

coluna de trinta a quarenta peacutes de altura a extremidade inferior deve ser dividida em

sete partes e meia das quais seis e meia teratildeo como razatildeo de contratura no topo As

colunas que tiverem de quarenta a cinquenta peacutes do mesmo modo devem ser divididas

em oito partes que devem ser contraiacutedas a sete no sumoscapo sob o capitel Tambeacutem

se as colunas forem mais altas devem ser constituiacutedas a partir do mesmo modo na

determinaccedilatildeo das contraturas37

Altura da coluna

(em peacutes)

Diacircmetro inferior em

relaccedilatildeo ao diacircmetro

superior

ateacute 15 65

15-20 6555

20-30 76

30-40 7565

40-50 87

Tabela 2 Contraturas prescritas agraves diferentes alturas de colunas

37 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III (III 3 12) p 20 ldquocontracturae autem in summis columnarum

hypotracheliis ita faciendae uidentur uti si columna sit ab minimo ad pedes quinos denos ima crassitudo diuidatur

in partes sex et earum partium quinque summa constituatur Item quae erit ab quindecim pedibus ad pedes uiginti

scapus imus in partes [septem superior crassitudo columnae] sex et semissem diuidatur earumque partium

quinque et semisse superior crassitudo columnae fiat Item quae erunt a pedibus uiginti ad pedes triginta scapus

imus diuidatur in partes septem earumque sex summa contractura perficiatur Quae autem ab triginta pedibus

ad quadraginta alta erit ima diuidatur in partes septem et dimidiam ex his sex et dimidiam in summo habeat

contracturae ratione Quae erunt ab quadraginta pedibus ad quinquaginta item diuidendae sunt in octo partes

et earum septem in summo scapo sub capitulo contrahantur Item si quae altiores erunt eadem ratione pro rata

constituantur contracturaerdquo

122

Se a contratura ela mesma natildeo constitui um ajuste da ordem das adiectio e

retractio a prescriccedilatildeo do montante de variaccedilatildeo da espessura parece sim constituir um

ajuste desse tipo O que eacute indicado na continuidade do texto pelo uso do termo

adiciuntur ldquoesses ajustes (temperaturae) satildeo adicionados (adiciuntur) agraves espessuras

[]rdquo38 Vitruacutevio propotildee uma seacuterie em que a espessura da coluna se reduz menos agrave

medida em que sua altura aumenta Por exemplo uma coluna de ateacute 15 peacutes possui

uma relaccedilatildeo de 65 entre o imoscapo e o sumoscapo enquanto que uma coluna de 40

a 50 peacutes possui a relaccedilatildeo de 87 entre suas espessuras A relaccedilatildeo 87 eacute menor que 65

logo haacute uma reduccedilatildeo menor da espessura em uma coluna maior Como eacute possivel

chamar uma reduccedilatildeo progressiva39 de adiccedilatildeo (adiectio) Justamente por ser progressiva

e variar acrescentando espessura agraves colunas maiores (que sofrem menor reduccedilatildeo)

aleacutem do que ela se aparta do procedimento trivial da contratura constituindo-se

expediente especial que altera as relaccedilotildees de medidas Comparando os ajustes

prescritos agraves respectivas alturas observamos uma diminuiccedilatildeo proporcional da

contratura agrave medida que a coluna fica mais alta Logo esse acreacutescimo relativo do ajuste

proporcional do fuste pode ser entendido como adiectio40

Daiacute tambeacutem o texto vitruviano sustentar que os ajustes proporcionais se

adicionam agraves espessuras ldquopor causa da distacircncia que se eleva em altura dos raios

visuais41 ao olho (oculi species)rdquo42 Pois o aspecto visual eacute o que determina a proporccedilatildeo

obtida pela reduccedilatildeo do diacircmetro da coluna em funccedilatildeo de sua altura afinal como

sustenta Vitruacutevio ldquoa visatildeo persegue as venustidadesrdquo43 E ldquose natildeo somos acariciados

38 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III (III 3 13) p 20-21 ldquohaec autem [] adiciuntur crassitudinibus

temperaturaerdquo 39 As prescriccedilotildees de contratura variam segundo a seacuterie 65 = 120 gt 6555 = 118 gt 76 = 116 gt 7565 =

115 gt 87 = 114 40 Cf Gros P in Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III n 1 p 122 Cf ainda n 33 supra 41 Segundo Bluteau ldquoem phrase Optica Especies se chamaoacute os rayos da luz diversamente reflexos pella

desigualdade da superficie dos corpos amp que na Tunica do olho chamada Retinea fazem humas

impressoens que saoacute causas da visaoacuterdquo (Bluteau R ldquoVocabulario Portuguez e Latinordquo vol III p 262) 42 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III (III 3 13) p 20 ldquopropter altitudinis interuallum scandentis oculi

speciesrdquo Cf ainda Gros P in Vitruve op cit n 2 p 123 acerca de species interpretado como genitivo 43 Ibid (III 3 13) p 21 ldquouenustates enim persequitur uisusrdquo

123

pelo prazer advindo da proporccedilatildeo e das adiccedilotildees modulares de modo que o que falta

seja aumentado por meio de ajustes um aspecto devastado e sem graccedila seraacute remetido

aos observadoresrdquo44 completa Vitruacutevio Vale notar primeiramente tal como aponta

Pierre Gros a consonacircncia da frase ldquouenustates enim persequitur uisusrdquo com a proacutepria

definiccedilatildeo de eurhytmia de I 2 3 ldquoeurhytmia est uenusta speciesrdquo sendo o termo species

entendido nesses contextos como as impressotildees daquilo que se persegue com a visatildeo

(uisus)45 O trecho que segue ndash ldquocuius si non blandimur uoluptati proportione et modulorum

adiectionibusrdquo ndash alinha termos vinculados ao campo da venustidade remetendo

consequumlentemente ao conceito de eurhytmia e ao mesmo tempo a termos do acircmbito da

noccedilatildeo de symmetria46 blandior e uoluptas ndash par que se vincula semanticamente aos

domiacutenios do encanto ligado agrave uenustas proportio e modulus ndash par associado agrave

matemaacutetica modular da symmetria a qual se supotildee embasar toda a aedificatio47 Temos

assim eurhytmia e symmetria vinculados pelo expediente da adiectio um dispositivo de

ajuste meacutetrico da obra arquitetocircnica que ocorre no aumento proporcional do fator que

regula a contratura e mais nitidamente na ecircntase48 ndash o acreacutescimo da espessura no meio

44 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III (III 3 13) p 21 ldquoVenustates enim persequitur uisus cuius si non

blandimur uoluptati proportione et modulorum adiectionibus uti quod fallitur temperatione adaugeatur uastus

et inuestus conspicientibus remittetur aspectusrdquo 45 Cf Gros P in Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III n 3 p 123-124 46 Segundo Gros (ibid n 3 p 123-124) a dupla exigecircncia de symmetria e uenustas estaacute expressa na

descriccedilatildeo da ratio uenustatis de I 3 2 ldquo[ratio] uenustatis uero [erit habita] cum fuerit operis species grata et

elegans membrorumque commensus iustas habeat symmetriarum ratiocinationesrdquo (Vitruve ldquoDe

LrsquoArchitecturerdquo Livre I p 20) Traduccedilatildeo ldquoos princiacutepios relativos agrave venustidade seratildeo obtidos quando

houver uma vista agradaacutevel e elegante da obra e a comensuraccedilatildeo de seus membros tiver justos

raciociacutenios de comensurabilidades (symmetriarum)rdquo 47 A composiccedilatildeo dos templos assenta na symmetria (aedium compositio constat ex symmetria) afirma

Vitruacutevio em III 1 1 Como essa ordem de construccedilotildees eacute exemplar agrave toda sorte de edificaccedilatildeo (cum in

omnibus operibus ordines traderent maxime in aedibus deorum - Vitr III 1 4) conclui-se que a symmetria

tem papel fundamental agrave toda aedificatio 48 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III (III 3 13) p 21 ldquode adiectione quae adicitur in mediis columnis

quae apud Graecos ἔντασις appellatur in extremo libro erit forma ltetgt ratio eius quemadmodum mollis et

conueniens efficiatur subscriptardquo Traduccedilatildeo ldquoda adiectio que promove acreacutescimos na parte meacutedia da

coluna chamada eacutentasis entre os gregos haveraacute desenho e regra ao fim do livro indicando de que modo

eacute feita com suavidade e concordacircnciardquo A ediccedilatildeo francesa do De Architectura estabelecida por Pierre

Gros bem como a italiana de Silvio Ferri trazem mesmo o vocaacutebulo em grego ἔντασις Para Ferri

haveria aiacute um erro ortograacutefico ldquode fato lsquoadiectiorsquo natildeo significa ἔντασις mas προσθήκη πρόσθεσις

ἔνθεσις ἐπιβολή ou siacutemiles nem ἔντασις pode ser traduzido por lsquoadiectiorsquo mas por lsquointentiorsquo

lsquocontentiorsquo e similaresrdquo (Ferri S in Vitruvio ldquoArchitetturardquo n 13 p 193) Embora de todo consolidado

124

da coluna ndash cujo esquema Vitruacutevio promete expor ao fim do livro Tais formae contudo

natildeo nos chegaram

Acerca ainda da ecircntase Gros se vale de uma passagem de Geminos ou Heron49

tomada como referecircncia agrave interpretaccedilatildeo proposta ao tratar da necessidade dessa

adiectio afirmando que ldquoo arquiteto deve realizar uma obra harmoniosa agrave visatildeordquo50 A

questatildeo dos descaminhos desse fragmento a que se recorre frequentemente na

interpretaccedilatildeo de passagens do De Architectura seraacute tratada agrave frente Mas vale por hora

antecipar que os termos empregados para designar essa obra ldquoharmoniosa agrave visatildeordquo

satildeo eurythmon e phantasiacutean 51 Segundo Ferri a passagem de Geminus-Damianos

forneceria uma explicaccedilatildeo para o ajuste ldquoo corpo ciliacutendrico da coluna engastado entre

estiloacutebata e arquitrave apareceria como estreitando-se (στενούμενον) ao centro por

isso se deve recorrer a um remeacutedio e fazer o centro ligeiramente mais grosso

(εὐρύτερον)rdquo52

32 Estiloacutebata

Com relaccedilatildeo agraves bases dos templos o De Architectura prevecirc tambeacutem uma adiectio

aos estiloacutebatas ldquosuperfiacutecies ou pavimentos dos templos onde assentam as colunasrdquo53

segundo Maciel Vitruacutevio escreve que ldquoconveacutem assim equilibrar o estiloacutebata de modo

o termo ecircntase proveacutem para Ferri de um possiacutevel erro de transcriccedilatildeo subvertendo a vogal ldquoerdquo por ldquoardquo

e transformado ldquoenthesisrdquo em ldquoenthasisrdquo O coacutedice S (Selestadiensis 1153 bis) traria ldquoenthasisrdquo em vez

de ldquoentasisrdquo como se lecirc no H atestando a corrupccedilatildeo do termo (ibid p 193) Para Gros a ideia de tensatildeo

contida no termo ἔντασις justificaria seu emprego em Vitruacutevio (Gros P in Vitruve ldquoDe

LrsquoArchitecturerdquo Livre III n 5 p 124) 49 Cf Gros P in Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III n 1 p 122-123 cf infra n 96 50 Ibid n 5 p 124-125 51 ldquoΠρός φαντασίαν εὔρυθμον ποιῆσαι τὸ ἔργονrdquo apud Gros op cit n 5 p 125 52 Ferri S in Vitruvio ldquoArchitetturardquo n 13 p 192 Essa justificaccedilatildeo oacutetico-eurriacutetmica no entanto de

acordo com Ferri valeria apenas para os templos da metade do seacuteculo V em diante natildeo explicando o

emprego desse expediente em obras do seacuteculo VI como a ldquoBasiacutelicardquo de Paestum e a ldquoTavole Paladinerdquo

de Metaponto (ibid n 13 p 192) 53 Vitruacutevio ldquoTratado de Arquiteturardquo n 74 p 185

125

que tenha no meio uma adiectio obtida com os niveladores de altura desigual54

[scamillos inpares] pois se for alinhado em niacutevel pareceraacute cocircncavo ao olhordquo55

Constata-se no excerto em questatildeo novamente um procedimento que interveacutem no

edifiacutecio e tem por fim ou ao menos reivindica como meta a visatildeo da obra na medida

em que procura evitar a impressatildeo de concavidade (alueolatum oculo uidebitur) que o

estiloacutebata nivelado produziria A orientaccedilatildeo de Vitruacutevio eacute de que a base do templo

onde se assentam as colunas deve ser realizada de modo a possuir uma adiectio no

meio compondo uma curvatura no conjunto Segundo o texto esta convexidade

construiacuteda anularia a percepccedilatildeo de concavidade a que tende a visatildeo relativamente a

uma superfiacutecie plana

A expressatildeo scamilli inpares suscitou muita controveacutersia pois tal como no caso

da ecircntase Vitruacutevio promete um desenho ao fim do livro explicando o processo de

obtenccedilatildeo dessa adiectio56 mas o esquema natildeo chegou ateacute noacutes e dezenas de hipoacuteteses

foram elaboradas desde o seacuteculo XVI a ponto da expressatildeo ser considerada por

Claude Perrault ldquoumas das coisas mais difiacuteceis e obscuras em Vitruacuteviordquo57 A hipoacutetese

de Burnouf retomada por Goodyear de que os scamilli inpares seriam instrumentos

desiguais como que marcos ou balizas permitindo a obtenccedilatildeo de uma curva a partir

da horizontal lanccedilou luz ao problema eliminando a possibilidade de que os scamilli

fossem tomados por componentes da proacutepria obra A preposiccedilatildeo ldquoperrdquo que antecede a

expressatildeo indicaria tratar-se de um instrumento aleacutem do valor semacircntico do termo

scamnum (origem do diminutivo scamillus) por vezes designando objetos como

banquetas assentos ou escadinhas conforme observa Pierre Gros58 O estudioso

54 Trata-se de uma soluccedilatildeo encontrada por Maciel (Vitruacutevio ldquoTratado de Arquiteturardquo p 186) para

verter ao portuguecircs a controversa expressatildeo scamillos inpares 55 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III (III 4 5) p 23-24 ldquostylobatam ita oportet exaequari uti habeat per

medium adiectionem per scamillos inpares si enim ad libellam dirigetur alueolatum oculo uidebiturrdquo 56 Ibid (III 4 5) p 24 ldquohoc autem ut scamilli ad id conuenientes fiant item in extremo libro forma et

demonstratio erit descriptardquo Traduccedilatildeo ldquosobre isso a que os niveladores de altura (scamilli) tornam

concordantes igualmente haveraacute ao fim do livro desenho e demonstraccedilatildeo descritardquo 57 Gros P in Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III n 5 p 140 58 Ibid n 5 p 139-145

126

noticia ainda as descobertas de vestiacutegios arqueoloacutegicos por D Mertens apontando para

um procedimento um tanto diferente daquele proposto por Burnouf mas natildeo

incompatiacutevel com a sua orientaccedilatildeo geral59 A questatildeo natildeo estaacute em definitivo encerrada

embora essas interpretaccedilotildees pareccedilam oferecer algum alento face a obscuridade que

envolvia a expressatildeo

Os scamilli tornam a curvatura do estiloacutebata concordante (hoc autem ut scamilli

ad id conuenientes fiant )60 e por consequecircncia agradaacutevel agrave visatildeo voltada ao poacutedio Do

mesmo modo as partes que o compotildeem ndash plinto espira ortostatos cornijas e

emolduramento ndash devem harmonizar-se ao estiloacutebata sob a base das colunas61 Feito

isso escreve Vitruacutevio deve-se dispor as bases das colunas em seus lugares segundo as

symmetriae que prescreve agraves bases (spirae) aacutetica e jocircnica Em seguida recomenda que

as colunas medianas do pronau e da parte posterior do templo sejam dispostas agrave

prumo quanto a seu eixo central (ad perpendiculum medii centri conlocandae) As colunas

angulares e as que seguem seu alinhamento nos lados maiores devem estar no

entanto agrave prumo na ldquofacerdquo voltada agrave cela (uti partes interiores quae ad parietes cellae

spectant ad perpendiculum latus habeant conlocatum) e devem seguir as recomendaccedilotildees

anteriores de contratura (segundo III 3 12) em sua ldquofacerdquo exterior (exteriores autem

partes uti dictum ltantegt de earum contractura)62 Eacute possiacutevel entrever que a sutileza destas

59 Segundo Gros Mertens teria descoberto na base do templo de Segesta incisotildees em cruz cujas hastes

horizontais estariam em niacutevel Elas serviriam de referecircncia a pranchas fixadas com pregos no eixo

determinando a ldquoflechardquo da curvatura cujos pontos seriam marcados por uma corda ou corrente Como

exatamente ocorreriam as transferecircncias das medidas da base nivelada aos pontos da curva fica sem

resposta Se a hipoacutetese de Mertens tem o meacuterito de se basear em vestiacutegios arqueoloacutegicos de um meacutetodo

aparentemente simples deixa contudo sem explicaccedilatildeo a significaccedilatildeo ldquoconcretardquo do termo scamillo (Gros

P in Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III n 5 p 142-144) 60 Cf n 56 supra cf n 48 supra 61 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III (III 4 5) p 23 ldquosin autem circa aedem ex tribus lateribus podium

faciendum erit ad id constituatur uti quadrae spirae trunci coronae lysis ad ipsum stylobatam qui erit sub

columnarum spiris conueniantrdquo Traduccedilatildeo ldquomas se em trecircs lados ao redor do templo fizer-se poacutedio ele

deve ser constituiacutedo de maneira que os plintos as espiras [molduras de base] os blocos de cantaria as

cornijas e o emolduramento concordem com o proacuteprio estiloacutebata que estaraacute sob as bases (spiris) das

colunasrdquo 62 Ibid (III 5 4) p 25 ldquospiris perfectis et conlocatis columnae sunt medianae in pronao et postico ad

perpendiculum medii centri conlocandae angulares autem quaeque e regione earum futurae sunt in lateribus

aedis dextra ac sinistra uti partes interiores quae ad parietes cellae spectant ad perpendiculum latus habeant

127

prescriccedilotildees requerem agrave obra uma complexa elaboraccedilatildeo A curvatura do estiloacutebata por

si soacute jaacute impunha dificuldades teacutecnicas nem um pouco negligenciaacuteveis agrave construccedilatildeo de

todas as partes superiores do templo A implantaccedilatildeo das colunas de sua parte

variando conforme a posiccedilatildeo acrescenta ainda mais desafios agrave arte de construir com

primor

33 Arquitrave

Vitruacutevio deteacutem-se agraves prescriccedilotildees para as arquitraves a que chama no Livro

Terceiro epistylia63 Em outras partes do De Architectura o termo latino designa a noccedilatildeo

geral que abarca ainda o entablamento aproximando-se do valor etimoloacutegico do

vocaacutebulo que remete a tudo o que estaacute sobre a coluna conforme aponta Pierre Gros64

A passagem do texto que apresenta as prescriccedilotildees para as arquitraves (III 5 8)

conta com acreacutescimos e supressotildees de termos em seu estabelecimento pelos editores

de modo que as versotildees de Silvio Ferri65 e Pierre Gros66 sempre indicando as alteraccedilotildees

propostas acrescentam ambas ldquoin scapisrdquo e suprimem ldquosymmetria epistyliorumrdquo A

ediccedilatildeo de Antonio Corso e Elisa Romano por sua vez natildeo opera qualquer das duas

conlocatum exteriores autem partes uti dictum ltantegt de earum contracturardquo Traduccedilatildeo ldquotendo sido

concluiacutedas e dispostas suas bases (spirae) as colunas medianas do pronau e da face posterior devem ser

dispostas a prumo quanto ao seu eixo central poreacutem as angulares e aquelas que ficaratildeo em sua mesma

direccedilatildeo nas laterais direita e esquerda do templo deveratildeo ser dispostas de modo que as partes interiores

voltadas para as paredes da cela tenham essa lsquofacersquo a prumo enquanto as partes exteriores deveratildeo

apresentar contratura tal como foi exposto anteriormenterdquo Cf Gros P in Vitruve ldquoDe

LrsquoArchitecturerdquo Livre III n 1 e 2 p 154-155 63 Cf Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III (III 5 8) p 28 64 Cf Gros P in Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III n 2 p 176 65 Vitruvio ldquoArchitetturardquo Dai libri I-VII Introduzione di Stefano Maggi testo crititico traduzione e

commento di Silvio Ferri Milano BUR 2002 p 204 66 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III (III 5 8) p 28 ldquocapitulis perfectis deinde ltin scapisgt columnarum

non ad libellam sed ad aequalem modulum conlocatis ut quae adiectio in stylobatis facta fuerit in superioribus

membris respondeat [symmetria epistyliorum] epystiliorum ratio sic est habenda uti []rdquo Traduccedilatildeo

ldquocompletos os caipiteacuteis depois dispostos nas colunas natildeo em niacutevel mas em modulaccedilatildeo equilibrada de

modo que esta adiectio que tinha sido feita no estiloacutebata tenha correspondecircncia nos membros

superiores a regulaccedilatildeo das arquitraves deve ser feita assim []rdquo

128

modificaccedilotildees ao texto vitruviano67 enquanto a ediccedilatildeo inglesa de Granger suprime ldquoin

scapisrdquo e manteacutem ldquosymmetria epistyliorumrdquo68 De todo modo eacute possiacutevel depreender em

todas elas a ideia de transferecircncia da curvatura do estiloacutebata para a arquitrave (quae

adiectio in stylobatis facta fuerit in superioribus membris respondeat) A adiectio aplicada agrave

base deve portanto concordar com uma adiectio proposta aos elementos horizontais

que se apoiam sobre os capiteacuteis das colunas Para Pierre Gros a expressatildeo symmetria

epistyliorum deve ser suprimida uma vez que aleacutem de natildeo se ajustar bem agrave sintaxe do

trecho produziria ambiguidade69 Por sua vez a expressatildeo ldquoad aequalem modulum

conlocatisrdquo de III 5 8 reivindicaria medida e moacutedulo a uma operaccedilatildeo exclusivamente

manual de obtenccedilatildeo da curvatura superior com referecircncia na de base efetuada por

meio dos scamilli inpares70 Desperta inquietaccedilatildeo nos comentadores71 essa suposta

promiscuidade entre a noccedilatildeo de modulus e uma tarefa manual de transferecircncia de

medidas da adiectio do estiloacutebata para a arquitrave Ademais segundo essa

67 Vitruvio ldquoDe Architecturardquo Volume Primo Traduzione e commento de Antonio Corso e Elisa

Romano Torino Giulio Einaudi editore p 258 Aleacutem da ediccedilatildeo de Corso e Romano apenas a de

Fensterbuch recusa a supressatildeo de symmetria epistyliorum ao contraacuterio ainda das de Rose Choisy e

Krohn de acordo com Gros (Gros P In Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III n 3 p 176) 68 Vitruvius ldquoOn Architecturerdquo Vol I p 190 69 Segundo Gros ldquocette locution introduit une ambiguiumlteacute ruineuse puisqursquoelle eacutetablit une confusion

entre deux types de proceacutedures et deux genres de corrections optiques qursquoil est difficile drsquoimputer agrave

Vitruverdquo (Gros P In Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III n 3 p 176) Traduccedilatildeo ldquoessa expressatildeo

introduz uma ambiguidade ruinosa pois estabelece uma confusatildeo entre dois tipos de procedimentos e

dois gecircneros de correccedilotildees oacuteticas o que eacute difiacutecil de imputar a Vitruacuteviordquo No entanto natildeo fica claro nesse

comentaacuterio quais seriam os dois gecircneros de correccedilotildees oacuteticas mencionados Seraacute possiacutevel supor que um

diria respeito agrave adiectio (como aquela obtida no estiloacutebata pelos scamilli inpares) e o outro a alguma

alteraccedilatildeo de symmetria como aquela proposta ao intercoluacutenio central do templo eustilo que deve ter 3

vezes a espessura da coluna em vez de 2frac14 conforme eacute prescrito aos espaccedilamentos dessa ritmaccedilatildeo em

III 3 6 70 Cf n 55 e 56 supra 71 Gros P in Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III n 3 p 176 ldquoon peut certes discuter de la leacutegitimiteacute

du terme modulum comme le fait justement Fensterbusch p 546 n 196 car il ne srsquoagit ni de mesure ni

de modules mais drsquoune courbure obtenue par des moyens empiriquesrdquo Traduccedilatildeo ldquopode-se certamente

discutir a legitimidade do termo modulum como faz justamente Fensterbusch p 546 n 196 pois natildeo se

trata nem de medida nem de moacutedulos mas de uma curvatura obtida por meios empiacutericosrdquo

129

interpretaccedilatildeo a adiectio consistiria apenas em uma correccedilatildeo ou ajuste nas relaccedilotildees e

comesurabilidades (symmetriae) jaacute estabelecidas previamente72

No Livro Primeiro (I 2 2) lecirc-se que a ordinatio ldquoeacute o acordo das medidas dos

membros da obra tomados separadamente e a comparaccedilatildeo das proporccedilotildees no conjunto

global para se obter symmetriardquo73 A ordenaccedilatildeo diz respeito agrave quantidade dita em grego

ποσότης a qual ldquoconsiste em tomar moacutedulos de membros da proacutepria obra bem como

na efetuaccedilatildeo conveniente da totalidade da obra a partir de cada uma das partes dos

seus membrosrdquo74 segundo I 2 2 Ora as palavras ldquoad aequalem modulumrdquo de III 5 8

remetem a noccedilotildees presentes na definiccedilatildeo de ordinatio que assume o moacutedulo no que

concerne agraves quantidades que compotildeem a obra em suas relaccedilotildees de symmetria De fato

natildeo se vecirc em III 5 8 uma exposiccedilatildeo mais pormenorizada das quantidades como em

III 3 7 que atualiza a definiccedilatildeo de ordinatio de I 2 2 descrevendo os

desenvolvimentos do templo eustilo em que o moacutedulo eacute assimilado agrave espessura da

coluna75 Mas isso seria o bastante para identificar uma incoerecircncia nos usos dos

termos modulus e conlocatio na prescriccedilatildeo da adiectio da arquitrave Em III 5 8 o termo

ldquoconlocatisrdquo remete agrave terminologia usada na definiccedilatildeo de dispositio exposta tambeacutem em

I 2 2 como a ldquocolocaccedilatildeo adequada dos elementos e a execuccedilatildeo elegante da composiccedilatildeo

da obra relativamente agrave qualidaderdquo76

A passagem de III 5 8 natildeo poderia referir-se a um procedimento ndash algo distinto

da prescriccedilatildeo de uma adiectio ndash que visa a tomar moacutedulos de porccedilotildees da proacutepria obra

72 O processo de construccedilatildeo da curvatura do estiloacutebata serve de referecircncia agraves arquitraves que natildeo satildeo

niveladas no plano horizontal (non ad libellam) O termo libella havia sido empregado em III 4 5 (si enim

libellam dirigetur) em torno da proposta de correccedilatildeo visual por meio dos scamilli inpares Cf n 55 supra 73 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre I (I 2 2) p 14 ldquoordinatio est modica membrorum operis commoditas

separatim uniuerseque proportionibus ad symmetriam comparatiordquo 74 Ibid (I 2 2) p 15 ldquoQuantitas autem est modulorum ex ipsius operis ltmembrisgt sumptio e singulisque

membrorum partibus uniuersi operis conueniens effectusrdquo 75 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III (III 3 7) p 17 ldquoitem ex his partibus siue tetrastyli siue hexastyli

siue octastyli una pars sumatur eaque erit modulus Cuius moduli unius erit crassitudinis columnarumrdquo

Traduccedilatildeo ldquoigualmente destas partes tomamos uma e ela seraacute o moacutedulo seja do tetrastilo do hexastilo

ou do octastilo Cada moacutedulo desses seraacute equivalente agrave espessura das colunasrdquo 76 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre I (I 2 2) p 15 ldquodispositio autem est rerum apta conlocatio elegansque

compositionibus effectus operis cum qualitaterdquo

130

estabelecendo uma concordacircncia com outras porccedilotildees dessa mesma obra Isto eacute

tomaria moacutedulos do estiloacutebata (cuja adiectio teria sido explicada por esquemas ao fim

do livro) como referecircncia a outras partes da obra tendo em vista a comensurabilidade

do todo Esta leitura implicaria ao menos para essa passagem uma compreensatildeo mais

ampla do termo modulus que natildeo estaria vinculado estritamente a partes definidas da

obra como por exemplo a base da coluna Mas talvez a principal questatildeo a ser feita

aqui eacute se modulus e adiectio satildeo mesmo noccedilotildees antagocircnicas isto eacute se as quantidades

determinadas de moacutedulos que servem agrave ordinatio da obra constituem um expediente

incompatiacutevel com as quantidades acrescentadas pelos ajustes das adiectiones Em

outras palavras o estiloacutebata contendo ajustes natildeo poderia servir de moacutedulo agrave

arquitrave Afinal Vitruacutevio natildeo diz na definiccedilatildeo de symmetria que o acordo

conveniente entre as partes e o todo da obra e de suas partes entre si exclui os ajustes

eurriacutetmicos77 Assim a palavra ldquomodulumrdquo de III 5 8 parece retomar os termos da

definiccedilatildeo de ordinatio prevendo a preparaccedilatildeo das medidas e ldquoconlocatisrdquo parece

remeter agrave definiccedilatildeo de dispositio descrevendo as tarefas elementares do arquiteto pois

tendo sido determinadas as quantidades eacute preciso em seguida estabelecer uma

configuraccedilatildeo agrave obra que observe as qualidades de suas partes

No De Architectura se apresenta em seguida as epistyliorum ratio ou seja um

conjunto de prescriccedilotildees voltadas a regrar agora sim claramente as medidas das

arquitraves

a regulaccedilatildeo das arquitraves deve ser feita assim se as colunas tiverem um miacutenimo de

12 ateacute quinze peacutes que a altura da arquitrave seja a metade da espessura da base da

coluna se as colunas tiverem de 15 a 20 peacutes que se divida a altura da coluna em treze

partes e de uma se faccedila a altura da arquitrave de 20 a 25 peacutes que se divida a altura da

77 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre I (I 2 4) p 16 ldquoItem symmetria est ex ipsius operis membris

conueniens consensus ex partibusque separatis ad uniuersae figurae speciem ratae partis responsus Vti in hominis

corpore e cubito pede palmo digito ceterisque particulis symmetros est eurythmiae qualitas sic est in operum

perfectionibusrdquo Traduccedilatildeo ldquopor sua vez symmetria eacute o acordo conveniente dos membros da proacutepria obra

entre si e a correlaccedilatildeo de uma determinada parte dentre as partes separadas com a vista do conjunto

da figura Do mesmo modo que no corpo do homem desde o cocircvado o peacute o palmo o diacutegito e outras

partes a comensurabilidade eacute uma qualidade eurriacutetmica assim ocorre na realizaccedilatildeo das obras

131

coluna em 12 partes e meia e com uma delas se faccedila a altura da arquitrave de 25 a 30

peacutes que se divida a altura da coluna em 12 partes e com uma delas se faccedila a altura da

arquitrave 78

Vale notar nessas prescriccedilotildees a coexistecircncia de dois sistemas um para as

colunas de quinze a vinte peacutes outro para as demais O primeiro relaciona a altura da

arquitrave ao diacircmetro de base da coluna ao passo que o outro propotildee uma

progressatildeo crescente da arquitrave em funccedilatildeo da progressatildeo crescente da altura das

colunas Em outras palavras nesse segundo sistema quanto maior a coluna maior a

arquitrave

Altura das colunas

(em peacutes)

Altura da arquitrave

Com relaccedilatildeo agrave altura

das colunas

Com relaccedilatildeo ao

diacircmetro inferior

12-15 12

15-20 113

20-25 1125

25-30 112

Tabela 3 Os dois sistemas para obtenccedilatildeo das alturas das arquitraves Fonte Gros P In Vitruve De LrsquoArchitecture Livre III n 4 p 177

Gros propotildee estabelecer uma seacuterie a partir do primeiro sistema (dado apenas

para um grupo de colunas o de 15 a 20 peacutes) associado ao diacircmetro inferior aplicando-

o (altura da arquitrave igual agrave metade do diacircmetro inferior da coluna) agraves

78 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III (III 5 8) p 28- 29 ldquoepistyliorum ratio sic est habenda uti si

columnae fuerint a minima XII pedum ad quindecim pedes epistylii sit altitudo dimidia crassitudinis imae

columnae item ab XV pedibus ad XX columnae altitudo dimetiatur in partes tredecim et unius partis altitudo

epistylii fiat item si a XX ad XXV pedes diuidatur altitudo in partes XII et semissem et eius una pars epistylium

in altitudine fiat item si ab XXV pedibus ad XXX diuidatur in partes XII et eius una pars altitudo fiatrdquo

132

recomendaccedilotildees anteriores (expostas em III 3 10) de relaccedilotildees entre espessura da coluna

e altura para as espeacutecies de templos prescritas previamente (areostilo diastilo sistilo

eustilo e picnostilo) a fim de que se pudesse visualizar o comportamento desse

primeiro sistema em diferentes alturas de colunas uma vez que foi dado apenas para

um grupo (de 12-15 peacutes) Constata entatildeo que agrave medida que a altura da coluna

aumenta a altura da arquitrave diminui Isso contraria o sentido da progressatildeo do

segundo sistema de III 5 8 em que se obteacutem uma arquitrave de altura maior para uma

coluna de altura maior

Ritmo da colunata

Altura da arquitrave (12 da espessura

da coluna) da categoria menor (12-15

peacutes) obtida da relaccedilatildeo entre espessura e

altura das colunas (segundo III 3 10)

Areostilo 116 (E = 18 de H)

Diastilo 117 (E = 185 de H)

Sistilo

Eustilo

119 (E = 195 de H)

Picnostilo 120 (E = 110 de H)

Tabela 4 Aplicaccedilatildeo do primeiro sistema de obtenccedilatildeo de alturas de arquitraves agraves prescriccedilotildees de

III 3 10 Fonte Gros P In Vitruve De LrsquoArchitecture Livre III n 4 p 178

Ora isso leva Gros a concluir que se trata de dois sistemas de regulaccedilatildeo

distintos justapostos e inconciliaacuteveis O primeiro privilegiaria a relaccedilatildeo tectocircnica que

se estabelece entre o peso da arquitrave e seu suporte daiacute o aumento da altura das

arquitraves com o aumento da espessura das colunas e vice-versa Jaacute o segundo

exibiria preocupaccedilotildees relacionadas ao efeito visual produzido pelas dimensotildees das

133

peccedilas de modo que a uma coluna maior ndash que torna os elementos do alto mais

distantes ndash cabe um aumento na arquitrave para corrigir a alteraccedilatildeo que a ampliaccedilatildeo

da distacircncia produz agrave visatildeo79 Mesmo sendo dois sistemas estrangeiros entre si a

coerecircncia na continuidade da exposiccedilatildeo de Vitruacutevio cuja sequecircncia eacute enumerada pela

repeticcedilatildeo da partiacutecula ldquoitemrdquo deixa inequiacutevoco o caraacuteter unitaacuterio do texto80 aleacutem da

ausecircncia de eventuais corrupccedilotildees ou acreacutescimos posteriores agrave passagem E o trecho

dedicado agraves arquitraves se encerra com uma espeacutecie de generalizaccedilatildeo do segundo

modo de obtenccedilatildeo das alturas dessas peccedilas ldquoigualmente as alturas das arquitraves

devem ser estabelecidas a partir de uma parte determinada segundo a mesma regra

com relaccedilatildeo agraves alturas das colunasrdquo81

O que se segue no texto explicita as preocupaccedilotildees visuais como escopo Pois

uma vez que a arquitrave se localiza nas porccedilotildees mais altas do templo a atenccedilatildeo se

volta para as distorccedilotildees ocasionadas pela distacircncia do olho aos elementos

arquitetocircnicos

com efeito quanto mais alto estiver o raio visual em relaccedilatildeo ao olho menos facilmente

atravessa a densidade do ar assim dissipado pela distacircncia da altura e exaurido de

suas forccedilas devolve aos sentidos uma quantidade incerta de moacutedulos Por esse motivo

sempre eacute preciso que se adicione um suplemento para a regulaccedilatildeo dos membros

envolvidos nas relaccedilotildees de symmetria de modo que possuam uma relaccedilatildeo adequada

entre as grandezas sejam elas obras em lugares muito altos sejam elas proacuteprias obras

colossais82

Em conformidade a esse procedimento recomendado que procura corrigir a

distorccedilatildeo devida agrave distacircncia soacute cabe o segundo tipo de prescriccedilatildeo o do aumento da

79 Gros P in Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III n 4 p 177-179 80 Cf ibid n 4 p 177-179 Gros se baseia tambeacutem nos estudos de B Wesenberg a essa questatildeo 81 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III (III 5 8) p 29 ldquoitem rata parte ad eundem modum ex altitudine

columnarum expediendae sunt altitudines epistyliorumrdquo 82 Ibid (III 5 9) p 29 ldquoquo altius enim scandit oculi species non facile persecat aeris crebritatem dilapsa itaque

altitudinis spatio et uiribus exuta incertam modulorum renuntiat sensibus quantitatem Quare semper

adiciendum est rationi supplementum in symmetriarum membris ltutgt cum fuerit [ut] aut altioribus locis opera

aut etiam ipsa colossicotera habeant magnitudinum rationemrdquo

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altura da arquitrave atrelado ao aumento da altura da coluna a visatildeo que tanto mais

se eleva promove uma impressatildeo de deformaccedilatildeo do que se contempla Se a

dificuldade visual se amplia com o aumento da distacircncia natildeo faz sentido que o

primeiro modo de estabelecimento da altura da arquitrave ndash que diminui com o

aumento da distacircncia ou da altura da coluna ndash tenha como horizonte um ajuste visual

E o trecho subsequente deixa claro que a adiectio eacute necessaacuteria (adiciendum est) aos

pontos mais altos da obra bem como agraves obras colossais

Pierre Gros propotildee que nessa passagem Vitruacutevio esteja seguindo um texto

grego de skenographiacutea heleniacutestica do qual se tem notiacutecia a partir das Definitiones de

Heron de Alexandria83 Ao mesmo tempo a expressatildeo oculi species estabelece um ponto

de contato com as prescriccedilotildees anteriores de adiectio sobretudo de III 3 13 (que falava

da variaccedilatildeo nas contraturas e na ecircntase) ao reclamar dispositivos destinados a corrigir

as distorccedilotildees na visatildeo da obra A adiectio proposta agrave arquitrave consiste na previsatildeo da

regulaccedilatildeo proporcional de grandezas (magnitudinum rationem) e eacute pautada pelo

conjunto de relaccedilotildees de symmetria que perpassa cada parte da obra sem perder de vista

o conjunto

Vitruacutevio conclui esse assunto afirmando que a arquitrave eacute mais larga em sua

parte alta ndash cuja largura deve ser igual agrave espessura da base da coluna ndash do que em sua

base que ao repousar sobre o capitel deve ter em sua largura a dimensatildeo do diacircmetro

do topo da coluna84

83 Gros reporta que segundo se lecirc nas Definitiones de Heron de Alexandria ldquoa finalidade do arquiteto eacute

tornar a obra harmoniosa em sua aparecircnciardquo (Gros P in Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III n 1

p 179) Abordaremos agrave frente certas questotildees relativas a esse escrito e sua controversa autoria 84 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III (III 5 9) p 29 ldquoepystilii latitudo in imo quod supra capitulum

erit quanta crassitudo summae columnae sub capitulo erit tanta fiat summum quantum imus scapusrdquo

Traduccedilatildeo ldquoa largura da base da arquitrave que estaraacute sobre o capitel deve ter a espessura do

sumoscapo abaixo do capitel a largura do topo da arquitrave deve ter a espessura da imoscapordquo Pierre

Gros nos lembra ainda que eacute possiacutevel identificar a partir de templos construiacutedos em Roma que a

largura da base da arquitrave foi durante um largo periacuteodo maior que o diacircmetro superior da coluna

inversamente ao que propotildee a preceptiva O exemplo fornecido eacute o do templo de Apolo in Circo que

contaria com uma arquitrave de largura inferior de 13m apoiada sobre a parte superior da coluna com

diacircmetro de aproximadamente 12m (Gros P in Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III n 6 p 181)

135

34 Entablamento

Agraves partes mais altas dos edifiacutecios sagrados satildeo prescritos ajustes cuja finalidade

atestada no escrito vitruviano circunscreve igualmente as precauccedilotildees visuais85 para

com a obra Fica prevista assim a inclinaccedilatildeo do conjunto elevado ldquotodos os membros

que estaratildeo acima dos capiteacuteis das colunas isto eacute arquitraves frisos cornijas

tiacutempanos frontotildees e acroteacuterios devem inclinar-se agrave frente em 112 de sua alturardquo86

O iniacutecio de III 5 9 marcava a atenccedilatildeo agraves questotildees concernentes ao que os olhos

captam (quo altius enim scandit oculi species) A justificativa para a inclinaccedilatildeo do

entablamento (compreendendo o conjunto de elementos situados acima dos capiteacuteis

das colunas) em 112 de sua altura exposta em III 5 13 reitera essa sorte de

preocupaccedilatildeo

quando paramos diante do frontispiacutecio e prolongamos duas linhas a partir do olho

atingindo uma delas a parte inferior do templo e a outra o seu topo a que tocar o ponto

mais alto seraacute a mais extensa Assim quanto mais longa eacute a linha de visatildeo que avanccedila

para a parte superior mais inclinada para traacutes nos surge no seu aspecto87

Desses apontamentos temos um vislumbre da distacircncia que por vezes se encontra entre o escrito de

Vitruacutevio e remanescentes de construccedilotildees antigas

85 O que se atesta pelas expressotildees ldquoab oculordquo ldquouisusrdquo ldquoeius speciemrdquo ldquoin aspecturdquo (Vitruve ldquoDe

LrsquoArchitecturerdquo Livre III - III 5 13 - p 31-32) 86 Vitruve ldquoDe LrsquoArchitecturerdquo Livre III (III 5 13) p 31 ldquomembra omnia quae supra capitula columnarum

sunt futura id est epistylia zophora coronae tympana fastigia acroteria inclinanda sunt in fronte suae cuiusque

altitudinis parte XIIrdquo Vale apontar que tanto a ediccedilatildeo francesa editada por Pierre Gros (Vitruve ldquoDe

LrsquoArchitecturerdquo Livre III - III 5 13 - p 31) quanto aquela em liacutengua portuguesa traduzida por M J

Maciel (Vitruacutevio ldquoTratado de Arquiteturardquo - III 5 13 - p 194-195) designam por entablamento (nos

subtiacutetulos agraves respectivas traduccedilotildees agrave passagem) o conjunto de membros ou elementos arquitetocircnicos

situados acima do capitel da coluna segundo descrito em III 5 13 No entanto os esquemas graacuteficos

realizados por Lawrence para o templo jocircnico preveem ao entablamento apenas arquitrave friso e

cornija sem incluir os elementos superiores tiacutempano frontatildeo e acroteacuterio (Lawrence A W ldquoArquitetura

gregardquo traduccedilatildeo Maria Luiza Moreira de Alba Satildeo Paulo Cosac amp Naify 1998) W Goodyear adota

igualmente essa classificaccedilatildeo que separa o entablamento (entablature) incluindo arquitrave friso e

cornija do frontatildeo (pediment) o qual engloba os elementos dispostos acima do entablamento

(Goodyear W H ldquoGreek refinements studies in temperamental architecturerdquo p 29) 87 Vitruacutevio ldquoTratado de Arquiteturardquo (III 5 13) p 195 Em latim ldquoideo quod cum steterimus contra frontes

ab oculo lineae duae si extensae fuerint et una tetigerit imam operis partem altera summam quae summam

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As prescriccedilotildees de ajustes oacuteticos concentram-se no do Livro III voltado ao

gecircnero jocircnico E nessa passagem Vitruacutevio expotildee a intenccedilatildeo dos expedientes de

correccedilatildeo preceituando que se execute na obra o inverso da distorccedilatildeo produzida ao

olho neutralizando-a ldquose poreacutem como acima foi escrito estiverem inclinados para a

frente entatildeo [os membros acima do capitel] pareceratildeo diante dos olhos como dispostos

a fio de prumo e esquadrordquo88

35 Skenographiacutea

Um fragmento de autoria incerta conhecido pelo tiacutetulo ldquoO que eacute o

cenograacuteficordquo (Τί τὸ σκηνογρφικόν) atribui ao arquiteto a ta