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RAINHA GINGA: MAJESTADES DA MEMRIA NEGRA 1

MAURCIO WALDMAN 2

Reconhecidamente, a sucesso de agravos cometidos pela expanso europeia ao longo do globo configurou um extenso pronturio de atrocidades postas em prtica para impor a hegemonia ocidental.

Nesta perspectiva, o amordaamento da memria popular constituiu uma das prticas mais recorrentes. Contudo, povos, grupos e naes jamais abdicaram de estratgias de resistncia, repudiando a imposio da amnsia.

No caso dos africanos e da dispora afrodescendente, reaes exitosas suplantaram as omisses das narrativas ocidentais, assim como a investidura de regimes de sentido alheios cultura e histria das populaes que os conquistadores pretendiam subjugar.

Nesse cenrio, a fora auferida no imaginrio popular pela Rainha Nzinga (1582-1663), chefe guerreira angolana conhecida como Ginga entre os brasileiros, das mais significativas, marcando indelevelmente o imaginrio construdo a respeito desta notvel soberana (Figura 1).

Atravs de muitos feitos audaciosos nos campos de batalha, levados a cabo durante 40 anos de luta implacvel, Nzinga celebrizou-se pelo sucesso nos embates com os exrcitos colonialistas e o trfico de escravos.

A histria registra indomvel esprito de luta. Repetidamente os relatos destacam a rainha liderando em pessoa seus comandados, marchando para o combate frente da tropa.

Exercendo papel de liderana com argcia e clareza poltica, seu nome tornou-se personificao icnica do repdio ao domnio colonial e exaltao das lutas pela liberdade dos povos no representados.

Descrita pelos cronistas como mulher de beleza encantadora e dotada de personalidade forte, Nzinga distinguiu-se tambm como estrategista e diplomata. Nzinga organizou formidvel coligao poltica sob sua gide. Apoiada numa vasta coalizo de reinos locais, a rainha combateu sem trguas a invaso portuguesa.

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FIGURA 1: A Rainha Nzinga na concepo do prestigiado ilustrador norte-americano Tim OBrien, popularizada pela capa de Nzingha: Warrior Queen of Matamba (2000), da escritora e novelista afro-estadunidense Patricia McKissack.

Resistiu at os ltimos dias de sua vida sem jamais ter sido capturada. Quando de sua morte, aos 82 anos, Nzinga j tinha seu nome inscrito na histria: estivera testa do mais longo empreendimento militar contra o colonialismo portugus em todo o mundo.

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No admira ento que sua atuao tenha suscitado longa linhagem de rainhas guerreiras, mulheres peritas na arte da guerra que durante oitenta anos deram sequncia luta de expulso dos invasores colonialistas e dos traficantes de escravos.

No que igualmente estaria longe de constituir um acaso, o levante antilusitano de 1961 teve na regio da Matamba - que Nzinga havia transformado numa verdadeira fortaleza da liberdade em Angola - um dos estopins da grande insurreio nacional que colocaria para sempre um ponto final no domnio estrangeiro.

Consagrada como herona nacional de Angola, a soberana lembrada no nome dos logradouros, equipamentos pblicos e monumentos. Na dispora negra, seu nome lembrado em prosa e verso, narrativas que cheias de esperana, desafiam as trevas do racismo, do preconceito e da excluso social.

Nessa tica afianada por uma memria viva, o fascnio despertado pela biografia incomum da rainha terminou por ungir Nzinga como representao emblemtica de uma identidade que no se deixa submeter, se erguendo orgulhosamente em franco desafio arrogncia dos dominadores.

neste sentido que podemos traar no s uma linha de continuidade que reintroduz continuamente a saga da rainha guerreira nos tempos presentes, como tambm compreender as conexes que atam perpetuamente as margens brasileiras e africanas do Atlntico entre si.

Tal declinao impe o veredicto da memria coletiva. Com efeito, a Rainha tem seu nome associado instituio do quilombo. Palavra que nas lnguas do tronco bantu 3

significa acampamento armado, quilombo diz respeito a uma forma de organizao combatente criada originalmente pelos Jaga 4, guerreiros temidos por sua coragem e valentia.

Na frica, o quilombo configurou uma mquina de guerra centralizada, liderada por um guerreiro dentre guerreiros, referenciado por uma matriz transcultural e aberto a toda sorte de influncias.

A pedra de toque da ao quilombola era a guerra de desgaste: ataques e recuos, marchas e contramarchas, estratgia vital para cansar e desmantelar o esquema do invasor colonialista.

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Neste exato sentido, o quilombo brasileiro pelo seu contedo manifesto, inspirado neste modelo angolano, adotado por Nzinga na guerra contra os portugueses.

A noo de quilombo, enraizada na memria de milhes de angolanos, foi por sua vez transportada para o Brasil nos pores dos navios, encontrando no pas larga receptividade como forma de resistncia.

Prefigurando um modelo de democracia plurirracial que o pas ainda busca instituir, o quilombo recebeu de braos abertos todos os que se insurgiram contra a ordem colonial. Enquanto identidade poltica, o quilombo se confundiu gerao aps gerao, com o grito da liberdade e da aspirao por uma sociedade justa.

Neste recorte, interessante observar que Zumbi dos Palmares e a Rainha Nzinga, notveis lderes quilombolas, foram historicamente contemporneos. Ou seja: criando obstculos de toda ordem para o regime escravocrata nos dois lados do Atlntico, foram protagonistas de uma conflagrao que pela primeira vez na histria desenhou uma frente comum intercontinental contra a escravido.

nesta dinmica que o vocbulo ginga - neologismo datado do sculo XVII - conquista conotao etimolgica na linguagem coloquial brasileira.

Com efeito, a palavra ginga, corruptela de Nzinga, se vincula ao exerccio da superao de obstculos, onde a esperteza inverte posies momentaneamente desfavorveis, se impondo por intermdio da mobilidade e do aproveitamento das falhas de um adversrio dotado de mais armas e recursos.

Assim, na fala do dia a dia do Brasil, ginga uma forma de enganar a adversidade. Est presente no passe do futebolista no gramado, a gira do capoeirista na peleja corpo-a-corpo, o rebolado cativante da mulher, o meneio de corpo do sambista. Situaes que metaforicamente recordam os circunlquios tticos da Rainha Nzinga.

Em suma: luz, hoje legendria, dessa liderana dotada de excepcional vontade poltica, o fascnio despertado por Nzinga continua a encantar milhes de admiradores nos dois lados do Atlntico.

Memria de Ginga, Memria de Lutas. Memria de todo o Povo Brasileiro!

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1 Texto motivacional elaborado para o Dia Nacional da Conscincia Negra de 2014 a partir de atuao em sala de aula em cursos na rea de afro-educao e materiais preliminares do autor elaborados para conferncias no transcorrer do decnio 2003-2013, particularmente junto ao Centro de Estudos Africanos da Universidade de So Paulo (CEA-USP), entidade na qual o autor participou durante dez anos como professor. Rainha Ginga: Majestades da memria Negra foi primeiramente publicado na forma de artigo pelo jornal O Imparcial, de Presidente Prudente (SP), edio de Quarta-feira, 19-11-2014, pgina 3a. No ano de 2017, sob titularidade da Editora Kotev, este material foi revisado, masterizado e levemente ampliado com o fito de insero no meio digital e na Internet.2 MAURCIO WALDMAN jornalista, consultor, editor, professor universitrio e antroplogo africanista. Na trajetria de Waldman constam: graduao em Sociologia (USP, 1982), mestrado em Antropologia (USP, 1997), doutorado em Geografia (USP, 2006), ps-doutorado em Geocincias (UNICAMP, 2011), ps-doutorado em Relaes Internacionais (USP, 2013) e ps-doutorado em Meio Ambiente (PNPD-CAPES, 2015). Waldman atuou como consultor internacional da Cmara de Comrcio Afro-Brasileira e professor nos cursos de capacitao do Centro de Estudos Africanos da USP (CEA-USP). Maurcio Waldman responde pela autoria de dezenas de textos cientficos centrados no temrio de frica & Africanidades, artigos publicados pelo Jornal Cultura (Luanda, Angola), revista Brasil-Angola Magazine (So Paulo) e Portal Instituto Afro (So Paulo). Waldman autor de Africanidade, Espao e Tradio: A Topologia do Imaginrio Espacial Tradicional Africano na fala griot sobre Sundjata Keita do Mali (Revista frica, CEA-USP, Editora Humanitas, 1997-1998), paper considerado internacionalmente relevante pelo CNRS - Centre National de la Recherche Scientifique (Frana). tambm coautor de Memria Dfrica: A temtica africana em sala de aula (Cortez Editora, 2007), obra de referncia no campo africanista. Mais Informao: Portal do Professor Maurcio Waldman: www.mw.pro.br Currculo Lattes-CNPq:- http://lattes.cnpq.br/3749636915642474Verbete Wikipedia English edition: http://en.wikipedia.org/wiki/Mauricio_WaldmanContato E-Mail: mw@mw.pro.br 3 A terminologia Bantu circunscreve uma rea geogrfica contgua e um complexo macrocultural especfico da frica Negra. Originalmente designava numeroso conjunto lingustico com razes comuns, passando depois a identificar uma moldura cultural ou civilizatria, decorrente da soldadura territorial e mltiplos contatos, mestiagens e emprstimos facilitados pela proximidade espacial e relacionamentos intertnicos. 4 Os Jaga so tambm reconhecidos por intermdio de outras grafias: Yaka, Bayaca ou ainda Giaka.

http://www.mw.pro.br/mailto:mw@mw.pro.brhttp://en.wikipedia.org/wiki/Mauricio_Waldmanhttp://lattes.cnpq.br/3749636915642474

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